Transformações da ordem econômica mundial, do final do século 19 à Segunda
Guerra Mundial
Grandes tendências da economia mundial, de 1890 a 1944
A economia mundial, no meio século que vai do final do século 19 a meados do
século 20, se apresentava como um sistema não muito bem articulado de economias
nacionais e de dependências coloniais ou semicoloniais, interligadas por
intercâmbios voluntários ou compulsórios de bens, serviços, capitais, mão de
obra e tecnologia; elas o faziam num contexto de crescentes assimetrias
estruturais entre as nações do capitalismo avançado e entre essas e seus
territórios coloniais, nações semicoloniais ou países dependentes. Os elementos
estruturais de divergência são provavelmente mais relevantes do que aqueles de
continuidade, entre o começo e o final do período, mas, no plano geopolítico, o
mundo não deve ter se alterado tão radicalmente nesse período de pouco mais de
meio século.
No plano estritamente econômico, o mundo passou por fases caracteriza damente
distintas ao longo do período: saltos tecnológicos, representados pelos grandes
avanços da segunda revolução industrial; mudanças dramáticas nos sistemas
monetários nacionais, a partir de violentas crises financeiras, de surtos
violentos de inflação em diversos países, com ruptura dos regimes monetários e
cambiais, a começar pelo do padrão ouro; fases de crescimento sustentado,
seguidas por conjunturas de estagnação; surtos de liberalização setorial,
alternando com impulsos de protecionismo comercial; incorporação de novos
atores econômicos, com preservação de velhas desigualdades estruturais; fases
de fechamento e de abertura aos movimentos de pessoas e aos fluxos de capitais;
redistribuição dos fluxos de renda em direção de novos centros de acumulação e
confirmação de antigos mecanismos de concentração e de acumulação; enfim, uma
gama variada de tendências estruturais, de rupturas conjunturais e de ciclos
econômicos tão diversos quanto os processos políticos que marcaram esse século
ao mesmo tempo exemplarmente criador, no plano das ciências e das técnicas, mas
também extremamente destruidor em termos de vidas humanas e padrões
civilizatórios.
A despeito de diferenças estruturais e de inversões de tendência nesse meio
século, alguns elementos de permanência são detectáveis no início e ao final do
período: a presença hegemônica de um pequeno conjunto de economias
industrializadas no centro do sistema (um reduzido grupo de países não muito
distinto daquele que ainda estaria na vanguarda da economia mundial várias
décadas depois) e, na outra ponta, de diversos "arquipélagos" de economias
dependentes, nas periferias respectivas de cada economia nacional dominante,
países formalmente independentes (América Latina), povos inteiros submetidos à
colonização europeia (na África) ou nações semicoloniais (geralmente na Ásia),
basicamente fornecedores de matérias-primas para as primeiras e absorvedores de
seus produtos manufaturados. Também se constata a atuação de um grupo influente
de atores nacionais e gradualmente "transnacionais", os "cartéis" do final do
século 19, e as primeiras grandes companhias "multinacionais" no decorrer do
século 20.
Outros elementos são nitidamente contrastantes: os processos de globalização
comercial e de internacionalização financeira, que tinham deslanchado sob
perspectivas relativamente otimistas no último terço do século 19 - a partir de
alguns acordos de livre comércio e da disseminação do padrão ouro -, conhecerão
uma notável reversão no final do período, com a regressão de vários países a um
protecionismo míope, o recurso extensivo de vários outros às desvalorizações
agressivas e aos controles de capitais nas fases de crises financeiras. Uma
grande novidade, também, e dramática, tanto no terreno político, quanto no
econômico: o surgimento da primeira alternativa às democracias liberais e às
economias de mercado, ainda que numa economia nitidamente em transição ao
capitalismo industrial, como era a da Rússia, no início do século. Experiências
de dirigismo econômico e de autoritarismo político, não semelhantes, mas algo
similares, também seriam feitas no coração do continente europeu, na Itália e
na Alemanha, com algumas emulações em países periféricos europeus ou na América
Latina.
Os elementos estruturais e os processos político-econômicos aqui delineados -
grosso modo, a preservação de um mesmo núcleo de economias dominantes, mesmo
com o desaparecimento de algumas superestruturas políticas; o fluxo e o refluxo
da primeira onda de interdependência global que se desenhava sob o capitalismo
do laissez-faire; e o surgimento de alternativas de organização social da
produção dominadas por modelos fortemente antagônicos às democracias de mercado
- oferecem um quadro analítico para um exame mais elaborado sobre o itinerário
da economia mundial nesse "breve século 20", que tem início no otimismo algo
ingênuo da belle époque para soçobrar nos horrores do holocausto e das
destruições materiais. Esse período da economia mundial tem início no último
terço do século 19, quando o capitalismo "manchesteriano" de meados daquele
século adentrou em sua fase madura de industrialização e de incorporação de um
novo fluxo de inovações tecnológicas, no quadro da segunda revolução
industrial, não mais marcada pela máquina a vapor, mas pela eletricidade, pelo
motor a explosão e pela química. É uma fase conhecida pela formação de "trustes
e cartéis", moderadamente controlados por leis de defesa da concorrência, da
passagem do laissez-faire doutrinal para o protecionismo comercial e o
nacionalismo econômico, com a prática agressiva de tarifas diferenciadas e o
desenvolvimento de zonas geográficas de exclusão (as "preferências imperiais"
do apogeu do colonialismo europeu), ainda que esses processos restritivos
tenham sido contrabalançados por uma liberalização inédita no que diz respeito
aos fluxos de pessoas (imigrações transcontinentais) e os movimentos de
capitais (unificados sob o regime do padrão ouro). Ele terminaria no mais
formidável conflito global de todos os tempos, tão importante, politicamente,
quanto tinha sido a Grande Guerra - até ocorrer a segunda, ninguém se referia à
"primeira guerra mundial" - e de tão profundas consequências, no plano
econômico, quanto os processos iniciados no conflito anterior: se neste as
políticas econômicas caminham no sentido do intervencionismo estatal na vida
econômica, no bojo da segunda guerra mundial seriam definidos os fundamentos de
uma nova ordem econômica concebida em termos multilaterais e não
discriminatórios.
Em cada uma das distintas fases desse período, estão em jogo processos
históricos bastante complexos, que impactam os fluxos de comércio, os
movimentos de capitais, as transmigrações de mão de obra, as oportunidades de
investimentos diretos, as demandas por financiamentos, os sistemas produtivos,
a administração das coisas e o comando dos homens. Esse meio século termina por
destruições maciças na Eurásia e pela emergência de um novo gigante da economia
e da política mundiais, que logo se confrontaria a um formidável oponente, mas
que na maior parte do período foi praticamente marginal para a economia
mundial, ainda que tenha constituído um poderoso desafio político e ideológico
para todos os demais países integrados à ordem internacional em frangalhos do
período. Os elementos básicos da atividade econômica - terra, capital e
trabalho - assumem feições bastante distintas entre o início e o final do
período: o primeiro, a disponibilidade de terras agrícolas, continua relevante
na periferia, mas menos importante nas economias centrais, que aprofundam sua
industrialização; o capital e o trabalho passam a sofrer inúmeras restrições
para se locomover de um país a outro, muito diferente do início do século,
quando passaportes eram dispensáveis e carregamentos de ouro ainda eram
embarcados de um lado a outro do Atlântico e ordens bancárias, pelo cabo
submarino e pelas linhas de telégrafo, eram processadas quase sem nenhuma
burocracia estatal. Era o "mundo de ontem", imortalizado na biografia póstuma
de Stefan Zweig_(2009), que desapareceu para todo o sempre nas crises e na
grande depressão, nos fascismos embrutecedores e nos estertores da segunda
guerra.
Uma verificação ainda que sumária dos indicadores econômicos relevantes, a ser
feita nos capítulos substantivos, dá uma ideia mais precisa quanto à
profundidade e amplitude das transformações ocorridas na economia mundial ao
longo do meio século. Três elementos devem ser levados em conta numa avaliação
preliminar do período: a mão-de-obra, a estrutura da produção (e o produto per
capita) e os sistemas financeiros, nacionais e internacionais. A população do
planeta continuou a aumentar, a despeito da mortandade registrada nos dois
conflitos mundiais, passando de 1,6 bilhão em 1900 a mais de 2,3 bilhões de
pessoas por volta da segunda guerra mundial, produto do aumento da oferta
alimentar em diversas regiões do planeta (a despeito de imensas zonas de fome
ainda na África e na Ásia), o que afastou o fantasma do malthusianismo ainda
presente no início do século (Van_Der_Wee_1990; Cameron_1989).
Ocorreram diferenças notáveis na evolução respectiva das taxas de fecundidade
dos países desenvolvidos - que tinham realizado suas transições demográficas
ainda nas primeiras décadas do século - e as dos países em desenvolvimento,
cujas taxas de fecundidade e de natalidade continuavam a se elevar,
concomitantemente aos progressos do saneamento básico, da profilaxia e do
combate às grandes epidemias realizados no período. A diminuição bem mais
rápida da mortalidade nesses países (pelos progressos efetuados no saneamento,
nos modestos esforços de prevenção e no tratamento médico de algumas doenças) e
o aumento da esperança de vida nos países avançados modificaram a estrutura
etária em todos eles, aumentando a proporção de jovens nos primeiros e a de
velhos nas sociedades mais avançadas. Os movimentos de população também foram
importantes ao longo do período, mas as políticas migratórias geralmente
receptivas do começo do século foram substituídas, em quase todos os países,
por medidas restritivas que visavam coibir - sem terminar totalmente - o
deslocamento de grandes contingentes de trabalhadores em direção das economias
em crescimento (geralmente nas Américas, mas também nas franjas do imenso
império britânico).
A distribuição do "exército industrial de reserva" foi afetada, na maior parte
do período, por fatores essencialmente políticos: guerras, fechamento de
fronteiras, oposição entre capitalismo e socialismo, crises econômicas
redundando em mudanças nas legislações imigratórias. A preocupação com o
desemprego afetou o fator trabalho, ao passo que o capital enfrentava
restrições normativas por causa dos desajustes cambiais surgidos com o final do
padrão ouro. Os custos de transporte diminuíram sensivelmente, com a
multiplicação dos cargueiros movidos a motores diesel, mas as fronteiras
geopolíticas se tornaram mais importantes.
A estrutura da produção foi radicalmente transformada por mudanças introduzidas
nos padrões de trabalho (especialização, fordismo, taylorismo) e por avanços
técnicos, que aumentaram dramaticamente o produto per capita, muito mais do que
o crescimento da população. Nos países mais avançados, o grosso da população
economicamente ativa deixou as atividades primárias e os campos e migrou para o
setor industrial e para as cidades em meados do século, antes de transmigrar
novamente para o setor de serviços. A natureza da atividade econômica só foi
profundamente alterada no socialismo, e muito parcialmente nos regimes
fascistas, já que o modelo de planejamento centralizado do primeiro manifestou-
se tão somente em alguns setores estratégicos dos segundos. Em quase todos os
países observou-se uma expansão do setor público ao longo do período, o que
correspondia ao novo papel, bem mais intervencionista, das políticas públicas e
dos serviços coletivos, que conheceram processos de nacionalização em vários
deles (em transportes públicos, por exemplo, eletricidade, comunicações). Em
consequência, o peso da tributação direta e indireta tenderam a aumentar, com a
disseminação do imposto de renda e diferentes modalidades de taxação sobre o
patrimônio. O regime de oito horas de trabalho e direitos coletivos do trabalho
se ampliaram depois da primeira guerra, com a criação da Organização
Internacional do Trabalho no âmbito da Liga das Nações.
O sistema financeiro internacional, finalmente, foi o que mais sofreu em suas
interações com os processos produtivos, com as correntes de comércio e os
movimentos de capitais, na medida em que as atividades bancárias passaram a ser
estritamente reguladas pelas soberanias estatais. O padrão monetário
internacional deixou de se apresentar como tal e passou por mudanças radicais,
abandonando a referência exclusiva ao ouro, como garantia de liquidez, e a
rigidez das paridades cambiais do começo do século, para mergulhar num universo
turbulento de desvalorizações unilaterais e de flutuação não coordenada das
moedas, antes de simplesmente ser paralisado pela situação de guerra. A
primeira "idade do ouro" do capitalismo já tinha sido abruptamente interrompida
pela Grande Guerra, e as tentativas posteriores de voltar ao padrão ouro, em
sua forma clássica, revelaram-se infrutíferas, até que a crise de 1929 e as
desvalorizações cambiais maciças ocorridas em seu bojo enterraram de vez essas
pretensões. Os fluxos de capitais deixam de ser livres nos anos 1930, já que os
governos passam a alimentar a ilusão de poder "controlar a especulação", assim
como eles pretendiam evitar os efeitos nocivos de choques externos sobre a
economia doméstica, atuando sobre os juros e a demanda para combater o
desemprego. A reorganização monetária efetuada pela conferência de Bretton
Woods determinou o surgimento de um padrão ouro-dólar e de um regime de
paridades fixas (mas ajustáveis) que não foi verdadeiramente testada antes de
um quarto de século de sua implementação, quando o fenômeno inflacionário e os
desequilíbrios externos dos Estados Unidos terminaram por romper a paridade de
US$ 35 por onça de ouro que prevalecia desde 1934. O Fundo Monetário
Internacional foi criado em 1944 para corrigir desequilíbrios temporários de
balança de pagamentos e para administrar esse regime de paridades
correlacionadas, mas teve de renunciar a essa segunda missão quando ocorreu a
decretação unilateral da suspensão da conversibilidade do dólar em ouro em 1971
(James_1996).
A despeito dos choques atravessados pela economia internacional e pela política
mundial no meio século até 1939, os atores relevantes permaneceram quase os
mesmos: o grupo de economias dominantes era quase idêntico no começo da guerra
europeia ao que existia no início da globalização capitalista do laissez-faire,
em 1870, com uma ou outra exceção: ocorre, por exemplo, na Europa, o
desaparecimento do Império Austro-Húngaro, ao mesmo tempo em que na Ásia se
confirmou a ascensão do Japão, cujo militarismo exacerbado, entretanto, o
conduziria à destruição e ocupação pelo império que tinha despontado já no
final da Grande Guerra. A Rússia e a China eram economias marginais em escala
planetária e assim permanecerão durante todo o período: a União Soviética teve
mais importância na esfera política do que na econômica, e o gigante asiático
afundou na guerra civil antes de ser brutalmente ocupado pelo Japão, muito
distante da antiga condição de maior economia do planeta, que o Império do Meio
exibia até o início do século 18. A Alemanha, que já tinha ultrapassado, em
1890, a economia então dominante, a da Grã-Bretanha, antes de serem ambas
superadas pelos EUA, voltou a integrar, depois da hiperinflação dos anos 1920,
o pelotão das economias dinâmicas, sob o nazismo, mas terminou amputada de
cerca da metade de seu território e de boa parte de sua população, reduzida que
foi à condição de anã política no final do período, dividida e ocupada pelas
potências vencedoras. Os EUA, de grande exportador de produtos primários que
eram, depois da recuperação da guerra civil, e convertidos em primeira potência
industrial na passagem do século, permanecerão nessa condição, acrescentando, a
partir dos anos 1930, o título de primeira potência financeira, ao operar-se,
no seguimento da suspensão da conversibilidade da libra em 1931, a passagem à
hegemonia quase absoluta do dólar nos mercados de capitais e nos investimentos
diretos.
Transformações da economia mundial na primeira metade do século 20
O capitalismo globalizado e liberal da belle époque seria transformado a partir
dos eventos e processos deslanchados com a Grande Guerra: intervenção dos
governos na economia, desafio socialista ao capitalismo, crise de 1929 e
depressão dos anos 30, protecionismo comercial, suspensão da conversibilidade
das moedas, desvalorizações cambiais maciças, para não falar da própria
destruição física trazida por dois conflitos de proporções gigantescas. A
"segunda guerra de trinta anos" vivida pela Europa entre 1914 e 1945, segundo a
caracterização de Churchill no pós-segunda guerra, transformou a natureza das
relações internacionais tanto quanto a estrutura da economia internacional: ela
não apenas retirou a Europa do comando da política mundial - ao precipitar a
hegemonia mundial dos dois gigantes planetários, como antecipado por
Tocqueville - mas também modificou as bases de funcionamento do capitalismo.
O processo de globalização se viu dificultado pelas crises do entre-guerras,
assim como foi interrompido pela grande divisão geopolítica, e geoeconômica,
surgida com o desafio socialista ao modo capitalista de produção. Esse
intervalo se estenderia por setenta anos no caso da Rússia (e por pouco menos
de meio século adicional nos satélites da União Soviética), mas a verdade é que
o impacto real do socialismo foi relativamente reduzido na economia mundial:
ele tinha alguma importância em determinados circuitos do comércio de produtos
primários, um papel praticamente marginal em termos de finanças internacionais,
quase nenhum no campo dos investimentos e residual no que se refere à
tecnologia e know-how. Na primeira metade do século, inclusive, ele quase não
sobreviveu, e o Ocidente, ainda que inimigo do bolchevismo, veio em socorro
alimentar ao socialismo em duas oportunidades: ao final da guerra civil e
quando se instalou o "socialismo num só país", com a terrível desestruturação
da agricultura e da pecuária nas vastas planícies da Ucrânia e da Bielo-Rússia:
de "graneiro" do mundo, a Rússia simplesmente desapareceu das exportações
agrícolas mundiais, subsistindo ainda pela oferta de petróleo do mar Cáspio,
inclusive para a Alemanha nazista no momento mais crucial da guerra levada nas
frentes ocidentais (Moorhouse_2014, 161-191).
O fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão, embora também tenham
exercido certo impacto econômico nos países dominados por esses regimes no
entre-guerras, representaram antes desafios ao liberalismo político do que
representavam como ameaças de transformações radicais da economia capitalista.
Os regimes corporativos exacerbaram, é verdade, o apelo ao nacionalismo
econômico e a sistemas produtivos autônomos (em regime de quase autarquia), mas
eles tocaram muito pouco nas bases da propriedade, no sistema de mercado ou nas
relações sociais de produção, como fez o socialismo de tipo soviético. Este
apresentou um desempenho medíocre na maior parte das interfaces econômicas,
ainda que relativamente satisfatório nas etapas iniciais do processo de
industrialização, mas foi bem menos eficiente no que se refere à organização
agrícola ou na aplicação da inovação tecnológica aos processos produtivos. O
que ele apresentou de "sucesso" na pesquisa e desenvolvimento e na aplicação da
ciência ao no campo econômico esteve essencialmente vinculado ao terreno
militar, que era movido inteiramente por considerações estratégicas do que por
qualquer preocupação com as necessidade da população. Infenso aos sinais de
mercado e aos mecanismos de preços, o comunismo soviético caminhou rapidamente
para a esclerose produtiva - como aliás havia profetizado precocemente o
economista austríaco Ludwig von Mises, em seu "panfleto" sobre a
impossibilidade de cálculo econômico na economia socialista (1920) - e só
sobreviveu e completou a industrialização pesada a partir do estabelecimento de
um verdadeiro escravismo moderno, que a isso foi reduzido, basicamente, o
sistema em sua fase stalinista (Applebaum_2003).
Ainda mais autocentrado e autárquico do que as economias comandadas por regimes
fascistas, o socialismo manteve-se - ou foi mantido - à margem da economia
mundial, a não ser por algumas interfaces muito restritas, geralmente no campo
das energias fósseis. A economia mundial, estruturada em mercados
interdependentes de bens, serviços e fluxos tecnológicos e financeiros em sua
fase liberal, continuou a funcionar basicamente segundo os mesmos princípios
organizacionais ao longo do período considerado, mas enfrentou turbulências
notáveis na primeira metade do século 20. Em todo caso, as bases de
funcionamento da economia capitalista mantiveram-se dentro do universo
doutrinal da economia neoclássica, ainda que temperada pela revisão keynesiana
a partir dos anos 1930, mas cujos efeitos só se fariam sentir na segunda metade
do século.
Não obstante sua irrelevância prática, os sistemas baseados no planejamento
estatal centralizado exerceram certa influência no pensamento econômico do
século 20, contribuindo para moldar políticas econômicas que tiveram alguma
ascendência teórica no imediato pós-guerra, como a indução pública dos
investimentos, o controle estatal da oferta de "bens públicos" e os novos
monopólios nacionais nas esferas de transportes, comunicações e energia,
notadamente. Alguns países europeus, no segundo pós-guerra, avançaram para
nacionalizações mais robustas, inclusive com a estatização de alguns setores
considerados estratégicos, como a siderurgia e as ferrovias. Não obstante, o
planejamento indicativo e o controle estatal praticado em algumas economias
capitalistas na segunda metade do século foram mais devidos ao legado do
período de guerra, quando setores inteiros da economia possuindo algum
significado estratégico tiveram de ser mobilizados e controlados pelo Estado,
do que a algum compromisso ideológico com os sistemas econômicos de tipo
nacional-socialista ou comunista. Vale lembrar, também, que a suposta herança
keynesiana dos anos 1930, teve escassa influência nos padrões de políticas
públicas do período anterior à segunda guerra, vindo a florescer, basicamente,
nos sistemas de welfare statedo pós-guerra. As mudanças políticas então
introduzidas, no sentido de maior controle governamental sobre o instrumental
macroeconômico (demanda agregada, política fiscal, taxa de juros, movimentos de
capitais), respondiam mais a preocupações de ordem prática dos estadistas,
acossados pela memória da depressão dos anos 1930, do que às contribuições
teóricas do pensador econômico britânico.
Se a economia industrial capitalista retomou, pouco a pouco, o ritmo e os
padrões de crescimento que tinham sido os seus no período anterior às crises
econômicas dos anos 1930, em uma área decisiva as transformações estruturais se
revelaram permanentes e duradouras, influenciando decisivamente as políticas
econômicas do segundo pós-guerra: no campo monetário, onde o rompimento do
padrão ouro não daria mais lugar às tentativas canhestras em favor de seu
restabelecimento, como tinha sido o caso nos anos 1920 e no início dos 1930. O
desmantelamento completo dos sistemas de pagamentos na fase da depressão - com
o desenvolvimento alternativo de modalidades de troca e de mecanismos de
compensações entre moedas não conversíveis - e a prática abusiva das
desvalorizações cambiais para fins protecionistas e de competição comercial,
alterou radicalmente o sistema monetário conhecido até então. Já não haveria
mais volta à liberdade de transferência de capitais da época do padrão ouro e,
sobretudo, o controle absoluto que então passou a ser feito pelos governos
centrais sobre as emissões de meio circulante significou a emergência de um
fenômeno que, até essa época, era quase ignorado pelos economistas: a inflação
(Weber_1955).
Comércio: do liberalismo ao protecionismo, antes do multilateralismo
Os fluxos de comércio explodiram desde o último terço do século 19, ainda no
quadro dos tratados bilaterais - com cláusulas condicionais e limitadas de
nação-mais-favorecida - para retroceder drasticamente na Grande Guerra e nas
crises posteriores a 1929, antes de passarem a ser regidos pelos acordos
multilaterais contraídos no âmbito do Gatt. Poucas nações, a exemplo da Grã-
Bretanha entre 1856 e a Primeira Guerra Mundial, praticavam o livre comércio,
mas as barreiras tarifárias e não tarifárias eram bem menos importantes no
século 19 do que elas vieram a ser na passagem para o século 20 e, sobretudo,
depois da grande crise de 1929. Depois de uma recuperação não muito sustentada
ao final da guerra, o comércio internacional mergulhou no protecionismo dos
anos 1930, e só voltou a se recuperar no segundo pós-guerra, passando a atuar,
então, como um indutor de modernização tecnológica e de ganhos de
competitividade nas economias integradas ao sistema multilateral de comércio.
Uma parte dos intercâmbios da primeira metade do século passou a ser realizado
ao abrigo de sistemas preferenciais, que nessa época eram os dos impérios
coloniais europeus, contra o qual reagiam os americanos e suas propostas de
Open Door policies (para comércio e investimentos, como aliás também seria o
caso na segunda metade do século). Os EUA não propunham exatamente acordos de
livre comércio, mas passaram a negociar acordos de reciprocidade, ao mesmo
tempo em que pressionavam para desmantelar as preferências imperiais dos
grandes parceiros, uma demanda sempre presente nas negociações de ajuda
econômica concedida à Grã-Bretanha durante o esforço de guerra contra o nazi-
fascismo.
O protecionismo comercial dos anos 1930 se expressava não apenas por altas
tarifas alfandegárias, como também por restrições quantitativas e cotas nos
volumes de pagamentos, bem mais em voga nas economias coletivistas do que nas
capitalistas. A agricultura começou a ser objeto de exceções a quaisquer
regimes comerciais, bem como favorecida por diferentes mecanismos de subsídios,
e nessa condição se manteria pelas décadas seguintes, mesmo no sistema do Gatt.
Os países exportadores de produtos primários, como os latino-americanos não
dispunham, simplesmente, de condições de barganha ou de mecanismos
compensatórios para defender seus interesses econômicos e comerciais. Alguns
acordos sobre produtos primários foram negociados nos anos 1930 (Raffaelli
1995), mas seu alcance era limitado e sua eficácia muito questionável.
Os blocos comerciais ainda não se tinham tornado atores da economia global, mas
alguns experimentos, formais e informais, de integração econômica estavam sendo
desenhados, como a união monetária belgo-luxemburguesa (em 1922) ou um precoce
acordo aduaneiro entre a Bélgica e os Países Baixos, que frustrou-se no início
dos anos 1930 para só ressurgir em plena guerra, quanto ambos os países tinham
governos no exílio, em Londres, em 1944. A Alemanha nazista, à sua maneira,
constituiu, na Europa central, um espaço econômico de preferências baseadas em
acordos de compensação, iniciativa certamente discriminatória em relação a
terceiros países, mas que de qualquer forma seria habilitada pelo seu peso e
sua pujança industrial na região.
Os investimentos diretos, que se tinham convertido numa das principais formas
da presença econômica da Europa na América Latina, foram sensivelmente
prejudicados pela Grande Guerra, quando então aparecem os investidores
americanos na região, em geral nas áreas de energia (petróleo e mineração) e
nas indústrias de processamento alimentar. Esses investimentos também foram
prejudicados pelo novo ambiente de prevenções nacionalistas e de tendências
estatizantes que ascende em muitos países periféricos, não apenas pelos
exemplos das economias fascistas, mas também pelas próprias restrições surgidas
no ambiente de crise dos anos 1930.
Finanças: do padrão ouro à flutuação generalizada de moedas
Se o comércio internacional caminhou no sentido do protecionismo, as finanças,
por sua vez, abandonaram os rígidos mecanismos do padrão ouro, cuja moeda
central era a libra esterlina, para ingressar numa fase de flutuação
descoordenada das principais moedas, com a gradual ascensão do dólar (que de
toda forma tinha sustentado os esforços de guerra desde 1914) e cujo predomínio
se acentua nas negociações das dívidas dos países beligerantes nos anos 1920. O
mundo do capitalismo avançado passou de uma situação de relativa
previsibilidade quanto à paridade relativa das moedas, muitas das quais eram
plenamente conversíveis em ouro no início do século (como por exemplo a libra,
virtualmente hegemônica), para uma situação de instabilidade depois da Grande
Guerra, temperada por tentativas de restabelecimento do padrão anterior, e daí
para o caos monetário dos anos 1930, quando tiveram início restrições
unilaterais de toda ordem que agravaram desmesuradamente o protecionismo
comercial então em voga.
O caos monetário dessa década só caminha em direção a um acordo formal com
vistas à estabilização das paridades cambiais na conferência de Bretton Woods
(em julho de 1944), quando se determina o estabelecimento de um regime de quase
fixação, com base no padrão ouro-dólar, à taxa de US$ 35 por onça de ouro,
valor de referência para todas as demais moedas. Esse regime de paridades
fixas, mas ajustáveis, administrado pelo Fundo Monetário Internacional,
funcionou, se tanto, por duas décadas, tendo sido marcado, no início, por
desvalorizações não autorizadas de moedas importantes (como o franco e a libra,
então sob pressão das conjunturas inflacionárias de reconstrução) e, no final,
pela suspensão informal da conversão do dólar em ouro, logo seguida pela
decretação unilateral da inconversibilidade e da alteração da taxa de
referência (1971). O mundo ingressou então num "não sistema financeiro
internacional", não muito diferente dos anos 1930 (mas sem as desvalorizações
agressivas de então), marcado pela flutuação recíproca das moedas, e de fato
pela anarquia cambial, com intensos movimentos especulativos contra
determinadas moedas a ponto de suscitar mecanismos de intervenção nos mercados
pelos bancos centrais dos países mais importantes.
Os capitais de risco e de empréstimo perderam a liberdade de movimentos da fase
do padrão ouro (durante a qual a totalidade dos créditos era de fontes
privadas) para um ciclo de restrições e de controles nacionais, seguido do
surgimento, em Bretton Woods e nas duas décadas seguintes, de mecanismos
multilaterais de financiamento público, como o Banco Mundial (1945) e os bancos
regionais. As emissões nos mercados de capitais cessaram quase por completo
para a maior parte dos países periféricos durante os anos 1930: o Brasil, por
exemplo, não recebeu um centavo sequer de empréstimos estrangeiros nos quinze
anos da primeira era Vargas, e todas as negociações financeiras foram feitas
exclusivamente para diferir pagamentos e obter descontos no valor de face dos
títulos.
A estrutura institucional da economia mundial
A história institucional da economia mundial desde o século 19 é, basicamente,
uma história das organizações intergovernamentais de cunho cooperativo nos
terrenos da regulação industrial (patentes, normas técnicas, pesos e medidas),
dos transportes e comunicações (uniões telegráfica, postal, de ferrovias), do
comércio (tarifas, direito comercial), bem como no campo das questões sociais
(liga contra o trabalho escravo, oficina internacional do trabalho), jurídicas
(corte permanente de arbitragem, tribunal internacional de justiça), de higiene
pública, de direitos humanos ou da educação e pesquisa. As uniões ou
organizações concebidas a partir da segunda Revolução industrial - a primeira
foi a União Telegráfica Internacional, em 1865 - prosperaram desde então,
contribuindo decisivamente para impulsionar a chamada governança global a
partir de meados do século 20, com o surgimento da Organização das Nações
Unidas e suas agências associadas, encarregadas de temas setoriais.
Essas entidades intergovernamentais ajudaram a criar mercados mundiais para os
bens manufaturados por meio do estabelecimento de melhores meios de
comunicações ("uniões" postal e telegráfica) e da interconexão física dos
transportes (escritórios de ligações ferroviárias ou marítimas), pela proteção
da propriedade intelectual (união de Berna sobre direito autoral) e industrial
(união de Paris para a propriedade industrial) e através da redução das
barreiras ao comércio (união para a publicação das tarifas, escritório de
cooperação aduaneira). O comércio se fazia ao abrigo dos acordos bilaterais de
"comércio, amizade e navegação", que geralmente continham a cláusula de nação-
mais-favorecida (NMF), mas muitas vezes sob a forma condicional e restrita, o
que certamente suscitou a necessidade de sua uniformização multilateral, obtida
tão somente a partir do Gatt-1947. A sede dessas organizações era, na maior
parte dos casos, em países da Europa, simplesmente porque as potências
europeias controlavam, até a primeira metade do século 20, a maior parte do
mundo civilizado (e o "não civilizado").
Paralelamente ao trabalho burocrático desses organismos de cooperação, eram
realizadas todo ano, de forma ad hoc ou institucionalizada, centenas de
conferências, europeias ou mundiais, constituindo um verdadeiro sistema global
de consulta e de coordenação entre representantes de governos e de entidades
associativas de empresários, que definiam, assim, a agenda econômica mundial.
No plano financeiro, os capitais circulavam livremente durante a era clássica
do laissez-faire e as transações bancárias e com ouro não conheciam restrições
de monta até o final da belle époque, o que facilitava a interdependência dos
mercados capitalistas e dispensava qualquer organismo para intermediar as
relações entre os bancos centrais. Ainda assim, no período anterior à guerra,
foram realizadas conferências para a unificação de letras de câmbio e cheques.
A Grande Guerra destruiu os fundamentos dessa ordem liberal, introduzindo em
seu lugar o protecionismo comercial e restrições dos mais diversos tipos aos
fluxos de bens, serviços, capitais e pessoas. Alguns acordos de matérias-primas
negociados nessa fase buscaram amenizar os desequilíbrios entre a oferta e a
procura de determinados bens, mas eles tiveram escasso sucesso em sua
implementação. As cláusulas econômicas da paz de Versalhes e as instituições
por ela criadas (a Liga das Nações e a Oficina Internacional do Trabalho)
tentaram reduzir o potencial de conflitos embutido no sistema discriminatório
então existente, baseado nos sistemas coloniais de reservas de mercado e de
preferências tarifárias. A "taxa de mortalidade" do multilateralismo econômico
foi relativamente alta: um terço das uniões criadas a partir da segunda metade
do século 19 não sobreviveu à Grande Guerra e apenas a do trabalho cresceu para
ser absorvida depois da Segunda Guerra por um sucessor mais forte, a OIT
(Murphy_1994). Aquelas relativas à infraestrutura, à indústria, à propriedade
intelectual e ao comércio sobreviveram, muito embora algumas tiveram seu
potencial diminuído com o desaparecimento de alguns de seus patrocinadores
(reis e príncipes).
Com a ascendência do nacionalismo econômico e do princípio da autossuficiência
e da autarquia, poucas entidades intergovernamentais foram criadas: entre elas
o Instituto Internacional de Refrigeração (1920) e os escritórios
internacionais de epizootias, da uva e do vinho (ambos em 1924) e de feiras e
exposições (1931). Em 1930 era criado o Banco de Compensações Internacionais,
com sede na Basiléia, mas, longe de ser um organismo multilateral, ele estava
voltado para administração das dívidas de guerra da Alemanha (Saborin_1994).
O período de entre-guerras foi incapaz de restabelecer as condições de uma
ordem internacional aceita por todos os parceiros, sobretudo em virtude de
atitudes defensivas por parte de algumas potências europeias e o prosseguimento
das políticas coloniais. No terreno do comércio, uma conferência da Liga das
Nações, em 1927, tentou converter esforços bilaterais e unilaterais de
liberalização em um tratado de redução multilateral de tarifas, segundo a
cláusula de nação-mais-favorecida (NMF), mas o tratado recebeu muito poucas
ratificações para entrar em vigor, inclusive porque os EUA, que não faziam
parte da Liga e também aderiam ao nacionalismo econômico, não reduziram suas
tarifas.
A crise dos anos 1930 e a depressão que se seguiu bloquearam qualquer solução
cooperativa para os problemas do comércio mundial de bens e dos fluxos de
pagamentos. As políticas de "exportação do desemprego", de desvalorizações
competitivas, bem como os sistemas discriminatórios de intercâmbio (muitos
deles baseados na compensação estrita) e de controle de capitais mergulharam a
maior parte do sistema capitalista numa das piores crises já conhecidas em sua
história econômica. Ao reunirem-se, ainda durante a segunda guerra, as
potências aliadas buscaram reconstruir em novas bases a ordem econômica
internacional, reduzindo o grau de bilateralidade discriminatória em favor de
um sistema tanto quanto possível multilateral, dotado de regras transparentes e
não discriminatórias e aberto à adesão contínua de um número cada vez mais
amplo de parceiros, desenvolvidos ou em desenvolvimento.
A histórica econômica mundial tem em Bretton Woods um de seus marcos mais
importantes, embora o itinerário subsequente esteja longe da perfeição, num
processo permeado por ensaios e erros, por tentativas e frustrações em torno
dos princípios da reciprocidade, do tratamento nacional e da cláusula da nação-
mais-favorecida. Os interesses nacionais - e dentro deles os interesses de
grupos econômicos dominantes -, assim como o grau diferenciado de
desenvolvimento industrial dos países do sistema econômico multilateral
conjugaram-se para diminuir substantivamente o cenário ideal desenhado no final
da Segunda Guerra. Em meados do século 20, a ordem econômica internacional
continuava dominada por um punhado de países, um grupo não muito diferente
daquele do início do século, à exceção temporária da Alemanha e do Japão (mas
que logo seriam reintegrados) e da Rússia que se tinha excluído
voluntariamente, pela sua economia centralmente planificada e pela animosidade
contra as potências capitalistas. A subordinação política de muitas regiões do
planeta se diluiria pouco mais à frente, no movimento de descolonização, embora
não sua dependência econômica: em 1945, a arquitetura da economia mundial ainda
continuava a ser caracterizada pela existência de nações centrais, plenamente
industrializadas, e uma vasta periferia vinculada formal e informalmente às
antigas potências colonizadoras e ao novo hegemon mundial.
Depois da configuração basicamente "liberal" apresentada pela ordem econômica
internacional no século 19 e, inversamente, de tendências fortemente
estatizantes, intervencionistas e protecionistas, observadas ao longo do século
20, o mundo caminhou, com a exceção do socialismo de tipo soviético, no sentido
da construção progressiva da interdependência global. A revolução industrial
chegou à periferia a partir da própria crise e depressão da primeira metade do
século 20, alterou fluxos de intercâmbio de bens, de serviços e de capitais e
continuou produzindo mudanças nos padrões de distribuição da riqueza e da
tecnologia proprietária em nível mundial. Certamente que, em termos de poder e
dinheiro, a "oligarquia econômica mundial" não é muito diferente hoje do que
ela era em meados ou finais do século 19, mas novos atores entraram em cena e
os termos do intercâmbio global ao longo do século 20 não preservaram
inteiramente o velho padrão de trocas entre bens primários e produtos
manufaturados. Ao final da segunda guerra mundial, vários países da periferia,
entre eles o Brasil e alguns outros da América Latina, podiam exibir uma
repartição setorial do sistema produtivo tendencialmente crescente no terreno
industrial. A simples emergência do multilateralismo econômico, em meados do
século 20, de que Bretton Woods é o mais eloquente exemplo, representou um
enorme avanço institucional sobre a era dos "tratados desiguais" do século 19.