Nem Refugiados, nem Migrantes: A Chegada dos Haitianos à Cidade de Tabatinga
(Amazonas)
O Brasil, que se constitui em um país de migrantes, iniciou, após a década de
1930, um conjunto de políticas restritivas que dificultou a entrada de
imigrantes e refugiados. Passado o período da escravidão, consolidou-se o
último grande fluxo migratório, que tem seu início no fim do século XIX e seu
término na década de 1920. Fora estimulado e organizado um conjunto de
políticas públicas que facilitavam a entrada, a legalização e a instalação dos
recém-chegados, essencialmente para suprir as necessidades de mão de obra nas
plantações de café de São Paulo. Nessas migrações "desejadas", era privilegiada
a "ascendência europeia", tida como garantia de um povoamento compatível com
uma visão de civilização dominada pelo imaginário europeu.
A partir de 1933, a imigração foi regulada de forma restritiva pela
Constituinte (Geraldo,_2009). Foi determinado, então, que o Brasil receberia
anualmente um número máximo de 2% do total de imigrantes da cada nacionalidade
que tivessem imigrado nos últimos 50 anos. Passou-se, desse modo, da promoção
de fluxos coletivos das décadas anteriores a uma gestão restritiva de
trajetórias individuais seletivamente indesejáveis. Desde então, e apesar de
sua reformulação na década de 1980, a lei brasileira de imigração continua
determinada pelo paradigma minimalista da porta estreita, não sendo
estabelecidas políticas migratórias proativas, as quais definiriam o
posicionamento do Brasil dentro das dinâmicas migratórias globalizadas.
Neste início de século XXI, os deslocamentos em larga escala se multiplicam com
a velocidade dos meios modernos de comunicação. Amplas transformações
geopolíticas, climáticas e econômicas impactam realidades demográficas de
continentes inteiros. Nesse contexto, o Brasil surge como uma potência
econômica politicamente estável e com uma diplomacia abertamente desafiadora
das políticas restritivas do Ocidente: cooperação Sul-Sul, militante da quebra
de algumas patentes médicas (por razões humanitárias), protagonista da missão
de paz no Timor e artesão central da intervenção das Nações Unidas no Haiti.
Nessa conjuntura, era de se esperar que o Brasil entraria na rota das migrações
globalizadas. Entretanto, quando, do início de 2010 a março de 2012, se deu um
inédito fluxo de aproximadamente 4 mil migrantes haitianos na região Norte
(Acre e Amazonas), evidenciaram-se os limites da capacidade de resposta legal e
operacional nos níveis municipal, estadual e federal.
Com base no estudo de caso da cidade de Tabatinga (AM), que recebeu 3 mil
desses migrantes, este artigo propõe descrever e analisar as dificuldades de
assistência e proteção vivenciadas pela população haitiana durante a
intervenção de uma organização humanitária internacional (Médicos Sem
Fronteiras - MSF) entre outubro de 2011 e março de 2012. Os dados aqui
apresentados resultam de uma pesquisa preliminar realizada entre setembro e
outubro de 2011. Nesta ocasião, um questionário foi aplicado em crioulo a 180
migrantes (24% da população haitiana total que se encontrava na cidade no
momento da pesquisa). Ademais, foram constituídos três grupos focais e
realizadas 18 entrevistas semidiretivas com migrantes, além de discussões com
autoridades e atores locais1. Em Manaus, entrevistas semidiretivas foram
realizadas com parlamentares, representantes da Polícia Federal e atores do
sistema público de saúde. Em Brasília, entrevistas semidiretivas foram
realizadas com responsáveis do Conselho Nacional de Imigração (CNIG), do Comitê
Nacional para os Refugiados (Conare), e do Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Refugiados (Acnur). Considerando-se a experiência de MSF em questões
migratórias adquirida em diferentes projetos nos últimos 40 anos, o intuito
aqui é trazer elementos que possam alimentar a reflexão sobre a política
migratória do Brasil.
TABATINGA À LUZ DA NOÇÃO DE "EVENTO CRÍTICO"
Partiremos do princípio de que a migração haitiana em Tabatinga, em seu auge,
entre junho de 2011 e fevereiro de 2012, constituiu-se em um "evento crítico"
na história migratória brasileira.
No que concerne a "evento crítico", tomaremos emprestadas de François Furet as
ideias de "singularidade" e de "erupção" de uma "nova modalidade de ação
histórica" (Furet, 1978). Pode-se supor que, no decorrer dos últimos 20 anos,
outros movimentos migratórios (colombianos, bolivianos...) já haviam desafiado
o dogma do controle dos fluxos; porém, amplamente confinadas à informalidade de
relações entre países vizinhos, elas não haviam impactado as políticas públicas
migratórias (Baeninger,_2012). No caso da migração haitiana, por meio de seu
desenvolvimento político e midiático, surgiu ainda como um evento na ordem do
imaginário (Furet,_1978), ativando ou reativando um conjunto de representações
que conferem ao evento seu status como tal. "O Haiti é aqui" funcionou como um
operador sintético entre registros que foram do humanitarismo internacional a
medos romantizados do haitianismo do século XIX (medo da contaminação política
da revolução haitiana), passando pela reativação do poderoso imaginário da
"África no Brasil" (Fry_e_Vogt,_1996).
Como segundo ponto de estudo, retemos o conceito de "evento crítico" de Veena
Das (1995), o qual comporta a ideia de que a análise de determinados eventos
permite apontar para realidades sociopolíticas complexas, articulando escalas
local, nacional e internacional. De fato, se os casos microlocais de Tabatinga
(no Amazonas) ou de Brasileia (no Acre) acabaram por configurar uma questão
nacional, é tanto pela complexidade da conjuntura quanto pela estratégia de
resposta técnico-legal, além da forma com que o Estado apropriou-se do "caso
dos haitianos" para enunciar uma excepcionalidade e reafirmar uma norma
migratória: atribuir vistos "humanitários" aos haitianos já em solo brasileiro,
enfocando, assim, a legitimidade internacional do Brasil, bem como sua
"generosidade", e tentar voltar a um regime restritivo de cotas para garantir
uma imigração de qualidade ou "escolhida".
Ao resgatar em seus detalhes o caso particular de Tabatinga, acompanhamos Veena
Das em seu cuidado de "resgatar os momentos perdidos" pela narrativa nacional e
restituir algo da verdade das pessoas envolvidas, concordando com ela que tal
escuta abre para novas possibilidades de justiça (1995).
Finalmente, a situação de Tabatinga será apreendida aqui pelo prisma
operacional de uma organização humanitária médica de emergência (MSF). Vale
ressaltar que este artigo não é um exercício de comunicação institucional na
forma de um documento de advocacia, tal como a organização procede quando da
atuação em determinado contexto, mas, sim, uma publicização, na medida em que o
trabalho realizado torna a organização testemunha privilegiada dos
acontecimentos narrados.
Trata-se aqui de um trabalho de pesquisa operacional, cujo objetivo é produzir
conhecimentos sobre intervenções, estratégias ou ferramentas que possam
melhorar a qualidade, a efetividade e a cobertura dos programas nos quais a
pesquisa é conduzida (MSF,_2010). Nesse caso, tal pesquisa se justificou pelo
caráter inédito no contexto brasileiro da situação que motivou a decisão da
organização de lançar um projeto pontual de assistência para os migrantes
haitianos de Tabatinga. De fato, vale registrar que, salvo em contextos de
catástrofes naturais (Alagoas, 2010; Rio de Janeiro, 2011), MSF não desenvolve
projetos no Brasil desde 2009, o que ressalta essa excepcionalidade percebida
na situação de Tabatinga aos olhos da organização.
No momento em que a pesquisa foi iniciada, e baseando-se em sua experiência dos
fluxos migratórios em várias regiões do mundo, acreditava-se também na dimensão
exemplar de Tabatinga, no sentido de que tal situação prefigurava
potencialmente um novo polo de tensão migratória com riscos humanitários. A
pesquisa operacional buscou, por esse motivo, evidenciar as dinâmicas que
compuseram em Tabatinga uma "situação humanitária".
Tabatinga, uma Situação Humanitária
Tabatinga está localizada na tríplice fronteira Peru/Brasil/Colômbia, na região
amazônica, com uma população de cerca de 50 mil habitantes. A "fronteira seca"
com a cidade colombiana de Letícia e a fronteira aberta com a ilha peruana de
Santa Rosa fazem da cidade um lugar de nomadismo intersticial. Comércio,
casamentos, vida noturna: as populações transitam entre os três países em um
território socialmente contínuo. A esse fluxo de fronteira somam-se as idas à
cidade das populações indígenas vizinhas e a rotatividade do contingente
militar, importante em razão da localização estratégica de Tabatinga.
Nesse contexto, tecido por incessantes trajetórias individuais e coletivas, a
chegada dos haitianos não constituiu uma ruptura na rotina de um povoado
isolado da Amazônia, apenas mais fluxo em uma cidade de fluxos. Isso talvez
explique a relativa serenidade com a qual a população local recebeu os
migrantes haitianos, os quais ressaltaram a cordialidade do acolhimento e
avaliaram o "primeiro contato" como globalmente bom.
Contudo, rapidamente os migrantes compuseram uma "minoria visível", e a cor da
pele, assim como o "imaginário" do Haiti, não foram os únicos elementos de
destaque. Como quaisquer migrantes recém-chegados, sua visibilidade decorreu de
sua precariedade (Noiriel,_1988): ocupação ociosa dos espaços públicos, forte
presença nos serviços de assistência e na Polícia Federal, incorporação
marginal nos subempregos informais (venda de jornais, estivadores do porto...).
Não faltaram espaços onde a visibilidade apontou para as necessidades múltiplas
de uma população inesperada.
No entanto, Tabatinga mostrou-se constitutiva de poucos recursos para suprir as
necessidades básicas de uma população migrante excepcionalmente precária, assim
como veremos a seguir. No momento em que a pesquisa foi realizada, a cidade tem
uma estrutura sanitária insuficiente mesmo para a população local. Apesar de
ser banhada por um dos maiores rios do mundo, o Solimões, sofre pela falta
constante de água para o consumo humano. A disposição geográfica e a distância
marcam a relação com a capital do estado, complicando tanto a visibilidade
política quanto a alocação dos recursos: a cidade só é acessível por via aérea
(voos diários de Manaus) ou vias fluviais (de barco, sete dias no sentido
Manaus-Tabatinga e três dias no sentido Tabatinga-Manaus). Tabatinga possui um
hospital militar (cofinanciado pelo Sistema Único de Saúde - SUS)
frequentemente sobrecarregado com pacientes oriundos do próprio município e das
cidades adjacentes. A população vive, majoritariamente, na precariedade,
decorrendo de um mercado local reduzido, com poucas oportunidades e rendas
baixas.
Haitianos em Tabatinga
Entre os anos 2010 e 2012, a Polícia Federal brasileira contabilizou a entrada
de 3.814 haitianos (456 em 2010; 1.898 em 2011 e 1.460 apenas no mês de janeiro
de 2012). Esses haitianos exploravam uma nova rota de diáspora. Nesse momento,
as terras de migração tradicional - EUA, Canadá, Europa - apresentavam-se com
suas fronteiras fechadas ou fechando, à medida que se esgotava o argumento
humanitário de abertura que se seguiu ao período pós-terremoto no Haiti, em
janeiro de 2010. Apesquisa quantitativa realizada em Tabatinga no mês de
setembro de 2011 apontou que 30% dos migrantes que chegaram à cidade entre
setembro e outubro desse ano estavam saindo da República Dominicana, onde se
queixavam de rendas baixas e múltiplas discriminações. No Equador, só podiam
circular de forma transitória mediante a assinatura de um documento, tendo,
inclusive, o direito ao casamento negado.
A complexidade do percurso vivenciado até chegar a Tabatinga reflete bem essa
geopolítica de barragens. Os migrantes não podiam entrar diretamente no Brasil
por falta das condições necessárias à obtenção do visto. Da mesma maneira, uma
vez que entravam sem visto, não podiam solicitar o Estatuto de Migrante
Econômico, restando apenas a possibilidade de solicitar o Estatuto de
Refugiado, condicionado ao fato de entrar no Brasil a partir de um país
fronteiriço, acarretando a impossibilidade de acesso por via aérea direta.
As condições descritas explicam por que a viagem era tão segmentada: do Haiti,
o migrante precisava ir até a República Dominicana, de onde embarcava para o
Panamá ou para o Equador (de avião, três a quatro horas de viagem); em seguida,
acontecia a viagem de ônibus (24 horas) ou de avião (uma hora) até Iquitos, no
Peru; daí, um percurso de barco de 24 horas o levava até Tabatinga.
O pioneirismo do percurso ainda era agravado pelas condições financeiras de sua
execução. Enquanto, pelas tarifas oficiais, o custo médio dessa viagem devia
estar abaixo de US$ 2,000, incluindo despesas (hotel, alimentação), apenas 17%
dos migrantes entrevistados declararam pagar esse valor ou um pouco acima (até
US$ 2,400): 65% pagaram mais de US$ 1,000 acima do previsto. O custo adicional
era causado pela presença de atravessadores (coiotes), que atuavam em todos os
pontos da rota; 42% dos migrantes entre setembro e outubro de 2011
espontaneamente relataram a presença de coiotes atuando em todo o percurso do
Haiti ao Brasil. Relatou-se, ainda, que os coiotes baseavam-se no Haiti,
Equador, Peru e Brasil (em Tabatinga, onde a Polícia Federal chegou a prender
um homem acusado de tráfico de seres humanos).
Além de coagidos ao longo da viagem, o dinheiro dos migrantes também havia sido
"capturado" em sua fonte: na maioria dos casos, ele fora obtido pela venda de
terras e gado da família e, sobretudo, por meio de empréstimos contraídos no
Haiti, onde parte da família que ficara permanecia como garantia à espera de
remessas financeiras oriundas da aposta e do investimento feito por um dos
membros da família. Ecoando com outras realidades já relatadas na antropologia
das migrações (Sayad,_1975), longe de se constituir em uma aventura individual,
a vinda para o Brasil inscreve-se em uma rede densa de deveres e obrigações.
Assim, para os haitianos, a descoberta do Brasil nas condições precárias de
Tabatinga foi logo marcada pela angústia de um sentimento de dívida
incompensável. A realidade, rapidamente revelada, do salário mínimo no Brasil
sobrecarrega essa sensação de grande desilusão.
Em suas crônicas da servilidade na Amazônia brasileira, Christian Geffray,
Neide Esterci e Ricardo Figueira mostram o quanto relações de sujeição mantidas
com violência e dívidas imaginárias marcam profundamente o modelo social da
região amazonense (Geffray,_1995; Esterci_e_Figueira,_2007). E por que não
dizer que, do parentesco haitiano ao paternalismo local, migrantes haitianos e
população tabatinguense tinham em comum o ethos da sujeição.
No entanto, os primeiros contatos foram marcados por equívocos que mascararam
essa relativa comunidade de destino. Em uma região desprovida economicamente,
como a Tabatinga, a importância dos valores pagos pelos haitianos para a viagem
levou à percepção de que eles tinham dinheiro e, por isso, não precisavam de
ajuda. Ressalta-se aqui um detalhe irônico dessa percepção: aos olhos da
população local, os haitianos andavam bem vestidos demais para serem
qualificados como necessitados. Os tabatinguenses não imaginavam que as roupas
haviam sido compradas em feiras de segunda mão nos mercados de rua do Haiti (em
média US$ 4 a peça) e de pontas de estoque oriundas dos EUA, as quais chegam
inicialmente como ajuda humanitária.
Dadas essas condições, não é de se estranhar que os migrantes chegassem a
Tabatinga com poucos recursos financeiros para suportar os dois/três meses de
espera que o processo de solicitação do status de refugiado havia demandado.
Uma Migração de Trabalho
O perfil socioeconômico dos migrantes, tal como fora estabelecido na base da
pesquisa quantitativa realizada por Médicos Sem Fronteiras entre setembro e
outubro, ressalta mais ainda a condição de vulnerabilidade na qual se realizou
a migração. Dentre os migrantes entrevistados, 63% possuíam entre 25 e 35 anos
de idade, com uma idade média de 30 anos - em um país (Haiti) onde a população
média é de 18 anos e a expectativa de vida é de 60 anos, os migrantes estavam
predominantemente em sua meia-idade; 70% eram homens e 30%, mulheres; 71,5% dos
homens e 62% das mulheres tinham filhos, e apenas 3% haviam viajado para
Tabatinga com pelo menos um de seus filhos; 46% eram casados, 44%, solteiros, e
38% dos solteiros haviam deixado filhos no Haiti.
A grande maioria dos migrantes tinha uma família que dependia deles; 24% haviam
cursado até o primeiro grau e 59%, até o segundo; enquanto 5% haviam cursado a
universidade, apenas 2% tinham um diploma universitário - considerando que no
Haiti apenas 33% da população cursam o segundo grau, o grau de escolaridade dos
migrantes era maior do que a média do país. Esse indicador se explica
sobretudo, pelo efeito de classe de idade, já que se trata de uma migração
relativamente jovem; 47% dos homens trabalhavam na construção civil,
principalmente como pedreiros; 7% eram motoristas; 6%, mecânicos; as mulheres
possuíam experiência profissional principalmente no comércio (33%) e/ou como
costureiras (25%). Esse quadro aponta para a baixa qualificação dos migrantes,
com consideráveis exceções, tais como um economista, um contador e um
jornalista. É notável que apenas 3% dos migrantes relataram ser camponeses.
Trata-se claramente de uma migração urbana.
Boa parte dos migrantes (70%) declararam ter sido afetados pelo terremoto: 33%
perderam um membro da família e 51% tiveram suas casas destruídas. Ressalta-se
que a importância das perdas familiares reforça a responsabilidade dos membros
sobreviventes e que a relevância da destruição da casa aponta para uma situação
de pouca autonomia no país de origem. Essa observação é reforçada pela
percepção dos migrantes: 56% referiram-se ao terremoto como uma motivação para
a migração. É notável que a falta de trabalho é, de longe, o principal fator
alegado (84%), mas esse fator não é independente, uma vez que estava
relacionado com o terremoto, a pobreza (40%) e a insegurança/medo (41%).
É interessante observar que, se existe uma forte correlação entre a migração e
o terremoto, esta não é independente, uma vez que não leva em conta uma
realidade invisível: nenhum ou poucos migrantes vinham das regiões severamente
afetadas. Por exemplo, pouquíssimas pessoas oriundas da região de Léogâne foram
contabilizadas, ainda que a cidade tivesse 80% de seu território destruído.
Quanto ao deslocamento, 62% haviam viajado com amigos ou familiares e 8%, com
outros haitianos. Esses dados evidenciam uma migração coletivamente planejada e
efetuada, obedecendo a uma forte lógica de rede. Essa pode ser a explicação
principal para a distribuição geográfica desigual da origem dos migrantes. O
terremoto é um fator, mas a existência de uma rede transforma a situação
objetiva em uma oportunidade subjetiva.
O tratamento midiático e político foi dominado pela ideia de que "os imigrantes
haitianos que chegam ao Brasil são profissionais qualificados, oriundos da
classe média, como engenheiros, professores, advogados, pedreiros, mestres de
obras e carpinteiros"2. Os dados apontam para um padrão bastante diferente:
trata-se de uma migração de trabalho carregando consigo a realidade dominante
no Haiti: a de uma população pouco qualificada e assolada por múltiplas
vulnerabilidades.
As Condições de Vida
Em muitos contextos em que fluxos migratórios se dão com populações em
situações precárias (Quênia, Sudão, Líbia, Malta...), programam-se mecanismos
de assistência e proteção por parte ora de instituições públicas, ora de redes
densas de organizações não governamentais e organismos internacionais. No
entanto, como veremos na segunda parte deste texto, não foi esse o caso de
Tabatinga. Com exceção de medidas paliativas da Pastoral da Mobilidade Humana
(igreja católica local), que disponibilizou recursos para auxiliar na
assistência emergencial logo após a chegada desses haitianos, não houve outros
dispositivos de assistência para esse fluxo de migrantes. Estes se encontraram
entregues à realidade áspera de uma pequena cidade fronteiriça da Amazônia e
contaram principalmente consigo mesmos para sobreviver. Nessas condições, todos
os aspectos básicos foram rapidamente comprometidos.
Na ausência de políticas públicas que facilitassem o acesso a alojamentos
adequados, os migrantes dependeram do aluguel privado, colocando o mercado
local sob tensão inédita. Entregues a uma especulação imobiliária oportunista,
os preços dos aluguéis aumentaram vertiginosamente em um período inferior a
três meses, enquanto a qualidade das casas disponíveis foi decrescendo em razão
da saturação do mercado imobiliário. Em pouco tempo, as casas disponíveis eram
cada vez mais afastadas do perímetro central da cidade e com menos subsídios
básicos (não ofereciam água encanada e/ou eletricidade, banheiro, cozinha).
Ainda assim, o valor médio do aluguel (R$ 500,00 a R$ 600,00) dobrou em relação
à situação ordinária (R$ 200,00 a R$ 250,00). As moradias, em sua maioria, eram
alugadas vazias a uma população sem recurso para equipá-las minimamente,
passando a funcionar como os acampamentos que os migrantes já haviam vivenciado
em seu país de origem após o terremoto: elevada concentração habitacional,
refeições coletivas preparadas em fogões a lenha improvisados, banhos ao ar
livre, rodízio para dormir em quartos sem colchões...
É fato que muitos tabatinguenses também vivem nesse tipo de moradia e, dessa
forma, partilharam objetivamente com os haitianos uma mesma "miséria de
condição" (Bourdieu,_1993), sendo esses modos particulares de ocupação coletiva
que marcaram uma fronteira de "posição" com a população local. Essa fronteira
se materializou em poucas semanas por placas que apareceram pela cidade
mencionando "não alugo para haitianos". Os argumentos alegados eram de que eles
não possuíam boas condições de higiene, eram barulhentos e/ou estavam em
situação de deslocamento frequente, havendo um grande risco de não pagarem o
aluguel.
Foi nesse contexto crítico que a "casa dos haitianos" (um motel desativado)
surgiu como um paliativo de emergência para os migrantes que chegavam sem
nenhum ou pouco recurso. A sala principal, de 50 m2, passou a hospedar 49
pessoas (1 m2/pessoa) dividindo três colchões cortados em dois, enquanto oito
quartos de 10 m2 abrigaram, cada um, de cinco a sete pessoas (1,5 m2/pessoa).
Nesses quartos, cujo valor cobrado era de R$ 100,003 cada, mulheres, crianças e
casais dormiam coletivamente. Em um total de 118 pessoas, havia apenas um
banheiro e um acesso a água não potável para banho, lavagem de roupas,
utensílios domésticos e consumo humano.
Nessas condições, agressividade, raiva e forte estresse marcaram regularmente
as relações sociais do cotidiano. Brigas surgiram por conta de um colchão, de
um objeto pessoal desaparecido ou pelo uso da única rede do quintal.
Logo nas primeiras semanas de "aluguel", a energia elétrica foi cortada, fato
atribuído ao não pagamento das faturas (que chegaram a totalizar R$ 3.500,00)
pelos haitianos. Entretanto, essa dívida não era real, uma vez que remetia, na
verdade, aos últimos meses de funcionamento de um motel em falência.
Na casa dos haitianos e em todos os demais pontos de moradia dos migrantes, a
água de consumo passou a ser um problema. Após a água local ter sido testada
pela vigilância sanitária como não potável, a Prefeitura tomou a medida de
fechar dois pontos públicos de acesso apontados como contaminados. O único
ponto de abastecimento de água tratada encontrava-se a 5 km de distância da
maioria dos migrantes, os quais dispunham de poucos recursos para se deslocar.
Quando, em janeiro de 2012, as unidades de saúde locais passaram a distribuir
gratuitamente produtos de tratamento da água, a informação não alcançou os
haitianos, confrontados com o obstáculo da língua. O consumo da água
contaminada provocou frequentes problemas estomacais e de pele.
De todos os problemas enfrentados, a fome passou a ser o principal. Para a
maioria dos migrantes, a única fonte de alimentação eram as refeições
distribuídas pela Pastoral da Mobilidade Humana uma vez ao dia durante a
semana. "Nos finais de semana, eu carrego meu calvário" resume bem essa
situação cíclica de fome, como expressado por um migrante. De fato, a pesquisa
quantitativa realizada entre setembro e outubro de 2011 apontou que 85% dos
migrantes declararam comer uma vez ao dia e 83% declararam sentir fome.
Avaliadas em uma base técnica, as condições de vida da maioria dos migrantes
passaram rapidamente a ser aquém das experienciadas pelos migrantes africanos
nos centros de retenção de Malta, já denunciadas por MSF como "não humanas"4.
De fato, nos meses em que os fluxos migratórios se intensificaram, Tabatinga se
configurou como uma "situação humanitária". Entretanto, para as autoridades
locais, os migrantes eram sobretudo percebidos como um "risco sanitário".
O Medo Sanitário
Em um alerta na tribuna da Câmara Municipal de Manaus, um dos vereadores
locais, médico de formação, lamentou-se da ausência de controle sanitário para
os migrantes haitianos, ressaltando que "a cólera no Haiti é muito intensa,
assim como a Aids, e nenhum país pode ajudar outro com o risco de causar
doenças em seu próprio povo"5. Em um artigo posterior6, ele mesmo ressaltara
que, como no Haiti "não há serviço público de saúde e, em razão da precariedade
da economia, 80% procuram cuidados de curandeiros tradicionais, que consideram
a Aids um feitiço encomendado, e não uma doença transmitida sexualmente.
Imagine, então, falarmos de prevenção em um cenário tão desfavorável.
Certamente os curandeiros preferem os tambores a uma simples camisinha - por
pura, triste e lamentável ignorância" (palavras do vereador/médico de
Tabatinga).
Como aponta Noiriel_(1988) em sua história da imigração na França, a doença que
vem do exterior é um tema recorrente na percepção de todos os movimentos
migratórios desde o século XIX. No caso de Tabatinga, a saúde foi sem dúvida o
principal cristalizador do medo que os migrantes haitianos inspiraram na
população local. O padre da Igreja Católica local ressaltou que, à medida que
os haitianos começaram a receber ajuda alimentar de fiéis, o pavor do contato
físico se manifestava até nos atos de generosidade, e que por isso as doações
diretas aos próprios haitianos eram raras. Ao exemplo do vereador médico
citado, essa xenofobia (em seu sentido etimológico: medo do estrangeiro) ganhou
certo espaço institucional, alimentando a representação de uma migração
incontrolada e perigosa que poderia fazer incorrer em risco sanitário.
Em 2010, testes de HIV foram oferecidos pelos governos municipal e estadual a
300 migrantes e aceitos por 140 deles, sendo revelados quatro casos de HIV
positivo (2,85%)7. A morte, em Manaus, em janeiro de 2012, de um haitiano HIV
positivo, amplamente comentada nas mídias locais, deflagrou uma onda de
inquietação e preconceito. A Secretaria de Saúde do Estado chegou a solicitar
ao governo federal recursos para o reforço na compra de insumos para o
diagnóstico e tratamento do HIV e de outras doenças, como cólera, febre amarela
e sífilis, consideradas prevalentes no Haiti. Autoridades de saúde chegaram a
comentar que, com a chegada dos haitianos, o índice de infecção de HIV entre
brasileiros poderia aumentar8, despertando o tema da Aids como a doença dos 5H
(homossexuais, hemofílicos, haitianos, heroinômanos [usuários de heroína
injetável] e hookers [profissionais do sexo]), característica que predominava
30 anos atrás, no princípio da epidemia. Bourdier_(2001) tornou público que, na
região vizinha da zona de fronteira com a Guiana Francesa, o mesmo tratamento
como "agente da doença" foi aplicado ao migrante brasileiro.
O quadro médico estabelecido por MSF para os migrantes haitianos delineou uma
realidade bem diferente desse alarmismo sanitário. Tanto as autoridades
sanitárias governamentais quanto a equipe de MSF não identificaram nenhum caso
de cólera. Em sua maioria, os adoecimentos recorrentes caracterizaram-se como:
dermatites (escabioses e micoses), doenças gastrointestinais (diarreias e
vômitos), febres sem causa esclarecida, infecções respiratórias, gripes e
vaginoses. Esse quadro clínico geral apontou para condições socioeconômicas de
vulnerabilidade, mas que não diferiam das condições da população local em
geral. Em uma população de 287 migrantes, 12 (4,2%) relataram algum tipo de
adoecimento crônico e/ou agudo9. Vale pontuar que uma população recém-chegada e
em situação de vulnerabilidade pode ter dificuldades de comunicar seu quadro
efetivo de saúde.
Do mesmo modo, a percepção de sua "ilegalidade" pode ter levado os haitianos a
evitar o contato com as equipes de saúde, em particular com o hospital militar.
Ainda assim, a equipe de MSF que avaliou o estado geral de saúde da população
considerou que ela não apresentava um quadro de saúde particular que diferisse
da população local. Esse "diagnóstico" coletivo não se mostrou surpreendente,
uma vez que se tratava de migrantes recém-enviados por famílias que os haviam
elegido beneficiários dos investimentos familiares esperando auxílio
financeiro, e, por isso, mandavam indivíduos em boas condições de saúde.
No Canadá, múltiplos estudos mostram que os migrantes, particularmente os
recém-chegados, têm condição de saúde globalmente melhor do que a população
geral. Esse fenômeno é comumente denominado efeito da boa saúde dos migrantes
(Clarkson,_Tremblay_e_Audet,_2002).
Esses dados apontam para a viabilidade de um acompanhamento no nível de saúde
pública local, sem acarretar grandes alterações no processo de trabalho das
equipes locais. Embora o município de Tabatinga tenha como forma de organização
da atenção básica a estratégia de saúde da família, as equipes da atenção
básica não realizaram visitas domiciliares até fevereiro de 2012 (quando
solicitado e acompanhado por MSF), ainda que os haitianos estivessem dentro das
áreas adstritas. A invisibilidade legal, conjugada ao obstáculo linguístico,
explica em parte essa falha no sistema de assistência.
Processo Migratório e Saúde Mental
Considerando a complexidade do contexto haitiano nesses dois últimos anos
(conflitos urbanos, miséria, instabilidade política, terremoto, entre outros
desastres naturais, lentidão na reconstrução do país, epidemia de cólera etc.),
o processo migratório se iniciou na interface entre perdas afetivas
significativas, trajetórias individuais feitas de acidentes biográficos e
desejos de construção pessoal e/ou coletiva.
O investimento feito pelo coletivo familiar potencializa a carga emocional, que
muitas vezes torna-se difícil de ser suportada, em particular quando há um
grande número de impedimentos legais e econômicos limitando as possibilidades
de geração de renda e subsistência. Nessas condições, a saúde mental é um dos
indicadores que reflete particularmente o impacto dessa conjunção de elementos
na vida dos migrantes.
Ao medir o impacto10 desses eventos na saúde mental dos migrantes haitianos, a
equipe de MSF encontrou uma situação humanitária baseada em relatos e
sofrimentos: maus-tratos sistemáticos e organizados pelo tráfico de pessoas,
irresolução administrativa, condições de alojamento desumanas, acesso
insuficiente de alimentos, dificuldades financeiras, múltiplas lacunas na
assistência e proteção, distorção de imagem no nível da população local,
estereótipo e "discriminação cordial" foram os elementos apontados de forma
recorrente.
Tal conjunto de dificuldades alimentava nos migrantes, por sua vez, as
sensações de culpa e confusão, sentimento de não saber o que fazer, incerteza
quanto ao futuro, sentimento de humilhação, vergonha, sensação de
invisibilidade e ausência de esperança. Enfim, tal quadro foi ampliado pela
fragilidade dos mecanismos de enfrentamento da situação. Abusca por empregos
(trabalho informal, além de pagamentos irregulares e de baixo valor), as missas
e os cultos (em português), as conversas em pares, as leituras e caminhadas e a
expectativa de chegar a Manaus e de "ter uma vida melhor" ofereciam poucos
paliativos a uma situação subjetivamente percebida como crítica.
É importante apontar que, embora os mecanismos de enfretamento das dificuldades
fossem frágeis, não foi identificado, em Tabatinga, nenhum caso de transtorno
psiquiátrico (apenas um em Manaus); abuso de álcool e/ou outras substâncias;
situação de agressividade e/ou de conflito entre migrantes e/ou entre migrantes
e a população local. Isso sugere que os haitianos que chegaram ao Brasil eram
bastante resilientes e preparados para as dificuldades encontradas durante um
processo migratório complexo e penoso. Em outros termos, as dificuldades
enfrentadas não surgiram de uma fraqueza inerente à própria população migrante.
INVISIBILIDADE POLÍTICA
A segunda parte deste artigo busca entender como se configurou a situação
humanitária de Tabatinga descrita anteriormente. A ideia de "situação" é aqui
metodologicamente construída no âmbito da Escola de Manchester (Gluckman,_1958;
Mitchell,_1966). O intuito da análise situacional é apreender um conjunto de
eventos e ações interconectados a diferentes escalas para possibilitar a
compreensão da situação determinada. No caso presente, a descrição das
estruturas objetivas e a análise dos diferentes elementos que compõem uma
história permitem entender como a situação particular de Tabatinga foi
produzida pelo efeito cumulativo de uma série de acontecimentos.
Simetricamente, a situação de Tabatinga deve ser apreendida em sua dimensão
performativa, no sentido de que não apenas configurou um "caso" exemplificando
ou representando um processo mais abrangente, tendo contribuído para definir
tanto local quanto nacionalmente a construção de uma nova questão migratória.
Situando a análise nos níveis local, estadual, federal e internacional, trata-
se, ainda, de praticar o que Revel chama de "jogos de escalas" (Revel,_1996),
ou seja, fazer variar por hipótese as condições da observação, principalmente a
escala ou a focal. O intuito é de restituir a experiência vivida dos haitianos
em Tabatinga na pluralidade dos contextos sociopolíticos aos quais ela se
encontra presa.
Nível Municipal
Para as autoridades locais, a chegada dos haitianos configurou um gigantesco
hiato, que pode ser resumido no seguinte enunciado: enquanto não recebiam o
protocolo como solicitante de refúgio, os haitianos não podiam ser contemplados
por nenhum dispositivo de assistência municipal. Um beneficiário não pode ser
legalmente invisível. Quando finalmente recebiam o protocolo e podiam então
transformar-se em beneficiários, eles deixavam Tabatinga em direção a Manaus em
menos de uma semana.
Mas esta situação transitória não foi a única barreira impedindo a assistência
pública. A questão do financiamento municipal surgiu logo como uma
impossibilidade técnica. A Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000
(Brasil,_2000), integra o princípio de gestão por projetos amplamente adotados
no contexto internacional, assujeitando o orçamento a um plano plurianual
definido por diretrizes orçamentárias claras. Nesse contexto, a chegada maciça
e inesperada de três mil haitianos a uma prefeitura do tamanho de Tabatinga
ultrapassava a margem de flexibilidade dos dispositivos de financiamento: "não
existe linha orçamentária para os haitianos" (entrevista com o gestor municipal
de saúde) soou como uma justificativa para a não assistência aos migrantes.
A esse argumento somou-se o da escassez de recursos. Como justificar a alocação
de verbas para os migrantes haitianos enquanto o município não dispunha de
recursos suficientes para despender assistência à saúde e/ou assistência social
mesmo para a população tabatinguense, não ofertando nenhuma possibilidade de
auxílio a alimentação, moradia e transporte? Nesse contexto, a gestão local
invocou o custo político de uma assistência a outrem que não seria entendida e
aceita pela população. Manifestou-se também, frequentemente, a preocupação de
"não facilitar". Temia-se que qualquer assistência criasse um efeito de
oportunidade, acelerando um fluxo migratório já fora de controle.
Finalmente, um último argumento remeteu ao princípio de subsidiariedade: como
repetidamente argumentado pela prefeitura, a assistência aos requerentes de
asilo deveria ser assegurada pelo governo federal por meio do Conare,
responsável pelas questões que envolvem o processo migratório. Em termos
legais, o município não teria competência para prover assistência.
Uma atenção mais específica à saúde funciona como um analisador pertinente
dessas barreiras. Na ausência de uma política explícita de gestão da população
migrante, os profissionais de saúde ficaram com pouca margem de adaptação e
ação. Muitos mencionaram as limitações em termos de comunicação, dificultando
e/ou impedindo o atendimento, ainda que organizações não governamentais (MSF e
Igreja Católica) se propusessem a auxiliar na elaboração de materiais impressos
e de formações para os trabalhadores da assistência que facilitassem os
atendimentos no nível da atenção primária.
Mesmo sendo oferecida formação técnica gratuita para o atendimento às reações e
aos adoecimentos recorrentes com populações em situação de migração, bem como
material para comunicação (em ambas as línguas: português e crioulo), a gestão
municipal não repassou a informação para seus técnicos e não facilitou a
liberação desses trabalhadores das unidades de saúde onde estavam para a
participação na formação, acarretando o esvaziamento dos espaços de formação. O
discurso predominante nas estruturas locais de saúde foi diplomático e cordial;
contudo, baseou-se na ausência de uma articulação política e técnica clara com
os haitianos, os quais acabaram por ficar de fora dos dispositivos existentes
de assistência.
Resultou dessa situação o paradoxo de que, na escala local na qual os migrantes
estavam fisicamente presentes, sua situação estava legal e politicamente
invisível aos olhos do poder da região.
Nível Estadual
O município de Tabatinga dista 1.200 km da capital do Estado do Amazonas, em
uma área rodeada pela maior floresta do mundo - Amazônia - e sem acesso por via
terrestre. A pequena cidade sofre por sua própria situação periférica. Soma-se
a essa particularidade o fato de que o Estado do Amazonas não possui órgãos
governamentais que tratem da gestão de fluxos migratórios e/ou de tratamento
legal dos requerentes de asilo, aumentando ainda mais a lacuna entre a situação
local e o nível federal no qual esta podia ser de fato abordada.
Salienta-se que o estado e o município poderiam ter estabelecido uma interface
com o poder federal na construção política da questão e de suas dimensões
emergenciais e humanitárias. A ajuda estatal versou sobre o transporte dos
haitianos de Tabatinga a Manaus e a alimentação apenas nas últimas semanas do
processo migratório. Os barcos oriundos de Tabatinga começaram a trazer até
Manaus os contingentes de migrantes protocolizados. Tanto na praça central
quanto nos bairros periféricos, os haitianos estavam se tornando visíveis, não
apenas por seu fenótipo distinto da população manauara, mas pelas notícias
cotidianas anunciadas pela mídia municipal.
As notícias diárias anunciavam as dificuldades de alojamento, alimentação,
acesso ao mercado de trabalho, entre outras necessidades dos migrantes. Por
esses e outros motivos (medo sanitário, de fluxos incontrolados, de perder
espaço no mercado de trabalho para estrangeiros...), "os haitianos" estavam de
fato se configurando como uma "questão social" para a população de Manaus.
Ainda assim, os haitianos bloqueados em Tabatinga permaneceram em uma ampla
invisibilidade política. Quando o assunto foi discutido na Assembleia
Legislativa do Estado, constituiu-se dentro de uma retórica sanitarista,
fazendo dos haitianos um grupo de risco. Sob solicitação oficial do Ministério
da Saúde, o estado elaborou, em fevereiro de 2011, um diagnóstico da saúde da
população haitiana, a fim de evitar a proliferação do cólera no país. A visita
técnica foi encerrada sem que fossem propostas soluções e/ou auxílio à
população de migrantes.
Apenas um deputado estadual, também membro ativo da Igreja Católica, tentou sem
sucesso, durante meses, levantar a questão para ambos os Poderes Legislativo e
Executivo estadual e federal. Ele denunciou que, em Tabatinga, os haitianos
viviam "em condições precárias e quase subumanas, um verdadeiro aglomerado de
pessoas". Alertou para "a situação dos haitianos, já que está se tornando
insustentável por parte da Igreja, pois, após eles serem legalizados pela
Polícia Federal, acabam migrando para Manaus"; mas, como ele próprio resumiu:
"ninguém quer se envolver, porque pode criar um efeito bola de neve"
(entrevista com deputado estadual, que pediu anonimato).
Como resultado das inúmeras tentativas, o governo do Estado, por meio da
Secretaria de Assistência Social, orçou uma verba de R$ 350.000,00 (dos R$
700.000,00 solicitados ao governo federal), mas parte desse recurso chegou
apenas em benefício da última leva de migrantes.
Finalmente, o estado não se constituiu em uma testemunha privilegiada perante
as autoridades federais. Deixamos a análise para a conclusão deste texto. Por
enquanto, vale mencionar que as fronteiras legais entre as competências
territoriais nos níveis municipais e estaduais e sua articulação dificultaram
um tratamento "holista" da população haitiana de Tabatinga e sua construção
como "sujeito" com necessidades assistenciais.
O evento de Tabatinga surge dentro de determinada "estrutura" institucional que
não estava preparada. Sem dúvida, a irresolução normativa sobre o statuslegal
dos migrantes também dificultou a qualificação política de sua situação.
Supõe-se que, no plano estadual, a situação de Tabatinga tenha sido mantida em
relativa confidencialidade, talvez porque tenha sido apreendida pelos atores
locais como um risco político. Um risco perante uma significativa parte da
população do estado, que não necessariamente interpretaria como "generosidade"
uma política de assistência a estrangeiros em um contexto altamente competitivo
pela alocação dos recursos. Um risco perante o poder federal, na ausência de
uma qualificação clara do significado político e diplomático a ser atribuído à
chegada dos haitianos ao solo brasileiro.
Nesse contexto, a distância geográfica de Tabatinga tornou-se, de certa forma,
conveniente. Funcionou como uma medida de contenção de uma população inesperada
e do problema político por ela acarretado. Essa hipótese permitiria entender
como, durante mais de um ano, a situação de Tabatinga não alcançou a
visibilidade política para que pudesse se construir em um "evento crítico"11 e
ser efetivamente resolvida.
A Polícia Federal
Em Tabatinga, a Polícia Federal foi o principal ator responsável pelo
processamento dos requerentes de asilo, controlando a entrada e a saída de
pessoas nas fronteiras nacionais. Nos últimos anos, sua função limitou-se a
processar os poucos e esporádicos pedidos ainda oriundos de uma Colômbia em
vias de pacificação. A chegada dos haitianos colocou sob tensão extrema o posto
de fronteira, que se encontrou de repente na primeira linha de gerenciamento de
um fluxo migratório inesperado.
Ressalta-se que os haitianos entraram como requerentes de asilo. Em seu artigo
9ºa Lei de Refúgio (Brasil,_1997) estipula que: "Aautoridade a quem for
apresentada a solicitação deverá ouvir o interessado e preparar termo de
declaração, que deverá conter as circunstâncias relativas à entrada no Brasil e
às razões que o fizeram deixar o país de origem" (s.p.).
Em outros termos, coube à Polícia Federal de Tabatinga "ouvir" as centenas de
"interessados" na forma de entrevistas individuais, por meio das quais os até
então migrantes ilegais podiam transformar-se em requerentes de asilo e receber
um protocolo temporário, que liberava, por sua vez, o embarque de Tabatinga
para Manaus. Em termos práticos, dadas as condições locais de recurso da
Polícia Federal, a espera para a entrevista passou a ser, em média, de três
meses.
Toda a situação de Tabatinga transcorreu dentro dessa perspectiva. Nesse
sentido, parte dos migrantes haitianos encontrou-se por três ou quatro meses em
situação humanitária crítica, pelo fato de a Polícia Federal de Tabatinga não
possuir condições operacionais para conduzir as entrevistas em prazo menor.
Estabeleceu-se que a capacidade de atendimento do posto seria de 24 entrevistas
por semana, divididas em pares de oito, três dias por semana. Nesse mesmo
período, o fluxo de entrada era de 100 a 150 novos migrantes por semana. O
contingente de migrantes em Tabatinga aumentou, assim como o tempo de espera.
Por sua vez, as condições de vida e de subsistência pioraram com a saturação
dos recursos e da solidariedade local. A lógica era aritmética.
Uma rotina de crise se estabeleceu. A Polícia Federal acabou terceirizando a
manutenção da lista de espera à Pastoral da Mobilidade Humana, único ator que
provera assistência aos migrantes em caráter emergencial. A justificativa
versava sobre o fato de que os migrantes tentavam negociar com os policiais uma
posição mais "vantajosa" na lista.
A fim de solucionar parte dessa problemática, a Pastoral da Mobilidade Humana
passara a receber os passaportes por ordem de chegada, estabelecendo uma lista
que semanalmente era publicada nos muros da pastoral, sendo, na sequência, os
passaportes entregues à Polícia. Esta solicitava repetidamente ajuda ao Estado,
a fim de realizar todas as entrevistas em um período menor de tempo. Por duas
vezes, foi possível organizar "mutirões" com reforços de Manaus, que permitiram
realizar 300 entrevistas por semana.
Em seu cotidiano, os policiais estavam vivendo o Mito de Sísifo, tal como
narrado por Albert_Camus_(1989) em sua reflexão sobre o absurdo. Eles sabiam
que os migrantes não seriam reconhecidos como refugiados, porque a informação
já havia sido comunicada pelo centro da gestão governamental. Ainda assim,
tinham de realizar as entrevistas dentro da Lei de Refúgio. Ou seja, dispunham-
se a operar uma ficção jurídica custosa, ainda que no Itamaraty a decisão já
tivesse sido tomada.
Então, como aponta Camus_(1989), diante do absurdo, a revolta foi a única
opção. Revolta ao manifestar sua incompreensão: "não são refugiados, mas são
recebidos como tais"; "os haitianos estão em um vazio jurídico, nem ilegais nem
legais" (entrevista com migrante haitiano). Revolta perante os próprios
haitianos, que "manipulam a categoria de refugiados". Policiais admitiram,
assim, ter perdido a paciência nas entrevistas diante de argumentos como "sou
requerente de asilo porque gosto do Brasil" ou "sou fã da seleção brasileira de
futebol". Revolta, enfim, perante o que percebiam como a passividade dos
políticos em face de uma invasão maciça.
Parte dos atores locais acreditava que prover um tratamento administrativo
veloz iria "chamar muito mais gente". Somava-se a este o receio de que as
condições de vida difíceis fossem facilitar "amizades com o narcotráfico": "o
Brasil já não consegue cuidar de seus [criminosos] e tem que cuidar dos de
outros", conforme palavras de autoridades locais.
Como principal ator do governo federal em contato direto com os migrantes, os
policiais de Tabatinga viviam muito concretamente as consequências da
irresolução legal e política sobre o assunto dos migrantes haitianos. Tinham
consciência de que a situação de Tabatinga era diretamente provocada pela lista
de espera para a entrevista que eles próprios realizavam. Sabiam que
necessitavam aumentar o contingente de policiais para solucionar um problema,
afetando tanto os migrantes quanto a cidade inteira. Mas, na ausência de
visibilidade e de uma política migratória clara, também sabiam que
permaneceriam condenados ao absurdo: "a solução está em Brasília".
O Conare
O Brasil assinou, em 1960, a Convenção de 195112 das Nações Unidas definindo o
Estatuto de Refugiado dentro de uma dupla reserva, circunscrevendo-o ao
contexto particular da Segunda Guerra Mundial: reserva geográfica (a convenção
somente se aplica a refugiados oriundos da Europa) e reserva temporal (refere-
se a acontecimentos ocorridos antes de 1º de janeiro de 1951). É somente no
contexto da redemocratização que o Brasil começa a levantar essas reservas e
receber pequenos contingentes oriundos do Irã e de Angola. Na época, mesmo os
vizinhos, chilenos e argentinos fugindo de regimes ditatoriais, somente
conseguiram entrar no Brasil como "estrangeiros temporários", e não como
refugiados.
Aderindo à Declaração de Cartagena (OEA,_1994), o Brasil finalmente abre mão,
em 1989, da reserva geográfica por meio do Decreto nº 98.602 e torna-se livre
para receber refugiados independentemente da origem. Mas é somente em 1997 que
uma lei específica é promulgada (Lei nº9.474). Ela define o mecanismo para a
implementação do Estatuto de Refugiados e cria o Conare.
Segundo Luiz_Barreto_(2010), ex-presidente do Conare, a lei foi, então,
considerada "pela própria ONU como uma das leis mais modernas, mais abrangentes
e mais generosas do mundo". Sua originalidade consiste notavelmente na
composição tripartite do Conare: governo, sociedade civil e Nações Unidas. A
diplomacia brasileira ainda ganhou destaque por sua participação, em 2004, na
implementação de um Plano de Ação para Fortalecer a Proteção Internacional dos
Refugiados na América Latina e por ter promovido a tese de que "assuntos
migratórios sejam tratados de maneira absolutamente vinculada aos direitos
humanos" (Barreto,_2010).
Entre 1997 e julho de 2010 (quando se iniciou o fluxo migratório dos
haitianos), o Brasil havia recebido um total de 4.306 refugiados,
principalmente de países como Angola e Colômbia. Em comparação a números
brutos, somente no ano de 2011, o Paquistão recebeu 1.702.700 refugiados, a
Alemanha, 571.500, e os EUA, 264.80013. Conforme sugere Barreto_(2010:21), o
que esses dados apontam é que a lei brasileira "é ainda pouco conhecida na
sociedade, é pouco conhecida dos operadores do direito, é pouco conhecida,
enfim, até dos meios acadêmicos". Nesse contexto, ao solicitar o Estatuto de
Refugiados, os 3.500 haitianos constituiriam, a princípio, um desafio para a
aplicabilidade de suas intenções e disposições.
O artigo 7º do Título II da Lei nº 9.474 estipula que "o estrangeiro que chegar
ao território nacional poderá expressar sua vontade de solicitar reconhecimento
como refugiado a qualquer autoridade migratória que se encontre na fronteira".
No contexto das leis migratórias restritivas vigentes no país, como veremos em
seguida, entrar como solicitante de refúgio era de fato o único caminho legal
que os haitianos poderiam seguir. No entanto, o artigo 1º define que será
reconhecido como refugiado todo indivíduo que, "devido a fundados temores de
perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou
opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade" (s.p). Nessa
base e sob a orientação do Acnur, foi determinado que os haitianos não poderiam
ser reconhecidos como refugiados porque sua situação não correspondia a nenhum
dos critérios da lei. Afinal, nem o medo sísmico, nem o surto de cólera, nem a
extrema precariedade econômica fundamentavam um "temor" tal como definido pela
lei. Logo, a situação configurou-se como um gigantesco hiato: requerentes do
estatuto de refúgio para entrar legalmente no Brasil, os haitianos não poderiam
permanecer como refugiados. Sua visibilidade, do ponto de vista legal, tinha
prazo marcado: a data de expiração do protocolo temporário.
Ainda assim, até a decisão final e estritamente individual do Conare, os
migrantes eram oficialmente requerentes do Estatuto de Refugiados e deveriam
ter sido tratados como tais. Ou seja, poderiam beneficiar-se das medidas de
assistência e proteção garantidas pelas leis e convenções internacionais. No
entanto, esse não fora o caso desses migrantes. Enquanto havia condições legais
para uma cooperação direta com o município e o estado, o Conare antecipou, de
certa forma, o indeferimento dos pedidos como justificativa da não
implementação dos dispositivos assistenciais. Por exemplo, no procedimento
padrão, os migrantes deveriam proceder a uma segunda entrevista, mas, no caso
dos haitianos, recomendou-se não fazê-lo, configurando-se como uma violação dos
direitos garantidos na legislação.
A gestão tripartite do Comitê, inicialmente pensada como virtude política e
instrumento de boa governança, potencializou uma desresponsabilização do poder
público: o dever de assistência foi sistematicamente terceirizado à sociedade
civil (Caritas, Pastoral do Migrante) sem coordenação e meios adequados.
Dois elementos podem explicar parte dessa situação. O primeiro versa sobre a
dificuldade de obter uma visão clara, por parte do Poder Executivo, do estatuto
político dos haitianos nos contextos nacional e internacional. Não podendo se
configurar como refugiados, então o que seriam? Haveria uma medida humanitária
"generosa" que viria aliviar o complexo processo legal? O que aconteceria uma
vez que fossem indeferidos como refugiados? O status internacional pós-
terremoto dos haitianos permitiria sua extradição?
O segundo elemento diz respeito ao próprio momento político do Conare na
condição de instituição. Em 2010, sua decisão de não reconhecer o Estatuto de
Refugiado político e de extraditar o italiano Cesare Battisti14foi ignorada, e
o caso, transferido ao Supremo Tribunal Federal, que acabou deferindo o pedido
do ex-ativista italiano. Àfrente desse caso, o Comitê ganhou visibilidade
política, polarizando a insatisfação dos parlamentares dos dois lados (pró e
contra a extradição de Battisti). Como resultado, em 2011, cerca de 20
processos tramitaram no Congresso para modificar ou até suprimir a lei
brasileira de refugiado e/ou redefinir as atribuições do Comitê.
Consequentemente, o Conare ficou politicamente fragilizado na tomada de
decisões que diziam respeito aos migrantes haitianos. Possivelmente, a
discrição foi uma das consequências desse processo.
Adotando uma postura de confidencialidade, o Conare antecipou o indeferimento
dos pedidos antes do fim de sua tramitação legal, transferindo-os para o CNIG,
que, em "condições especiais", pode conceder a permanência para não refugiados.
O CNIG
A posição do CNIG somou-se ao hiato no qual se transformou a situação de
Tabatinga. Resumindo, os haitianos não eram refugiados, mas podiam entrar no
Brasil como requerentes. Eles eram migrantes, mas não podiam entrar no Brasil
como tais. O motivo foi apontado em relatório do Acnur, o qual denotara que a
lei de migração nacional é ultrapassada e restritiva, o que resulta em
migrantes usando o processo de asilo em uma tentativa de legalizar a sua
permanência no Brasil. No entanto, foi pela lei estabelecida na Resolução
Normativa nº 27, de 25 de novembro de 1998, que alguns haitianos acabaram por
conseguir a permanência. A resolução estipula, em seu artigo 1º, que "serão
submetidas [sic] ao Conselho Nacional de Imigração as situações especiais e os
casos omissos, a partir de análise individual". Nessa base, o Conare passara a
transferir os pedidos para o CNIG, com o intuito de transformar, na medida do
possível, os "não refugiados" em migrantes em "situações especiais".
A transferência de centenas de casos constituiu por si só uma situação especial
para o próprio CNIG, que acabou criando um grupo específico de conselheiros
após ter "separado os haitianos" das demais solicitações. Passou-se a analisar
sequencialmente os casos que teriam relação direta com o terremoto desde
janeiro de 2010. Assim, essa é a base em que foi resolvida a aplicação da
resolução normativa referente à atribuição da permanência por "motivos
humanitários". Porém, tal critério provou ser de difícil avaliação: as
entrevistas tinham sido realizadas dentro dos critérios da Lei de Refúgio, e
não com o intuito de estabelecer uma relação direta ou não com o terremoto. Por
sua parte, os próprios migrantes não tinham sido informados do critério, de tal
modo que não especificavam espontaneamente de que forma tinham sido afetados.
Ainda, em desconformidade com a Lei de Refúgio, as entrevistas foram realizadas
sem tradutores profissionais, e muitas informações não foram formalizadas. O
critério, sobretudo, estabelecia um corte, impedindo a avaliação de situações
individuais "especiais" em outra base, pois um terço dos migrantes não vivia no
Haiti no momento do terremoto. Enfim, como apontou um assessor governamental,
"a distância do terremoto está ficando grande": na medida em que o fluxo
migratório aumentava, até quando o argumento seria justificável?
O CNIG autorizou a permanência no Brasil de 199 haitianos em março de 2011, de
237 em junho do mesmo ano e de 354 em setembro de 2012. Em outubro de 2011, um
conselheiro reconheceu que "uma luz amarela" estava acesa: "Se continuarmos,
abriremos portas para outros países. E a África?" A falta de uma determinação
política clara potencializou a dificuldade de suportar uma resolução. Sem
indeferir, o CNIG passou a pedir complementos individuais de informação pelo
viés do Conare, ciente de que tais pedidos dificilmente chegariam a uma
população em situação de trânsito sem resolução.
O ACNUR
O Acnur foi criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU)
em 14 de dezembro de 1950 para "proteger e assistir às vítimas de perseguição,
da violência e da intolerância"15. No Brasil, o trabalho do Acnur é pautado
pelos mesmos princípios e funções que em qualquer outro país: proteger os
refugiados e promover soluções duradouras para seus problemas. Como mencionado
anteriormente, a agência atua em cooperação com o Conare com representação
permanente. A princípio, como requerentes de refúgio à espera de uma decisão
individual final, os haitianos deveriam ter-se beneficiado da rede de
assistência estabelecida no Brasil pelo Acnur, mas, antecipando o indeferimento
legal, ou seja, que eles não seriam reconhecidos como refugiados, não foi esse
o procedimento utilizado para os quase 4 mil migrantes. O Acnur não
disponibilizou aos requerentes os direitos previstos para aqueles em situação
de refúgio: duas noites de hotel, assistência social e financeira de até R$
300,00 durante três a seis meses.
Como membro do Conare, o Acnur apontara para o fato de que os haitianos
requerentes de asilo não possuíam pré-requisitos básicos para serem
considerados refugiados. Essa orientação foi determinante no processo de
operacionalização do statusdos haitianos, dando legitimidade a decisões que
estimularam a não assistência: "a ONU diz que não são...". Entretanto, o Acnur
fizera um trabalho de advocacia, recomendando a não deportação dos haitianos,
e, nesse sentido, mobilizou para que uma solução "humanitária" fosse
encontrada.
Ressalta-se aqui o fato de esses migrantes serem considerados, em caráter
coletivo, "não refugiados" anteriormente a um parecer individual. Apesar de ter
um bom conhecimento da situação local (o Acnur mantém em Manaus sua única
representação no Brasil fora de Brasília), o escritório encontrou-se
incapacitado de tomar decisões. Nesse sentido, dois elementos requereram
objetivamente sua atenção e atuação.
O primeiro diz respeito ao tratamento coletivo de situações legalmente
individuais, embora tendo consciência de que um dos grandes dificultadores dos
movimentos migratórios contemporâneos está no caráter "misto" dos fluxos, ou
seja, na medida em que reúne migrantes econômicos, deslocados e refugiados. Com
relação aos haitianos, embora a grande maioria se encaixasse de fato na
primeira categoria, alguns casos remetiam a situações que poderiam se enquadrar
na Lei de Refúgio brasileira. Como exemplo, pode-se citar o relato de um homem
ameaçado por sua militância política junto a uma candidata opositora às gangues
de Porto Príncipe nas últimas eleições presidenciais (2010-2011). Esse caso foi
detectado pelo CNIG (e não pelo Conare). Assim, questiona-se aqui o número de
exemplos como esse que permaneceram na invisibilidade em razão das condições
nas quais os requerentes foram entrevistados e administrativamente processados.
O segundo elemento diz respeito ao tráfico internacional de seres humanos, o
qual é um dos critérios de demanda de proteção internacional. A clandestinidade
frequentemente implica o tráfico de seres humanos, sendo esse o caso de parte
dos haitianos que chegaram a Tabatinga. O Acnur recomenda, baseado na convenção
de 1951, que necessidades potenciais de proteção de pessoas que foram
traficadas ou estão em risco de serem traficadas devem ser levadas em
consideração a fim de serem protegidas. No entanto, essa prerrogativa não se
aplicou ao pedido dos haitianos, ainda que fosse notório que sua grande
vulnerabilidade tivesse sido acentuada pela atuação dos coiotes.
Parte dessa conjuntura explica-se pelo cenário geopolítico internacional tenso
(Afeganistão, Sudão, República Democrática do Congo, Líbia...), sendo o Brasil
percebido como "indo muito bem" e isento da problemática dos refugiados. Por
esse motivo, o Acnur do Brasil padece de uma dotação orçamentária reduzida,
incapacitando qualquer medida da escala que a situação dos haitianos requer. Em
outros termos, a invisibilidade dos haitianos refletia parte da invisibilidade
do Acnur do Brasil em âmbito internacional.
O Poder Executivo e a Política Externa
No contexto geopolítico de 2010-2011, a migração haitiana conformou, para o
Brasil, uma situação diplomática delicada. No momento da definição do statusdos
migrantes haitianos, o Brasil apresentava sua candidatura ao Conselho de
Segurança da ONU. Um forte apelo fora dado à implicação do país na ajuda à
regulamentação internacional dos direitos humanos, com o exemplo da
participação decisiva do Brasil na coordenação da Missão das Nações Unidas para
a estabilização no Haiti (Minustha). Isto é, o Haiti, nesse sentido,
apresentara-se como uma vitrine do savoir-faire (saber-fazer) brasileiro, e por
isso denotava importância estratégica. Nesse contexto, deportar maciçamente
migrantes haitianos seria fechar fronteiras para uma solução politicamente
insustentável. De outro lado, na ausência de um acordo subcontinental acerca
das migrações haitianas, e como as fronteiras dos países tradicionais de
migração estavam se fechando, o Brasil não podia por si só assumir uma postura
de "generosidade" sem correr o risco de estimular fluxos que seriam
politicamente custosos em nível nacional. Em outros termos, o hiato sentido nos
âmbitos municipal e estadual e dentro dos próprios órgãos federais refletia a
questão "ontológica" da diplomacia brasileira. De certo modo, também para o
Executivo a situação de Tabatinga fora "funcional", no sentido de que
funcionava como uma zona hermética, permitindo manter a distância entre o
problema e sua solução e amortecendo custos políticos.
O Desfecho: Uma Reabertura da Questão Migratória
Em janeiro de 2012, passados dois anos do início das migrações haitianas na
Amazônia e com a já consolidada situação humanitária em Tabatinga, essa
irresolução política já não era mais possível. Entretanto, o caso dos haitianos
tinha ganhado notoriedade midiática e, em novembro de 2011, alcançado o estágio
de "questão nacional".
Em Brasileia, pequena cidade localizada na fronteira do Acre com o Peru, onde
haitianos também passaram a chegar, estruturou-se uma melhor articulação com o
governo federal, facilitando a politização da questão. A implementação -
altamente simbólica - de um projeto de assistência da organização não
governamental dos MSF em Tabatinga também pode ter contribuído para uma maior
conscientização do problema.
Nesse período de dois anos, fora decidido que os haitianos que estavam em solo
brasileiro seriam excepcionalmente regularizados. Em contrapartida, novos
migrantes seriam impedidos de entrar no Brasil como requerentes de refúgio.
Considerados ilegais, poderiam ser deportados. Uma cota de 100 vistos mensais
por dois anos seria, entretanto, concedida a requerentes a partir do solo
haitiano.
Rapidamente, porém, o dispositivo mostrou suas insuficiências para conter o
fluxo e as regularizações por motivos humanitários se aceleraram, chegando a
13.669 em 2013 (fonte: Ministério da Justiça). Logicamente, em abril de 2013, o
CNIG determinava o fim do limite de 1.200 vistos anuais e devolvia a "questão
haitiana" para uma reforma em profundidade da Política Nacional de Migração.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A chegada dos haitianos à cidade de Tabatinga constitui um evento crítico na
história migratória brasileira: a entrada do Brasil nas rotas migratórias
globalizadas. Tal evento confirma a atratividade do país no novo cenário
geopolítico do século XXI. Revela também que, desde a implementação das cotas
migratórias na década de 1930, os tempos mudaram: a globalização dos fluxos de
comunicação e o transporte tornam consideravelmente complexo o controle dos
fluxos migratórios.
Porém, como demonstrado neste artigo, a situação de Tabatinga perdurou
justamente porque não alcançou a visibilidade necessária para ser reconhecida
como um evento crítico. Nem refugiados nem migrantes, os haitianos sofreram por
sua posição intersticial entre uma Lei de Refúgio moderna, mas inaplicável a
amplos movimentos coletivos, e uma lei de migração "ultrapassada e restritiva".
Essa indeterminação legal estava atrelada a uma complexa invisibilidade
política. Nos planos locais, estaduais ou federais, a chegada dos haitianos
surgiu como um fato singular, atrapalhando os mecanismos orçamentários e de
governança, desafiando os dispositivos de assistênciae trazendo questões
inconfortáveis sobre a oportunidade política de "cuidar dos outros" em um
contexto de competição generalizada pelos recursos do Estado. Por esses
motivos, Tabatinga funcionou tacitamente como espaço de contenção.
Mas a irresolução também foi antropológica. Como qualquer momento de "primeiro
contato", a chegada dos haitianos deslocava a fronteira da alteridade e da
identidade. No contexto amazonense, em que a diferença étnica e cultural
tornou-se uma via importante de acesso a direitos fundamentais, a aparição
dessas "alteridades radicais" ameaçava perturbar as fronteiras - tênues - das
alteridades locais.
No Brasil voluntariamente multiculturalista do século XXI, que promove as
"diferenças" e a "diversidade" no seio de uma população de cidadãos desiguais,
mas fortemente integrados à comunidade nacional, a chegada dos haitianos
reavivou a pergunta sempre angustiada do "nós". Contudo, logo essa pergunta se
encontrou agitada pelo vivo imaginário humanitário de um contexto ainda marcado
pelas imagens do terremoto. De vítimas a transmissores de HIV, de invasores a
sujeitos da solidariedade internacional, os haitianos passaram por
transfigurações múltiplas que também contribuíram para a indeterminação de sua
situação. Quantos movimentos espontâneos de assistência esboçados em nome da
solidariedade foram abortados por receio do contato?
Rompendo com essa hesitação, foi finalmente com base nos argumentos da
generosidade e da compaixão que o Poder Executivo enfrentou a situação
apresentada. Aos haitianos que já estavam em solo brasileiro, vistos especiais
foram ofertados por razões humanitárias. Aos que ainda poderiam vir ao Brasil
uma cota de 100 vistos mensais foi ofertada. Segundo o Itamaraty, a medida teve
o intuito tanto de limitar a "fuga de cérebros" do Haiti de pessoas importantes
para reconstruir o país quanto de não alimentar uma rota criminosa, a qual
poderia estimular a ilicitude das migrações, como o tráfico de pessoas e casos
de trabalhadores escravos. A supressão desta política de cotas em 2013 mostrou
os limites e os artifícios do argumento da generosidade e seu regime de exceção
perante a realidade dos fluxos migratórios globalizados.
A respeito desse ponto, Fassin (apud Vidal,_2011) denomina "governo
humanitário" um poder que tira sua força do lugar central das emoções na
definição das políticas destinadas a aliviar o sofrimento de outrem em nome da
experiência da compaixão. Porque essa lógica de "governo humanitário" mantém a
distância e entretém uma relação permanente de desigualdade, Fassin faz dela a
parte sombria das democracias modernas. No mesmo registro argumentativo,
Boltanski_(1993)aponta, em seu livro sobre o "sofrimento à distância", que "a
política da piedade", que somente reconhece pessoas nas dimensões da felicidade
ou da infelicidade, faz obstáculo a uma verdadeira "política da justiça".
Aplicado à situação de Tabatinga, esse debate geral aponta para a evidência de
que a generosidade invocada de vistos humanitários e de cotas restritivas não
substitui o que deveria ser uma consistente política migratória. Da mesma
maneira, na ausência da compreensão e da análise de múltiplos níveis políticos
de gestão das falhas de assistência e proteção, outras situações análogas à de
Tabatinga poderão vir. O evento crítico de Tabatinga, mesmo sendo pouco
reconhecido como tal, ainda pode fornecer a ocasião ímpar de transformar a
singularidade de sua erupção na exemplaridade de uma resposta e tratamento
político global.
1Frédéric Vandenberghe (IESP/UERJ) participou da primeira fase da pesquisa em
Tabatinga. Agradecemos muito por sua valiosa contribuição à coleta de dados e
análise.
2Disponível em <http://oglobo.globo.com/pais/acre-sofre-com-invasao-de-
imigrantes-do-haiti-3549381>.
3No último mês do fluxo migratório, a Igreja Católica responsabilizou-se pelos
aluguéis daqueles que não eramcapazes de fazê-lo por sua própria conta. Uma
compensação financeira pelo Estado do Amazonas foi negociada.
4Disponível em <http://www.aerzte-ohne-grenzen.at/fileadmin/data/pdf/reports/
2009/MSF_Report_Malta_2009.pdf.
5Disponível em <http://www.blogmarcossantos.com.br/2012/02/08/homerode-miranda-
leao-medico-e-vereador-alerta-riscos-de-colera-em-haitianos/>.
6Disponível em <http://www.blogdafloresta.com.br/o-grito-da-saude/9588-
haitianos-controle-sanitario-de-fronteira-homero-de-miranda-leao-.html>.
7MSF, que não participou dessa operação, lembra que, ao aplicar os testes, é
necessário que se tenha um conjunto de ações (detecção, orientação, tratamento,
acompanhamento), o que não foi o caso, segundo relatos da população testada.
8Disponível em <http://www.agenciaaids.com.br/noticias/interna.php?id=18464>.
9Dados obtidos pormeio da Ficha A, preenchida pelos agentes comunitários de
saúde brasileiros em colaboração com haitianos voluntários.
10Foram utilizados instrumentos qualitativos, como: escuta ativa, visita
domiciliar, grupos focais, role-play, desenhos e entrevistas individuais.
11Restrita à situação de Tabatinga, a análise não dá conta da maneira com que a
assistência acabou se organizando para os haitianos que chegaram a Manaus a
partir de março de 2011, quando foi criada uma Comissão de Apoio aos Haitianos
pelo governo do Estado, reunindo várias secretarias e organizações da sociedade
civil.
12Disponível em http://www.acnur.org/t3/portugues/informacao-geral/o-que-e-a-
convencao-de-1951/
13Disponível em <http://www.unhcr.fr/501145f39.html>.
14Ativista dos Camisas-Vermelhas, Battisti foi acusado do assassinato de quatro
pessoas na década de 1970 e recebeu pena de prisão perpétua na Itália. Escapou
em 1981, refugiou-se no México e, em seguida, na França. Após a decisão da
França, em 1994, de extraditá-lo para a Itália, ele fugiu para o Brasil. Preso
em 1997, cumpriu quatro anos de prisão no Brasil beneficiando-se, finalmente,
de uma decisão de não extradição. Assumida no último dia do mandato do
presidente Lula, em 31/12/2010, após debates tensos no Supremo Tribunal
Federal, a decisão provocou uma tensão diplomática com a Itália.
15Disponível em <http://www.acnur.org/t3/portugues/informacao-geral/breve-
historico-do-acnur/>.