Ética, ciência e tecnologia
Nossas considerações sobre a relação entre a ética, a ciência e a tecnologia
têm por pano de fundo a preocupação de humanizar a técnica, depois que ela
ganhou autonomia no curso da modernidade e em atenção ao fato de que nos dias
de hoje, com a biotecnologia e as manipulações genéticas, ela aparece com o
poder de transformar o homem, gerando o homem geneticamente modificado, não se
sabe exatamente se para o bem ou se para o mal.
Para tanto, ao situar o problema, examinaremos as opiniões de alguns filósofos
ilustres sobre o assunto, opiniões que marcaram a fundo as culturas moderna e
contemporânea, porém que divergiam entre si em mais de um aspecto em sua
apreciação da técnica e da própria ciência a que está vinculada. Em seguida,
vamos dar uma idéia dessas opiniões, para no fim colocar a questão ética,
quando avaliaremos se é possível revincular a ética, a ciência e a tecnologia,
depois da grande cisão ocorrida no início dos tempos modernos. Colocada a
questão ética, poderemos perguntar, ao concluir as reflexões, pelas bases e
condições do surgimento em futuro próximo de um novo humanismo. As bases serão
buscadas numa nova rearticulação entre ciência, tecnologia e humanidades, e
darão ensejo à formação de um novo homem, definido não mais como instrumento e
objeto das tecno-ciências, mas como sujeito e fundamento de todo o processo.
Dito isso, passemos ao primeiro ponto: as opiniões de alguns filósofos sobre as
tecno-ciências e suas apreciações sobre a realidade e o poder que elas
instauraram ao longo da modernidade.
No início da era moderna, séculos XVI-XVII, Descartes e Bacon formularam aquilo
que será o grande lema da técnica nos novos tempos e que até hoje ainda
conserva sua atualidade, a saber: nas palavras de Descartes, a idéia de que
pela ciência e pela técnica o homem se converterá em senhor e possuidor da
natureza (algo parecido vamos encontrar em Bacon, autor de uma fórmula não
menos famosa, segundo a qual saber é poder).
Essa visão da ciência e da técnica como instrumento ou meio de poder foi
adotada no curso do século XVIII pelos iluministas, que associaram tal visão à
idéia de progresso, ao papel libertador do conhecimento (livrar os homens das
trevas da ignorância e da superstição) e ao projeto de reforma da humanidade,
tencionando a geração do novo homem: autônomo, racional e livre.1
Na esteira dos iluministas e dos próprios Bacon e Descartes, por volta da
segunda metade do século XIX, veio Karl Marx que, mantendo a idéia da ciência e
da técnica como ferramenta ou instrumento, descobre uma novidade e mesmo uma
perversidade no seu emprego no mundo moderno: ao se integrarem às forças
produtivas da economia (mais precisamente da economia capitalista, em que se
colocam a serviço do capital e do aumento da riqueza), em vez de permitirem a
dominação da natureza e aumentarem a liberdade do homem, a ciência e a técnica
convertem-se em instrumento de dominação do homem pelo homem e instalam a maior
das tiranias, que é o jugo do capital, ao qual está submetida a própria
burguesia.
Mais tarde, já no século XX, após a Segunda Guerra e bem mais próximo de nós,
apareceu o filósofo alemão Theodor Adorno, integrante da Escola de Frankfurt,
herdeiro de Marx (trata-se de um neo-marxista), preocupado com o destino da
técnica moderna, depois do desastre do nazismo, e na qual enxerga algo de
ambíguo. E o que transparece numa conferência posteriormente publicada como
artigo, ao qual deu o título "Educação após Auschwitz",2 no qual o
frankfurtiano, com medo de que Auschwitz se repita, e em atitude portanto de
preocupação e resistência, destaca um novo aspecto da ciência e da técnica que
depois dele, Adorno, e dos seus colegas da Escola de Frankfurt tornou-se
moeda corrente. Esse aspecto novo está relacionado não tanto com o emprego da
ciência e da técnica como instrumento de produção ou como força produtiva
simplesmente, que Marx já tinha abordado, mas pode-se dizer, ao aproximar a
técnica do tema marxiano do fetichismo da mercadoria com seu uso como valor
cultural e sua função de ideologia ou arma ideológica, e, como tal, uma vez
mais, como instrumento de dominação do homem pelo homem (Adorno fala do amor
objetal do homem pelos artefatos tecnológicos, atestado na expressão inglesa "I
like nice equipament" = "Eu gosto de equipamentos, de instrumentos bonitos",
"independentemente", segundo ele, "dos equipamentos em questão"3). É nesse
contexto que o filósofo vincula a ciência e a técnica à problemática luckasiana
da consciência reificada, fala do enfeitiçamento da técnica, enfatiza o caráter
manipulatório das relações geradas por ela (manipulação da natureza e do homem)
e mostra o tipo de homem requisitado pela civilização tecnológica: o indivíduo
tecnologizado(Adorno fala de "pessoas tecnológicas"), cuja energia psíquica e
modo de agir estão em perfeita sintonia com o poder tecnológico gerado pela
ciência. É nesse contexto, depois de Adorno e antes de abandonar o marxismo,
que Habermas falará em seu livro famoso sobre a ciência e a técnica como
ideologia, porém sem acrescentar maiores novidades às considerações de Adorno.
Nesse quadro cambaleante, desenhado no curso de um processo longo e sinuoso em
que partimos do olhar otimista de Bacon, de Descartes e dos iluministas,
passando pelo olhar crítico, porém ambivalente, de Marx, até chegarmos ao olhar
pessimista de Adorno, constatamos no entanto um ponto em comum entre eles, o
qual gostaríamos de ressaltar. O ponto é que todos eles, em maior ou menor
grau, seja para combater, seja para endossar ou apoiar, falam da ciência e da
técnica a partir de um mesmo lugar ou ponto de vista e com base no mesmo
parâmetro: o lugar é o homem e o ponto de vista, o homem; o parâmetro é a
ciência e a técnica como instrumento e meio de poder, e, como tal, vinculada ao
homem e a suas ações, seja para libertá-lo e oferecer-lhe um nova morada, seja
para manipulá-lo e sujeitá-lo. Tal lugar do homem e tal parâmetro de
instrumento estão claramente presentes até mesmo em Adorno que, apesar de seu
viés hipercrítico e de falar o tempo todo de enfeitiçamento e de manipulação,
pressupõe entretanto que a ciência e a técnica estão a serviço de uma parcela
da humanidade, que há um feiticeiro que produz e controla o feitiço (o homem) e
que a ciência e a técnica são um objeto ou instrumento à disposição dos homens.
Para nos convencermos disso, basta atentarmos para uma passagem de "Educação
após Auschwitz", em que Adorno constata a existência de algo "exagerado,
irracional, patogênico" no atual relacionamento do homem com a técnica e
sublinha que isso está relacionado com o "véu tecnológico", que é como
dizíamos - um véu ideológico que a cobre por inteiro: "Os homens escreve o
filósofo inclinam-se a considerar a técnica como sendo algo em si mesma, um
fim em si mesmo, uma força própria, esquecendo que ela é a extensão do braço do
homem. Os meios e a técnica é um conceito de meios dirigidos à
autoconservação da espécie humana encontram-se encobertos e desconectados da
consciência das pessoas", e isso porque, como assinala Giacóia, "os fins uma
vida humana digna são ocultados e subtraídos à consciência dos homens".4
Destarte, pensadas como instrumento e colocadas na extensão da mão, da mão dos
homens, a ciência e a técnica vão gerar a imagem de algo domesticável, imagem a
que se associa a idéia de conforto, da parte do usuário que a emprega,
permitindo-lhe imaginar que poderá controlar e acabar com o jogo, se assim o
desejar e se o feitiço ameaçar voltar-se contra o feiticeiro.
Ora, é justamente essa idéia confortável da técnica como objeto ou instrumento
à mão dos seres humanos que será profundamente questionada por Heidegger.5 Tal
questionamento ocorreu quando ele, depois de flertar por uns tempos com o
nazismo e com o ideal do novo homem patrocinado pelos nazistas (O Operário, de
Jünger), em seguida ao desastre da experiência nacional-socialista,
aprofundando seu pensamento, é levado a alterar os termos em que o problema era
tradicionalmente colocado e propõe um outro ponto de vista capaz de virar ao
avesso a perspectiva de Descartes, Marx e Adorno.
Sabe-se que Heidegger é um pensador difícil, hermético e em constante cuidado e
disputa com as palavras, sem no entanto dizer tudo e facilitar a vida do
leitor. No caso da técnica, seu raciocínio, de conseqüências aterradoras, porém
nunca de todo revelado, foi mais ou menos o seguinte: e se a técnica, em vez de
instrumento e objeto à disposição dos homens, fosse sujeito e sujeitasse os
indivíduos humanos aos seus desígnios, ao ganhar autonomia e funcionar como um
verdadeiro demiurgo, produzindo um novo mundo e fabricando o próprio homem?
É nesse contexto, com o intuito de ressaltar a ação constituidora da técnica e
sua capacidade de produzir coisas, que Heidegger invoca o conceito de armação
(Gestell, em alemão). Tendo-o em mente, mostra que a tecnologia não é um
instrumento ou um meio, mas um elemento co-ligador e uma espécie de armadura
que molda e instaura o homem à sua medida e conforme sua necessidade (o técnico
ou o indivíduo tecnológico), e ao mesmo tempo instala a realidade como
instrumento (de acumulação) e como estoque (para consumo). O resultado é a
chamada técnica planetária, que em sua ação desenfreada na modernidade levou à
devastação da terra, e, em vez da promoção do super-homem de Nietzsche ou da
realização do ideal prometeico do Operário imaginado por Jünger à época do
nazismo, levou ao triunfo do tecno-burocrata capaz de extrair, com seus
cálculos e dispositivos, o máximo de rentabilidade de cada setor da imensa
cadeia de produção tecnológica. Nesse quadro, em que Heidegger introduz uma
verdadeira pirueta na reflexão tradicional, a técnica não pode mais ser vista
como um desdobramento potencializado das mãos do homem, nem mesmo como um
instrumento a serviço ou à disposição dos indivíduos, mas como algo diferente,
como uma potência ou um poder autônomo, para a qual o homem não passa de um
meio ou de um instrumento, e na qual ele está capturado como objeto ou matéria-
prima ao se instalar na rede de produção tecnológica do real.6
Num texto profético, publicado em 1954, no qual anuncia a engenharia genética
de nossos dias e intitulado Superação da metafísica, Heidegger pinta com cores
fortes o quadro que se desenha quando a técnica planetária, depois de submeter
a natureza externa, parte para sujeitar a natureza interna e produzir o homem:
"Uma vez que o homem é a mais importante matéria-prima, pode-se contar que, com
base nas pesquisas químicas atuais, serão instaladas algum dia fábricas para a
produção artificial de material humano. As pesquisas do químico Kuhn,
distinguido nesse ano com o prêmio Goethe da cidade de Frankfurt, já abrem a
possibilidade de dirigir a produção de seres vivos machos e fêmeas
planificadamente de acordo com as necessidades".7
Desde então, a perspetiva que se abre é bem mais grave do que o enfeitiçamento
da técnica de que falava Adorno, enfeitiçamento que era ideológico e ficava no
plano das idéias: trata-se, antes, de um poder real de produzir as coisas e o
próprio homem, ante o qual a humanidade termina por sucumbir, impotente, ao ser
levada à rendição incondicional ao seu império e ao se submeter aos seus fins e
desígnios. Conclusão: com a autonomização da ciência e da técnica, gerando o
reinado das tecno-ciências, a técnica não poderia ser dominada pelos homens;
então, o feitiço volta-se contra o feiticeiro e o diabo de anjo decaído,
poderoso mas sem o poder de instaurar seu reino em nosso mundo se mostrará (o
acréscimo é nosso) como o grande vencedor e instalará seu reino na terra
devastada e em meio a indivíduos humanos dóceis e domesticados.
Pergunta-se, então, como pensar a humanização da técnica e a possibilidade de
devolver o poder da técnica e do diabo aos homens, num quadro, como o de hoje,
que, depois de Heidegger, só piorou as coisas. Especialmente quando com a
engenharia genética as tecno-ciências, mais do que clones ou réplicas, serão
capazes de produzir super-indivíduos mutantes e poderosos, segundo as
necessidades da técnica planetária, bem como terão os meios para produzir robôs
inteligentes mais poderosos do que os próprios homens, porém ainda assim
instalados na imensa cadeia de produção tecnológica. Estamos perguntando isso
porque acreditamos que a escolha não é entre a rendição total ao império da
técnica, ao agrado dos tecnoburocratas, ou a saída de Heidegger e de agrado dos
filósofos Heidegger que, ante à rendição do técnico e do homem comum (o
consumidor), rendição que ele rejeita e na qual vê por trás a errância do homem
e a ação do nihilismo, opõe à mesma a serena meditação do filósofo e propõe sua
fuga da cidade para o campo, e lá bem cuidar das coisas, numa relação direta
com a natureza, como a dele próprio ao refugiar-se em sua cabana na Floresta
Negra. Todavia, passado tanto tempo depois que Heidegger morreu, as pessoas não
estão querendo mais pensar e simplesmente não há mais mato ou natureza onde se
refugiar. Então, o que fazer, hoje, se queremos humanizar a técnica?
Ante tal quadro e diante de tal pergunta, há quem pense que a saída e a
resposta estariam na arte, a qual com sua sensibilidade e seu desprendimento
bem poderia humanizar a ciência e a técnica, colocando-as a serviço do homem e
permitindo a gestação de um novo humanismo. A saída pela arte, aliás, tem toda
a simpatia de Heidegger, em especial a literatura, e mais particularmente a
poesia (a lembrar que Heidegger buscou socorro em sua tentativa de achar uma
solução para os males de nosso tempo nos poemas de Hölderlin, a partir dos
quais formulou a doutrina da quadradura e pensou a re-ligação do homem com as
coisas, os deuses, os semelhantes e consigo mesmo). A dificuldade é que a arte
no curso do século XX tornou-se ela própria nihilista e estranha ao homem, como
nos mostram em literatura Kafka, Camus, Musil e outros. Pergunta-se, então,
como as artes poderiam ajudar e, mais ainda, triunfar lá onde, antes, a
filosofia, as humanidades e as ciências falharam e simplesmente perderam?
Tendo chegado a esse ponto, quando descobrimos que a saída não é e não será
fácil, é hora de perguntar o que foi que aconteceu, quando as tecno-ciências
com seu poder avassalador deixaram de ser um instrumento e um meio de poder a
serviço dos homens e se converteram em sujeito e potência autônoma, abocanhando
o homem e convertendo-o em objeto e instrumento para seus fins.
Dir-se-á, no tocante à história da tecnologia, que três são seus tempos fortes
em seu transcurso na era moderna, tendo por protótipos 1° a máquina vapor, 2° o
motor a explosão, 3° o transistor. Ora, tanto a máquina a vapor quanto o motor
a explosão podem ser vistos como meios ou dispositivos a serviço do homem, que
com eles mantém uma relação instrumental. A virada ocorre com o terceiro
momento, impulsionado pelo transistor, que mais tarde dá lugar ao chip e que
está na origem da indústria eletro-eletrônica e da gigantesca rede de
telecomunicações, permitindo o surgimento da informática, da engenharia
genética e de outros segmentos da biotecnologia. Foi então que a tecnologia,
até então reservada às coisas materiais, revela-se com o poder de se estender
ao próprio homem e tomá-lo como objeto de seus processos.
Alargando a perspectiva e reajustando o foco da análise, diremos que na raiz
desse estado de coisas está uma dupla cisão ocorrida no início dos tempos
modernos e aprofundada ao longo dos três séculos que se lhe seguiram, atingindo
o ápice no curso do século XX, até chegar ao século XXI. Por um lado, a cisão
entre a ética e a ciência, fundada na separação entre o juízo de fato e o juízo
de valor, cuja formulação vamos encontrar em Hume e cujo desdobramento nos leva
ao dualismo de Kant, fazendo com que se desse à ciência um cheque em branco e
impedindo que seus produtos e resultados fossem moralizados, à diferença dos
tempos antigos e medievais. Por outro lado, a cisão entre a ciência e a
tecnologia, em razão de a tecnologia ter ganhado autonomia, revelando-se com o
poder de selar o próprio destino da ciência, uma vez que no curso do processo a
ciência se viu cada vez mais dependente do conjunto de tecnologias que ela
mesma gerou. Essa dupla cisão ocorreu e é uma verdade factual bem estabelecida,
com efeito; porém, ela nos dá a idéia parcial do problema ou a metade do quadro
em que a ciência e a tecnologia estão inseridas. Isso porque, juntamente com
essa dupla cisão, ocorreu nos tempos modernos um profundo redirecionamento da
ciência e da técnica, quando elas caíram no mercado e se submeteram aos
imperativos do business e aos interesses de grupos poderosos. Foi então que as
forças cegas do mercado, os ditames da política e as coações da razão de Estado
(de fins bélicos inclusive) se interpuseram e se impuseram sobre os fins e os
ideais das tecno-ciências. Foi então que houve o sacrifício da curiosidade
intelectual e da liberdade de pensar do cientista e desfez-se a impressão de
autonomia do tecnólogo ou do tecno-burocrata, de que falava Heidegger, uma vez
que sua capacidade de engenhar e seu poder de fazer as coisas de fato não
pertencem a ele, ao tecnólogo, mas ao capital e aos seus múltiplos agentes. O
resultado é uma terceira cisão: a cisão da ciência e da tecnologia face à
sociedade como um todo, ao se verem sujeitadas a grupos de interesses e
privatizadas pelas forças do mercado, quando as ciências, que tinham gerado a
tecnologia, que é apropriada pelo mercado, se mostram juntamente com a
tecnologia completamente impotentes, sem a menor possibilidade de reverter esse
estado de coisas.8
Daí o paradoxo de uma ciência e de uma tecnologia com seu potencial
extraordinário de redenção da humanidade, por conta de suas inúmeras revoluções
(a revolução industrial, que aumentou numa escala inacreditável a capacidade de
produção da humanidade; a revolução da informática e das telecomunicações, que
modificaram profundamente os serviços, aceleraram a circulação das informações
e puseram em contato os quatro cantos do planeta; a revolução verde, com a
capacidade virtual de eliminar a fome e a miséria da face da terra), e ao mesmo
tempo a limitação desse potencial em igual escala. A limitação surgiu quando,
juntamente com o ideal do progresso técnico patrocinado pela economia
capitalista, barreiras econômicas, sociais e políticas de toda sorte entraram
em cena e impediram a difusão de suas potências libertadoras, disseminando a
fome e a miséria, expondo povos inteiros às botas do invasor e criando novos e
imensos apartheids de um canto a outro do planeta. Daí o sentimento de
impotência e a indagação acerca do que pode ser feito, se é que alguma coisa
pode ser feita nesse estado sombrio de coisas.
Tentando achar uma saída para essa situação, diremos que a solução passa pelas
três cisões antes comentadas, por estarem na origem do problema e por exigirem
uma resposta para o mesmo, sob pena de darmos razão a Nietzsche e sermos
forçados a dizer, um dia, que de fato o homem é um animal que não deu certo.
A começar pela revinculação entre a ética e a ciência (e por extensão a
tecnologia): ao propormos a revinculação, em verdade não queremos dizer que não
haja nenhuma ética a vincular-se com a ciência; muito antes pelo contrário, há
uma ética, sim, vem a ser a ética do pragmatismo e da lei de Gérson, fundada em
valores instrumentais e ideais pragmáticos, que leva à sanção do ganho e do
êxito, assim como à vitória do egoísmo e dos baixos instintos, como diziam
Santo Agostinho e o geógrafo Milton Santos. Tal é, pois, a ética vencedora nos
tempos modernos, a ética pragmatista, resultante a fusão do utilitarismo e do
hedonismo, e gerada num tempo que, depois de clivar o juízo de fato e o juízo
de valor, conduziu, ao reaproximá-los, tanto à santificação dos fatos pura e
simplesmente, quanto à divinização dos meios e processos que os originou,
ligados de uma maneira ou de outra à ação: sobre coisas e sobre pessoas donde
o termo pragmata. Contra essa ética, deve-se perguntar qual outra deve ser
gerada para substituí-la, possibilitando uma nova vinculação da moral com a
ciência.
Diremos que tal ética não poderá ser a ética aristocrática dos melhores, como a
ética da aristrocracia guerreira (no caso do cientista-guerreiro), por ela
implicar que seu protagonista está de alguma forma acima do bem e do mal,
conduzindo ao culto do vencedor, que será divinizado como um herói ou um semi-
deus, qual um Pasteur ou um Newton: o problema é que o Ocidente perdeu a
virilidade, e a ciência, hoje, é um negócio coletivo, não coisa do indivíduo.
Não poderá ser também a ética do dever ou dos fins absolutos, de que nos falava
Max Weber, ao aludir à moral do santo, a qual não pode ser aplicada a coisas
desse mundo, para não dizer que, mesmo que o pudesse, as boas intenções e os
fins absolutos do indivíduo por si sós não garantiriam nada: simplesmente, na
esfera da coletividade, que é hoje a esfera da ciência, a qual há muito deixou
de ser um negócio exclusivo do cientista no fundo de seu quintal, os fins e os
resultados das atividades extrapolam as intenções da boa alma e as próprias
ações dos indivíduos, por mais santos que eles sejam, e não podem, portanto,
ser o parâmetro (é o que nos sugere o conhecido adágio segundo o qual "o
inferno está cheio de bem-intencionados", assim como o próprio Max Weber ao
falar do paradoxo das conseqüências, mostrando que os resultados das ações se
descolam das intenções dos agentes, de sorte que a reta intenção não tem o
poder de santificar os atos dos indivíduos, menos ainda seus efeitos ou
resultados).
Se não é nem uma nem outra, tal ética bem que poderia ser a ética prudencial ou
a ética do phrónimos, de que falava Aristóteles, ao se referir ao varão
virtuoso, e que mais próximo de nós é retomada por Max Weber e Hans Jonas,
ambos propondo a ética da responsabilidade e tendo por protótipo
acrescentamos nós o sábio, e não exatamente o cientista.9 Com efeito, tal
poderá ser a ética que procuramos, num tempo em que o sábio desapareceu, em
razão da fragmentação do saber e do próprio desengajamento moral do cientista.
A condição é não esquecermos que o indivíduo, por mais prudente e responsável
que seja, calculando seus atos e sopesando os resultados de suas ações, jamais
poderá pela simples consideração das conseqüências de seus atos santificar
suas ações e tornar éticos seus resultados. Isso, mais uma vez, pela simples
razão de que a ciência é uma empresa coletiva, e as ações coletivas deverão ser
contextualizadas e sopesadas, acarretando o risco, de tanto levar em conta o
contexto, as exceções e os casos, de a moral desaparecer e a ética se converter
numa casuística. Daí a necessidade de a moral da responsabilidade ou a moral do
phrónimos ser redefinida, passando a ser da alçada não do indivíduo, como
acreditava Weber, mas da coletividade, enquanto assunto e responsabilidade de
uma inteligência coletiva, que não é senão o corpo dos cientistas trabalhando e
decidindo coletivamente.
Quanto à revinculação entre ciência e tecnologia, ela exigirá que o cientista
ponha a mão na tecnologia, a quem caberá, juntamente com o tecnólogo, mais além
das forças do mercado e do mundo dos negócios, definir os rumos da técnica e da
própria ciência. Da mesma forma que o cientista, também o tecnólogo deverá
adotar a ética da responsabilidade ou a moral do phrónimos, enquanto assunto de
um corpo social ou agrupamento coletivo. A dificuldade, porém, é que a aliança
entre o cientista e o tecnólogo não basta, podendo ser levados de roldão em seu
embate com os grupos de interesse e as forças cegas do mercado, que são mais
poderosas do que eles. Daí a necessidade de a aliança se estender à sociedade,
a qual, para além dos grupos e do mercado, deverá assenhorar-se da ciência e da
tecnologia, colocando-as a seu dispor. É então que a ética da ciência e da
tecnologia se revelará como a ética da sociedade, dando ensejo a uma ética
comunitária, fundada em valores socialmente compartilhados, como a liberdade, a
justiça e a responsabilidade (tal ética, embora referida ao coletivo, como quer
Hans Jonas, deverá estar ancorada no indivíduo, sob pena de levar ao
totalitarismo).
Contudo, outras dificuldades não tardarão a aparecer. Antes de mais nada, a
sociedade é o terreno da diversidade absoluta, os grupos e os indivíduos estão
o tempo todo em choque, o consenso ético é impossível e cada grupo ou
indivíduo, como viu Weber, logo escolherá seu deus ou seu demônio moral,
deflagrando a guerra dos deuses e instaurando a anarquia dos valores. Donde a
conclusão de que a ética, sozinha, não dará conta da sua missão de humanizar a
ciência e a tecnologia, não tendo a capacidade de regrar as ações e devendo,
para tal, ser socorrida por outras instâncias ou esferas sociais, como o
direito, o Estado e a política, com suas coerções, seu braço armado e seu poder
sobre os indivíduos. Donde a impressão de que a ética do phrónimos ou do varão
virtuoso, vista como a ética da responsabilidade social, está acometida por um
déficit moral de nascença, não tendo o poder de moralizar a economia, o direito
e a política, e devendo ser suplementada pelo direito, pelo Estado e pela
política em sua tentativa de enquadrar a sociedade, a exemplo da economia e das
forças cegas do mercado, que só serão domadas e poderão ser reorientadas
socialmente sob a força da mais forte das coerções assunto dos órgãos do
Estado, das instâncias do direito e do mundo da política. Mas que farão de
moral o Estado, o direito e a política se eles, de saída, não são definidos
eticamente e não se propõem como forças ou agentes morais da sociedade? A
solução vai estar em sua conversão em instâncias éticas ou forças morais...
Donde a impressão de círculo vicioso, círculo que deverá ser partido em algum
lugar, a depender em última análise do indivíduo que ou é um ente moral ou
não o é e de sua escolha.
Vivendo numa época nihilista como a nossa, marcada pela crise dos valores e
pela crescente miséria moral, em razão da vitória da ética pragmatista ou,
melhor, utilitarista, que põe no altar da divindade o êxito e só se preocupa
com a vantagem ou o que Maria leva, passamos a assistir nos últimos tempos à
solicitação de pôr ética em tudo: ética na política, ética na economia, ética
na ciência e ética nas relações inter-pessoais. Entendemos que, em tese, a
solicitação é justa, e tudo deverá ser feito para ela ser atendida de alguma
forma, antes que seja tarde demais, o planeta seja destruído e a devastação
atinja sem piedade o mundo dos homens, não sobrando pedra sobre pedra. A
dificuldade, porém, ao se pensarem essas coisas, é que a ética pode muito
pouco, sem o socorro de outras instâncias ou esferas sociais, no terreno supra-
individual, e uma frustração enorme fatalmente nos aguardará se não soubermos
aquilatar nossas reinvidicações, bem como sopesar o lastro da ética ou seu raio
de ação.
No tocante à relação entre a ética, a ciência e a tecnologia, duas são as
dificuldades. Do lado da ética, a dificuldade é ela gerar uma moral conforme as
necessidades da ciência e da tecnologia, na medida em que toda ética implica
sanções e interdições, e a ciência e a tecnologia em si mesmas, em sua lógica
interna, não estão, de saída, dispostas a aceitar proibições e a sacrificar a
liberdade de conhecer e de engenhar. Do lado da ciência e da tecnologia, a
dificuldade, como viu Tolstói a respeito da primeira, é que elas são impotentes
para gerar valores, os quais deverão ser buscados e gerados alhures, em outras
esferas da sociedade e da cultura. Não bastasse, ao contrário do que imaginava
Bacon, que acreditava que o conhecimento, ou melhor, a ciência, além de gerar a
técnica, deveria ser a norma da ação moral, a ciência e a tecnologia não têm a
capacidade de instaurar tal norma, haja vista sua incapacidade de responder às
duas questões que, segundo Tolstói, mais interessam em nossas vidas: o que
devemos fazer e como devemos viver? talvez porque essas questões não tenham a
ver com fatos, mas com valores, e os valores são algo mais do que uma cognição,
dependendo de tradições, afetos e sentimentos. Da í não ser nada fácil a tarefa
de ajustar a ética, a ciência e a tecnologia. Daí nosso temor de a grande e
insistente reivindicação de mais ética, de pôr ética em tudo, gerar uma enorme
e irremediável frustração.
Voltemos à questão de a moral vir juntamente com a necessidade de proibir.
Sabe-se que a própria sociedade desde os tempos imemoriais está fundada
numaproibição: a famosa lei da interdição do incesto. Sabe-se também que a vida
em sociedade é impensável sem as normas, as sanções e as interdições do
direito. Todavia, juntamente com as interdições vêm as transgressões, que por
suavez exigem seu combate e as inevitáveis punições. A esse respeito, pode-se
dizer que a transgressão não é em si um mal e que é transgredindo a lei dos
pais que uma criança amadurece e torna-se adulta. Pode-se dizer também que a
proibição poderá ser traduzida positivamente em bem, a depender do contexto e
das circunstâncias. Porém, quem quer ou solicita de bom grado ser proibido?
Pode-se dizer, sem temor de erro, ninguém. Por isso, a moral é matéria
controversa, por lidar com valores muitas vezes díspares e conflitivos, ante os
quais cada um deverá escolher seu Deus e seu diabo, na ausência da norma
universal, que de fato não se erigiu em lugar algum (nem mesmo o decálogo
judaico-cristão mostrou-se com o poder de instaurar a Norma). Tal é, o tocante
à ciência e à técnica, o caso da biotecnologia. Ora, a biotecnologia o entender
de muitos é coisa do diabo. O problema é que o diabo, como dizia Fausto, não é
tão feio assim, como se acredita. Quem mostrou isso, recentemente, foi o
filósofo italiano Gianni Vattimo em entrevista à Folha de S.Paulo, o caderno
"Mais!", na edição de 02/06/2002. Vejamos o que disse o filósofo aquela ocasião
ao ser perguntado sobre o que ele pensa da biotecnologia e da bioética:
A bioética representa a vocação do homem de assumir plenamente a
responsabilidade por si próprio. A biotecnologia nos coloca diante do
fato inegável de que cada vez mais a vida depende de nós, e não de
potências obscuras ou de alguma divindade que decide, sem que
compreendamos, os momentos do nascimento e da morte. Determinar o
sexo ou a cor dos cabelos das crianças que produzimos não é um
sacrilégio, mas algo que coloca o homem diante da mais plena das
responsabilidades. As coisas não caminham mais naturalmente, devemos
deliberar sobre elas. E como deliberar? Com base em uma posição
puramente arbitrária ou em acordo com os outros?
Como eu não tenho fé em princípios morais eternos, prefiro viver num
mundo onde haja interlocutores. Devemos assumir toda a
responsabilidade por nossa existência, sem nos refugiarmos na crença
em necessidades naturais; quanto mais decrescem os limites naturais
objetivos, mais reconhecemos a importância dos limites
intersubjetivos. É possível resolver todos os nossos problemas éticos
com base no respeito à liberdade do sujeito efetivamente
interpelável.
Diremos que Vattimo está certo quando otimisticamente mostra que a
biotecnologia aumenta a liberdade do homem, que ao fim e ao cabo vê-se livre
dos condicionamentos naturais. Diremos também que Vattimo está certo ao
precisar que a biotecnologia permite uma maior autonomia no sentido literal, a
saber: permite que o sujeito dê a si mesmo a lei segundo a qual ele vai agir, o
que por sua vez aumenta sua responsabilidade em relação a seus atos e a seus
semelhantes. Diremos enfim que Vattimo está certo quando diz que a liberação
dos condicionamentos dos processos naturais tem como contraparte o
reconhecimento dos limites intersubjetivos, dentro dos quais se desenvolvem
nossas ações. Ora, o grande problema da reflexão de Vattimo aparece na última
frase, onde afirma que "é possível resolver todos os nossos problemas éticos
com base no respeito à liberdade do sujeito efetivamente interpelável". Vattimo
não o diz, mas tal sujeito etica e efetivamente interpelável, ao que parece, só
pode ser o adulto. Contudo, o problema inteiro da bioética coisa que Vattimo
não leva em consideração é justamente pensar a biotecnologia a partir,
também, do lugar dos não-interpeláveis, como as futuras crianças, que sem
qualquer liberdade e qualquer poder ficarão à mercê da vontade e do arbítrio
dos pais. Por isso, diante de tal matéria, sem dúvida controversa, outros
cientistas e pensadores vão adotar posições morais bem diferentes da de
Vattimo. E o que ocorre com o geneticista francês Axel Kahn, ao sublinhar que,
para além da liberdade de escolha, da liberdade como poder pura e simplesmente,
é preciso incluir outros valores, como a dignidade da pessoa humana, inclusive
a das crianças.10 Por tal dignidade, ele entende o direito de todo ser humano
estar fora do total domínio e controle do outro, como nos mostra o caso,
relatado pela revista Época, de um casal de lésbicas americanas que, surdas de
nascença, decidem ter dois filhos também surdos, e o fazem através de
inseminação artificial isso, em nome do valor moral da harmonia familiar.
Tais considerações e esse exemplo nos mostram duas coisas. Primeira, como a
ética é difícil, levando-nos a lidar com matérias complexas e controversas,
dando razão a Aristóteles quando ele dizia que a ética é coisa para quem tem
mais de trinta anos quer dizer, mais de cinqüenta, em nossa época. Segunda,
como a exaltação da ciência e da técnica, ao se reconhecer o poder real e o
potencial extraordinário das tecno-ciências modernas, veio juntamente com, se
não provocou, o chamado colapso ético, por paradoxalmente aumentar o espaço da
ação do homem e ao mesmo tempo não gerar os instrumentos para que uma moral à
altura da ciência e da tecnologia fosse instalada, dando razão àqueles que
pensam que ainda somos seres inferiores eticamente.
Daí a necessidade de se pensar a articulação entre ética, ciência e tecnologia,
para nos salvarmos de nós mesmos, de nosso poder e de nossas fraquezas, nós que
com a física e a biologia aprendemos a brincar de deus, e sem sabê-lo podemos
estar pactuados com o demônio, como o Dr. Fausto. Dizemos é preciso nos salvar
de nós mesmos, nem que seja diante do abismo, por ter-se aprofundado o fosso da
promessa e do poder das tecno-ciências frente à nossa indigência e miséria
morais, exigindo a ética a reinvenção do homem, bem como o desmentido a
Nietzsche, ao dizer enfatizemos uma vez mais que o homem é um animal que
não deu certo.
O caminho que propomos, em suma, é o seguinte: se não podemos moralizar a
ciência, nem elaborar uma ética científica com base nela, devendo a ética ficar
com a filosofia, se não com a teologia (teologia moral), podemos moralizar o
cientista e pensar a ética da ciência, que é a ética da responsabilidade. Sobre
esse ponto, sabemos qual foi o caminho dos americanos, que sabidamente são mais
rápidos e pragmáticos: para fazer face à urgência da questão moral, que ficou
muito complicada em razão da complexidade das tecno-ciências, criaram uma nova
especialidade ou profissão, tendo como campo de atuação os comitês de revistas
científicas, hospitais, universidades e institutos de pesquisa, a saber, a
profissão do "eticista" (ethicist, em inglês). Entendemos que isso é muito
pouco e algo mais ousado deverá ser feito, se não queremos assistir nas
próximas décadas ao triunfo do homem reengenhado 2.0, juntamente com a expansão
avassaladora das tecno-ciências, impelida pelas forças cegas da economia. E a
própria comunidade humana e uma nova disposição do sistema do saber,
correlacionando ciência, tecnologia e humanidades, nestas últimas incluída a
filosofia, que deverão ocupar-se da alteração desse estado de coisas e abrir um
novo horizonte para a questão antropológica. Como viu Hans Jonas, esse novo
horizonte exigirá o descentramento do homem, em favor de uma abordagem mais
abrangente que inclua a natureza e a questão ecológica. Acrescentaremos que o
limite da questão antropológica coisa que Jonas não viu é de ordem
cosmológica, exigindo a recolocação da questão metafísica, porém em outras
bases: o cosmo vai esfriar, o sol depois de transformar-se numa gigantesca
estrela vermelha irá explodir dentro de sete bilhões de anos, a vida
terrestre e o próprio homem vão desaparecer bem antes, daqui a quinhentos
milhões de anos, ou menos. Logo, um dia tudo vai acabar; pior: se não fizermos
nada, vai acabar antes, e mesmo bem antes, pela ação de nossas mãos e mentes.
Temos, então, de ser fortes, e mesmo mais fortes ainda do que os
renascentistas, quando descobriram que o mundo era infinito. Agora, tendo
redescoberto que o mundo é finito, precisaremos de uma nova moral para regular
nossas vidas, antes que a aventura da existência chegue ao fim. Mas aí não
precisaremos nem da ética, nem da ciência, nem da tecnologia.