A ruína do consenso: a política exterior do Brasil no governo Figueiredo (de
1979 a 1985)
Introdução
O governo do general João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979-1985) foi o
último do ciclo militar instalado em 1964. A política externa de sua gestão
ficou conhecida, por parte da Historiografia, como Universalismo. No entanto,
apesar de ser formulada e implementada naquele período, não era a única matriz
que pensava o posicionamento do Brasil no mundo. Houve claras manifestações de
descontentamento em relação aos seus pressupostos, podendo-se identificar
explícito grupo de arautos do dissenso. Neste sentido, analisar e demonstrar a
ruína do consenso da política externa neste período foi o trabalho deste
artigo.
Após balanço historiográfico, evidenciou-se a concentração de estudos que
privilegiam fatores políticos, econômicos e geopolíticos, em detrimento das
variáveis subjetivas que impactam na formulação da política externa. Neste
sentido, utilizaram-se argumentos que defendem abordagens complementares na
análise da política externa, sobrelevando-se a importância das percepções dos
policymakers, momento que antecede a tomada de decisão (SILVA, 1995, p.1).
Sob tal inspiração, contextualizou-se o governo Figueiredo face ao processo de
redemocratização e aos novos arranjos de poder político, econômico e social do
período. No âmbito político, o país entrava na reta final do processo de
liberalização e de retorno do poder às mãos dos civis - período de ricas
transformações nas estruturas decisórias do país. Na dimensão econômica, abalos
na conjuntura internacional trariam fortes constrangimentos à economia
nacional, impondo limites ao projeto de desenvolvimento do país. Neste
contexto, a política externa ressaltou sua característica universalista,
respondendo ao cerceamento dos mercados financeiro e comercial. Foi produzido
discurso diplomático que reivindicou a democratização do quadro institucional
internacional para reverter o fechamento do processo decisório concentrado nas
grandes potências internacionais.
O processo de formulação da política externa brasileira é estudado para
entender as matrizes de pensamento que teorizavam sobre o papel a ser
desempenhado pelo Brasil no ambiente internacional. São expostas as bases da
Política Externa Universalista, assim como as idéias contrárias a essa
concepção. As manifestações dissonantes relativas à política externa conduzida
pelo chanceler Ramiro Saraiva Guerreiro emanavam em conjuntura marcada por
grave crise econômica e por forte movimentação dos setores da sociedade que
lutavam pelo poder. Fatos que afetaram o processo decisório do Estado
brasileiro. Portanto, reforçou-se a necessidade de teoria que conceba o Estado
como permeável às demandas de seu tecido social, sendo o 'Interesse Nacional'
resultante do equacionamento das vontades dos diversos setores constitutivos da
Nação (PINHEIRO, 1994).
Visões do Brasil no mundo
Um ponto de partida para que se percebam as diferentes visões de mundo vigentes
na gestão Figueiredo é indagar pela concepção militar de inserção externa do
país. Teixeira (2002) argumenta que, apesar da dificuldade de se buscarem tais
pressupostos empiricamente, é fato que tenha se formado razoável consenso entre
os militares acerca da importância da construção de um status de potência para
o país. Tal concepção encerrava a expectativa de que o Brasil pudesse alcançar
os níveis superiores da hierarquia internacional. Para tanto, a capacidade de
defesa dos interesses nacionais além fronteira era imprescindível, o que
somente seria alcançado mediante o desenvolvimento econômico e a construção do
espaço de autonomia nacional. Neste sentido, a busca de mercados não
tradicionais e mesmo contrapostos ideologicamente aos pressupostos do Estado
autoritário estaria justificada pela prioridade de se conseguir insumos ao
desenvolvimento.
No entanto, os limites impostos pela conjuntura ao modelo nacional
desenvolvimentista trariam seus desdobramentos na política externa brasileira.
Cervo e Bueno consideram que o desenvolvimento, mesmo tendo permanecido como
objetivo a ser perseguido, perde força com a redução de eficiência da
estratégia posta em curso pelos militares. "É nesse contexto extremamente
adverso que a diplomacia brasileira tentou formular uma política externa de
cunho universalista, buscando reavivar o multilateralismo como forma de tentar
superar a crise" (2001, p.46).
A lógica ecumênica implicava a continuidade do modelo desenvolvimentista por
meio da busca de fontes alternativas de conexões internacionais. Assim, a
aproximação com a América Latina, África, Ásia e Oriente Médio, além da busca
de diálogo com os paises socialistas da Europa Oriental decorriam dessa visão.
O projeto universalista torna-se um plano de inserção planetário, expondo o
país a diversas formas de relações internacionais. Neste sentido, argumenta-se
que Figueiredo continuaria, e mesmo aprofundaria, a política exterior de
Geisel, devido à impossibilidade de se efetivarem rupturas drásticas com o
modelo em curso (CERVO e BUENO, 2001, p. 47).
Azeredo da Silveira, chanceler no governo Geisel, demonstrava preocupação com a
manutenção das linhas básicas da política externa que ele havia implementado.
Ele considerava que, naquele período, viveram-se "tempos de decisões difíceis
com o reatamento com a China, a investida comercial na África e Ásia, o
abandono da dependência econômica em relação aos Estados Unidos" (ISTO É,
3.1.1979, In: TEIXEIRA, 2002, p. 48). Neste sentido, a escolha de Guerreiro
para chanceler do governo Figueiredo reapresentou a vitória na luta pela
manutenção da política externa exercida por Silveira.
No entanto, ao se observar a movimentação para a escolha do chanceler de
Figueiredo, fica evidente que não havia somente uma linha de pensamento acerca
dos rumos que o país deveria tomar. Roberto de Oliveira Campos registra em suas
memórias que, em fins de 78, seu nome teria aparecido como 'ministeriável' nos
jornais. O então embaixador em Londres aponta que o processo da escolha do
chanceler para o governo Figueiredo teve forte componente ideológico. Assim,
ele teria sido preterido devido ao seu posicionamento crítico em relação ao
Universalismo. Ele narra:
A única posição que me interessaria seria o ministério do Exterior,
por ser coroamento da carreira e porque a política externa terceiro-
mundista precisava de uma 'chacoalhada'. Considerava, entretanto,
algo humilhante oferecer-me para o cargo e por isso não me dispunha a
ir ao Brasil. Pressentia, aliás, que meu nome encontraria forte
oposição, particularmente do chanceler Silveira, que desejava
continuar no cargo ou, pelo menos, 'fazer' seu sucessor. Isso foi
facilitado pela coincidência de que o general Medeiros, que sucedera
a Figueiredo no SNI, tinha como candidato seu concunhado, o
embaixador Saraiva Guerreiro, então embaixador em Paris, que fazia
parte da 'igrejinha' do Silveira (CAMPOS, 1994, p.1013).
Por seu turno, Guerreiro faz suas considerações acerca das razões de sua
escolha para o mais alto cargo das relações exteriores do país.
Fui convidado pelo presidente eleito a assumir a função de ministro
de Estado das Relações Exteriores. Na ocasião, sua excelência me
disse, inter alia, que me conhecia mais do que eu supunha e desejava
prosseguir, com as adaptações aconselháveis, na política externa do
governo anterior. O fato de haver sido secretário geral e estar
intimamente ligado, por ofício, à execução dessa política,
evidentemente teria pesado, entre outros fatores, que não caberia
destacar aqui. Embora estivesse de acordo com meu chefe com a linha
geral de uma política que se denominava de PRAGMATISMO RESPONSÁVEL,
como Ministro, creio não haver usado a expressão mais do que uma vez,
e ainda no princípio. Não tinha objeção de substância, mas, até por
temperamento, me parecia que podia prestar-se a equívoco (GUERREIRO,
1992, p.27).
Assim, observa-se a vontade manutenção dos vetores básicos da política exterior
pragmática do Brasil. No entanto, o quadro conjuntural nacional e internacional
era diverso. Os formuladores daquela política deveriam ler um mundo complexo e
propor ações. O Universalismo acaba por encarnar forte dose de contradições.
Teixeira (2002, p.51) observa que o Brasil, naquele período, de fato apresentou
uma postura externa ambivalente em suas relações norte/sul e sul/sul. Assim,
simultaneamente à busca de integração com os países do Terceiro Mundo, o Brasil
também queria inserir-se no Ocidente desenvolvido, compartilhando seus valores.
Sennes (apud TEIXEIRA, 2002, p.52) teoriza que países intermediários (como o
Brasil), recém industrializados, oscilam entre atitudes com característica de
país forte e fraco. Assim, sendo ora autônomos, ora dependentes, acabam
estabelecendo formas compostas de atuação internacional.
No entanto, apesar da manifesta 'dubiedade' na PEB, o Estado ainda concebia tal
política como necessariamente reflexo de um consenso nacional a apontar o rumo
do país no ambiente internacional.
A busca do consenso
No governo Figueiredo, a unidade de princípios era apontada como necessária ao
bom andamento da política externa do país. Defendia-se que "a confiabilidade da
política externa de uma potência intermediária exige, além de um adequado
relacionamento diplomático e da coerência, a solidez de um consenso interno"
(LAFER, 1983, p.19). Assim, a capacidade de gerar, incorporar e refletir
consensos era considerada essencial ao governo.
Tal característica tomava proporções específicas por ser o governo comandado
por regime militar que, através da ideologia da segurança nacional, impunha a
unidade da nação e o patriotismo exacerbado. Milza considera que a busca do
consenso pela política externa, objetivando integrar as massas e superar as
ideologias antagônicas das lutas partidárias, pode levar o grupo dirigente de
um país a propor projetos mobilizadores cujo principal objetivo seria preservar
a unidade da nação ameaçada pelas forças centrífugas do dissenso (MILZA, 1996,
p.380).
Reflete Debrum (1983, p.15) que a necessidade de consenso na política externa
propagada pelo regime militar pode ser vista como uma parte do amplo universo
da política nacional, já que a conciliação faz parte da tradição política
brasileira. Mas, ele deixa claro que a conciliação existente no Brasil não é
aquela que pressupõe atores com os mesmos recursos de poder, impossibilitando
que um ator esmagasse o outro. De modo diverso, no Brasil, a conciliação sempre
pressupôs assimetria entre os atores, em uma palavra: desequilíbrio. Portanto,
o consenso serviria para reforçar o poder daqueles que já o detinham, ou mesmo
para propor "a todos ou apenas aos setores potencialmente dinâmicos da
sociedade, projetos nacionais - de redenção, de desenvolvimento, de Pátria
Grande etc. - em torno dos quais deveriam congregar-se as vontades" (DEBRUM,
1983, p.13).
A política externa estava em sintonia com tais preceitos. Guerreiro, em sua
última visita à ESG, discursa em tom analítico e retrospectivo a sua gestão.
"Procuramos fazer que a atividade diplomática sirva de ponto de união de
brasileiros, de coesão política e social, e não a interesses localizados e
transitórios" (RESENHA, ED.SUPL. 1984, p.68). Ao considerar assim o papel
diplomático, ele fará, em outro ponto, a defesa do necessário consenso e a
desqualificação dos eventuais críticos.
Creio que a condição do prestígio diplomático foi plenamente
alcançada no período. Vejo sinais claros, e um dos mais
significativos é o consenso que se forma em torno das linhas mestras
da política externa, tanto na opinião pública quando em nossos meios
políticos. Um dos elementos expressivos desse consenso é o apoio,
praticamente unânime, das correntes políticas às orientações centrais
do trabalho diplomático. Houve críticas, em regra torneadas por
sinceras preocupações. Respeitamo-las invariavelmente, mas ficam, em
sua maioria, restritas ao círculo de expressão limitada. Não acredito
que tenham criado raízes sólidas. Para um país que não tem excedente
de poder, o consenso e unidade na defesa do interesse nacional se
tornam a sua força. A unidade moral de propósitos - não imposta, mas
tecida democraticamente - é matriz sólida e realização de nossos
objetivos (IDEM, p.79).
Acredita Przeworski (1994, p.107) que nos arranjos burocrático-autoritários o
dissenso encontra alguns limites, mesmo que não possa ser totalmente impedido.
Ele identifica um fato comum às ditaduras: elas não podem tolerar organizações
independentes, pois enquanto não houver alternativas disponíveis em termos
coletivos, as ações individuais não adquirem importância significativa para o
governo. Assim, o que ameaça o regime autoritário não seria tanto a quebra da
legitimidade, mas a organização de projetos contra-hegemônicos que se
estabelecessem como alternativa para o futuro.
O Estado Burocrático Autoritário (EBA) concebia o Itamaraty como uma
instituição que deveria ter idéias coerentes e autônomas que minimizassem o
conflito e a competição para o interior da organização (CASTRO e SANTOS, 1988,
p.70). A vontade de coerência também se aplica para a constituição de uma linha
unívoca de percepção do papel que a nação deveria ter no sistema internacional.
Portanto, as considerações relativas ao papel do Brasil no cenário
internacional criadas e defendidas pelo Itamaraty eram fundamentais, pois as
escolhas dos formuladores de políticas são feitas com base no 'estoque' de
paradigmas que concebem a imagem do país e o lugar que este deve ocupar no
mundo (SILVA, 1995). Portanto, minimizar os contrastes existentes entre
paradigmas que coabitavam a instituição seria a política óbvia de um regime que
pregava a união. No entanto, o sucesso dessa empreitada parecia improvável dada
a conjuntura em que se enreda o governo do último general presidente do ciclo
ditatorial de 1964.
Dissonâncias
O Universalismo, apesar de ser o projeto posto em prática, não era o único. A
existência de dissonâncias relativas à melhor inserção internacional do Brasil
pode ser depreendida tanto nos discursos oficiais como em artigos e entrevistas
de atores da vida política e econômica nacional. O consenso pregado pelos
formuladores da política externa havia perdido intensidade em decorrência da
forte crise estrutural por que passava o país. Mesmo assim, Guerreiro (RESENHA,
ED.SUPL., 1984, p. 86) defendia que a atividade diplomática deveria servir "de
ponto de união de brasileiros, de coesão política e social, e não a interesses
localizados e transitórios".
Porém, tal discurso é contrastado por outras falas que acabam por explicitar as
indesejáveis divisões. Na verdade, o próprio chanceler estava ciente da maior
complexidade que o panorama político da abertura traria ao equacionamento das
pressões dos diversos setores sociais. Em seu primeiro pronunciamento na ESG,
em 13 de julho de 1979, Guerreiro reconhecia que o novo quadro nacional e
internacional traria novos desafios à sua gestão. Em sua visão, a
redemocratização que vinha sendo efetivada na gestão Figueiredo trazia
implicações evidentes para a política externa. Ponderava que a despeito da ação
diplomática brasileira sempre ter procurado formas de ação que transcendessem
as conjunturas partidárias, fixando o interesse nacional consoante com o
conjunto da nação, o dissenso era inevitável. Porém, defendia que mais forte
seria o consenso relativo aos anseios da nação, se tal fosse conseguido em um
quadro de amplas franquias democráticas.
Por isso, o Itamaraty, como instituição, está certo de que a abertura
política servirá com proveito à política externa. Estamos preparados
para aceitar o debate sobre política externa, debate esse que, de uma
forma ou de outra, sempre existiu. Tenho a certeza de que com o
debate, não haverá abalo na confiança que a nação deposita em sua
política externa. Faço questão, também, de indicar que não é esta uma
atitude retórica. Ao contrário, a capacidade de resposta democrática,
de aceitação das propostas que visem consistentemente ao interesse
nacional, a ponderação de sugestões deve fazer parte do metabolismo
institucional do Itamaraty. É nosso instrumento de participação
democrática no Brasil (RESENHA, ED. SUPL., 1984, p.13).
Cervo (RBPI, 2003, 46/2, p.13) acredita que, por décadas, a ideologia
desenvolvimentista fez a unanimidade no Brasil, mas não fez a unidade do
entendimento político. Intelectuais e dirigentes, além da opinião pública,
estariam divididos em torno do modelo a colocar em prática. Ele identifica a
formação de duas correntes: uma do desenvolvimento associado com a prevalência
das relações políticas econômicas e geopolíticas com a matriz do sistema (EUA)
e outra do desenvolvimento autônomo, baseado nas forças da nação, que buscava
autonomia política e a formação de forte núcleo econômico interno. Este último
projeto encontraria fortes obstáculos ao se intensificarem os vetores de
interdependência global, trazendo limites ao projeto desenvolvimentista dos
últimos governos militares. Cervo continua o raciocínio defendendo que as duas
propostas estratégicas não declarariam guerra entre si, como observado na
Argentina. De modo diverso, ele acredita que por meio do diálogo entre as duas
correntes resultou um modelo misto de desenvolvimento que tomou longo fôlego
para ser utilizado de modo racional em doses equilibradas.
Jose Honório Rodrigues, em Interesse Nacional e Política Externa, escrito em
1966, já apontava duas matrizes a serem identificadas no longo curso. Uma
pregava desenvolvimento independente, outra interdependente. Portanto, ao se
analisar o governo Figueiredo, entende-se que as concepções de política externa
em curso não eram idéias apenas conjunturais, mas representavam a retomada de
algumas matrizes de pensamento que encontram momento e oportunidade de
afloramento.
Conforme se observam os fatos da política brasileira no governo Figueiredo,
percebe-se que houve relativa aceitação do projeto Universalista até 1982.
Guerreiro (1991, p.13) admite que as críticas aparecem com mais vigor em meados
de 1982. No entanto, em suas memórias, ele registra que "desde o meu primeiro
ano de ministrança, havia quem não gostasse quando incluíamos o Brasil no
Terceiro Mundo." Dentre os descontentes com tal posição estava o embaixador
Campos que propunha uma 'chacoalhada' na política externa terceiro-mundista.
Campos recorda (1999, p. 1014) que no calor da 'batalha' para a escolha do
futuro chanceler, ele produziu um memorando interno com recomendações de ação
para que o Brasil se adequasse aos novos tempos. Em 'As Novas Perspectivas da
Política Exterior' ele analisou as transformações do mundo e os impactos
conseqüentes em uma potência emergente como o Brasil. Haveria algumas opções
para a política externa, dentre elas o 'NEUTRALISMO', o 'TERCEIRO-MUNDISMO', o
'ALINHAMENTO AUTOMÁTICO' e a 'PARCERIA SELETIVA'. Em sua concepção, somente a
última era cabível ao Brasil que se inseria em um contexto marcado por
"relativo enfraquecimento da liderança político-ocidental; pela politização do
problema energético; pelo recrudescimento do terrorismo; pela mutação das
formas de soberania e pelo neoprotecionismo".
O interessante memorando interno, endereçado a Silveira (chanceler do governo
Geisel), era sua exposição de motivos para a formulação de política externa que
adequasse o país ao novo quadro de desafios que a conjuntura internacional
impunha. O documento passa em revista aos principais temas das relações
internacionais dos anos 70 e propõe muitas ações diversas daquelas em curso.
Inicialmente, Campos (NPPEB, 1978, p.i.) identifica um fato e propõe dois
enfoques para a política externa brasileira. O fato é a maioridade do Brasil
como potência de primeiro plano e os enfoques são o econômico e o geopolítico-
militar. Em sua visão, o Brasil estava irremediavelmente lançado ao mundo e
seus perigos. Portanto, ter mecanismos para perceber a conjuntura internacional
seria fundamental ao projeto da nação. Mas, infelizmente, ele observa que o
Itamaraty estava ausente e despreparado para auscultar o mundo e incapaz de
tomar decisões acertadas. O embaixador chega a declarar que não seria exagerado
dizer que o Brasil desenvolveu certa tendência a fracionar o seu sistema
político e econômico. Assim, aos poucos, o ministério do Exterior foi ficando
isolado, um tanto seccionado da realidade mais imediata do país (idem, p. iii).
Portanto, deveria haver modificação estrutural que recompusesse o seu poder e
coordenação no processo decisório do Estado. Haveria novas exigências às
estruturas no ministério para que ele tomasse parte no processo de planejamento
e análise econômica. Em uma palavra, reclamava maior integração no processo
decisório, de modo a não marginalizar o Itamaraty das grandes decisões da
nação. Campos ainda alertava que, se tal movimento de adequação não fosse
feito, o país entraria em dissonância com o resto do mundo.
Seguindo esta linha de raciocínio, ele passa à identificação dos modelos de
política externa do Brasil. Veja-se o trecho abaixo que, a despeito da
extensão, vale pela síntese que abriga.
ALGUMAS OPÇÕES GERAIS DA POLÍTICA EXTERNA
5.1. Em termos muito genéricos, indo, por assim dizer, da esquerda
para a direita, os diferentes tipos de opções abertas a um país como
o Brasil poderiam ser consideradas nas quatro seguintes variantes:
i. neutralismo
ii. terceiro-mundismo
iii. parceria seletiva
iv. alinhamento político prévio e automático
(1) As variantes i e ii estariam não apenas fora das tradições
brasileiras, mas igualmente fora de uma faixa otimizante dos
interesses nacionais, como se infere do que se tem visto até este
ponto. A variante iv não aberraria tanto da nossa linha histórica,
mas teria uma rigidez desnecessária e não se poderia considerar
otimizante nas condições atuais.
(2) ...
(3) No caso brasileiro, a tradição e o que poderíamos chamar de
fidelidade histórica coincide com os grandes interesses do país, que
se situam no âmbito do subsistema Ocidental. Não haveria, porém,
nenhuma razão para que o Brasil abdique do seu lugar na poliarquia,
ou simplesmente posponha o seu ingresso nela. Pelo contrário, como
foi visto a propósito da posição norte-americana, uma participação
decisória mais ativa do Brasil contribuiria para um efeito
estabilizador que se afigura cada vez mais urgente.
(4) A variante da parceria seletiva não é nem excludente nem apenas
pragmática, com sacrifício de posições de princípio que podem ser
requeridas no devido momento. Ela implica, porém, numa clara ênfase
sobre o termo parceria, em contraste com a idéia de alinhamento
(CAMPOS, NPPEB, 1979, p.17).
A gênese da defesa da 'Parceria Seletiva' está no governo Castelo Branco.
Segundo Campos, o marechal teve a oportunidade de reorientar a política externa
brasileira que havia oscilado entre
a estratégia da pirraça de Jânio Quadros e os malabarismos
intelectuais da política de independência de Afonso Arinos e San
Tiago Dantas. No caso de Jânio Quadros, a intenção parecia ser ganhar
espaço para uma política conservadora interna no campo econômico,
através da exibição de machismo na política externa. No caso de
Afonso Arinos e San Tiago Dantas, as proposições eram algo mais
sofisticadas. Tratava-se de valorizar o espaço de manobra que nos era
dado pelo impasse da bipolaridade (CAMPOS, 1999, p.743).
O próprio general Castelo Branco, ao paraninfar a turma dos formando do
Itamaraty, em 31 de julho de 64, esclareceu alguns dos pontos centrais do que
Campos, posteriormente, definiu como política de 'Parcerias Seletivas'.
No caso brasileiro, a política externa não pode esquecer que fizemos
uma opção básica, que se traduz na fidelidade cultural e política ao
sistema democrático ocidental. Dentro dessa condicionante geral, a
nossa independência se manifestará na aferição de cada problema
específico, estritamente em termos de interesse nacional, com margem
de aproximação comercial, técnica e financeira, com países
socialistas, desde que esses não procurem invalidar nossa opção
básica (in: CAMPOS, 1999, p. 746).
Segundo Campos, caracterizar a política externa de Castelo Branco como sendo de
alinhamento automático (como faziam Silveira e Guerreiro) era descabido, pois o
marechal havia, preventivamente, rebatido futuras e eventuais críticas.
Não devemos pautar nossa atitude nem por maquiavelismo matuto, nem
por uma política de extorsão. Reciprocamente, não devemos dar adesão
prévia às atitudes de qualquer das grandes potências - nem mesmo às
potências guardiãs do mundo ocidental, pois que, na política externa
destas, é necessário distinguir os interesses básicos da preservação
do sistema ocidental dos interesses específicos de uma grande
potência. Em resumo, a política exterior é independente no sentido de
que independente deve ser a política de um país soberano. Política
exterior independente, num mundo que se caracteriza cada vez mais
pela interdependência dos problemas e dos interesses significa que o
Brasil deve ter seu próprio pensamento e sua própria ação. Esse
pensamento e essa ação não serão subordinados a nenhum interesse
estranho ao Brasil (in: CAMPOS, 1999, p.746).
Outras críticas são feitas ao Universalismo. Campos (1999, p. 746) apontava
constantes demonstrações de indeterminação em certos dilemas como: nacionalismo
versus interdependência; negociação bilateral versus negociação multilateral;
socialismo versus livre iniciativa. Também, considerava a teoria dos 'círculos
concêntricos' mais apropriada à política externa do país. Segundo ele, tal
teoria deveria informar as prioridades em nossas relações com as nações irmãs.
Neste sentido, deveriam ser prioritárias nossas relações como nossos vizinhos
latino-americanos, com os Estados Unidos, com Portugal, com os países africanos
do Atlântico e a comunidade européia. No âmbito econômico, seriam prioritárias
nossas relações com Estados Unidos, Alemanha e Japão. Tal argumento criticava a
ingenuidade do terceiro-mundismo que financiava muitos países somente pelo fato
de terem voto na ONU. Também, considerava-se a idéia de Terceiro Mundo uma
falácia, pois essa 'entidade' não passava de um 'mosaico incongruente'.
Campos (1999, p. 873) considerava que a proliferação de embaixadas no Terceiro
Mundo, principalmente na África, foi um equívoco financeiro, pois o Brasil
teria conseguido melhores resultados, com efeitos mais duradouros, se tivesse
criado um bom programa de bolsa de estudos e intercâmbio com os africanos. O
embaixador também não poupava de críticas a simpatia que a matriz terceiro-
mundista nutria pelo grupo dos países não alinhados (denominados por ele como
'Desalinhados'), pois os líderes Nehru, Sukarno, Nasser, Nkrumah e Fidel Castro
haviam conseguido, em curto prazo, a façanha de arruinar seus respectivos
países.
O embaixador José Osvaldo de Meira Penna (DIGESTO, 1982, abril, p. 109) foi
outro crítico do Universalismo. Em fevereiro de 1982, ele fez contundente
ataque àquela Política Externa. Ao discursar na reunião do Centro e Estudos
Sociais e Políticos, ele contestou aqueles que culpavam os países desenvolvidos
pelo subdesenvolvimento brasileiro, pois a responsabilidade deveria ser
atribuída às elites daqueles países que aplicavam políticas restritivas ao
desenvolvimento. Segundo Penna, culpar outros países pelas mazelas internas era
escapismo. Ele acaba por propor um slogan que, contraditoriamente, relembra os
tempos da nacionalização do petróleo no Brasil: O Problema é Nosso!
Penna (In: DIGESTO, 1982, abril, p. 110) avança sua discordância com o
terceiro-mundismo considerando que ele seria uma espécie de tradução moderna do
Marxismo clássico que considerava os países 'sub' e 'em desenvolvimento' como o
proletariado internacional. No que se refere à política externa, a
práxisrevolucionária ditava a reunião do Terceiro Mundo contra o imperialismo
dos países desenvolvidos, pregando até a guerrilha e o terrorismo. Penna
combatia a aproximação com parceiros que pregavam a destruição do
desenvolvimento capitalista, pois no centro do poder mundial estavam os
melhores índices de equilíbrio social e prosperidade econômica. O Brasil
deveria, consequentemente, aproximar-se de modo mais íntimo com o centro do
poder e não solidarizar-se com a periferia dependente. De modo irônico ele
conclui: "Enfim, retomando a fórmula pascaliana, diríamos que o terceiro-
mundismo tem razões que a Razão desconhece."
Penna apresenta suas restrições à aproximação do Brasil com o chamado Segundo
Mundo, por achá-lo ideologicamente e moralmente questionável. Ele define a
política externa de Figueiredo como sendo de solidariedade com o Terceiro
Mundo, de silêncio em relação às questionáveis atitudes do Segundo Mundo e de
reivindicações e ressentimentos em relação ao Primeiro Mundo. Em suma, uma
postura nacional-socialista que acabava com definir atitudes equivocadas do
Brasil para a conjuntura internacional da primeira metade dos 1980 (DIGESTO,
1982, abril, p. 115).
Tal posicionamento resultaria de sua frontal contraposição aos resquícios da
Política Externa Independente (PEI) que podiam ser identificados no
Universalismo de Figueiredo. Penna acredita que essas concepções acabariam por
levar o país a alinhamentos automáticos com a União Soviética. Por tudo isso,
ele propõe política externa que promovesse reversão aos padrões de Castelo
Branco, ancorada nos princípios da Segurança e do Desenvolvimento. Para tanto,
o país deveria alinhar-se com os países ocidentais do Primeiro Mundo, com os
quais estaria ligado por interesses culturais, políticos e econômicos. Tal
união garantiria a sobrevivência do Brasil como um país livre, próspero e
democrático (DIGESTO, 1982, abril, p. 120).
José Pedro Galvão de Souza (DIGESTO, 1982, setembro, p. 49) também estava em
desacordo com a política externa do general Figueiredo. Em palestra na
Associação Comercial de São Paulo, analisou que o processo político em curso no
país trazia custosos retrocessos tanto à política interna quanto à externa.
Para ele, o país retrocedera aos anos anteriores a 1964. No plano externo, ele
julgava que o dito pragmatismo responsável fazia recordar o neutralismo
positivo e a política da independência. Portanto, a lógica do raciocínio de
Souza comungava com Penna o suposto de que a política externa era parte do
universo político interno e dele derivava. Sendo assim, propunha a reversão da
política para aquela marcada pela 'fronteira ideológica'.
Manoel Pio Correa Junior (DIGESTO, 1984, março/abril, p.41), invocando o
"saudoso presidente Castelo Branco", argumentava que a política externa afetava
toda a nação e tinha a particular característica de admitir menos oscilações em
sua condução. Neste sentido, criticava os erros da política externa do governo
Figueiredo. Segundo ele, o terceiro-mundismo está baseado na falácia da divisão
arbitrária e perigosa que acaba por arrastar o Brasil para alinhamentos
inconvenientes e descabidos, podendo levar ao conflito norte-sul. Tal divisão
horizontal seria caricata, pois colocava países como Haiti e alguns países
africanos notadamente miseráveis no hemisfério norte, enquanto Brasil,
Argentina, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia (países emergente, em
avançado estágio de industrialização) eram colocados no hemisfério sul. Em sua
opinião já era tempo de posicionar o Brasil corretamente no contexto
internacional, "devolvendo-lhe a sua digna posição, da qual por vezes parece
levado a querer abdicar: uma posição fora do Terceiro Mundo, em companhia dos
países dos mais adiantado grau de civilização".
Tais posições discordantes da Política Externa Universalista não são fatos
isolados. Antes, aparecem e se consolidam em importantes setores da sociedade
brasileira. A dimensão das críticas pode ser comprovada pela necessidade de
reação do governo. Em exposição na Comissão de Relações Exteriores do Senado
(RESENHA, 21.9.1983, p. 41), em 21 de setembro de 1983, Guerreiro defende a
política externa de sua gestão. Para ele, os posicionamentos excludentes
pregados pelos críticos podiam até trazer alguma tranqüilidade para o país no
curto prazo. Entretanto, por serem posições que não refletiam a realidade
brasileira, suas conseqüências seriam desastrosas. Guerreiro argumentava que a
realidade impunha um posicionamento brasileiro no cenário internacional que
contemplasse ao mesmo tempo sua condição de país ocidental e do Terceiro Mundo.
Neste sentido, idéias que pregavam que o Brasil deveria escolher somente umas
das possibilidades deveriam ser combatidas. Ele acreditava que a política
externa não deveria, necessariamente, optar entre uma delas para ganhar
consistência.
Fica explícito, no discurso de Guerreiro, que o consenso do interesse nacional
estava em risco, sofrendo crescentes e contundentes questionamentos como os
apontados acima. Assim, o chanceler continua a defender o Universalismo e busca
demonstrar o prejuízo para o país caso adotássemos qualquer linha política
excludente. Guerreiro acreditava na necessidade de se efetivar a conciliação
das vertentes ocidental e de Terceiro Mundo vividas pelo Brasil.
Uns dirão que somos terceiro-mundistas, que transformamos o que era
condição em postura ideológica. Imaginarão um suposto
desbalanceamento - um desequilíbrio - para melhor poderem aconselhar
aproximações em sentido radicalmente oposto, em busca de uma espécie
de exclusivismo ou forte preferência ocidentalista em nossa política.
Denunciarão supostas simpatias pelo Segundo Mundo, o que não passa,
evidentemente, de simples artifício retórico ou insinuação malévola.
Por outro lado, vindas de outros quadrantes, haverá acusações de que
não aderimos ao que seria o ideal terceiro-mundista. Nem uns, nem
outros, tem razão. Somos o que somos. Um país com identidade própria
e ligações variadas, mas definidas a partir dessa identidade
(RESENHA, 21.9.1983, p. 43).
Guerreiro (RESENHA, 21.9.1983, p. 41) considera que não há qualquer
exclusivismo de contatos ou ideologia que informe a escolha dos parceiros
comerciais do país. "Ao contrário, temos sido rigorosamente fiéis ao postulado
do Universalismo, não apenas por que seja boa doutrina, mas simplesmente porque
a complexidade da cena internacional o exige e porque as necessidades e os
interesses brasileiros o aconselham". Adiante, o chanceler pondera sobre o tipo
de vantagem que o Brasil conseguiria se assumisse alinhamento exclusivista e
excludente que marcadamente privilegiasse os contatos com o Ocidente
desenvolvido. Guerreiro (idem, p. 48) estava convencido de que tal postura não
resolveria automaticamente as questões políticas e as dificuldades econômicas.
Do ponto de vista financeiro, Guerreiro defende que a postura brasileira de
proximidade com o Terceiro Mundo não trazia penalidades ao país.
Comercialmente, idem. Portanto, não haveria vantagem em abandonar os mercados
conquistados em decorrência de dificuldades conjunturais. Em sua concepção,
alinhamentos rígidos aumentam a fragilidade do mais fraco. Portanto, não
deveria o Governo Figueiredo descaracterizar a nação na tentativa de se obter
falsas seguranças baseadas na generosidade alheia. Em socorro de seu argumento,
Guerreiro (idem, p. 48) invocava Ruy Barbosa para ditar a forma de
comportamento correto do Brasil no cenário internacional: o Brasil precisa ser
digno de si para que mereça a amizade e o respeito de seus parceiros
internacionais.
Guerreiro (RESENHA, 1983, p. 50) argumentava que o Brasil deixaria de comerciar
com o mundo inteiro se a ação externa brasileira seguisse o raciocínio de seus
críticos e fosse orientada pelas flutuações de curto prazo, reduzindo-se os
contatos com aqueles países que preterissem produtos brasileiros. Para
comprovar seu ponto, ele demonstrava que as exportações para o Terceiro Mundo
eram responsáveis por mais de um milhão de empregos no Brasil e vinham sendo
pagas regularmente.
Continua o chanceler (idem, p. 56) dizendo que o raciocínio de seus críticos é
um sofisma, pois parte do pressuposto da existência de opções de mercado para o
Brasil. De modo diverso, países sedentos por crescentes superávits comerciais
não podem se dar ao luxo de escolher com quem comerciar. Complementarmente, ele
considerava que o Brasil não poderia possuir relações externas unidimensionais,
somente em busca de dinheiro e mercados, pois a boa política externa deve levar
em consideração preocupações políticas, humanas e de segurança. Portanto,
Guerreiro combatia aqueles que se deixavam levar por slogans ou se iludiam por
visões reducionistas da realidade.
Finalmente, o chanceler aponta os equívocos das propostas alternativas. Havia,
em sua visão, duas principais: uma que defendia as vantagens absolutas do
processo e outra que advogava a não necessidade de rearranjo nas estruturas
internacionais, por imaginar ser esse um fenômeno menor. Para Guerreiro
(RESENHA, 1.8.1983, p. 19) ambas as posturas eram equivocadas, pois diante da
crise que se vivia e da interdependência imposta pela conjuntura, economia e
política se mesclavam de tal modo que passavam muitas vezes por verdadeiramente
indistinguíveis. Por tal motivo, ele defende a adequação dos mecanismos
políticos internacionais, pois "a dinâmica da economia se tornou muito mais
rápida do que a capacidade política de atendê-la e, sobretudo, gerenciá-la
equitativamente" (idem, p. 21).
Finalmente, resta claro o rico e intenso debate acerca da política externa que
se travou na gestão do general João Baptista de Oliveira Figueiredo. A
emergência de descontentes com a política em curso foi fato demonstrado aqui.
Antes de vozes unívocas, o período marcou-se pela composição de grupos
distintos a defenderem idéias opostas. Fatos que ditaram a ruína do consenso na
PEB.
Conclusão
Idéias preestabelecidas sobre períodos históricos pouco estudados não são boas
guias para o analista. No mínimo, exigem cuidados, olhar desconfiado. O
Universalismo do General Figueiredo é considerado uma continuidade do
'Pragmatismo Responsável' de Geisel. Mas as ações da diplomacia gerenciada pelo
chanceler Guerreiro até hoje receberam pouca atenção (VIZENTINI, 1998, p. 271).
Tal carência instiga dúvidas. Assim, embora tenham sido identificados elementos
de continuidade nessa política, especificidades puderam ser observadas mediante
outras variáveis da formulação da política externa do período (SILVA, 1995).
Pela coleta de fontes que expressavam as idéias defendidas por diferentes
atores influentes na formulação e execução da política externa, demonstrou-se
que o Universalismo não foi o único projeto de inserção internacional
brasileiro a ganhar voz na gestão do último general presidente do ciclo militar
iniciado no golpe militar de 1964. Assim, apesar da existência de um chamamento
ao consenso para a fixação do Interesse Nacional, a conjuntura impediu a
existência de somente uma matriz propositiva para a inserção externa da nação.
Por meio das críticas aos pressupostos do Universalismo, evidenciou-se o
dissenso no interior das estruturas burocráticas o Estado brasileiro.
Ao se proceder tal análise, firmou-se a pertinência da utilização de teoria que
concebe o Estado como permeável ao jogo político, e não como estrutura
monolítica que age verticalmente impondo ações no corpo social (PINHEIRO,
1994). Portanto, a burocracia estatal é analisada em sua complexidade, tomada
como estrutura que abriga em seu interior grupos de pressão com múltiplas
idéias e interesses na luta pelo poder. Neste sentido, ressaltou-se o fato de o
período de Abertura política ter contribuído para redimensionar a autonomia do
Itamaraty em relação ao aparelho do Estado através do questionamento de seu
raio de ação por setores descontentes no interior da própria burocracia.
Para que se aclarassem as causas da emergência de vozes descontentes com as
políticas oficiais, pode-se apontar a conjuntura crítica vivida pelo governo
Figueiredo que levou ao esgotamento do modelo de desenvolvimento por
substituição de importações, baseado em forte atuação 'empresarial' do Estado e
financiado por capitais externos. Outro limite foi dado pela conjuntura
econômica internacional que causou fortes constrangimentos à economia
brasileira. Conjugou-se a tais fatos adversos do campo econômico, o processo de
Abertura política conduzido pelo governo que também implicava redistribuição de
poderes na sociedade. Tal conjuntura tornou possível o dissenso, tanto por
parte da oposição, como por atores que anteriormente compunham a aliança
legitimadora do governo militar.
Ao se retratar a economia política da redemocratização e seu impacto para a
estrutura governamental, evidenciou-se a existência do debate entre diferentes
projetos para a melhor inserção internacional do Brasil. Tais concepções eram
decorrentes da percepção que os diferentes grupos possuíam da conjuntura e do
papel que o país deveria assumir no sistema internacional. Assim, foram
vencedores aqueles setores do Itamaraty que propugnavam pela necessidade de o
Brasil posicionar-se no debate norte-sul assumindo os reclames dos países sub e
em desenvolvimento. O discurso dos executores da política externa de Figueiredo
notabilizou-se por apontar as injustiças do sistema internacional e as mazelas
vividas pelos países que viam seus projetos serem travados pela impossibilidade
de aquisição de insumos ao desenvolvimento. Culpa era atribuída ao
comportamento autoritário dos países desenvolvidos no sistema internacional.
Por isso, o Itamaraty defendia que novas instituições deveriam ser criadas no
intuito de se desobstruírem os canais de negociação entre países do norte e do
sul. Neste sentido, o governo brasileiro procurou utilizar o tema da abertura
política interna para, no âmbito externo, reclamar maior democracia para a
comunidade internacional.
O Universalismo ainda abrigava a concepção do Brasil como país vivendo entre
dois mundos. Possuía características do Primeiro e do Terceiro Mundo. Por isso,
Guerreiro sempre defendia que a postura do Brasil no mundo não era questão de
escolha, mas imposta pela especificidade do país. Mas, a aproximação com o
Terceiro Mundo não deveria significar o abandono ou o desprezo em relação às
relações com o Primeiro Mundo. O chanceler justificava a ampliação dos contatos
diplomáticos pela necessidade de novos mercados para os produtos brasileiros,
mas procurava revestir tal argumento com ancestrais princípios da diplomacia
brasileira, como aquele que defendia que nem tudo se resumia à economia.
No entanto, apesar de ser a política oficial, o Universalismo não se
estabeleceu em bases consensuais. Em contraste com tal matriz globalizante que
pregava postura de maior autonomia em relação aos centros de poder do norte
(marcadamente em relação aos norte-americanos), estabeleceu-se um grupo de
atores que propunham novos rumos para as relações internacionais do país.
Acusava-se o Universalismo de ser 'terceiromundista', postura que havia
transformado condição real em posicionamento ideológico para a ação externa do
país. Ainda, defendia-se que a aproximação com os países do chamado Segundo
Mundo não traria ganhos efetivos para o país.
Roberto de Oliveira Campos foi um expoente dos setores críticos ao
Universalismo. Suas palavras deixavam claro o descontentamento com as opções da
PEB de Figueiredo. Assim, seu receituário indicava a reversão da postura
terceiromundista, arredia às influências inevitáveis dos centros de poder
ocidental, rumo à constituição de quadro de hierarquização dos contatos
diplomáticos do país. A lógica proposta ditava a constituição de quadro de
relações que otimizassem a performance, retirando-se todo o enlevo político
reivindicatório existente no Universalismo.
Meira Penna, ex-embaixador brasileiro na Polônia, tecia ácidas críticas ao
Universalismo. Ele considerava inadmissível a aproximação com países cuja
ideologia não era compatível com a história ocidental brasileira. Pio Corrêa
Junior e Galvão de Souza também ajudavam a engrossar o coro dos descontentes.
Suas falas combatiam os pressupostos que pregavam a busca indiscriminada de
mercados pelo mundo afora. Antes, pregavam-se lógicas seletivas, como os
'círculos concêntricos', as opções ideológicas e 'parcerias seletivas' como
guias da PEB.
De resto, observe-se que tais críticas causaram tanto incômodo ao governo que o
próprio ministro das Relações Exteriores veio a público defender as ações que
vinham sendo tomadas em sua gestão. Fato invulgar nos regimes militares.