Indicadores e Análise Multidimensional do Processo de Integração do Cone Sul
Introdução
No presente trabalho se desenvolve indicadores de integração regional com o
principal objetivo de apresentar uma analise multidimensional do Mercosul no
período de 1991 a 2006. A pesquisa parte da premissa que o Mercosul não pode
ser considerado um caso sui generisde integração regional, e sim um exemplo de
organização de integração regional assim como, por exemplo, a União Européia ou
a Comunidade Andina de Nações. Embora cada uma dessas organizações possua
características e dinâmicas particulares, e se encontre em momentos distintos
de seu processo de integração, elas são entidades passíveis de serem
comparadas.
A integração regional é definida neste trabalho como "um processo dinâmico de
intensificação em profundidade e abrangência das relações entre atores levando
à criação de novas formas de governança político-institucionais de escopo
regional" (Herz & Ribeiro Hoffmann, 2004: 168). É importante destacar que
os atores envolvidos em um processo de integração podem ser governamentais ou
não-governamentais, e além disso, podem ser nacionais, subnacionais ou
transnacionais. Outro componente importante desta definição é que ao se
integrar (regionalmente), os atores passam a fazer parte de um sistema
político, de tomada de decisão, comum. Este conceito de integração regional
envolve, portanto, a criação de organizações internacionais formais,
estabelecidas em um acordo constituinte, e que possuem sedes físicas. No
entanto, ela não se restringe a instituições formais, ela engloba também,
normas, práticas e instituições informais. Neste contexto, torna-se
extremamente importante se definir instituições (regionais) e processos de
institucionalização.1
O presente trabalho adota as definições de instituições e de processo de
institucionalização de Samuel Huntington (1975). Ele define instituições como
padrões de comportamento estáveis, válidos e recorrentes, e abrangem
organizações formais e procedimentos. Para o autor, as comunidades políticas em
sociedades complexas dependem da força das instituições políticas, que
dependem, por sua vez, da extensão do apoio dado a elas, ou seja, a medida em
que elas abrangem as atividades da sociedade, e do seu nível de
institucionalização (Huntington 1975:24).
Processo de institucionalização é definido como um "processo através do qual as
organizações e os processos adquirem valor e estabilidade" (op. cit.: 24). O
autor distingue quatro critérios de institucionalização: adaptabilidade,
complexidade, autonomia e coesão. A respeito da adaptabilidade, Huntington
defende que quanto mais adaptáveis forem as instituições, maior o nível de
institucionalização. Adaptabilidade é uma função dos desafios do ambiente e da
idade, e o êxito na adaptação abre caminho para adaptações bem sucedidas aos
desafios ambientais subseqüentes. A idade pode ser medida de três maneiras:
cronologicamente (quanto maior o tempo de existência, mais institucionalizada é
a instituição), por geração (quanto mais freqüentemente a instituição tiver
passado por transições de dirigentes pacificamente, maior sua
institucionalização), ou em termos funcionais (uma organização que tiver se
adaptado e sobrevivido a mudanças em seu meio e funções principais será mais
institucionalizada). Quanto ao segundo critério, a complexidade, o autor
defende que quanto mais complexa a instituição, maior seu nível de
institucionalização. A complexidade pode envolver tanto a multiplicação de
subunidades, como de objetivos, e quanto mais complexa for a instituição, mais
meios para se renovar e adaptar ela terá. O terceiro critério, autonomia, é
definido como a extensão em que a instituição existe independentemente de
agrupamentos sociais e outras instituições políticas. A autonomia da
instituição pode, portanto, ser medida pela extensão em que ela possui valores
e interesses próprios, distinguíveis dos das outras instituições e forças
sociais. Finalmente, quanto maior a coesão e união da instituição, ou seja, sua
capacidade de coordenação e disciplina, maior sua institucionalização (op.
cit.: 23-36).
Uma das vantagens de se adotar a definição de instituição de Huntington, é o
fato dela não enfatizar a questão da supranacionalidade, ainda que este esteja
relacionado ao critério de autonomia. A importância da supranacionalidade
costuma ser supervalorizada devido à importância atribuída a esta
característica pelo neo-funcionalismo, uma das mais referidas perspectivas de
integração regional. O neo-funcionalismo, no entanto, embora em suas origens
tenha tido a ambição de se consolidar como uma teoria geral de integração
regional, acabou se restringindo ao caso europeu, tendo, portanto, pouco valor
para uma analise que pretende poder ser aplicada em outros processos de
integração regional, em particular, o Mercosul (Haas 1967, Malamud 2003).
Já outro conceito relacionado a definição de instituições e processos de
institucionalização não enfatizado por Huntington, mas que merece ser destacado
é o conceito de legalização, ou judicialização. Alguns autores definem
legalização como uma forma específica de institucionalização, e que pode ser
analisada com base no grau de obrigação que as normas impõem sobre os Estados,
na precisão de seu conteúdo; e no nível de delegação de poderes dos Estados
para terceiros na formulação, interpretação e implementação das normas (Abott
et al2000). Definições de legalização menos formalistas enfatizam as práticas,
normas informais, e a legitimidade das normas (Finemore e Toope 2001). Outro
conceito próximo ao de legalização, bastante referido nos estudos de integração
regional, sobretudo a União Européia, é o de constitucionalização (Rittberger e
Schimmelfenig 2006).
Finalmente, um último aspecto importante sobre o nível de cooperação/integração
de um processo de integração regional como definido neste trabalho, é que ele
não pode ser avaliado de uma forma compacta, única, e sim desmembrado em várias
características particulares, que podem ser vistas como indicadores temáticos.
Para que o nível total de integração possa ser analisado, e sobretudo,
explicado, seria necessário se atribuir a importância relativa de cada
indicador, que por sua vez, somente pode ser determinada a partir de premissas
teóricas que busquem explicar a dinâmica dos processos de integração.2 Embora o
presente trabalho conduza uma análise do nível de integração regional do
Mercosul ao longo do tempo, não é atribuída importância relativa a nenhum
indicador específico. A análise é conduzida apenas a partir de uma comparação
no tempo dos indicadores apresentados.
Antes de conduzir a análise do nível de integração regional do Mercosul entre
1991 e 2006, o artigo apresenta os indicadores de integração regional, e sua
operacionalização. Algumas reflexões finais são apresentadas na última sessão.
Indicadores de integração regional e sua operacionalização
Como afirmado acima, o principal objetivo deste artigo é analisar o nível de
integração do Mercosul. Ele não tem a ambição de construir uma teoria que
explique avanços e retrocessos dos processos de integração, não busca
selecionar variáveis e comparar seu poder explicativo em diferentes casos de
processos de integração ou diferentes períodos históricos de um mesmo processo
de integração. Desta forma, a seleção de indicadores não se restringe a
variáveis apontadas pelas teorias de integração, ela procura ser o mais
abrangente possível, desde que não se torne redundante. Os dados empíricos
coletados poderiam potencialmente ser utilizados para testar hipóteses de
diferentes teorias, ou alternativamente, para desenvolver, de forma indutiva,
uma nova teoria, mas isso seria outro trabalho.
Os indicadores selecionados são brevemente descritos abaixo. Eles estão
agrupados em três dimensões: econômica, político-institucional e social. As
dimensões englobam atividades dos governos e da sociedade civil, sendo que a
última é definida de forma ampla, incorporando entidades sem e com fins-
lucrativos. Estas dimensões, e alguns dos indicadores selecionados neste
trabalho, foram utilizadas por Joseph Nye em um estudo comparativo dos
processos de integração regional (Nye, 1970). Este autor, que foi um dos
primeiros estudiosos da integração regional a defender a desagregação do
conceito de integração, destacou que uma das principais vantagens do método é a
compreensão de que não apenas diferentes aspectos podem progredir em ritmos
diferentes, mas também que é possível que haja integração em determinadas áreas
e desintegração em outras.
Em relação aos indicadores econômicos, a maioria dos estudos de integração
regional se baseia na tipologia desenvolvida por Bela Belassa em uma obra
seminal sobre as teorias de integração econômica "área de livre comercio",
"união aduaneira", "mercado comum", "união econômica" e "integração econômica
total" (Belassa 1961). No caso do Mercosul, os tratados afirmam o objetivo
alcançar apenas o nível de mercado comum. No entanto, até o presente momento o
Mercosul é caracterizado como uma união aduaneira imperfeita. Por este motivo,
os indicadores selecionados se limitam aos relativos à livre circulação de
fatores, e o volume de comércio relativo incorporado a tarifa externa comum. Os
indicadores abrangem as taxas de crescimento absoluta, e relativa ao resto do
mundo.
No que se refere aos indicadores político-institucionais, um primeiro grupo de
indicadores são os relativos ao desenho institucional do bloco. Essas
características determinam em grande medida o perfil do bloco como
intergovernamental ou supranacional. Essas características, no entanto, não são
percebidas como estanques no tempo. A partir de uma visão dinâmica da
intergovernabilidade-supranacionalidade, pode-se compreender que uma
organização de integração regional pode ter características intergovernamentais
e supranacionais ao mesmo tempo, e que essas características possam ser
alteradas ao longo do tempo por meio de práticas informais e reformas
institucionais. No caso do Mercosul, as decisões em todos os órgãos e áreas
temáticas é o consenso, mas esta regra pode mudar. Da mesma forma, o sistema
judiciário, embora não seja comunitário, tem adquirido mais poder vinculatório.
No que se refere ao volume total de normas aprovadas nos órgãos deliberativos,
embora este número seja importante, o mais relevante para o Mercosul parece ser
o volume de normas incorporadas, dado que historicamente há um grande hiato
entre os dois (Pena 2003).
Outra característica político-institucional importante seria um indicador da
utilização do sistema de solução de controvérsia no caso da existência de
conflitos. Enquanto na União Européia, por exemplo, todos os casos sob
competência da Corte Européia de Justiça passam pelas normas regionais, seja
quando são diretamente trazidos a ela, ou via cortes nacionais, dado que o
direito comunitário é hierarquicamente superior ao doméstico, e de aplicação
imediata, no Mercosul, este não é o caso, como exemplificado no recente caso
das "papeleiras" (Magalhães 2006). Outro indicador relevante é a representação
do bloco em instituições internacionais, ou seja, o grau de formalização da
representação do bloco em outras instituições internacionais tais como a OMC, a
ONU ou a OEA. Três níveis de representação poderiam ser definidos: membro
pleno; status formal de observador; participante informal (Ribeiro Hoffmann
2007).
Finalmente, é importante averiguar se as instituições dos governos nacionais
(federais, estaduais ou municipais) têm órgãos ou indivíduos responsáveis para
lidar com assuntos de integração regional. No caso do Mercosul, parece estar
havendo uma mudança neste sentido, já que várias prefeituras e ministérios têm
criado cargos de assessores internacionais. As subunidades federativas têm cada
vez mais se organizado coletivamente para participar do processo decisório,
sendo a criação recente do Foro Consultivo de Municípios, Estados Federados e
Províncias, um exemplo desta atividade (Pasquariello Mariano 2007).
No que se refere aos indicadores sociais, o primeiro é a livre circulação de
pessoas, que também estaria dentro do indicador de Belassa de livre circulação
de fatores, mas foi incorporado aqui como indicador social, pois envolve, além
da circulação por motivos de emprego, também turismo e estudos. Outro indicador
para a circulação de estudantes, embora menos ideal, pois indicaria a
possibilidade de circulação e não a circulação de fato, seria a harmonização do
sistema educacional. Outra característica importante é a existência de
atividades culturais, aqui o indicador ideal seria a quantidade de eventos, mas
na impossibilidade de obtenção deste dado, um substituto seriam as políticas de
promoção cultural entre os Estados membros. A criação de órgãos de
representação de empresários ou trabalhadores regional, criação de ONGs
regionais também seria um indicador importante. Finalmente, entre os
indicadores sociais estaria a existência ou não de uma identidade comum
regional. A avaliação deste indicador poderia ser obtida através de pesquisas
de opinião, tais como a realizada pelo Latinobarômetro.3
O nível de integração do Mercosul entre 1991 e 2006
Antes de apresentar os dados empíricos da pesquisa é preciso destacar uma
limitação da análise conduzida, que se deveu à impossibilidade de acesso ou
mesmo a inexistência de fontes. Com isso, a análise do nível de integração do
Mercosul apresentada se baseia nos seguintes indicadores: na área social, a
circulação de pessoas foi analisada a partir dos fluxos de turistas entre os
quatro países do bloco. Na área econômica, foram analisados dados de comércio
intra e extrabloco, e o PIB dos países. Os indicadores institucionais são a
estrutura institucional do Mercosul, a internalização da normativa, a resolução
de disputas, e representação externa do bloco.
Para acompanhar a evolução da estrutura institucional do Mercosul, as fontes
consultadas foram os tratados, protocolos e decisões do Conselho do Mercado
Comum (CMC). Como indicadores relativos à incorporação da normativa aos
ordenamentos jurídicos internos, foram analisadas as diretrizes da Comissão de
Comércio do Mercosul (CCM) disponíveis no siteda Secretaria do Mercosul4. As
resoluções de disputas foram analisadas a partir dos laudos dos mecanismos de
solução de controvérsias do bloco e das instâncias globais tais como a
Organização Mundial de Comércio e a Corte Internacional de Justiça de Haia. É
analisado se o contencioso se resolveu a contento das partes dentro dos
mecanismos institucionais do Mercosul, ou se foi levado a outra organização
mundial, o que pode significar menor grau de confiança na instituição regional.
A representação externa é analisada por meio dos padrões de votação na
Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Considera-se a votação
foi conjunta quando os quatro países do Mercosul votaram coincidentemente -
seja a favor ou contra a resolução - ou quando todos estiveram ausentes da
votação. Quando há alguma divergência, mesmo que seja apenas a ausência de um
dos quatro países, considera-se que votaram em separado5.
A análise dos dados sugere que o processo de integração do Mercosul pode ser
dividido em três fases. A primeira pode ser chamada de fase de formação e
compreende o período entre 1991 e 1997, durante o qual é constituída a
estrutura institucional do bloco. A ênfase é dada ao aspecto comercial do
processo de integração, com a criação de órgãos destinados a tratar do tema. A
segunda fase, que vai de 1998 a 2002, foi uma fase de crise, como um reflexo da
crise econômica pela qual os países passavam. Uma terceira fase se delineia a
partir de 2003, quando há uma retomada do processo de integração, coincidindo
com uma renovação na política doméstica dos países, com governos mais alinhados
com a esquerda chegando ao poder: no Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, na
Argentina, Néstor Kirchner, e no Uruguai, Tabaré Vázquez. Os três novos
governos destacaram a importância da integração regional em suas políticas
externas, mas com uma mudança de paradigma: aos poucos a idéia de um Mercosul
puramente comercial vai dando lugar a uma preocupação maior com a integração
física e social, e a institucionalização. Cada uma destas fases é analisada em
detalhes a seguir.
1ª Fase (1991 a 1997): a criação do Mercosul
Institucional
Ao criar o Mercosul em 1991, os países-membros optaram por um desenho
institucional intergovernamental, criando órgãos compostos por representantes
dos poderes executivos dos Estados-membros, e um sistema de tomada de decisão
por consenso. Segundo o estabelecido no Tratado de Assunção, o Mercosul
contaria com dois órgãos: o Conselho do Mercado Comum (CMC) e o Grupo Mercado
Comum (GMC). O CMC seria o órgão superior do Mercosul, formado pelos ministros
de Relações Exteriores e pelos ministros de Economia de cada um dos Estados-
membros, além da participação dos presidentes dos Estados membros em pelo menos
uma reunião anual. Ao CMC estava designada a condução política do bloco e a
tomada de decisões para a constituição do Mercado Comum.
O GMC foi instituído como um órgão executivo, composto por representantes dos
ministérios das Relações Exteriores e da Economia e dos Bancos Centrais, com as
funções de zelar pelo cumprimento do Tratado, tomar as providências necessárias
para o cumprimento das decisões adotadas pelo Conselho, propor medidas
concretas para a aplicação do Programa de Liberação Comercial, com a
coordenação de políticas macroeconômicas e a negociação de acordos frente a
terceiros e fixar o programa de trabalho que assegure o avanço para a
constituição do Mercado Comum. Foram criados subgrupos de trabalho para o
cumprimento dessas funções. Esta seria a estrutura institucional do Mercosul
responsável pelo período de transição para o estabelecimento do Mercado Comum,
previsto para 31 de dezembro de 1994.
Segundo a determinação de Assunção, o Protocolo de Ouro Preto6, de dezembro de
1994, ampliou a estrutura institucional do bloco, com a criação de mais quatro
órgãos: a Comissão de Comércio do Mercosul (CCM); a Comissão Parlamentar
Conjunta (CPC); o Foro Consultivo Econômico-Social (FCES) e a Secretaria
Administrativa do Mercosul (SAM). A CCM foi criada como um órgão encarregado de
prestar assistência ao GMC, coordenado pelos ministérios das Relações
Exteriores, encarregado de "velar pela aplicação dos instrumentos de política
comercial comum acordados pelos Estados-Partes para o funcionamento da união
aduaneira, bem como acompanhar e revisar os temas e matérias relacionados com
as políticas comerciais comuns, com o comércio intraMercosul e com terceiros
países"7.
A CPC foi estabelecida como um órgão de caráter consultivo, representativo dos
Parlamentos dos Estados-Partes no âmbito do Mercosul e integrado por um número
igual de parlamentares representantes de cada Estado-parte. Caberia à CPC
"acelerar os procedimentos internos correspondentes nos Estados-Partes para a
pronta entrada em vigor das normas emanadas dos órgãos do Mercosul previstos no
Artigo 2 deste Protocolo (de Ouro Preto)"8. O FCES foi criado para ser o órgão
de representação de setores econômicos e sociais, com função consultiva e
submetido ao GMC.
A SAM foi criada como órgão de apoio operacional aos demais órgãos do Mercosul
e tem sede permanente em Montevidéu. Entre as atribuições originais da SAM,
estavam a organização das reuniões do GMC, do CMC e da CCM, a publicação das
decisões adotadas no âmbito do Mercosul e o acompanhamento e informação sobre
as normas emanadas dos órgãos do Mercosul incorporadas pelos Estados-partes aos
seus ordenamentos jurídicos nacionais.
Apesar de ampliada, a estrutura institucional do Mercosul do Protocolo de Ouro
Preto manteve as principais características. Ela continuou se baseando em um
processo de tomada de decisão consensual, obrigatórias, mas devendo ser
internalizadas de acordo com o ordenamento jurídico de cada Estado-membro, e
não têm aplicação direta. O aspecto comercial é a tônica do projeto de
integração e orienta a estruturação institucional do bloco neste período.
O sistema de solução de controvérsias do Mercosul foi institucionalizado pelo
Protocolo de Brasília, em abril de 1993. O documento previa que as disputas
deveriam, prioritariamente, ser negociadas diretamente entre as partes. Caso
não fosse possível chegar a um acordo, as partes poderiam submeter a disputa à
consideração do GMC. Finalmente, caso nenhuma solução fosse acordada, o
Protocolo previa a possibilidade de recurso a tribunais arbitrais ad hoc,
mecanismo reiterado pelo Protocolo de Ouro Preto.
A análise dos padrões de votação na Assembléia Geral (AG) da ONU demonstra que
havia, nessa fase, pouca preocupação em coordenar políticas ou apresentar
posições coesas no âmbito das relações externas do bloco. Entre 1991 e 1996, há
posições divergentes em relação a quase metade das votações. Em 1991, assim
como em 1995 e 1996, houve mais votos não-coincidentes entre os quatro membros
do que votos coincidentes. Do total de 509 votações na AG entre 1991 e 1996, os
quatro Estados- membros do Mercosul votaram da mesma forma em 258, ou 51%, e
tiveram posições divergentes em 251, ou 49%.
Com relação à vigência e internalização das normas regionais, entre 1994 e
1997, foram 56 diretivas. Desse total, 15 foram revogadas. Dentre as 41
restantes, 18 não requeriam incorporação aos ordenamentos jurídicos domésticos
de nenhum dos quatro países. Dessas 41 diretivas que não foram revogadas, 24
entraram em vigor até 1997. Ou seja, das 23 diretivas que precisavam de
internalização, apenas seis foram de fato incorporadas.
Econômico
A fase de formação do Mercosul também é uma fase de expansão do comércio entre
seus membros. O volume total de comércio intrabloco em 1991 é de US$ 10.201
milhões. Em 1992, o volume de comércio entre os quatro países aumenta para US$
14.497 milhões. Esse aumento é proporcionalmente maior do que o aumento no
comércio desses países com o resto do mundo, que sobe de US$ 68.038 milhões, em
1991, para US$ 74.846 milhões em 1992. O comércio intrabloco continua a crescer
nos anos seguintes, chegando a US$ 19.143 milhões em 1993, US$ 23.712 milhões
em 1994, US$ 28.438 milhões em 1995 e US$ 34.226 milhões em 1996.
Proporcionalmente, a fatia do comércio relativo ao bloco cresce: enquanto em
1991 o comércio com os países do Mercosul correspondia a 13% do total de
comércio desses países, em 1997, o comércio intrabloco respondia por 23% do
total.
Essa expansão contínua vai até 1997, quando o valor total das trocas dentro do
bloco chega a US$ 41.074 milhões, um valor quatro vezes maior que o de 1991.
Nesse mesmo período, o comércio extra-regional também cresceu, mas em ritmo
mais lento: de US$ 68.038 milhões, em 1991, para US$ 139.046 milhões, em 1997,
um volume duas vezes maior.
Social
A circulação de pessoas intrabloco está representada nesse estudo somente
através do número de turistas que circulam entre os quatro países do bloco.
Esse número cresce, de 2,8 milhões de pessoas em 1991 para 5 milhões de pessoas
em 1997, 75%. Diferentemente de outros indicadores, esse movimento ascendente
não muda a partir de 1998. A queda no número de turistas só vai acontecer a
partir de 2001, o que será analisado adiante.
2ª Fase (1998 a 2002): crise no processo de integração
Institucional
Durante o período compreendido entre 1998 e 2002, a estrutura existente
continuou funcionando, mesmo no período de crise econômica e comercial. Uma
prova disso está no número de diretivas da Comissão de Comércio que entraram em
vigor nesse período. É interessante notar que muitas das diretivas criadas
entre 1994 e 1997 foram internalizadas pelos países-membros nesse período.
Entre 1998 e 2002 entraram em vigor 51 normas emanadas da Comissão, 14 delas
eram normas que haviam sido criadas no período anterior. As 37 normas restantes
foram criadas nesse período de crise e não necessitavam de incorporação por
nenhum dos Estados-membros. A maior parte delas entrou em vigor nos anos de
2000 e 2002, foram 20 diretivas em 2000 e 14 em 2002.
Em 1998 foi criado o Foro de Consulta e Concertação Política, único órgão
criado nessa fase. O Foro, integrado por funcionários das chancelarias dos
Estados Partes do Mercosul, tinha por objetivo aprofundar o diálogo entre os
membros do Mercosul em temas de política externa e da agenda política comum,
com a sistematização da cooperação política entre os Estados-partes, por meio
da formulação de recomendações ao CMC9.
Os anos de 2000 e 2002 marcaram o esforço de fortalecimento do bloco. Em 2000,
uma série de normas foi chamada de "Relançamento do Mercosul". Foram decisões
aprovadas no âmbito do CMC e que diziam respeito a acesso aos mercados,
incorporação da normativa do Mercosul, melhorias no desempenho da SAM,
aperfeiçoamento do Sistema de Solução de Controvérsias, tarifa externa comum,
defesa comercial e da concorrência, coordenação macroeconômica, incentivos aos
investimentos, à produção e à exportação, incluindo zonas francas, admissão
temporária e outros regimes especiais e relacionamento externo10. Com relação
este último aspecto, o relançamento do Mercosul buscou "reafirmar o compromisso
dos Estados-Partes do Mercosul de negociar de forma conjunta acordos de
natureza comercial com terceiros países ou blocos de países extra-zona nos
quais se outorguem preferências tarifárias."11 Os temas indicam não apenas a
preocupação com comércio, mas também com o fortalecimento da estrutura
institucional do Mercosul. Outro passo na direção do fortalecimento
institucional do bloco foi dado em 2002, quando o CMC aprovou uma decisão sobre
os símbolos do Mercosul, seu emblema e sua bandeira, com vistas a contribuir
"para consolidar a identidade e a imagem do processo de integração"12.
Outro aspecto da estrutura institucional do Mercosul que funciona nesse período
é seu mecanismo de solução de controvérsias. A possibilidade de estabelecimento
de tribunais arbitrais pra resolver as disputas entre os Estados-membros havia
sido prevista no Protocolo de Brasília, de 1993. No entanto, é a partir de 1999
que o mecanismo é posto em prática. São dessa fase nove laudos arbitrais. A
existência de uma quantidade maior de disputas entre os Estados-membros reflete
as crises em que estavam, mas o fato de os Estados as levarem aos órgãos de
solução de controvérsias do Mercosul atesta o propósito de resolvê-las por
meios institucionais. Dentre os nove casos levados ao julgamento do tribunal
arbitral do Mercosul, apenas dois foram levados a nova arbitragem perante a
OMC13. Em dezembro de 1999, o Brasil levou ao Tribunal Arbitral do Mercosul uma
reclamação sobre a aplicação de medidas de salvaguarda sobre produtos têxteis,
por parte da Argentina. Em fevereiro de 2000, enquanto o caso ainda não havia
recebido uma solução por parte do órgão do Mercosul, o Brasil solicitou um
painel na OMC. Em 10 de maio, o Tribunal Arbitral do Mercosul considerou que as
medidas adotadas pela Argentina não eram compatíveis com a normativa do
Mercosul e deveriam ser revogadas. Em junho do mesmo ano, Brasil e Argentina
notificaram à OMC que haviam chegado a uma solução negociada.
O segundo caso que foi levado à arbitragem da OMC também foi resultado de uma
contenda entre Brasil e Argentina e ficou conhecido como o "caso dos frangos"
(Giovanna & Sálvio, 2006). A disputa referia-se à aplicação de medidas
antidumpingaplicadas pela Argentina às importações de frangos inteiros. O
Tribunal Arbitral do Mercosul aplicou as regras estabelecidas pelo acordo
antidumpingda OMC, já que a normativa do Mercosul não contemplava a matéria. No
entanto, o Brasil julgou que as regras foram aplicadas de forma diferente do
que o painel da OMC faria e levou o caso à organização mundial, conseguindo
ganhar a causa que havia perdido no tribunal do Mercosul.
Em 2002, o Protocolo de Olivos criou o Tribunal Permanente de Revisão (TPR),
que poderia receber recursos de revisão dos laudos do Tribunal Ad Hoc. Este
mesmo Protocolo estabeleceu que as controvérsias entre os Estados-membros
poderiam ser submetidas a outros sistemas de solução de controvérsias, como na
OMC. No entanto, uma vez iniciado o processo no foro escolhido, o Protocolo
proibiu o recurso a outro mecanismo de solução de controvérsias, de qualquer
uma das partes, para julgar a mesma matéria14.
É interessante notar que a partir de 1997 a proporção de votos coincidentes na
AG da ONU aumenta e chega a 75% do total. Nas 336 votações levadas a cabo entre
1997 e 2002, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai votaram juntos em 253 casos
e divergiram em apenas 83. Um dos fatores que pode ter contribuído para isso
pode ter sido a adoção de uma norma aprovada em 1996 pelo CMC, que tratava da
cooperação em foros internacionais. A Decisão nº13/96 do CMC recomendava a
coordenação das políticas e a atuação conjunta nos foros econômico-comerciais
internacionais e destacava a coordenação na OMC, na ONU e na Associação Latino-
Americana de Integração (Aladi)15. Além disso, conforme mencionado acima, em
1998 foi criado o Foro de Consulta e Concertação Política, com a função de
aprofundar o diálogo entre os membros do Mercosul em temas de política externa.
Econômico
É no aspecto comercial que a fase compreendida entre 1998 e 2002 configura-se
claramente como uma fase de crise para o Mercosul. O comércio intrabloco cai em
1999 25% em relação ao ano anterior. Em 2000 há uma recuperação de 15% e o
volume de comércio chega a US$ 35.275 milhões. Mas uma nova queda, de 13%,
acontece em 2001 e o comércio intrabloco fecha o ano com um volume comercial
interno de US$ 30.545 milhões. O ano de 2002 é o ano crítico: o volume
comercializado entre os países do Mercosul cai 33% em relação a 2001, para US$
20.462 milhões. Este número é menos da metade do volume comercializado pelo
bloco em 1997, antes da crise, e representa quase um retorno ao volume de
comércio de 1993, que havia sido de US$ 19.143 milhões. A diferença entre 1997,
o ano de pico, e 2002, o ano crítico, é de US$ 20.612 milhões, uma queda de
50,18%.
No entanto não é apenas o comércio intrabloco que sofre uma diminuição nesse
período. O volume negociado pelos países membros do Mercosul externamente ao
bloco cai de US$ 139.046 milhões em 1997 para US$ 135.818 milhões em 1998. E
esse volume também tem uma trajetória de queda no ano seguinte, chegando a US$
122.922 milhões em 1999. Nos dois anos que se seguem, o comércio extrabloco
ensaia uma recuperação, subindo para US$ 135.945 milhões em 2000 e para US$
138.965 milhões em 2001. Mas no ano de 2002, o ano crítico, o volume de
comércio dos países do Mercosul com o resto do mundo sofre uma queda acentuada
e fecha o ano em US$ 128.132 milhões.
Proporcionalmente, a importância do comércio intrabloco, em relação ao total de
comércio dos países, também cai. Em 1997, o comércio entre os países-membros do
Mercosul correspondia a 23% do total de comércio. Esse patamar se mantém, nos
primeiros anos dessa segunda fase, em torno dos 20%. Mais uma vez, 2002 revela-
se o ano crítico. Nesse ano a proporção do comércio intrabloco cai para 14% em
relação ao total do comércio dos países do Mercosul.
O PIB também caiu nesse período, atestando uma fase de crise econômica geral. O
PIB dos quatro sócios do Mercosul somados em 1997 ficara em US$ 1.131.479,90
milhões e, em 1998, caiu para US$ 1.117.255,40. Uma queda mais significativa
aconteceu em 1999, quando a soma ficou em US$ 848.424,00 milhões. O nível mais
baixo atingido pelo PIB dos quatro países durante toda a história do Mercosul
aconteceu em 2002, quando a soma chegou a US$ 579.803,50 milhões, quase a
metade do PIB de 1997.
Em janeiro de 1999, o Brasil desvalorizou sua moeda, o que provocou uma mudança
significativa nas condições de competitividade intrabloco. A repercussão foi
negativa, particularmente na Argentina, com o receio de uma invasão de produtos
brasileiros16. Em 2001, com o agravamento da crise econômica, a Argentina
anunciou medidas emergenciais que aumentaram algumas tarifas acima da tarifa
externa comum do Mercosul. O acirramento das tensões entre os dois países levou
até mesmo ao cancelamento de uma visita que o presidente brasileiro Fernando
Henrique Cardoso faria a Buenos Aires em abril de 200117.
Social
No que diz respeito ao turismo interno da região, curiosamente, apesar da
crise, essa é a fase de maior circulação de pessoas. Enquanto na primeira fase
o número médio de turistas por ano era de 3,9 milhões de pessoas, nessa segunda
fase a média aumenta para 5,4 milhões de turistas por ano. O movimento
ascendente no número de turistas intrabloco, que vinha desde 1991, continua até
2000. É só em 2001, que esse número cai, em 24%. Enquanto em 2000 circularam
mais de 6,5 milhões de pessoas, em 2001 foram pouco mais de cinco milhões. Em
2002, o ano crítico, esse número caiu mais 30% em relação ao ano anterior:
foram apenas 3,5 milhões de turistas na região, um número bastante próximo dos
indicadores de 1992 e 1993. No total, entre 2000, o ano de maior número de
turistas, e 2002, houve uma queda de 47% no número de turistas circulando
intrabloco.
3ª Fase III (desde 2003): revitalização do Mercosul
Institucional
A partir de 2003, a estrutura institucional do Mercosul passou por novas
mudanças, com a ampliação da agenda do processo de integração. Houve um impulso
de criação de novos órgãos, com destaque para a preocupação com assuntos mais
diversos do que os comerciais, com a inclusão de instituições para tratar de
direitos humanos, democracia e questões sociais.
A retomada coincide com mudanças nos governos da região nesse período. No
Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que tomou posse em janeiro de 2003, defendia
em seu programa de governo a necessidade de revigorar o Mercosul. Na Argentina,
Néstor Kirchner assumiu o poder em maio, com um posicionamento favorável ao
fortalecimento do Mercosul, às expensas da Área de Livre Comércio das Américas
(Alca). No Uruguai. Tabaré Vázquez foi eleito em 2004, por uma coligação de
esquerda, com a proposta de trabalhar pelo relançamento do Mercosul e sua
reforma institucional18.
Em 2003, foi criada a Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul
(CRPM), com sede em Montevidéu. Suas principais atribuições são assistir o
Conselho do Mercado Comum e a Presidência Pro-Tempore do Mercosul em todas as
atividades que sejam requeridas por qualquer deles; apresentar iniciativas ao
Conselho do Mercado Comum sobre matérias relativas ao processo de integração do
Mercosul, às negociações externas e à conformação do Mercado Comum; fortalecer
as relações econômicas, sociais e parlamentares no Mercosul, estabelecendo
vínculos com a Comissão Parlamentar Conjunta e o Foro Consultivo Econômico e
Social, assim como com as Reuniões Especializadas do Mercosul19.
Em 2004, foram criados, dentro do âmbito do CMC, a Reunião das Altas
Autoridades nas Áreas de Direitos Humanos e o Foro Consultivo de Municípios,
Estados Federados, Províncias e Departamentos do Mercosul. Além disso, também
são de 2004 a criação do Centro Mercosul de Promoção do Estado de Direito e o
estabelecimento de um Grupo de Alto Nível para a criação de uma Estratégia
Mercosul de Crescimento do Emprego. A criação desses órgãos indica a
preocupação com a ampliação do escopo do projeto de integração, com a inclusão
mais efetiva de temas como democracia, direitos humanos e questões sociais no
âmbito do Mercosul, assim como a incorporação de atores subnacionais como
participantes do processo, embora ainda com status apenas consultivo.
É também nessa fase que começa a ser tratado o tema das assimetrias no
Mercosul. Em 2004 foi criado o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul
(Focem), destinado a promover a competitividade e a coesão social dos Estados
Partes, reduzir as assimetrias - em particular dos países e regiões menos
desenvolvidas (...), impulsionar a convergência estrutural no Mercosul e
fortalecer a estrutura institucional do processo de integração.20 A criação do
Focem atende a demandas dos sócios menores do bloco, Paraguai e Uruguai, que
manifestavam sua frustração com relação ao processo de integração. O Focem tem
caráter redistributivo e representa a disposição de Brasil e Argentina em arcar
com certos custos da integração, uma vez que são os maiores contribuintes do
fundo, mas recebem a menor parte dos recursos.
Em dezembro de 2005, o CMC aprovou o Protocolo Constitutivo do Parlamento do
Mercosul21, e em dezembro de 2006 o Parlamento foi efetivamente inaugurado. Em
sua primeira legislatura (2007-2010), está formado por representantes dos
parlamentos dos Estados-Partes, mas a partir de 2011, o Protocolo prevê que
seus integrantes sejam eleitos por sufrágio direto, universal e secreto. Embora
signifique um avanço na estruturação institucional do bloco, o Parlamento do
Mercosul avançou pouco em relação às funções exercidas pela CPC e continua
tendo caráter apenas consultivo, sem nenhum competência legislativa. Além da
função principal de acelerar os correspondentes procedimentos internos para a
entrada em vigor das normas nos Estados Partes, cabe também ao Parlamento
elaborar e publicar relatórios sobre a situação dos direitos humanos nos
Estados Partes, realizar reuniões semestrais com o Foro Consultivo Econômico-
Social a fim de intercambiar informações e opiniões sobre o desenvolvimento do
Mercosul, e organizar reuniões públicas com entidades da sociedade civil e os
setores produtivos sobre questões vinculadas ao desenvolvimento do processo de
integração.22
Em 2006, o CMC propôs a criação de duas novas instituições: o Observatório da
Democracia no Mercosul (ODM) e o Instituto Social do Mercosul (ISM). Ambos
foram criados no início de 2007. O Observatório foi criado levando em
consideração a necessidade de que o Mercosul acompanhe o desenvolvimento social
e democrático de seus Estados-membros. Até sua criação, o CMC instituiu um
corpo de observadores dos Estados-partes para cada processo eleitoral ocorrido
nos países do Mercosul23. O Instituto Social visa trazer para a estrutura
institucional do bloco a "importância de aprofundar o desenvolvimento dos temas
sociais no Mercosul".Em 2007 foi criado também o Instituto Mercosul de Formação
(IMEF), com o objetivo de "estabelecer no Mercosul um âmbito acadêmico para a
capacitação e especialização dos fúncionáios públicos na temática da integração
regional".24
Em relação à internalização das diretrizes da CMC, entre 2003 e 2006 entraram
em vigor 16 normas. Dessas, quatro eram normas aprovadas na fase anterior e as
14 restantes eram normas aprovadas a partir de 2003, de um total de 16
diretrizes emanadas da CMC nesse período e que necessitavam de incorporação aos
ordenamentos jurídicos nacionais. As outras duas diretrizes requeriam
internalização do Brasil, o que aconteceu em 2006, com previsão de entrada em
vigor em 2007. O período teve ainda duas diretrizes revogadas.
No âmbito da representação externa do bloco, há uma queda no percentual de
votos coincidentes na AG da ONU. Nas 220 votações da AG entre 2003 e 2005, os
quatro países-membros do Mercosul votaram juntos em 152, o que corresponde a
69% do total. Embora represente uma queda em relação aos 75% de votos juntos na
fase anterior, ainda é um percentual bastante mais expressivo do que os 51% da
fase de formação do Mercosul.
Econômico
Os indicadores econômicos voltam a crescer, indicando uma nova fase positiva
para o Mercosul. O PIB somado dos quatro países do Mercosul se recupera nessa
fase. Após uma queda de US$ 804.087,70 milhões em 2001 para US$ 579.803,50
milhões em 2002, ele se recupera um pouco em 2003, somando US$ 651.929,40
milhões. Em 2004 e 2005, o PIB continua crescendo e termina o ano em US$
777.185,50 milhões e US$ 1.003.129 milhões, respectivamente.
Os indicadores comerciais também apresentam uma recuperação. O volume de
comércio intrabloco, que havia sido de US$ 20.462 milhões em 2002, tem uma
recuperarão de 25% em 2003 e termina o ano em US$ 25.597 milhões. Nos dois anos
seguintes, o crescimento continua. O volume total de comércio intrabloco fecha
2004 em US$ 34.640 milhões, num crescimento de 35% em relação ao ano anterior,
um recorde na história do bloco regional. Em 2005, o comércio cresce mais 21% e
o total chega a US$ 42.142 milhões, ultrapassando pela primeira vez o volume de
comércio intrabloco de 1997, o último ano antes que os efeitos da crise
econômica se fizessem sentir.
O comércio dos países do Mercosul com o resto do mundo também cresce no
período. O montante sobe de US$ 128.132 milhões em 2002, para US$ 146.642
milhões em 2003, um crescimento de 14%. Isso significa que o comércio
intrabloco se recuperou mais rapidamente, com um crescimento de 25% logo no
primeiro ano após a fase de crise, contra um crescimento de 14% do comércio
extrabloco no mesmo período. Em 2004, enquanto o comércio intrabloco crescia
35%, o comércio extrabloco cresceu 30% e alcançou US$ 191.920 milhões. Em 2005,
novo crescimento, dessa vez de 21% e o volume total chegou a US$ 230.710
milhões.
Proporcionalmente, o comércio intrabloco não recupera o patamar anterior à
crise. Embora tenha chegado a representar 23% do total de comércio dos países-
membros, em 1997 e 1998, após o ano crítico de 2002 essa proporção se
estabiliza em torno dos 15%. Ainda assim, é interessante notar que o volume
total de comércio cresce muito nesse período, chegando a um patamar que não
havia sido alcançado antes. Dessa forma, apesar de estabilizado em 15% do
total, o volume de comércio intra-Mercosul, também alcança cifras bastante
expressivas para o histórico da região.
Social
O número de turistas da região volta a crescer lentamente nessa fase. Nos dois
primeiros anos, a circulação de pessoas varia muito pouco: de 3,5 milhões de
turistas em 2002, para 3,6 milhões de turistas em 2003, o que representa um
aumento de apenas 4%. O número de turistas circulando entre os países do bloco
continua a crescer nos anos seguintes, chegando a 4,3 milhões de pessoas em
2005. Apesar de representar um aumento de 25% em relação a 2002, esse número
ainda é bem bastante inferior aos 6,5 milhões de turistas de 2000. A média
anual dessa fase é de 4 milhões de turistas intrabloco.
Conclusão
Este estudo apresentou a necessidade de uma consideração multidimensional do
processo de integração do Mercosul. Os indicadores quantitativos e qualitativos
observados na pesquisa sugerem um quadro de integração regional variável no
tempo e nos temas. Ainda que em sua dimensão comercial o Mercosul tenha
estagnado e mesmo retrocedido, sobretudo no segundo período analisado, o mesmo
não ocorreu em outras áreas, tais como a politico-institucional e a social.
Os dados compilados neste trabalho e outras referências na literatura
especializada recente (Lima e Coutinho, 2007) apontam para uma mudança
paradigmática no bloco. Um modelo regionalista estrutural, voltado mais para
aspectos físicos, energéticos, institucionais e sociais, está sendo aos poucos
construído. Embora essa mudança seja lenta, seus sinais já são perceptíveis, o
que não significa dizer que a integração comercial tenha sido de todo
abandonada frente às dificuldades políticas e assimetrias econômicas.
Ao contrário de análises conjunturais de curto-prazo e unidimensionais, muitas
dessas sem respaldo empírico, é possível dizer com bases nas informações
disponíveis que a integração regional continua se desenvolvendo. A discussão
sobre o caráter do bloco, intergovernamentalista, equivocadamente leva parte
dos especialistas a considerarem que o Mercosul se reduz a um acordo de
cooperação sem grandes conseqüências institucionais. Não raramente, observam-se
críticas dirigidas à suposta fragmentação verificada nos últimos anos, tendo em
vista todos os desentendimentos entre Estados-membros tais como os em função do
debate das assimetrias e da crise das papeleiras.
A literatura sobre integração regional geralmente atrela o conceito de
institucionalização à supranacionalidade e ao nível de juridicização. Este
trabalho, contudo, revelou que processo de institucionalização de integração
regional não se limita a um modelo específico, e que sua restrição ao caráter
supranacional ou jurídico é uma atitude eurocentrada e simplificadora. Um olhar
multidimensional sobre a integração regional percebe outros critérios de
institucionalização além da supranacionalidade e da legalização, ainda que
estes sejam bastante relevantes, uma vez que se referem à autonomia das
instituições regionais.
Além da autonomia, pelo menos outros três critérios de institucionalização
podem ser utilizados: adaptabilidade, complexidade e coesão. Ao longo de sua
história, o Mercosul demonstrou capacidade de se adaptar ao contexto, superando
uma grande crise e mudanças profundas; uma crescente variedade de instituições
e temas, diversificando-se para além da questão comercial; e uma capacidade de
ação coletiva em fóruns multilaterais.
Essa visão multidimensional da integração regional não absolve os problemas e
as restrições do Mercosul. Ela permite, no entanto, que se perceba que o bloco
avança, ainda que escape ao modelo dominante na primeira metade da década de
1990, ou às expectativas originais. A superação de uma grande crise econômica,
a criação de novos órgãos, novas competências, a ampliação da área de atuação,
a prioridade conferida pelos seus respectivos governos e as ações conjuntas
indicam a continuidade do processo de integração.