O papel do Itamaraty na definição da política externa do governo Collor de
Mello
O objetivo deste trabalho é investigar o papel do Itamaraty na formulação da
política externa do governo Collor, relação comumente observada como frágil, em
função do grande voluntarismo político atribuído ao presidente da República
(Batista 1993). Busca-se responder a uma pergunta relativamente simples, mas
aparentemente controversa nesse caso: o Ministério das Relações Exteriores pôde
exercer seu protagonismo no tocante à política externa brasileira (PEB) entre
1990 e 1992? A julgar pela "impressão geral" que se tem sobre o papel do
Itamaraty, sim. Afinal, ao menos até a conclusão de nossa transição
democrática, um dos mais aventados "pontos pacíficos" da literatura referia-se
ao expressivo controle, por parte do Itamaraty, sobre a condução e, na maioria
das vezes, também sobre a formulação de nossa política exterior (Cheibub
1985)1.
Falar do protagonismo do Itamaraty, por outro lado, é contraintuitivo '
considerando que a literatura existente sobre o assunto aponta que o serviço
diplomático foi marginalizado do processo decisório da PEB de Collor, sobretudo
no que se refere à sua formulação (Batista 1993; Lima 1994; Hirst e Pinheiro
1995; Vigevani e Cepaluni 2011). Devemos, antes de tudo, enfrentar dois mitos
que foram erguidos naquele contexto. O primeiro deles é o de que o corpo
diplomático brasileiro não teve voz nem vez nas determinações da inserção
internacional do Brasil entre 1990 e 1992. O segundo, intimamente ligado ao
anterior, é o de que o americanismo que caracteriza a política externa daquele
governo é função única e exclusiva do presidente da República e de sua
concepção muito particular sobre o papel dos Estados Unidos ao fim da Guerra
Fria. Buscaremos lidar com essas duas questões, tentando encontrar seus
fundamentos, inconsistências lógicas e dificuldades empíricas. Pretende-se, ao
fim e ao cabo, jogar nova luz sobre a relação Estado-diplomacia sob o breve
mandato de Fernando Collor de Mello, mais complexa e nuançada do que sugere o
já evocado "consenso" da literatura.
Este texto será dividido em três partes, que buscarão responder a diferentes
questões acerca das relações entre Itamaraty e o presidente da República. Na
primeira delas, a pergunta-chave é a seguinte: é possível, no caso brasileiro,
pensar a política externa desvencilhada da atuação do Ministério das Relações
Exteriores? Parte-se da hipótese de que, tendo em mente a noção de insulamento
burocrático e a tradição institucional do Itamaraty, remover o corpo
diplomático das decisões de política externa é inviável e incompatível com o
papel histórico por ele exercido como centro de gravidade da política externa.
Não obstante, pode-se alegar que o governo Collor representou algum grau de
ruptura, que deve ser investigado. Como compreender uma "guinada" como aquela
que se observou na política externa brasileira, ao fim da Guerra Fria? Na
segunda seção deste texto, busca-se compreender as transformações da inserção
brasileira à luz das disputas e das dissonâncias dentro do corpo diplomático.
Nesse contexto, as escolhas do presidente Collor, seja em termos dos
personagens que encabeçaram a condução de sua política externa, seja no tocante
aos formatos institucionais que o Ministério das Relações Exteriores assumiu,
diante de um conjunto de reformas, serão colocadas em questão.
A terceira parte ataca a dimensão conceitual da política externa brasileira,
buscando subsídios para compreender a inflexão observada com o governo Collor,
bem como para qualificá-la. Não sendo possível remover os vínculos entre o
Itamaraty e a PEB, se houve algum tipo de mudança paradigmática, ela tem que
ser compreendida no contexto dos mapas cognitivos disponíveis ao corpo
diplomático. Defende-se a ideia de que, ao contrário das análises que situam a
política externa de Collor no extremo americanista do pêndulo paradigmático2
(Batista 1993; Lima 1994), houve uma espécie de americanismo mitigado, quer
dizer, uma inserção que zela pela autonomia do Brasil frente ao sistema
internacional, mas cujo raio de ação está limitado pelos constrangimentos
impostos tanto pelas transformações estruturais em marcha, quanto pelas novas
circunstâncias domésticas ' que, naturalmente, ressoam também sobre a
diplomacia, embora com muito mais vagar.
Política externa sem o Itamaraty?
Busca-se, antes de qualquer outra coisa, enfrentar o argumento do embaixador
Paulo Nogueira Batista, segundo o qual o Itamaraty "não participou ativamente
da formulação da política externa de Collor nem foi tampouco o seu principal
executor. Naquilo que lhe coube executar, teve, porém, graças ao
profissionalismo de seus quadros, atuação minimizadora do custo de algumas
posturas presidenciais" (Batista 1993, 123).
O argumento, da forma como foi colocado, parece polarizar uma chancelaria
altamente profissional a um presidente amador, inconsequente ou voluntarista a
cargo da política externa. Além disso, conduz o MRE às margens do processo
decisório sobre a inserção internacional brasileira daquele período. Isso seria
possível, num contexto como o brasileiro, no qual o Itamaraty tradicionalmente
gozou de ampla autonomia sobre a determinação dos rumos da política exterior?
Defende-se a ideia de que a chancelaria se manteve central nas determinações da
política externa por duas razões: em primeiro lugar, porque não há muitos
meios, sobretudo num contexto democrático, para alijar uma burocracia do
processo decisório. Isso se torna particularmente difícil no caso da política
externa, cuja burocracia responsável por sua formulação e implementação passou
por um formidável processo de insulamento burocrático (Cheibub 1985). Em
segundo lugar, porque os rumos desejados pelo governo Collor não eram, em
princípio, incompatíveis com as linhas-mestras que orientavam, historicamente,
nossa inserção internacional. Mais que isso: olhando-se em retrospectiva,
algumas das posições frequentemente atribuídas ao presidente Collor, como a
abertura econômica, não eram exatamente novas no contexto do MRE, embora tenham
sido impulsionadas pelo novo governo.
A respeito da convergência (mesmo imperfeita) entre os interesses de Collor e
as expectativas do Itamaraty, sustenta Velasco e Cruz (2004) que, não obstante
o "selo" de Collor que marca a abertura neoliberal de sua política externa, a
ele não pode ser atribuída a concepção das transformações em seu sentido lato.
De fato, parece-nos implausível supor que o presidente tenha construído todo um
conjunto de diretrizes para a inserção internacional do Brasil, a partir de um
marco neoliberal, que fora simplesmente replicado pelos diplomatas que
gravitavam ao seu redor. A paternidade atribuída a Collor é certamente
exagerada, de um lado, quando se toca no assunto da liberalização econômica; as
transformações da PEB no período, por outro lado, também são dramatizadas, e
muitas vezes se esquece de que os princípios básicos da inserção internacional
brasileira foram todos respeitados e levados a cabo pela chancelaria, não tendo
o governo Collor sido nenhuma exceção nesse sentido.
A abertura econômica, que muitos atribuirão às vontades neoliberais de Collor
vis-à-vis o nacionalismo do nosso serviço diplomático, já vinha sendo discutida
(de diferentes maneiras) no Itamaraty, e muitas das reformas nesse sentido,
ainda no governo Sarney, foram encampadas pela chancelaria. Lembremo-nos de
que, no auge do contencioso da informática, era justamente o MRE que funcionava
como o contrapeso dos setores mais fortemente protecionistas, buscando uma
agenda positiva com os Estados Unidos. A liberalização comercial, embora levada
às vias de fato no governo Collor, já havia sido gestada na esfera da Comissão
de Política Aduaneira desde 1985, quando começou a se estudar a revisão das
Tarifas Aduaneiras Brasileiras (Velasco e Cruz 2004, 143). As posições,
portanto, não eram novas, mas talvez estivessem esperando o tempo certo para
virem à tona, tendo em mente a lógica e os compromissos possíveis no contexto
do Estado desenvolvimentista.
Uma demonstração ainda mais evidente de que as transformações empreendidas no
governo Collor não eram inéditas pode ser encontrada na postura do primeiro
chanceler de Sarney, Olavo Setúbal. Ele buscou, durante sua curta gestão à
frente do MRE, romper com o paradigma universalista que prevalecia no
Itamaraty. Mesmo que não tenha logrado êxito, frente à resistência da
corporação diplomática, o argumento evocado pelo chanceler muito se assemelha
com aquele apregoado por Fernando Collor meia década mais tarde. Nas palavras
de Vizentini (2003, 66), Setúbal alegava "que o Brasil era um país Ocidental,
que deveria maximizar suas oportunidades individuais, em cooperação com os EUA,
para chegar ao Primeiro Mundo".
A despeito do insucesso inicial de Setúbal (explicada, em parte, pela
recalcitrância do Itamaraty em abandonar uma posição terceiro-mundista que, em
geral, havia sido exitosa), a própria chancelaria deslocou, aos poucos, sua
retórica para o campo liberal ao final do governo Sarney. Isso se deu,
sobretudo, pela voz do secretário-geral de Política Exterior do MRE, Paulo
Tarso Flecha de Lima ' que já argumentava, nos idos de 1988, que "[a]
continuidade do dinamismo do nosso processo de desenvolvimento exige uma
política coerente e gradual de liberalização de importações" (Flecha de Lima,
1988, 101, grifo nosso). Prossegue o embaixador:
A modernização de nossa economia é certamente o caminho para uma inserção mais
construtiva e moderna do Brasil na economia internacional. É também o corolário
natural da sociedade democrática que desejamos consolidar e na qual não seria
possível conciliar a hipertrofia do Estado com a desejável liberdade de ação e
de iniciativa (idem, 105).
A julgar pelas colocações de Flecha de Lima, pode-se perceber que havia certo
flerte com posições mais liberais, em especial nas questões econômicas e nas
relações entre Brasil-EUA. Essas posições foram gestadas, como observado, desde
o início da transição democrática, e não após a chegada de Collor no governo,
interpretação dominante na literatura. Devidamente amparadas pelos segmentos
sociais politicamente relevantes, elas permitiram que de dentro do Itamaraty
também se operasse uma mudança, cuja expressão mais visível foi a guinada de
orientação internacional observada com a chegada de Fernando Collor ao poder.
O respeito às tradições da inserção internacional brasileira, por outro lado,
manteve-se em suas linhas gerais no governo Collor, ao contrário do que sugere
Batista (1993). O primado do direito, que baliza nossa inserção internacional
desde tempos imemoriais, serviu de fio condutor àquela política externa, como
bem nota seu primeiro operador, o então chanceler Francisco Rezek: "[o primado
do direito] nos caracteriza e nos distingue ( ). Eu assumo a chancelaria do
governo Collor, tendo como diretriz dele apenas a fidelidade àquilo que havia
de melhor na nossa política externa e à abertura" (Rezek 2011, grifo nosso).
Talvez o ministro tenha se esquecido de um momento controverso de nossa
participação internacional ' possivelmente o único ', a invasão norte-americana
à República Dominicana, a qual o Brasil não somente apoiou, como dela
participou ativamente. Isso talvez só confirme o fato de que, sob Castello
Branco, se adotou uma política externa excepcional no que concerne às tradições
brasileiras. Não foi, certamente, o caso do governo Collor. Os dois episódios
que potencialmente corresponderiam à invasão dominicana de 1965 ' o auxílio
brasileiro na invasão do Panamá, em 1989, e sobretudo o envio de tropas
nacionais à Guerra do Golfo, em 1990 ' simplesmente não ocorreram, o que
sugere, ao menos no discurso oficial, que o Brasil não estava disposto a
abandonar os princípios de sua política externa no afã de melhorar as relações
com os EUA. Não deixa de ser interessante notar que, desde a eleição de Collor,
o próprio presidente fez questão de repudiar, em nome dos princípios da PEB, o
envolvimento brasileiro nas questões militares norte-americanas. A primeira
delas foi a resposta dada por Fernando Collor, então presidente-eleito, em
entrevista no National Press Club aos 26 de janeiro de 1990, a um jornalista
que lhe havia perguntado se a questão do Panamá interferiria nas relações
bilaterais entre os dois países: "Não há nenhum tipo de empecilho maior no
futuro das nossas relações. O governo, não somente o governo americano como o
governo das nações com as quais nós temos relações sabem da posição do Brasil
de defender ( ) a política de não intervenção".3
O próprio ex-presidente lembra-se dessa passagem, destacando que seu
posicionamento poderia ter conduzido a uma frustração do diálogo com o
presidente George Bush, com quem teria uma audiência no dia seguinte:
Nesse momento nós saímos da entrevista, o ministro Marcílio Marques
Moreira, que era o nosso embaixador em Washington, e o ministro
Rezek, que seria o meu futuro ministro das Relações Exteriores,
estavam apreensivos em função desta resposta e dizendo que em função
disto, talvez o presidente Bush cancelasse a audiência. Ele não
cancelou, no dia seguinte nós tivemos [a audiência], entramos no
gabinete oval e o presidente Bush chegou muito efusivo, me chamando
pelo primeiro nome ( ). Aí começou a dizer: "olha, sobre a sua
entrevista ontem, eu queria explicar essa questão do Panamá " ( ). Eu
disse: "Presidente, olha, eu quero dizer uma coisa, não há a menor
possibilidade do meu governo apoiar qualquer ação armada dos Estados
Unidos, em qualquer parte do mundo, seja a que pretexto for". (Collor
de Mello 2011, grifo nosso)
O teor da conversa parece ter se repetido algum tempo mais tarde, por ocasião
da eclosão da Guerra do Golfo, em agosto de 1990. Diante de nova convocação da
participação brasileira, o presidente Collor teria sido novamente taxativo com
seu contraparte norte-americano, evocando, mais uma vez, o corolário da não
intervenção:
Aí veio a guerra do Golfo em 90, ele ligou pra mim, acho que acabou
esquecendo ou fazendo de conta que não se lembrava da nossa conversa,
pedindo pra que eu mandasse navios ou armas e gente, pessoal militar
lá, pra ajudar na coalizão ( ) e eu disse: "Presidente, o Sr. se
lembra daquela nossa conversa ( )? Não posso fazer nada, nenhum homem
eu mandarei". (Collor de Mello 2011)
Os exemplos dados aqui certamente não esgotam o argumento da convergência
"programática" entre o presidente e o Itamaraty, que sustentam nossa tese de
que não houve marginalização da chancelaria durante o governo Collor. Talvez a
circunstância mais contundente que demonstre o papel do MRE em nossa política
externa do período seja a questão da integração regional, sobre a qual já
falamos, com outros enfoques. O Mercosul, como se sabe, não foi concebido
naquele governo, tendo sido fruto de discussões iniciadas em meados da década
de 1980, sobretudo entre os presidentes José Sarney e Raul Alfonsín. Não se
tratava, contudo, de mera química pessoal: havia, por trás da iniciativa, um
considerável esforço por parte da diplomacia brasileira em tornar o Cone Sul
seu eixo prioritário. E foi justamente no governo Collor que se transformou em
realidade aquilo que era, até o fim da década anterior, um conjunto de ideias e
vontades ' não por iniciativa do presidente, mas por articulação de nossa
"máquina diplomática e econômica", como dirá Rezek:
O Mercosul ( ) era um processo que já fermentava na chancelaria
brasileira, em acordo com as demais [chancelarias, de Argentina,
Uruguai e Paraguai], e quando, enfim, Collor tomou posse, tínhamos
todos [os presidentes] muito empenhados nisso ( ) Vamos por aí e
vamos depressa. E realmente foi depressa ( ). E não há, na realidade,
uma queixa retrospectiva da experiência que foi a fundação do
Mercosul (Rezek 2011).
Se o Mercosul fosse a única alternativa de integração econômica diante do
Brasil, seria até compreensível insistir em sua consecução, mesmo que não fosse
um objetivo particular do presidente da República. Entretanto, havia uma
solução paralela, que vinha sendo negociada pelo governo Bush desde junho de
1990, a Iniciativa para as Américas. Como bem lembra Velloso (1991), o projeto
' apelidado de "Plano Bush" ' tencionava inaugurar um novo momento das relações
entre os Estados Unidos e a América Latina. Parecia claro, naquele contexto,
que o governo Bush desejava redefinir a agenda norte-americana para o
hemisfério, outrora pautada por considerações excessivamente estratégicas e que
levou aquele país a adotar, durante os anos 1980, "uma política em que 90% do
seu tempo, recursos e atenção são dedicados a 10% da região, i.e., à América
Central" (Velloso 1991, 8).
Ora, se a política externa de Collor de Mello nada mais seria "do que a
aplicação ao caso brasileiro da filosofia ultraliberal consolidada no chamado
Washington Consensus" (Batista 1993, 195), por que o presidente, diante de uma
alternativa oferecida pelos Estados Unidos, insistiria no Mercosul? O próprio
embaixador Paulo Nogueira Batista oferece a resposta, sugerindo que "andou bem
Collor em ouvir o Itamarati [sic] e não aceitar discutir a idéia de Bush de
eventual formação de uma Área Hemisférica de Livre Comércio, de contornos mal
definidos" (idem, 198'9).
Como é possível governar sem o Itamaraty, submetendo-se ao Consenso de
Washington e, ao mesmo tempo, ouvir a diplomacia brasileira? O paradoxo está no
fato de que, na visão daquele embaixador, a abertura econômica era sinônimo de
alinhamento automático com os EUA e consequente perda de soberania ' sendo,
portanto, incompatível com os objetivos da política externa. Nada mais distante
da realidade. Abrir-se economicamente, imperativo identificado pelo próprio
Itamaraty alguns anos antes, era fundamental para que o Brasil pudesse fazer
parte de uma nova ordem emergente, em que os objetivos militares eram
progressivamente substituídos pelas questões econômicas. A expectativa de nossa
política externa, no tocante à abertura, era redimir ' como bem nota Rezek '
"aquilo que ainda restava de negativo na imagem brasileira [perante o mundo]: o
fechamento ( ), o hermetismo" (Rezek 2011). A rigor, como se afirmou
anteriormente, abertura econômica não seria incompatível com a política externa
já existente.
Mas não eram todos os diplomatas a pensar da mesma maneira: os debates em torno
da liberalização como prática e do liberalismo como ideologia também tiveram
lugar no Itamaraty, e contribuíram para determinados avanços (e tantos outros
retrocessos) na formulação da política externa do período.
As dissonâncias da política externa brasileira: liberais versus nacionalistas
no MRE
Como vimos na seção anterior, não se deve subscrever à noção de que o Itamaraty
desempenhou um papel "residual" na formulação da política externa do período,
em contraste com uma intensa (e errática) diplomacia presidencial. Grande parte
dessa interpretação deve-se à lógica de que (1) houve mudanças significativas
na política externa do período; (2) se houve mudanças, elas não podem ter sido
gestadas dentro da chancelaria; e (3) se não vieram da diplomacia, a
"paternidade intelectual" das mudanças pertence ao próprio presidente.
Muito embora a personalidade do presidente atue, mesmo que de maneira esparsa,
como uma espécie de calibragem ao serviço diplomático na constituição das
diretrizes de política externa, estamos falando de uma instituição cujo
insulamento é característica definidora, e na qual mudanças ocorrem, por via de
regra, de forma gradual. Valendo-se de uma metáfora sugerida por Allison
(1969), é como se o presidente da República, na condição de chefe de Estado,
fosse uma espécie de quarterback do futebol americano, detentor de um leque de
jogadas previamente estabelecidas, chamando uma delas de acordo com a
estratégia daquele embate específico4. O serviço diplomático seria o restante
do time, agindo não de acordo com as vontades pessoais do quarterback ou de
cada um de seus membros, mas seguindo roteiros fechados, repertórios pré-
estabelecidos, escolhidos em função das circunstâncias e da interpretação dada
a um determinado problema.
Essa analogia resolve, em parte, o problema contrafactual colocado sempre que
se alega, como foi no caso da política externa do governo Collor, que as
mudanças de orientação internacional de um país ocorrem em função de um choque
estrutural: se outro presidente fosse eleito no lugar de Collor, os rumos da
política externa teriam sido os mesmos? Tudo indica que não, uma vez que as
mudanças são fruto de transformações que se sobrepõem nos planos sistêmico/
estrutural, doméstico e burocrático. Por isso mesmo, não atribuímos à política
externa de Collor uma relação determinística com os movimentos tectônicos
causados pelo fim da Guerra Fria. A aproximação do Primeiro Mundo foi uma saída
possível dentro de um conjunto mais amplo de jogadas, que poderiam incluir uma
obstinada manutenção das linhas comerciais com o Terceiro Mundo, ou até mesmo
uma inflexão na direção das nações socialistas, cada vez mais frágeis. Isso não
quer dizer, entretanto, que a alternativa primeiro-mundista ' que
qualificaremos em breve ' estivesse fora das possibilidades: ela simplesmente
foi aquela da qual o presidente lançou mão, diante daquilo que interpretava
como a melhor "jogada".
Se o binômio liberalização econômica/reconstrução de uma agenda positiva com o
Primeiro Mundo (sobretudo com os Estados Unidos) constava no rol de
possibilidades de uma burocracia que define suas próprias possibilidades de
jogo, o que levou insiders como Paulo Nogueira Batista a apontar essa distância
intransponível entre Collor e o Itamaraty?
Defende-se aqui a suposição ' e trata-se, importante frisar, de absoluta
especulação ' de que parte das acusações realizadas pelo embaixador Batista (e
por acadêmicos que, à época, o acompanharam nos argumentos) ao governo Collor,
se não foram pessoais, ao menos refletem a distância considerável que separa
suas visões de mundo acerca do papel internacional do Brasil. As duas áreas
principais das quais Paulo Nogueira Batista se ocupou, ao longo de sua vida
diplomática, foram a questão nuclear e o comércio internacional, alinhando-se
com veemência à retórica universalista do pragmatismo responsável. Suas ideias
nesse campo nos interessam em dois aspectos. Contrastavam, de um lado, com as
visões de mundo esposadas pelo próprio presidente Collor. O interesse deste em
aproximar-se do Primeiro Mundo, sobretudo o privilégio dado aos Estados Unidos,
era visto por Batista como uma "ilusão de ótica", ou até mesmo um
"deslumbramento" (Batista 1993). Da mesma maneira, a postura de Collor a
respeito da questão nuclear desagradava aos militares, com os quais o
embaixador se identificava. A emblemática fotografia na qual o presidente, em 7
de setembro de 1990, joga uma pá de cal (no sentido literal) no poço destinado
a testes nucleares, na Serra do Cachimbo, PA, foi encarada como uma afronta não
somente à autonomia castrense, como também à independência da política externa
brasileira.
Por fim, os chamados "novos temas", como o meio ambiente e os direitos humanos,
também podem ter se configurado como ponto controverso entre o embaixador e o
presidente. Nota um diplomata próximo do governo Collor que, em contraste à
habitual rejeição do governo brasileiro às organizações não governamentais '
sobretudo as ambientalistas, tidas como "instrumentos das potências" ', o novo
presidente criou um canal pessoal de interação com os movimentos sociais
transnacionais. Recebeu pessoalmente, por exemplo, o presidente da Anistia
Internacional ' que era, até então, "recebido pelo terceiro escalão do
Itamaraty"5.
Também nos interessam as ideias de Paulo Nogueira Batista no sentido de
jogarmos luz nas distintas orientações ideológicas que animavam (e dividiam) o
serviço diplomático. Tomaremos a imagem descrita por Velasco e Cruz (2004), que
retrata um Itamaraty cindido ao meio, face à emergência de grupos mais liberais
dentre os quadros de nossa política exterior. Trata-se de uma percepção
controversa, uma vez que os diplomatas, em geral, e até mesmo as análises
acadêmicas mais tradicionais descrevem o Ministério das Relações Exteriores
como um bloco monolítico de interesses. O embaixador Flecha de Lima, contudo, é
capaz de identificar dois agrupamentos distintos, aos quais ele chama de
liberais, no qual ele próprio se inclui, e nacionalistas, "o grupo do Paulo
Nogueira Batista" (Flecha de Lima 2011).
Durante o governo Figueiredo, como vimos anteriormente, o grupo liberal era
representado por Roberto Campos, umas das poucas vozes dissonantes dentro de um
amplo consenso nacionalista que sustentava a política externa brasileira
(Ferreira 2009). Nos anos Sarney, deve-se fazer uma apreciação mais nuançada:
indicações como Olavo Setúbal para a chancelaria, embora não fosse da "Casa", e
Paulo Tarso Flecha de Lima como o "homem forte" do Itamaraty, diante da
Secretaria-Geral, indicavam uma inflexão liberal, muito provavelmente
articulada por Tancredo Neves6. Sem o direcionamento político daquele
presidente, entretanto, o governo de José Sarney acabou se atendo, até mesmo
pelas circunstâncias partidárias, ao pacto nacional-desenvolvimentista, dando
continuidade à orientação universalista da política externa brasileira ' em
respeito, inclusive, aos militares.
Nesse contexto, no qual Paulo Tarso acabou assumindo a posição de chanceler de
facto ' isto é, responsável pela formulação das grandes posições do ministério
', coube a ele resguardar a unidade do Itamaraty em tempos adversos para a PEB.
Assim, mesmo que as visões públicas advogadas pelo secretário-geral
expressassem essa orientação liberal, as linhas gerais da inserção brasileira
passavam por um processo de aprendizagem lenta, que demandaria uma espécie de
catalisador político para se concretizar. As pressões estruturais, exercidas
principalmente pelos Estados Unidos sobre as atitudes mais protecionistas do
Brasil, não foram capazes de, por si próprias, causar uma ruptura.
Pode-se dizer que esse impulso político foi dado pela eleição de Collor, em
1989. Mesmo que o presidente não tenha sido responsável per se pela inflexão na
política externa brasileira, suas intervenções na estrutura do Ministério das
Relações Exteriores, nos limites daquilo que lhe cabia fazer, foram cruciais
para os contornos que a orientação brasileira assumiu no advento da nova ordem
mundial. Em primeiro lugar, as posições defendidas por Collor ao longo do
processo eleitoral, e mesmo na condição de presidente eleito, acabaram criando
focos de resistência às mudanças no cerne do MRE. Tomemos, a título de exemplo,
a explanação de Marcílio Marques Moreira acerca das resistências apresentadas
pelo Itamaraty face à liberalização econômica idealizada ainda no governo
Sarney e, mais especificamente, às transformações desejadas por Collor: "
[Vários] diplomatas, sobretudo no escalão intermediário, ( ) defendiam o status
quo ou mudanças muito graduais. O problema não eram as pessoas em si, muitos
deles brilhantes diplomatas, era a cultura do Itamaraty, ainda impregnada pela
herança dos barbudinhos" (Moreira 2001, 234, grifo nosso).
O próprio tratamento oferecido por Moreira, diplomata de carreira, à cultura
universalista do Ministério das Relações Exteriores ' colocada em termos
bastante próprios da Guerra Fria ' indica a existência de uma trincheira entre
o pensamento liberal, difundido entre alguns diplomatas, e os ideais nacional-
desenvolvimentistas advogados pelo grupo predominante na chancelaria. Mesmo que
esse tipo de divisão não seja particular ao governo Collor, a diferença, nesse
caso, é que a polarização teria sido induzida pelo presidente, e não fruto de
clivagens mais amplas, como era, nos anos 1950, a querela entre nacionalistas e
"entreguistas" no tocante aos rumos do desenvolvimento brasileiro.
Em linhas gerais, a referida alegação sustenta-se no argumento de que Collor
exerceu seu poder presidencial de forma excessivamente personalista. Isso
surtiria, em todos os âmbitos das políticas públicas, o duplo efeito da
concentração de poder num só polo decisório e da marginalização dos espaços
tradicionalmente responsáveis pela formulação política, independentemente de
seu grau de insulamento.
Se tais características são verdadeiras para entendermos, por exemplo, a
indicação da detentora da pasta da Economia, Zélia Cardoso de Mello, que
constituiu sua esfera de atuação sob o olhar vigilante do presidente, a mesma
regra não parece se aplicar plenamente ao Ministério das Relações Exteriores. A
indicação de Francisco Rezek veio, conforme lembra o próprio ex-chanceler, como
uma espécie de apelo a figuras de relativa expressão em suas respectivas
áreas7, "que ele não conhecia, tinha visto de longe", diante da ausência de uma
equipe constituída previamente (Rezek 2011). Parece sensato, portanto, supor
que as relações exteriores foram uma das poucas áreas do Executivo que Collor
não buscou monopolizar quando da formação de seu governo, e a indicação de
alguém de fora da corporação não sinaliza qualquer intenção no sentido
contrário (Lafer 1993).
Por outro lado, o presidente buscou selecionar, dentre os quadros superiores do
corpo diplomático, aqueles cuja trajetória e concepções de mundo estivessem
afinadas a um projeto nacional liberalizante. Essa visão está presente nas
constatações de Sebastião Velasco e Cruz, para quem o Itamaraty não foi
marginalizado, nem obrigado a absorver uma linha exógena de atuação. O que
Collor fez, segundo o autor, "foi intervir no campo fortemente polarizado da
diplomacia, consagrando a vitória do lado que advogava políticas compatíveis
com o discurso já predominante nas elites brasileiras e com a tônica geral de
seu programa de governo" (Velasco e Cruz 2004, 150).
Em avaliação semelhante, e ratificando o que foi exposto acima, Marcílio
Marques Moreira aponta as mudanças ocorridas no alto escalão do governo com a
chegada de Collor ao poder, em particular no Itamaraty:
Pouco depois da posse [de Collor], me telefonou o novo ministro do
Exterior, Francisco Rezek, dizendo que o presidente queria que eu
ficasse. E ficaram muito poucas pessoas, como é sabido ( ). Até nas
embaixadas, onde estavam geralmente embaixadores de carreira, o
presidente mudou vários. Durante a viagem de janeiro [de 1990 ao
exterior, antes da posse], não gostou de alguns e depois trocou: em
Nova Iorque, em Lisboa Foi uma alteração muito profunda (Moreira
2001, 230).
Ressalte-se que a tentativa de fortalecer a face liberal de um Itamaraty
dividido ' e não miná-lo por fora, como sugerem os críticos ' sinaliza que a
instituição gozava de prestígio junto ao presidente. "A eficiência da
corporação diplomática foi frequentemente mencionada por Collor, e diversos
diplomatas foram nomeados em outros ministérios e na assessoria da
presidência", como sugere, ainda que discretamente, a observação de Mello
(2000, 97, nota 14). Tanto é que a figura mais próxima do presidente-eleito
durante o período de transição de governo foi um diplomata de carreira, Marcos
Coimbra, que também era seu cunhado ' casado com a irmã do presidente, Leda
Collor. Ele se transformaria em chefe de gabinete e assessor diplomático do
novo chefe de Estado, assumindo um papel central nas determinações
organizacionais da política externa.
Esse argumento ganha força frente a uma análise mais detida sobre a composição
do quadro mais amplo da política externa de Collor em sua primeira fase (ou
seja, entre a posse e meados de 1992, quando Celso Lafer sucede Rezek no
contexto de uma profunda mudança ministerial). Em primeiro lugar, há duas
figuras do mundo diplomático que orientaram ideologicamente a campanha de
Fernando Collor e sua plataforma de governo. De forma menos intensa, Roberto
Campos, um dos defensores de uma agenda positiva com os Estados Unidos durante
o período militar. Mais próximo do presidente estava José Guilherme Merquior,
diplomata e intelectual público que o ajudou a transpor, para o campo político,
suas ideias acerca do liberalismo social (Merquior 1987), trazido a público em
discursos importantes de Collor, como o de posse e o de sua primeira
participação na abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 1990. Nunca
é demais ressaltarmos que esses dois exemplos ilustram posições muito mais
liberais que aquelas defendidas pelo Itamaraty, em seu papel habitual de
promoção do desenvolvimentismo.
Há, além dos "formadores ideológicos" do discurso de Collor, outras indicações
diplomáticas dignas de nota. Jório Dauster, durante a gestão econômica de Zélia
Cardoso de Mello, foi a ponta de lança da renegociação da dívida externa junto
aos credores norte-americanos. A Marcílio Marques Moreira, figura de fortes
traços liberais (Moreira 2001), coube a continuidade dos trabalhos como
embaixador brasileiro em Washington, interrompido somente em maio de 1991 para
que o diplomata assumisse o "superministério" da Economia. Marcos Castrioto de
Azambuja, por sua vez, defendeu incondicionalmente, à frente da Secretaria-
Geral de Política Exterior do MRE, as noções de inserção competitiva e
modernização viainternacionalização (Azambuja 1991).
Além da inflexão liberal promovida nos escalões mais altos da diplomacia, houve
também uma tentativa de promover a desconcentração do poder político na
chancelaria, por meio de reformas institucionais. Isso se deu, em grande
medida, com o objetivo de evitar um secretário-geral particularmente forte,
como havia sido o embaixador Flecha de Lima. É exatamente em torno dele, aliás,
que gira a principal controvérsia suscitada por Collor em sua relação com a
burocracia do serviço exterior: a famigerada "tripartição" da Secretaria-Geral
do Itamaraty. O Decreto nº 99.261, de 23 de maio de 1990, instituía três
diferentes Secretarias-Gerais: a de Política Exterior, responsável por todos os
Departamentos e suas respectivas Divisões, relacionados às áreas de política
bilateral e multilateral, econômica, de promoção comercial e cooperação
tecnológica, entre outras; a Secretaria-Geral Executiva, incumbida das questões
administrativas da Casa, sob a qual também estava o Instituto Rio Branco; e a
Secretaria-Geral de Controle, à qual couberam todas as atribuições relacionadas
à administração financeira, contabilidade e auditorias. Os três secretários-
gerais, embaixadores Marcos Castrioto de Azambuja (SGPE), Eduardo Moreira
Hosannah (SGE) e Sérgio de Queiroz Duarte (SGC), despachavam com o chanceler
(Castro e Castro 2009, 121).
Os efeitos da tripartição foram imediatamente sentidos e condenados dentro do
Ministério. Nas palavras de Celso Lafer, ao assumir a chancelaria, em maio de
1992, "o Itamarati [sic] estava, do ponto de vista interno, afetado por uma
reforma administrativa, conduzida no primeiro momento do governo Collor por
João Santana, que causou muita polêmica e muito desastre" (Lafer 1993, 274).
Por outro lado, o próprio Secretário da Administração Federal do governo
Collor, João Santana, alega que as mudanças institucionais inscreviam-se em um
amplo "projeto de nova arquitetura organizacional para a administração pública
federal", da qual o próprio presidente-eleito participou "nas etapas
definitivas". Nesse contexto, a criação de três Secretarias-Gerais tinha como
objetivo desconcentrar decisões políticas e administrativas das mãos de uma só
figura, de forma a evitar "a personificação da administração pública, o que é
inconveniente ao seu bom funcionamento" (Santana 2011).
Nesse contexto, existe um grande acordo a respeito de que uma das intenções de
se subdividir a Secretaria-Geral era exatamente evitar um novo Paulo Tarso.
Luiz Felipe Lampreia é categórico a esse respeito: para ele, o embaixador
Marcos Coimbra havia criado "um esquema anti Paulo Tarso" (Lampreia 2010, 117).
Rememorando o processo de mudança institucional, o ex-chanceler Rezek também
subscreve a essa ideia, dizendo que foi concebida antes mesmo do início do
governo, em função da "absorção de poder em sentido horizontal e vertical" da
gestão daquele secretário-geral (Rezek 2011). A tripartição serviria, assim,
para evitar uma concentração de poder que poderia reduzir o controle do
presidente sobre a estrutura do ministério (Lampreia 2010).
Deve-se também levar em conta uma dimensão pessoal por trás das mudanças ' não
de Collor, mas de seu principal assessor diplomático, Marcos Coimbra. O
presidente, aliás, teve a ajuda direta do embaixador Paulo Tarso na
operacionalização do governo de transição, no chamado "bolo de noiva" do
Itamaraty. Sem contar que o ex-secretário-geral do MRE, rigorosamente falando,
pertencia ao grupo "ideológico" com que Collor simpatizava. A questão parecia
estar, como sugere Rezek, no "núcleo familiar" do presidente, "que não morria
de amores" por Paulo Tarso Flecha de Lima (Rezek 2011). Nesse sentido, o
embaixador Rego Barros completa: "o Marcos Coimbra procurou mostrar ao Collor
que ' não, agora é outra coisa. Nós somos pessoas melhores e vamos deixar esse
pessoal" (Barros 2011, 25).
Em todo caso, deve-se notar que poucas mudanças institucionais são tão
unanimemente condenadas como foi a tripartição da Secretaria-Geral. Celso
Amorim, em depoimento ao Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea do Brasil (CPDOC), sintetiza: "Aquilo foi um grande erro que
depois se consertou. Aliás, ainda no governo Collor, porque o próprio ministro
Resek [sic] viu que era impossível operar daquela forma" (Amorim 2003, 18). A
impressão de Amorim é confirmada por Rezek, que acrescenta o fato de que havia
atritos constantes entre os secretários-gerais, gerando problemas dentro da
própria estrutura: "Não é uma boa coisa, três vice-ministros" (Rezek 2011). Por
fim, o próprio ex-presidente faz o seu mea-culpa a respeito daquela mudança
institucional: "Foi um erro. Não deveria ter feito isso. Eu fiz isso inspirado
pelo Marcos Coimbra, que advogava exatamente essa questão de secretaria geral,
era a super-secretaria. Mas isso criou muita confusão" (Collor 2011).
A publicação do Decreto nº 99.578, de 10 de outubro de 1990, consolidou as
mudanças administrativas iniciais da gestão de Francisco Rezek. Pela primeira
vez, um decreto presidencial dispunha sobre a estrutura do MRE até o nível de
Departamento, criando o Departamento de Meio Ambiente (DMA). Castro e Castro
(2009, 125) anotam que essas transformações denotavam um esforço do Itamaraty
em adaptar-se às transformações da agenda internacional, com a inclusão de
novos assuntos, outrora secundários, como o meio ambiente ou a integração
regional.
Na esteira das reformas institucionais, houve também uma alteração
significativa nas regras da carreira, a chamada "expulsória". De acordo com a
nova regra (já utilizada nas Forças Armadas), embaixadores ou ministros, após
15 anos na mesma categoria funcional, sofreriam uma espécie de aposentadoria
compulsória, a partir da qual comporiam um "quadro especial" até a
aposentadoria efetiva, aos 70 anos de idade. De acordo com Manuel Mendes,
tratava-se de uma "forma esdrúxula de aposentadoria ( ), um curioso sistema de
administração de pessoal que não existe em nenhum outro serviço diplomático do
mundo. Os diplomatas nesta situação não exercem função alguma, nem no Brasil
nem no exterior, embora estejam em serviço ativo", passando a integrar o quadro
especial, "que alguns chamam, com sarcástico realismo, de limbo" (Mendes 1995,
128'9).
Por se tratar de uma norma muito específica da carreira, a "expulsória" não é
frequentemente trazida à tona no rol de mudanças institucionais, embora os
diplomatas de carreira ressintam-se abertamente dela. Em depoimento ao CPDOC, o
embaixador Luiz Felipe Lampreia faz menção a ela, tratando-se de uma "regra
nova e terrível" (Lampreia 2010, 117). Sebastião do Rego Barros, em entrevista
semelhante, considera a nova legislação "[u]ma bobageira. E a coisa muito
malfeita. Não é nada respeitável" (Barros 2011, 25).
Devemos dizer, brevemente, o que essas mudanças significaram no momento e nas
circunstâncias em que elas foram implementadas. Pode-se observar, pelos
depoimentos e pela argumentação expostos, que várias alterações foram
realizadas sem muita certeza dos efeitos que causariam ' redundando em
equívocos ' mas inspiradas, de alguma forma, pelo desejo de promover uma
inflexão ideológica que alinhasse o Itamaraty às visões de mundo advogadas pelo
novo governo. Ao contrário do que reza a lenda, a diplomacia não foi
marginalizada, mas reconfigurada ' dentro dos limites de intervenção do
presidente sobre uma estrutura burocrática bastante fechada. É como se o
quarterback, além de cantar a jogada, pudesse escalar parte do time. Por outro
lado, as mudanças propostas por Collor, porquanto limitadas, não causaram, nem
de longe, um abalo sísmico no seio do serviço diplomático. E a política externa
do período, como se quer sugerir, representou uma síntese entre o desejo de
modernização, de abertura econômica, e a busca pela autonomia de inserção
internacional, fio condutor do Itamaraty e uma de suas mais importantes
tradições.
Reflexões finais: que tipo de alinhamento?
Resta-nos, portanto, perguntar que tipo de alinhamento emergiu durante o
governo Collor. O período entre 1990 e 1992 foi reflexo direto de uma "tripla
transformação" que acometeu o Estado brasileiro ao longo da década anterior, no
tocante à produção de sua política exterior. Em primeiro lugar, caíram por
terra as bases nacional-desenvolvimentistas que orientaram a inserção
internacional do Brasil ao longo dos últimos governos militares. Segundo, o
regime político sob o qual o País fora conduzido por mais de 20 anos, com
fortes resquícios da Nova República adentro, também se reconfigurava,
afirmando-se legitimamente democrático a partir da primeira eleição
presidencial direta, em fins de 1989. Por fim, a mudança da ordem internacional
' de uma estrutura bipolar aparentemente estável para uma não ordemcom o ocaso
da União Soviética e a implosão do Terceiro Mundo como bloco de poder ' impôs a
necessidade de reorientação internacional em especial aos países
semiperiféricos, como parecia ser o caso do Brasil.
A fórmula do universalismo, aplicada de maneira absolutamente pragmática a
partir do governo Geisel, parecia uma estratégia de grande alcance, bem-
sucedida ' que seus sucessores, parte ou não da corporação militar, fizeram
questão de continuar. O problema, como se vê, é o progressivo distanciamento
entre as estratégias previamente definidas e as necessidades objetivas do País,
num contexto de mudanças profundas. Voltando aos termos de Allison (1969), o
processo de aprendizagem organizacional, sendo usualmente mais lento que as
transformações que ocorrem fora de sua estrutura ' e incorporando-as de forma
seletiva ', acaba gerando dissonâncias entre os componentes estrutural,
societário e burocrático da política externa ' ou, em outras palavras, uma
"carência de foco" (Lafer 1993, 274).
Nesse contexto, as mudanças empreendidas pelo presidente Collor ao seu alcance
imediato, ou seja, a inflexão promovida em favor de quadros mais liberais, bem
como a reforma administrativa que reduziria o poder do secretário-geral,
serviram para dar sentido a um tipo de orientação internacional que preenchia e
conformava-se ao seu projeto neoliberal de modo mais amplo. Ou seja, não se
pode dizer que Collor simplesmente embaralhou as cartas do Itamaraty na
esperança de enfraquecer a corporação, alijando-a de forma derradeira do
processo político. Havia, sim, um desejo de coerência, cujos resultados podem
ser observados no decurso daquele governo.
Por isso mesmo, quando Batista (1993, 108) afirma que "[t]rata-se de uma
política externa profundamente vinculada à visão de mundo e ao projeto nacional
de Collor", isso não deve induzir a uma interpretação de que os quadros
diplomáticos ficaram à margem do processo. Só seria cabível levar o raciocínio
para esse lado se houvesse uma distância ontológica intransponível entre o
serviço diplomático brasileiro e o Presidente da República ' o que, como vimos,
não se sustenta. Nesse sentido, não parece sensato alegar que o último
conseguiu impor sua agenda externa em sua quase totalidade sobre o primeiro '
havendo, pelo contrário, uma recomposição de forças (mesmo que paulatina)
dentro do Ministério.
De toda forma, o tipo de orientação internacional que se configurou com a
chegada de Collor ao poder não nos parece rumar para o extremo do pêndulo em
que se conjuga o binômio americanismo/subordinação, como sustenta a maioria das
análises (Batista 1993; Lima 1994; Hirst e Pinheiro 1995). Acompanhamos, aqui,
a interpretação de Arbilla (2000), para quem a atualização da agenda externa
brasileira, no despertar do novo governo, não foi acompanhada por uma mudança
mais profunda dos quadros conceituais da política externa em termos
paradigmáticos. Aquele tipo de alinhamento automático com os EUA,
característico da Guerra Fria, que se mostrava até mesmo como um imperativo
ideológico, não encontrava mais espaço no contexto da inserção internacional
brasileira. Quer dizer, não se tratava de uma jogada possível dentro do leque
de alternativas que se apresentava.
Se houve algum tipo de inflexão, contudo, isso se deve não necessariamente a
uma diplomacia presidencial intensa, mas a contradições dentro do próprio corpo
diplomático. Collor soube jogar com elas, superando a inércia universalista, no
sentido de flexionar sua política externa ' devidamente amparado pelo serviço
diplomático ' rumo a uma inserção internacional mais positiva. O resultado,
partindo de tudo que já tratamos, pode ser pensado como uma espécie de
americanismo mitigado, abrandado pela própria dimensão burocrática,
especialmente central no caso de nossa inserção exterior.
Nesse sentido, o governo Collor perseguiu uma síntese entre os paradigmas
tradicionais, assegurando a busca histórica de nossa política externa pela
autonomia e mantendo as linhas fundamentais daquilo que se entende como o
"repertório permanente" da PEB (Mello e Silva 1995), em particular a diplomacia
parlamentar/multilateral e a não intervenção em assuntos domésticos de outras
nações. Coloca-se em evidência, assim, uma estratégia em que planos regional e
global complementam-se, tomando como base a abertura econômica e a afirmação da
democracia como fonte de legitimação e, ao mesmo tempo, de projeção de poder.
Destarte, o investimento no Mercosul como forma de projetar economicamente a
região, o alinhamento condicionado ao Primeiro Mundo (em particular aos Estados
Unidos) e a rejeição completa do projeto nuclear advindo do regime anterior são
compreendidos a partir deste novo marco conceitual que busca tornar inteligível
esse período curto, embora fundamental, da política externa brasileira.