Autonomia, integração regional e política externa brasileira: Mercosul e Unasul
INTRODUÇÃO
Este artigo tem o objetivo de analisar como a ideia de autonomia na política
externa brasileira se relaciona com as posições do Brasil nos processos de
integração regional no Cone Sul e na América do Sul, no período de 1991 a 2012.
Procuraremos entender o significado do conceito de autonomia em termos de
políticas brasileiras para a região e suas consequências para o Mercado Comum
do Sul (Mercosul) e para a União de Nações Sul-Americanas (Unasul).
Consideramos que as posições do Brasil têm papel relevante para a dinâmica
desses processos. Para isso, identificamos mudanças e continuidades. O que
queremos é entender em que medida a posição do Brasil fortalece ou não os
processos de cooperação e de integração.
Numa perspectiva histórica, a autonomia é um objetivo primordial de qualquer
Estado-nação, mesmo tendo características que se adaptam ao longo do tempo.
Segundo Fonseca Jr., "as expressões do que é autonomia variam histórica e
espacialmente, variam segundo interesses e posições de poder" (1998:361). O
conceito admite diferentes abordagens em função da configuração do sistema
internacional em um determinado período histórico, bem como das visões de mundo
da população e das elites. Historicamente, para o Estado brasileiro, a ideia de
autonomia significou, frente ao mundo exterior, capacidade de decisão diante
dos centros de poder internacional, viabilizando a possibilidade de o país
realizar reais escolhas. Isso valeu em diferentes momentos com maior ou menor
intensidade, mas é um fio condutor constante, válido até os dias de hoje, na
segunda década do século XXI. Até certo ponto, o Mercosul e a Unasul não seriam
vistos como limitadores de autonomia de ação, ao contrário, o compartilhamento
de interesses aumentaria as capacidades externas. Esta política manteve-se em
diferentes governos, desde 1985, com o início do governo José Sarney.
Entretanto, há posições, com ressonância em setores do empresariado e em
correntes políticas, inclusive em parte dos intelectuais, no sentido de
estabelecer ou de restabelecer o significado de autonomia, de modo a desenhar
uma política exterior pela qual se reduz o significado do Mercosul, sobretudo
das relações com a Argentina. O Estado brasileiro manteve e mantém forte
interesse regional nos governos Fernando Henrique Cardoso, Luiz inácio Lula da
Silva e Dilma Rousseff, mas seu aprofundamento, em particular no caso do
Mercosul, vincula-se ao cenário global, sendo este um importante fator
condicionante da sua dinâmica.
Desde a aproximação entre o Brasil e a Argentina, em meados dos anos 1980, com
a volta dos governos civis, passando pela formação do Mercosul, em 1991, até a
criação da Unasul, em maio de 2008, é possível verificar mudanças
significativas com respeito ao papel exercido pela integração regional em
relação aos objetivos da política externa do Brasil. A busca pela expansão
geográfica da integração e/ou da cooperação do Cone Sul para a América do Sul
tem sido uma característica central da política brasileira, e está relacionada
com o peso do tema da autonomia na ação externa do país e com a constante
preocupação pela manutenção do formato intergovernamental do Mercosul. Nos anos
2000, fortalece-se o objetivo dos governos brasileiros de ampliar a integração
mediante a incorporação de um maior número de Estados membros. Ao mesmo tempo,
há uma ação que visa ampliar o escopo das iniciativas integracionistas, criando
novas estruturas de concertação política e de articulação física sul-americana
(Gardini e Lambert, 2010). Decisões sobre diferenças substantivas no Mercosul
no tocante ao comércio e à integração produtiva são adiadas. Provavelmente, não
existindo documentos oficiais neste sentido, pode ter havido uma conexão entre
o objetivo de autonomia e uma política de menor pressão por uma integração
profunda, que também implicaria custos para o Brasil. Do ponto de vista da
estratégia brasileira de integração sul-americana, a Unasul desempenha papel
importante, já que alguns países consideram o status de associado, por meio de
uma área de livre comércio, adequado para suas relações com o Mercosul. São os
casos de Chile, Colômbia e Peru, que têm tarifas muito baixas ou acordos de
livre comércio com os Estados Unidos.
A Unasul é uma iniciativa de integração regional que associa os países sul-
americanos, segundo os termos de seu Tratado Constitutivo, buscando fortalecer
a soberania e a autonomia nacional dos países-membros1. O Brasil havia dado
início a um movimento nesse sentido em 1993, desembocando, em 2008, na Unasul.
O ex-presidente Itamar Franco, com apoio do Mercosul, da Colômbia e da
Venezuela, em 1993 convoca reunião dos países sul-americanos para a criação, em
dez anos, da Área de Livre Comércio Sul-Americana, a ALCSA. Cardoso e Lula
deram continuidade a este movimento, formalizado como instituição regional em
2008. Entre seus objetivos está o fortalecimento de mecanismos de cooperação
regional, buscando articular um espaço econômico e político sul-americano,
preservando os espaços nacionais de formulação de política. Neste texto,
estudaremos se a Unasul, na perspectiva da política externa brasileira,
constitui um fato singular ou uma repetição dos padrões de integração presentes
em outros processos, principalmente no Mercosul. Ou seja, em que medida, além
de novo fórum institucional, há o início de um novo padrão de integração ou de
cooperação.
É relevante observar que o conceito de integração regional, diferentemente da
cooperação, segundo parte da literatura, remete a um processo de transferência
de lealdades das elites do Estado nacional para o âmbito regional. Em outras
palavras, trata-se de uma dinâmica de transferência de parte das funções que
eram desempenhadas pelo Estado para o âmbito regional (Haas, 2004; Matlary,
1994; Mariano, 2007), com consequente diminuição da margem de ação nacional
autônoma. Argumentaremos que o que se observa na América do Sul e, em
particular, na política brasileira é diferente. O fortalecimento do Estado
continua a dar-se do ponto de vista de seu fortalecimento nacional e a
autonomia é um elemento definidor da ação externa, sendo objeto de intensa
discussão o seu grau de relativização. Em outros termos, na sociedade e nas
elites não há consenso no que tange à transferência de funções para o âmbito
regional, o que não é diferente do que acontece nos outros países da região.
A partir de 2003, em particular na percepção de funcionários mais diretamente
vinculados à Presidência da República, a atuação do país na América do Sul
exige algum tipo de perda de autonomia, de modo a viabilizar a integração num
contexto de crescente assimetria com os países do entorno, e, ao mesmo tempo,
permitir o aumento da autonomia do Brasil nas outras esferas internacionais.
Possivelmente, Guimarães (2012) seja quem melhor expressou esta posição. Assim
deve ser compreendido o conceito de autonomia pela diversificação (Vigevani e
Cepaluni, 2007), quando outros parceiros se tornam prioritários. Pode-se então
entender por que movimentos aparentemente não convergentes puderam ser
realizados: 1) não aprofundamento do Mercosul; 2) ampliação do Mercosul, sem
novos avanços no projeto de mercado comum; 3) investimento político e
institucional para a criação e o funcionamento da Unasul; 4) ênfase nas
parcerias estratégicas com China, Rússia, Índia e África do Sul.
Partindo dessas considerações iniciais, o artigo está organizado da seguinte
forma: na primeira seção, discutimos o conceito de autonomia na política
externa brasileira e a forma como interpretá-lo na relação sub-regional. Na
seção seguinte analisamos as posições do país no Mercosul e suas consequências
para o formato que a integração assume. Na terceira, discutimos a possibilidade
de a Unasul representar uma nova dimensão de autonomia na política externa
brasileira. Por fim, nas considerações finais, retomamos os principais
argumentos apresentados.
O CONCEITO DE AUTONOMIA E A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA
Nas produções acadêmicas latino-americana e brasileira sobre Relações
internacionais, a autonomia é uma noção que se refere a uma política externa
livre dos constrangimentos impostos pelos países poderosos, tanto como um
objetivo a ser perseguido na ação externa, quanto como um conceito explicativo
das opções internacionais. Nesse sentido, Tickner considera
que el objeto de estudio de los académicos de relaciones
internacionales puede variar dependiendo de los retos que enfrentan
los países donde residen y realizan sus labores profesionales. Esto
se debe principalmente al interés de muchas comunidades académicas,
en América Latina y otras partes del mundo, de construir un tipo de
conocimiento sobre la política mundial que es susceptible de ser
convertido en fórmulas políticas aplicables por los tomadores de
decisiones (2012:26).
Para o Estado brasileiro, e também para outros países latino-americanos, a
autonomia na ação internacional é algo a ser reafirmado constantemente. Isso
difere da situação em que se encontram alguns países desenvolvidos, onde o peso
econômico, político ou militar já garante, em si, um grau elevado de autonomia.
Giacalone (2012) contribui para esse debate, explicando por que o tema da
autonomia se situa no centro do debate acadêmico e político de relações
internacionais na América Latina, com foco nos casos de Brasil, Argentina,
México, Venezuela, Colômbia e Chile. De acordo com a autora (ibidem:12), a
maior parte dos debates de relações internacionais na América Latina "referem-
se à possibilidade de exercer uma política externa autônoma de modo a diminuir
as consequências da dependência econômica". Essa concentração temática
resultaria na existência de um conjunto de preocupações próprias à região.
Neste artigo buscamos contribuir para a compreensão de como a noção de
autonomia se verifica e evolui no caso brasileiro, influindo sobre as
possibilidades de cooperação e integração em âmbito regional. Isto é, não
destacamos a autonomia como caráter valorativo e como instrumento efetivo e
ideológico frente aos mais poderosos, mas concentramos a atenção em seu
significado vis-à-vis os parceiros regionais.
Pinheiro (2004:7) argumenta que "no plano das ideias, valores e doutrinas que
orientam a ação externa do Brasil ao longo do último século destaca-se a busca
pela autonomia". Do ponto de vista acadêmico e político, é uma condição
diferente do entendimento da maior parte dos autores do mainstream clássico das
Relações internacionais, que definem autonomia como o reconhecimento jurídico
de Estados soberanos considerados como "unidades iguais" em uma ordem
internacional anárquica.
Em vez de estar enraizada na noção jurídica de soberania, no Brasil a autonomia
é um conceito político, um instrumento para salvaguardar-se dos efeitos mais
nocivos do sistema internacional. Do ponto de vista dos países poderosos, a
autonomia externa não é uma preocupação de maior relevância. Mello (2000)
considera que a noção de autonomia fundamenta a articulação entre os conceitos
de independência, diversificação e universalismo da política externa
brasileira. A independência constituiria condição prévia da autonomia, enquanto
a diversificação e o universalismo remeteriam aos meios que deveriam ser
promovidos para alcançá-la. O termo autonomia, no caso brasileiro, remete à
ideia de ampliação das margens de atuação ou de escolha do Estado, tendo em
conta a percepção das condições do sistema doméstico e internacional em um
determinado período. Portanto, é uma noção relativa, depende do contexto
doméstico e/ou internacional em que a política externa é implementada (Mariano,
2007). Além disso, a autonomia é sempre uma questão de grau, sendo esse aspecto
particularmente importante para as discussões sobre integração regional, que,
por definição, irão implicar algum grau de relativização da autonomia. Como
veremos nas seções seguintes, na perspectiva do Brasil, nos anos 2000, há
propensão em aceitar maiores graus de cooperação. Por exemplo, na área de
segurança regional, com limitações setoriais de autonomia em prol de objetivos
de integração sul-americana distintos dos estabelecidos para o Mercosul.
A noção de autonomia é caracterizada pela capacidade do Estado para implementar
decisões baseadas em seus próprios objetivos, sem interferência ou restrição
exterior, e pela habilidade em controlar as consequências internas de processos
ou eventos produzidos além de suas fronteiras. Como dissemos, a autonomia é
sempre uma questão de grau, dependendo dos atributos de poder dos Estados e das
condições externas que eles enfrentam. Na América Latina, a partir da década de
1970, a ideia de autonomia tem sido pensada como um meio de "libertar" os
países da região de sua dependência externa. De fato, a origem da utilização do
conceito é remota, e para alguns países da periferia ela aparece no século XIX.
No Brasil, fases como a do nacionalismo, da Política Externa independente
(governos Jânio Quadros e João Goulart) e do Pragmatismo Responsável (governo
Ernesto Geisel) refletem o grau de enraizamento do conceito. Jaguaribe (1979:
91-93) descreve o sistema internacional como uma ordem hierárquica. Embora os
países com capacidade para exercício pleno da autonomia não possam garantir
total inviolabilidade de seus territórios nacionais, eles oferecem
consideráveis obstáculos para as ações de seus inimigos e desfrutam de margem
de manobra suficiente para conduzir suas políticas externas. As nações
dependentes, por outro lado, embora formalmente independentes e soberanas,
historicamente são constrangidas pelas grandes potências.
A autonomia é uma função das condições estruturais que Jaguaribe (ibidem:96-97)
descreve como "viabilidade nacional" e "permissibilidade internacional". O
primeiro termo refere-se à existência de recursos humanos e sociais adequados à
capacidade de inserção internacional e ao grau de coesão sociocultural dentro
das fronteiras nacionais. O segundo conceito relaciona-se com a capacidade de
neutralizar as ameaças externas, e depende de recursos econômicos e militares e
alianças com outros países. Jaguaribe também identifica dois fatores
fundamentais para a existência da autonomia na periferia: autonomia tecnológica
e empresarial e relações favoráveis com o centro.
Em suas reflexões sobre a autonomia, Puig (1980, 1984), diferentemente de
autores realistas como Morgenthau e Waltz, argumenta que o sistema
internacional não é caracterizado pela anarquia, mas por uma hierarquia
internacional. Conforme Puig (1980:149-155), a obtenção da autonomia passa por
quatro estágios: 1) o status formal de Estado soberano; 2) os benefícios
materiais suficientes para elaborar e pôr em prática um projeto nacional; 3) a
aceitação das políticas da potência em suas áreas de interesse estratégico em
troca do exercício de autonomia em setores de igual importância para os países
latino-americanos, como por exemplo, na escolha de seus modelos de
desenvolvimento; e 4) a ruptura da dependência com o centro e ações de não
obediência. Para Puig ' assim como para Jaguaribe ' a autonomia requer graus
adequados de "viabilidade nacional", uma considerável quantidade de recursos
domésticos e um compromisso explícito das elites com um projeto nacional. Os
dois autores também compartilham a noção de que a autonomia requer a
mobilização de recursos de poder na periferia. Recolhendo parte destes
argumentos, neste artigo defendemos a ideia de que o conceito de autonomia na
perspectiva do Estado brasileiro, na década de 1990 e nos anos 2000, parte do
pressuposto de que alianças regionais potencializam a capacidade de resolução
de problemas, fortalecem a integração e/ou a cooperação política e econômica e
melhoram a estratégia negociadora internacional. Nessa perspectiva, a
integração e a cooperação regional constituem um objetivo estratégico.
Avançando o entendimento do conceito, Fonseca Jr. (1998) argumenta que a
diplomacia brasileira no período da Guerra Fria se caracteriza pela autonomia
pela distância. Já na década de 1980, esta mesma diplomacia ganharia uma nova
roupagem em virtude da democratização brasileira, ao final da Guerra Fria, da
aceleração do processo chamado de globalização e da entrada de "novos temas" na
agenda internacional (questões ambientais, direitos humanos, reforma do sistema
internacional de comércio). Em suma, a própria ideia de autonomia ganharia nova
conotação. Segundo o autor, a primeira expressão de autonomia seria a de manter
distância em relação às ações e aos valores do Bloco Ocidental; significaria
uma atitude crítica em relação às superpotências. Por outro lado, a autonomia,
no mundo contemporâneo, não significaria mais "distância" dos temas polêmicos
para resguardar o país de alinhamentos indesejáveis. Ao contrário, segundo
Fonseca Jr. (1998), a autonomia se traduziria por "participação", por um desejo
de influenciar a agenda participando dos processos decisórios.
Na mesma linha de raciocínio, Russell e Tokatlian (2003) argumentam que a
aceleração da globalização nas últimas décadas teria modificado sensivelmente o
espaço de ação dos países latino-americanos. Esse novo contexto global
demandaria que a autonomia fosse definida de uma forma diferente, havendo a
necessidade de transição da autonomia antagônica (que é similar à autonomia
pela distância) para a autonomia relacional (que é parecida com a autonomia
pela participação).
A autonomia relacional traduz-se em uma crescente interação, negociação e
participação na elaboração das normas e regras internacionais. A autonomia não
é mais definida "pelo poder de um país para isolar-se e controlar o processo
externo e eventos, mas sim pelo seu poder de participar e efetivamente
influenciar em questões globais, particularmente em todos os tipos de
organizações internacionais e regimes políticos" (Russell e Tokatlian, 2003:
16). Para Russell e Tokatlian (2003:19), a autonomia relacional deve ser
alcançada por meio de compromissos e negociações com grande participação da
opinião pública, fortalecendo o aspecto democrático deste tipo de
desenvolvimento de política externa. O abandono parcial de elementos de
soberania (marca da autonomia antagônica) é feito no sentido de desenvolver
instituições e normas para a promoção do bem comum. Percebemos nessa
perspectiva a ideia da inserção propositiva na lógica dos regimes
internacionais prevalecentes. Briceño Ruiz entende que "las recientes
reflexiones sobre densidad nacional y autonomia relacional confirman que el
desarrollo económico y la autonomia política continúan siendo ideas centrales
en la reflexión integracionista latinoamericana" (2012:54).
Cada um dos conceitos discutidos (autonomia pela distância, pela participação,
pela diversificação), está enraizado na tradição diplomática brasileira.
Contudo, não necessariamente estas estratégias são bem sucedidas a ponto de
trazerem benefícios para, por exemplo, o intercâmbio comercial, a atração de
investimentos diretos, a influência nos organismos internacionais, a
consolidação dos esforços de integração regional ou o prestígio político e a
influência nos temas da paz e da guerra. Por conta da forma como a questão da
autonomia se insere nos objetivos de ação externa dos Estados latino-
americanos, particularmente no caso do Brasil, a experiência da integração tem
particularidades importantes, inclusive consequências teóricas a serem
consideradas.
A integração no Cone Sul e na América do Sul, portanto no Mercosul e na Unasul,
de certa forma destoa das teorias desenvolvidas por neofuncionalistas (Matlary,
1994; Haas, 2004) e por liberal-intergovernamentalistas (Moravcsik, 1994,
2005). Para os primeiros, integração significa um fenômeno de spill over
voltado à atenuação do poder nacional, tendencialmente direcionado ao
favorecimento da supranacionalidade. Para os segundos, a interação combinada
dos interesses nacionais garante a integração. Para os liberal-
intergovernamentalistas, a autonomia nacional subsiste, mas a permanência e o
avanço da integração resulta da combinação de interesses nacionais. Defendemos
a ideia de que para o Estado brasileiro, para suas instâncias formuladoras de
política externa, os diferentes blocos regionais do qual participa devem
contribuir para o fortalecimento da autonomia dos estados-membros. Para
funcionalistas e liberal-intergovernamentalistas a integração surge da demanda
dos atores domésticos e grupos de interesse dos Estados. Tem como pressuposto
um grau razoável de interdependência econômica dos membros (Choi e Caporaso,
2002). Essas características, decorridos 23 anos do Tratado de Assunção de
1991, não tiveram um crescimento qualitativo importante. Não há no Brasil forte
demanda pela integração, nem houve crescimento vigoroso da interdependência,
sem desconhecer que há avanços históricos em pontos importantes: por exemplo, o
quase desaparecimento de hipóteses de guerra em todo o subcontinente e uma
maior presença de investimentos intrarregionais. Ao mesmo tempo, o país
manteve, de forma consequente, durante 30 anos, desde 1985, forte presença em
favor da integração e da cooperação regional, o que se explica pela capacidade
de conectá-las com a perspectiva da autonomia. Na seção seguinte trataremos do
impacto da dimensão da busca de autonomia para a política brasileira no
Mercosul para a integração no Cone Sul.
A QUESTÃO DA AUTONOMIA E A POLÍTICA DO BRASIL PARA O MERCOSUL
O início da integração entre o Brasil e a Argentina2 em meados dos anos 1980
correspondeu a uma lógica desenvolvimentista, que visava estimular a competição
empresarial para a modernização e a inserção competitiva no sistema econômico
internacional (Peña, 1991). Essa fase fortaleceu, em parte das elites
brasileiras, incluindo grupos empresariais e funcionários do Estado, a
percepção de que o compartilhamento de interesses melhoraria a inserção
internacional. Mesmo no momento do Tratado de integração, Cooperação e
Desenvolvimento, de 1988, que desenhou o Mercosul e deu caráter estável e forte
à aliança Argentina-Brasil, prevaleceu a perspectiva intergovernamentalista.
No processo de revisão da política internacional e das relações econômicas
externas, investimentos, relações financeiras, comércio, em órgãos como
Ministério da Fazenda, Bancos do Brasil e Central, e de forma gradual pela
diplomacia brasileira, a aproximação Brasil-Argentina era vista como
fundamental em termos de política internacional. Conquistava adeptos em parte
da diplomacia e, ao mesmo tempo, estava ligada à estratégia do paradigma
universalista (Flecha de Lima, 1989:30-31). Ela fortalecia a ideia de uma
melhor presença no mundo, política e econômica, assim como dava maior poder de
agenda aos seus membros na formulação de regimes e de instituições
internacionais. Para alguns, avançar no processo de integração regional
aumentaria a capacidade nas relações com os maiores centros de poder,
particularmente com os Estados Unidos (Amorim e Pimentel, 1996). Essas
perspectivas permitiram que a aliança pela integração viabilizasse acordos
intraburocráticos e sustentação de parte de segmentos da sociedade. A aliança
era composta por setores ligados à tradição nacionalista e também por aqueles
que desejavam maior inserção do Brasil na ordem internacional liberal.
Dessa forma, é estabelecido o nexo entre a integração regional, o Mercosul e a
aliança com a Argentina, com a preservação dos valores da autonomia e da
diversificação de parcerias. O regionalismo não diminuiria, mas reforçaria o
paradigma universalista de inserção internacional brasileiro. A ideia da
"modernização via internacionalização" (Przeworski, 1993), que traria reflexos
diretos ao paradigma de inserção internacional ao longo dos anos 1990, não se
chocou com o regionalismo. O conceito de regionalismo aberto foi utilizado na
perspectiva da plena inserção internacional, aproveitando as vantagens de uma
área de livre comércio e, a partir de 1995, de uma união alfandegária. Não
foram criados os instrumentos necessários para dar sustentabilidade à
integração, isto é, instrumentos que permitissem ações públicas de
desenvolvimento social e econômico, assim como a atenuação das grandes
desigualdades entre os Estados e internamente a cada Estado. A ideia de
autonomia permaneceu enraizada na administração e entre empresários nos anos
1990, sob a égide do conceito da autonomia pela participação (Fonseca Jr.,
1998). O impulso empresarial inicial, em particular nas empresas do setor
automotivo, voltadas para o mercado global, não continuou forte com o decorrer
dos anos. Já nos anos 2000, a tendência tem se alternado. Novos investimentos,
empreiteiras brasileiras investindo na região, mas também retrocessos em
investimentos, como os que identificamos nesta década de 2010 de parte do
Brasil na Argentina. Empresas como Vale, Petrobras, e outras, como Deca, JBS e
ALL, tendem a retirar-se. Não há uma tendência totalmente definida depois de um
período de fortalecimento de investimentos transfronteiriços e cruzados.
Nos anos 1990, portanto, a noção de autonomia não foi anulada com o Mercosul.
Ela se apresentava de outras maneiras. Manifestava-se semelhantemente em
relação aos países ricos, com os quais se buscavam maiores vínculos, por serem
considerados fundamentais nos aspectos econômicos e políticos, sem abdicar dos
interesses nacionais considerados fundamentais (Cardoso, 2001). Paradoxalmente,
nas relações do Brasil com o Mercosul, a ideia de autonomia se manifesta sob a
forma de insistente revalorização da potencialidade de ação nacional, não
sujeita às amarras que uma integração institucionalizada poderia acarretar.
Assim, a lógica instrumental vai se afirmando e prevalece. Segundo afirma o ex-
ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia (1995-2001):
O Mercosul é um processo essencialmente aberto ao exterior. No caso
do Brasil, o desenvolvimento do Mercosul é parte de um amplo esforço
de abertura econômica, liberalização comercial e melhor inserção na
economia mundial. O processo de integração não é concebido como um
fim em si mesmo, mas como instrumento para uma participação mais
ampla no mercado global (Lampreia, 1999:135).
A partir de 2003, o Mercosul muda relativamente a sua ênfase comercial e passa
a considerar de modo mais direto as questões sociais e institucionais. As
discussões em torno do Parlamento do Mercosul, do Mercosul Social, do Protocolo
de Olivos e do Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (Focem) representam
a potencialidade de novas dimensões na integração (Mariano, 2011). O Brasil
passa a reconhecer de forma explícita a existência de assimetrias estruturais
no Mercosul. Mesmo assim, as tentativas de oferecer contrapartidas aos outros
sócios não tiveram a densidade necessária. Segundo o ex-presidente do Brasil:
O Mercosul tem diante de si o desafio de reinventar-se e atender às
expectativas de todos os seus membros. Temos de desenhar mecanismos
que equacionem em definitivo as assimetrias, inclusive com o aporte
de novos recursos. Precisamos encarar de frente as questões relativas
ao fortalecimento institucional e à implementação, em cada um de
nossos países, das decisões e acordos que tomamos no bloco. Esta nova
etapa do Mercosul que estamos iniciando exigirá que suas instituições
estejam à altura de nossas ambições [...] Mais Mercosul significa,
necessariamente, mais institucionalidade. (Lula, 2006)
Entretanto, na sociedade brasileira, essa perspectiva não apenas não é
consensual como também enfrenta resistências, o que explica os parâmetros reais
da ação do Estado. Em encontro realizado em novembro de 2004, que reuniu
empresários de diversos segmentos e entidades como a Federação das indústrias
do Estado de São Paulo (Fiesp), Associação Brasileira dos Fabricantes de
Calçados (Abicalçados), Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos
Eletroeletrônicos (Eletros) e Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB),
foram feitas diversas ressalvas quanto à importância do aprofundamento do
Mercosul para o Brasil. Há entre empresários uma intensa discussão sobre a
necessidade de retroceder de uma união alfandegária, ainda imperfeita, para uma
área de livre comércio. Segundo os representantes daquelas entidades, o
Mercosul seria uma âncora que segura o Brasil nas negociações internacionais,
dificultando acordos bilaterais com os Estados Unidos e a União Europeia (Valor
Econômico, 16/11/2004). De acordo com Fonseca e Marconini (2006:87) "seria
recomendável que as autoridades brasileiras tivessem a ousadia realista de
converter o Mercosul, extinguindo o cada vez mais problemático regime de união
aduaneira, para tornar-se uma área de livre-comércio".
O desenvolvimento do Mercosul não se apresenta uniforme e as suas variações têm
relação com as diferentes dimensões da autonomia na política externa
brasileira. Pode-se apontar três fases distintas: a primeira, que antecede o
primeiro mandato de Cardoso, vai de 1991 a 1994 (do Tratado de Assunção ao
Protocolo de Ouro Preto). É durante esse período que se consolida o desenho
institucional. Em seguida, de 1995 a 1998, observa-se a continuidade da
expansão comercial intrabloco, que alcança o seu ponto máximo. Nesses dois
primeiros momentos prevalecia uma leitura de autonomia que se acomodava com a
integração regional, até porque a integração estava nos seus estágios iniciais.
A partir de 1999, com a crise do Real e sua desvalorização, e a posterior
recessão argentina, de 2001, o Mercosul entra em crise. Nesse momento,
fortalece-se no Brasil uma dimensão da autonomia que começa cada vez mais a
relativizar a importância da integração, ao mesmo tempo que lidar com as crises
exigiria um maior comprometimento com a integração, inclusive do ponto de vista
institucional, o que teria implicações para a autonomia do país. Assim, além
dos elementos conjunturais, que se expressam por seguidos contenciosos
comerciais e políticos, devem ser considerados na busca de explicações
consistentes para os problemas do bloco: questões estruturais, relativas às
economias dos países envolvidos e valores enraizados nos Estados e nas
sociedades, como democracia, percepção da própria posição no mundo, afinidades
culturais e outros, inclusive o desafio de compatibilizar as lógicas da
autonomia e as necessidades da integração regional.
Nos primeiros anos da integração, como se verifica nas atas do Grupo Mercado
Comum, surgem sinais de razoável interesse por uma maior institucionalização do
Mercosul. Em 1992, o Grupo aprovava agenda de ministros da Economia e
presidentes de Bancos Centrais em que deveria ser tratada "a situação econômica
e a análise da convergência das políticas econômicas nacionais" (Grupo Mercado
Comum, 1992:18). No entanto, a partir de 1996 e 1997, combinaram-se problemas
comerciais específicos com desencontros relativos à inserção internacional que
fortaleceram uma leitura do objetivo da autonomia que relativiza a importância
da integração. Ganha peso no Brasil o argumento de que o Mercosul é um
limitador da capacidade de diversificação das parcerias do país, principalmente
na Fiesp, na Confederação Nacional da indústria (CNI), nas entidades
representativas do agribusiness, entre altos funcionários e na imprensa.
Contribuíram para essa inflexão razões objetivas: o avanço das negociações para
a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), as negociações para o
início de uma nova rodada na Organização Mundial do Comércio (OMC), o começo da
discussão sobre o papel dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). Essas
negociações ou orientações não necessariamente deveriam enfraquecer o Mercosul,
mas isso acabou acontecendo, pois a ideia da integração nunca chegou a ser
assimilada pelo conjunto das elites brasileiras e por uma parte da população de
maneira geral. O movimento contrário à integração tampouco tem base popular.
Simplesmente: o tema não mobiliza.
Tanto na perspectiva liberal quanto na nacional-desenvolvimentista, o Mercosul
continua importante como base da política brasileira, mas o foco de interesses
vem sendo reorientado e a ação empresarial e governamental passa a concentrar-
se em outras direções. Em relação à região, o foco privilegiado passa a ser a
América do Sul, não o Cone Sul. Como veremos na próxima seção, a formação da
Unasul pode sinalizar essa nova tendência: Lima (1994, 2005) afirma que o
padrão brasileiro de política externa é contrário ao aprofundamento da
institucionalização do Mercosul, prevalecendo a aspiração em converter o país
em um ator internacional relevante, somado à crença (também presente na
Argentina) da especificidade do país na região.
É interessante mostrar a racionalidade, segundo um ponto de vista, da posição
do Brasil de defesa do princípio da autonomia no Mercosul, que tem relação com
a defesa da intergovernamentalidade enquanto princípio institucional da
integração, contrária ao adensamento da institucionalidade do bloco. Pierson
(1998) considera que os governos nacionais, quando delegam determinadas funções
às instituições ou a órgãos comunitários regionais, com o tempo tendem a perder
o controle do processo de integração para essas instituições. As instituições
ou órgãos regionais abririam espaço para novos atores domésticos participarem
do processo decisório, sem a intermediação dos governos, fato que tenderia a
fortalecê-las e a fornecer-lhes novas fontes de legitimidade. Uma vez alcançada
por essa instituição ou órgão certa autoridade no processo de integração,
torna-se difícil para os governos fazê-lo recuar, viabilizando a recuperação do
poder original dos estados-membros. O custo dessa ação de recuperação, de certa
forma, inviabilizaria a sua concretização. Gradualmente, a dinâmica decisória
da integração tende a adquirir mais autonomia em relação aos Estados nacionais.
Assim, pode-se entender a baixa disposição brasileira quanto ao fortalecimento
institucional do bloco, já que o Estado não deseja perder o controle do
processo de integração. As posições brasileiras são fundamentadas na lógica da
intergovernamentalidade e são mais adaptadas à expansão do bloco do que
propriamente ao seu aprofundamento. A intergovernamentalidade, na medida em que
resguarda um alto nível de autonomia para o Estado nacional, faz com que este
tenha uma forte capacidade de intervenção em relação à política de integração
regional. Desta forma, compatibiliza-se adequadamente com o elemento de
autonomia da política exterior do Brasil.
Como apontamos, os conceitos de autonomia e de diversificação das parcerias,
defendidos por parte das elites e presentes na memória institucional do
Ministério das Relações Exteriores (Mariano, 2007), colocam questionamentos ao
Mercosul. A percepção de que haverá perda da soberania e da autonomia
brasileira na medida em que houver um maior aprofundamento da integração do
bloco continua norteando parte da ação da burocracia estatal. Consequentemente,
rejeita-se uma opção que parece limitar o espaço de manobra internacional do
Brasil no mundo, dificultando a diversificação das parcerias. A estrutura do
bloco, definida pelo Tratado de Assunção de 1991, concentra o poder decisório e
a governabilidade no Conselho do Mercado Comum (CMC). Este conselho conta com
os presidentes e os ministros das Relações Exteriores e da Economia dos países-
membros, enquanto o Grupo Mercado Comum (GMC), composto pelos vice-ministros
das relações exteriores ou subsecretários, encarrega-se da direção executiva da
integração. Essa engenharia institucional, compatível com uma leitura de
autonomia nacional, tem se mostrado inadequada para permitir o desenvolvimento
de uma identidade integracionista entre os países-membros.
Um Mercosul mais institucionalizado parece não atender aos interesses de parte
considerável das elites, de grupos sociais, econômicos e regionais, de setores
políticos, que parecem ter suas necessidades atendidas na atual estrutura.
Redimensionados os objetivos, permanece, com as indeterminações sinalizadas
acima, o interesse em aumentar o comércio e, em alguns casos, aumentar o
investimento transfronteiriço. Foi o caso da Petrobras, com as dúvidas que
surgem nestes anos 2010. Seriam, ainda, os casos do Banco Itaú, Bunge, Gerdau,
AmBev, Techint e de outras empresas. O bloco permanece tendo significado em
algumas circunstâncias importantes. É útil para uma parte das relações com os
Estados Unidos, tem importância nas relações com a União Europeia, parcialmente
no caso da OMC e em algumas negociações com países emergentes, particularmente
nos casos de diálogo bloco a bloco.
O que queremos dizer é que mesmo nos casos em que o padrão de relacionamento
interno ao bloco e a lógica das negociações sugeriria o fortalecimento da
integração, pois uma união alfandegária tem legalmente que negociar como tal as
relações econômicas e comerciais com outros países ou com outras Uniões, isto
não tem acontecido com intensidade. A União Europeia valorizou a relação bloco
a bloco. Ao mesmo tempo, a parceria estratégica entre a União Europeia e o
Brasil, estabelecida em 2007, demonstra que parceiros importantes aumentam o
nível de reconhecimento dos Estados nacionais.
Dando sequência a esta interpretação, compreende-se melhor por que se evitam
posições que, para alguns, limitariam as possibilidades abertas pela maior
autonomia e pelo maior número de parcerias comerciais fortalecidas no quadro de
relações bilaterais. Consequentemente, "O grande obstáculo, no Brasil e na
Argentina, para um efetivo 'investimento' no projeto Mercosul é a ambiguidade
com que, para além da retórica do discurso pró-integração, diversos setores das
duas sociedades e dos dois governos avaliam o bloco" (Gonçalves e Lyra, 2003:
14).
Fica claro que a manutenção das margens de manobra vale não somente para as
relações brasileiras com outras partes do mundo, mas, também, para a política
em relação ao Mercosul. Contudo, a manutenção de margens de ação amplas para os
estados-membros dificulta o aprofundamento do próprio processo de integração.
Uma união alfandegária, em tese, pode ser viabilizada por uma arquitetura
institucional intergovernamental, assim como pode também ser gerenciada
mantendo-se um alto grau de autonomia nacional com relação à política regional
(Mariano, 2007). No entanto, consolidar plenamente esse estágio e até mesmo
ultrapassá-lo torna-se menos provável uma vez que a manutenção da autonomia é
um eixo estruturador das posições brasileiras diante da integração. Assim,
também se explica a defesa de uma perspectiva de gerenciamento contínuo da
união alfandegária com um nível importante de assimetria (Mariano, 2007). Mas,
na medida em que essas assimetrias se mantêm altas em virtude da ausência de
instrumentos regionais adequados, a tendência é que a União Alfandegária não se
complete e acabe sendo debilitada por uma lógica na qual os conflitos são
sobrevalorizados, já que os meios para sua superação têm também relação com a
mudança de postura do Estado mais importante do bloco ' mesmo que esta postura
não seja o único fator. Seria o papel de paymaster, de acordo com a formulação
de Mattli (1999). No caso do Mercosul, instabilidades e crenças na
possibilidade de resolução autônoma de problemas as encontramos insistentemente
em todos os países.
O BRASIL E A UNASUL: POSSIBILIDADE DE UMA NOVA DIMENSÃO DE AUTONOMIA
A constituição e a posterior institucionalização da Unasul, nos anos 2000,
aponta para a necessidade de pesquisar em que medida representaria uma nova
dimensão da integração e, ao mesmo tempo, da política brasileira em relação à
América do Sul. Sendo objetivo deste artigo discutir as formas como a ideia e a
práxis de autonomia na política externa brasileira se relacionam com as
posições do país nos processos de integração regional no Cone Sul e na América
do Sul, no período de 1991 a 2012, a compreensão da relação do Brasil com a
Unasul contribui para entender se o bloco representa uma forma de arranjo
institucional que repetiria o padrão de política externa brasileira, isto é, a
política que coloca determinados limites para a integração regional. Em outros
termos, trata-se de entender se nos encontramos diante de uma lógica em que,
prevalecendo o conceito de autonomia, ao mesmo tempo este consegue conectar-se
positivamente com o objetivo da cooperação e de aspectos setoriais de
integração. O Brasil certamente contribuiu significativamente para a
constituição da Unasul: fazem parte os 12 países sul-americanos: Argentina,
Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Guiana,
Suriname e Venezuela.
As primeiras iniciativas brasileiras contemporâneas que remontam ao tema deram-
se no governo Itamar Franco. A primeira manifestação foi o anúncio da ideia de
Associação de Livre Comércio Sul-Americana (Alcsa), em 1993, durante a VII
Cúpula do Grupo do Rio. Tiveram continuidade anos depois, no segundo governo
Cardoso, com a realização de cúpulas presidenciais sul-americanas em Brasília,
em 2000, e em Guayaquil, em 2002. Em dezembro de 2004, na cidade de Cuzco foi
realizada a Terceira Reunião de Presidentes da América do Sul, quando foi
redigido um documento, conhecido como Declaração de Cuzco, que criou as bases
para a Unasul. O projeto criado naquela reunião foi denominado Casa (Comunidade
Sul-Americana de Nações). Em 2007, durante a Primeira Reunião Energética da
América do Sul, realizada na Venezuela, o nome foi modificado para Unasul. Em
maio de 2008, em Brasília, representantes dos 12 países assinaram um tratado
para a criação da Unasul, que com este tratado, passa a ser um organismo
internacional.
Por se tratar de um processo recente, é difícil encontrar resposta definitiva a
respeito do padrão da política brasileira. Neste caso parece haver certa tensão
entre elementos de continuidade e de mudança, principalmente por se tratar de
uma instituição de índole intergovernamental, que encerra elementos de uma nova
força não necessariamente articulada com a diplomacia, ainda que em alguns
casos convergente com ela. Trata-se de verificar se uma marca dos governos,
seja dos governos Lula e Rousseff, seja dos governos dos outros países da
região, de forte ativismo presidencial, especificamente regionalistas '
portanto, com peculiaridades no que tange à mais clássica diplomacia
presidencial ' têm implicações que viabilizariam um novo padrão de política de
cooperação e integração. As diferenças do contexto social e político
internacional dos anos 1990, surgimento do Mercosul, e dos anos 2000,
surgimento da Unasul, são um elemento importante para entender diferenças entre
os dois processos e para a própria política brasileira. Para evidenciar o
contraponto, diga-se que o Mercosul continha em sua matriz alguns sinais que
poderiam evoluir para a supranacionalidade: isso desde 1986, 1988, e pelos
conteúdos do Protocolo de Outro Preto de 1994. Esta tendência em alguns
momentos aflorava como consequência dos acordos das cúpulas presidenciais
semestrais, tendo em vista a dinâmica de maior institucionalidade. Exemplos
seriam o Tribunal Arbitral Permanente de Revisão, o Fundo para a Convergência
Estrutural do Mercosul (Focem), o Parlamento etc.
Nos anos 2000, novos temas ganham centralidade na agenda sul-americana do
Brasil: 1) integração física e da infraestrutura; 2) segurança e defesa; 3)
migrações; 4) integração produtiva; 5) tratamento das assimetrias, entre outros
(Lima, Hirst e Pinheiro, 2010). Esses temas envolvem dilemas importantes de
cooperação; ao mesmo tempo, lidar com essas questões torna-se fundamental, pois
influem decisivamente no objetivo de promover maior cooperação e interconexão
dos países. Para alguns, são temas próprios das novas dimensões que a
integração assume nos anos 2000, num contexto que alguns autores chamam de
regionalismo pós-liberal (Veiga e Rios, 2007). Dois movimentos processam-se
contemporaneamente: por um lado, observam-se modificações importantes em
algumas características dos processos de integração na América do Sul,
adensando-se formas cooperativas em alguns temas, como democracia e segurança.
Por outro, nota-se que parte dos modelos de integração econômica e comercial
dos países da região apresentam diferenças que não podem ser desconsideradas. A
recente criação da Aliança do Pacífico (seu tratado constitutivo foi assinado
em junho de 2012 e é composta por Chile, Colômbia, Peru e México), assim como a
multiplicação de acordos de livre comércio com os Estados Unidos (Chile, Peru,
Colômbia), seriam elementos que sinalizam heterogeneidade em termos de opções
de inserção comercial externa, com efeitos não necessariamente positivos para a
cooperação e a integração regional. Acrescente-se a isso a ação da China na
região (Vadell, 2011), cujas consequências de longo prazo não são claras,
tampouco sua influência sobre os processos de integração e cooperação. O que
estamos discutindo é a existência de um cenário multifacetado, no qual a
política brasileira se insere com importante peso.
Diferentemente do Mercosul, a Unasul surge num contexto de diversidades na
região. Diversidades aceitas, mas que não trazem como objetivo a integração
econômica, descartando-se qualquer proposta de mercado comum. A Unasul não visa
a política externa comum; busca superar diferenças, sem desconhecê-las,
mantendo um espaço de interlocução. Do ponto de vista do Brasil, segundo
Guimarães (2006:275) é indispensável trabalhar de forma "consistente e
persistente em favor da emergência de um sistema mundial multipolar no qual a
América do Sul venha a constituir um dos polos e não ser apenas uma sub-região
de qualquer outro polo econômico ou político". Na perspectiva brasileira, de
diplomatas e funcionários formuladores de políticas, é importante a Unasul
configurar-se como um espaço em que se atenua ou mesmo deixa de existir
polarização focada fora da região, nos Estados Unidos particularmente. Não se
trata de contraposições, mas de adensar capacidades propositivas próprias, isto
é, os governos no Brasil acreditam na possibilidade da focalização de poder em
termos regionais, focalização própria, não determinada pela antítese adesão/
contraposição.
Esta parece ser a forma como o Estado no Brasil percebe a atual situação
política sul-americana. Movimentos com lógicas distintas, como a Aliança do
Pacífico, que alguns analistas consideram ter potencial de clivagens e
fragmentação na região (Menezes, 2013) e que tem o Paraguai e o Uruguai como
países observadores, geram respostas brasileiras no sentido de fortalecer os
mecanismos de diálogo sul-americano e promover uma infraestrutura regional mais
eficiente de modo a incentivar um comércio intrarregional que contribua para o
desenvolvimento dos países (Padula, 2013).
Podemos nos apropriar da ideia de Bull (2002) de Sociedade internacional para
entender melhor a questão. Segundo ele, para a Sociedadeexistir é necessário
algum nível de "consenso que precisa incluir uma percepção de interesses
comuns" (Bull, 2002:353). Na perspectiva de Lula (2006), em discurso na
cerimônia de abertura da II Reunião de Chefes de Estado e de Governo da
Comunidade Sul-Americana de Nações, antecessora da Unasul: "Um projeto tão
amplo quanto o da nossa Comunidade tem que contar com instituições que permitam
realizar nossos projetos. Se queremos uma Comunidade forte é necessário dotar-
lhe dos instrumentos necessários". O objetivo é a existência de um instrumento
sul-americano, portanto não latino-americano, e ainda menos hemisférico. Esse
objetivo explica-se porque nesse espaço, na formulação do Estado brasileiro, de
seus políticos e de seus altos funcionários, podem-se criar consensos a
respeito de alguns temas. Consensos que, ainda seguindo Bull (2002), são
possíveis na medida em que se busca a ordem e, como discute no Capítulo I (O
conceito de ordem na política mundial), permitem "manter a independência ou a
soberania externa dos Estados individuais". Mais relevante, consensos que podem
ser obtidos como resultado de uma composição de poder marcadamente regional.
Desse modo, compatibiliza-se preservação da autonomia, cooperação, integração
seletiva e um espaço comum em que as relações correspondem a outra geografia,
atenuando (não eliminando) o peso de fatores extrarregionais. Isso seria
possível na América do Sul, mas não na América Latina e menos ainda na esfera
continental, onde alguns países ganham maior capacidade decisória.
Verificamos que determinadas políticas podem sinalizar mudança em relação a
posições anteriores do Brasil na América do Sul. Há tentativas mais ou menos
articuladas de conectar a autonomia nacional com os objetivos de cooperação e
integração sul-americana. A questão do financiamento da integração, tema em
relação ao qual o Brasil havia resistido, parece passar por modificação
(Carvalho, 2009). A crítica brasileira, sobretudo do Ministério da Fazenda e do
Banco Central, referia-se ao risco da utilização de critérios não rigorosos na
administração de instituições regionais de financiamento, por isto insistiu em
regras precisas para a criação do Banco do Sul. Em setembro de 2009, com apoio
do Brasil3, foi assinado o Convênio Constitutivo do Banco do Sul, com sede em
Caracas; contou com a adesão da Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai
e Venezuela. De acordo com declarações de Garcia, em dezembro de 2011,
sinalizava-se a vontade de consolidar o projeto: "vamos mandar imediatamente o
acordo de criação do Banco do Sul ao Congresso e fazer com que se possa votar o
mais rápido possível o assunto"4. Uma das motivações da posição do Brasil de
apoio ao Banco do Sul está relacionada à impossibilidade de utilizar recursos
do BNDES para financiar investimentos de empresas estrangeiras fora do Brasil.
Trata-se de uma mudança que sinaliza posições cooperativas num tema em que a
questão de maiores níveis de integração não se apresenta, nem há relação com o
tema da autonomia.
Nos anos 1990 e início dos anos 2000, segundo Mariano (2007), a posição do
Brasil era a de que o BNDES poderia cumprir o papel de financiador de projetos
comuns na região, diminuindo pressões dos países do Mercosul e ao mesmo tempo
detendo importante papel decisório. Botafogo Gonçalves expressava essa posição:
eu sustento a ideia de que o BNDES, além de suas funções atuais,
tenha uma função de órgão de fomento regional. Sou favorável à
extensão da atuação do BNDES para além das fronteiras e que a busca
de mecanismos de integração financeira do BNDES seja para
investimentos em infraestrutura, financiamento do comércio ou
investimentos produtivos de longo prazo, de tal maneira que esses
investimentos integrem as economias da região5.
Na perspectiva em que estamos analisando a questão da autonomia na política
brasileira para a Unasul, entender o papel da integração da infraestrutura
contribui para avançar mais na interpretação. Nos últimos anos, o tema da
infraestrutura passa a ser visto como central para a política brasileira de
integração, na medida em que se considera que parte das dificuldades para o
adensamento das relações localiza-se na precária conexão física entre os países
(Saraiva, 2010), que seria pré-requisito para uma maior circulação de pessoas e
de mercadorias. A iniciativa para a integração da infraestrutura Regional Sul-
Americana (IIRSA), lançada no ano 2000, por ocasião da Cúpula de Brasília, no
governo Cardoso, foi um marco importante nesse tema. A operacionalização da
IIRSA foi estruturada sob a égide do Banco interamericano de Desenvolvimento
(BID), da Corporação Andina de Fomento (CAF) e do Fundo Financeiro para o
Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata). Em junho de 2010, a IIRSA tornou-
se o órgão técnico do Conselho de infraestrutura e Planejamento (Cosiplan) da
Unasul, passando a receber diretrizes políticas dos governos dos países da
Unasul.Opapel do BID, da CAF e do Fonplata passaria a ser técnico e de
financiamento dos projetos (Padula, 2010). Segundo o estatuto de criação do
Cosiplan, buscou-se "fomentar la cooperación regional en planificación e
infraestructura, mediante alianzas estratégicas entre los estados miembros de
la UNASUR"6.
Nas reuniões do Cosiplan está presente a ideia da importância da integração da
infraestrutura em razão da consideração de seu sentido estratégico, conectado
às demandas econômicas, sociais e culturais dos países, com destaque para a
necessidade de superação das assimetrias7. Uma decisão relevante, presente em
documento do Cosiplan, de março de 2012, refere-se à criação de uma rede de
conectividade sul-americana, cujo objetivo é criar a infraestrutura de
comunicação na região composta de uma rede de fibras ópticas terrestres e
submarinas a fim de melhorar a qualidade das comunicações, diminuir custos,
garantir que uma parte maior de transferência de dados se dê na própria região
e promover o intercâmbio de conteúdos gerados no subcontinente.
Nessa mesma perspectiva, em reunião de novembro de 2011, os ministros das
Comunicações da Unasul discutiram o projeto de construção de um anel óptico
sul-americano. Além do objetivo de diminuir custos e melhorar a qualidade do
tráfego de dados na região, essa iniciativa se articularia com os princípios da
Unasul de aumentar a autonomia da região em relação ao sistema internacional,
já que uma das intenções seria fazer com que os dados trafeguem mais
internamente à região, diminuindo a dependência de conexões internacionais.
Tudo isso com a importante consequência de criação de centros de distribuição
de conteúdos e fabricação de equipamentos na América do Sul8.
Na formulação política da presidente Dilma, expressa em discurso na reunião
extraordinária da Unasul em Lima, em julho de 2011, "devemos estabelecer
modalidades consistentes de financiamento a exportações, devemos desenvolver
convênios de crédito recíprocos, aperfeiçoar meios para superar barreiras
pontuais. Enfim, avançando na integração física, energética, logística e na
cooperação na área de ciência e tecnologia"9. A questão da cooperação vai se
tornando clara: ao discutir o tema da autonomia, é importante formular
conceitualmente como vêm se processando as relações entre os Estados na região.
A Unasul, como estamos examinando, parece alinhar-se àquilo que Bull (2002:
269), referindo-se à totalidade do sistema internacional, chama de "alguma
organização comparável [às Nações Unidas], fundamentada na cooperação de
Estados soberanos em base mundial [nós falamos, neste caso, 'em base
subcontinental']". Na literatura sobre relações internacionais, essa
perspectiva tem sido intensamente discutida. Se usarmos os termos de Nardin
(1987), trata-se da ideia de "associação prática", que ele contrapõe à de
"associação de objetivos".
Do ponto de vista do Brasil, a criação do Conselho de Defesa Sul-Americano, em
dezembro de 2008, vincula-se ao objetivo de fortalecer a cooperação em temas de
defesa e segurança e remete também à intenção de estabelecer um contraponto à
penetração dos Estados Unidos na América do Sul, mais precisamente, na região
andina. De acordo com Villa e Viana (2010), diferentemente dos quatro órgãos
básicos da estrutura da Unasul10, delineados por todos os membros em conjunto,
a criação do Conselho de Defesa foi proposta exclusivamente pelo Brasil. Os
países da região não tinham um histórico de cooperação no tema da segurança e
defesa, muito por conta das diferentes leituras sobre os mesmos, e subordinavam
a discussão dessas questões à relação com os Estados Unidos ou com os regimes e
instituições criados à sombra da hegemonia desse país, como a Organização dos
Estados Americanos (OEA). Com a formação do Conselho de Defesa Sul-Americana a
ideia é utilizar a institucionalidade própria da Unasul para solucionar
controvérsias e tensões na região, como ocorreu nos casos da crise
institucional da Bolívia, em 2008, da reação à utilização de bases militares
dos Estados Unidos na Colômbia, da tensão entre Colômbia e Venezuela, em julho
de 2010, e da deposição do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, em junho de
2011. O Conselho de Defesa da Unasul tem tido um papel estabilizador e busca
ser um garante para a paz, buscando antecipar-se na resolução de potenciais
conflitos, isto de forma convergente com a ação visando o respeito à democracia
e à autonomia. A presença na observação dos processos eleitorais, inclusive os
de abril de 2013 na Venezuela e no Paraguai, tem servido como facilitadora,
propiciando à organização seu reconhecimento e base de legitimidade.
Há um esforço no sentido de associar os objetivos de redução da pobreza e das
desigualdades sociais, presentes no Tratado Constitutivo da Unasul, com a de-
securitização11 de alguns desafios enfrentados pelos países. Há a busca de
construção de instrumentos que permitam maior confiança nas relações entre os
próprios países, fortalecendo a ideia de segurança regional combinada com a
preservação da autonomia nacional dos Estados12. Nesse sentido, é notável o
avanço representado pela discussão em torno do Registro de Gastos em Defesa
entre os países da Unasul, acordado na reunião de junho de 2012 da instância
executiva do Conselho de Defesa Sul-Americano13. Trata-se de aspecto relevante
na construção de instrumentos que permitam uma maior confiança nas relações
entre os países da América do Sul. As discussões em torno de um projeto
industrial e de defesa regional, de produção de um avião militar sul-americano,
entre outras, inserem-se na mesma perspectiva, projetos em relação aos quais o
maior desenvolvimento relativo do Brasil na tecnologia e na indústria
aeroespacial poderia lhe assegurar papel destacado.
Saint-Pierre, em análise a respeito do Conselho de Defesa Sul-Americano da
Unasul, explicita algumas razões do interesse pela cooperação, partindo do
documento "Estratégia Nacional de Defesa", de 2009. De acordo com o autor:
La preocupación brasileña con el contexto internacional y
especialmente el subregional se manifiesta prácticamente en todos los
aspectos estratégicos de la "Estrategia Nacional de Defesa". En
relación a la subregión, propone estimular la integración de América
del Sur como forma de contribuir para la defensa de Brasil, además de
fomentar la cooperación militar regional y la integración de las
bases industriales de la defensa (END, p. 11). Admite que la
cooperación es fundamental para disminuir las posibilidades de
conflictos tradicionales en la región y preparar el ambiente para el
funcionamiento del Consejo Suramericano de Defensa (CSAD). Algo más
adelante reconoce la importancia de la CSAD a fin aumentar la escala
del mercado regional para compensar la inversión que permitiría la
autonomía estratégica "posibilitando el desarrollo de la producción
de defensa en conjunto con otros países de la región" (END, p. 13)
(2009:28).
Além da busca por autonomia frente a reais ou potenciais interferências
externas à região que, em certa medida, impulsionam os esforços de cooperação
no tema da segurança e defesa, há também desafios regionais. Estes têm tido
papel relevante no fortalecimento da coesão e no estabelecimento da
legitimidade da Unasul, particularmente do Conselho de Defesa Sul-Americano. Os
fatores endógenos que mobilizam o bloco referem-se a: 1) gestão das zonas de
fronteira face às migrações, aos ilícitos transnacionais; 2) os contenciosos
envolvendo interesses de cidadãos e empresas nacionais em países vizinhos; 3)
situações de instabilidade política; 4) segurança energética, entre outros. Na
institucionalidade da Unasul criam-se órgãos específicos para lidar com algumas
dessas questões, como o Conselho de Saúde Sul-Americano, o Conselho Sul-
Americano sobre o Problema Mundial das Drogas, o Conselho Eleitoral, entre
outros14.
A absorção da iniciativa da IIRSA pela formação do Cosiplan, assim como a
formação do Conselho de Defesa Sul-Americano e o apoio à formação do Banco do
Sul representam novidades importantes na forma como o Brasil atua em temas que
exigem coordenação. Do ponto de vista que interessa ao objetivo central deste
artigo, a ideia e a práxis de autonomia na política externa brasileira e sua
relação com as posições do país nos processos de integração regional no Cone
Sul e na América do Sul, é relevante observar que o elemento que articula as
questões de segurança e defesa, integração da infraestrutura e financiamento da
integração é a ideia de autonomia nacional, neste caso, articulada com a ideia
de cooperação e integração setorial. Ou seja, os esforços de cooperação e
integração relacionados com essas três dimensões fundamentam-se no objetivo de
fortalecimento da autonomia dos Estados, seja do ponto de vista de aumento das
margens de manobra no sistema internacional, seja do ponto de vista de exercer
efetivamente a soberania sobre o território nacional (Borba, 2012).
Comparativamente à política brasileira para o Mercosul, no caso da Unasul a
autonomia parece se conectar mais diretamente com alguns dos objetivos da
cooperação, ao menos nas três dimensões discutidas. Deixando mais claro: o
Mercosul é desenhado como união alfandegária visando um mercado comum (do Sul);
portanto, por definição, há um horizonte de abdicação de segmentos de autonomia
e de soberania. Parte dos problemas do Mercosul referem-se, como discutimos, a
esta questão, não apenas no que toca ao Brasil, mas repetem-se para Argentina,
Paraguai e Uruguai. Os Estados, assim como as respectivas sociedades, tanto as
elites quanto a população em geral, consideram que o foco de seu
desenvolvimento depende da própria capacidade nacional. No caso da Unasul,
exatamente por se privilegiar a ideia de autonomia nacional e de soberania
sobre o território nacional, convergem interesses muito diferentes e ideologias
extremamente distantes, como a de governos conservadores; o Chile na
administração Piñera; e de governos populares-distribucionistas, como o de
Chávez, na Venezuela. O elemento unificador é o respeito à autonomia e à
estabilidade. Isto interessa ao Brasil.
Concluindo esta discussão da aplicação do princípio de autonomia na política
externa brasileira ao caso da Unasul, particularmente formulada no Ministério
das Relações Exteriores, retomamos a ideia de autonomia relacional de Russell e
Toklatian (2003:19). É parcialmente útil para pensarmos como o princípio de
autonomia se relaciona com as posições do país na Unasul. Consideramos
parcialmente útil pois, ao contrário do significado original do conceito, como
desenvolvido por seus autores, não se observa grande participação da opinião
pública, dos grupos de interesses e de atores domésticos diversos na definição
das posições do Brasil. A política brasileira para a América do Sul, embora não
desconsidere as preferências domésticas, é muito mais determinada pelas
instituições do Estado, pela ação da Presidência e do Ministério das Relações
Exteriores. Neste caso é importante a participação do Ministério da Defesa. O
apoio doméstico necessário para a implementação dos acordos, em geral, é
buscado ex post facto, sendo esta, inclusive, uma das próprias particularidades
da integração regional na América do Sul que dificulta a utilização de teorias
de matriz neofuncionalista ou liberal-intergovernamentalista para o seu
entendimento. A ideia de autonomia relacional deve ser compreendida e utilizada
considerando-se também a análise de Pinheiro (2004) sobre o duplo padrão da
política externa do Brasil, definido como de institucionalismo pragmático, isto
é, há esferas distintas de análise. Busca-se manter autonomia pela distância ou
pela diversificação (Vigevani e Cepaluni, 2007), por um lado, e autonomia pela
participação, por outro, estabelecendo uma relação entre as duas visando
garantir benefícios, afastando riscos. Nos governos Lula e Dilma intensificou-
se em parte, sobretudo na visão da Presidência, a ideia da importância da
construção institucional, sem deixar de existirem padrões duplos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Discutimos como a ideia de autonomia na política externa brasileira se
relaciona com as posições do país nos processos de integração e de cooperação
na América do Sul, particularmente a partir de 1991, data de criação do
Mercosul, até hoje. Identificamos tensões entre as instâncias decisórias do
Estado, mas que não produziram conflitos abertos, com consequências para os
próprios processos e para as organizações subcontinentais. Concluímos que há
ambiguidades, mas a tendência que prevalece é a do interesse pelo
fortalecimento da cooperação e, na medida do possível, da integração. O
conceito de autonomia pela diversificação, que utilizamos de forma não
totalmente contraposta aos de autonomia pela distância e pela participação,
sugere uma explicação: interessa a cooperação, também a integração, sempre que
não inviabilizem as possibilidades de projeção global e contribuam para o
enfraquecimento do unilateralismo. O interesse no fortalecimento da democracia
e da paz surge como central no período analisado, sobretudo a estabilidade
regional e interna em cada país.
Falamos de ambiguidades, determinadas por interesses distintos. Alguns autores
(Burges, 2008) consideram a política regional do Brasil como centrada na busca
de hegemonia e na defesa de interesses visando sua segurança sob diferentes
ângulos, entre outros, o energético. Outros, como Malamud (2005), falam em
busca de hegemonia não aceita, ainda que com impacto favorável ao Brasil nas
relações internacionais extrarregionais. Diferentemente da análise de Burges
(2008), consideramos que não se trata do interesse, até certo ponto, egoísta do
Brasil, que visaria uma liderança sem contrapartida para os países envolvidos,
mas de dificuldades estruturais, de fundo, econômicas e políticas. O país não
temos recursos de um país rico. Há no Brasil os que defendem uma política mais
decidida, pagando custos, a favor da integração; há forças importantes que
trabalham de forma contrária.
O Mercosul tem sido considerado, há duas décadas, como a base da estratégia de
cooperação sul-americana, como componente importante para as posições regionais
do Brasil. Daí a necessidade de manutenção de um aparato institucional,
intergovernamental, que permita, garanta e não limite a autonomia do Estado,
sem, ao mesmo tempo, enfraquecer os laços do mercado comum. Trata-se de uma
opção de grande dificuldade operacional: isso explica boa parte dos problemas
existentes. Vimos que os esforços paralelos em favor da integração e da
cooperação na América do Sul têm se consolidado como política de Estado há
quase três décadas, desde o governo Sarney, em 1985. Como afirma Gardini (2010)
' no caso, serve para consolidar ad absurdum a ideia de política de Estado ', o
início da perspectiva colaborativa e integracionista com a Argentina começou
neste período histórico, nos governos militares de Rafael Videla e João
Baptista Figueiredo, reconstruída em outros termos por Raúl Alfonsín e depois
por José Sarney. Consolidou-se no Brasil nas administrações Itamar Franco
(1992-1994) e Cardoso (1995-2002), expandindo-se nas gestões Lula (2003-2010) e
Dilma (2011-atual).
Acreditamos ter demonstrado haver uma dimensão sul-americana do Estado
brasileiro que se manifesta no objetivo de alargamento do Mercosul e na
prioridade atribuída à cooperação e integração subcontinental nos anos 2000.
Também mostramos haver um movimento, não explícito e documentado, provavelmente
não elaborado, de busca de soluções alternativas, ainda que apresentadas como
complementares, a uma integração em profundidade a um mercado comum no Cone
Sul, com as consequências e os compromissos que ela implicaria. A posição dos
diferentes governos brasileiros, buscando continuidade de baixa intensidade da
integração, parece atender à média das expectativas das elites, dentro e fora
do aparelho estatal. Como analisado, encontramos essa posição em simetria
especular nos outros países do bloco.Colocando limites ao Mercosul, rejeitam-se
articulações que possam dificultar a movimentação internacional do Brasil, a
vocação universalista.
A rationaledas posições do Brasil explica por que o argumento da autonomia não
deveria evoluir para o retrocesso do Mercosul, por exemplo, ao nível de área de
livre comércio. Como vimos, há um balanço entre o peso da integração e da
cooperação com a lógica da autonomia. Este balanço é muitas vezes interpretado
como maximizador dos interesses nacionais. O forte interesse brasileiro na
formação da Unasul indica uma nova forma de compreender o que seja autonomia na
política externa. No período 1986-1999 prevalecia a ideia de que a integração
alavancaria a projeção conjunta, no mundo, da Argentina e do Brasil. Hoje, anos
2010, alguns objetivos estratégicos do país conectam-se com a cooperação na
América do Sul, entre eles o de uma polaridade sul-americana, não subalterna,
autônoma mas não antagônica aos países centrais, particularmente aos Estados
Unidos, tese defendida por forças políticas que se encontram no governo desde
2003.
NOTAS
1 O artigo 2º do Tratado Constitutivo da Unasul afirma: "a Unasul tem como
objetivo construir, de maneira participativa e consensual, um espaço de
integração e união no âmbito cultural, social, econômico e político entre seus
povos, priorizando o diálogo político, as políticas sociais, a educação, a
energia, a infraestrutura, o financiamento e o meio ambiente, entre outros, com
vistas a eliminar a desigualdade socioeconômica, alcançar a inclusão social e a
participação cidadã, fortalecer a democracia e reduzir as assimetrias no
contexto do fortalecimento da soberania e independência dos Estados" (Tratado
Constitutivo da Unasul, 2008).
2 Declaração de Iguaçu, novembro 1985; Programa de integração e Cooperação
Econômica (Pice), julho 1986; os 24 Protocolos decorrentes; Tratado de
integração, Cooperação e Desenvolvimento, novembro 1988.
3 Disponível em <http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaImprimir.
cfm?materia_id=14021>. Acesso em 10/5/2013.
4 Governo quer criar base de exportação de autopeças no Mercosul. Valor
Econômico, 14/12/2011. Disponível em http://www.portogente.com.br/texto.php?
cod=59866. Acesso em 10/5/2013.
5 "Embaixador pede mudanças no BNDES". Folha de S. Paulo, 6/5/2004.
6 Disponível em <http://www.unasursg.org/index.php?option=com_content&
view=article&catid=95:consejo-suramericano-de-infraestructura-y-planeami&
id=335:estatutos-del-consejo-de-infraestructura-y-planeamiento>. Acesso em 14/
5/2013.
7 Disponível em <http://www.unasursg.org/index.php?option=com_content&
view=article&catid=95:consejo-suramericano-de-infraestructura-y-planeami&
id=335:estatutos-del-consejo-de-infraestructura-y-planeamiento>. Acesso em 14/
5/2013.
8 Disponível em <http://www.unasursg.org/index.php?option=com_content&
view=article&id=462:declaracion-ministros-de-comunicaciones-de-unasur-brasilia-
noviembre-2011&catid=95:consejo-suramericano-de-infraestructura-y-
planeamiento>. Acesso em 20/5/2013.
9 Disponível em <http://www2.planalto.gov.br/imprensa/discursos/discursoda-
presidenta-da-republica-dilma-rousseff-na-reuniao-extraordinaria-da-unasul>.
Acesso em 22/5/2013.
10 O bloco sul-americano é constituído pelo Conselho de Chefes de Estado e
Governo (principal órgão decisório da Unasul); o Conselho dos Ministros das
Relações Exteriores; o Conselho de Delegados; e a Secretaria-Geral.
11 Para compreender o conceito de de-securitização, é preciso esclarecer o
significado de securitização, termo que parte da premissa de que a noção de
segurança não é objetiva, mas socialmente construída: trata-se de "uma prática
auto-referencial [...] não necessariamente porque uma ameaça existencial
realmente existe, mas porque o assunto é apresentado como tal" (Buzan, Waever e
Wilde, 1998:24). Securitização, nesse sentido, é "o uso da retórica da ameaça
existencial com o objetivo de levar um assunto para fora das condições da
'política normal'", de modo a justificar a adoção de procedimentos de
emergência. Cabe destacar que não é necessário que uma medida emergencial seja
tomada para que se identifique um processo de securitização: é preciso,
entretanto, que a ideia dessa ameaça seja aceita, de modo a legitimar eventuais
ações com esse caráter. Ade-securitização, em contrapartida, corresponde aos
esforços retóricos com vistas a remover determinado objeto da lógica
emergencial, de modo a tratá-lo por meio da política normal.
12 Disponível em <http://www.unasursg.org/index.php?option=com_content&
view=article&id=667:_declaracion-de-ministros-de-defensa-y-altos-
representantes-de-relaciones-exteriores-a-los-efectos-de-evaluar-la-situacion-
y-el-ritmo-de-reduccion-de-los-contingentes-de-los-paises-miembros-de-la-
unasur-en-la-minustah&catid=82:consejo-de-defensa-suramericano>. Acesso em 25/
5/2013.
13 Disponível em <http://www.unasursg.org/index.php?option=com_content&
view=article&id=670:acta-de-la-vi-reunion-de-la-instancia-ejecutiva-del-
consejode-defensa-suramericano&catid=82:consejo-de-defensa-suramericano>.
Acesso em 25/5/2013. Disponível em <http://www.unasursg.org/>. Acesso em 26/5/
2013.