As políticas neoliberais e a crise na América do Sul
No final dos anos 80, considerada a "década perdida" para o desenvolvimento, a
situação não só do Brasil como de toda a América Latina afigurava-se muito
difícil e sombria. Solução viável não se percebia para o problema da dívida
externa, com o qual os desinvestimentos conjugavam-se, devido à crescente fuga
de capitais tanto estrangeiros quanto nacionais, carreando a estagnação
econômica, em meio de incontrolável processo inflacionário. Essa crise, que
começava a afetar seriamente os interesses dos Estados Unidos ao reduzir na
América Latina a capacidade de importar e atender ao serviço da dívida externa,
levou o Institute for International Economics1 a promover uma conferência,
para a qual foram convidados economistas de oito países latino-americanos '
Argentina, Brasil, Chile, México, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia, com a
finalidade de formular um diagnóstico e sugerir medidas de ajustamento para sua
superação. Naquela oportunidade, o economista norte-americano John Williamson
apresentou um documento, que continha dez propostas de reforma econômica, sobre
as quais havia amplo consenso em Washington, tanto entre os membros do
Congresso e da Administração quanto entre os tecnocratas das instituições
financeiras internacionais, agências econômicas do Governo norte-americano,
Federal Reserve Board e
think tanks2 .
As propostas, visando à estabilização monetária e ao pleno restabelecimento
das leis de mercado, consistiam em: 1 ' disciplina fiscal; 2 ' mudanças das
prioridades no gasto público; 3 ' reforma tributária; 4 ' taxas de juros
positivas; 5 ' taxas de câmbio de acordo com as lei do mercado; 6 '
liberalização do comércio; 7 ' fim das restrições aos investimentos
estrangeiros; 8 ' privatização das empresas estatais; 9 ' desregulamentação das
atividades econômicas; 10 ' garantia dos direitos de propriedade.3
A adoção de tais medidas, como a privatização das empresas estatais, a
desregulamentação da economia e a liberalização unilateral do comércio exterior
pelos países da América Latina constituiria condição fundamental para que
pudessem renegociar a dívida externa e receber qualquer recurso das agências
financeiras internacionais. Assim eles passariam a depender sempre de
financiamentos do BID ou do BIRD para a execução de obras públicas, tendo de
sujeitar suas respectivas políticas econômicas e decisões de investimentos à
fiscalização internacional, por meio de condicionalidades, que ameaçavam
atingir igualmente a política de defesa, com a fixação de limites para os
gastos militares. Ao mesmo tempo, a liberalização do comércio exterior,
promovida unilateralmente pelos países latino-americanos, permitiria que os
Estados Unidos, sem mais privilegiar os interesses do setor bancário na questão
da dívida externa, atendessem à pressão dos exportadores norte-americanos e
transformassem em superávit seu déficit comercial com a região.
O receituário, celebrizado como o Washington Consensus, resumia-se na
recomendação de que o Estado se retirasse da economia, quer como empresário
quer como regulador das transações domésticas e internacionais, a fim de que
toda a América Latina se submetesse às forças do mercado, o que viabilizaria
ulteriormente a formação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), do
Canadá à Terra do Fogo, tal como proposta pelo Presidente George Bush, com o
lançamento em l990 de The Enterprise for the Americas Initiative.Esta
iniciativa, no contexto das dificuldades para reduzir o desequilíbrio de sua
balança comercial por meio da abertura de outros mercados, possibilitaria aos
Estados Unidos aumentar ainda mais exportações de mercadorias para os países da
América Latina sem a necessidade de negociar com seus governos e fazer outras
concessões, dado que com a hegemonia sobre a ALCA obteriam o máximo de
liberdade para movimentar bens e fatores de produção (exceto força trabalho),
restringindo o acesso ao seu próprio mercado interno, quando lhes conviesse,
sob os mais variados pretextos, como competição desleal, riscos sanitários,
segurança nacional etc.4 Também, mais facilmente eles poderiam enfrentar a
União Européia, cujo mercado comum se fechara, bem como o Japão, e também
compensar seu déficit comercial com outras regiões. A estabilização monetária e
a retomada do crescimento econômico na América Latina tornavam-se sem dúvida
necessárias à consecução de tais objetivos.
Essas medidas, consubstanciadas noWashington Consensus, não eram novas. Eram
liberais, ortodoxas, similares às que foram tentadas pelos governos militares,
sobretudo na Argentina, Uruguai e Chile. Mas, ao fim dos anos 90, a situação na
América do Sul afigurava-se ainda mais difícil e sombria do que ao fim da
década de 1980. Na Argentina, durante seu primeiro mandato como presidente,
Carlos Menem (1989-2000) conseguira controlar a inflação e promover certo
crescimento econômico, graças ao câmbio atrelado ao dólar (currency board) e ao
ingresso de recursos externos, possibilitado pela privatização das empresas
estatais e a brutal desnacionalização da economia. Ao fim do seu governo,
porém, a situação financeira da Argentina já se configurava extremamente
crítica. Com uma dívida externa da ordem de US$ 144,6 bilhões, que equivalia a
aproximadamente 50% do seu PIB, estimado em US$ 271, 9 bilhões5 (1998), ela
terminou o ano de 1999 com um déficit na conta corrente do balanço de
pagamentos da ordem de US$ 12,5 bilhões e um déficit na balança comercial da
ordem de US$ 2,17 bilhões, enquanto o superávit no comércio intra-regional foi
da ordem de US$ 2,45 bilhões6 . O progressivo e rápido agravamento dos
"déficits-gêmeos" ' o déficit nas contas externas (balança comercial e de
serviços) e o déficit nas contas internas do governo ' que tinham de ser
obrigatoriamente cobertos por importações de capital, começou a gerar
desconfiança nos investidores, tanto argentinos como estrangeiros, levando-os a
suspender os investimentos diretos, em portfólio ou empréstimos. E, em tais
circunstâncias, a expectativa de um default nos pagamentos externos, ou seja,
que a Argentina deixasse de cumprir seus compromissos externos (dívida:
amortização e/ou juros) ' tornou-se real, desde 1998, o que aprofundou a
desconfiança e estabeleceu o círculo vicioso da especulação internacional,
sobretudo após a crise que atingiu o Brasil no início de 1999. Em 1998,
Argentina negociara um acordo com o FMI, de modo que lhe permitisse reduzir o
déficit fiscal, mas a prolongada recessão em 1999 impediu o cumprimento da meta
estabelecida. Assim, ao suceder a Menem na chefia do governo, Fernando de la
Rúa teve de promover aumento de impostos e cortes orçamentários, visando a
reduzir o déficit fiscal, que alcançara 2,5% do PIB em 1999, e recebeu do FMI
um empréstimo stand-by da ordem de US$ 7,4 bilhões para evitar o agravamento da
crise. Mas a sobre-valorização do peso, atrelado inflexivelmente ao dólar pela
Lei da Conversibilidade, tornara as exportações da Argentina muito caras,
dificultando o equilíbrio e, mais ainda, um superávit na balança comercial,
apesar de ela ter sido até então o país que mais se beneficiara com a
implantação do Mercosul, o único a obter saldo positivo na balança comercial
com todos os sócios, desde o estabelecimento da união aduaneira. Entre 1995 e
2000 (nove meses) a Argentina acumulara na sua balança comercial um superávit
de US$ 5,1 bilhões, com o Brasil, de US$ 1,7 bilhão, com o Paraguai, e de US$
2,2 bilhões, com o Uruguai, totalizando um saldo positivo acumulado de cerca de
US$ 10 bilhões, no período desses cinco anos7 , enquanto o déficit no
intercâmbio com os Estados Unidos totalizou US$ 16,6 bilhões, maior do que o
total do saldo negativo de balança comercial, acumulado no mesmo período, da
ordem de US$ 11,1 bilhões8 . A crise financeira internacional, que começou na
Ásia, em 1997, atingiu a Rússia, em 1998, alcançou o Brasil, em 1999, agravou
os problemas estruturais da Argentina, detonando as lutas sociais e acarretando
a instabilidade política, com a queda do governo do presidente Fernando de la
Rúa, em 22 de dezembro de 2002. À Argentina não restou alternativa senão o
default, i. e., a suspensão do pagamento da dívida externa que saltou de US$
132 bilhões para US$ 141 bilhões, no início de 2002.
A situação econômica e financeira, ao fim dos anos 90, configurou-se igualmente
crítica no Brasil, apesar de haver construído um dos dez maiores parques
industriais do mundo, eficiente na média, e diversificado suas exportações,
compostas em mais de 50% por manufaturas, produtos de tecnologia avançada, que
suplantaram o açúcar, café, cacau e outras commodities, com escassa elaboração.
O governo Fernando Henrique Cardoso, mediante o Plano Real, derrubara a
inflação para um único dígito anual, mas não de forma rápida o suficiente para
evitar substancial alta da taxa de câmbio real durante sua fase de transição, o
que tornou os produtos brasileiros mais caros, em termos internacionais,
concorrendo, juntamente com a rebaixa de suas tarifas alfandegárias e as
barreiras não-tarifárias mantidas pelos Estados Unidos, para enormes saldos
negativos. O Brasil, cujo superávit comercial fora o terceiro maior do mundo
nos anos 80 (embora muito abaixo do Japão e da Alemanha), passara a acumular,
na balança comercial, saldos negativos que, entre 1996 e 2000, alcançaram o
montante de US$ 38,1 bilhões, ao mesmo tempo em que sua dívida externa aumentou
cerca de 100%, saltando de US$ 123,4 bilhões, em 1990, para US$ 235 bilhões, em
2000. E esse endividamento conjugado com a perda de competitividade e o
desequilíbrio da balança comercial produziram um déficit na conta corrente do
balanço de pagamentos que, em 1999, representou cerca 60% das exportações,
abalando a confiança dos investidores, depois da crise na Ásia, em 1997, e da
moratória da Rússia, em 1998. O ataque especulativo que, em janeiro de 1999,
desvalorizou o real e acarretou a perda de dois terços das reservas
internacionais, no transcurso de poucos meses, desgastou profundamente o
governo de Fernando Henrique Cardoso, logo no início do seu segundo mandato
(1999-2003), conquanto ele houvesse promovido um ajuste econômico, que reduzira
o déficit fiscal de mais de 10% do PIB, em 1999, para 4% em 2000. Com um PIB,
da ordem de US$ 1 trilhão (calculado pela paridade do poder de compra9 ),
superior ao do México (US$ 865,5 bilhões estimado em 199910 ) e do Canadá (US$
722,3 bilhões), quase duas vezes maior do que o da Rússia (US$ 620,3 bilhões) e
quase tão grande quanto o da França (US$ 1,3 trilhão estimado em 1999), Grã-
Bretanha (US$ 1,3 trilhão estimado em 1999) e Itália (US$ 1,2 trilhão)11, o
Brasil continuava, não obstante, como um dos países com maior desigualdade na
distribuição de renda, em que a indigência e a pobreza de amplas camadas
sociais coexistiam com a ostentação da riqueza e o consumo supérfluo de alguns
poucos.
Em 2002, a insolvência que levou a Argentina ao default, configura uma real
ameaça para o Brasil, caso o FMI e a comunidade financeira internacional não
reduzam para 10% os juros pagos pelos empréstimos internacionais, atualmente,
em torno de 25%. Segundo o que o mega investidor George Soros declarou em
palestra na London School of Economics and Political Science (LSE), a moratória
do Brasil causaria mais dano a outros países da América do Sul que ficariam
fora do mercado de capitais, do que ao próprio Brasil, que tem superávit
primário, passou a obter superávit na balança comercial, em 2001, e poderia,
por isso, crescer razoavelmente bem depois da reorganização12 . Nessa mesma
palestra, Soros criticou várias vezes o sistema financeiro internacional,
afirmando que, "se um país como o Brasil, que fez todas as coisas certas, está
nesta situação, então a globalização falhou". E, após acentuar que "o Brasil
seguiu o consenso de Washington, mas isso não significou crescimento", disse
que, quando o sistema não está funcionando bem, é preciso modificá-lo". A
eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência do Brasil indica que o
povo deseja essa mudança. E, como também George Soros observou, é "inaceitável"
que "a democracia somente é boa, desde que o eleito seja o candidato dos
mercados"13 .
Todos os demais países na América do Sul igualmente se defrontam, em maior ou
menor grau, com uma crise similar. Com uma população de 3,3 milhões, o Uruguai
praticamente não se desenvolvera. O PIB, que subira de US$ 1,9 bilhão, em 1997,
para US$ 2,0 bilhões, em 1998, decaiu para US$ 1,9 bilhão, em 1999. O déficit
na balança de pagamentos da ordem de US$ 580 milhões subiu para US$ 605
milhões. O déficit na balança comercial aumentou de US$ 1 bilhão, em 1998, para
US$ 1,1 bilhão, em 1999, e US$ 1,1 bilhão, em 2000, inferior ao saldo negativo
acumulado no intercâmbio com os Estados Unidos, que alcançou US$ 1,4 bilhão,
entre 1995 e 200014 . No Paraguai, a economia, estagnada desde o término da
construção de Itaipu (1982), entrara em franca retração, a partir de 1996, o
PIB caiu 0,6%, em 1998, e 0,1%, em 1999, e os problemas sociais agravaram-se. O
aguçamento da exclusão social, a extrema pobreza, alcançando pelo menos um
terço dos camponeses, o aumento do desemprego, saltando de 6%, em 1995, para
15%, em 1999, e a deterioração das condições de vida das classes médias
tornavam cada vez mais possível uma convulsão social. E, em 5 de junho de 2002,
quando cerca de 3.000 camponeses marcharam sobre Assunção, o presidente Luis
González Macchi, submetido a processo e diante da ameaça de greve geral por
trinta dias, cedeu e derrogou a lei 1.615, que autorizava a privatização da
companhia telefônica Copasco, a empresa de água potável Essap e a ferroviária
estatal. Oito dias depois, em 14 de junho, a agitação recrudesceu no Peru, onde
o povo se levantou contra as privatizações das empresas elétricas Egasa e
Egesur, programadas pelo presidente Alejandro Toledo, e o protesto paralisou
vários departamentos, sobretudo nas cidades de Arequipa, a segunda do país, e
Cusco, estendendo-se até Puno, fronteira com Bolívia, e Tacna, vizinha do
Chile.
A situação econômico-social do Chile, apresentado como exemplo do
neoliberalismo, que o ditador Augusto Pinochet (1973-1989) implantou, em meio
de brutal e sangrenta repressão, não era muito diferente da que se configurava
nos demais países da região. Com uma população de 15,3 milhões de habitantes e
um PIB da ordem de US$153,1 bilhões (estimado em 2000 pela paridade do poder de
compra) ou US$ 77,0 bilhões (1999, segundo o método usado na ALADI), sua dívida
externa duplicara nos anos 90, saltando de US$ 18,5 bilhões (1990) para US$ 39
bilhões (2000), 9% de sua força de trabalho estava desempregada (dezembro de
2000), quase um milhão de pessoas viviam abaixo do nível de pobreza e cerca de
700.000 famílias estavam endividadas, como quase toda a classe média15 . Também
na Bolívia, conquanto sua economia crescesse a uma taxa média de 3,9%, entre
1990 e 1998, e a inflação de 7.000%, em 1985, para 3%, em 1999, conforme o
próprio presidente Hugo Banzer deplorou, a estabilidade econômica ao longo de
quinze anos não contribuiu para diminuir os índices de pobreza em que mais da
metade da população boliviana (63%), especialmente a de origem indígena, vivia
no ano 2000. A deterioração das condições de vida acelerou-se desde 1985 e,
durante os quinze anos em que a Bolívia se apresentou como modelo de livre
mercado, atingiu principalmente os camponeses e reduziu à miséria mais de 80%
da população na área rural. A questão agrária, que a revolução de 1952 buscara
equacionar mediante a repartição dos latifúndios e distribuição de terras para
o trabalhadores rurais16 , tornou-se outra vez grave fator de tensões sociais e
os conflitos sociais irromperam. O aumento das tarifas de água na cidade de
Cochabamba, em conseqüência de contrato com uma empresa estrangeira,
desencadeou em 7 e 8 de abril de 2000 um levante popular, que se estendeu aos
cocaleros (produtores de coca), na região de Chapare, e a outros camponeses e
trabalhadores em diferentes cidades. A Confederación Sindical Única de
Trabajadores Campesinos de Bolivia (CSUTCB) iniciou então o bloqueio das
estradas e, ante a ameaça de convulsão social, em que não apenas os camponeses,
mas até estudantes e policiais reclamavam melhoria nas condições de vida17 , o
presidente Hugo Banzer decretou o estado de sítio por noventa dias,
intensificando a repressão, que resultou na morte de 6 pessoas, em 74 feridos e
92 presos. A agitação prosseguiu por vários dias e, em 20 de abril, Banzer
levantou o estado de sítio, após firmar convênios com os camponeses,
intermediados pela Igreja Católica, a Defensoría del Pueblo e a Asemblea
Permanente de Derechos Humanos de Bolivia, além de prometer a reativação da
economia e pedir perdão pelos pobres que um sistema social excludente e
discriminatório produzia. As tensões, porém, voltaram a agravar-se meses
depois, quando se anunciou a construção de três bases militares na região de
Chapare, com o suporte dos Estados Unidos no marco da luta antidrogas, e outras
manifestações de protesto eclodiram, acarretando o bloqueio das estradas e
violentos choques entre tropas do exército e camponeses, que se opunham à
erradicação dos cultivos de coca e à Ley de Aguas por impedir o funcionamento
das redes a seu cargo. A renúncia de Banzer configurou-se como a única saída
para apaziguar o país18 .
A situação do Equador, outro laboratório para a experiência das políticas
neoliberais, configurou-se ainda mais difícil do que a da Bolívia. Em março de
1999, ao aprofundar-se a crise econômica e social, o presidente Jamil Mahuad
excogitou o fechamento do Congresso, como o presidente Alberto Fujimori fizera
no Peru, e só não consumou sua intenção, porque o embaixador norte-americano
Leslie Alexander o advertiu de que Washington se oporia a qualquer ruptura da
ordem democrática19 . O próprio Bill Clinton exortou-o, em carta, a "maintain
Ecuador's unwavering commitment to democracy", prometendo apoiar o Equador em
suas negociações com o FMI. Porém, quatro meses depois, em 5 de julho de 1999,
Mahuad decretou o estado de emergência e mobilizou as forças armadas para
reprimir a agitação social ' greves, bloqueio das principais estradas '
desencadeada pelo aumento de 13% no preço dos combustíveis. Essa onda de
protestos, promovida inicialmente pelos sindicatos de transporte público,
avolumou-se, com a adesão dos produtores de banana, principal produto de
exportação do país, e o fechamento das estradas, acompanhado pela paralisação
das emissoras de rádio e televisão, acarretou a paralisação do comércio e da
indústria, bem como o desabastecimento das cidades. Ao presidente Jamil Mahuad
não restou alternativa senão derrogar o aumento do preço dos combustíveis20 .
Mas a inquietação social não cessou. Cerca de 10.000 indígenas desceram da
serra e marcharam sobre a cidade de Quito, reclamando maior assistência à saúde
e à educação para as suas comunidades. E os conflitos sociais recrudesceram, na
medida em que a economia do Equador, onde também cerca de 70% da população
viviam na pobreza extrema21 , cada vez mais se deteriorava, havendo seu PIB, da
ordem de US$ 19,2 bilhões, em 1998, caído cerca de 12%, em 1999, em meio a uma
inflação de 60,7%, a mais alta dos anos 9022 . Em 6 de janeiro de 2000, o
presidente Jamil Mahuad, que pretendia promover a dolarização da economia,
assessorado por economistas argentinos, entre os quais Domingo Cavallo23 ,
decretou outra vez o estado de emergência, suspendendo os direitos
constitucionais, e mobilizou o exército para controlar a ordem diante de
sucessivas manifestações de protesto, em que os sindicatos, os partidos
políticos de oposição e a Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador
(CONAIE), sob a direção de Antônio Vargas, exigiam sua renúncia. Poucos dias
depois, em 10 de janeiro, o Banco Central do Equador aprovou o plano de
dolarização e, no dia 15, Mahuad apresentou-se ao Congresso, para defender as
leis necessárias à sua implementação e vigência. Mas o estado de emergência não
pôde impedir que a insurreição dos indígenas (4,2 milhões em uma população de
12 milhões) recrescesse, com a adesão dos sindicatos e partidos políticos, que
exigiam a renúncia de Mahuad, dos deputados e dos membros do Poder Judiciário.
E, em 21 de janeiro, um grupo de coronéis levantou o Exército, em apoio às
comunidades indígenas, e Mahuad, informado de que não tinha mais condições de
segurança no Palácio de Carondelet, refugiou-se em uma base militar, após
declarar que não renunciaria. Os indígenas e os militares ocuparam os edifícios
públicos, a sede dos três poderes em Quito, e Antonio Vargas proclamou a
dissolução do Congresso, bem como da Suprema Corte, anunciou a remoção de
Mahuad da presidência do Equador e a formação de um parlamento popular. Pouco
mais tarde, foi constituída uma Junta de Salvação Nacional, que foi,
entretanto, dissolvida, após intensas negociações com a interveniência dos
Estados Unidos, permitindo que o Congresso, em 22 de janeiro, se reunisse em
Guayaquil e reconhecesse o vice-presidente Gustavo Noboa como sucessor
constitucional de Mahuad. Noboa, ao assumir o governo, tratou de promover as
privatizações, da eletricidade aos bancos, e, em março de 2000, tornou o dólar
a moeda nacional do Equador, convertido em "new Panama", país que havia anos
adotara o dólar como moeda corrente e era considerado como de facto o 51°
Estado norte-americano24 .
Contudo, em depoimento perante o Caucus on International Narcotics Control do
Senado norte-americano, o general Charles E. Wilhelm, comandante-em-chefe do
Southern Command dos Estados Unidos, reconheceu que, no Equador, como em outras
nações situadas na sua área de responsabilidade, a América do Sul, "democracy
and free market reforms are not delivering tangible results to the people".
Muitas nações estavam pior economicamente do que antes da restauração da
democracia, conforme ele afirmou, perguntando: "Can democracy survive without
an economic system that produces adequate subsistence and services for the
majority of its citizens?"25 . De fato, a situação não melhorou no Equador,
cujas reservas monetárias continuaram fracas e instáveis, uma vez que as
importações cresceram, sem que houvesse correspondente aumento das exportações,
e a balança comercial tornou-se negativa, agravando o déficit do balanço de
pagamento e levando o país à anarquia monetária, em conseqüência da dura
problemática da dolarização, e à desordem orçamentária. A dolarização da
economia não resolvera, antes agravara seus problemas26 . E os indígenas, em
fevereiro de 2002, anunciaram que realizariam novas manifestações de massa, em
Quito, contra as privatizações promovidas pelo governo de Gustavo Noboa e a fim
de protestar contra o não cumprimento do acordo que pôs fim ao levante, no
início de 200127 .
A Venezuela, por sua vez, abismara-se em uma crise econômica, social e
política, desde 1989, quando, apenas alguns dias após a ascensão de Carlos
Andrés Pérez, da Acción Democrática, à presidência da Venezuela, o povo saiu às
ruas para expressar repúdio ao pacote econômico, um duro plano de ajuste, nos
moldes exigidos pelo FMI, que ele pretendeu aplicar. A violenta série de
distúrbios e saques culminou com quase 300 mortos e o ambiente de
descontentamento recresceu de tal modo que levou o tenente-coronel Hugo Chávez,
comandando cerca de 300 efetivos, a tentar um golpe de Estado, em 3 de
fevereiro de 1992. O golpe fracassou, mas Chávez tornou-se tão popular que se
elegeu legal e legitimamente presidente da Venezuela, em 1998, à frente do
Movimiento V República (MVR), com a promessa de promover "una revolución
pacífica y democrática". Chávez, porém, não teve condições de conter a crise
econômica e social, apesar de a Venezuela ter sido, juntamente com o Equador,
um dos dois únicos países da América do Sul a ter, na segunda metade dos anos
90, saldo positivo na sua balança comercial, devido às exportações de petróleo
para os Estados Unidos. A fuga de capitais e os prejuízos, avaliados entre US$
15 e US$ 20 bilhões, causados pelas enchentes e desabamentos que ocorreram em
fins de 1999 deterioraram a situação na Venezuela, que se tornou bastante
instável, em fins de 2001, e concorreu para desestabilizar o governo. E, dada a
sobrevalorização da moeda venezuelana ' o bolívar, Hugo Chávez não teve
alternativa, senão liberar o câmbio, no início de 2002, abandonando o sistema
de bandas, a fim de estancar a sangria nas reservas internacionais, que caíram
de US$ 16,1 bilhões de dólares, em janeiro de 2001, para US$ 12,2 bilhões, em
dezembro, a maior queda em uma década, o que reduziu as reservas do Banco
Central em 23,7%. Cerca de US$ 700 milhões evadiram-se da Venezuela somente na
primeira semana de fevereiro de 2002. A redução das reservas internacionais,
acompanhada pela queda dos preços do petróleo, deixou-lhe pouco espaço de
manobra. E, em meio a sua pior crise política, Hugo Chávez teve de fazer
completa revisão no orçamento de US$ 34,34 bilhões, com a redução de gastos em
7% e corte de dívidas do governo pela metade, um ajuste econômico tão forte que
derrubou abruptamente o valor do bolívar (19% em relação ao dólar), e
transformou o centro de Caracas em um cenário similar ao de Buenos Aires, onde
as manifestações de massa (cazerolazos) derrubaram o governo da dupla Fernando
de la Rúa-Domingos Cavallo (19 a 21 de dezembro de 2001). De 11 para 12 de
abril, após esses acontecimentos, os generais José Vicente Rangel, Ministro da
Defesa, Manuel Rosendo, chefe da segurança do Palácio Miraflores, e Lucas
Rincón Romero, chefe do Estado Maior do Exército da Venezuela, prenderam Chávez
e anunciaram que ele renunciara à presidência da República. Pedro Carmona
Estanca, presidente da Fedecámaras, entidade empresarial, assumiu o governo da
Venezuela, mas o golpe de estado, encorajado pelos Estados Unidos, fracassou,
em virtude da oposição popular e do repúdio dos demais países da América do
Sul.
Na Colômbia, mergulhada em uma cruenta guerra civil havia mais de 40 anos, os
guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC) e do
Exército do Povo (EP) controlavam, desde 1997 pelo menos, mais de 622 das 1.071
municipalidades, ou seja, quase a metade do território nacional. A escalada de
violência no interior, promovida pelos pára-militares, as FARC-EP e o exército,
compeliu mais de 700.000 pessoas a abandonar seus lares, nos últimos anos,
elevando para mais de 1,5 milhão o total de refugiados, número muito superior
ao de albaneses étnicos que fugiram de Kosovo e o terceiro do mundo, depois dos
refugiados do Sudão e de Angola. Legiões de camponeses ' entre os quais quase
um milhão de mulheres e crianças ' empobrecidos, formaram cinturões de miséria
em torno de Bogotá e outras grandes cidades, ao tempo em que a Colômbia, em
1998, debatia-se na pior recessão de sua história, que reduziu seu PIB, da
ordem de US$ 98,0 bilhões, em 1998, para US$ 94,2, em 1999, e US$ 84,8 bilhões,
em 2001. Sua dívida externa, da ordem de US$ 17,8 bilhões, em 1990, saltou para
US$ 38,9 bilhões, no início de 2002, o que representava quase 50% do seu PIB,
mesmo que ele atingisse, no mesmo ano o montante US$ 89,6 bilhões. "El Estado
colombiano está totalmente quebrado, difícilmente tiene con qué pagar los
sueldos y el déficit fiscal será el 31 de diciembre del 4,1% sobre el producto
bruto interno. La Argentina tenía menos cuando estalló la gran crisis" '
declarou o ministro do Interior, Fernando Londoño, em 9 de outubro de 2002,
quando o déficit fiscal já ultrapassava o montante de US$ 3,2 bilhões28 . Por
sua vez, o Ministro da Fazenda, Roberto Junguito, advertiu que, se o governo
financia o gasto público com uma emissão milionária por parte do Banco
República "la inflación dispararía", poderia levar a Colômbia a "una
argentinización" da situação econômica. E a perspectiva era ainda mais sombria,
devido ao fracasso do processo de paz, à crescente intervenção militar dos
Estados Unidos e ao fato de que Álvaro Uribe, logo após assumir a presidência,
decretara (agosto de 2002) o estado de exceção, a fim de deter a violência, e
anunciou um plano para recrutar um milhão de civis como informantes do
exército, medidas que podiam implicar ameaça aos direitos humanos, restrição da
oposição política e o estabelecimento de um estado totalitário na Colômbia.
Essa crise, que ao fim dos anos 90 avassalava todos os países da América do
Sul, não começou, decerto, com a execução do programa neoliberal do Consenso de
Washington. Ela pré-existia. Mas as condições econômicas, sociais e políticas,
que nos anos 60 e 70 haviam gerado os movimentos de insurgência, agravaram-se,
ao fim de uma década de políticas econômicas neoliberais, executadas por
governos democraticamente eleitos. A dívida externa continuou como um problema
para toda a América Latina. No fim do ano 2001, segundo o informe "América
Latina y el Caribe: Cómo Cierra la Economía en 2001", elaborado pela Secretaria
Permanente do Sistema Econômico Latino-americano (SELA), ela alcançara a
"alarmante" cifra de US$ 784 bilhões, ou seja, cerca de US$ 30 bilhões a mais
que em 2000, e sua tendência era crescer, aproximar-se dos US$ 800 bilhões,
dependendo do montante com que encerrasse a dívida da Argentina29 . Por outro
lado, ao longo dos anos 90, quase todos os países da América do Sul (a
Argentina, desde 1992, e o Brasil, a partir de 1994) passaram a ter déficit na
sua balança comercial30 , em conseqüência, sobretudo, da desregulamentação da
economia e da abertura unilateral dos mercados, intensificada com os acordos
resultantes da Rodada Uruguai do GATT, sem que barreiras não-tarifárias
(quotas, técnicas, sanitárias etc.) fossem instituídas, dificultando as
importações, como faziam os Estados Unidos e outros integrantes da OCDE
(Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento). Em tais
circunstâncias, tornou-se cada vez mais difícil para os países da América do
Sul atender ao serviço da dívida externa, até então feito, em parte, com o
saldo positivo da balança comercial, situação agravada também pelas remessas de
lucros, royalties e transferências clandestinas, que recresceram, em
conseqüência da desnacionalização das empresas, sobretudo estatais, ao passarem
para o controle de capitais estrangeiros.
Notas
1 O Institute for International Economics fora criado em l981, com recursos do
German Marshall Funds e mantido com doações da Ford Foundation, William and
Flora Hewlett Foundation e Alfred P. Sloan Foundation.
2 Sobre o tema vide WILLIAMSON, John. The Progress of Policy Reform in Latin
America,Washington, DC: Institute for International Economics, January, l990,
p. 9-10.
3 Id. Ibid., p. 10-33.
4 PINHEIRO GUIMARÃES, Samuel. Market Access in ALCA, paper apresentado durante
a mesa-redonda do Fifth Colloquium of the Project IDB/ECLAC, Support to the
Process of Hemispheric Trade Liberalization, realizado em 28/29 de setembro de
1992 pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e pela Comissão Econômica das
Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (ECLAC). Manuscrito.
5 Dólares de 1995. De acordo com o INDEC, o PIB da Argentina, em 1998, era da
ordem de US$ 298,3 bilhões, calculado a preços de mercado. http://
www.indec.mecon.ar/default.htm. Pelo método de purchasing power parity, usado
pelo Banco Mundial, era de US$ 374 bilhões.
6 http://www.aladi.org/inicio.htm.Vide também http://www.indec.mecon.ar/
default.htm.
7 Fonte: ALADI ' http://www.aladi.org./inicio.htm.
8 Ibid. No mesmo período, a Argentina teve um déficit comercial que alcançou o
montante de US$ 10,6 bilhões com os países do NAFTA, ao qual Domingo Cavallo
queria que a Argentina aderisse. http://www.exante.com.ar/privado/actuales/
base/c43.xls.
9 Segundo a paridade do poder de compra, o PIB do Brasil ultrapassava US$ 1
trilhão (estimado em 1999), sendo o da Argentina da ordem de US$ 377 bilhões, o
do Uruguai, de US$ 28 bilhões, e o do Paraguai, de US$ 19,9 bilhões. CIA-World
Factbook (http://www.odci.gov/cia/publications/factbook/index.html ). De acordo
com o método tradicional, da ALADI, o PIB do Brasil em 1999 era de US$ 711,1
bilhões, o da Argentina, de US$ 272,9 bilhões, o do Uruguai, de US$ 19,6
bilhões, e o do Paraguai, de US$ 8,5 bilhões. http://www.aladi.org/inicio.htm.
10 O PIB do México, segundo o método da ALADI, era de US$ 446,2 milhões em
1999.
11 http://www.odci.gov/cia/publications/factbook/index.html .
12 Soros diz que Brasil pode ter de renegociar sua dívida. BBC Brasil. 08 out.
2002, publicado às 17h15 GMT.
13 Ibid.
14 http://www.aladi.org/inicio.htm. As cifras correspondentes ao ano 2000 só
abrangem nove meses.
15 VALLENDAR, Benedikt. Argentinien-Krise belastet Chile. Die Welt, 27 ago.
2001.
16 BANDEIRA, Moniz, 1998, p. 113-115.
17 Os setores da oposição não esqueceram o saldo do regime autoritário que
Banzer instalou na Bolívia em 1973: 1500 presos políticos, 900 exilados e mais
de 200 mortos, entre os quais cerca de 100 camponeses massacrados, em 1974,
segundo a Assembléia de Direitos Humanos de Bolívia.
18 Acometido por grave câncer no pulmão, Banzer, em 6 de agosto de 2001,
apresentou sua renúncia ao Congresso nacional, em Sucre, a capital
constitucional da Bolívia, e o vice-presidente Jorge Quiroga assumiu o governo.
19 JOHNSON, Tim Clinton. Clinton: Ecuador must maintain democratic rule,The
Miami Herald, 18 mar 1999.
20 Abdala Bucaram, que tinha sua base política em Guayaquil, foi eleito
presidente pelo Partido Roldosista Ecuatoriano (PRE), em 1996, prometendo
reformas econômicas e sociais para romper o poder da oligarquia. Líder de
personalidade populista e excêntrica (vangloriava-se de ser chamado de El Loco
pelo povo), provocou, porém, enorme descontentamento e enfrentou uma onda de
protestos, depois de seis meses de governo ao anunciar em 1° de dezembro de
1996 o aumento dos preços da água, gás, luz e telefones. Como conseqüência, o
Congresso, em 6 de fevereiro de 1997, aprovou sua destituição por "incapacidade
mental", de acordo com o art. 100 da Constituição do Equador, e o presidente da
Câmara, Fabian Alarcón Rivera, assumiu interinamente o governo, o que foi
confirmado por um referendum popular em 1997. Bucaram refugiou-se no Panamá.
Com a reforma da Consituição, Jamil Mahuad, do partido Democracia Popular, e
Gustavo Noboa, do Partido Social Cristão foram eleitos pelo Congresso em 1998.
21 U.S. Department of State. Background Notes: Ecuador, June 2000 Released by
the Bureau of Western Hemisphere Affairs. April 2001. http://www.state.gov/r/
pa/bgn/index.cfm?docid=2906.
22 http://instruct1.cit.cornell.edu/Courses/crp522/ecbo0900.pdf
23 Depois que saiu do Ministério da Economia da Argentina, em 1996, Domingo
Cavallo foi contratado por Abdalá Bucaram, eleito naquele ano presidente do
Equador, para que implantasse um sistema de convertibilidade da moeda
equatoriana em dólar. Com a queda de Bucaram, Jamil Mahuad tomou a decisão de
dolarizar a economia equatoriana, assessorado por um grupo argentino, que
incluía a Fundação Mediterrânea (vinculada a Domingo Cavallo) e o economista
Guillermo Calvo, nomeado posteriormente diretor do Banco Interamericano de
Desenvolvimento.
24 FAIOLA, Anthony. Washington Post Foreign Service. Thursday, January 25,
2001, p. A01.
25 Statement of General Charles E. Wilhelm, commander-in-chief, U.S. Southern
Command, Before the Senate Caucus on International Narcotics Control, March 23,
2000.
26 La dolarización no sacó a Ecuador de la crisis ' El sistema acumula serios
problemas. La Nación, Buenos Aires, 14 abr 2002.
27 El Universal, Caracas, 08 fev. 2002.
28 La Nacion. Exterior. 10 out. 2002, p. 3.
29 Secretaría Permanente del SELA (Sistema Económico Latinoamericano). Informe
de Conyuntura América Latina y el Caribe: Cómo Cierra la Economía en 2001.
30 Somente os Estados Unidos acumularam, com quase todos os países da América
do Sul, um superávit comercial. Alcançou o total de US$ 55,0 bilhões, entre
1995 e 2001 (seis meses).
Novembro de 2002