A política comercial da administração Bush: o CAFTA-DR e a resistência interior
Introdução
A política comercial dos EUA sofreu uma modificação importante sob a
administração Bush. O país incorporou com assiduidade uma estratégia de
proliferação de acordos de livre-comércio, deixando para trás a tradição quase
exclusivamente multilateral do pós II Guerra. O acordo com Costa Rica,
Guatemala, Nicarágua, Honduras, El Salvador e República Dominicana - o CAFTA-DR
- é um deles. Apesar do pequeno impacto econômico para os EUA, esse foi o
acordo comercial de mais difícil ratificação da história do país. Como entender
esse episódio? Por que os EUA quase abortaram uma iniciativa que, considerando
a assimetria de poder, parecia não ser tão desgastante? Sem menosprezar a
capacidade negociadora dos interlocutores norte-americanos, argumentaremos que
a principal resistência à iniciativa se encontrava dentro dos EUA.
O objetivo desse artigo é analisar, com ênfase em fatores domésticos, a
dificuldade de os EUA aderirem ao CAFTA-DR. Esse exercício, que se torna
oportuno devido à aproximação do encerramento da administração Bush (20012008),
busca fornecer subsídios para reflexões sobre esse período em duas frentes: a
política comercial norte-americana em sentido geral e as relações entre os EUA
e a América Latina. Para tanto, na primeira seção, delineamos as linhas gerais
da política comercial da administração Bush. Na segunda, inserimos o CAFTA-DR
no contexto da primeira seção. Por fim, na terceira seção, analisamos o debate
para a ratificação do acordo, destacando três fatores domésticos principais: a
relação de forças sociais, a polarização partidária e a potencialização de
interesses protecionistas, particularmente o setor do açúcar.
A política comercial na administração Bush
Uma das críticas de George W. Bush aos seus adversários Democratas na campanha
presidencial de 2000 era a incapacidade deles obterem o fast-track e de
concluírem acordos de liberalização comercial multilaterais, regionais e
bilaterais. Na verdade, Clinton havia concluído negociações bilaterais com a
Jordânia em 2001 e iniciou negociações com Singapura e Chile em 2000, mas o
candidato Republicano considerava esses esforços tímidos. Paralelamente, não
havia uma Rodada da OMC em negociação e as iniciativas regionais nas Américas e
no Pacífico registravam poucos avanços. Era preciso retomar a liderança da
liberalização comercial mundial.
No poder, a administração Bush reiterou a disposição em negociar acordos de
livre-comércio em diversos níveis. Ao apresentar a agenda comercial da
administração em 2001, Robert Zoellick, chefe do USTR, se queixou de que
"enquanto existem aproximadamente 130 acordos de livre-comércio globalmente, os
EUA são parte de apenas dois: um com o Canadá e o México (Nafta) e outro com
Israel". E condenou "a ausência dos EUA da proliferação de acordos comerciais"
(USTR, 2001: 4). Para resolver essa falha, afirmou que os EUA deveriam negociar
em "múltiplas frentes" (idem).
A idéia de promover acordos de livre-comércio bilaterais não era algo simples
para a tradição da política comercial norte-americana, predominantemente
multilateral (Vigevani et al., 2007). Porém, o ideário de maximizar o emprego
do poder norte-americano e, nesse sentido, a convicção de que agir sozinho pode
ser necessário e desejável, ajuda entender os esforços bilaterais diante dos
impasses da Rodada Doha e da negociação da Alca. As afirmações de Zoellick em
hearings no Congresso deixam isso evidente:
agir em frentes múltiplas nos permitiu tomar o fato de que os EUA
começam com 25 porcento da economia mundial e usar isso. Também
significa que não permitiremos que nenhum outro país nos bloqueie, de
modo que se nós estamos nas negociações da OMC e 1 de 144 países
decide nos parar, nós não possamos seguir. Francamente, também nos
permite dar o ritmo ao invés de sermos reativos (Ways and Means,
2003: 13).
Argumentando especificamente sobre as dificuldades de concluir a Alca e a
estratégia alternativa concluir de acordos bilaterais e regionais, Zoellick
afirmou: "Há uma clara mensagem, que nós tentaremos fazer isso [acordo de
livre-comércio] hemisférico, mas se não pudermos, trabalharemos com aqueles que
querem" (Ways and Means, 2004: 13). Na América Latina foram concluídos acordos
com: Chile, implementado em 2004; Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras,
Nicarágua e República Dominicana - o CAFTA-DR, plenamente ratificado em 2007;
Peru, ratificado em 2007; Colômbia, assinado em 2006; Panamá, assinado em 2007.
Embora a proliferação tenha correspondido à proposta da administração, não se
pode afirmar que ela tenha tido sucesso completo, pois a Bolívia, o Equador e o
Mercosul, com destaque para o Brasil em função do tamanho de sua economia,
repudiam a agenda comercial norte-americana. O caso da Colômbia é o mais
delicado. Amplamente desejado pela administração como parte do fortalecimento
da parceria estratégica com o país andino, acordo sofre oposição praticamente
imbatível no Congresso.
De fato, desde o início dos anos 90 os EUA possuem o objetivo de promover uma
área de livre-comércio hemisférica, mas o que queremos ressaltar é que a
atuação em diversos níveis de negociação - multilateral, regional e bilateral -
é uma inovação que, "apesar das dificuldades em que tropeçou, tanto dentro
quanto fora dos EUA, esta estratégia tem permitido à Washington se converter no
eixo central de uma nova geração de acordos de livre-comércio" (Russel, 2006:
53). Um eixo central, mas de atratividade limitada.
Dois elementos dessa estratégia chamam a atenção. O primeiro é o building
blocks. Diante da impossibilidade de avançar a liberalização comercial na
direção pretendida pelos EUA no nível multilateral, passa-se a negociar nos
níveis regional e bilateral, de modo a ir disseminando a agenda norte-
americana. O segundo elemento é a 'liberalização competitiva'. Por meio dela,
governos parceiros dos EUA procuram tornar seus estados mais competitivos do
que os outros "assegurando acesso preferencial a mercados-chaves e, mais
importante, vinculando reformas domésticas através de obrigações contratuais,
melhorando assim o clima para investimento em seus mercados" (Schott, 2004:
362).
Um fator importante que se soma ao elemento da liberalização competitiva, e
talvez seja até seu principal propulsor nos países andinos e da América Central
e do Caribe na busca por acordos comerciais fora da Alca, era a possibilidade
de não renovação das preferências comerciais unilaterais concedidas pelos EUA a
esses países como uma forma de assistência. De fato, a Iniciativa para a Bacia
do Caribe, destinada aos países da América Central e Caribe e a lei de
Preferências Comerciais Andinas estavam programadas para expirar ao final de
2008 e 2006, respectivamente (Lek, 2005; Storrs, 2005). Para não perdê-las,
muitos desses países buscaram acordos de livre-comércio.
Além de visar temas puramente comerciais, a política comercial norteamericana
está atrelada a objetivos de política externa, de segurança e de política
doméstica. Schott (2004: 363) aponta que além dos objetivos estritamente
econômicos, há o intuito de promover o "estado de direito, fortalecer as
fundações da governança democrática e assegurar apoio aos esforços globais
contra o terrorismo". Na mesma linha, Feinberg (2003: 1027) sustenta que os EUA
"esperam que um Hemisfério Ocidental integrado gere externalidades
positivas ou spillover numa série de questões transfronteiriças de
preocupação comum, de contraterrorismo à contra-narcóticos, de
proteção ambiental a cooperação energética".
Alguns vão mais além e apontam objetivos políticos e de segurança como sendo os
principais motivos para a negociação dos acordos comerciais com economias
pequenas (Rosen, 2004). Para Salazar-Xirinachs e Granados (2004: 233), embora o
CAFTA-DR seja importante para alguns setores empresariais norte-americanos, o
valor da América Central não deve ser exagerado no conjunto maior dos
interesses empresariais dos EUA, levando à percepção de que "objetivos e
motivações geopolíticas e de segurança são parte essencial desse acordo
particular". Por fim, a importância dos grupos latino-americanos e temas a eles
relacionados para as eleições nos EUA colocam os acordos comerciais na agenda
de política doméstica (Lowenthal, 2006).
O contexto político doméstico norte-americano inóspito aos acordos de
livrecomércio com a América Latina denota a relevância atribuída pela
administração a esse instrumento político. A negociação e a ratificação do
Nafta (Acordo de Livre-Comércio da América do Norte) na primeira metade dos
anos 90 resultaram possivelmente na maior politização doméstica da história da
política comercial dos EUA (Mundo, 1999; Destler, 2005). O principal elemento
de politização doméstica decorreu de o Nafta ser o primeiro acordo abrangente a
ser negociado com um país não desenvolvido, de leis trabalhistas e ambientais
consideradas pouco avançadas e de baixos salários comparados aos pagos nos EUA.
O Big Business apoiava a iniciativa, mas grupos ambientalistas e sindicatos se
mobilizaram fortemente em oposição ao acordo regional. Os ambientalistas temiam
a erosão dos padrões de proteção ambiental nos EUA ou que o México se tornasse
um santuário para empresas norte-americanas poluidoras. Os sindicatos temiam
uma competição mais direta com um país de baixos salários, assim como a
transferência de fábricas norte-americanas para aproveitar os baixos salários
mexicanos. Essas posições tomaram contornos partidários, com a maioria dos
Republicanos representando a posição do empresariado e a maioria dos Democratas
advogando os interesses de grupos ambientalistas e sindicatos. Após duros
debates e grandes esforços da administração Clinton o Nafta foi ratificado pelo
Congresso, mas deixou seqüelas políticas domésticas: a aversão a negociação de
acordos de livre-comércio com países latino-americanos e principalmente a
dificuldade em lidar com temas ambientais e trabalhistas na agenda comercial
(Destler e Balint, 1999). Essas seqüelas explicam boa parte da falha de Clinton
em obter a renovação do fast-track (atual TPA) junto ao Congresso, sem o qual a
administração tem poderes e credibilidade reduzidos para negociar acordos de
livre-comércio.
O que se quer assinalar aqui é que a política comercial foi selecionada pela
administração Bush como um dos principais meios de relacionamento com os países
do hemisfério, principalmente os centro-americanos. Nas palavras de Zoellick,
"conectamos o comércio a alguns outros objetivos, não somente crescimento
global, mas desenvolvimento, expansão do estado de direito, sociedades abertas
e os valores que de fato estão no coração do nosso país e sistema político"
(Ways and Means, 2003: 13). Para viabilizar o emprego desse instrumento foi
necessário obter autorização do Congresso, o que ocorreu em 2002 com a Trade
Promotion Authority Act.
O debate doméstico em torno do TPA não foi simples. A aprovação ocorreu por
margem apertada na Câmara (215 a 212 votos), embora no Senado tenha sido mais
folgada (64 a 34 votos). Isso deriva em sua maior parte de dois fatores
vinculados diretamente à política doméstica (Destler, 2005). Primeiro, da
relação de forças sociais. Há forte mobilização de grupos trabalhistas,
ambientalistas e, em menor escala, de direitos humanos, que se opõem a uma
maior integração da economia norte-americana à mundial se não houver regras que
protejam seus interesses. Os grandes grupos empresariais, que em geral
favorecem o livre-comércio, ou no mínimo não reivindicam um protecionismo de
grandes proporções, com algumas exceções, não desenvolvem por conta própria uma
campanha sistemática em prol da liberalização. Segundo, a crescente polarização
partidária. O primeiro fator é basicamente o mesmo mencionado no debate do
Nafta e dispensa aprofundamento. Mas para o segundo é preciso fazer um breve
comentário.
O comportamento dos congressistas norte-americanos, principalmente para fins
analíticos, é reportado pela literatura como accountable em boa medida aos
grupos eleitoralmente relevantes. Historicamente, os políticos do Partido
Democrata, incluído o presidente ou os presidenciáveis, identificaram-se com os
grupos trabalhistas, ambientais e de direitos humanos de maneira muito mais
intensa que os Republicanos. Estes, por sua vez, são mais associados ao
empresariado, que teme o aumento da regulamentação estatal e a diminuição da
exploração de vantagens comparativas obtidas pela transnacionalização das
operações.
A política comercial não é o principal motivo da polarização partidária. Essa
seria derivada de outros fatores mais arraigados na política doméstica. Um
deles seria mudança nas preferências da população, que veio se tornando mais
conservadora desde os anos 70. Outro seria o redesenho obrigatório dos
distritos congressuais. De dez em dez anos, após o censo, as legislaturas
estaduais devem redesenhar os distritos nos quais concorrem os candidatos para
o Congresso nacional de modo que os distritos reflitam uma distribuição mais
equânime da população. Assim, quando possível, legislaturas procuram remodelar
os distritos para acomodar eleitorados fiéis a um partido (Bowler, Donovan e
Heerde, 2006). Além disso, partidos e lideranças políticas se tornaram mais
ideológicos nas últimas décadas e as duas últimas eleições presidenciais
refletem a polarização (Destler, 2005).
Com a exacerbação da polarização partidária, ficou dificultada a formação de
uma coalizão política doméstica capaz de agregar preferências sob um
instrumento de concessão de autoridade ao presidente, algo necessário em um
sistema decisório que Hermann e Hermann (1989: 364) denominariam como sendo de
múltiplos atores autônomos, isto é, um sistema em que os atores necessários
[para a decisão] são indivíduos, grupos ou coalizões que, se alguns ou todos
concordarem o governo pode agir, mas nenhum isoladamente tem a habilidade de
decidir e forçar aceitação pelos outros; além disso, não existe um órgão de
autoridade superior do qual todas as partes necessárias façam parte (Hermann e
Hermann, 1989: 364).
Nas palavras de Destler (2005: 282) "O presidente Bush e o USTR Zoellick
conseguiram a autorização para negociação, mas não os amplos consenso e mandato
que foram fornecidos aos seus predecessores". O 'Bipartisan' Trade Promotion
Authority foi aprovado sobre considerável base partidária, com a cooperação de
apenas 25 Democratas. Ajudaram o capital político acumulado pelo presidente em
decorrência do 11 de Setembro e, principalmente, pesados side payments para
obter os votos necessários, como a salvaguarda tarifária imposta sobre as
importações de aço, a promessa de negociar regras de origem mais rígidas para a
importação de têxteis, e a complacência com os vultuosos subsídios da Farm Bill
de 2002 (Bergstein, 2002). Tradicionalmente, a obtenção da autorização
comercial pelo presidente junto ao Congresso é acompanhada de compensações. A
diferença para o TPA é que as concessões protecionistas anteriores compunham
amplas coalizões domésticas, bipartidárias, que se refletiam em boas margens de
ratificação dos acordos comerciais. Como a função do TPA é agregar preferências
que deverão ser projetadas no exterior, é de se esperar que acordos que
coincidam com aquelas preferências que aprovaram a autorização comercial
enfrentem dificuldades similares para a ratificação, desde que a estrutura de
preferências doméstica permaneça estável. Isto é, mesmo contando com eventual
maioria Republicana, "Uma vez que a vitória foi construída sobre um número de
Republicanos votando contra seus eleitorados e convicções, coloca-se em dúvida
a habilidade do USTR em ganhar a aprovação de acordos comerciais controversos
no futuro" (Destler, 2005: 332). A dificuldade em ratificar o CAFTA-DR expôs a
divisão política doméstica. Contudo, um estudo comparativo sobre a ratificação
de outros acordos bilaterais é necessário para sedimentar a questão.
O CAFTA-DR
O CAFTA-DR é expressão da política comercial norte-americana delineada na seção
anterior. Faz parte de duas estratégias específicas inauguradas na
administração Bush: a liberalização competitiva e a building blocks. Do ponto
de vista comercial, busca igualar ou melhorar as oportunidades para empresas
norteamericanas, já que os países da América Central têm acordos de livre-
comércio com Chile, República Dominicana, México e Canadá, além de acordos de
investimentos com países europeus e latino-americanos. Adicionalmente, é um
instrumento da política externa para a América Latina. Trata também de ameaças
consideradas de baixa intensidade, como tráfico de drogas, imigração,
corrupção, pois é tido como um meio para fortalecer e aprimorar o estado de
direito, aumentar a influência política norte-americana e expandir
oportunidades econômicas. O depoimento de Noriega em defesa da ratificação do
CAFTA-DR salienta a importância do acordo para a administração Bush.
A formação de um Acordo de Livre-Comércio com a América Central e a
República Dominicana tem sido uma de nossas prioridades diplomáticas
nos últimos dois anos e meio. Acreditamos que a eliminação de
barreiras comerciais podem ser um processo de transformação de
sociedades. Ao estimular o crescimento, tornar os processos
decisórios econômicos mais transparentes e ao abrir novas
oportunidades econômicas para trabalhadores, fazendeiros e
empresários, o livre-comércio não somente aumenta a prosperidade, mas
fortalece a democracia. Isso aumenta a segurança dos EUA. A pobreza
esmagadora é uma das causas da instabilidade política, da migração e
do crime na América Central e na República Dominicana. É melhor
atacar esses problemas na fonte do que ter que lidar com eles quando
eles atingirem nosso litoral pela imigração ilegal, tráfico de drogas
ou terrorismo (Western Hemisphere, 2005: 14).
Os governantes dos países centro-americanos e da República Dominicana defendem
o CAFTA-DR como uma oportunidade de melhorar a inserção econômica
internacional. Ele substitui e consolida boa parte das preferências comerciais
unilaterais concedidas pelos EUA a esses países por meio do SGP, do Caribbean
Basin Economic Recovery Act e do Caribbean Basin Trade Partnership Act, muitas
das quais precisavam ser renovadas periodicamente pelo Congresso, além de
liberalizar partes adicionais de comércio. Seria também estímulo à
solidificação e aprimoramento das reformas neoliberais em marcha há cerca de
duas décadas. Tal posição, apoiada por muitos segmentos sociais, principalmente
o empresarial, obviamente não é isenta de críticas e de oposição, como
demonstram os debates ocorridos durante os processos de negociação e
ratificação nos parceiros norte-americanos (Condo, Colburn e Rivera, 2005;
Jaramillo e Lederman, 2005; Hornbeck, 2007).
O CAFTA-DR é um acordo de liberalização comercial regional em que cada membro,
apesar de ter um cronograma próprio para eliminar as barreiras ao acesso ao seu
mercado, está sujeito aos mesmos compromissos1. É um acordo abrangente, pois
liberaliza e estabelece regras para compras governamentais, propriedade
intelectual, serviços, investimentos e mercadorias. Aborda também questões
ambientais e trabalhistas. O CAFTA-DR não afeta subsídios domésticos à
agricultura e aborda pouco de subsídios à exportação. O compromisso é de não
subsidiar as exportações para os membros do acordo, a não ser quando em
competição com exportações subsidiadas de terceiros. No que toca a mercadorias,
a maior parte passou a ser comercializada isenta de tarifas logo após o acordo
entrar em validade. Porém, alguns produtos sensíveis, principalmente os
agrícolas, possuem um cronograma de abertura maior e mais lento, que poderia
chegar a 20 anos. Alguns desses produtos são batatas e cebolas importadas pela
Costa Rica, milho branco importado por Guatemala, El Salvador, Nicarágua e
Honduras e o açúcar importado pelos EUA. Esses produtos continuarão sujeitos a
quotas, que serão aumentadas anualmente em 2% após um certo período (Hornbeck,
2007; Jaramillo e Lederman, 2005).
A ratificação do CAFTA-DR foi difícil e gerou um debate amplo. No Senado, foi
aprovado por 54 a 45 votos em 30 de junho de 2005 e na Câmara o acordo foi
aceito por 217 a 215 votos em 28 de julho do mesmo ano. Foi o mais difícil da
história da política comercial norte-americana em termos de construção de uma
coalizão que viabilizasse a ratificação, superando inclusive o NAFTA. A exemplo
deste último acordo, sindicatos e ambientalistas, representados em sua maioria
por congressistas Democratas, se opuseram ao CAFTA-DR por causa do grau de
regulação considerado insuficiente para os dois temas. Setores específicos,
como o de têxteis, alguns produtores de manufaturas e os produtores de açúcar
também desaprovavam o acordo (Destler, 2005).
Essa dificuldade pode causar surpresa em decorrência da assimetria entre os
EUA, de um lado, e os centro-americanos e a República Dominicana de outro. Não
é necessário detalhá-la; basta mencionar que enquanto cerca de 50% comércio dos
seis países é feito com os EUA, eles representaram cerca de 1,5% do comércio
exterior norte-americano em 2004 (Hornbeck, 2007). O acordo tampouco tem
capacidade de influenciar significativamente o conjunto da economia
norteamericana. A United States International Trade Commission estimou que seu
efeito seria de agregar 0,01% do produto nacional bruto para cada ano do acordo
(Jaramillo e Lederman, 2005).
Apesar da assimetria, os cinco países da América Central e a Republica
Dominicana são, em conjunto, os segundos maiores importadores dos EUA na
América Latina, ficando atrás somente do México. As importações daqueles países
são maiores do que as da Rússia, Índia e Indonésia combinadas. Antes do acordo,
mais de 80% das exportações dos membros do CAFTA-DR entravam nos EUA com tarifa
zero, enquanto 40% das vendas norte-americanas recebiam esse tratamento. Isso
confere ao arranjo uma certa importância para o fortalecimento das relações
comerciais no hemisfério, e por isso foi amplamente apoiado pelo empresariado.
Porém, mesmo sendo apresentado pela administração com uma das mais importantes
iniciativas para a América Latina, o CAFTA-DR quase não foi concretizado.
A ratificação do CAFTA-DR e a questão do açúcar
Um dos principais eixos do debate em torno da ratificação do CAFTA-DR, o
principal do campo agrícola, foi a possibilidade de diminuição da política de
proteção aos produtores de açúcar nos EUA. O que estava em jogo era a abertura
do setor como moeda de barganha. Esse foi um desafio colocado pelos seis
interlocutores dos EUA e, na interpretação dos produtores de açúcar, pela
própria administração Bush2. A administração se defendeu argumentando que não
havia risco de modificação da proteção ao setor por causa do CAFTA-DR. Contudo,
se a estratégia de proliferação de acordos comerciais continuar no longo-prazo,
a política de proteção ao açúcar terá de ser reformada ou mesmo extinta.
Examinar a questão do açúcar neste caso ganha relevância por fornecer pistas às
dificuldades domésticas que as futuras administrações norte-americanas terão ao
buscar a liberalização do comércio internacional, sobretudo na área agrícola.
O compromisso norte-americano foi de paulatinamente aumentar a quota de
importação de açúcar destinada aos parceiros (Olson, 2005). Antes do CAFTA-DR,
os cinco países centro-americanos e a República Dominicana possuíam quotas
isentas de tarifa sob o Acordo sobre Agricultura da OMC de, respectivamente,
126.365 toneladas métricas (tm) e 185.335 tm. Juntos, portanto, os seis países
possuíam 311.700 tm duty free, o que correspondia a 28% dos 1,139 milhões de tm
distribuídas pelos EUA para 41 países sob o Acordo de Agricultura. Com o CAFTA-
DR, os norte-americanos concederam 99 mil toneladas métricas a mais para os
centro-americanos no primeiro ano de validade do acordo, e 41 mil tm seriam
adicionadas gradualmente ao longo de 15 anos. Já a República Dominicana teria
um aumento de 10 mil tm no primeiro ano e mais 2% anualmente sobre o valor
adicional concedido no primeiro ano. Então, no início, a quota dos parceiros
norte-americanos seria dilatada em 109 mil tm, alcançando incremento de quase
465 mil tm ao longo de 15 anos, como demonstra a tabela 2. Estima-se que a
produção centro-americana exportada para os EUA aumente de 4% para 8%.
Segundo o USTR (2005a; 2005b), o incremento nas importações não terá capacidade
para a afetar o programa de proteção ao açúcar norte-americano, explicado
adiante. A projeção era de que no primeiro ano do acordo as importações de
açúcar corresponderiam a cerca de 1,2% do consumo doméstico e, depois de 15
anos, chegaria a 1,7%, portanto bastante pequena. Além disso, o acordo não
prevê a eliminação das tarifas de mais de 100% para exportações que excederem
as quotas e conta ainda com a possibilidade de impor salvaguarda à importação
de açúcar mediante compensação equivalente.
Porém, os grupos de interesse ligados ao açúcar fizeram forte campanha de
oposição ao acordo, afirmando que ele prejudicaria sim o programa
norteamericano. O argumento central era que o aumento nas importações abalaria
o terceiro pilar do programa de proteção ao açúcar, o que faria desmoronar a
política protecionista para o setor. Para entender melhor o argumento é útil
descrever brevemente o referido programa.
O programa de proteção ao açúcar instituído na Farm Bill de 2002 é uma variação
do programa instituído pela primeira vez com a Lei Jones-Castigan de 1934. Na
versão atual3, ele conta com três pilares: non-recourse loans; flexible
marketing allotments (quotas domésticas) e Tariff-Rate Quotas (TRQ) (Olson,
2005; Haley e Ali, 2007). O objetivo é manter o preço doméstico em nível
considerado 'justo', valendo-se da restrição da venda doméstica e do
desestímulo a produção, de modo a impedir a superprodução, assim como bloquear
importações a partir de uma certa quantidade para limitar a oferta interna.
O non-recourse loan é um tipo de empréstimo feito pela Commodity Credit
Corporation (CCC) similar ao marketing assistance loan, ou seja, o Congresso
estabelece um preço mínimo ao açúcar que equivalha aos custos de produção, mais
os juros do empréstimo. Caso o preço de mercado caia abaixo daquele legislado,
o empréstimo pode ser pago em açúcar ao invés de em dinheiro. O preço legislado
(loan rate) para açúcar de cana-de-açúcar é de 18 centavos por libra e de 22,9
centavos por libra por açúcar de beterraba refinado domesticamente4. O açúcar
repassado à CCC não é comercializado por um certo período para que o preço de
mercado seja elevado. A estocagem é feita pelo processador, que recebe
pagamento do governo por isso. É interessante notar que os empréstimos são
feitos aos processadores e não aos produtores de açúcar, mas os ganhos obtidos
pela diferença entre os preços de mercado e o preço estabelecido pelo
Congresso, a loan rate, deve ser dividido entre produtores e processadores. Os
empréstimos devem ser pagos em no máximo nove meses, com juros, de modo a
garantir o autofinanciamento do programa.
O Flexible Marketing Allotments é um instrumento conferido ao secretário de
Agricultura para limitar as vendas domésticas de açúcar, por meio de quotas
distribuídas aos processadores. O açúcar produzido em excesso à quota não pode
ser vendido domesticamente e o produtor deve estocá-lo, arcando com tais
custos. Isso porque o USDA estima a demanda doméstica e a quantidade necessária
para atendê-la visando a manutenção do preço.
Por fim, a oferta no mercado doméstico é controlada pela TRQ. Com ela, os EUA
permitem a importação de açúcar isenta de tarifas de 41 países, algo em torno
de 13% do consumo interno. O teto estabelecido pelo Congresso é de 1,39 milhões
de tm para importações. Se ele for ultrapassado, o USDA perde a autoridade de
controlar as vendas domésticas5. Com isso, muito provavelmente ocorreria
superprodução e queda dos preços domésticos abaixo da loan rate, prejudicando
produtores e aumentando os gastos governamentais com esse programa que, sob
condições normais, não tem custo direto para o governo.
Assim, o cerne da queixa dos produtores de açúcar norte-americanos era que a
expansão da quota dos países centro-americanos seria um passo na direção da
superação do teto de importação estabelecido pelo Congresso. Na verdade, as
quotas atuais fornecidas pelos EUA são de 1,13 milhões de tm e a diferença
entre este valor e o teto legislado, 260 mil tm, é uma reserva (buffer) que se
teme perder por duas razões (Olson, 2005; Haley e Ali, 2007). Primeira, a
partir de 2008 o México poderá exportar quantidades ilimitadas de açúcar aos
EUA sob o NAFTA. Segunda, uma vez que a proliferação de acordos comerciais é
uma estratégia enfatizada pela administração, há o receio de que novos acordos
bilaterais e regionais tragam benefícios adicionais que, acumuladas, poderão
por o terceiro pilar em risco e levar todo o programa a pique. Nas palavras de
Jack Roney, diretor de economia e análise política da American Sugar Alliance,
"no longo-prazo, o CAFTA-DR é apenas a ponta do iceberg. Atrás dos países do
CAFTA-DR, 21 outros países exportadores estão (...) esperando para fazer acordo
com os EUA" (Ways and Means, 2005: 130). Daí os esforços pela rejeição do
CAFTA-DR: "consideramos o CAFTA-DR uma questão de vida ou morte" (Ways and
Means, 2005: 130). Esta segunda razão é de fato um desafio à política agrícola
norteamericana, como demonstra o gráfico_1 abaixo. O aumento do acesso ao
mercado norte-americano concedido aos parceiros do acordo não ocorrerá em
detrimento dos outros países que usufruem das quotas.
O acordo foi ratificado com concessões limitadas aos centro-americanos e à
República Dominicana. De fato, o açúcar foi o único produto agrícola com
tratamento especial pelos EUA. Não se pode ignorar que parte de explicação para
a abertura limitada pode ser encontrada na própria dinâmica da negociação, na
troca de concessões. Anabel González (2006: 29), que foi negociadora-chefe da
Costa Rica, relata que
"desde as primeiras trocas de ofertas ficou evidente que a
dificuldade que se apresentava nesta área [agrícola], sobretudo para
a América Central, se manifestava pelo alto grau de correlação entre
os produtos prioritários dos EUA e os produtos sensíveis para os
países da região. O inverso ocorria em muitos poucos casos,
sobretudo, com açúcar".
Segundo ela, os centro-americanos tinham interesse em manter diversos produtos
sob regime de exceção, enquanto a posição norte-americana era de que todos
tivessem tratamento igual. Posteriormente, um maior acesso ao mercado
norteamericano de açúcar foi colocado como condição para diminuição das
exceções demandadas pelos centro-americanos. De grande relevância para aumentar
as quotas centro-americanas foi a retirada do arroz da lista de exceção
costarriquenha, algo que os negociadores dos EUA consideravam um trunfo para a
ratificação doméstica. Ao final da negociação, o capítulo sobre agricultura foi
concluído com as exceções e salvaguardas mencionadas anteriormente. Todos os
sete países mantiveram protegidos alguns produtos agrícolas específicos. O que
queremos salientar é que a barganha foi um elemento que levou o Executivo a
buscar aumentar o acesso ao mercado norte-americano de açúcar, ou mesmo
possibilitou essa busca.
Mas outra parte da explicação reside em boa medida nos esforços dos grupos de
interesse e congressistas vinculados ao setor do açúcar. Para tratar melhor a
questão, deve-se colocá-la na perspectiva geral de ratificação do acordo, o que
nos possibilitará analisar a força desses grupos e o TPA como mecanismo capaz
de agregar preferências liberalizantes. Na verdade, apesar de não ter havido
abertura completa ao setor de açúcar, consideramos que os interesses
protecionistas norteamericanos saíram derrotados.
A estrutura de preferências doméstica ajuda a analisar a questão (Milner,
1997). Utilizando os relatórios que comitês de aconselhamento (compostos por
representantes da sociedade e alocados institucionalmente no USTR) emitem com
opinião sobre a ratificação do acordo comercial, podemos afirmar que a
administração Bush e os congressistas que a apoiavam buscavam deslocar o status
quo no sentido da liberalização, apoiados principalmente por empresários. Deve-
se notar que indústrias que utilizam açúcar como insumo estavam entre esses
apoiadores6. A coalizão de oposição rejeitava o deslocamento do status quo
nessa direção por alguns motivos. Para os sindicatos, o acordo não promovia o
aperfeiçoamento das leis trabalhistas, não continha mecanismos adequados para
garantir que os compromissos trabalhistas fossem cumpridos e as regras para
serviços, investimentos e licitações prejudicavam a capacidade dos governos
parceiros agirem pelo interesse público7. A maioria dos ambientalistas endossou
o acordo, opinando que o CAFTA-DR atingia os objetivos do Congresso escritos no
TPA e que aperfeiçoaria a proteção do meio ambiente8. Houve, contudo, forte
oposição da minoria e uma série de reservas, por exemplo, sobre a falta de
financiamento adequado à capacitação da preservação ambiental, mecanismos de
solução de controvérsias entre empresa e Estado que fortaleciam inadequadamente
os primeiros em detrimento da boa governança, e salvaguardas ambientais de
baixa eficiência. É importante destacar que o setor agrícola apoiou o acordo,
com exceção dos produtores de açúcar, mas frisando que a negociação da
liberalização da agricultura deve ocorrer preferencialmente no âmbito
multilateral9.
A polarização entre as duas coalizões foi significativa e a cooptação de
membros da oposição pela administração demandou uma série de compensações e
trocas políticas (side-payments), assim como foi necessário para a aprovação da
TPA. Vale mencionar algumas (Erikson, 2004/2005; Hornbeck, 2007). Para o
Senado, o então chefe do USTR, Robert Portman, escreveu carta ao senador
Democrata Jeff Bingaman, prometendo que o Executivo buscaria, junto ao
Congresso, alocar US$ 40 milhões do orçamento para operações estrangeiras em
projetos de capacitação de aplicação de padrões trabalhistas e ambientais por 3
anos, dos quais cerca de US$ 3 milhões seriam destinados à Organização
Internacional do Trabalho para a elaboração de relatórios sobre a aplicação
daqueles padrões nos parceiros do CAFTA-DR. Mais US$ 10 milhões seriam
destinados à República Dominicana, Guatemala e El Salvador para melhorias na
área rural para que pudessem atingir elegibilidade ao programa U.S. Millennium
Challenge Corporation. Para a Câmara, foi aprovada a U.S. Trade Rights Act, lei
que aumenta as possibilidades de defesa comercial contra a China e economias
que não são de mercado.
Concessões foram feitas especificamente para o setor têxtil, entre elas:
modificar as regras de origem acordadas no CAFTA-DR para que bolsos e forros
beneficiados pelo acordo fossem produzidos exclusivamente pelos membros e não
provenientes de outros países; aumentar a quantidade necessária de tecido
norteamericano nos produtos nicaragüenses para que pudessem ser isentos ao
entrar nos EUA; e negociar com o México um novo acordo de controle aduaneiro
para diferenciar têxteis importados do CAFTA-DR com insumos norte-americanos e
mexicanos.
Para o setor do açúcar, Mike Johanns, Secretário de Agricultura, enviou carta
aos presidentes dos Comitês de Agricultura da Câmara e do Senado, deputado Bob
Goodlatte e o senador Saxby Chambliss, ambos Republicanos, afirmando o
compromisso da administração em não permitir que o CAFTA-DR prejudicasse o
programa de proteção ao açúcar estabelecido pela Farm Bill de 2002. No caso de
as importações ultrapassarem o teto do terceiro pilar, as perdas dos produtores
domésticos seriam compensadas com pagamentos diretos ou com a compra do açúcar
para fins não alimentícios, tal como a produção etanol.
A polarização doméstica "torna a margem básica de apoio estreita, tornando a
política comercial refém de qualquer interesse protecionista que possuam os
votos marginais, decisivos", principalmente na Câmara dos Deputados (Destler,
2005:306). Isso explicaria a capacidade do setor de açúcar ser capaz de colocar
sério obstáculo à ratificação do CAFTA-DR e limitar as concessões efetuadas,
apesar de sua ineficiência, de lesar o consumidor e da baixa relevância para a
economia nacional.
Por fim, é interessante notar que foi o procedimento de ratificação do TPA que
potencializou e ao mesmo tempo criou uma condição necessária para a superação
das restrições dos grupos protecionistas, não apenas do setor de açúcar, quanto
ao deslocamento do status quo numa direção liberalizante. A potencialização
ocorreu porque o Executivo colocou a adição de quotas aos parceiros do CAFTA-DR
como uma concessão em um acordo de liberalização comercial. Surgiu oportunidade
para os produtores de açúcar exercerem influência no processo legislativo,
visto que a validade da concessão estava sujeita a ratificação. Segundo a Farm
Bill de 200210, cabe ao Executivo determinar e distribuir o total de quotas
disponibilizadas entre os países elegíveis, levando em conta a estimativa de
consumo doméstico, a capacidade dos produtores norte-americanos de suprir uma
parte do consumo, os compromissos assumidos de importar 1,13 milhões de tm. sob
a TRQ, e o teto-gatilho de 1,39 milhões tm. Isto é, havendo perspectiva de
crescimento do consumo de açúcar, o Executivo poderia ter aumentado as quotas
de forma autônoma. Porém, deve-se salientar que, ao trocar o incremento das
quotas de açúcar por outras vantagens em um acordo comercial, o Legislativo
entrou no jogo. Ademais, a ratificação do incremento gradual das quotas
dificulta a reversão sem ação legislativa.
Quanto à superação da oposição, o TPA é um instrumento institucional que
permite aos congressistas superarem o protecionismo. O procedimento legislativo
é responsável por isso. Em uma única votação, sem possibilidade de emendas,
deve-se votar pela ratificação ou pela rejeição do acordo sem possibilidade de
emendá-lo. Isso permite ao legislador votar pela liberalização argumentando ao
seu eleitorado que, apesar de o acordo prejudicar alguns setores, expondo-os à
competição, em geral, ele é benéfico ao conjunto da economia. Entretanto, como
dissemos, essa posição é contingente às preferências dos congressistas à
capacidade de construção de coalizões. O histórico de utilização desse
instrumento permite afirmar que ele é um viesador em favor da liberalização
comercial, pois jamais um acordo comercial deixou de ser ratificado. Contudo,
as divisões políticas domésticas deixaram claro que sem o envolvimento de peso
da administração Bush o CAFTA-DR poderia ter sido uma exceção.
Conclusão
A proliferação de acordos comerciais na administração Bush representou uma
mudança na tradição norte-americana. De algo fundamentalmente multilateral,
passou a ser bilateral. Com a aproximação do encerramento da administração
Bush, parece razoável avaliar essa política como de sucesso parcial no que toca
à América Latina. No caso do CAFTA-DR, como pudemos observar, houve grande
dificuldade para que o acordo fosse ratificado. Essa dificuldade surpreende
porque o impacto que a região é capaz de produzir na economia dos Estados
Unidos é pequeno e também porque a administração Bush atribuiu significativa
relevância ao acordo. O Estado teve dificuldade para concretizar uma iniciativa
que, considerando a assimetria entre os países, parecia não ser problemática.
Dois fatores domésticos parecem ter sido relevantes para entender essa
dificuldade. Primeiro, a crescente polarização partidária nos últimos anos,
tornou mais complexa a criação de amplas coalizões legislativas no campo da
política comercial. Conseqüentemente, esse é o segundo fator, as maiorias
construídas são mais estreitas, o que potencializa a demanda de grupos
protecionistas capazes de mobilizar uns poucos congressistas. Como esses
congressistas podem ser decisivos, eles são capazes de extrair compensações
consideráveis sob a ameaça de bloquear a ratificação.