O Pragmatismo do Petróleo: as relações entre o Brasil e o Iraque
Introdução
A história das relações entre o Brasil e o Iraque, à primeira vista, aparenta
inexpressiva, de importância bastante reduzida para a política externa
brasileira. Observando os interesses que o governo brasileiro detém no Iraque
hoje, essa impressão parece confirmada, afinal. No entanto, uma análise mais
detida da história do relacionamento entre os dois países revela um cenário
bastante diverso. Sem se pretender superdimensionar a importância do Iraque
para o Brasil, argumenta-se neste artigo que o Iraque não foi um parceiro tão
irrelevante ao País como um rápido julgamento pode supor1.
O relacionamento brasileiro-iraquiano foi influenciado, em grande medida, por
interesses de ordem econômica, que sofreu, desde o início da década de 1970 até
os dias de hoje, constrangimentos domésticos e, principalmente, estruturais.
Como se não bastasse, juntamente com os interesses comerciais, um importante
elemento estratégico no relacionamento bilateral foi observado, criado pela: i)
exportação de materiais bélicos, que, ao lado da simples obtenção de lucros,
tinha um objetivo de segurança nacional ao Brasil; e ii) sensível área de
cooperação nuclear, provavelmente com objetivos militares.
Nesse sentido, este artigo traça ' em termos bastante gerais ' os principais
movimentos da história das relações Brasil-Iraque, desde 1973 até 2007. Para
tanto, são analisados os fatores que conduziram a uma maior aproximação
comercial entre os dois países, assim como suas implicações políticas na agenda
de discussão bilateral. Em seguida, são apresentados os desdobramentos
estratégicos desse relacionamento, em especial no campo da venda de armas e na
cooperação nuclear. Por fim, são identificados os constrangimentos domésticos
e, principalmente, estruturais que determinaram o declínio dessas relações até
um ponto de real ruptura.
Considerações iniciais
Até 1973, o Oriente Médio significava uma área pouco atrativa na ótica da
política externa brasileira, cujo relacionamento era marcado por contatos
episódicos.2 Em outros termos, dentro da lógica do pragmatismo e da diplomacia
econômica adotados pelo Itamaraty, os países do Oriente Médio, inclusive o
Iraque, representavam peça demasiadamente marginal no cenário das relações
internacionais.
Somente com a crise ocasionada com o aumento vertiginoso do preço do barril do
petróleo (que passou de US$ 3 para US$ 12), após a Guerra do Yom Kippur/Guerra
de Outubro, essa postura da diplomacia brasileira iria sofrer uma inflexão. Ao
lado disso, com o aumento no preço do barril do petróleo, o governo iraquiano
tinha dinheiro e determinação suficientes para investir em infra-estrutura com
vistas ao projeto de modernização do país e fazer pesados investimentos
militares.3 Do ponto de vista financeiro, o país passava a faturar mais que o
triplo em 1973 quando comparado ao ano anterior. Em 1974 esse número havia se
multiplicado em cerca de dez e, em 1980 (ano de maior pico nas receitas com o
petróleo), em cinqüenta, tendo como base ainda 1972. Tudo isso teve
repercussões claras na política externa iraquiana.4
As relações brasileiro-iraquianas remontam ao ano de 1947, quando os dois
países estabeleceram oficialmente laços diplomáticos. Mas é somente a partir do
início da década de 1970, antes mesmo do choque do petróleo, que elas iriam
ganhar densidade e maior atenção de ambos os países, até porque o baixo nível
de desenvolvimento econômico do Iraque de antes limitava seriamente a sua
interação bilateral com o Brasil. O primeiro importante acordo de comércio
entre os dois países foi firmado em 1971. É importante frisar que a conclusão
de tratados pelo Iraque com outros países não era fato corriqueiro nessa época.
Explica-se: considerado como um Estado altamente revisionista, e que tinha como
inimigos declarados o imperialismo e o sionismo, a Europa Ocidental e os EUA
reagiam de modo a isolar o Iraque no contexto internacional. Diante disso, o
Brasil detinha uma excelente oportunidade para aprofundar o seu relacionamento
comercial com um importante exportador de petróleo.5 Se do lado iraquiano a
questão do custo político com o risco de um isolamento era tida como uma das
mais importantes no que se referia às suas relações comerciais, isso se tornou
conveniente para o Brasil expandir o seu comércio exterior.
O governo brasileiro e, principalmente, a Petrobras sob a administração de
Ernesto Geisel (antes mesmo de se tornar Presidente da República, portanto),
tinham consciência de que o País dependeria do petróleo importado por um longo
tempo ainda. Pelo menos no início da década de 70, o alcance da auto-
suficiência na produção nacional de petróleo era visto como algo improvável.
Isso porque o consumo de petróleo no País crescia na ordem de 7%, enquanto a
produção não atingia sequer um crescimento de 5%.6
A par disso, o Brasil iria quadruplicar seus gastos com a importação de
petróleo em 1974 quando comparado ao ano anterior.7 A economia brasileira, na
realidade, estava cada vez mais dependente da importação de petróleo. Em 1974,
o Brasil era o maior importador de petróleo entre os países em desenvolvimento
e o sétimo em escala mundial, sendo necessários cerca de 40% das exportações
brasileiras para pagar a importação somente desse produto.8 A atenção, então,
voltar-se-ia ao Oriente Médio, "por causa do suprimento de petróleo e do
mercado para os nossos produtos".9 Nesse momento, o petróleo figuraria como
tema primordial da política externa brasileira e do programa de desenvolvimento
econômico do País, que continuavam imbricados. De uma importância risível, o
Iraque, com o seu petróleo, se tornaria essencial para a economia brasileira.10
Exportação de bens e serviços brasileiros para o Iraque
Com o novo cenário criado pela primeira crise do petróleo, o Iraque vinha sendo
considerado um dos melhores mercados do mundo árabe pelo governo brasileiro.
Como era de se esperar, não havia uma política única para todos os países do
Oriente Médio. A "opção iraquiana" parecia, desde o princípio, se não a melhor
alternativa para o Brasil entre os produtores de petróleo, aquela com
excelentes perspectivas para o futuro. A ação diplomática brasileira tornou-se
pró-ativa em relação ao Iraque. Afinal, o país necessitava importar
praticamente tudo, de alimentos a manufaturados e, ao mesmo tempo, era grande
exportador de petróleo, produto do qual o Brasil dependia. Em 1977, por
exemplo, o Iraque foi o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás
apenas dos EUA e da Arábia Saudita. O problema é que esse valor era quase que
totalmente representado pelas importações brasileiras de petróleo. Era preciso,
pois, reverter essa situação ou, ao menos, diminuir o déficit contra o Brasil
no seu comércio com o Iraque. Do projeto de desenvolvimento econômico do
Brasil, com ênfase na exportação, fazia parte sua parceria com o Iraque.11
Apesar das dificuldades, quando comparado a outros países da região, o Iraque
era o que mais espaço não explorado em seu mercado oferecia para o Brasil.
Outros países produtores de petróleo já tinham a maior parcela de seus mercados
dominados por empresas estrangeiras. Ao Irã, por exemplo, o Brasil interessava
muito pouco. Isso, combinado com a característica do governo iraquiano em
preferir formar um maior leque de fornecedores estrangeiros para não correr o
risco político de depender de apenas uma ou poucas fontes, foi o fator que mais
contribuiu para a entrada do Brasil no mercado iraquiano.
Nesse sentido, um dos negócios de firmas brasileiras que mais se sobressaiu no
ramo da construção civil dizia respeito à ferrovia que ligava as cidades
iraquianas de Bagdá e Akashat. As obras da ferrovia, a cargo da Mendes Jr.,
foram orçadas em 1,2 bilhão de dólares. Tal contrato, além de ter sido o maior
já firmado por uma empresa brasileira no exterior, representava etapa decisiva
no relacionamento entre Brasil e Iraque. Iniciadas em setembro de 78, as obras
foram entregues ao governo iraquiano dentro do prazo estabelecido, em 1983.12
O contrato da ferrovia, assim como a maioria dos empreendimentos comerciais
entre o Brasil e o Iraque, contou durante todo o tempo com a supervisão e
interferência do governo brasileiro a fim de vê-lo bem sucedido. Inseria-se,
portanto, dentro da regra geral dos negócios entre os dois países.
A exportação de serviços de engenharia civil pelo Brasil ao Iraque se
configuraria como um dos ramos mais proeminentes do relacionamento bilateral e
também o de maior potencialidade. A dinamização desse setor seria prejudicada
somente por acontecimentos exógenos à própria lógica do relacionamento, qual
seja, o envolvimento do Iraque em operações de guerra, que consumia os recursos
antes dedicados às obras de infra-estrutura e prejudicava os andamentos dos
trabalhos. Além das exportações de serviços, o Brasil exportou principalmente
bens manufaturados ao Iraque, como veículos, principalmente nos primeiros anos
da década de 1980. Isso ocorria em um período bastante providencial para
diversas indústrias brasileiras, considerando a situação de estagflação
doméstica.
Para contornar os obstáculos advindos da escassez de divisas estrangeiras
enfrentadas pelo Brasil, foi utilizada em parte expressiva das trocas
comerciais com o Iraque, inclusive na venda de serviços, uma modalidade de
comércio compensado (sistema barterou counter-trade), desde o início da década
de 1970.13 Para tanto, era empregada a conta petrolífera da Petrobras como meio
de financiamento das exportações brasileiras. Por meio desse instrumento, pelo
menos em parte, a compra de petróleo seria paga com as exportações de
mercadorias e serviços brasileiros. Em meados da década de 1980, não só
autoridades do governo, como também setores expressivos da sociedade brasileira
consideravam as relações brasileiro-iraquianas uma das mais bem-sucedidas
operações diplomáticas e comerciais já empreendidas pelo Brasil. Enfim, "um
exemplar casamento entre iniciativas do Itamaraty e do empresariado".14
De qualquer modo, os déficits em conta corrente para o Brasil no comércio com o
Iraque eram uma constante. Do lado das compras brasileiras provenientes do
Iraque, só em 1980, cerca de 40% do total de petróleo importado pelo Brasil
eram daquele país. A participação do Iraque no total das importações
brasileiras era alta, chegando, em 1980, a representar mais de 16%. Ao
contrário, o percentual das exportações destinadas ao Iraque continuava baixo,
não alcançando sequer os 3 pontos percentuais do total exportado pelo Brasil.
Muito provavelmente, os obstáculos maiores para que o Brasil diminuísse seus
déficits com o Iraque eram: i) o custo do transporte, que elevava
significativamente os preços finais dos produtos brasileiros; ii) o
relativamente pequeno desenvolvimento industrial e financeiro do País quando
comparado a França, EUA e Japão.
É verdade que no caso iraquiano as preferências recaiam não somente sobre os
produtos mais bem qualificados e com preços competitivos, como também de acordo
com a sua nacionalidade. Afinal, era preciso tratar de assuntos políticos para
vender aos iraquianos. Os critérios políticos e econômicos estavam confusamente
imbricados do lado iraquiano. Por certo, a densidade das relações comerciais
leva, no mais das vezes, à consolidação das relações diplomáticas e políticas.
No caso do Iraque, o caminho que levaria do econômico para o político foi
substancialmente encurtado pela própria lógica de relacionamento do país.
As relações do Brasil com o Iraque na área comercial, tomados os anos da década
de 70, 80 e início da de 90, evidenciam um planejamento sistemático e de prazo
dilatado para a atuação do País no mercado iraquiano. A oportunidade comercial
que o Iraque representava e a ligação das exportações de bens e serviços
brasileiros com a compra de petróleo foram campo propício para a atuação do
serviço de promoção comercial do Itamaraty, da Petrobras, da Presidência da
República e de outros ministérios, como da indústria e de minas e energia. De
fato, a expectativa do Brasil de que o Iraque continuaria oferecendo
oportunidades para novas inversões em seus programas de reconstrução no pós-
guerra Irã-Iraque (1980-1988) não se confirmou, com um final abrupto da
sociedade causado pela invasão do Kuwait pelo Iraque em 2 de agosto de 1990.15
Mas isso, por si só, de maneira alguma evidencia que os cálculos do Brasil
foram errados por não terem conseguido antecipar uma movimentação militar do
Iraque, seu enfraquecimento econômico e conseqüente instabilidade política. As
expectativas, à época, eram realistas e havia grande interesse comercial no
Iraque não só por parte do Brasil, como também de várias outras nações. Salvo
melhor juízo, é invariavelmente inerente ao relacionamento com os países do
Oriente Médio, em grande medida, correr riscos políticos em decorrência de
aventuras militares ou distúrbios sociais. Disso, nem mesmo os "países
centrais" estavam imunes.
Implicações políticas do relacionamento bilateral brasileiro-iraquiano
A crise do petróleo surtiu efeitos no Brasil não só no campo econômico, mas
também no campo político. Isso porque os países árabes produtores de petróleo,
como o Iraque, tentavam deixar claro ao governo brasileiro que principalmente
pelas relações políticas é que o comércio ficaria garantido. Desse modo, a
despeito de uma resistência do Itamaraty, que preferia concentrar a agenda
bilateral em assuntos econômicos, os interesses árabes eram principalmente
políticos. Não havia uma dissociação clara entre economia e política.16 A
excelência do relacionamento dependia, portanto, de encontrar a interseção
entre os dois lados. Em poucas palavras, os interesses brasileiros, se não de
modo geral, pelo menos no que dizia respeito ao Oriente Médio, estavam mais
voltados para o campo econômico, com uma postura política apenas reativa às
necessidades traçadas pelo campo da economia.
Nesse sentido, a questão palestina, ligada à lógica do pan-arabismo, vinha
sendo colocada em debate na agenda de discussão brasileiro-iraquiana. O
chanceler Saraiva Guerreiro, em 1979, por exemplo, viu-se obrigado a se
defrontar com o chanceler do Iraque ' país que fornecia mais da metade de todo
o petróleo consumido no Brasil à época ' que exigia, sem grandes formalidades,
a abertura do escritório em Brasília da Organização para a Libertação da
Palestina (OLP). Diante do alto grau de dependência brasileira do petróleo
iraquiano, o que seria um pedido político pareceu, para grande número de
setores domésticos, mais uma imposição externa. O governo iraquiano vinha se
empenhando em conseguir a autorização do Brasil. O papel de líder na defesa do
pan-arabismo no Oriente Médio e no mundo era almejado com perseverança pelo
Iraque. Sem embargo, as relações brasileiro-iraquianas influenciaram
sensivelmente a postura do Brasil quanto à questão palestina. Tanto no âmbito
doméstico como no internacional, a polêmica sobre o reconhecimento da OLP e a
instalação de um escritório em Brasília ganharam amplitude seguramente
indesejada pelo Itamaraty.17 O tema palestino, desse modo, vinha contribuindo
para diminuir a relativa falta de dinamismo político nas relações Brasil-
Iraque.
No fim, as diferenças culturais entre os dois países não foram levadas muito em
conta, pecando, a chancelaria brasileira, pelo excesso de simplificação nas
suas análises, o que a conduziu a avaliações apressadas. O excessivo enfoque
comercial dado pela Petrobras, que desejava comprar petróleo ao menor preço
possível, ao invés de beneficiar, prejudicava os canais diplomáticos e a
conseqüente evolução no campo político do relacionamento. O Brasil muito mais
reagiu nesse tocante do que propôs ações, que, grosso modo, foram determinadas
pelo Iraque.
As relações, que vinham sendo consolidadas na década de 70, alçariam à posição
de maior importância econômica, comercial e com um novo e substancial
componente político a partir da década de 80. As relações Brasil-Iraque eram
fortemente condicionadas pela estrutura internacional, desde o princípio da
aproximação entre os dois países no início da década de 1970. A segunda crise
do petróleo (1979) representaria apenas mais um componente exógeno que
influenciaria os rumos desse relacionamento. Nessa época, havia quem defendesse
que o Iraque era "o maior aliado do Brasil no momento"18.
O peso do petróleo iraquiano para a economia brasileira
A questão do petróleo foi uma fundamental influenciadora da política externa
brasileira nas décadas de 70 e 80. O suprimento de petróleo constituiu uma das
maiores vulnerabilidades do País e sério empecilho para o seu esforço de
crescimento econômico.19 Para o setor de transportes e mesmo na indústria, não
havia, a curto e médio prazos, sucedâneos para o petróleo importado,
principalmente durante o governo Geisel.
O governo de João Figueiredo ainda viveria sob um cenário de desabastecimento e
aumento no preço do barril de petróleo, com a eclosão de nova crise em 1979.
Diante disso, a questão do suprimento de petróleo havia se transformado em um
dos problemas mundiais mais cruciais e que necessitava atenção e tratamento
prioritário do governo, na visão do chanceler Saraiva Guerreiro. Naquele ano,
cerca de 90% do petróleo consumido no Brasil era importado.
Após a Revolução Iraniana, também em 1979, a preocupação com a manutenção do
fornecimento do petróleo só faria crescer. Durante muito tempo, o Brasil
procurou outros produtores de petróleo, mas foi o Iraque o seu principal
fornecedor. Somente em 1981, para se ter uma idéia, o Iraque era responsável
por cerca de 50% de todo o óleo consumido no País, sendo o principal fornecedor
desde 1979, quando ultrapassou a Arábia Saudita. A verdade é que, ao surgirem
deficiências de outros supridores, o Iraque compensava eventuais quedas. Daí o
motivo de tamanha concentração, "o que não era sadio, mas, no aperto em que
vivíamos, era explicável"20. Caber lembrar que, em 1978, a participação do
petróleo nas importações totais brasileiras era de 30%, saltando para 50% em
1981 e alcançando 53% em 1983. Somente em 1985 é que esse percentual decaiu
para 43%. Se forem considerados os países do Golfo Pérsico/Arábico, a
dependência representava cerca de 90%, o que demonstrava a ineficiência da
política de diversificação de fontes supridoras de petróleo.21 Para muitos, o
Brasil estava "literalmente nas mãos do governo de Saddam Hussein e jamais, por
incrível que pareça, esteve tão dependente dos EUA como diante do Iraque"22.
Das várias alternativas apresentadas ao Brasil após a segunda crise do petróleo
e a Revolução Iraniana, o Iraque era a que se mostrava mais viável ' talvez a
única. A Petrobras havia feito, por exemplo, reiterados pedidos ao governo da
Arábia Saudita, assim como da China, no sentido de elevar a quantidade de
petróleo fornecida ao Brasil. No entanto, essas tentativas foram frustradas.23
Os preços praticados no mercado spot (mercado livre do produto) apresentavam-se
extremamente extorsivos e o Brasil, caso não saísse bem sucedido na sua busca
por um supridor alternativo ao Irã a preços OPEP, estabelecidos em 21 dólares
por barril (o que já era bastante elevado), seria obrigado a recorrer a esse
expediente, em que o preço do barril chegava a alcançar a cotação de 48 dólares
em fins de 1979. Como se não bastasse, a crise econômica internacional ' de
mercados, inflação e juros ' transformava o segundo choque do petróleo em um
acontecimento muito mais grave que o choque de 1973.24
O Iraque, no fim, garantiria o fornecimento de petróleo, a preços oficiais da
OPEP, sem cobrar as sobretaxas em vigor no mercado internacional, o que
significou um benefício relevante e um alívio à economia brasileira em um
momento crítico do mercado petrolífero. Sem o Irã, aumentava a dependência do
Brasil em relação ao Iraque. Crescia, portanto, a aproximação do Brasil a uma
situação em que dependeria de um grande fornecedor individual, em decorrência
das facilidades e da confiabilidade de suprimento e, principalmente, preço.25 O
Iraque contribuiu para que o Brasil superasse sem problemas de abastecimento o
segundo choque do petróleo, mas também via aumentar sua fatia no mercado
brasileiro do hidrocarboneto, agora com cerca de 50%. Com todos esses eventos
que circundaram a crise de 1979, o Iraque se mostrou essencial para a
manutenção no fornecimento de petróleo a preços mais baixos que os pagos pela
maioria dos países consumidores. Mesmo diante da guerra do Iraque contra o Irã,
o país árabe procurou garantir o fornecimento de petróleo ao Brasil, se não
diretamente, ao menos através de gestões junto a outros países produtores de
petróleo para entregar ao mercado brasileiro em condições e preços favoráveis.
Apesar da proximidade geográfica com a Venezuela e de seu expressivo
quantitativo de petróleo produzido e exportado, o país sul-americano, que era
tradicional fornecedor dos EUA, não figurava como um dos primeiros supridores
do Brasil. Enquanto que, em 1979, o Iraque era responsável por mais de 40% do
suprimento de petróleo ao Brasil, a Venezuela respondia por apenas 1,7% do
total. Ademais, tendo em vista que, na maior parte das vezes, o Iraque aceitava
o pagamento de suas vendas de petróleo por produtos e, quando em moeda,
pagamentos diferidos, enquanto a Venezuela exigia o pagamento com moedas
internacionais fortes, como o dólar, os negócios com os iraquianos eram
sobremaneira facilitados. Se o pragmatismo da política externa brasileira ia
além do rótulo para a prática efetiva, isso era mais verdadeiro ainda para a
política de compra de petróleo pelo País.
O Brasil, ao que parece, se preocupava menos em depender quase que
exclusivamente da importação de petróleo de um único fornecedor internacional,
mesmo levando-se em conta todos os custos políticos e riscos para o
abastecimento. O mais importante, no caso, era a economia que isso poderia
gerar. O componente estratégico e político, diante do econômico, pois, ficava
relegado a um segundo plano. O preço estava em primeiro lugar.
A dependência brasileira do petróleo iraquiano, observada principalmente nos
últimos anos da década de 1970 e os primeiros da de 1980, ao mesmo tempo,
facilitava e tornava mais difíceis outros aspectos do relacionamento bilateral.
De um lado, os negócios comerciais e econômicos viam-se bastante facilitados,
dado que abria a possibilidade de utilização de instrumentos do tipo barter
trade e maior busca pelo Brasil em tentar compensar a grande quantidade de
dólares gasta com a compra do produto. Por outro lado, o relacionamento
político sofria de uma espécie de tensão permanente, em prejuízo a uma posição
mais segura e confortável para o Brasil, uma vez que tamanha dependência
significava menor margem de manobra para o País negar esse ou aquele apoio
solicitado pelas autoridades iraquianas. Tanto assim que, à medida que a
dependência do petróleo do Oriente Médio foi diminuindo, a diplomacia
brasileira se tornava menos propensa a cortejar os produtores de petróleo da
região.
Aprofundamento estratégico do relacionamento bilateral
De uma relação eminentemente comercial, por uma mutação das identidades, dos
interesses e da percepção de um para o outro, as relações Brasil-Iraque se
tornariam também estratégicas.26 Esse movimento ocorreu especialmente na área
de equipamentos bélicos convencionais e na de cooperação nuclear, o que
acarretaria grande custo político ao Brasil, gerando desconfianças por parte
dos EUA e um progressivo afastamento das posições de Israel.
No mercado internacional de armas, o Brasil foi um dos poucos países do
terceiro mundo que participou ativamente da corrida armamentista, desde meados
dos anos 70 até o final da década de 80. Foi durante essa última década que o
Iraque se tornaria o principal cliente da indústria bélica brasileira.
Exportação de armamentos, promoção comercial e diplomacia econômica estavam
intimamente ligadas. No entanto, o Brasil não estabeleceria com o Iraque uma
simples troca de armas por petróleo, com o intuito de obter apenas vantagem
financeira.
Incluía-se, ao lado disso, um forte componente estratégico, com interesses
claros, concretos e de prazo mais alongado. O Iraque representaria para a
indústria bélica nacional um nicho adequado para o seu desenvolvimento. Isso
porque o Iraque oferecia um mercado para a venda de produtos que, apesar de o
Brasil possuir potencial para produzi-los, sem um parceiro externo, tornar-se-
ia inviável sua fabricação diante da necessidade de fazê-la em larga escala e
da reduzida demanda interna. Em outras palavras, as características especiais
da indústria bélica determinavam que seu desenvolvimento, em escala eficiente
de competitividade, só seria possível se exportasse para mercados mais extensos
que o aberto pelas encomendas internas. Do lado iraquiano, o governo de Saddam
Hussein procurava diversificar seus fornecedores de equipamentos bélicos, por
motivos de risco político que comprometesse sua estratégia, o que beneficiou as
vendas de armas brasileiras àquele mercado. Com o tempo, o Brasil passaria da
condição de importador de armamento para fornecedor da maior parte de suas
necessidades domésticas e exportador de volumes substanciais para inúmeros
países, figurando entre os dez maiores exportadores na década de 80.
Da mesma forma como ocorrera na exportação dos demais bens e serviços
brasileiros para o Iraque, o Estado associou-se ao setor privado. A diferença
era que os bens de utilização militar eram considerados de "interesse nacional"
e o monitoramento e a interferência do governo brasileiro nas negociações, em
razão disso, eram sobremaneira maiores.27
Foi durante a Guerra Irã-Iraque que o relacionamento brasileiro-iraquiano
verificou um de seus períodos mais intensos. Apesar das evidências em
contrário, o governo brasileiro afirmava que não estava vendendo armas ao
Iraque durante a guerra contra o Irã por causa de novos contratos, mas sim em
decorrência de compromissos estabelecidos em programas de longo prazo e
assinados entre o Brasil e o Iraque antes da eclosão do conflito. A mesma
justificativa seria dada pelo Itamaraty tanto sob a gestão João Figueiredo/
Saraiva Guerreiro, como sob a gestão José Sarney/Abreu Sodré.28
Os números quanto às vendas de armas pelo Brasil ao Iraque permanecem secretos
ainda, o que dificulta as investigações. De acordo com algumas estimativas mais
realistas, as vendas brasileiras de equipamentos de guerra para o Iraque
alcançaram a cifra de US$ 3 bilhões ao todo, sendo apenas parcialmente
contabilizada pelas estatísticas oficiais. Para outros, o Brasil exportou, em
média, 2 bilhões por ano ou mais.29 Havia, na realidade, a adoção de um
procedimento de "cosmetização" da balança comercial brasileira no que se
referia a armamentos.
Outra área estratégica em que Brasil e Iraque cooperaram era a relativa ao
desenvolvimento de tecnologias nucleares. Segundo alguns setores do governo '
em especial a partir da presidência de Figueiredo, mas avançando sem
modificações visíveis para dentro do governo civil do presidente Sarney ', o
desenvolvimento da tecnologia nuclear pelo Brasil atendia também a critérios
estratégicos, além daqueles reservados ao programa nuclear energético de Angra.
Nesse sentido, à margem do acordo nuclear firmado com a Alemanha em 1975/76,
foi desenvolvido um programa nuclear paralelo pelo governo brasileiro, com
finalidade militar ' o "Programa Atômico de Tecnologia Nuclear". O objetivo
final, provavelmente, era viabilizar a fabricação da bomba atômica pelo Brasil
por meio da associação com um outro país.
Nisso, levando-se em conta que o Iraque pudesse deter o controle de algumas
fases da tecnologia do processo nuclear e que estava também interessado em
desenvolver sua capacidade nessa área, ele poderia representar um parceiro
ideal para o Brasil. Ademais, o Brasil esperava, com isso, incorporar
tecnologia e treinamento de recursos humanos no setor nuclear por meio do
triângulo que se formaria do Iraque com terceiras potências nucleares, como
França e URSS.
A conexão Brasil-Iraque na área nuclear apontava para uma cooperação promissora
para ambos os países. Seriam, portanto, os objetivos militares e estratégicos
de cada país, principalmente, que os levariam a cooperar na sensível área de
desenvolvimento nuclear.
Apesar do caráter pacifista do acordo nuclear entre os dois países, assinado em
1980, alguns setores da imprensa davam conta da existência de um contrato, com
fins militares, de fornecimento de urânio pelo Brasil ao Iraque de quase uma
centena de toneladas. As autoridades de ambos os países negavam a informação.
De fato, o Brasil não poderia fornecer urânio ao Iraque e daí, simples e
diretamente, construir uma bomba. A ligação não seria do tipo tudo (fornecer
urânio altamente enriquecido) ou nada (fornecer apenas urânio natural ou
levemente enriquecido).30 Não é possível ser categórico, mas os indícios
apontam que o Brasil forneceu urânio ao Iraque com fins militares e que o
Estado brasileiro tinha plena consciência disso. Afinal, entre o urânio natural
(yellow cake), o levemente enriquecido e o enriquecido, existem outros estágios
de enriquecimento, que, caso fosse descoberto o seu fornecimento ao Iraque,
ficaria claro que o Brasil estava colaborando com aquele país para a construção
da bomba e, portanto, para fins não-pacíficos, fato que as autoridades
brasileiras temiam. Até mesmo o expressivo quantitativo de urânio fornecido,
seja natural ou enriquecido, poderia levantar suspeitas. Daí a razão de
eventuais embarques de urânio deverem ser secretos.
De qualquer maneira, a cooperação nuclear entre Brasil e Iraque não preocupava
a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) até os primeiros anos da
década de 1980, mesmo não sendo o Brasil um membro do TNP (Tratado de Não-
Proliferação Nuclear). Apesar das diversas acusações sobre programas
clandestinos, tanto no Brasil quanto no Iraque, partidas de diferentes setores,
os responsáveis pela formulação e aplicação de medidas de segurança da AIEA
consideravam que não havia qualquer motivo para alarme, seja no caso
brasileiro, seja no iraquiano. A principal razão: o ainda relativamente baixo
desenvolvimento de tecnologia nuclear nos dois países. O fato é que, para ser
mais exato, Brasil e Iraque não estavam capacitados tecnologicamente para
construir uma bomba atômica, mas trabalhavam e investiam intensamente
(principalmente o Iraque) nos primeiros passos para tanto.
Em termos gerais, portanto, foi no governo Figueiredo que as relações do Brasil
com o Iraque assumiriam um caráter fortemente militarista, o que seria herdado,
em grande medida, pela administração Sarney. A nomeação de embaixadores-
generais para o posto de Bagdá ' Samuel Alves Correa e Alacyr Frederico Werner
' apontava para isso, que incluía planos na área de venda de armas e,
principalmente, na área nuclear. Desse modo, "Iraque" se tornaria um assunto
muito mais de "segurança nacional", de Estado-Maior das Forças Armadas, do que
do Itamaraty.31 Depois dos dois generais, o governo brasileiro enviou um
diplomata de carreira para a embaixada do Brasil em Bagdá. O encerramento da
participação de militares na relação estratégica com o Iraque marcava, também,
uma certa desaceleração na cooperação nuclear entre os dois países, mas sem
quaisquer prejuízos no que se referia à venda de armas.32
Declínio do relacionamento brasileiro-iraquiano
Muito provavelmente, com a segunda crise energética, de 1979, o Brasil sem o
Iraque teria enfrentado um grande colapso no abastecimento de petróleo.
Contudo, a partir de meados da década de 1980, o País reduziu sensivelmente sua
dependência das importações de petróleo do Oriente Médio, incluindo o Iraque.
Ao lado disso, a capacidade financeira do Iraque via-se cada vez mais
debilitada, o que, naturalmente, levou o Brasil a diminuir seus interesses no
relacionamento com o país. Apesar disso, a diplomacia brasileira procurava
manter no mesmo ritmo o seu interesse no Iraque, esperando obter novos
contratos de investimentos e aumento nas importações de produtos brasileiros.
Ademais, se o Brasil não precisava tanto do petróleo importado como no passado,
isso não significava que ele não dependia em grau expressivo do produto vindo
de fora. O Iraque, enfim, continuava um importante fornecedor de petróleo e um
dos principais exportadores do País. Mas, definitivamente, perdia importância
para o Brasil.33
Em 1984/1985, o Brasil produzia cerca de 60% do petróleo que consumia, enquanto
que em 1978 esse número representava apenas 10% do total. Além disso, o preço
do petróleo importado, embora continuasse representando um ônus muito grande ao
País, estava diminuindo rapidamente. De 1985 para 1986, os preços do barril de
petróleo decaíram em quase 55%, dos US$ 28 para US$ 13, se estabilizando nesse
valor nos anos posteriores, em decorrência, principalmente, do excesso de
oferta. Por esses motivos, o peso relativo do petróleo no total das importações
do Brasil decaiu do patamar de mais de 50% no início da década de 1980 para
pouco mais de 20% no fim da década. Em valores, os dispêndios com o petróleo
importado em 1988 representavam cerca de 1/3 daquele do início da década. Outro
ponto é que ficava mais fácil pagar pelo petróleo importado, uma vez que a
percentagem do total da importação de petróleo sobre o total das exportações
brasileiras decaiu de mais de 50%, no início da década de 80, para apenas 10%
nos seus últimos anos. O Brasil se tornaria, pois, menos vulnerável às
oscilações no mercado internacional do petróleo.34
Paralelamente, o governo brasileiro adotou uma efetiva política de
diversificação de fornecedores de petróleo. Em outros termos, o discurso
observado ao longo da década de 1970 de que era premente a busca por novos
fornecedores só seria implementado de fato a partir da segunda metade da década
de 1980, canalizando maior volume de importações para países como Venezuela,
México, Angola e China. O Iraque, nesse contexto, perdia cada vez mais seu peso
relativo nos cálculos da engenharia diplomática brasileira.35
Na ocasião da invasão do Kuwait, o problema do abastecimento de petróleo não
era mais tão dramático quanto nos casos anteriores de crises políticas no
Oriente Médio. As chances do surgimento de uma nova crise do petróleo eram
remotas. Além de o Brasil estar menos dependente do petróleo importado, não
faltavam fornecedores alternativos no mercado internacional. O governo
brasileiro se sentia, assim, livre para, sem grandes custos à economia do País,
se distanciar da posição iraquiana, o que facilitava a execução de uma clivagem
desde o início proposta por Fernando Collor/Francisco Rezek em relação às
gestões anteriores, em que eram observados "alinhamentos automáticos" com os
fornecedores de petróleo. Os antigos temores das autoridades brasileiras em
relação à instabilidade política no Oriente Médio e um eventual corte no
fornecimento de petróleo ao País ficaram no passado.36 O Iraque sem o fascínio
do petróleo ' tanto da parte de seu fornecimento como dos recursos financeiros
criados pela sua exploração ' interessava cada vez menos ao Brasil.
Logo em seguida à invasão do Kuwait pelo Iraque, os EUA iniciaram uma campanha
de demonização de Saddam, em que era preciso "deter o avanço do mal". Para
George Bush, o Iraque estava separado do mundo civilizado por séculos. Isso
significava o oposto daquilo que o presidente Fernando Collor planejava para o
Brasil. A exemplo do que fizera o Japão e outros aliados dos norte-americanos,
o Brasil começava, então, a pautar sua política externa para o Oriente Médio,
principalmente, em torno da órbita dos EUA, a fim de agradá-los.37 Em termos
pragmáticos, era necessário, então, para a diplomacia brasileira, fazer o
caminho inverso daquele trilhado desde princípios da década de 1970, formulado
também de forma pragmática, ou seja, distanciando-se o mais rápido possível de
um país considerado pária pelo sistema internacional. Nesse ponto, o
relacionamento brasileiro-iraquiano confirma a tese de que a estrutura e a
posição que um país ocupa nela são fundamentais, ao lado da política doméstica,
para explicar importantes movimentos da política externa de um país.
Após a invasão do Kuwait, prevendo um desenlace violento para o problema, o
governo do Brasil procurou intensificar as gestões no sentido de retirar todos
os cidadãos brasileiros do território iraquiano sob risco de conflito militar.
No entanto, a concessão de vistos de saída havia sido suspensa pelo Conselho
Revolucionário iraquiano. Diante disso, o foco da diplomacia do Brasil passou a
ser a libertação dos reféns, que continuaria até o seu desfecho em outubro de
1990, pela Missão Paulo Tarso Flecha de Lima. O número estimado de brasileiros
era de 450, ou seja, muito menos dos cerca de 5.000 que viviam no Iraque em
meados da década de 1980.38
Os ataques ao Iraque empreendidos pela aliança composta por trinta e dois
Estados, liderados pelos Estados Unidos da América, acabaram com a derrota
total do país. Após a Guerra do Golfo, o Iraque sofreria severo embargo
comercial sob o auspício da ONU, efetivando sua condição de país falido e
representando, em definitivo, o fim de uma fase nas suas relações com o
Brasil.39 Ocorria, portanto, uma reacomodação da política externa brasileira
para o Iraque, em função de uma nova realidade doméstica e, principalmente,
externa-estrutural. As relações Brasil-Iraque conheceriam com esse episódio um
novo estágio, que marcaria, ao menos por alguns anos, a sua suspensão completa.
A situação de antes de 1971 entre os dois países, em que o grau de
relacionamento era próximo a nulo, retornaria trinta anos depois.
Depois da invasão liderada pelos EUA em 2003, é difícil apontar precisamente o
novo papel do Brasil no Iraque sob a dominação norte-americana. Sem embargo, a
retomada das relações comerciais e políticas entre os dois países depende,
agora, dos desenvolvimentos da intervenção dos EUA. A invasão do Iraque de
2003, juntamente com a suspensão do embargo comercial contra o país, poderá
significar o surgimento de uma nova fase no relacionamento brasileiro-
iraquiano, mas em condições absolutamente diversas daquelas do passado, em que
foi considerada "especial". Ademais, o Iraque mergulharia em um verdadeiro
turbilhão de violência, em que as mortes de civis tornar-se-iam banalizadas. Se
comparado ao Iraque da década de 1970 e, principalmente, com o que ele
pretendia se tornar, o país havia retrocedido de forma colossal.
Conclusão
As relações entre o Brasil e o Iraque figuram-se como um capítulo especial da
história recente da política externa brasileira. Se atualmente a importância do
Iraque para o Brasil é reduzida, no passado, mormente nos primeiros anos da
década de 1980, a posição do país árabe, em termos de economia e de estratégia
militar, era bastante diversa. Nesse aspecto, o petróleo determinou a história
do relacionamento entre os dois países, mas não a limitou apenas às compras e
vendas do produto.
O Iraque representou para o Brasil uma oportunidade em pelo menos dois
aspectos: i) fornecimento de petróleo a preços oficiais, mesmo em tempos de
crise no mercado internacional; e ii) mercado consumidor para exportações de
produtos e serviços brasileiros. Isso porque o Iraque era um Estado altamente
revisionista e, portanto, isolado, o que significava um importante espaço livre
de atuação da diplomacia brasileira junto a um produtor de petróleo. Com o
tempo, o Iraque receberia atenção privilegiada por parte da diplomacia, da
Petrobras e dos demais órgãos do governo.
Em muitos momentos, a despeito de uma resistência do Itamaraty, que preferia
concentrar a agenda bilateral em assuntos econômicos, os interesses iraquianos
eram principalmente políticos. Não havia uma dissociação clara entre economia e
política da parte do Iraque. Nesse aspecto, por exemplo, a questão palestina
para o Brasil foi sensivelmente influenciada pelo seu relacionamento com o
Iraque.
Em poucas palavras, nem os déficits comerciais contra o País nem as pendências
das dívidas iraquianas (com empresas e o governo brasileiros) são capazes de
indicar, isoladamente, se o relacionamento econômico entre os dois países foi
prejudicial ou lucrativo ao Brasil. Levando-se em consideração a importância
estratégica do petróleo importado para a economia brasileira e comparando com o
que ocorreu com os demais países do Oriente Médio, o relacionamento brasileiro-
iraquiano trouxe substanciais dividendos para o Brasil, contribuindo para o seu
objetivo de complementação do desenvolvimento econômico pela política externa.
Para se chegar a um balanço do relacionamento, deve-se levar em consideração,
portanto, um contexto estratégico e econômico mais amplo.
1 Este artigo é extensivamente baseado na dissertação de mestrado do autor,
apresentada em 2007 ao programa de pós-graduação em Relações Internacionais da
Universidade de Brasília ' UnB, intitulada O pragmatismo do petróleo: as
relações entre o Brasil e o Iraque, de 1973 a 2007.
2 VIZENTINI, Paulo G. F. A Política Externa do Regime Militar Brasileiro:
multilateralização, desenvolvimento e a construção de uma potência média (1964-
1985). Porto Alegre: Ed. da Universidade, 1998. p. 245.
3 MENDES, Murillo e ATTUCH, Leonardo. Quebra de Contrato: o pesadelo dos
brasileiros. São Paulo: Del Rey, 2004. p. 156.
4 DESSOUKI, Ali E. Hillal e KORANY, Bahgat. The Foreign Policies of Arab
States: The Challenge of Change. Boulder, Colorado: Westview Press, 1991. pp.
192 e 193.
5 SAKAI, Keiko. Japan-Iraq relations: the perception gap and its influence on
diplomatic policies. Arab Studies Quartely. Fall 2001; 23, 4. p. 121.
6 Monopólio não é um fim, mas apenas meio de ação. Estado de São Paulo. 30/07/
1970.
7 VELLOSO, João Paulo dos Reis. O Último Trem para Paris: De Getúlio a Sarney:
"milagres", choques e crises do Brasil moderno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1986. pp. 202, 219 e 226.
8 SANTOS, Norma Breda dos. (Org.). Brasil e Israel: Diplomacia e Sociedades.
Brasília: Ed.UnB, 2000. p. 56.
9 Ernesto Geisel. In: D'ARAÚJO, Maria Celina e CASTRO, Celso. Ernesto Geisel:
depoimentos. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997. p. 338.
10 Projeto aliou reserva de mercado e estatização. Estado de São Paulo. 14/09/
1996. Geisel visita o Paraná. Estado de São Paulo. 13/06/1973. Braspetro, a
maior realização. Estado de São Paulo. 10/07/1973. Ficará para Geisel o desafio
do petróleo. Estado de São Paulo. 11/12/1973. FAUSTO, Boris. História Concisa
do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. p. 270.
VIZENTINI, Paulo G. F. Op. cit. p. 202. SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a
Tancredo (1964-1985). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. p. 315. Y Y Y Y Y
11 Entrevista concedida ao autor por Paulo Tarso Flecha de Lima, em 16 de março
de 2007, em Brasília.
12 Brasil consolida suas relações com o Iraque. O Globo. 18/12/1979. O trabalho
dos brasileiros no Iraque. Estado de São Paulo.12/10/1980. Ofensiva brasileira
no Oriente: começa com venda de armas e construção de uma estrada no Iraque.
Correio Braziliense. 10/11/1977. BRASIL. Ministério das Relações Exteriores.
Relatório. 1978. VIZENTINI, Paulo G. F. Op. cit. p. 249. MENDES, Murillo e
ATTUCH, Leonardo. Op. cit. p. 170. Y Y Y
13 Arquivo Histórico do Itamaraty (AHI), Brasília, Embaixada em Bagdá para
Secretaria de Estado, n. 90. Confidencial. Em 26/07/1976.
14 O Brasil no deserto: doze anos depois do primeiro lance da Petrobras, já são
6.000 os brasileiros na rota de Bagdá. Veja. 04/12/1985.
15 MONTENEGRO, Marcelo Luis. Indústria Bélica e Diplomacia na Relação Brasil-
Iraque (1979-1989): crise de uma estratégia de política externa brasileira para
os anos 80. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais). PUC-Rio, 1992.
pp. 130, 164 e 166.
16 Pragmatismo conduz a maior aproximação com os árabes. Estado de São Paulo.
28/12/1979. Braspetro discute com o Governo do Iraque a exploração de seu
petróleo.Jornal do Brasil. 03/06/1979. DESSOUKI, Ali E. Hillal e KORANY,
Bahgat. Op. cit. p. 202. Y
17 É a hora de mudar de conduta. Estado de São Paulo. 05/06/1979. Política
externa do Brasil: novos caminhos para acompanhar a transformação do mundo. O
Globo. 29/07/1979. Acerto entre o Brasil e Iraque. Gazeta Mercantil. 18/12/
1980. Brasil evita polêmica com visita iraquiana.Jornal de Brasília. 09/12/
1979. A lógica do Iraque. Jornal de Brasília. 09/12/1979. "Nada afeta nossa
amizade": o embaixador Haidar faz um balanço das relações entre Brasil-Iraque.
Folha de São Paulo. 19/03/1980. ATTUCH, Leonardo. Saddam, o Amigo do Brasil.
São Paulo: Qualitymark, 2003. p. 136. Y Y Y Y Y Y
18 Brasil entrega Majnoon para ter óleo do Iraque.Jornal do Brasil. 02/12/1979.
19 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Resenha de Política Exterior do
Brasil. Ano III, n. VIII. Geisel: nossa diplomacia é instrumento de progresso e
segurança. Mensagem do Presidente da República ao Congresso Nacional, em 1 de
março de 1976. Y
20 GUERREIRO, Ramiro Saraiva.Lembranças de um Empregado do Itamaraty. São
Paulo: Siciliano, 1992. p. 178.
21 SANTOS, Norma Breda dos. (Org.). Op. cit. pp. 161 e 170.
22 Brasil quer petróleo e o Iraque, tecnologia nuclear. Estado de São Paulo.
09/11/1979.
23 ATTUCH, Leonardo. Op. cit. p. 112. Ministro do Iraque vem dia 11 para
negociar petróleo. Jornal do Brasil. 07/12/1979. VIZENTINI, Paulo G. F. Op.
cit. pp. 254 e 262.
24 Bons negócios no Iraque. Jornal de Brasília. 24/11/1979. Novas
possibilidades de intercâmbio com o Iraque.Gazeta Mercantil. 23/11/1979. O
Itamaraty está cuidando dos brasileiros no Iraque. Jornal da Tarde. 24/09/1980.
Petrobras conseguiu o petróleo do Iraque. Estado de São Paulo. 24/11/1979.
Itamaraty orienta ação no Oriente Médio e Irã. Estado de São Paulo. 24/11/1979.
Itamaraty evita política com o ministro do Iraque. Jornal do Brasil. 09/12/
1979. BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Resenha de Política Exterior
do Brasil. N. 42, de 1984. A conferência do chanceler Saraiva Guerreiro na
Escola Superior de Guerra. Conferência de 31 de agosto de 1984. BRASIL.
Ministério das Relações Exteriores. Relatório. 1979. ATTUCH, Leonardo. Op. cit.
p. 138. VELLOSO, João Paulo dos Reis. Op. cit. pp. 167 e 170. GUERREIRO, Ramiro
Saraiva. Op. cit. p. 177. VIZENTINI, Paulo G. F. Op. cit. p. 338. Y Y Y Y Y Y Y Y
25 MONTENEGRO, Marcelo Luis. Op. cit. p. 153.
26 WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge:
University Press, 2004. p. 36.
27 MONTENEGRO, Marcelo Luis. Op. cit. pp. 8, 24 e 61.
28 GUERREIRO, Ramiro Saraiva. Op. cit. p. 180. VIZENTINI, Paulo G. F. Op. cit.
p. 333. Chanceler do Iraque vem discutir intercâmbio e a questão palestina.
Gazeta Mercantil. 02/05/1988. Ministro do Iraque vem ver o apoio do Brasil.
Jornal do Brasil. 30/04/1988. BRASIL. Ministério das Relações Exteriores.
Resenha de Política Exterior do Brasil. N. 42, julho/set. de 1984. A
conferência do chanceler Saraiva Guerreiro na Escola Superior de Guerra.
Conferência de 31 de agosto de 1984. Y Y Y
29 A negra história das relações entre Brasil e Iraque.Jornal do Brasil. 12/08/
1990. MONTENEGRO, Marcelo Luis. Op. cit. p. 65.
30 Ligações Perigosas. Veja. 24/06/1981.
31 A negra história das relações entre Brasil e Iraque. Jornal do Brasil. 12/
08/1990. Brasil e Iraque: casório em crise.Jornal do Brasil. 9/08/1990. Y
32 Diplomata vai assumir a embaixada no Iraque. Estado de São Paulo. 12/01/
1984. Werner designado para a embaixada no Iraque. Folha de São Paulo. 21/01/
1983. Ligações Perigosas. Veja. 24/06/1981. Y Y
33 . BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Resenha de Política Exterior
do Brasil. N. 49, abril/junho de 1986. Abreu Sodré, na Escola Superior de
Guerra: atividade diplomática exige diálogo. Palestra de 27 de junho de 1986.
MENDES, Murillo e ATTUCH, Leonardo. Op. cit. p. 227. SAKAI, Keiko. Op. cit. p.
119. Y
34 SKIDMORE, Thomas. .Op. cit. p. 529. RELATÓRIO Banco Central do Brasil, 1983
e 1988. ALMANAQUE Abril, 1987. FAUSTO, Boris. Op. cit. p. 279. BRASIL.
Ministério das Relações Exteriores.Resenha de Política Exterior do Brasil. N.
42, julho/set. de 1984. A conferência do chanceler Saraiva Guerreiro na Escola
Superior de Guerra. Conferência de 31 de agosto de 1984. Y Y Y
35 Arquivo Histórico do Itamaraty (AHI), Brasília, Embaixada em Bagdá para
Secretaria de Estado. Confidencial. Em 03/01/1985. Brasil-Iraque: a razão volta
a prevalecer. Gazeta Mercantil.19/01/1984. Y
36 Sanção econômica ao Iraque.Correio Braziliense. 07/09/1990. Brasil e Iraque:
casório em crise. Jornal do Brasil. 09/08/1990. Missão acerta hoje saída dos
brasileiros. O Globo.17/09/1990. Y Y
37 SAKAI, Keiko. Op. cit. p. 121. WENDT, Alexander. Op. cit. p. 342.
38 Iraque retém brasileiros que conhecem segredo militar. Jornal do Brasil. 23/
08/1990. Brasileiro pode estar ligado a míssel. Gazeta Mercantil. 23/08/1990.
Caminho minado: o conflito armado pelo Iraque impede a Mendes Júnior de
conquistar US$ 6 bilhões em novos contratos. IstoÉ Senhor. 05/09/1990. MENDES,
Murillo e ATTUCH, Leonardo. Op. cit. pp. 220 e 221. Y Y
39 MENDES, Murillo e ATTUCH, Leonardo. Op. cit. p. 219. ABDULLAH, Thabit A J. A
Short History of Iraq. London: Pearson Longman, 2003. 197.