Schiller e os gregos
Em A tirania da Grécia sobre a Alemanha, Butler considera Schiller como um
"antagonista" de Goethe e, em certa medida, de todo o projeto classicista
alemão baseado nas idéias de Winckelmann.1 Em certa medida, porque o autor foi
um dos principais participantes desse projeto, incorporando à sua prática
artística e à sua concepção teórica elementos característicos do Classicismo,
como o estudo da arte antiga ou o esforço de distinção e definição dos gêneros
artísticos. Para Butler, a posição de Schiller pode ser explicada por
motivações pessoais e artísticas que se baseiam sobretudo na relação com
Goethe. Os anos que antecederam a aproximação entre os dois escritores, quando
ambos se afastavam do movimento pré-romântico, são decisivos para compreender
essa explicação.
A Ifigênia em Táuris, publicada em 1787, quando o autor ainda se encontrava na
Itália, foi um marco de consolidação da fase clássica na produção de Goethe,
com a reelaboração de um tema grego (trabalhado também por Racine), em versos
iâmbicos, respeitando as três unidades. No mesmo ano, após um longo período de
preparação, publicava-se na Alemanha Dom Carlos, que marcava uma mudança
decisiva na dramaturgia de Schiller, tanto na forma quanto no conteúdo. Em
comparação com as peças anteriores, Os salteadores e Intriga e amor,
identifica-se, por um lado, a transição dos dramas pessoais, em que o indivíduo
aparece em conflito com as imposições da sociedade, para um drama político,
sobre o rei da Espanha absolutista; por outro, trata-se da primeira peça do
dramaturgo em versos iâmbicos, forma adotada também nas obras posteriores. Além
da adoção de uma métrica que caracteriza, formalmente, o esforço dos dois
autores de estabelecer o verso mais apropriado para a língua alemã, o projeto
de Dom Carlos se identifica com o de Ifigênia por deixar de lado os personagens
burgueses da fase anterior. Se as peças pré-românticas de Goethe e Schiller
eram dramas burgueses, seguindo a ruptura de Lessing com a tradicional
restrição à aristocracia, as duas peças que inauguram a fase clássica voltam a
ter personagens nobres, como no teatro clássico francês.
Segundo Butler, Schiller considerou a Ifigênia de Goethe uma obra-prima
justamente no estilo clássico que ele buscava com Dom Carlos, e um êxito muito
maior do que o de sua própria peça. Essa comparação motivou não só o surgimento
de uma certa rivalidade entre os dois escritores, consagrados no Sturm und
Drang e em transição para uma fase nova de sua produção artística, mas também o
grande interesse de Schiller pela Grécia antiga a partir de 1787. Pode ser
considerado como uma primeira indicação desse interesse o poema Os deuses da
Grécia, publicado em março de 1788, após a primeira visita do autor a Weimar.
Nesse lamento pelos deuses que desapareceram, Butler vê a retomada de várias
idéias do Classicismo alemão (de Wieland, por exemplo) e, principalmente, da
imagem da Grécia evocada na Ifigênia de Goethe. Ele imagina Schiller
maravilhado pela beleza da recriação goethiana da Antigüidade, lamentando a sua
impossibilidade de realizar algo semelhante.
Em 1788, a partir da elaboração de Os deuses gregos, o poeta se dedicou
intensivamente ao estudo da literatura antiga, decidido a não ler nenhum autor
moderno por dois anos, como ele declara em carta de 28 de agosto a seu amigo
Körner. O seu projeto consistia, a princípio, em estudar os gregos nas
traduções alemães (como a de Homero por Voss), para depois ler os textos
originais, apesar do pouco conhecimento do idioma grego. Em outra carta a
Körner, o escritor resume seus objetivos:
Espero adquirir assim mais simplicidade no plano e no estilo. Depois,
por meio de uma intimidade maior com as peças gregas, posso
finalmente ser capaz de me apropriar dos elementos que são
verdadeiros, belos e efetivos e, eliminando as imperfeições, devo
formar um certo ideal a partir deles, segundo o qual o ideal que
tenho agora será corrigido e aperfeiçoado.2
Esse projeto levou Schiller, mais tarde, a fazer uma tradução (incompleta) da
Ifigênia em Áulis, de Eurípides, e de trechos da Ifigênia em Táuris, entre
outros trabalhos. No entanto, se Schiller tinha decidido dedicar-se ao estudo
dos gregos antigos e à busca de um ideal a partir desse estudo, sua postura em
relação à Grécia, entretanto, não tem o caráter de veneração identificado em
Winckelmann ou em Goethe. Aos poucos, os comentários a respeito das peças
antigas em cartas ou ensaios deixam claro que, apesar do reconhecimento da sua
importância, trata-se de uma postura muito mais crítica do que a de outros
"helenistas". Na comparação da Ifigênia de Eurípides com a de Goethe, por
exemplo, em um ensaio crítico que ficou incompleto, o escritor defende a
superioridade da versão alemã, o que seria impensável para um classicista
tradicional. Butler reconhece, nessa comparação, a intenção de defender a
superioridade dos modernos sobre os gregos antigos, posição que caracterizará
posteriormente o desenvolvimento da teoria da tragédia de Schiller. Assim, o
projeto de estudo dos clássicos não o leva ao elogio da perfeição exemplar dos
gregos, à defesa de um modelo a ser imitado, mas à tentativa de compreender o
modo como os artistas modernos devem se aproximar do ideal expresso pela arte
antiga.
Nos ensaios escritos entre 1791 e 1796, fica evidente o "antagonismo" do autor
em relação às tendências nostálgicas do Classicismo. Depois dos anos dedicados
aos estudos de Homero e dos tragediógrafos antigos, quando começa a desenvolver
sua consideração de questões ligadas à tragédia, Schiller dá mais importância à
dramaturgia moderna do que às peças gregas. Em "Acerca da razão por que nos
entretêm assuntos trágicos" (1792), ele usa como exemplos especialmente
personagens de Shakespeare e nem sequer menciona Eurípides, cujas peças tinha
começado a traduzir alguns anos antes. Já "Sobre a arte trágica" (1792) contém
uma crítica da tragédia grega por sua "cega sujeição ao destino", considerada
"humilhante e ofensiva" para a liberdade humana, e um elogio da arte moderna,
esclarecida pela filosofia kantiana e destinada a alcançar por isso uma altura
cristalina da emoção trágica.3 Schiller fala de uma "beleza excepcional na
nossa Ifigênia alemã" e, de acordo com sua concepção da tragédia como expressão
da liberdade, argumenta em favor da superioridade das peças modernas.
A defesa da superioridade da arte moderna poderia justificar o abandono do
projeto de estudo dos antigos, iniciado em 1787 após a leitura da Ifigênia de
Goethe, e o poema Os deuses gregos. No entanto, Schiller não só continuará a
estudar os antigos e a buscar a definição de um ideal poético a partir desse
estudo como demonstra a correspondência com Goethe , mas também participará
ativamente do projeto classicista defendido, por exemplo, na revista Propileus.
Assim, a relação do autor de Dom Carlos com a Grécia e com o Classicismo tem um
caráter paradoxal, porque integra uma posição crítica, de defesa da arte
moderna, a um reconhecimento da exemplaridade e da perfeição da arte antiga.
Esse paradoxo só começa a ser esclarecido a partir da retomada da comparação
entre antigos e modernos nasCartas sobre a educação estética do homem (1795).
Na sexta carta do ensaio epistolar, o contraste entre a arte grega e a moderna
não é apresentado em favor da humanidade mais recente, como no texto "Sobre a
arte trágica". A "natureza grega", que "desposou toda a dignidade da arte e
todos os encantos da sabedoria" aparece como ideal superior, nos moldes do
Classicismo de Winckelmann, de quem o autor aproveita aliás a noção de
"simplicidade". Schiller afirma:
Não é apenas por uma simplicidade, estranha a nosso tempo, que os
gregos nos humilham; são também nossos rivais, e freqüentemente
nossos modelos, naqueles mesmos privilégios com que habitualmente nos
consolamos da inaturalidade de nossos costumes.4
Em outras palavras, os gregos são vistos como a realização máxima da cultura,
oposta nas Cartas ao domínio da natureza segundo a reflexão sobre o homem como
"cidadão de dois mundos". Identifica-se, então, uma decadência da modernidade
no que diz respeito à relação entre natureza e cultura, decadência exposta pela
comparação com a civilização grega. Enquanto o indivíduo moderno se afasta da
natureza e se torna fragmentário, governado pela arbitrariedade do Estado,
exacerbadamente cultural, frio, mecânico, destituído de uma noção de
totalidade, o grego aparece como estágio máximo da realização humana, no qual a
natureza e a cultura se encontravam em harmonia. A crítica de Schiller não se
baseia numa visão nostálgica da Antigüidade, mas visa justamente a uma reflexão
sobre o ideal de harmonia entre o mundo da natureza e o da cultura, a ser
buscado na modernidade. Nesse caso, a "educação estética" teria a possibilidade
de orientar o homem moderno na direção desse ideal de algo que, na Grécia,
existia como uma perfeição.
A décima quinta carta retoma a questão do modelo grego, no contexto de uma
reflexão sobre o "impulso lúdico", que unifica o impulso sensível e o formal, o
lado natural e o lado moral do ser humano. Schiller liga a noção de belo à
noção de liberdade por meio dessa reflexão em que o impulso lúdico, ligado à
criação artística, escapa tanto do constrangimento da natureza, quanto do
constrangimento da razão. Com base na noção kantiana de "livre jogo" entre as
faculdades do entendimento e da imaginação, o autor define a própria beleza
como plenitude da humanidade, por envolver o "jogo" em que a matéria e o
espírito aparecem unificados. Seu objeto é ao mesmo tempo forma (idéia) e vida
(natureza), por isso o conceito de "forma viva" serve para designar a
possibilidade de harmonia entre os dois "mundos", da natureza e da cultura,
separados na modernidade. Assim como o homem não é exclusivamente matéria nem
exclusivamente espírito, a consumação de sua humanidade não pode ser mera vida
nem mera forma, ela deve ser "forma viva", criada pelo impulso lúdico.
Na concepção das Cartas, o homem deve "jogar" com a beleza, porque pelo impulso
lúdico se alcança a plenitude de uma harmonia da "dupla seriedade" do dever
(lei, moral) e do destino (natureza). Na décima quinta carta, os gregos são
pensados como os mestres dessa concepção de plenitude humana como jogo, por
terem feito "desaparecer da fronte dos deuses ditosos tanto a seriedade e o
trabalho, que marcam o semblante dos mortais, quanto o prazer iníquo".5 O ócio
e a indiferença caracterizavam o divino como a existência mais sublime,
verdadeiramente livre.
Toda a figura repousa e habita em si mesma, criação inteiramente
fechada que não cede nem resiste, como se estivesse para além do
espaço; ali não há força que lute contra forças, nem ponto fraco em
que pudesse irromper a temporalidade. Irremediavelmente seduzidos por
um, mantidos à distância por outro, encontramo-nos simultaneamente no
estado de repouso e movimento máximos, surgindo aquela maravilhosa
comoção para a qual o entendimento não tem conceito e a linguagem não
tem nome.
Mas a constatação do belo ideal na escultura grega não leva Schiller à defesa
incondicional do modelo grego. Mesmo nesse elogio dos "mestres" do impulso
lúdico, há uma ressalva: eles transportaram para o Olimpo o que deveria ser
realizado na Terra. Na conclusão de sua teoria sobre o belo e a arte, Schiller
defenderá a noção de um "Estado estético", em que o impulso lúdico da criação
artística educa o homem para a liberdade, harmonizando os reinos opostos das
necessidades naturais ("reino terrível das forças") e da moralidade ("sagrado
reino das leis"). Assim, o impulso estético ergue como ideal um terceiro reino,
"de jogo e aparência", que "desprende o homem de todas as amarras das
circunstâncias, libertando-o de toda a coerção moral ou física".6 Esse terceiro
reino é, portanto, o reino da liberdade estética, que nos gregos aparecia como
algo sobre-humano, divinizado, e que os modernos buscam como ideal.
A reflexão sobre os antigos e os modernos, presente na sexta e na décima quinta
das Cartas sobre a educação estética do homem, foi retomada em Poesia ingênua e
sentimentalnão para elaborar uma teoria do belo artístico, como no ensaio
anterior, mas para definir dois modos de criação poética que caracterizam, por
um lado, o antigo e o moderno, e, por outro, a poesia de Goethe e a de
Schiller. Assim, a distinção entre ingênuo e sentimental tem tanto um aspecto
histórico quanto um aspecto estilístico e pessoal. Como afirma Peter Szondi, em
"O ingênuo é o sentimental", "o ensaio Poesia ingênua e sentimental tem assim
uma tripla origem: os trabalhos poéticos de Schiller, sua tentativa de fundar,
face a Goethe, seu próprio 'modo de criação poética', e a retomada dos
princípios kantianos".7
Com essa indicação da origem, Szondi não pretende deixar de lado a questão dos
antigos e dos modernos, uma das dimensões mais importantes do livro, mas apenas
mostrar os pontos de partida que levam o autor a refletir sobre o problema
histórico. Justamente a discussão desse problema constitui uma das questões que
orientam a análise do ensaísta, como indica o título das conferências de 1970,
que serviram de base para o seu ensaio "O ingênuo é o sentimental": "Antigos e
modernos na estética da época de Goethe". Trata-se de saber se os conceitos de
"ingênuo" e "sentimental" têm ou não um conteúdo histórico. Pela associação
desses dois conceitos aos de "clássico" e "romântico", consagrados a partir da
obra de Friedrich Schlegel como uma oposição fundamental na história da arte, a
resposta seria evidentemente afirmativa. É o próprio Goethe quem faz essa
associação, ao declarar a Eckermann, em 21 de março de 1830, décadas após o
falecimento de Schiller:
O conceito de poesia clássica e de poesia romântica, que hoje corre o
mundo e tantas discussões provoca, veio originalmente de mim e de
Schiller. Eu seguia na poesia a máxima objetividade e não queria
aceitar nenhuma outra. Mas Schiller, que via tudo subjetivamente,
considerava a sua atitude a única justa e, para se defender contra
mim, escreveu o ensaio acerca da poesia ingênua e da poesia
sentimental. Demonstrava que eu, contra a minha própria vontade,
continuava a ser romântico, e que a minha Ifigênia, por causa do
predomínio que nela tem o sentimento, não era de modo algum clássica,
ao gosto antigo, como se poderia supor. Os Schlegel se apoderaram da
idéia e a lançaram, a ponto que hoje toda a gente fala de Classicismo
e de Romantismo, quando há cinqüenta anos ninguém se lembrava de
tal.8
Além de estabelecer a associação dos conceitos schillerianos com a oposição
conceitual entre clássico e romântico, decisiva para todo o desdobramento do
movimento romântico, nessa passagem Goethe dá a sua interpretação do propósito
de seu antigo interlocutor. Segundo ele, Schiller escreveu o ensaio para se
defender contra a exigência de objetividade, em nome de sua visão subjetiva das
coisas, a fim de mostrar que mesmo no poeta "objetivo" moderno, ao abordar um
tema antigo (a Ifigênia), predominava o "sentimento". Trata-se certamente de
uma das dimensões mais importantes do ensaio, fundamental para a sua
compreensão, mas é preciso levar em conta também outras dimensões.
Szondi questiona a identificação do par conceitual "clássico-romântico" como o
par "ingênuo-sentimental", aceita por muitos intérpretes. René Wellek, por
exemplo, autor da História da crítica literária 1750-1830 citada na conferência
sobre o antigo e o moderno, considerava a segunda terminologia, de Schlegel,
uma nova formulação, modificada, da teoria schilleriana.9 Essa associação
direta é questionável exatamente porque os conceitos de Schlegel se referem a
épocas históricas, enquanto os de Schiller, mesmo que façam referência aos
antigos e aos modernos, caracterizam sobretudo modos de criação poética. O
próprio autor considerou necessário chamar a atenção para esse fato em uma nota
de Poesia ingênua e sentimental:
Talvez não seja supérfluo lembrar que, se aqui os poetas modernos são
opostos aos antigos, a diferença não deve ser entendida como
diferença de época, mas também como diferença de maneira. Também nos
tempos modernos temos poesias ingênuas em todas as classes, embora
não mais da espécie inteiramente pura, e não faltam poetas
sentimentais entre os antigos poetas latinos, e mesmo entre os poetas
gregos. Não apenas no mesmo poeta, também na mesma obra amiúde se
encontram ambos os gêneros unidos, como, por exemplo, nos Sofrimentos
de Werther, e tais produtos sempre causarão o maior efeito.10
Não é à toa que a obra citada como exemplo seja de Goethe, já que o ingênuo diz
respeito no ensaio tanto ao "antigo", para caracterizar o mundo grego, quanto a
vários autores modernos, entre os quais o autor do Werther é o ponto de
referência fundamental. Assim, a nota de Schiller pretende esclarecer uma
imprecisão terminológica que se evidencia ao longo do livro, composto pela
reunião de três artigos publicados na revista As Horas, em 1795 e 1796, "Do
ingênuo", "Os poetas sentimentais" e "Conclusão do ensaio sobre os poetas
ingênuos e sentimentais". Ao indicar essa imprecisão, Szondi chega a falar de
um "labirinto terminológico", no qual o conceito de ingênuo designa ora os
objetos e as ações que despertam o interesse do homem moderno que contempla a
natureza, ora a poesia de Goethe, ora a Antigüidade; enquanto o sentimental
define a cultura moderna, mas também está presente como modo poético entre
romanos e gregos. Szondi procura a saída desse labirinto por meio de uma
reflexão sobre a dialética conceitual do tratado schilleriano. Seu primeiro
passo é desvincular os conceitos de ingênuo e sentimental da associação direta
aos conceitos de clássico e romântico elaborados no Romantismo, embora
reconheça a influência de uma distinção sobre a outra.
A importância de Poesia ingênua e sentimental sobre a estética posterior é
apontada desde o início das conferências de Szondi como um fato amplamente
conhecido. Wellek, por exemplo, afirmava que a teoria de Schiller se tornou a
fonte de toda a crítica literária alemã posterior e que seu método foi seguido,
em forma alterada, tanto pelos irmãos Schlegel quanto por Schelling e Solger. E
dizia ainda: "Por intermédio de Coleridge, ele chegou à Inglaterra. Seu ponto
mais alto foi alcançado na obra de Hegel, que, por sua vez, influenciou muitos
críticos do final do século XIX (...)".11Thomas Mann também considerava o livro
de Schiller "o ensaio alemão, no qual toda a ensaística alemã possível estava
contida de uma vez", já que a estética alemã do século XIX girou em torno da
oposição entre espírito e natureza e da tentativa de resolver essa oposição.12
No início de Poesia ingênua e sentimental, o ingênuo é definido em três níveis:
o do objeto, o da maneira de agir e o da poesia. Assim, em primeiro lugar,
trata-se do objeto ingênuo e do interesse que ele desperta "em nós", sendo a
primeira pessoa do plural usada para caracterizar a perspectiva moderna chamada
depois de sentimental. O autor constata "uma espécie de amor e comovente
respeito à natureza", tanto no âmbito das coisas naturais, como plantas,
animais, minerais e paisagens, quanto no da natureza humana, nas crianças, nos
"costumes da gente do campo", no "mundo primitivo". Com esse último exemplo,
começa a se delinear a questão histórica que será abordada mais adiante, já que
Schiller parece igualar, no conceito de ingênuo, as paisagens naturais e os
"monumentos de tempos antigos", ou os "produtos da Antigüidade remota". A
definição do conceito de ingênuo tem como ponto de partida a constatação desse
sentimento de amor e respeito que é despertado, no homem moderno refinado e
sensível, quando ele é surpreendido pela visão da natureza simples em meio a
relações e situações artificiais. Tal interesse ocorre apenas sob duas
condições: a de que o objeto seja natureza e a de que ele seja ingênuo, isto é,
a de que "a natureza esteja em contraste com a arte e a envergonhe".13
A elaboração do conceito de ingênuo nesse primeiro momento retoma os princípios
kantianos da teoria estética anterior de Schiller. Identifica-se no homem
moderno uma cisão entre o mundo natural e o cultural ou racional, e o que se
busca é a possibilidade de restabelecer a ligação entre os dois mundos
separados. É nesse sentido que se pode entender a afirmação segundo a qual
amamos na natureza ingênua não os objetos, mas a idéia exposta por eles. Trata-
se da idéia de uma autonomia, do tranqüilo atuar por si mesmos, da unidade e da
necessidade; portanto, daquilo que o homem moderno perdeu. Sendo determinado
por todas as convenções do mundo cultural e incapaz de um gesto espontâneo,
seguindo leis morais, o homem moderno comove-se com os objetos em que vê
representadas a força pura e livre da natureza, a integridade e a infinitude.
Assim, o que define o ingênuo é uma vitória da natureza sobre a arte,
entendendo-se arte no sentido de um caráter artificial que predomina na
modernidade.
Os objetos ingênuos são natureza: "são o que nós fomos; são o que devemos vir a
ser de novo." A natureza é definida aqui como a subsistência das coisas por si
mesmas, a existência segundo leis próprias e imutáveis. Assim, o que se defende
não é a imitação artificial das formas naturais, porque o interesse em tais
objetos diz respeito ao fato de serem espontâneos, expondo uma idéia contrária
às limitações impostas pela artificialidade do mundo moral. O que esses objetos
são é o que deve ser buscado como ideal. "Fomos natureza como eles, e nossa
cultura deve nos reconduzir à natureza pelo caminho da razão e da liberdade."
Para usar uma metáfora recorrente no ensaio, eles são "expressões de nossa
infância perdida, que para sempre permanece aquilo que nos é mais precioso; por
isso, enchem-nos de uma certa melancolia".14
Para reforçar a metáfora da "infância perdida", Schiller dá como exemplo de
objeto ingênuo a criança, na qual se expõe para nós a espontaneidade e a
"determinabilidade ilimitada", diante da qual a determinação do homem adulto
aparece como uma limitação. É com esse exemplo que o autor procura esclarecer o
segundo nível do conceito de ingênuo, quando ele não diz respeito aos objetos,
mas ao modo de agir e de pensar. Neste segundo momento, o autor define como
ingênua a ação de uma criança que, ao ouvir a explicação de que a pobreza é a
causa do estado precário de um homem, pega a bolsa do pai e a entrega ao pobre.
Essa ação estaria perfeitamente certa caso a natureza saudável predominasse no
mundo social, caso a questão da pobreza pudesse ser remediada de maneira
imediata, mas a desigualdade social não deriva de condições naturais. No mundo
social, a ação é "vergonhosa", porque demonstra uma falta de conhecimento das
regras estabelecidas, no entanto, seu caráter espontâneo, ou seja, sua
ingenuidade pode despertar no pai uma satisfação respeitosa em que se expõe a
idéia de um mundo natural harmonioso. Schiller dá ainda outros exemplos a esse
respeito, a fim de analisar ações e atitudes ingênuas, mas o exemplo e a
metáfora da criança são os mais usados no início do ensaio, porque "nossa
infância é a única natureza intacta que ainda encontramos na humanidade
cultivada".15
Em um terceiro momento, o ensaio sobre o ingênuo volta-se para a questão da
poesia, retomando à noção kantiana de gênio como alguém que não segue as regras
da arte e, orientado pela natureza ou pelo instinto, seguindo inspirações e
sentimentos, cria novas regras. E é na reflexão sobre o ingênuo na poesia que
se evidencia, nessa primeira parte do livro, a questão dos antigos e dos
modernos. Por trás dela se pode identificar uma retomada, em novo contexto, da
defesa da arte moderna e da discussão sobre o modelo clássico, temas que
definem a relação do autor com o Classicismo.
Também é na discussão sobre os gregos e os modernos que começa a ser definido,
de maneira mais direta, o conceito de sentimental. Os poetas são pensados por
Schiller como guardiões da natureza, de modo que, quando a sua relação imediata
com a natureza é abalada, quando experimentam a influência de uma cultura
artificial, precisam recuperar essa relação. Em outras palavras, ou os poetas
são natureza (caso do gênio ingênuo, que cria movido por um dom natural, sem
refletir), ou buscam a natureza perdida. "Daí nascem duas maneiras de criar
completamente distintas, mediante as quais se esgota e mede todo o domínio da
poesia". Assim, o sentimental define-se em oposição ao ingênuo, sem remeter
apenas à distinção de épocas, mas também à distinção de modos que podem
coexistir na mesma época e que terão seu sentido analisado especialmente na
situação histórica do próprio Schiller. Em suas palavras: "Todos os que
realmente são poetas pertencerão ou aos ingênuos ou aos sentimentais, conforme
seja constituída a época em que florescem ou conforme condições acidentais
exerçam influência sobre a formação geral ou sobre a disposição momentânea de
suas mentes".
Para Schiller, os poetas ingênuos já não estão em seu lugar numa época
artificial do mundo, como a moderna, por isso é a poesia sentimental que se
impõe na modernidade a quem pretende realizar a tarefa de "guardião da
natureza". Em outras palavras, mesmo na época do homem artificial, inserido na
cultura que não tem mais naturalidade, é a natureza que alimenta o espírito
poético, exigindo uma busca da harmonia perdida. Por isso, para que haja
poesia, é preciso que a unidade e a relação de harmonia com a natureza
identificada no modelo do passado humano apareçam como um ideal. Essa
constatação de que o momento histórico se caracteriza pela artificialidade está
na base tanto da comparação entre antigos e modernos, quanto da reflexão de
Schiller sobre os modos poéticos existentes em sua época.
Os dois conceitos são definidos na primeira parte do ensaio um em função do
outro, o que deixa clara a sua interdependência. O ingênuo só se revela como
ingênuo aos olhos do homem moderno, isto é, sob a ótica do sentimental, que,
justamente por sua condição artificial, se interessa pela natureza e ama a
idéia exposta por objetos e ações naturais. Assim, o sentimental busca, por sua
vez, exatamente o que o ingênuo é (natureza), assumindo como ideal aquilo que
constitui no outro uma situação de fato. No resumo de sua argumentação, feita
no que era originalmente o início do segundo artigo publicado em As Horas,
Schiller afirma: "A natureza também agora é a única chama de que se alimenta o
espírito poético; somente dela extrai todo o seu poder e somente para ela fala,
mesmo no homem artificial inserido na cultura".16 Assim, se ingênuo e
sentimental definem as épocas antiga e moderna, o fazem como modos
característicos de se relacionar com a natureza.
Identifica-se um modo natural, ou seja, espontâneo, harmonioso, no qual o
indivíduo age moralmente de acordo com suas inclinações, e um modo artificial,
fragmentado, no qual as inclinações se encontram em conflito com as leis
morais. O primeiro modo caracteriza a "bela natureza" dos gregos, esse povo que
"podia viver com a natureza livre sob seu céu feliz". Schiller observa como
estavam próximos "da natureza simples seu modo de representar, sua maneira de
sentir, seus costumes, e que reprodução fiel dela são suas obras poéticas".17
Já a relação artificial com a natureza diz respeito aos modernos, mencionados
em primeira pessoa do plural: "(...) cindidos de nós mesmos e infelizes em
nossa experiência de humanidade". Por isso, aos olhos do homem moderno, o modo
de ser natural dos gregos é ingênuo, ou seja, ele representa uma vitória da
natureza sobre a cultura, despertando, assim, um amor carregado de nostalgia.
Trata-se do mesmo processo exemplificado pela infância em relação ao homem
adulto.
Schiller não pretende defender a superioridade dos antigos, mas procura
entender a questão da sua exemplaridade no contexto de uma justificativa da
poesia moderna. Para ele, o interesse pela perfeição da Antigüidade pode muito
bem levar a um elogio de sua arte em detrimento da arte moderna. "Por isso, ou
não se deveria de modo algum comparar poetas antigos e modernos ingênuos e
sentimentais , ou só se deveria compará-los sob um conceito mais alto comum a
ambos", o conceito de poesia.18 Nesse caso, o resultado da reflexão sobre
antigos e modernos segundo os termos ingênuo e sentimental possibilita um
questionamento do modelo antigo, sem levar a seu abandono. A cultura moderna
não deve ser vista como inferior à antiga, mesmo que a tenha como modelo de
perfeição e de harmonia, justamente porque restabelecer o padrão antigo, a
forma antiga, não é o que ela busca.
Essa reflexão sobre o modelo grego remete, segundo a indicação de Szondi, à
relação com a natureza e, com isso, à questão da imitação. Neste sentido, o
ensaio Poesia ingênua e sentimental pode ser entendido como a justificativa
teórica da posição de Schiller a respeito do Classicismo. Basicamente, essa
posição se fundamenta em uma crítica da noção de uma volta ao passado, tanto no
caso de um retorno à natureza nos moldes de Rousseau, quanto no de um retorno
ao modelo grego nos moldes do Neoclassicismo, baseado em Winckelmann. O estado
natural, com o qual se identifica a harmonia dos gregos com a natureza, ficou
para trás e não pode ser restabelecido. Querer voltar a ele seria um desejo
semelhante ao do adulto querendo voltar a ser criança. Na descrição do "amigo
sentimental" que contempla a "tranqüila felicidade da natureza", Schiller chama
a atenção para o fato de que as queixas contra a cultura se dirigem às suas
falhas, mas devem levar em conta as conquistas culturais para a liberdade
humana. Na natureza, o homem não é livre, ele está submetido às necessidades
naturais, limitado por suas imposições. Por isso, o autor afirma: "Aquela
natureza que invejas no irracional não é digna de nenhum respeito nem de
nenhuma nostalgia. Ela permanece atrás de ti, tem de permanecer sempre atrás de
ti". A perda da felicidade na natureza é uma condição para a liberdade na
cultura.
Para Szondi, é como se Schiller quisesse "dar um fim às queixas e devaneios do
promeneur solitaire [de Rousseau] e lhe pusesse nas mãos, em lugar do lenço
molhado de lágrimas, um exemplar da Crítica da Razão prática".19 É com base na
filosofia de Kant que Schiller defende a cultura moderna, apesar de todas as
suas falhas, em nome da razão e da liberdade. Mas tanto a infância quanto a
Antigüidade despertam um interesse, um sentimento de respeito mesclado com
nostalgia, porque têm aos olhos do adulto ou do homem moderno um caráter
ingênuo, no qual se encontra representado o que a humanidade perdeu ao se
afastar da natureza. Por isso, o autor recomenda ainda: "Mas se estás consolado
da perda da felicidade da natureza, deixa que a perfeição desta sirva de modelo
para o seu coração".20 É assim que ele introduz a sua consideração sobre os
gregos, pensados como modelos de perfeição (ingênua) que devem acender "a chama
do ideal".
A poesia ingênua e antiga é designada como um favor da natureza, para ressaltar
tanto a ausência da reflexão, quanto o seu caráter fortuito, encerrado nos
limites da sensibilidade. É por sua própria natureza que o gênio ingênuo dá
plena expressão à humanidade, de modo que ele está sujeito à necessidade
natural e depende inteiramente da experiência. Sem um mundo rico em formas, sem
um mundo poético de harmonia com a natureza, a tarefa do poeta ingênuo torna-se
impossível. Já a poesia sentimental tem, como seu auxílio, "a liberdade
incondicionada da razão", de modo que não depende da experiência para criar,
mas da reflexão contemplativa que se volta para fora e, assim, busca a
natureza. Irremediavelmente separado da natureza, o poeta sentimental tem de
completar o seu objeto, dar a ele a plenitude que lhe falta, por isso,
transporta-se "de um estado limitado a um estado de liberdade". Sua tarefa,
assim como a do poeta ingênuo, é expressar a plenitude da natureza humana. Mas,
no mundo moderno cultural e artificial, não faz sentido a noção de retorno à
natureza, já que a própria intenção tem uma base artificial. Em vez de buscar o
restabelecimento do ingênuo, o que o homem moderno deve buscar é o ideal de uma
harmonia que o ingênuo representa. Assim, em Poesia ingênua e sentimental, não
é o passado que constitui o ideal, mas o futuro.
No entanto, Schiller também não critica o ingênuo em favor do sentimental, ou o
antigo em favor do moderno. Os poetas antigos e modernos só podem ser
comparados segundo um conceito mais alto, comum a ambos: o próprio conceito de
poesia, como gênero a que tanto o ingênuo quanto o sentimental pertencem. O que
o ensaio defende é a existência de uma vantagem em cada modalidade, como
argumenta o resumo que originalmente introduzia o terceiro artigo publicado em
As Horas, no qual se conclui a reflexão elaborada nos dois primeiros. "Ao poeta
ingênuo, a natureza concedeu o favor de sempre atuar como uma unidade indivisa,
de ser a cada momento um todo autônomo e acabado, e de expor a humanidade na
realidade segundo seu conceito inteiro". Assim, o primeiro modo de criação
poética define-se por um favor da natureza, um dom natural de harmonia entre o
lado sensível e o racional. Comparativamente, o poeta sentimental é dotado de
um "vivo impulso para restabelecer por si mesmo aquela unidade nele suprimida
por abstração, a fim de tornar a humanidade completa em si mesmo, passando de
um estado limitado a um infinito".21
Segundo Schiller, a tarefa da poesia, comum ao poeta ingênuo e ao sentimental,
é a de dar expressão plena à natureza humana. Nesse caso, há uma vantagem do
poeta ingênuo por apresentar como real, com perfeição, essa natureza que o
poeta sentimental apenas se empenha em alcançar como ideal. Entretanto, "toda
realidade permanece aquém do ideal", porque tudo o que existe tem seus limites,
mas o pensamento é ilimitado, de modo que o poeta sentimental tem a grande
vantagem de ter uma "tarefa infinita". Assim, a caracterização das duas
espécies poéticas é pensada com base na noção de "limitação" e "infinito",
ligada à identificação de duas vias para realizar a tarefa de "dar à humanidade
a sua expressão mais completa possível". Pela via da unidade e da harmonia com
a natureza, "o que tem de construir o poeta é a imitação mais completa possível
do real"; pela via de uma busca da idéia de harmonia, "o que tem de construir o
poeta é a elevação da realidade ao ideal".22 Em termos comparativos, a primeira
via caracteriza os antigos, e a segunda, os modernos. Quanto à realização da
tarefa, a vantagem é da poesia antiga, ingênua, que chega ao ponto de perfeição
na imitação do real. Quanto à meta a ser atingida, a vantagem é da poesia
moderna, sentimental, que busca o ideal infinito de uma harmonia com a natureza
a partir da cultura, a partir da liberdade.
Do mesmo modo que o poeta sentimental busca o ideal de harmonia com a natureza
identificado no ingênuo, porque a sua tarefa é a de ser um "guardião da
natureza", o poeta ingênuo se torna sentimental para continuar a ser poeta,
alcançando pela reflexão aquilo de que a época o privou. Nesse caso, o ensaio
indica uma meta em comum, a partir de caminhos opostos, ligada ao conceito do
gênero (poesia) no qual os dois conceitos discutidos se incluem.
Segundo Goethe, o ensaio de Schiller foi escrito para se defender, para
justificar sua posição especulativa e subjetiva diante da exigência de
objetividade, do caráter intuitivo genial de seu interlocutor. A possibilidade
da poesia ingênua em uma época sentimental pode ser considerada como uma
justificativa do Classicismo, no contexto de um questionamento de seu modelo.
Ao mesmo tempo, Schiller condena a noção de volta ao passado e pensa os antigos
como modelos de uma perfeição que deve ser buscada como ideal. Não se deve
voltar a eles, mas buscar o que eles tinham intuitivamente, naturalmente, pela
via da reflexão e da cultura, tarefa que só pode ser realizada no âmbito da
poesia. Neste sentido histórico, a reflexão sobre antigos e modernos em Poesia
ingênua e sentimental encontra um equilíbrio entre a noção de um modelo dos
antigos e a defesa da poesia moderna.