O poder político na energia e relações internacionais: o difícil equilíbrio
entre o direito e a busca de segurança do Estado brasileiro
Introdução
A primeira década do século XXI está exigindo posicionamento bastante firme da
política externa brasileira sobre dois problemas de larga envergadura. Trata-se
dos problemas relacionados ao meio ambiente e aos esforços dos Estados
nacionais para obtenção de combustíveis renováveis, da bioenergia, que toca à
primeira vista o papel que Brasil pode ter neste desejado concerto por causa
das graves complicações resultantes do aquecimento global, sobretudo. No fundo,
são duas questões interdependentes à medida que o equilíbrio ambiental está
diretamente ligado à substituição, em parte, dos derivados de petróleo, óleo
diesel e carvão mineral. Assim, há como dizer que o Brasil poderá ter lugar
preeminente no em um possível concerto que venha a aliar esforços políticos com
arranjos institucionais.
Mas não podemos afirmar, prontamente, que o Brasil esteja preparado para fazer
frente às questões mencionadas acima, nem às manifestações políticas que
determinados Estados imprimem no já abalado sistema internacional. Sistema
cortado por injunções de toda a ordem que acabam perturbando a busca de
objetivo comum, a limitação do aquecimento global. O uso do poder político por
algumas potências contribui para comprometer esforços de caráter universal. No
campo da consecução energética há como ver que isto tem sido a regra nos
últimos tempos, mormente na procura de garantir suprimentos energéticos.
Complicações surgidas há mais de dez anos relacionadas à crise do Estado em
formular planos de investimento ainda perturbam o andamento brasileiro em busca
de uma estratégia que sirva para seu desenvolvimento e para a transformação
qualitativa internacional na energia, sendo uma das características dessa crise
a falta de aparelhamento político apropriado à questão.
Se no cotidiano o sistema internacional é atravessado por conflitos de toda
ordem, esta implicância tende a aumentar ainda mais quando se trata de assuntos
energéticos. Isto porque os hidrocarbonetos, finitos à primeira vista, são
elementos passíveis de disputas que podem migrar de simples embates
diplomáticos em busca de mercados até guerras. Assim, os enfrentamentos podem
ter outra feição em um futuro próximo, diferente das existentes anteriormente,
muito mais dramáticas em virtude da exaustão dos carburantes e de sua
concentração geográfica, embora haja possibilidades de no futuro haver novas
explorações além das tradicionais, como as reservas ainda não confirmadas da
Venezuela e do México, situação que também toca o Brasil, com as jazidas de
Tupi.
Em um passado recente a grande característica dos conflitos internacionais pela
disputa por petróleo era encontrada na existência de um grupo de grandes
potências, e seus associados menores, procurando controlar de diversas formas
as áreas geográficas tradicionais da produção petrolífera. Este desenho
encontra seu melhor exemplo nos esforços do poder anglo-americano em
disciplinar as contestações dos países petroleiros do Oriente Médio, sobretudo
após a crise liderada pela Organização dos Produtores e Exportadores de
Petróleo-Opep, em 1973, em as grandes potências passaram a formular modos de
resistência, por exemplo, procurando aumentar a produção do Mar do Norte e do
Alaska.1
Mas a feição tradicional exposta acima pode sofrer mudanças. Em acréscimo ao
antigo conflito um novo ganhar corpo a partir da emergência de grandes Estados
consumidores, que também são potências relevantes, em disputa com os antigos
centros da política internacional. China e Índia transformam-se em novos pólos
do poder mundial e são carentes de energia em virtude de suas economias
altamente aquecidas na atualidade. Ambas as potências necessitam de
instrumentos mais bem preparados para o bom relacionamento com o Oriente Médio;
e essa manobra pode botá-los em rota de colisão com os Estados Unidos. Por isso
a necessidade de se instituir novos padrões de desenvolvimento e energia para
que o iminente conflito por reservas seja minimizado. Se a alternativa não
ganhar vulto as novas potências consumidoras irão lançar mão dos carburantes
poluentes, como o carvão mineral.
Padrões de energia e de crescimento econômico que sejam convergentes com o
equilíbrio ambiental bastante afetado pela poluição dos combustíveis fósseis
são urgentes. Não restam dúvidas de que há grande necessidade de se pesquisar
novos combustíveis alternativos, caso do biodiesel em que o Brasil pode ter
papel de preeminência política e tecnológica. Sob tal aspecto, não poderá haver
mais erros ou medidas tomadas incompletamente, visto que esses contratempos
podem retroceder o pouco de avanço que pode haver.
Desta forma, tencionamos frisar que só há perspectiva de o Brasil contribuir
firmemente para a resolução das questões ambientais e energéticas se o próprio
Estado não negligenciar suas tarefas mais urgentes na confecção de uma
estratégia coesa, pronta para responder às demandas interna e externa. Em outra
dimensão, caberia à estratégia nacional não perder de vista os conflituosos
cenários que emergem em virtude de más resoluções. A pouca atenção dedicada ao
desgaste ecológico e a relativa displicência que as grandes potências expressam
na questão energética são exemplos de resoluções feitas incompletamente.
Ainda que possa ser temporal é o conceito de estratégia de Golbery do Couto e
Silva que preferimos utilizar, mas sem desconhecer que há outros.2 Por
estratégia entendemos o planejamento do poder político, do Estado, para que
faça levantamentos das condições políticas e econômicas tanto na esfera
internacional quanto na doméstica e, daí, montar cenários que indiquem os
caminhos que o país pode percorrer sem sofrer percalços e desgastes
desnecessários. A estratégia deve ser inerente ao desenvolvimento ótimo do
poder nacional, vale dizer a capacidade econômica do país, o avanço em ciência,
tecnologia e estabilidade sócio-política, de acordo com quem muito estudou a
conjugação, Oliveiros Ferreira.
Sobre a assertiva acima há dois comentários que pensamos ser pertinentes.
Primeiro, o planejamento estratégico não significa a elevação de custos
econômicos públicos na criação de estatais ou no emprego direto do Estado na
esfera produtiva. O núcleo de planejamento estratégico pode ter sua existência
na constituição plano em que haja coordenação sobre aquilo que foi escolhido
como o objetivo nacional a ser alcançado em conjunto com a sociedade. Também
somos consoantes com a ótica de Peter Evans e sua análise da industrialização
brasileira, indiana e sul-coreana, seus avanços e impasses na concretização dos
objetivos.3
Segundo ponto é que ao adotarmos o planejamento estratégico, o fortalecimento
de autoridade pública não estamos, necessariamente, contribuindo para o
enfraquecimento da democracia. Estados fortes tendem a resguardar poder nas
áreas em que possa haver equilíbrio político e estabilidade econômica. É
notório o papel do Reino Unido, ou do Japão, que consegue manter franquias
democráticas sem ter de comprometer sua estratégia e os esforços para manter
regular a busca de seus objetivos mais importantes, como o suprimento
energético.4 Neste caso, o convivem bem a estratégia, a autoridade pública, com
os direitos.
A dificuldade do sistema internacional
Resoluções feitas incompletamente têm efeitos mais nocivos para o âmbito da
política internacional do que aquelas francamente hostis a confecções de
regimes específicos. Resoluções concebidas sob encomenda, para confundir uma
possível opinião crítica global, só fazem conservar a situação distorcida sobre
os temas que mais preocupam os Estados. Questão que deve fazer o Brasil ficar
atento aos novos programas mal concebidos em que haja desigualdade de ânimo na
aplicabilidade de regras acordadas por todos.
Como bem averiguou Guido Soares, árdua tem sido a tarefa de se compreender a
abstração que há no relacionamento entre os Estados nacionais.5 Isto porque, de
um lado, queremos um sistema altamente correspondido por regimes com
legitimidade suficiente para fazer valer seu propósito. Em outro diapasão,
desejamos que os poderes políticos possam ter força suficiente para sustentar
suas vontades nacionais em assuntos que tocam, primeiramente, à população
doméstica. Assim, o princípio do direito internacional, dos regimes e a
política interna dos Estados entram em rota de colisão. Em parte isto é o que
estamos percebendo com relação aos Estados Unidos no tocante ao meio ambiente e
à energia.
E o imbróglio não se limitará às potências do hemisfério Norte, o impacto da
industrialização chinesa, indiana e outros países também deverá provocar danos
nos dois itens citados. A saber, danos no corpo de uma doutrina de direito e
regimes internacionais e, por conseqüência, no equilíbrio ambiental, cujo
descrédito político aumentará em virtude dos novos "peso-pesados" da economia
internacional. Neste caso, o Brasil tem uma árdua tarefa a qual não pode se
furtar, a de procurar instituir novas formas de convívio mais racional.
Isto porque contribuir para com a boa saúde do sistema internacional, no que
vale para a economia e para a política, não significa abrir mão dos atributos
nacionais. No mesmo passo, respeitar o destino de desenvolvimento e bem-estar
nacionais não quer dizer "direito" que tem o Estado de fazer tudo o que seja
possível por causa das incongruências da atividade política exterior.
A intenção deste trabalho se direciona justamente para procurar compreender as
implicações que ocorrem entre a busca de virtude da política internacional
(liberal) na intenção de instituir regimes, bem como a emergência de posturas
denominadas clássicas advindas dos Estados que tencionam manter interesse e
conservar sua situação de grande potência, inclusive em assuntos que
inicialmente não seriam congruentes com o poder político, como o comércio. Isto
dá a entender, conforme pensa Jonathan Haslam, que o pensamento clássico,
realista, tem sido constante, mesmo em concorrência as formulações liberais,
que perdem vigor rapidamente.6
Na condição de potência regional esta não é uma análise estranha para um país
das condições do Brasil. Dono de características próprias o Estado brasileiro
não é uma grande potência, cujo impacto pode inibir e constranger a
movimentação dos Estados mais fracos, inclusive localmente. Então, como prefere
Celso Lafer, a posição do Brasil como potência média deve ser vislumbrada como
meio de representar a demanda dos pequenos, advogando suas questões, mas sem
sofrer de introspecção ou timidez frente aos grandes do sistema internacional.7
Há muitos momentos em que pela falta de melhor precisão conceitual, ou
exaltação de pensamento próprio, o analista acaba atribuindo ao termo sistema
internacional o mesmo significado que ordem internacional, como se ambas fossem
substantivas. Não há referências absolutas que negam o exercício dessa
interpretação, entendendo um conceito pelo outro.
Contudo, preferimos assentar nossa opinião na idéia de que por ordem
internacional compreendemos a maneira de como o mundo se apresenta desde a Paz
de Westphalia, de 1648, cravejado de Estados nacionais soberanos. Vale dizer,
soberanos à medida que as unidades políticas, como prefere Raymond Aron,
guardam vontade nacional para resguardar sua liberdade e concepção de vida
perante suas homônimas. E para resguardar liberdade de ação os Estados lançam
mão de dois instrumentos interdependentes: a diplomacia e a guerra.
A ordem internacional é formada por Estados desiguais em riqueza, demografia,
força econômica e outros fatores que agregam poder. Estados que são grandes
potências e procuram não somente conservar a situação de preeminência, mas
também ampliar seu poder junto às outras unidades, também tencionam fazer a
mesma coisa: defender-se, ampliar seu poder de resistência ou de expansão.8
Neste aspecto, mesmo que seja redundante, só há ordem internacional porque há
Estados nacionais que passam a conviver conservando suas diferenças.
Por isso, há como percebermos que pelo fato de o agrupamento dos Estados
formarem uma ordem não significa, necessariamente, que o mundo seja
democrático, equilibrado ou igual para todos. Ao contrário disso, o que tenta
imperar é o sentido de anarquia, em que não haveria convenientemente, para
muitos Estados, um ente superior que tencionasse constituir um governo mundial
com regras, direitos e obrigações prementes para todos os membros. Tal
perspectiva de virtude teria de ser esperada pela montagem de um sistema
internacional que tivesse amplas condições de amainar as disputas existentes no
seio da ordem.
Por conseguinte, por sistema internacional, ainda com o autor de Guerra e Paz
entre as Nações,compreendemos o modo pelo qual se apresenta a ordem
internacional, dando-lhe forma e inteligibilidade política para tentar anular o
sentido de anarquia que procura resistir.9 Usando a linguagem da informática
podemos dizer que o sistema é a ferramenta que dá expressão ao computador, sua
funcionalidade. Continuando com a imagem virtual dizemos que o sistema conforma
a ordem, lutando em sua missão de dar legibilidade e ao mesmo tempo se adaptar
aos avanços da tecnologia ' fenômeno que empurra o sistema de informática para
o desuso. Pensamos haver analogia entre o sistema internacional e o virtual.
O esgotamento de um sistema internacional não deixa vazio de poder, ele é
instantaneamente substituído por outro que já estava em gestação, às vezes
convivendo em paralelo com o antigo, esperando sua vez para ascender e
ultrapassar os modos e estilos do anterior. Se nosso corte temporal é a partir
de 1648, para não entrar em questões importantes, mas impossíveis de serem
contempladas em breve trabalho, concordaremos que a ordem internacional foi
formatada por vários sistemas que corresponderam cada um à sua época.10
Para não alongarmos muito citamos que o sistema internacional vislumbrado após
a Segunda Guerra Mundial foi o da pax americana, não plenamente consolidado em
virtude de dois pontos: a coexistência com outra potência também possuidora de
mensagem universal, a União Soviética até 1989, e falta de projeto em que os
Estados Unidos possam contemplar os interesses dos países que aceitem a
liderança da Casa Branca por algo mais compensador. Vale dizer, para se
efetivar plenamente a pax americana,deveria haver um projeto de alcance
universal em que aquela potência falasse e contemplasse os anseios da maior
parte.
Da mesma forma que houve a pax britannica com sua mensagem liberal para aqueles
Estados considerados afastados das conquistas da civilização ocidental, do
livre-cambismo, do livre comércio, do individualismo possessivo, os Estados
Unidos procuram reproduzir o mesmo ideário, mas, desta vez, com menos poder em
seu teor de alcance universal em comparação a Londres. Eis uma das razões para
haver forte embate entre concepções de civilização, em que o Oriente se recente
de ser eclipsado em nome de certa racionalidade econômica. Afinal chega-se à
conclusão de que o estilo de vida americano não pode ser mundial.11
Após este arrazoado podemos dizer que se a dinâmica passa por uma dialética da
disputa entre o desejo de se instituir um sistema internacional efetivo, com
regimes, e a preeminência de se conservar uma ordem sem os freios para parar as
locomoções das grandes potências, os assuntos ligados aos recursos energéticos
e equilíbrio do meio ambiente, então, passam a ser temas cada vez mais
integrados a essa disputa. Expliquemos. Em uma situação de conveniência
política, ao menos para as grandes potências, a ordem internacional é cada vez
mais proveitosa à medida que ela não seja barrada por medidas de virtude, de
apegos ao direito.
Atualmente, não tem sido difícil observar que justamente as grandes potências,
ou aquelas em via de sê-lo, estão em grande conflito para diminuir suas
dependências dos combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, procuram modos para
substituir os carburantes por intermédio de pesquisas. Em um mundo em que a
ordem acaba legitimando os Estados a sobreviver como podem, vira uma árdua
tarefa a criação de regimes e regras internacionais em que tais disputas por
bens, finitos ou não, seja sanadas e anuladas por um concerto legitimado por
todos.
Neste caso, como escreve Stephen Krasner, não nos limitamos a pensar regimes
apenas como pressupostos do direito internacional, ao observar que os regimes
só são acatados porque são partes dos tratados internacionais. Mais do que
isto, por regimes pensamos também um momento em que os Estados seguem
determinada sugestão, ou norma, não porque está no tratado, mas porque lhes é
importante e convergente com a concepção de que os Estados têm do interesses
nacionais.12 De fato a valoração dos regimes seriam importantes para temas que
necessitam um mínimo de combinação de interesses, caso do petróleo.
Mesmo o professor de Harvard que compreende e milita pela expansão dos regimes
internacionais é levado a reconhecer que no campo da energia, dos
hidrocarbonetos especificamente, não tem sido fácil a concepção de arranjos
institucionais por causa das implicações políticas que os carburantes causam na
vida econômica e política de todos os Estados.13
O fato de os hidrocarbonetos serem finitos alimenta o grau de acidez da ordem
internacional que, sem um sistema efetivo de controle, permite que os Estados
aumentem suas disputas, sua corrida pela sobrevivência, como corpos naturais
que passam por momentos de fortaleza e ocaso. Poucos momentos do convívio
internacional têm sido tão expressivos para medir a urgência de um compacto
sistema coerente quanto os ligados aos energéticos.
A urgência de segurança energética força os Estados a tomarem medidas auto-
centradas, unitárias, para diminuir o grau de danos nacionais que podem ser
advindas por falta de combustíveis. E falta de segurança energética são
justamente os insumos básicos necessários para dar atividade regular ao
transporte, à economia e aos instrumentos do poder nacional.
Uma explicação se faz necessária para precisarmos o termo. Por poder nacional
compreendemos, como faz Oliveiros Ferreira, a coordenação estatal em nível
estratégico, dos instrumentos que elevam qualitativamente a inserção do Brasil
no sistema internacional. Avanços em ciência e tecnologia, industrialização,
estabilidade política, militar e outros contribuem para a fundamentação do
poder nacional quando coordenado pela estratégia.14
Este ponto, sob dialogo com Hans Kelsen, nos leva a perguntar como centralizar
os assuntos energéticos e de meio ambiente na mão de um governo mundial ou de
um sistema mais racionalizado. Ou de outra forma, como conformar uma comunidade
internacional de fato em que os insumos estratégicos, como o petróleo, não
sejam frutos de grandes conflitos internacionais.15
Aqui há uma questão que necessita ser explicada. Da mesma forma que a ordem não
é justa, nem democrática para todos os Estados nacionais, já que eles são
bastante diferenciados em seus artifícios de poder, o sistema internacional
também não necessita ser distinto. Quer dizer, o sistema internacional pode
procurar fomentar algo novo e virtuoso para os Estados ou apenas manter as
diferenças e disparidades logradas pela ordem tradicional.
A comunidade internacional sim é amplamente carregada de concepções e desejos
de virtude e ética entre os Estados. Viver sob uma comunidade subentende
compartilhar recursos importantes, bem como administrar situações em que, na
normalidade, acarretam guerras. No entanto, acreditamos que o mundo está sob um
sistema limitado em suas ações mais evidentes, sobretudo em temas que tocam à
segurança energética dos Estados, a aquisição de combustíveis fósseis, biomassa
e a complicada e conflituosa posição da energia nuclear.
Este problema pode ser examinado na atual situação brasileira. País
relativamente rico em hidrocarbonetos passa por auto-suficiência. A descoberta
das relevantes jazidas de petróleo e gás natural da Bacia de Tupi, Santos, é um
fato. Porém, o Brasil poderá volta a ser importador de petróleo pela exaustão
de suas reservas, com prazo de 40 ou 50 anos de auto-suficiência, dependendo da
maneira de como o País lidará com a riqueza, exportando-a em grande monta ou
resguardando-a para melhor aproveitamento, bem como o ritmo de seu crescimento
econômico.
Assim, acreditamos que o Brasil necessita de uma política energética que não
somente seja preocupada com a questão nacional, mais do que isso, tenha uma
sensibilidade em relação ao problema internacional da energia e do meio
ambiente. Um prazo de 40 ou 50 anos de auto-suficiência parece ser confortante
à primeira vista.16 Mas em um plano geral, de futuro para o Estado, o tempo
citado talvez não seja tão largo assim, pois a permanência das reservas depende
de um conjunto de fatores domésticos ou internacionais.
O México, com histórico mais importante na área de petróleo do que o Brasil,
não pode mais se arrogar de ser um grande exportador, pois suas reservas estão
minguando rapidamente. A Indonésia saiu de posição confortável de exportadora
para possível importadora no médio prazo. Com efeito, um alerta a respeito das
possibilidades brasileiras serve como prudência.17
Grandes são as oportunidades do Brasil de se tornar fornecedor em alto grau de
petróleo e biocombustíveis para um sistema interestatal com vias de dificuldade
operacional nas principais zonas de exploração, Oriente Médio e Ásia Central.
Complicações que advém por causa de conflitos políticos de alta intensidade,
antes de tudo são marcantes. Se o petróleo tem o poder de provocar conflitos de
toda ordem não há por que negligenciar o papel do álcool combustível nas
implicações políticas, ainda que no longo prazo.18
Embora o Crescente do mundo islâmico, e adjacências, seja a principal área de
prospecção petrolífera, com empresas estatais gigantes, como a Saudi Aramco,
isto não significa que o comando político esteja nos Estados produtores. Após a
crise de abastecimento mundial, em 1973, as grandes potências consumidoras
dividiram ardilosamente a rede de exploração, transporte, refino e negociação
do insumo; dando ao eixo Nova York ' Londres o comando das operações, inclusive
preços.19 O que vale para o petróleo poderá valer também para os combustíveis
renováveis. A seguir, dedicaremos mais tempo para analisar a questão nacional.
A situação brasileira
À primeira vista podem aparecer dúvidas se nosso raciocínio a seguir guarda
relação com o propósito deste trabalho, o de analisar a pertinência da política
internacional com a projeção brasileira na consecução de segurança energética.
Procuraremos mostrar que há correspondência entre a desarticulação do poder
publico nacional com o direito e política internacionais, às quais o Brasil
tenciona tomar parte como ator de grande importância na mudança qualitativa do
sistema.
Também é pertinente dizer que quando tratamos de energia fazemos de modo amplo,
não nos limitamos a um insumo, mas procuramos abarcar a "questão energética" em
si, resultado do agrupamento da energia elétrica, do gás natural e do petróleo
que pode comprometer a segurança energética do Brasil por falta de melhor
coordenação política. Isto porque, no fundo, a falta de consecução em um dos
insumos ou serviços é resultado da ausência de projeto político que deveria ter
no ministério brasileiro das Minas e Energia um dos seus braços.20
E na escala da política internacional não há dúvidas de que uma melhor inserção
por parte do Brasil será mais bem preparada à medida que o país tenha condições
de suportar os contratempos externos em virtude da disputa energética. Contudo,
ainda que a energia elétrica seja um fator doméstico, gerada na maioria por
usinas brasileiras, ela não escapa da lógica internacional, já que agências
financeiras e agentes empresariais encaram a energia elétrica também como um
bem negociável internacionalmente, pois são elementos passíveis de
investimentos externos.
A década de 1990 fora de grande complexidade política para o Brasil. O país
saiu de uma posição em que se procurava obter um núcleo munido de autoridade,
reconhecida em quase todos os parâmetros da sociedade, para um nível em que as
denominadas forças do mercado alocassem as melhores situações para investimento
em obras outrora consideradas estratégias. Estratégicas à medida que afetavam a
consecução de segurança do Estado brasileiro.
Eis um complicador. Na época do desenvolvimento nacional incorporado pelos
governos militares, o Estado havia constituído autoridade sobre o setor
energético de forma geral. No campo hidroelétrico houve a presença do sistema
Eletrobrás que gerava, transmitia e coordenava grande parte da eletricidade
trabalhada pelas empresas congêneres estaduais. Aqui há como dizer que havia
plano estratégico de longo prazo, embora as condições políticas e sociais
fossem delicadas.
Delicadas pelo fato de que a autoridade exercida pelo poder público não
apresentava canais de comunicação regulares com a sociedade civil, por exemplo,
com o setor social que deveria ser desalojado de seus terrenos para que estes
servissem na construção das hidrelétricas. Questão reconhecida pelo Banco
Mundial, mas que serviu como justificativa para a desregulamentação do sistema,
já que a essência do poder público é ser antidemocrático, como preferia
argumentar aquela agência.21 Neste caso, há um arcabouço possuidor de
autoridade e regulação que peca por falta de comunicação, como pode haver em
governos autoritários.
Em outro diapasão, há governos que podem ser sensíveis a pressões setoriais,
mas que não gozam de plano estratégico para segurança energética, como houve na
situação do "apagão", em 2001. Crise que houve, inter alia, por desigual
relação entre o Brasil e as organizações financeiras internacionais. O ponto
ótimo da relação, como tivemos oportunidade de escrever, seria a existência de
um ente democrático com poder reconhecido por todos.
Por conseguinte, em nossa tese de doutorado tivemos oportunidade de melhor
expor as questões político-econômicas por que passou o Brasil.22 Sob o desejo
de atrair fluxos financeiros internacionais, que pudesse tirar o País do fraco
cotidiano de atração financeira e de investimentos, o governo federal, com
anuência de alguns estaduais, concordou em reformar os instrumentos de ação do
poder publico. Um dos resultados daquela reforma foi a diminuição de
coordenação da coordenação governamental sobre determinados serviços urgentes
ao Estado, como energia.
Na visão de Roberto Grün a plataforma governamental do governo Fernando
Henrique Cardoso fez trabalho corrente para preparar o terreno à reforma
institucional. Procurou fazer alterações conceituais, mais do que políticas,
para neutralizar intelectualmente os críticos, dando a entender que aqueles se
opusessem ao programa de desregulamentação deveria ser partidários de
privilégios ou de corporações arraigadas em confortos públicos. Daí seria
grande o apelo à sensibilidade da opinião público que se voltaria a tais
posturas.23
Ficara patente que o Brasil havia acatado medidas controversas pelo fato de que
o poder de investimento do governo federal entrara em fase decadente para os
serviços públicos. O projeto de transformar o país em algo palatável para o
investidor internacional contribuiu não para angariar crescimento estável e, ao
mesmo tempo, conveniente para a estrutura de autoridade política do Estado, mas
sim para cumprir um organograma estabelecido pelas agências internacionais de
risco, conforme a leitura de Paulo Nogueira Batista Júnior.24
Com efeito, os mais importantes países sul-americanos, sobretudo o Brasil,
entraram em um ritmo chamado Estado Normal, conforme a verificação de Amado
Cervo ' a franca desestruturação do país para coordenar as atividades
econômicas e para planejar o desenvolvimento.25 A falta dos instrumentos
essenciais do poder publico o Estado normal aceita a "estratégia" sugerida
pelas organizações internacionais diretamente contrárias à coordenação
econômica do Estado. Na ânsia de se superar crises econômicas e frisar
prontamente o abandono do antigo projeto de substituição de importações Brasil,
Argentina e outros preferiram o modelo que também seria integrante do programa
de política externa dos mesmos países.
Cervo utiliza três paradigmas para enquadrar as manifestações político-
econômicas dos Estados sul-americanos no clima de transformação conceitual dos
anos 90. Primeiro, o Estado Desenvolvimentista seria aquele que planejava
diretamente no campo da economia, via empresas estatais e agências específicas
para o desenvolvimento nacional, caso do Brasil no período do nacional-
desenvolvimentismo. O segundo são os países que privatizaram todo o centro
aglutinador de desenvolvimento, como a energia de modo geral, se enquadram na
tipologia de Estado Normal, situação da Argentina durante o governo de Carlos
Menem.
A posição mais conveniente do ponto de vista político seria a construção do
Estado Logístico, em que o poder público é resguardado de infiltrações ou
influência de toda ordem, segue:
O terceiro é o paradigma do Estado Logístico que fortalece o núcleo
nacional, transferindo à sociedade responsabilidades empreendedoras e
ajudando-as a operar no exterior, por modo a equilibrar os benefícios
mediante um tipo de inserção madura no mundo globalizado.
Não há como imputarmos livremente qual paradigma se encaixa o Estado
brasileiro, pois o país incursiona nos três, dependendo das condições políticas
e fatores internacionais. Contudo, para o Brasil não bastava somente reformar
os instrumentos de coordenação nacional importantes, como os encontrados na
área da energia e da comunicação, em proveito dos grandes fluxos financeiros
nacionais e internacionais. Haveria de ter também, na medida do possível,
mudanças conceituais no antigo programa da política externa brasileira, para
que ela fosse mais palatável aos fenômenos que passaram a ser chamados
globalizantes, como a abertura dos mercados nacionais, as privatizações e o
baixo teor da atividade autônoma.
Obter reforma conceitual na diplomacia brasileira seria essencial para a
emergência de uma burocracia competente, atualizada e sensível aos novos
vetores da política internacional, não mais conformados pela "política do
poder" como antigamente, mas sim por novos, por exemplo, respeito à propriedade
intelectual e a outros temas que são caros às chancelarias dos países
industrializados.
Inerente a esse ponto ficou claro que haveria também uma "globalização
energética" que ficara represada pelas engessadas políticas tradicionais dos
grandes Estados sul-americanos, até 1990. Mas após aquela data a situação
mudaria porque a reforma conceitual da política externa, no caso brasileira,
deveria trabalhar para projetar melhor imagem do país. Desta vez, o Brasil
deveria ser apresentado como ente respeitador do investimento externo e lugar
no qual o empreendedor particular, internacional ou não, seria contemplado por
sua decisão.
Neste aspecto, a corrente intelectual mais cosmopolita, que advoga os avanços
de um tipo de globalização, também viu com pertinência a desarticulação do
poder público dos grandes Estados em desenvolvimento. De acordo com Mohamed
Ayoob houve uma espécie de perigoso mimetismo por parte das elites político-
econômicas dos países em questão, dando a entender que os modelos adotados pelo
Brasil, e outros, já haviam sido testados positivamente nos países
industrializados. Portanto, nada mais conveniente para os Estados periféricos
utilizar modelos socioeconômicos tidos por racionais e modernos, o Reino Unido,
por exemplo. Mas o problema de fundo foi reproduzir o modelo britânico, ou
alemão, de liberalização, mas sem o acompanhamento de seu poder público que se
faria necessário na regulação.26
Certamente, tal raciocínio não foi desprovido de prejuízos aos Estados mais
pobres economicamente, visto que eles anuíram por um modelo político que
contribuiu para apenas fazer migrar as ações estatais, antes altamente mal
avaliadas pelos agentes financeiros internacionais. Quer dizer, a atenção do
Estado saiu da coordenação econômica, em grande parte, para resolver questões
agora ligadas à segurança publica e social em franca crise por causa da
emergência de um jogo econômico nem sempre em consonância com a distribuição de
bem-estar. Em muitas situações o gasto estatal subiu por causa da violência
urbana.
Já no campo da energia a reforma institucional marcou presença em duas linhas
de atuação do poder público nacional, mas com velocidades e implicações não
necessariamente iguais. Primeiro, no campo da energia elétrica houve a
privatização de quase todo o sistema Eletrobrás que fora concebido, desde a
década de 1960, como centro de aglutinação e coordenação dos subsistemas
regionais e estaduais, interligados. A lógica do sistema Eletrobrás estava na
possibilidade que ele adquirira para transferir e regular fluxos energéticos de
lugares mais abastecidos energeticamente para outras localidades com problemas
de fluxos regulares, com picos de alta e baixa de energia elétrica, caso do
Sudeste industrializado.27
É necessário frisar que a privatização da antiga holding fora justificada em
virtude de volumosas contabilidades negativas que o Estado havia adquirido
desde os anos 80, com a ascensão dos custos da dívida externa que contribuiu
para abortar o projeto nacional de desenvolvimento.28 Contudo, não se tornou
verdadeira a tese de arrecadamento pelas privatizações para aumentar o poder de
investimento do Estado, agora mais "enxuto" por ter privatizado as antigas
empresas do serviço público. Ao contrário, os déficits orçamentários do governo
federal em toda a década de 1990 conservou-se alto pelo mau uso dos recursos.
E mais, em parte, a confiabilidade em um serviço elétrico que fosse palatável a
um projeto nacional de desenvolvimento fora posto em xeque em nome de um modelo
de administração pública, mais sensível às pressões das agências financeiras e
organizações internacionais, como o Banco Mundial. José Goldenberg e Luiz Tadeu
Prado demonstram o quanto faltou plano de ação condizente com a situação
crítica das geradoras de energia elétrica:
Todas essas dificuldades do setor elétrico foram induzindo,
paulatinamente, a uma deterioração das reservas do sistema anteriores
à reforma. Essa situação era agravada pelo fato de que as geradoras
federais que pretendiam fazer novos investimentos para tornar o
sistema menos vulnerável foram impedidas de fazê-lo pela política de
austeridade fiscal do governo.29
Os escândalos sobre a empresa norte-americana de energia Enrol, em 2000,
revelou o quão havia sido delicada a privatização das empresas estaduais
hidrelétricas, coordenadas pelo sistema Eletrobrás. Isto porque uma das maiores
empresas do antigo arranjo elétrico, a paulista Eletropaulo, havia sido
adquirida justamente pela empresa em questão, envolvida em crise de
confiabilidade por causa de "maquiagem" nas contas de auditoria feitas por
consultorias dos Estados Unidos, um grave passo que conturbou o mercado de
ações.
Para salvar a Eletropaulo da solvência, já que a cabeça da holdingentrara em
profunda crise de confiabilidade nos Estados Unidos, o erário brasileiro volta
a investir na ex-estatal paulista por meio de repasses do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social-BNDES.30 Instituição que em 1995 fora
proibida de ajudar a própria Eletropaulo. Se assim não ocorresse a crise
elétrica, mais a econômica em voga, seria violentíssima para a produção
nacional, isto porque ela abarcaria a região mais industrializada do Brasil.
Já no segundo serviço de abastecimento energético, dos combustíveis e derivados
de petróleo, a situação não foi tão profunda e vulnerável como fora a da
energia hidroelétrica. No caso da desregulamentação do setor petroleiro houve a
interpretação de que os governos reformadores dos anos 90 procuravam
neutralizar oposições e críticas, partindo dos setores menos politizados para
os mais complexos politicamente. Mas no final das contas, o objetivo final
seria fechar o cerco em todos os níveis de empreendimento publico, até na
esfera do petróleo.
Em todo o caso, ainda que as plataformas reformistas do poder público não
tivessem ampla mobilização política para concluir o programa da reforma
institucional do Estado brasileiro, solvendo o poder político, conseqüências
foram criadas com poder de alterar o quadro energético nacional no que tange à
produção e serviço de petróleo no Brasil. Sérgio Ferolla e Paulo Metri apontam
as conseqüências econômicas e políticas que o Congresso nacional fizera, ao
quebrar o monopólio nacional do petróleo, permitindo a exploração de outras
empresas:
Da mesma maneira, o governo federal, no período de 1995 a 1997,
comprometido com a aplicação das teses neoliberais de interesse do
poder econômico internacional, explicitadas pelo FMI e pelo Banco
Mundial, e utilizando toda sua força política, interveio no setor de
petróleo conseguindo aprovar a Emenda Constitucional número 9, de 9
de novembro de 1995, que buscava acabar, de modo camuflado, com o
monopólio estatal do petróleo, bem como a Lei número 9.478, de 6 de
agosto de 1997, que, sem subterfúgios de e de forma clara, terminou
com o monopólio e deu origem à ANP.31
Assim, fica patente que o Brasil não teria condições de participar dos negócios
internacionais em pé de igualdade com os Estados que, apesar dos contratempos,
haviam conseguido manter controle sobre áreas consideradas estratégicas para a
segurança nacional, como a energia. Sem o incremento político necessário para
dar voz no meio do sistema internacional o Brasil ficaria desprovido de
instrumentos importantes também para se fazer respeitar o direito
internacional.
Neste particular, concordamos com Hedley Bull para quem o acato ao direito
internacional não se faz pela formalidade ou rigidez da letra registrada, mas
sim por meio de ações políticas que aumentem a legitimidade do próprio
direito.32 Quer dizer, o Brasil para valorizar o direito deve ter instrumentos
políticos essenciais para fazer valer sua defesa do próprio direito e não
deixar que esta prerrogativa de primeira ordem seja advogada por terceiros
atores.
Ampliar o escopo do direito internacional, para o autor de A sociedade
anárquica,é fazer com que cada Estado assuma sua responsabilidade, seu naco de
ações, perante seus homônimos. Mas a assertiva é importantíssima para tal fim.
Para se fazer inserção internacional em que o Estado imprima sua visão e, ao
mesmo tempo, acate a ordenação universal é necessário, antes de tudo, que haja
efetivamente Estado, a saber, poder publico sabedor de seu papel. Eis uma
verdade que pode ser válida para o Brasil em sua inserção internacional.
Não há dúvidas de que o assunto energia deixou de ser algo apenas ligado à
esfera interna dos Estados, mesmo aqueles que são donos de reservas
respeitáveis em variados insumos. Aqui, algumas assertivas são por demais
evidentes. Se o Estado é grande consumidor de energia importada,
hidrocarbonetos, por exemplo, ele deverá reforçar em moldes eficientes seu
poder nacional, bem como seus artifícios de poder integrados à política
externa.
Em outra instância, se for o caso de um Estado exportador, como os da Opep, ele
deverá se esforçar longamente para valorizar o máximo seu produto, sem a qual
não há elevação da riqueza nacional. Esse embate pode ser visto na atualidade
do Oriente Médio em que alguns exportadores tencionam resguardar sua produção
para alcançar alto valor, caso da Arábia Saudita.
Considerações finais
No século XX e no atual os conflitos e disputas por posses de estoques
energéticos têm sido constante. Os embates existentes há tempos no Oriente
Médio e Ásia Central são uma amostra disso. As grandes potências
industrializadas, com crônica pobreza em hidrocarbonetos, direcionam seus
poderes para áreas em que ainda pode haver grandes estoques de petróleo, sendo
essas áreas encontradas na franja da ex-União Soviética e na África Ocidental.
Se os andamentos político-energéticos continuarem na situação da atualidade
tudo indica que o sistema internacional, já abalado pela difícil construção de
um regime apropriado, passará por profunda crise. E essa crise será de nova
conformação pela emergência de novos atores em disputa com os antigos pela
preeminência nas áreas ainda promissoras para exploração. Por vias indiretas há
a impressão de que a região petrolífera, estendida do Oriente Médio a caminho
da Ásia Central, será mesmo o heartlanda qual tempo dedicou o geopolítico
britânico Mackinder, área rica em insumos estratégicos que deverá ser disputada
pelas antigas potências e as mais recentes: Reino Unido, Rússia, Estados Unidos
e China.33
Por ser a configuração do sistema internacional feita sob o impacto da disputa
e dos conflitos os Estados nacionais procuram resguardar seus elementos
essenciais do poder nacional, como influência política e segurança energética.
O período em que se elevou programaticamente a reforma institucional não foi
uniforme para todos os países. As potências industrializadas não adotaram as
medidas reformistas, não da forma como se imaginou nos países em
desenvolvimento.
Por outro lado, os mesmos paises que ainda se ressentem pela falta de
instrumentos políticos eficazes, para dar cabo de problemas sociais volumosos,
filiaram-se a um modelo político e econômico que, no fundo, nem os grandes
centros da política internacional valorizaram. De outro modo, os Estados em
desenvolvimento fizeram alterações em sua conformação de poder nacional que
foram além do concebido por serem agrupamentos de nações pobres; enquanto que
as desenvolvidas conservaram muito de sua influencia e poder.
No campo da energia, hidrelétrica e carborifica, os exemplos podem ser
encontrados sem dificuldade. Vejamos o que ocorreu no México e na Indonésia
entre 1995 e 1999: solvência elevada de seus poderes para que os dois países
fossem convidativos ao grande investimento externo. Mas quando México-DF e
Jacarta deram sinais de esgotamentos todas as agências de avaliação e
internacionais deram-lhes negativas. Assim, a crise econômico-política desses
países cresceu em níveis insuportáveis, castigando as classes sociais mais
pobres.
Tal advertência tem de ser percebida pelo Brasil e outros Estados de condições
políticas e econômicas análogas. Como o professor Afonso Arinos de Mello Franco
falava: "para que a nação faça inserção internacional de qualidade é necessário
que haja nação, quer dizer, que haja Estado, vontade nacional para participar
com respeito e amor-próprio" (sic).34 E Afonso Arinos entendia muito do que
estava falando, afinal fora o grande professor de direito internacional de
muitos.
O ano de 2007 tem posto o Brasil em evidência quando se trata de assuntos
energéticos, sobretudo aos elementos do álcool combustível e do biodiesel. Além
da competência nacional nos combustíveis sintéticos outro fator também botou o
país em alta nos assuntos internacionais, a sua auto-suficiência em petróleo
conseguida há pouquíssimo tempo.
No entanto, as conquistas brasileiras no campo da energia não podem significar
um "mundo dourado" de segurança energética para o país. A consecução de
segurança em energia, tanto para os combustíveis fósseis, quanto para os
renováveis faz parte de um projeto nacional de longo período e não pode perder
a dimensão estratégica que o tema exige.
Os últimos quinze anos da história nacional foram marcados pela desagregação do
planejamento estratégico necessário a um Estado das dimensões políticas e
econômicas como o Brasil. O relativo abandono do planejamento na condição de
instrumento de ação governamental em benefício de uma racionalidade do mercado,
supostamente mais eficiente, não só foi refutada, mas operou complicações
graves na estabilidade brasileira no quesito segurança energética. E, de acordo
com a leitura de Ferolla e de Metri ainda é urgente a situação brasileira, como
eles observam na prospecção do petróleo e na sorte da Petrobras.