Protocolos de Montreal e Kyoto: pontos em comum e diferenças fundamentais
Introdução
O Protocolo de Montreal, criado em 1987, e o de Kyoto, de 1997, são tratados
internacionais de grande porte. O primeiro, com 191 signatários, e o segundo,
174. Ambos dizem respeito à defesa do meio ambiente, evitando que atividades
humanas (antrópicas) inviabilizem a vida sobre a Terra, poluindo-a e
degradando-a. Mais recentemente, os Protocolos tratam de gases que provocam
aquecimento global, embora diferentes, e de maneira distinta também.
Representam uma resposta internacional às conseqüências do modelo adotado de
desenvolvimento industrial. Crescimento acelerado do setor produtivo e que,
mesmo sob forma de ciclos de expansão ou desaceleração da atividade econômica,
faz uso intensivo de matérias-primas fósseis para gerar energia e insumos para
as plantas industriais.
O crescimento industrial, sobretudo após a II Guerra Mundial, trouxe consigo
elementos indesejáveis que resultaram em poluição atmosférica e degradação
ambiental, provocadas pelo uso de combustíveis fósseis e seus subprodutos
gasosos. Como são os gases que dispõem de propriedades físico-químicas
propícias à interação com a atmosfera, formada por gases também, é a matéria
sob forma gasosa e combinada a que mais afeta a biosfera, que é o conjunto de
todos os ecossistemas da Terra.
Ademais, salvar o planeta Terra de agentes nocivos tem sido uma bandeira dos
movimentos ambientalistas, desde os anos 70, cujas atividades, às vezes
exageradas, foram acolhidas, pela mídia e pela sociedade, como "uma boa causa a
adotar e a seguir por todas as nações". Considerada atitude politicamente
correta a se assumir na prática, a ideologia ambientalista moldou o pensamento
em vários países, capitaneado pelos partidos políticos verdes.
Como as questões negativas da utilização dos gases-alvo dos dois protocolos
impactam fortemente a saúde pública e o meio ambiente, cabe aos governos
resolvê-las. É o Estado o responsável por esses dois setores, portanto, pela
elaboração de políticas públicas que os defendam contra os seus agressores.
Como a atmosfera é universal e os problemas causados por esses gases não são
restritos a territórios ou nações, a necessidade de acordos internacionais sob
a égide das Nações Unidas tornou-se imperiosa. Assim, os Protocolos de Montreal
e de Kyoto foram criados para promover o controle do uso de alguns gases
nefastos à vida e ao meio ambiente.
Que as razões científicas têm um denominador comum, pois controlam gases
poluentes e a necessidade de proteger a vida contra os agentes nocivos, é
consenso mundial, são as questões político-econômicas que estão na origem das
diferenças, com ênfase no setor energético. Questões estas que resultam de
política interna dos países industrializados, extrapoladas para a política
externa e que ganham repercussão internacional. Este trabalho expõe algumas
diferenças entre os dois protocolos, e tenta discuti-los à luz da literatura
disponível. Inicia com a apresentação deles para que os pontos comuns sejam
evidenciados, aponta as diferenças, enfatizando as componentes político-
econômicas e pretende atualizar as informações sobre as ações executadas no
Brasil.
Protocolo de Montreal
O Protocolo de Montreal é um tratado internacional visando a substituir as
substâncias que demonstraram reagir quimicamente com o ozônio na parte superior
da estratosfera, as Substâncias Destruidoras da Camada de Ozônio (SDOs), como
os grupos Clorofluocarbonos (CFCs), Halons, Tetracloretos de Carbono (CTCs) e
Hidroclorofluorcarbono (HCFCs), emitidas em todo o globo, a partir dos
processos de industrialização. Entrou em vigor em 1/1/1989 e sofreu emendas nas
reuniões de Londres (1990), Copenhague (1992), Viena (1995), Montreal (1997) e
Pequim (1999).
O Fundo Multilateral (FML), criado em 1990, viabiliza o cumprimento do
Protocolo. É administrado por um Comitê Executivo e suprido por países
desenvolvidos. Os projetos apoiados pelo FML são executados em múltiplos países
com a colaboração de agências internacionais das Nações Unidas: a dedicada ao
Desenvolvimento, PNUD; ao Meio Ambiente, PNUMA; e à indústria, UNIDO, além do
Banco Mundial.
Problemas com a Camada de Ozônio
A Camada de Ozônio é um "cinturão" de gases situado entre 10 e 50 km acima da
superfície da Terra. No nível do solo, o ozônio é um poluente, mas na atmosfera
superior, a estratosfera, protege as pessoas, animais e plantas, filtrando os
prejudiciais raios ultravioletas (UV) do Sol. Nos anos 70, detectou-se o buraco
na Camada de Ozônio sob a Antártica e em seguida no Pólo Norte.
Em 1985 o buraco na Camada de Ozônio foi considerado um problema ambiental para
a comunidade internacional. Embora aparecesse sobre uma área relativamente
desabitada, a sua descoberta foi crucial para a percepção pública sobre os
problemas ambientais, porque, pela primeira vez, a ciência e as observações
confirmaram o que eram especulações.
Segundo as pesquisas atuais, as substâncias que destroem a Camada de Ozônio são
produzidas pelo homem e dividem-se nos seguintes produtos químicos: CFC-11,
CFC-12, CFC-13, CFC-14, CFC-15; Halons, HCFCs e Brometo de Metila. Os CFCs são
usados como propelentes na fabricação de aerossóis; em espumas; plásticos; ar
condicionado, serviços de refrigeração, como agentes de processo e nos setores
de solventes, e de uso em medicamentos (inaladores de dose medida).
Com a revolução patrocinada pelo avanço científico em Química e as
possibilidades abertas para a sua aplicação por vários segmentos do setor
produtivo, os gases CFC se tornaram insumos fundamentais para a indústria,
desde a década de 30 do século XX, por serem baratos, quimicamente estáveis,
não tóxicos, e com grande capacidade de absorver calor. No auge da era da
sociedade de consumo do pós-guerra, sobretudo a americana, com o acesso de um
contingente enorme de pessoas ao mercado de bens duráveis, e a expansão do uso
de refrigeração, tanto doméstico quanto industrial, o emprego dos CFCs aumentou
consideravelmente. Esses gases contribuíram para moldar o padrão sócio-
econômico do pós-guerra, permitindo o enorme crescimento do mercado de consumo.
Se por um lado, a indústria se beneficiava com a utilização dos CFCs que
permitia a expansão do mercado de consumo e do comércio de bens não duráveis,
por outro lado, descobriu-se que os clorofluorcarbonos tinham um efeito
colateral extremamente adverso aos seres vivos e agrediam o meio ambiente.
Observou-se que se misturam à atmosfera, alguns atingindo a estratosfera, onde
são dissolvidos em cloro livre pela radiação ultravioleta solar de alta
energia. Por meio de interações complexas, esses átomos de cloro reagem com o
ozônio, decompondo milhares de moléculas de ozônio para cada átomo de cloro.
A perspectiva do aumento de doenças sérias levou os políticos a criarem um
acordo internacional para a substituição das SDOs. Inicialmente, para reduzir à
metade o consumo dos CFCs em relação ao de 1986 e depois bani-los.A cooperação
surtiu efeitos: a produção total de gases CFC de 1996 foi inferior a de 1960. A
abundância combinada total de compostos que esgotam ozônio na atmosfera foi
recorde em 1994, e a previsão era que a concentração do cloro e bromo
consumidores de ozônio atingiria o pico na estratosfera antes de 2000, com a
Camada de Ozônio lentamente se recuperando nos próximos 50 anos.
Entretanto, no Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozônio em
2008, a Organização Mundial de Meteorologia (OMM) advertiu que as mudanças
observadas na estratosfera poderiam retardar a reconstituição dessa camada,
apesar do reconhecimento que o Protocolo de Montreal proporcionou para a
diminuição do desgaste. Em 16/9/2008, o buraco da Camada de Ozônio se espalhava
por 27 milhões de km² e foi de 25 milhões de km² em 2007. A OMM afirmou, nesta
ocasião, que os cientistas estão cada vez mais convencidos da relação entre a
diminuição da camada de ozônio e a mudança climática e se expressou assim: "O
aumento dos gases do efeito estufa na atmosfera contribuirá para um aumento das
temperaturas na troposfera e na superfície do globo, enquanto será produzido um
efeito de esfriamento na estratosfera, altitude na qual está a camada de
ozônio."1
Protocolo de Montreal no Brasil
O Brasil aderiu à Convenção de Viena de 1985 para a Proteção da Camada de
Ozônio, e do Protocolo de Montreal das Nações Unidas é signatário desde 1990.
Conforme este Protocolo, países desenvolvidos que historicamente consumiram
mais SDOs, financiam a erradicação dessas substâncias em países em
desenvolvimento. O Brasil recebe aporte do FML desde 1993. O fundo não apóia
pesquisa, apenas conversão industrial.
Como o consumo anual no Brasil das substâncias controladas listadas no Anexo-
A do Protocolo foi inferior a 0,3 kg per capita, o País foi classificado como
parte operacional sob o Parágrafo-1, Artigo 5 do Protocolo de Montreal,
qualificado para uma programação especial de redução e para receber assistência
técnico-financeira, inclusive envolvendo transferência de tecnologia.
A Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde iniciou
ações de controle, regulamentando (Portaria 01/10.08.1988) informações em
rótulos de embalagens de aerossóis livres de CFCs. O Governo Federal criou o
Grupo de Trabalho do Ozônio (GTO) via Portaria Interministerial 929 de
04.10.1991, facilitando a implementação do Protocolo. O Ministério da Saúde
proibiu a produção e a venda de cosméticos, perfumes, produtos higiênicos e
sanitários domésticos sob a forma de aerossóis contendo clorofluorcarbonos.
A Portaria nº 4 de 11/1/1993 obrigou produtores, importadores, exportadores e
usuários de substâncias sob Anexo A, B e C do Protocolo de Montreal a se
registrarem no Ibama. O GTO elaborou o Programa Brasileiro para Eliminação da
Produção e do Consumo das Substâncias que Destroem a Camada de Ozônio (PBCO)
lançado em 7/1994 focado nas atividades de conversão industrial e análise de
todos os segmentos produtores e usuários. A partir da experiência do PBCO,
aprovou-se a Resolução13/1995 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama)
que concentrou as prioridades da participação do Brasil sobre a conversão
tecnológica industrial para a eliminação dos CFCs. Neste mesmo ano, o Governo
Federal instituiu o PROZON, o Comitê Executivo Interministerial para a Proteção
da Camada do Ozônio, tendo como coordenador, o Ministério do Meio Ambiente.2
As ações do Governo correspondem ao estabelecimento de quota de redução via
altas taxas federais e estaduais para todos os produtores locais, com
limitações graduais e banimentos sobre a importação das SDOs. Até 1995, o
Brasil era um dos principais consumidores de gases que prejudicam a Camada de
Ozônio. Até 2005, mais de 200 projetos foram aprovados no Brasil pelo Protocolo
de Montreal, a fundo perdido, resultando na eliminação de 95,4% do consumo de
CFC no País, conforme relatório 2007 do MMA.
O Plano Nacional de Eliminação dos Clorofluorcarbonos de 2002 destinou-se à
eliminação do uso dos CFCs em todos os setores até 1/1/2010. Possibilitou o
treinamento de técnicos "refrigeristas"; o combate ao comércio ilegal de gases
destruidores da Camada de Ozônio via treinamento de oficiais de alfândega e de
técnicos do IBAMA e a eliminação do uso dessas substâncias no setor
farmacêutico.3 Ademais, ações específicas conjuntas do Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento com a Agência de Vigilância Sanitária e o
Ibama concentram-se na eliminação do Brometo de Metila até 1/1/2015.
Baseado na Lei 10.165/2000, na Resolução do Conama 267/2000 e na Instrução
Normativa Ibama 37/2004, o governo Brasileiro regula e controla toda a
produção, comercialização e consumo de substâncias controladas pelo Protocolo
de Montreal. O Brasil assumiu compromisso com a Secretaria do FML de consumir
420 toneladas de CFC em 2008 e apenas 74 toneladas em 2009.
A produção e o consumo de HCFCs será congelada nos níveis de 2013, a partir de
2016, com eliminação em 2040. O Brasil realizou em 2008 um diagnóstico do setor
de HCFCs com indicação de consultores e colaboração da indústria nacional4. Foi
lançada também Consulta Pública à Proposta de Instrução Normativa do IBAMA que
regulamenta a restrição de importação do HCFCs.5 O Tetracloreto de Carbono
(CTC), empregado no processo de produção do cloreto de polivinila (PVC), tem
uso controlado pelo Protocolo de Montreal como agente de processo e não como
matéria-prima. O Brasil deixou de produzir CTC em 2004.
Em novembro de 2008 foi realizada uma reunião do Comitê Executivo do Protocolo
e das Partes do Protocolo de Montreal em Doha que tratou da eliminação das
SDOS; o cumprimento das metas; além da definição de recursos financeiros do FML
para os projetos piloto e foram aprovados US$ 490 milhões para o triênio 2008-
2011 para o FML financiar projetos de países fora do Artigo 5.
Protocolo de Kyoto
Acordo internacional que fixa metas para limitar a poluição pela queima de
combustíveis fósseis causadoras do efeito estufa. Durante a Conferência Rio92
da ONU sobre Meio Ambiente, mais de 200 países adotaram a Convenção-Quadro das
Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que entrou em vigor em 1994.
Conferências anuais das Partes se seguiram, culminando com a assinatura do
Protocolo de Kyoto em 1997.
O Protocolo prevê uma redução total das emissões de 5,2% entre 2008 e 2012 em
comparação aos níveis de 1990. Apenas 42 países industrializados do Anexo I do
Protocolo6 estão sujeitos a essas metas que variam de um signatário para outro.
Os países da União Européia têm que cortar as emissões em 8%, enquanto o Japão
se comprometeu com 5%. Países em desenvolvimento não tiveram de se comprometer
com metas específicas. Como signatários, no entanto, precisam manter a ONU
informada sobre seu nível de emissões, bem como devem buscar o desenvolvimento
de estratégias para tratar as mudanças climáticas.
Os Estados Unidos não ratificaram o Protocolo, ao contrário da Rússia que
permitiu que a cláusula de adesão7 fosse satisfeita para o tratado poder entrar
em vigor em 16/2/2005. Ratificado por 36 países do grupo dos mais ricos, o
Protocolo de Kyoto limita emissões dos seis gases que provocam o efeito estufa:
o metano (CH4); o óxido nitroso (N2O); o hidrofluorcarbono (HFC); o
perfluorcarbono (PFC); o hexafluorsulfúrico (SF6) e o gás carbônico (CO2).
Além da redução interna, os países têm mais três alternativas: investir em
projetos de redução em outras nações do Anexo I; comprar créditos de carbono em
bolsas mundiais que comercializam esse produto; ou alocar recursos em projetos
de mitigação de poluentes em países em desenvolvimento, no âmbito do Mecanismo
de Desenvolvimento Limpo, o MDL.8
Os países também podem ganhar créditos por atividades que aumentem a sua
capacidade de absorver carbono, como o plantio de árvores e a conservação do
solo. O Acordo de Marrakech, que regulamentou o MDL, criou um potencial de
mobilização de recursos para projetos de redução de emissões de GEE ou
reflorestamento.
Como os países da OCDE são os que necessitam diminuir suas emissões, são eles
os compradores em potencial de créditos de carbono, enquanto que os países em
transição econômica podem ser anfitriões de projetos de implementação conjunta,
como a Ucrânia, Rússia e Romênia.
O total que o mercado de emissões pode gerar até 2012 é de US$ 50 bilhões. Até
12/2007, 49 países tiveram 860 projetos MDL em andamento, enquanto 2000
aguardavam análise. O MDL evitou a emissão de 100 milhões de toneladas de CO2.
Todavia, um estudo realizado pelo grupo internacional que examina as
metodologias empregadas para gerar créditos de carbono, após análise por
amostragem de 100 desses 860 projetos, apontou que até 50% dos projetos em
curso podem ter sido "maquiados" para aprovação.9
Blüchel afirma:
"(...) quem pensa continuar a impregnar a Terra com CO2 até o fim, a
ele é oferecido uma solução elegante por esses guardiões verdes da
virtude - ele pode comprar créditos. Como funciona este comércio
moderno de indulgências? Muito simples: compra-se certificados de
emissão de dióxido de carbono. Os preços para este comércio de
pecados são diferentes: para grandes pecados paga-se um pouco mais,
para pequenos um pouco menos. O dinheiro gasto na indulgência, por
exemplo, por um fabricante de automóveis ou um fornecedor de energia,
é adicionado na fatura, de modo que nestes negócios duvidosos ninguém
fica sem lucro."10
Dentre os compromissos do Brasil junto à Convenção-Quadro das Nações Unidas
sobre Mudança do Clima está o de desenvolver e atualizar, periodicamente, o
Inventário Nacional de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito
Estufa, cobrindo os setores de energia; processos industriais; uso de
solventes; agropecuária; mudança no uso da terra e florestas; e tratamento de
resíduos. Este inventário contabiliza as emissões antrópicas por fontes e
remoções por sumidouros dos gases de efeito estufa não controlados pelo
Protocolo de Montreal, além de fornecer uma descrição geral das providências
para implementar a Convenção.
O documento contendo tais informações é chamado de Comunicação Nacional11. Em
2006, o setor de transportes, em especial o rodoviário, foi o que mais
contribuiu para as emissões no Brasil (42%); seguido pela indústria (30%); a
geração de eletricidade e o setor energético (15%) e o agropecuário com apenas
4,5.12
O 1º inventário brasileiro de emissão dos gases do efeito estufa foi divulgado
em 2004 com dados de 1990-94. O 2º, concluído em 12/2008, cobre de 1995 a 2000,
portanto, com 8 anos de defasagem entre os dados e sua publicação. Estes
documentos apontam que a área de maior complexidade corresponde ao uso da terra
e florestas, com 75% das emissões brasileiras registradas na primeira contagem
do inventário. Nesses inventários não se incluiu as atividades da marinha
mercante, por exemplo, de interesse do comércio internacional e cujos estudos
revelam grandes emissões de CO213, tampouco a emissão das capitais com 50% da
população brasileira. Sem o conhecimento dos gases poluentes que chegam à
atmosfera e para onde vão, como e com quais se combinam, não se terá
informações precisas sobre as emissões globais de GEE.14
A propósito, a Secretaria de Meio Ambiente e a Companhia de Tecnologia de
Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo decidiram concluir até 2010 o
inventário das emissões paulistas de GEE para subsidiar o estabelecimento de
metas globais ou setoriais pelo Estado. O setor energético definiu em 20% a
redução das suas emissões de CO2 para 2020. Desta forma, entendem contribuir
com o novo regime internacional no Pós-Kyoto, que exigirá metas dos países
emergentes.15
Líderes no comércio de créditos de carbono
Brasil, China e Índia apresentam o maior número de iniciativas de MDL
registradas no organismo da ONU que coordena essas atividades. Apesar de ter
sido pioneiro em aprovar um projeto MDL, o Brasil vem perdendo posições no
ranking internacional do mercado de carbono. Por possuir uma matriz energética
limpa16, baseada em hidroeletricidade, que não emite quantidade importante de
CO2, o Brasil fica em desvantagem em relação a outros países de grande dimensão
e economias crescentes, e que utilizam nas suas matrizes energéticas fontes de
origem fóssil.
Projetos de geração de energia limpa para as nações com matrizes energéticas
baseadas em combustíveis fósseis são os que apresentam os melhores resultado
para ajudar no cumprimento das metas estabelecidas no Protocolo de Kyoto.17 A
Índia assumiu a liderança, ficando o Brasil na 4ª posição em número de projetos
com reduções certificadas de emissões. Os dados são do Banco Mundial, e
divulgados em 26/3/2007 pelo especialista em Meio Ambiente do BIRD, Werner
Kornexl, no seminário internacional "Mercado de reduções de emissões" promovido
pela Comissão de Valores Imobiliários. O Brasil tem 94 projetos registrados e
118 aprovados na Convenção-quadro das Nações Unidas para Mudanças Climáticas,
enquanto que a Índia tem 187 registrados.
Além disso, o mercado movimentou US$ 3 bilhões em 2006. Os projetos brasileiros
de MDL giram em torno de 100 mil toneladas por ano, considerado pouco pelo
BIRD, e por isso, menos atrativo para os compradores. Ao Banco interessa
projetos de 500 mil toneladas ao ano. O potencial deste mercado é de 1,5
bilhões de toneladas, pouco menos da metade dos projetos de MDL aprovados até
então, completa Kornexl.
A ONU avaliou que os países industrializados estão fora da meta de redução.
Apenas 4 países da União Européia têm chance de cumpri-las, e prevê o pior para
2010: aumento de 10% em relação a 1990, com queda total de emissões de CO2 de
3% entre 1990 e 2000, mas devido ao declínio econômico das ex-repúblicas
soviéticas e mascarando aumento de 8% nas emissões entre os países ricos.
Responsável pela emissão de mais de 25% do CO2, os EUA se retiraram das
negociações sobre o Protocolo de Kyoto em 2001, alegando que a sua
implementação prejudicaria a economia americana. Um dos argumentos é que não há
exigência sobre os países em desenvolvimento para reduzirem as suas emissões18.
O Presidente Bush comentou concordar com as reduções por meio de medidas
voluntárias e novas tecnologias no campo energético.
Entre as grandes economias em desenvolvimento, China e Índia também ratificaram
o protocolo, mas como países em desenvolvimento, com todos os direitos a que
fazem jus no âmbito desse Protocolo, o que deixou o governo americano
insatisfeito, sobretudo em relação àqueles que têm no carvão mineral, a sua
principal fonte de energia para movimentar economias em expansão, como a China,
esta agora a 3ª economia do mundo, atrás dos EUA e do Japão.
A Austrália aderiu ao Protocolo de Kyoto em 3/12/2007, o que expôs mais ainda a
posição desfavorável de Washington perante o mundo. Segundo a delegação
americana presente à Conferência do Clima em Bali em 12/2007, os EUA não
prejudicarão as negociações sobre o acordo para substituir o tratado que expira
em 2012.19
Divulgação dos Protocolos de Montreal e de Kyoto
Se nos anos 80, o buraco da Camada de Ozônio ganhou repercussão internacional
como ameaça aos seres vivos, a partir da década de 90 foi o aquecimento global,
causado pelos gases do efeito estufa e as mudanças climáticas que ganharam a
página principal dos noticiários mundiais com ameaças à vida. Graças a isso, a
sociedade tem muito conhecimento sobre o Protocolo de Kyoto quase nenhum sobre
o de Montreal.
Por iniciativa dos Governos dos EUA e Grã-Bretanha, foi criado em 1988, o
Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), subordinado ao
Programa Ambiental da ONU (PNUMA) e à Organização Meteorológica Mundial (OMM),
também da ONU. O Painel tem por missão avaliar informações científicas,
técnicas e sócio-econômicas visando a entender riscos induzidos pelas mudanças
climáticas, seus potenciais impactos e opções para mitigação e adaptação. O IV
Relatório do IPCC de 02/2007, culpando o homem como responsável pelas mudanças
climáticas globais, impactou fortemente sobre a comunidade internacional, os
formadores de opinião e os tomadores de decisão nos Governos.20
Devido a um verão seco e com altas temperaturas nos Estados Unidos em 1988,
cientistas reagiram sobre os riscos de um aquecimento global. Políticos se
somaram a este grupo, culminando com o Premio Nobel da Paz dado a Al Gore e ao
IPCC em 2007. Em 1989, 700 cientistas assinaram uma petição apresentando o
aquecimento climático como ameaça à humanidade, e apelaram aos governos para
reduzir a emissão de CO2. Além de alguns climatologistas, os signatários eram
na maioria politólogos, juristas, economistas, filósofos. Uma composição
semelhante está preservada até hoje no Painel do Clima da ONU composta por 2500
membros. Blüchel continua:
"...os anos seguintes pareciam indicar que a suspeita do aquecimento
da Terra poderia ser justifica: a partir dos anos 80 do século XX,
...Este desenvolvimento climático encaixou-se otimamente no conceito
dos profetas de catástrofes e logo foi avaliado como precursor dos
cenários de horror do CO2 prognosticados. Quase ninguém procurou por
outras causas, e quando o fez, o público levado em uma determinada
direção, praticamente não deu atenção."21
Ainda segundo Blüchel, o movimento que culminou na criação do IPCC teve a
iniciativa do lobby da indústria nuclear. A petição já continha o apelo para
revisão do futuro desse tipo de energia pois usinas nucleares praticamente não
liberam CO2. Assim, após a desativação de muitas usinas nucleares na Europa,
principalmente na Alemanha, estas passaram a ser uma alternativa verde no mundo
inteiro, tornando-se elegíveis para substituição da fonte fóssil.
Para entender o papel do IPCC, é importante saber que as mudanças climáticas
têm duas naturezas distintas e nem todas causam aquecimento climático. Uma
relacionada à variabilidade natural do clima, responsável pelas diversas eras
glaciais, antes mesmo da presença do homem na Terra. Desastres naturais
causaram grandes catástrofes, como a erupção de vulcão na Indonésia há 75 mil
anos, com emissão de quantidades enormes de CO2 na atmosfera e cuja cinza
vulcânica, quando reagiu com água, eliminou muitos seres humanos por
envenenamento. Ademais, o efeito estufa natural permite a vida sobre a Terra
conservando uma temperatura média adequada. A outra forma de mudanças
climáticas é produzida pelas atividades do homem no uso da terra ou em
atividades industriais, portanto, antrópicas. Os desastres naturais que
presenciamos resultam da ação combinada dessas duas modalidades. Qual a origem
delas e como agem em conjunto? A ciência ainda não tem respostas.
O IPCC analisa os trabalhos científicos que têm origem apenas nas atividades
antrópicas. Pesquisadores com formação variada estudam o efeito estufa e
abastecem o IPCC com informação. Isto faz com que os trabalhos do Painel sejam
incompletos para mostrar a realidade das mudanças climáticas globais. Além
disso, mais de 90% dos artigos aceitos pelo IPCC, que não é uma sociedade
científica, mas tem caráter intergovernamental, e por isso segue orientação
política de governos, são de autores de países desenvolvidos, mesmo quando
trata de assunto do hemisfério sul, com uma parcela insignificante dos países
em desenvolvimento.22
A literatura sobre o protocolo de Kyoto, aquecimento global e as mudanças
climáticas tem se calcado, sobretudo, nos relatórios do IPCC que contam com a
credibilidade de 80 a 90% da comunidade internacional, sendo que o restante
compõe o grupo dos "céticos" que considera o efeito estufa uma fraude.
Na Dinamarca, a posição dos líderes políticos e dos analistas se contrapõe
fortemente quando o assunto é aquecimento global. A Ministra de Clima e Energia
Connie Hedegaard, visitando o Brasil em 2008, afirmou que a posição do seu
governo é confiar nas estimativas do IPCC. Em 2050 já será tarde demais para
combater o aquecimento climático, e que tem que agir agora senão o aquecimento
global vai se acelerar de tal maneira que será muito caro revertê-lo, e a
humanidade não conseguirá manter o padrão atual de vida.23
De outro lado, existem compatriotas da Ministra, como Lomborg24 que considera
exagerada a preocupação com o aquecimento climático global. Empregando dados
estatísticos e interpretando a história da evolução do clima desde quando há
registros, este autor contesta o que considera uma visão apocalíptica, ladainha
ambientalista, difundida durante anos por ecologistas radicais, com interesses
outros que os da preservação da vida e do meio ambiente.
A posição de um líder governamental com decisões a tomar pelas quais será
julgado pela história é mais difícil que a dos analistas, que mesmo empregando
metodologia científica, têm menor responsabilidade do que autoridades. Além
disso, um líder de um país industrializado tem compromissos em preservar o alto
padrão de vida dos países ricos, seus pares, e tema para discussão na próxima
conferência do clima na Dinamarca sobre o Pós-Kyoto. Porém, sem dados
suficientes e confiáveis sobre as mudanças climáticas que exigem pelo menos 30
anos de observação ininterrupta, segundo a OMM, produzem-se mapas e atlas
mundiais desses fenômenos com o intuito de orientar interessados em questões
ambientais, professores e responsáveis por políticas públicas, inclusive sobre
o Brasil25. Qual o valor desse tipo de informação?
Soluções para agora, problemas para amanhã?
Há duas décadas, as empresas de petróleo introduzem CO2 em alguns dos seus
poços para retirar o resto de combustível do subsolo. Tal prática é empregada
como uma das formas de seqüestro de carbono. Como o CO2 resultante da combustão
desse mesmo petróleo tornou-se o maior inimigo do meio ambiente, esse
procedimento passou a ter uma nova função, a de "eliminar" CO2. Segundo o IPCC,
será necessário seqüestrar 25 bilhões de toneladas de CO2 por ano até 2050, e o
enterro do carbono pode colaborar para o cumprimento desta meta, ajudando a
eliminar pelo menos 21%. Para atingir esse objetivo, o plano dessas empresas
cobre várias fases. O carbono emitido pelas refinarias é capturado por uma
chaminé e o gás é introduzido e aprisionado no subsolo. O Brasil, sozinho, tem
capacidade para armazenar o equivalente ao que o planeta emite em 80 anos,
afirma João Marcelo Ketzer, coordenador do Centro de Excelência em Pesquisa
sobre Armazenamento de Carbono da PUC/RS. As áreas para extração de carvão
mineral ou os aqüíferos salinos também podem servir como locais de estoque.
Segundo especialistas do Centro de Pesquisa da Petrobrás, CENPES, há
expectativa de que até 2014, estoque-se CO2 da ordem de dez milhões de
toneladas ao ano. Caso esta meta seja atingida, este projeto será um dos
maiores de seqüestro geológico: um trilhão de toneladas em reservatórios de
petróleo, dez trilhões em aqüíferos e 40 bilhões em minas de carvão.26
A logística da captura em uma refinaria ou em uma usina é complexa e inclui
riscos de segurança. O CO2 pode vazar no transporte, ou no próprio reservatório
causando problema ambiental. O custo da tecnologia é alto, com o transporte
exigindo a construção de dutos, como o de gás natural. No Brasil, as injeções
em larga escala de carbono são em terra na Bahia e sob o mar na bacia de
Campos.
Os experimentos pioneiros em grande escala de enterro de carbono foram na
Noruega, sob o mar, pela petrolífera local Atatoil; no Canadá, em terra, com o
carbono capturado nos EUA armazenado pela canadense EnCana; e na Argélia, com
gás natural. Cada um seqüestra até dois milhões de toneladas de CO2 por ano.27
Segundo Blüchel28, embora o CO2 não seja inflamável nem tóxico, é mais pesado
que o ar, podendo, por isso, asfixiar tudo o que tem vida. Em 1986, uma erupção
súbita de CO2 em um lago vulcânico em Camarões aniquilou animais e 1.500
pessoas. E questiona: quem tem o direito de levar o "lixo de gás" e para aonde.
O armazenamento está sujeito à que lei? Ao código de mineração, como o gás
natural? Quem é o responsável pelos depósitos subterrâneos?
Além das bombas químicas e biológicas que tanto aterrorizam nações, inclusive
os EUA, existe possibilidade que se crie armas tectônicas, cujos potenciais de
força de destruição em massa são desconhecidos. Isto já pode estar ocorrendo e
mantido sob sigilo pelas empresas, Estados e não-Estados (terroristas).
Pesquisas científicas mostraram, a partir de 1945, que o homem poderia agir
sobre as imensas forças de tensão da crosta terrestre. Por isso, testes
nucleares foram regularizados e proibidos em ambientes subterrâneos.
O exército dos EUA se livrou de seu rejeito tóxico em Fort Dedrick empregado em
guerra química e biológica com a coleta dos gases nervosos em barris e depois
afundados no mar. Outras substâncias tóxicas foram bombeadas para um poço de
4.000 metros de profundidade, perfurado para esta finalidade, perto do Arsenal
Rocky Mountain no Colorado. Durante o período no qual o procedimento foi
adotado, registrou-se 710 abalos sísmicos, 18 de magnitude média, enquanto que,
nos 80 anos anteriores ocorreram somente três abalos sísmicos nessa região
Existe uma possibilidade concreta de o CO2 provocar terremotos criados pelo
homem. Bolhas de dióxido de carbono resultam de tais bombeamentos nas entranhas
da Terra produzindo explosões devastadoras. Na Polônia, Alemanha e embaixo do
Mar do Norte, entre Escócia Noruega, instalou-se os primeiros super cemitérios
para o CO2. De acordo com uma estatística da Agência Internacional de Energia
da ONU, o homem produz atualmente cerca de 26 bilhões de toneladas de dióxido
de carbono. Estas quantidades enormes de gases deveriam ser bombeadas para o
centro da Terra? (Blüchel, 2008, p.137).
Na mesma linha de argumentação, se o IPCC declarou o homem culpado pelas
mudanças climáticas causadas pelo mau uso do solo (IV Relatório 02/2007), o que
diria então sobre o uso inadequado do subsolo e das profundezas desconhecidas
dos oceanos, este, o maior responsável pelo clima, e cujas conseqüências não
são discutidas?
Recentemente moradores de São Paulo sentiram um tremor de terra por volta das
21h de 22/4/2008 cujo epicentro ocorreu a 215 km de São Vicente, no mar e
atingiu 5,2° na escala Richter, com o tremor a cerca de 10 km de
profundidade29. Com tantas atividades subterrâneas com relação à extração de
petróleo no mar, e as poderosas ondas de choque causadas por movimentação da
crosta terrestre, o Observatório Nacional firmou convênio com o CENPES/
Petrobrás para financiar a instalação de uma rede sismográfica para monitorar
os terremotos no Brasil, com o projeto aprovado pela Agência Nacional de
Petróleo. Os recursos financeiros são provenientes da lei que rege a exploração
dos grandes campos de petróleo e correspondem a 1% dos royalties para pesquisa
e desenvolvimento.
Comentários finais
Os Protocolos de Montreal e Kyoto resultaram de preocupações mundiais com o
meio ambiente, sua alteração pelo homem e as conseqüências adversas que essas
mudanças podem produzir sobre a vida na Terra.
Por meio de cálculos, o MMA mostra que é possível estabilizar as emissões dos
gases HCFCs em 2011 evitando 14 milhões de toneladas irem para a atmosfera
entre 2011 e 2040. Como os HCFCs têm um potencial muito maior de absorver calor
e esquentar a Terra que o CO2, mesmo uma pequena economia de suas emissões
teria um impacto expressivo no clima. A proposta significaria evitar a emissão
de 5,5 bilhões de toneladas equivalentes de gás carbônico, ou seja, a meta
completa do Protocolo de Kyoto.30
Flannery31 afirma que, dentre os tratados internacionais em andamento, o
Protocolo de Kyoto talvez seja o mais duramente criticado, o que lhe parece
estranho devido aos seus modestos objetivos, e que são apenas dois, econômicos
e políticos. Enquanto que o Protocolo de Montreal conta com o Fundo
Multilateral e apóia projetos-piloto supervisionados por um Comitê Executivo, o
de Kyoto não tem um fundo próprio e depende do MDL, cuja avaliação não tem sido
a mais favorável.
O tratado Pós- Kyoto deverá estar pronto até dezembro de 2009, data limite para
a assinatura de um novo tratado. A próxima Conferência sobre Mudanças
Climáticas, em Copenhague, discutirá como enfrentar o aquecimento global32. A
maioria dos cientistas que estuda o clima diz que as metas instituídas em Kyoto
são insuficientes. O acordo visa reduzir as emissões nos países
industrializados em 5%, enquanto é praticamente consenso entre os cientistas
que defendem o corte nas emissões que seria preciso uma redução de 60%.
Portanto uma diferença tão grande faz com que os 5% não sejam, de fato, uma
meta realista. Diante disso, os termos finais de Kyoto receberam críticas que o
protocolo terá pouco impacto no clima e é inútil sem a participação americana.
Outros, no entanto, dizem que, apesar das falhas, o protocolo é importante
porque estabelece linhas gerais para futuras negociações sobre o clima.
Consideram que ele ajudou vários países transformarem em lei metas de reduções
das emissões.
Por outro lado, o caso do esgotamento da camada de ozônio e a solução mediante
protocolos restritivos, como o de Montreal, são vistos como um exemplo de
sucesso, em que a comunidade mundial se uniu e priorizou o meio ambiente em
detrimento das ambições econômicas. Por esse motivo, o caso do ozônio costuma
ser citado como uma aplicação vitoriosa do princípio da cautela e da
consciência ambiental em geral.
Para o Ministério do Meio Ambiente brasileiro, o cumprimento de metas do
Protocolo de Montreal já colaborou mais para a proteção climática do que o
Protocolo de Kyoto. Entre 1990 e 2000, a redução global nas emissões de gases
que prejudicam a Camada de Ozônio alcançou 25 bilhões de toneladas de CO2
equivalentes, volume quase 5 vezes superior aos 4,5 bilhões de toneladas de CO2
que devem ser eliminadas nas emissões dos países em desenvolvimento entre 2008
e 2012. No Brasil, entre 2000 e 2007, evitou-se a emissão de 36,5 mil toneladas
de CFCs, correspondentes a cerca de 360 milhões de CO2 equivalentes.
A mudança de processos industriais foi fundamental para que os objetivos de
redução anual das SDOs fossem alcançados. CFCs foram substituídos, como
Hidroclorofluorcarbonos (HCFCs) e Hidrofluorcarbonos (HFCs). No entanto, os
CFCs remanescentes (como em geladeiras muito antigas) e essas substâncias
alternativas ameaçam o clima. Conforme o Protocolo de Montreal, países
desenvolvidos devem reduzir o uso de HCFCs em 75% até 2010 e em 99,5% até 2020.
Mas a produção global desses gases tem aumentado nos países em desenvolvimento,
sendo 70% do total na China.
Reestruturação industrial e adaptação tecnológica exigem custos altos e tempo.
Os processos que utilizam gases químicos e inovações tecnológicas precisam de
tempo de maturação para ser viáveis em escala industrial. Entretanto, apesar
dessas dificuldades, conseguir o cumprimento da proibição do CFC foi rentável.
Saiu relativamente barato encontrar substitutos aos CFCs, ao mesmo tempo em que
as vantagens foram bem nítidas. Um relatório para o Environment Canada, o órgão
de proteção canadense de meio ambiente, estimou que o custo global total até
2060 da implementação dos protocolos de CFC seria de uns 235 bilhões de dólares
de 1997.33
A maior parte da produção dos gases controlados pelo Protocolo de Montreal é
feita nos países industrializados ou por multinacionais com plantas nos países
em desenvolvimento, por isso, o controle é mais fácil, e a maioria deles é
insumo para outros produtos. Os gases controlados pelo Protocolo de Kyoto,
especialmente o CO2, são resultantes da queima de produtos usados em vários
setores econômicos e também de utilização do solo, como desmatamento e
queimadas de grandes áreas que se misturam a outros gases na atmosfera e são
muito mais difíceis de controlar. Além disso, existe a influência de outros
ambientes (oceanos, hidrosfera, Antártica) que interagem com a atmosfera
gerando o clima.
Marcelo Leite, jornalista e colunista da Folha de São Paulo, resume a obra do
jornalista Oliver Tickel "Kyoto 2, como administrar a estufa global" como
"desconstrução de Kyoto"34. "Tickell fornece uma medida convincente da
inoperância de Kyoto comparando-o com o Protocolo de Montreal. Adotado uma
década antes para combater outro problema da atmosfera, o buraco na camada de
ozônio estratosférico, Montreal acabou contribuindo quatro vezes mais do que
Kyoto para mitigar o aquecimento global, pois alguns dos gases que atacam o
ozônio são também gases do efeito estufa." Para Tickell, o protocolo não
funcionou por colocar metas por países e pretender que governos nacionais
beneficiem-se e fiscalizem, concomitantemente, os mecanismos de mercado
estabelecidos para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. A crítica é
focada nos créditos de carbono, a alma de Kyoto, segundo esse autor, que
acrescenta que o mercado de carbono mais festejado, o "esquema europeu de
comércio de emissões" serviu para desviar bilhões de euros dos consumidores
para empresas de energia.
Por ser um grande emissor de CO2, pesa muito a rejeição dos EUA em não
ratificarem o Protocolo de Kyoto, embora tenham adotado o de Montreal. Essa
questão tem um elemento chave sem o qual qualquer discussão sobre aquecimento
global ou mudanças climáticas antrópicas é inócua. Trata-se da energia e da
matriz energética de qualquer país. A produção de energia é diretamente
proporcional à atividade industrial de um país, e por isso, influi
decisivamente no cálculo do seu PIB, que reflete a riqueza de uma nação. Por
sua vez, o aumento do PIB depende de uma matriz energética robusta, e se
possível diversificada e independente do provimento de matéria-prima
internacional. Portanto, é estratégico para cada nação fazer uso máximo do
potencial energético próprio. Esta foi a lição deixada pelos choques de
petróleo dos anos 70. Dependência energética pode frear o crescimento econômico
mesmo de nações desenvolvidas.
Por outro lado, por que usar energias renováveis, se ainda existe muito
combustível fóssil para ser extraído durante os próximos séculos, mesmo jazidas
ainda não descobertas, como estudos já revelaram, somado ao fato que vários
países têm sua economia fortemente dependente da exploração e comercialização
desses produtos, como o petróleo? Em 2008, o preço do barril do petróleo chegou
a US$147 e as economias não colapsaram por isso. A crise de 2008 não é de
escassez de energia como nos anos 70. "A crise é a hora de taxar o petróleo e
salvar o clima".35
Pesquisadores viajando em 2008 a bordo de um navio russo dizem ter provas de
que milhões de toneladas de metano, gás do efeito estufa 20 vezes mais potente
que o CO2 vai para a atmosfera a partir das profundezas do Oceano Ártico.
Depósitos de CH4 aprisionados nas profundezas emergem como grandes bolhas,
coincidindo com o aquecimento da região e o desaparecimento das capas de gelo
que cobriam as águas da região, segundo o jornal britânico The Independent.
Esse depósitos são importantes pois no passado houve liberação similar
provocando uma elevação rápida das temperaturas, mudanças climáticas abruptas e
extinções em massa, diz o jornal.
O pesquisador Örjan Gustafsson (Universidade de Estocolmo) descobriu o primeiro
campo em que a liberação do CH4 era tão forte que o gás não tinha tempo de
dissolver-se na água do mar, emergindo em grandes bolhas36. Todavia, se o
metano é a grande preocupação desses cientistas, mas está relacionado na Terra
com atividades biológicas e erupções vulcânicas, embora seja um gás também
controlado pelo Protocolo de Kyoto, o grande vilão do clima é o CO2. Por que o
tratamento dado pelo Protocolo e pela mídia é tão diferenciado quando se trata
do impacto desses dois gases? Porque o CO2 é o subproduto do uso do combustível
fóssil mais empregado nas atividades humanas nos países desenvolvidos.
O apelo antrópico por parte dos ambientalistas visa a mudanças de modos de
produção e implica em pressões internacionais, pois mexe com interesses
nacionais e conflitantes. Essas mudanças no padrão de produção baseiam-se na
necessária alteração das fontes poluidoras de energia dos países. No caso do
CO2, não se trata de substituição de um gás por outro, mas como eliminar o
resíduo da queima de combustível fóssil. Por outro lado, usando também
argumentos antrópicos, há os que lutam por energias renováveis como modelo de
energia limpa, e como alternativa viável em grande escala para o século XXI,
posição defendida por países em desenvolvimento com grande potencial para
produzir e comercializar biocombustíveis.
Nesta disputa político-econômica acirrada, o papel do CO2 é bem mais importante
nas negociações internacionais que o do CH4, ou qualquer outro gás controlado
por acordo internacional. O CH4 pode ser empregado como fonte de energia, mas
sem valor de mercado, como o carvão ou o petróleo, este protegido por
organizações como a OPEP para garantir que permaneça no século XXI, o padrão
energético do século XX.
Ameaças sobre os recursos naturais, não sustentabilidade, e tecnologias
tornaram-se comuns. Nem todas se concretizam. A do Clube de Roma e seu
relatório "Limites do Crescimento", concluído em 1972 para a ONU, apontou os
riscos do crescimento exponencial da população mundial versus uma expansão
linear de alimentos e de recursos naturais, prevendo o caos. A ameaça climática
é mais complexa, mas foi quantificada no Relatório Stern sobre a Economia das
Mudanças Climáticas (10/2006). O exemplo mais notável de ameaças globais foi a
do "BUG do Milênio" que mobilizou toda a comunidade internacional para o maior
desastre da sociedade pós-moderna. Pânico no sistema financeiro e bancário
totalmente informatizado; bolsas quebrando; a população desnorteada e os
governos fariam planos de emergência para mitigar a catástrofe.
As pesquisas devem avançar mais para fornecer conhecimento e dados para
prevenção, mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Somente estudos com
dados e informações completas e o tempo comprovarão se o aquecimento global é
real ou mais um "Bug" do milênio.
1 EFE-Genebra (2008). Buraco da camada de ozônio sobre Antártica já é maior que
em 2007, diz OMM [http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL761590-6174,00-
BURACO+DA+CAMADA+DE+OZONIO+SOBRE+ANTARTIDA+JA+E+MAIOR+DO+QUE+EM+DIZ+OMM.html]
disponibilidade: 16/09/2008.
2 Ministério do Meio Ambiente (sem data), Plano Nacional de Eliminação de CFCs,
Relatório 2007, p.9.
3 Ministério do Meio Ambiente, sem data, O que o Brasil está fazendo para a
proteção da Camada de Ozônio? Plano Nacional de Eliminação de CFCs, p.10.
4 Ministério do Meio Ambiente, PROZON, Ata 9/11/2007.
5 Ministério do Meio Ambiente/IBAMA, Portaria Nº15 de 16/04/2008.
6 O Anexo I contém os países membros da Organização de Cooperação para o
Desenvolvimento Econômico (OCDE) e os países do antigo bloco soviético.
7 Estipula no mínimo 55 países do Anexo I que compatibilizem juntos pelo menos
55% do total da quantidade de dióxido de carbono equivalente emitida por eles
em 1990. Ver Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima e o Protocolo de Kyoto
publicado pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável , Câmara
dos Deputados, Ed(2005), Brasília:Plenarium, 84p, Apresentação e p.43.
8 Cada crédito de carbono representa uma tonelada de gás carbônico equivalente
não lançado na atmosfera.
9 Folha de São Paulo, Mecanismo de Kyoto é ineficaz contra CO2, 19/12/2007,
Ciência, p.A24,
10 Blüchel, Kurt G , Ed.(2008) A Fraude do efeito estufa, aquecimento global,
mudança climática: os fatos, São Paulo: Publishing House, 317p, p. 70-71,
11 O Brasil tem uma meta de redução da taxa de desmatamento de 70% até 2018,
segundo o Ministro Carlos Minc que apresentou na reunião de Poznan da ONU em
12/2008 o Plano Nacional de Mudanças Climáticas (Folha de São Paulo, Ban elogia
Brasil, que alivia para desmatador, 12/12/2008, Ciência, p.A16),
12 Alvim, Carlos F.; Eidelman, Frida; Mafra, Olga; Ferreira, Omar C.(2008)
Avaliação das Emissões Evitadas pela Política Energética Brasileira no Setor
Transporte Rodoviário. Revista Economia e Energia, Nº 70, outubro-novembro
2008, ano XII, p.32-33,
13 Folha de São Paulo, Marinha mercante emite 4,5 do CO2 mundial, 14/02/2008,
p.A20.
14 O Globo, Mapa de riquezas do solo ajuda a combater aquecimento global,
Ciência, 05/03/2009, p. 32.
15 Folha de São Paulo, Mudanças Climáticas e São Paulo, Tendências/Debates, 17/
02/2009, p.A3
16 Esta situação pode mudar pois o Governo brasileiro pretende dobrar o número
de usinas poluentes (Folha de São Paulo, 7/1/2009, Ciência, p. A12). Termelétrica para Carajás emitirá 2,2 milhões de toneladas/ano de CO2
com a Vale licenciando usina a carvão na Amazônia (Folha de São Paulo 12/11/
2008, Ciência, p.A12).
17 Souza, Fabíola S. (2007) Mecanismos de Desenvolvimento Limpo e Créditos de
Carbono: As Potencialidades do Brasil. Monografia para obtenção do Master in
Business Administration, Fundação Instituto de Administração/USP, São Paulo,
abril/2007, mimeo 73 p.
18 Não há exigência sobre nenhum país, mas compromisso dos seus governantes
perante a ONU.
19 Folha de São Paulo, Austrália ratifica Kyoto e isola os EUA, Ciência 4/12/
2007, p. A18.
20 Nobre, Carlos Afonso (2007) Mudanças Climáticas Globais e o Brasil: porque
devemos nos preocupar, Boletim da Sociedade Brasileira de Meteorologia, Vol.31,
Nº 4, abril de 2007, p.7-11.
21 Blüchel, Kurt G. (2008), op. cit Ref.10, p.167-169.
22 Dos quase 30 mil trabalhos analisados pelo IPCC para subsidiar o IV
Relatório do Painel, 5 foram feitos na América Latina (Folha de São
Paulo,Brasil não monitora mudanças do clima, 11/04/2007, p.A12).
23 Revista VEJA, Entrevista Connie Hedegaard, A guerreira do clima, 8/10/2008,
p.17, 20-21.
24 Lomborg, Böjrn Ed(2002) O ambientalista cético-revelando a real situação do
mundo, São Paulo: Campus, 541 p.
25 Dow, Kirstin; Downing, Thomas E. Ed (2007), O Atlas da Mudança Climática-
O mapeamento completo do maior desafio do planeta, UK:Earthscan, 120 p.
26 Folha de São Paulo, Brasil quer virar líder em enterro de gás carbônico
Ciência, 20/01/2008, p.A51.
27 Folha de São Paulo, op. cit. Ref. 26, 20/01/2008.
28 Blüchel,Kurt.G. (2008), op. cit. Ref. 10, p. 138.
29 Folha on line (2008). São Paulo é atingida por tremor de 5,2 graus na escala
Richter [http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u394686.shtml]:
disponibilidade: 22/04/2008.
30 Gabeira, Fernando (2007). Combate a gás de camada de ozônio poupa "um
Kyoto". [http://gabeira.locaweb.com.br/noticias/noticia.asp?id=3851]
disponibilidade: 30/05/2007.
31 Flannery, Tim, Ed(2007) Os Senhores do Clima. Rio de Janeiro-São Paulo:
Record, 364 p, em especial o Capítulo 24, A Estrada para Kyoto.
32 Revista VEJA (2008), op.cit. Ref.23, p 20-21.
33 Lomborg, Björn (2002), op.cit.Ref.24, p.329-331.
34 Leite, Marcelo (2008) [http://ecourbana.wordpress.com/2008/10/19/em-busca-
do-kyoto-perdido]/ disponibilidade:19/10/2008.
35 Folha de São Paulo, Entrevista James Hansen, Ciência, 15/03/2009, p.A24. Hansen foi fundamental para a criação do IPCC em 1988.
36 Gustafsson, Örjan [http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid246814,0.htm]
disponibilidade: 24/09/2008.