Da razão de estado ao republicanismo mitigado: uma narrativa Faoriana sobre a
produção da Política Externa Brasileira
A evolução do sistema de formulação, tomada de decisão e implementação da
política externa brasileira (PEB) não tem sido preocupação rotineira ou objeto
preferencial de análise dos nossos acadêmicos. Também por isso, um dos estudos
pioneiros sobre o assunto ' a dissertação de mestrado de Zairo Cheibub,
defendida em 1984, intitulada Diplomacia, Diplomatas e Política Externa:
Aspectos do Processo de Institucionalização no Itamaraty ' assumiu rapidamente
a condição de texto de referência. Cheibub (1984) estabeleceu as bases de uma
influente divisão da história institucional da diplomacia brasileira em duas
épocas: a "patrimonial" (de 1822 ao fim do século XIX) e, a partir do início do
século XX, a "racional-legal" (de aproximadamente 1920 até o início dos anos
1980). As duas fases foram entrecortadas pelo que se chamou de "momento
carismático", alusivo à permanência de uma década (1902-1912) do barão do Rio
Branco na chefia do Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil.
Resumidamente, enquanto a primeira etapa correspondeu ao predomínio das
relações personalistas, clientelísticas e fracamente institucionalizadas no
tocante aos negócios estrangeiros do país, a segunda foi impactada pela
modernização do Estado brasileiro, com a realização sistemática de concursos
públicos para acesso a cargos na chancelaria (a partir de 1918), a unificação
dos serviços diplomático e consular (consumada em 1938) e a criação do
Instituto Rio Branco, academia diplomática brasileira, em 1945. A
profissionalização da carreira diplomática ter-se-ia feito acompanhar pela
instauração de um regime meritocrático e a crescente e contínua burocratização
dos procedimentos, no âmbito do MRE (Abrucio, Pedroti e Pó, 2010).
A julgar pela observação das instituições formais encarregadas do exercício da
diplomacia nacional e, particularmente, considerado todo o movimento de
diferenciação, segmentação e aperfeiçoamento institucional do Itamaraty no
curso de sua existência, o diagnóstico etapista de Cheibub (1984) parece
heuristicamente útil. Não obstante, ao cultivar a pretensão de apreender uma
tendência evolutiva (com base em tipos ideais weberianos), o autor não consegue
explicar a dinâmica democratizante que passou a incidir sobre o MRE nas duas
últimas décadas da política brasileira. Há uma razão óbvia para tal: o estudo é
datado de 1984, sendo anterior à Nova República. Outro motivo, não tão
evidente, também pode ser alegado: por conta da abordagem histórico-
institucional, Cheibub (idem) deixou de capturar importantes focos
extrainstitucionais de autoridade e poder no processo de produção da PEB. Ora,
o conceito de "política externa" antecede e supera o de "diplomacia". Já havia
pensamento relevante sobre a inserção internacional do Brasil antes mesmo de o
Estado tornar-se politicamente independente e inaugurar as suas instâncias
oficiais. Previamente ao MRE, o debate sobre as questões internacionais do
Brasil passou por canais tão distintos quanto o Conselho de Estado, o Conselho
de Ministros,o Senado, a Câmara, os partidos políticos ' e pelo próprio
antecessor institucional do MRE, o Ministério dos Negócios Estrangeiros. No
século XIX, o imperador Pedro II era, por assim dizer, uma das principais
"instituições" da PEB (Calógeras, 1936; Mattos, 2004; Schwarcz, 2008).
Na tentativa de atribuir sentido à trajetória histórica do sistema de política
externa do Brasil, Sérgio Danese (1999) defendeu a posição de que a diplomacia
foi responsável pelo processo de construção da nacionalidade brasileira ao
longo dos séculos, em conformidade com a "tradição portuguesa" de nation-
building. A começar pela assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494 '
segundo o autor, "um ato de pura diplomacia" (ibidem:103) ', passando pelo
Tratado de Madri (1750) e pelos diversos acordos diplomáticos do século XIX
(inclusive os arranjos para o reconhecimento internacional do Estado
brasileiro), e chegando, na atualidade, ao Tratado de Assunção (1991) ' "etapa-
síntese da diplomacia como instrumento de construção nacional" (ibidem:114) ',
na narrativa de Danese o corpo diplomático brasileiro teria guiado
reiteradamente os esforços para a constituição do povo brasileiro. Até a
diretriz do desenvolvimentismo, que acompanhou a história da PEB do século XX,
é apresentada, no texto em voga, como produto de uma ação orientada da
diplomacia com vistas à geração de maior coesão nacional1.
A argumentação apresenta problemas. Em primeiro lugar, o exemplo da assinatura
do Tratado de Assunção (documento constitutivo do Mercosul) como demonstrativo
da capacidade do corpo diplomático brasileiro de fomentar uma "nacionalidade
conessulina" não poderia ser, aos olhos de um observador na segunda década do
século XXI, mais inapropriado, consideradas as dificuldades enfrentadas pelo
projeto de integração regional na América do Sul. A relação proposta entre
diplomacia, Estado e nação também é passível de revisão, pois traz consigo uma
aporia lógica. Se o corpo diplomático sempre modelou, conforme alegado, os
contornos da nacionalidade brasileira, como um Estado brasileiro ' pré-
existente à chancelaria, por suposto ' pôde configurar-se? Caberia então
cogitar se, em algum momento da nossa história de Estado independente, a
diplomacia brasileira foi, verdadeiramente, representativa(no sentido da teoria
democrática moderna) da gente local. Afinal, o Estado brasileiro, na exposição
de Danese (idem), é demiúrgico, e o corpo diplomático, o seu principal
instrumento. À luz do argumentável déficit democrático da política externa
brasileira na contemporaneidade, resta a impressão de ter-se atingido um típico
"paradoxo de Zenão"2.
Assim, se para Zairo Cheibub (1984) o caminho natural é o progressivo
insulamento burocrático do Itamaraty ' um importante repositório institucional
da tomada de decisão em política externa brasileira ', em Sérgio Danese (1999)
projeta-se a eterna tutela da sociedade pela chancelaria. Fundamentalmente,
tanto um quanto o outro passam ao largo da problemática da pluralização dos
atores, dos temas e dos processos da PEB sob a vigência das instituições
democráticas contemporâneas. O que fica sugerido, nas entrelinhas, é que o
estudo da produção da política exterior brasileira implicaria, necessariamente,
extrapolar a arena institucional e avaliar o relacionamento crítico entre duas
categorias primárias ' Estado e sociedade ' ao longo do tempo. Sem esse
deslocamento do olhar, a análise não resistirá a escrutínio mais severo.
Logo, constatada a capacidade explicativa apenas parcial ' e, por isso,
insatisfatória ' das hipóteses tradicionais a respeito da pouca abertura da
política externa brasileira aos estímulos da sociedade3, encaminharemos a
seguinte pergunta de partida: não seria a retórica4 de democratização da PEB
incompatível com o histórico conservador, tradicionalista (com notável peso do
passado sobre o presente) e pretensamente "virtuoso" da diplomacia brasileira5?
Tomar o Itamaraty6 como agência cuja auto imagem se associa à de intérprete e
guardião do "interesse nacional" pode nos aproximar da compreensão desse
fenômeno.
Nas duas próximas seções deste artigo, postularemos, baseados em uma
apropriação peculiar do conceito de "republicanismo aristocrático", que o
debate e a decisão sobre as questões internacionais do Brasil couberam, desde a
independência política de 1822, a um grupo restrito de "virtuosos" da nação. É
como se os membros da elite bem-pensante brasileira do século XIX tivessem sido
autorizados (ou se sentissem credenciados) a interpretar o interesse nacional
(isto é, o que se entendia por "bem comum" ou "interesse geral") em nome da
coletividade, tendo por parâmetros os próprios padrões intelectuais e morais,
individuais e coletivos, da época. Com o passar do tempo, foi-se sedimentando
um grupo de connaisseursdas relações internacionais brasileiras (em etapa
embrionária do atualmente complexo e sofisticado sistema de política exterior
do Brasil7), capaz de cultivar tradições e mobilizar-se estrategicamente.
O suposto virtuosismo desses tomadores de decisão da PEB media-se segundo
critérios aristocráticos pré-modernos ' tais como a origem familiar, o círculo
de convivas, as viagens acumuladas ao "velho continente", o acesso a
determinadas fontes de conhecimento (as universidades na Europa, os cursos
jurídicos, as publicações literárias influentes no hemisfério Norte) e o
domínio de técnicas específicas (a competência em idiomas estrangeiros, a
capacidade de emular a etiqueta europeia)8. Tais critérios arregimentadores da
elite decisória da PEB dificilmente seriam aferidos de modo objetivo e
impessoal9. Assim a situação permaneceria ' é o que se alega na sequência deste
artigo ' por muitos e muitos anos.
Trata-se, portanto, de pensar a concepção da política externa brasileira, ao
longo da sua história, como resultante de um processo que se passava, e que
ainda se passa, malgrado, hoje, de forma menos hermética, no interior de uma
fração do Estado e da sociedade brasileiros, numa espécie de "estamento da
política externa" ' bastante resiliente, conforme supunha Raymundo Faoro em Os
Donos do Poder(1958). Abordaremos a genealogia "faoriana" do estamento
burocrático e suas implicações para a política (externa) brasileira ao longo da
terceira seção do artigo. A conjetura que fazemos nas linhas acima se liga, por
exemplo, à crença difundida de que o Ministério das Relações Exteriores ' o
principal locus institucional contemporâneo, mas não o único, de formulação
sobre assuntos internacionais brasileiros ' teria se constituído em "refúgio da
nobreza [imperial]" (Calógeras, 1936; Moura, 2007).
A problemática do artigo é que o chamado "estamento da PEB" se encontra
fortemente pressionado, tanto por forças democratizantes quanto pela
complexificação das relações internacionais modernas, o que poderá erodir, por
dentro e por fora, a antes indisputada primazia da elite aristocrática na
definição do que seja a proverbial "razão de Estado". A gestão dos assuntos
internacionais do Estado brasileiro passou a ser compartilhada com outros e
diferentes atores, deixando-se entrever, aí, como as dinâmicas da atualidade
geram subprodutos (em termos de política e de policies) na orientação da PEB.
Discutiremos tais aspectos na quarta e última seção do escrito.
REPUBLICANISMO ARISTOCRÁTICO NA PENÍNSULA ITÁLICA DA RENASCENÇA
Antes de prosseguir com a investigação do caso brasileiro, faz-se breve
digressão teórica nesta seção a fim de resgatar os fundamentos de nosso
argumento central. O republicanismo dos modernos teve em Nicolau Maquiavel,
Francesco Guicciardini e Leonardo Bruni alguns dos seus proeminentes
formuladores. Eles conformam a tradição do pensamento republicano
renascentista, que ditará, em uma determinada direção, fundamentos da teoria
política moderna (Pocock, 1975; Skinner, 2006; Bignotto, 2006).
O republicanismo maquiaveliano é guiado pela noção de verità effetuale(verdade
efetiva ou factual). Trata-se de uma aproximação realista dos processos sociais
e políticos ' radicalmente refratária à idealização do ser humano 'para a qual
a sabedoria consiste em agir segundo a necessitàdo tempo vivido, combinando
virtudes clássicas com outros modos de ação que mais se conformarem às
contingências particulares do presente. Assim, para Nicolau Maquiavel, o que dá
unidade de propósito à sociedade política é o temor, cujas bases propulsoras
são o conjunto das leis e o emprego da força, em consonância e proporção com o
que se mostrar estritamente necessário à manutenção da cidade (Wolin, 1960).
Sob a ótica republicana, o governante atuará na defesa interna e na conquista
externa, o que lhe conferirá poder imperial, por meio da expansão territorial e
fazendária. Frequentemente, a busca do bem comum e da grandeza da pátria leva à
subversão dos predicados morais ' ou seja: expedientes de força, astúcia,
fraude, tumulto e denúncia passam a ser utilizados em prol do vivere
libero.Afinal, como ensina o pensador florentino, não se deve manter a fé ou a
palavra, como fazem os homens considerados bons, porque o governante, para
manter o governo, poderá ser levado a agir contra a caridade, a humanidade e a
religião (Maquiavel, 1987). Como grande exemplo do conselho maquiaveliano,
cita-se a Roma republicana, onde comandantes militares venceram as intempéries
do tempo agindo com rigor e severidade, bem como os cidadãos comuns, que
denunciaram e tumultuaram, e ainda pegaram em armas, para a defesa da liberdade
e do bem comum, exatamente como se lhes demandava.
Ao produzir sua teoria dos regimes políticos, Aristóteles (2001) previra seis
possibilidades ' três retas e três degeneradas ' de governo dos homens pelos
homens. Entre as formas íntegras, o autor concebeu a monarquia, a aristocracia
e a democracia. Na monarquia, quem governa é um único homem, que põe sua gestão
para o benefício dos súditos (cidadãos passivos), garantindo-lhes segurança e
proteção da vida; sob a aristocracia, os cidadãos plenos são os homens honrados
(os ricos ou ottimati, no registro do renascimento italiano), incumbidos,
porquanto notados como virtuosos, de gerir os negócios públicos para o bem da
maioria; em um regime de cunho popular, os homens ' em sua maioria, desprovidos
de posses ' de tudo farão para assegurar a liberdade, governando, quase sempre,
contra os desmandos de uns poucos concentradores da riqueza material da cidade
(chamados de gentiluomini por Maquiavel). Como também se deve recordar,
Aristóteles excluía da participação nos negócios públicos, isto é, do exercício
da cidadania, as crianças, os idosos, os escravos e os estrangeiros10.
Maquiavel se apropriará, de forma heterodoxa, da clássica teoria aristotélica
dos regimes políticos para produzir seu receituário para a vida pública
moderna. Notará, primeiramente, que em um regime republicano eminentemente
popular (sua forma predileta de organização da cidade)11, a sociedade está
centrada no Estado. Em decorrência disso, o conflito e o apetite por conquistas
serão tornados fundamentos das estruturas administrativas do Estado, e, num
caminho de mão dupla, o Estado assumirá a função de formatar os homens, os
quais, por sua vez, terão a sua natureza plenamente justificada no interior das
organizações estatais, por intermédio da participação nos negócios públicos.
Nos governos que estão sustentados nos ombros de um ou de poucos homens ' ou,
para usar terminologia de Maquiavel, em um governo stretto ', o corpo social
está numa condição de passividade, merecendo antes a alcunha de súditos do que
de cidadãos (Barcellos, 2005).
Francesco Guicciardini, também um defensor da república, apoia-se firmemente na
matriz teórica aristotélica, segundo a qual o poder ficará concentrado,
preferivelmente, nas mãos das elites aristocráticas (ottimati). A engenharia
política guicciardiniana é hierarquizada de tal forma que o povo, por meio de
uma assembleia, tem o poder de legislar, ao passo que o Conselho Grande,
formado pelos ottimati, tem a capacidade de sancionar ou vetar a proposta
popular. A proposição teórica de Guicciardini é semelhante ao regime misto
adotado em Veneza ' o qual fora paradigma de regime político para muitos
intelectuais do Quattrocento e do Cinquecento. Este era um amálgama dos três
regimes retos, assim constituído: o Doge representava o poder monárquico; o
Senado era o elemento institucional aristocrático; e o Conselho Grande, o
democrático. Como o poder de decisão se encontrava, efetivamente, com os
ottimati, pode-se concluir, sem embargo, que esta teoria era uma apologia de um
governo strettoque restringisse, tanto quanto possível, o poder deliberativo
das massas populares expresso nas assembleias (Trevor-Roper, 2005; Bignotto,
2006).
Maquiavel adotou a célebre metáfora da "roda da Fortuna" para significar que,
por mais virtuoso que pudesse se mostrar um governante, ele sempre estaria
sujeito aos caprichos da sorte. Dessa maneira, para conter fluxos
contingenciais indesejáveis, sua teoria republicana admitia a figura
institucional do ditador. Quando instituído, este ganharia plenos poderes para
combater, por tempo limitado e sempre com um mandato predeterminado, os eventos
extraordinários. Uma vez conferidos poderes ao ditador ' sempre específicos
para a circunstância ', ele não precisaria se reportar a qualquer outro órgão
do Estado, fazendo-se as suas decisões inapeláveis. Ao defender a criação do
referido instituto, Maquiavel assim o justificou:
(...) E vê-se que o ditador, enquanto foi designado segundo as
ordenações públicas, e não por autoridade própria, sempre fez bem à
cidade. Pois o que prejudica as repúblicas é fazer magistrados e dar
autoridade por vias extraordinárias, e não a autoridade que se dá
pelas vias ordinárias: e vê-se que em Roma, durante tanto tempo,
nunca ditador algum fez nada que não fosse o bem da república. (...)
Por isso, para concluir, digo que as repúblicas que, nos perigos
urgentes, não encontram refúgio num ditador ou em autoridade
semelhante, sempre se arruinarão nos graves acontecimentos
(Maquiavel, 2007:106; 108).
Outra importante instituição republicana, sobretudo no contexto na antiga Roma,
foi a milícia cidadã. Leonardo Bruni (1996) entendia que, para que a cidade
conseguisse realizar a sua natureza, era preciso que ela tivesse três classes
de homens: os camponeses, os artesãos e os defensores em guerra. Os camponeses
fornecendo os grãos; os artesãos produzindo as casas, vestes e outros gêneros
necessários à vida; e os defensores em guerra, depois nomeados soldados,
salvaguardando todos os homens e suas obras. Na sua proposta, a cidade que
possui as três classes sociais é perfeita. Por isso, a milícia em Bruni tem uma
origem natural. Ao fazer seu aberto elogio do ordenamento da milícia romana, o
que está subjacente à teoria de Bruni é o favorecimento das elites12, que faz
par com a noção de regime misto, celebrado pelo autor como o melhor sistema de
governo republicano, na medida em que o poder decisório repousa nas mãos de
aristocratas.
Maquiavel (1987) não faz uma investigação genealógica do surgimento do soldado,
nem mesmo recorre à filologia para desenvolver uma teoria sobre a importância
da milícia para a conservação de um regime. Ele limita-se a dizer que as forças
com que um príncipe mantém o seu Estado são próprias ou mercenárias, auxiliares
ou mistas. Em seguida, faz uma crítica algo lacônica: "as mercenárias e
auxiliares são inúteis e perigosas. Se alguém tiver seu Estado apoiado em tal
classe de forças, não estará nunca seguro" (ibidem:49). Para justificar a
conclusão, afirma que essas tropas são "ambiciosas, indisciplinadas, insolentes
para com os amigos, mas covardes perante os inimigos, não temem a Deus, nem dão
fé aos homens" (ibidem:49). Daí o preceito de que os príncipes prudentes devem
repelir tais forças para se valerem de suas próprias, compostas por plebeus,
preferindo antes perder com estas a vencer com o auxílio das outras. Assim como
Bruni, Maquiavel entendia que, para ingressar no Exército, o aspirante deveria
fazê-lo mediante juramento ' que, a rigor, é uma prática consagrada pelo povo
romano.
Quem não jura, não deve ser enviado aos campos de batalha. O soldado virtuoso,
quando vai para guerra, compromete-se a remeter todo o patrimônio amealhado no
exercício de sua função para o erário público. Essa é a prática definida por
lei e, alegadamente, a mais condizente com o espírito republicano.
Francesco Guicciardini era também bastante claro no entendimento realista de
que o emprego da força constituía um aspecto central nas relações entre os
Estados e dentro deles. Pensar a guerra era tão importante quanto pensar a
ordenação institucional das cidades. A existência de um exército que pudesse
reduzir a vulnerabilidade de Florença tornara-se importante à época, porque
aquela cidade havia perdido a capacidade de produzir riqueza e a Itália
encontrava-se assediada por potências estrangeiras. Ao redigir o perfil de
Guicciardini, Newton Bignotto esclareceu que o Estado, na concepção daquele
autor, "não é outra coisa... [senão] uma violência sobre os súditos mascarada
por algum título de honestidade. Querer conservá-lo sem armas e sem forças
próprias é o mesmo que querer exercer uma profissão sem os instrumentos
necessários" (2006:94).
Em resumo, o republicanismo é aqui concebido, em linhas gerais, como a tradição
política centrada nas ideias de constitucionalismo (ou "fundação política" ou
"constituição"), império da lei (ou "justiça") e empenho para a promoção do bem
público (ou "bem comum" ou "grandeza da pátria" ou "virtude cívica"). Será de
uma vertente popular, se previr participação do povo na condução da política
(ainda que sob a mediação de instituições, onde se admitir a representação); ou
aristocrática, se embutir como pressuposto o desejo de que os rumos da política
sejam definidos apenas pelos mais aptos ao exercício ' os ottimati. Além disso,
nas versões ditas "neorromanas" do republicanismo, o elemento militar é
considerado e problematizado, assumindo relevância no esquema explicativo da
vida em sociedade política (cf. Cardoso, 2004; Bignotto, 2002; Silva, 2008;
Nelson, 2008)13.
REPUBLICANISMO ARISTOCRÁTICO NO BRASIL DO OITOCENTOS14
Uma vez apresentada a fundamentação teórica do argumento principal deste
artigo, vamos nos aprofundar, na corrente seção, no caso brasileiro. A questão
da integração nacional parece ter colonizado o ideário dos homens responsáveis
pela política ao tempo da independência brasileira. Como é sabido, o clima das
primeiras décadas do século XIX na América do Sul era de tensões, turbulências,
levantes, inquietações. Na expressão de Fábio Wanderley Reis (2000), vivíamos a
era "pré-ideológica" do Brasil, anterior ao soerguimento do Estado. Os núcleos
de solidariedade territorial eram limitados e escassos, sobretudo em face da
constelação de atores que acabavam excluídos do processo político.
O problema da integração, típico das sociedades políticas tradicionais, está
intimamente relacionado com o processo da institucionalização do poder.
Institucionalização de poder nos termos weberianos, com a atribuição, ao
Estado, do monopólio do recurso legítimo à força. A institucionalização do
poder no Brasil ocorre, em um primeiro momento, à revelia das forças sociais.
Os nossos vínculos estreitos de solidariedade territorial acarretavam relações
de tipo clientelístico, personalista, dignas de um "mercado político"
hipotrofiado. A instauração de um Estado centralizador, demiúrgico até, foi a
forma encontrada de se garantir a unidade nacional e, a um só tempo, buscar
superar as clivagens e disputas políticas que existiam no interior desse
Estado. O processamento dialético de state-buildinge nation-buildingconduziria,
por assim dizer, à própria construção da sociedade brasileira (society-
building) (Coser, 2008; Reis, 2000).
Nas primeiras décadas do século XIX, o desígnio integrador do emergente Estado
brasileiro, em face da ameaça de desintegração política como consequência da
desmontagem do aparato colonial português, reforça-se notoriamente. Boa parte
dos historiadores tendeu a concordar com a tese que ressalta a importância da
continuidade, representada pela concentração do poder nas mãos de um membro da
dinastia portuguesa, Pedro de Alcântara. Medidas administrativas e políticas
foram adotadas com o fito de equipar devidamente o poder centralizado para a
construção da ordem. Tudo e todos, doravante, se subordinavam à autoridade
(entendida como poder institucional) do Imperador. Dom Pedro I investiu-se até
mesmo de um "Poder Moderador", que lhe concedia prerrogativas para intervir, em
âmbito nacional, nos ramos Executivo, Legislativo e Judiciário. Tratava-se de
um instituto despótico, na acepção helênica do termo15.
Entretanto, na interpretação de Renato Janine Ribeiro (2009), malgrado a
centralização do poder que de fato houve no Brasil Império, talvez tenhamos
sido, àquela época, mais republicanosdo que somos hoje ' em diversos aspectos
da vida política ', especialmente se se tem em conta o período do Segundo
Reinado16. Poder-se-ia afirmar que a res publica foi mais respeitada pelo
Imperador Pedro II do que pelas oligarquias que comandaram os partidos
políticos da República Velha. Para o professor,
[É] fato que o imperador respeitou mais a liberdade de expressão do
que os presidentes da República Velha, e que no Parlamento do Império
' em que pese suas eleições serem manipuladas ' não se chegou ao
nível de fraude que envergonha as primeiras décadas republicanas. Se
coroada imperatriz, d. Isabel I certamente teria mantido a tradição
que seu pai iniciara, de afastar-se dos partidos. Seria plausível
abolir o poder moderador, tornar eleito o Senado, em síntese, ampliar
de dentro as liberdades políticas. Uma evolução à inglesa seria
possível ' porque em 1889 fazia apenas meio século que a rainha
Vitória subira ao trono e transformara a desmoralizada e agonizante
monarquia britânica numa instituição respeitada, exemplar, e ela o
conseguira justamente ao se afastar das disputas políticas, que
ficaram com os eleitos do povo (Ribeiro, 2009).
A provocativa asserção de Ribeiro encontra respaldo factual em pelo menos duas
outras grandes "questões" da política oitocentista nacional. A primeira, e
talvez a maior de todas as querelas do Brasil imperial, envolveu o modo
escravocrata de produção e o tema da razão de Estado. Para José Murilo de
Carvalho (2005a), a escravidão contrapunha duas razões ' uma eminentemente
cristã e outra colonial/nacional. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, teria
prevalecido, sobretudo a partir da segunda metade do século XVIII, a orientação
teológico-filosófica, conformada tanto pela ideia de escravidão como pecado17
(preconizada pelos quakersdesde o século XVII) quanto pela força do
abolicionismo entre os adeptos do pensamento liberal iluminista (pois a
instituição da escravidão atentava contra o direito natural à liberdade, além
de ser antieconômica). Aqui no Brasil, porém, os movimentos abolicionistas
foram menos expressivos. Apenas nos últimos anos do império houve algumas
manifestações de maior relevo ' e, ainda assim, restritas aos religiosos e ao
mundo oficial da política. Eles nunca chegaram a ganhar verdadeiro apelo
social.
Carvalho (idem) destaca as doutrinas de dois vultos os abolicionistas da
política imperial ' José Bonifácio de Andrada e Silva e Joaquim Nabuco ' para
demonstrar como o modo escravocrata de produção foi percebido antes pelas
lentes da razão de Estado do que pelo ângulo humanitário. Tanto um quanto o
outro apontavam a abolição da escravatura como condição necessária para a
construção da nacionalidade brasileira. Conforme essa linha de raciocínio, uma
nação que tem inserido em sua Constituição o princípio da liberdade não poderia
sobreviver com aquela multidão de cativos em seu território. Acrescente-se que
a escravidão era contraditória com o governo liberal. Além disso, constituía um
risco à segurança nacional, tanto interna ' por transformar o governo em
inimigo comum dos escravos ' quanto externamente ' por impedir a formação de
exército e marinha poderosos, compostos de homens leais ao monarca. De resto,
comparando-se o Brasil aos Estados Unidos, notava-se que lá, após a abolição
(ocorrida ao fim da Guerra da Secessão, em 1865), logrou-se reforçar o
sentimento patriótico nas diversas camadas sociais e regiões geográficas,
diferentemente de cá, onde o irmanamento cívico entre os nacionais permaneceu
fraco. Outros questionamentos também vieram à tona: a escravidão seria
incompatível com a infante indústria brasileira; seria avessa à riqueza
econômica da nação; seria contrária ao direito moderno, civil e internacional;
seria violadora da promoção da felicidade coletiva; seria atentatória à marcha
da civilização; seria antiecológica e antiprogressista etc.
De um jeito ou de outro, como se pode depreender na leitura do parágrafo
anterior, mesmo os argumentos esgrimidos pelos abolicionistas brasileiros
confluíam no que tratavam de ressaltar, como regra, o primado da coletividade
sobre o indivíduo18. A Igreja, sob a influência do absolutismo monárquico,
pouco pôde fazer. Quando não se ausentou por completo do debate, tentou
aconselhar os senhores a tratar com mais dignidade os cativos ' até para
amortecer, de alguma forma, o seu enorme dilema moral. A rigor, foi justamente
o Estado, e não a sociedade brasileira, que deu encaminhamento ao problema do
modo de produção escravocrata, balizando-se para tal por suas "razões de razão
nacional" (Carvalho, 2005a)19.
A segunda grande questão oitocentista, abordada por Lília Schwarcz, diz
respeito à maior mobilização militar da história da PEB ' a participação
brasileira na Guerra do Paraguai ' e ao papel então jogado por Dom Pedro II ' o
de "voluntário número um" da pátria. O imperador, segundo a autora, nunca
escondeu o que pensava dos componentes de exércitos, "todos uns assassinos
legais" (2008:299). No entanto, esse mesmo homem, que ficara reconhecido em
todo o mundo por seu pendor para as artes e as ciências, e cujo pacifismo
motivou mais de um convite de nações desenvolvidas para fazer arbitramento de
litígios internacionais, transformara-se, por ocasião do conflito contra o
Paraguai, numa espécie de "senhor da guerra", contrariando convicções pessoais
e os membros do Gabinete Imperial, a propósito de encarnar a razão de Estado
(Doratioto, 2002; Schwarcz, 2008).
Indícios de republicanismo aristocrático20no exercício militar oitocentista
podem ser percebidos não somente no engajamento pessoal do monarca, mas também
no envio de seu genro, o conde d'Eu, para chefiar as tropas do Exército, a
despeito das reivindicações de sua filha, a princesa Isabel, que, em carta
endereçada ao pai, protestava com veemência: "Que a sua paixão pelos negócios
da guerra não o torne cego! Além disso, Papai quer matar o meu Gaston [de
Orléans, o conde d'Eu]: Feijó recomendou-lhe muito que não apanhasse sol, nem
chuva, nem sereno; e como evitar-lhe isso quando se está na guerra..." (apud
Schwarcz, 2008:310).
Quanto à política de "voluntariar" a população negra para lutar a guerra, o
monarca utilizou como moeda de troca as alforrias, mediante ressarcimento dos
senhores de escravos. Nesse sentido ' em consonância com o que foi alegado por
José Murilo de Carvalho (2005a) nas linhas acima ', a escravidão era mantida, a
duras penas, por revestir-se da condição de "negócio de Estado", não obstante o
constrangimento moral e econômico que pudesse gerar21.
Em suma, é como se, em conformidade com a majestática concepção de Dom Pedro
II22, naquele momento histórico e diante daquelas configurações materiais, em
lugar da preocupação com as demandas imediatas e atomísticas da população, se
atribuísse maior importância ' quer para o conjunto dos brasileiros, quer para
as perspectivas futuras deste Estado nacional ' à defesa intransigente da
integridade territorial e à garantia da livre navegação nos rios Paraná e
Paraguai, bem como a um equacionamento, favorável ao Brasil, da balança de
poder regional. Esses seriam os "insumos da razão nacional" que justificariam,
ao menos em hipótese, o cálculo da manobra política e, por óbvio, a guerra
contra a ditadura de Solano López (Doratioto, 2002).
Na tentativa de resgatar fundamentos conceituais e empíricos para a discussão
em tela, evocam-se também os escritos de Cristina Patriota Moura (2006; 2007)
sobre o Itamaraty como "último refúgio da nobreza brasileira". Moura mostrou,
por diversos caminhos, a persistência da imagem estamental entre os estudiosos
outsiderse também entre os insiders(integrantes do corpo diplomático). A
trajetória de dois personagens da nobreza autóctone ' um visconde e um barão '
no interior do Ministério dos Negócios Estrangeiros (e, depois, no Ministério
das Relações Exteriores) do Brasil ajudou, decerto, a corroborar essa
impressão.
Joaquim Thomaz do Amaral, o visconde de Cabo Frio, ministro no tempo do Império
em vários postos, foi diretor-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros de
1865 até ser aposentado, já no tempo da República, pelo barão do Rio Branco.
Mesmo com o advento das instituições republicanas, continuou a desempenhar
funções de relevo na estrutura diplomática nacional, conforme relatou Álvaro
Soares:
Transformou-se em senhor inconteste de uma liça, porque possuía
admirável sentido de orientação política. Prestou grandes serviços a
Deodoro da Fonseca e a Floriano Peixoto, em particular a este último,
que lhe concedeu honras de general-de-brigada do exército nacional.
"Sempre o verdadeiro ministro com estes políticos que a república
improvisa", conforme assinalou o conde de Paços d'Arcos, ministro de
Portugal ao tempo de Floriano em suas memórias. (...) Por
conseguinte, um diretor-geral como Cabo Frio centralizaria toda a
administração da Secretaria de Estado (Soares, 1984:62)23.
Por sua vez, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão do Rio Branco,
patrono da diplomacia brasileira, foi quem ocupou, por mais anos
consecutivos24, a posição de chefe do Itamaraty (de 1902 a 1912). Celebrado por
sua grande habilidade negocial, o barão, apesar de ter servido a diversos
governos republicanos e ser considerado o arquiteto da aproximação brasileira
com os Estados Unidos da América, era um convicto monarquista à europeia,
alinhando-se às tradições imperiais e às instituições políticas do Brasil do
Oitocentos. Em registro de Clodoaldo Bueno,
Para ele [barão do Rio Branco], o prestígio que o Brasil desfrutara
no exterior ao final do Império decorrera da ordem interna e da
estabilidade das suas instituições. (...) No entendimento de Rio
Branco, a monarquia fizera o Brasil "unido, grande, próspero e
livre", invejado pelos "súditos de Gusmões Blancos e Porfírios Dias".
(...) Rio Branco orgulhava-se de ver o Brasil como uma exceção na
América do Sul, na qual lhe cumpria, até, desempenhar uma missão
histórica. O Império, ao fazer intervenções armadas nos países
platinos, atendeu à sua honra e aos seus interesses, mas também
desempenhou uma missão civilizadora (Bueno, 2003:128; 130).
Não bastasse o que fez em vida, o Barão ainda chama a atenção pela presença
recorrente no discurso itamaratiano, mais de cem anos após o seu falecimento
(em 1912)25, tornando-se objeto de disputa entre as variadas correntes
políticas da Casa, que se arvoram em genuínas defensoras do seu legado e
balizam a legitimidade de suas posições pelo critério da proximidade com o
ideário de Paranhos Júnior26.
Para além dessas duas personagens icônicas ' Cabo Frio e Rio Branco ', Luiz
Feldman (2009) descreveu como, durante boa parte do Segundo Reinado, o Conselho
de Estado teria funcionado como estabilizador das posições brasileiras para a
política exterior ' perceptivelmente, nas negociações do Império com os Estados
Unidos, sobre tratados comerciais e a abertura do rio Amazonas à navegação
estrangeira (1850-1866), e com a Grã-Bretanha, sobre a abolição do tráfico de
escravos africanos e os direitos civis e criminais de súditos britânicos no
Brasil (1845-1850) ', coadjuvado, nesses papéis, pelas instituições da Câmara
dos Deputados, do Senado e do próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros
(MNE). Segundo o autor,
Durante o Segundo Reinado, as discussões sobre política externa não
se restringiam a uma instituição em particular. O papel do
Parlamento, por exemplo, é conhecido. Contudo, a posição do Conselho
de Estado se diria singular: contrastava com a diminuta burocracia do
MNE [Ministério dos Negócios Estrangeiros] e com a incapacidade do
Parlamento de controlar efetivamente os compromissos externos
firmados pelo governo, sendo favorecido pela propensão do imperador
D. Pedro II a convocá-lo e deliberar conforme as suas consultas.
Outra vantagem do Conselho estaria em que, por confidenciais, suas
discussões seriam mais francas do que as do Senado (Feldman, 2009:
537-538).
Ilmar Mattos (2004) concebeu a hipótese de haver um continuum político-
institucional que interligava a Câmara dos Deputados, o Senado, o Conselho de
Estado e o imperador (nesta ordem). Enunciou-se, assim, um curioso contraste:
de um lado do contínuo imaginário, "o máximo de política", pensada como "paixão
partidária", incontrolável porque ligada a "interesses locais, mesquinhos e
imediatistas" e, de outro, "a ausência de política", com o predomínio da razão
e dos interesses gerais, que se confundem com "os interesses da Pátria"
(ibidem:202). Nesse esquema, conforme fica subentendido, o polo relativo à
busca da "razão de Estado" e do "bem comum" (por extensão, à produção da
política externa brasileira no século XIX) materializa-se no Conselho de Estado
e no imperador, e está em oposição diametralcom o polo das instituições
parlamentares (Câmara e Senado), típicas dos regimes democráticos
representativos.
Pandiá Calógeras fez uma proposição arrojada a esse respeito. Segundo o
historiador da política externa brasileira, nem mesmo a supressão do Conselho
de Estado, com o fim da monarquia no Brasil, teria sido capaz de eliminar o
traço concentrador do processo deliberativo sobre as questões internacionais do
País ' dado que as "funções" do finado Conselho migraram para o Ministério das
Relações Exteriores. Segundo o autor, muito antes, pelo contrário,
A continuidade e elevação progressiva da política internacional do
Brasil ali [no Conselho de Estado] encontravam seus grandes elementos
de ação. Pensamento e prática reunidos. Execução assegurada. A
República havia destruído, impensadamente, esse instrumento de valor
inapreciável [o Conselho de Estado]. Ainda hoje, suas Consultas nos
guiam. Quão melhor, entretanto, fora sua ação, mais viva e enérgica,
se se houvera conservado a instituição. Todas as suas funções
desaparecidas foram concentrar-se nas mãos do Diretor Geral do
Ministério [das Relações Exteriores]. Por maior valia a sua, era
sempre uma opinião única, individual, com o coeficiente de erro
pessoal, pelo consenso de pareceres de homens como D. Pedro II,
Uruguai, o Visconde do Rio Branco, Cotegipe, Saraiva e tantos outros
(Calógeras, 1936:210, ênfase minha).
Não surpreende, portanto, que, na vasta investigação que fez sobre o ideário do
corpo diplomático português em fins do século XVIII, Júlio Joaquim da C. R. da
Silva (2002) tenha atribuído àquela "elite de Estado" traços como o
tradicionalismo e a moderação política. Nas palavras do autor, "[o] processo de
modernização do absolutismo mariano... está [esteve] muito longe das
expectativas do diplomata português, que não exprime nada de equivalente quando
aborda as realidades nacionais" (ibidem:23). Assim, descolando-se do jogo mais
amplo da política do Estado, ao mostrar-se impassível diante das tendências
modernizadoras que se espalhavam e contagiavam os governantes do continente
europeu àquela época, a corporação diplomática portuguesa do período mariano
(1777-1793) excluiu do leque das possibilidades empíricas "a
institucionalização da participação política dos povos no quotidiano da ação
governativa, negando-lhes igualmente qualquer legitimidade" (idem). É suposição
plausível que, dada a transmigração do aparato burocrático português para a
América do Sul, os agentes diplomáticos brasileiros tenham herdado boa parte
desse alheamento em relação à macropolítica nacional.
A propósito, Fernando Uricoechea (1977) alegou que, na passagem da dominação
patrimonial para a dominação burocrática, ocorrida em meados do século XIX,
estabeleceu-se aqui uma ordem legal inteiramente nova, responsável por apartar,
de maneira mais nítida, a esfera pública da vida privada. Essas novas regras e
normas aplicáveis à gestão do Estado nacional já refletiam mudanças na base da
autoridade política moderna. Logo, não se tratava apenas de uma "simples
questão administrativa" (ibidem:61), e sim de uma complicada operação
sociológica. Para o autor, a admissão dos limites privados do Estado, típica do
patrimonialismo medieval, não era consistente com a ideia de autoridade
pública. Sugere-se então que a grande carência nacional à época da
independência era a autoridade estatal, uma vez que "o Estado exerce poder,
sim; mas ainda não é imperioso (authoritative): ele não impõe obediência
automaticamente; ele não persuade: coopta e barganha" (Uricoechea, 1977:65). A
institucionalização de uma ordem legal burocraticamente administrada era
tornada impraticável pela fraca diferenciação existente entre o público e o
privado, capaz de inviabilizar, como exemplifica Uricoechea, a implementação de
um mero sistema abstrato de penas para os crimes comuns cometidos pelos
indivíduos.
Porém, Uricoechea (idem) também relatou o desenvolvimento paulatino de uma
consciência racional-legal na administração pública brasileira do Oitocentos '
na avaliação que fez do comportamento dos altos burocratas e magistrados que
aqui se encontravam. Apesar de apelos cada vez mais frequentes à "persuasão
racional", nossa burocracia combinou-se, inicialmente, com elementos de
arbítrio patrimonial. A base objetiva de ação ainda não era firme. Certa
maturidade burocrática ' e a própria solidificação dos referenciais racionais e
legais ' viria apenas no último quartel de século, na passagem do Império para
a República. Essas novas circunstâncias administrativas impunham, dentre outras
coisas, um novo estatuto para os valores associados ao parentesco no interior
das agências de governo. É justamente à época da inauguração da experiência
institucional republicana no Brasil que se consuma a transição de um modelo
abertamente aristocrático (e patrimonialista) de gestão pública para um modelo
tentativamente burocratizado, impessoal e, sobretudo, calcado em leis
objetivas.
No atinente à política externa do Estado brasileiro, talvez seja acertado
imaginar que o emergente quadro institucional republicano do início do século
XX se tenha deixado influenciar, de diferentes formas, pela atmosfera
aristocrática, típica do século anterior. Tal aspecto pede atenção: de um modo
geral, a agência governamental incumbida da política externa sofreu menos os
impactos sociais do que as demais ' especialmente, se considerado o contexto do
início do século XX. A "burocratização das consciências administrativas" foi
mais lenta e vacilante entre os responsáveis por assuntos internacionais do
Estado brasileiro ' o que cacifa, em última análise, a afirmação de que o
Itamaraty se constituiu historicamente em "último refúgio da nobreza". Apesar
de muitas explicações serem admitidas para o fenômeno, a mais recorrente
enfatiza o transplante das instituições políticas portuguesas (Faoro, 1958) e,
destacadamente, a característica suprassocial do seu corpo diplomático (Silva,
2002), levando à não diluição dos referenciais simbólicos portugueses, pois não
havia à época uma sociedade brasileira para diluí-los ou mesmo substituí-los.
Donde a gênese de um republicanismo de persistente corte aristocrático, que não
abandonaria facilmente o corpo diplomático brasileiro no curso de sua
existência.
INDICAÇÕES FAORIANAS PARA UMA POLÍTICA EXTERNA ESTAMENTAL
Na vertente institucionalista do nosso Pensamento Social e Político, Raymundo
Faoro (1958) foi quem originalmente procurou entender a especificidade do
processo de desenvolvimento brasileiro a partir da herança lusitana. A
transmigração da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1807/1808, é
metáfora para significar o transplante, para o Brasil, de um aparato estatal
patrimonialista, operante em Lisboa desde a Idade Média. Repetindo Weber
(1997), Faoro acreditava que a distinção entre as colonizações inglesa e
portuguesa nas Américas decorria, sobretudo, das instituições que lá e aqui se
instalaram. O autor principia sua obra maior, Os Donos do Poder, com a
contextualização de Portugal medieval-feudal. Sustenta, em suma, a tese de que
os reis portugueses governavam o reino como se fosse a própria casa. O seu
poder assentava no assenhoreamento do patrimônio público, em que a emergência
no Brasil de um capitalismo à sombra da casa real, apêndice do Estado,
deturpação do sistema econômico que despertava viçoso no norte europeu27.
Faoro introduz na sua narrativa a instrumental noção weberiana de estamento.
Distingue-o da casta, pois aquele (ao contrário desta), embora traga consigo um
sentido de permanência, não se encontra impermeável à ascensão social. O
sistema estamental permite o acesso daqueles que porventura estejam excluídos,
desde que absorvam uma determinada visão de mundo, assimilando um conjunto
específico de valores.
A "situação estamental", de acordo com Weber (1997), caracteriza-se pela
pretensão de privilégios positivos ou negativos na consideração ou estimação
social. Apoia-se, em regra, no modo de vida, em maneiras formais de educação ou
em um prestígio social, tradicional ou adquirido. Enquanto classes sociais
nascem vinculadas à economia de mercado, os estamentos buscam "o leito da
economia de consumo litúrgico-monopolista, feudal, e, sobretudo, da economia
patrimonial" (Faoro, 1958:25). Vitorioso o patrimonialismo estamental, ele se
burocratiza, de modo a lidar com a complexificação da gestão social. O
estamento burocrático, mais bem equipado para processar a racionalização das
funções do Estado ' a raison d'état ', supera o patriarcalismo original. Ou,
numa outra chave, a soberania territorial moderna supera a suserania medieval.
Como manifestação dessa tendência, despontam a centralização administrativa e a
codificação normativa ' "filhos primogênitos do aperfeiçoamento do conceito de
soberania" (idem:33).
O processo histórico que culminou com a independência política brasileira, no
início do século XIX, passou por diferentes etapas constitutivas. No referente
ao período da colonização (desde o início do século XVI) ao estabelecimento do
governo-geral (em fins do século XVII), a conquista da terra foi um
empreendimento diretamente comandado pelo rei, sob o discurso legitimador do
Estado. As colônias de plantação, instituições úteis para a ocupação do
território brasileiro, não eram empresas públicas, embora de interesse público
' razão pela qual se justificava a vigilância ferrenha a que estavam
submetidas. Adiante, passou-se do povoamento à defesa, das sesmarias ao
latifúndio e ao capitalismo comercial (encarnados na figura do governador-
geral). Apesar da precariedade da organização territorial brasileira, das
distâncias entre agentes da Metrópole e das quebras de comunicação, não há que
confundir a colonização brasileira com o feudalismo, na medida em que esses
engenhos não se desenvolveram por impulso próprio, obedecendo à risca um
planejamento da Coroa (Fausto, 2001).
A partir do século XVIII, sobretudo, aumenta a centralização colonial. "Divide-
se para governar e para centralizar" ' indica Faoro (1958). A escolha dos
funcionários estatais não atendia a critérios meritocráticos. É quando avança a
estratégia do fiscalismo na administração pública. Contribuiu também como
mecanismo centralizador o advento de um Exército permanente.Uma vez dotado o
Estado brasileiro de braços armados e de meios de autofinanciamento, este se
equipara (ao menos, de uma perspectiva arquitetônica institucional) ao Estado
moderno europeu, surgido nos séculos XIV e XV (Tilly, 1996; Van Creveld, 2004).
Unidade de governo confunde-se com unidade nacional; Estado com sociedade. E
esse desarranjo acompanharia o Brasil até a República, segundo o autor de Os
Donos do Poder.
Nos primeiros anos após a independência política do Brasil (1822), já se pôde
notar diferenciação entre a elite portuguesa e a brasileira. Aquela continuou a
fornecer quadros para o estamento burocrático, enquanto esta envolvia a gente
rica, embora desprestigiada politicamente. O rústico militarismo dos senhores
rurais havia sido domado no curso do século XVIII. O problema fundamental da
política brasileira no século XIX não era mais a conciliação do fiscalismo
centralizador com a força regionalista, mas a manutenção da unidade política do
país, "ameaçada pela anarquia difusa de uma nação sem amadurecimento orgânico"
(Faoro, 1958:141). Nos momentos de evocação da "razão de Estado", ganha
particular importância a instituição do Poder Moderador28. Como ressalvou o
autor, "o estamento... aninhava-se no Poder Executivo, no Senado vitalício e,
principalmente, no Poder Moderador" (ibidem) ' cujas capacidades potestativas
eram insuperáveis. Ante os temores gerados pela situação de anarquia,
instaurada após a abdicação de Dom Pedro I, persuadiram-se os políticos das
virtudes do regime monárquico na garantia da unidade nacional. O Senado
vitalício e o Conselho de Estado figuraram como esteios do estamento
burocrático, assim permanecendo por todo o Segundo Reinado. No que concerne ao
Legislativo, os anos sob Pedro II foram de relativa calmaria, com rodízio dos
dois partidos ' conservador e liberal ' à frente dos gabinetes.
O Estado não restringia a sua atuação econômica às faculdades formais de
autorizar e legislar, mas também chamava os empresários, com as concessões e
subvenções. Estabeleceu-se, à época, uma aliança espúria entre o estamento
burocrático e alguns negociadores, que se nutriam de relações privilegiadas com
o Tesouro para extrair grandes lucros. Do ponto de vista da formação
intelectual, Faoro comentaria que ainda estava por ser escrito estudo sobre a
"paideia" do estamento burocrático brasileiro29. Todavia, alguns poucos traços
dessa formação já podiam ser apontados: muitos dos membros do estamento foram
recrutados nas escolas dos jesuítas, nas escolas jurídicas ou nas academias
militares, tendo ingressado, adiante, na carreira pública. Para tanto, como
ironizou Manoel Bomfim (1931), eles não precisavam demonstrar outra virtude
além da "firmeza dos colchões" e da "aderência das ventosas" (ibidem:205-206).
Ou, no registro de Faoro: "Com a diligência governamental de educar a juventude
para o emprego público, e com a tendência de tudo esperar-se do Estado, a
empregomania seria a doença geral dos cidadãos" (Faoro, 1958:227). Alberto
Guerreiro Ramos (1966) também relatou o processo através do qual as pessoas
"diplomadas e vestidas de casaca", porém sem ocupação profissional (médicos sem
clínicas, advogados sem clientes, professores sem discípulos, literatos sem
leitores etc.), pressionaram os poderes públicos pela formação de uma classe
média nacional. Ora, coube ao poder público, no uso de suas capacidades
institucionais, absorver o excesso de contingente diplomado, inflando o
aparelho burocrático estatal. Assim, de um modo geral, o Estado brasileiro
caracterizava-se, por um lado, pelo seu estamento burocrático superpovoado de
funcionários e, por outro, pelo comércio alimentado por favores do governo.
No avançado do século XIX, o estamento burocrático repartiu-se. A partir de
1870, juntam-se a liberais e conservadores os republicanos, embaralhando o jogo
político. As diferenças entre liberais e republica-nos, como se notou, não eram
apenas formais ou estéticas, mas doutrinárias. O Partido Republicano, nascido
no seio do Clube Radical, postulava a antinomia entre o governo monárquico e a
"verdade democrática" ' no que se opunha aos liberais. Os conservadores,
guardiães do "espírito imperial", subsistiram, acomodados no estamento, embora
cada vez mais desfalcados de seus quadros, perdidos para os liberais e os
republicanos. A tese mais ambiciosa de Faoro (1958), nesta altura, é de que
tanto a abolição da escravatura quanto a proclamação da República são frutos de
uma desarticulação dentro do estamento burocrático. No caso específico do
advento da República, afirma-se que o ponto-chave para a compreensão do
fenômeno foi o divórcio havido entre o Exército e a monarquia ' processo
iniciado com a Guerra do Paraguai, e a polêmica entre o marechal Caxias e o
gabinete de Zacarias.
O vitorioso ideal republicano traduzia-se, na visão de Oliveira Vianna (1952),
como a afirmação da integridade nacional pela fragmentação do poder. Ou seja:
nos primeiros anos da República, o estamento burocrático continuou incumbido da
missão de preservar a unidade do país, daí retirando parcela de sua
legitimidade. Já no século XX, surge um fato novo no arranjo das forças
sociais: a "política dos governadores". A contar desse momento, as oligarquias
estaduais começam a sobrepujar o estamento, mas não o aniquilam. Tal
ascendência provinciana duraria até a revolução de 1930, quando o Estado
brasileiro passa por nova centralização administrativa, facilitada pela redução
dos obstáculos geográficos, com a construção de estradas.
Raymundo Faoro concede, ao cabo, ser o estamento burocrático um fruto da
apropriação aristocrática da soberania popular. Como se lê textualmente nas
páginas finais da 3ª edição de Os Donos do Poder,
O estamento burocrático, fundado no sistema patrimonial do
capitalismo politicamente orientado, adquiriu o conteúdo
aristocrático, da nobreza da toga e do título. A pressão da ideologia
liberal e democrática não quebrou, nem diluiu, nem desfez o patronato
político sobre a nação, impenetrável ao poder majoritário, mesmo na
transação aristocrático-plebeia do elitismo moderno. O patriciado,
despido de brasões, de vestimentas ornamentais, de casacas
ostensivas, governa e impera, tutela e curatela. O poder ' a
soberania nominalmente popular ' tem donos, que não emanam da nação,
da sociedade, da plebe ignara e pobre. O chefe não é um delegado, mas
um gestor de negócios, gestor de negócios e não mandatário (Faoro,
2005:836-837).
O antídoto para essa usurpação da soberania residiria não em fórmulas
institucionais, mas em um contramovimento social, a ser exprimido, segundo o
autor, por meio da cultura e dos costumes dos cidadãos nacionais. O principal
obstáculo para tal reação é que a população se acostuma a ver o tirano como
"bom príncipe", que fala direto ao povo, sem intermediários. Acostuma-se também
a enxergar no Estado o maior e mais altaneiro dos senhores, aquele ao qual
servir parece mais ético e recompensador. Acostuma-se, em outras palavras, à
política do estamento burocrático, que, habilmente, legitima o próprio mando
(Faoro, 1958; 2005). Resta então saber se, no caso da política externa
contemporânea, faz sentido pensar nesses termos.
RUMO À EROSÃO DO ESTAMENTO ITAMARATIANO? ALGUMAS CONSIDERAÇÕES INCONCLUSIVAS
No ano de 1985, o então presidente eleito do Brasil, Tancredo Neves, referia-se
à "política externa conduzida pelo Itamaraty" como uma virtual unanimidade em
sua substância, merecedora de "aprovação da opinião pública" e, no Congresso
Nacional, "objeto de um consenso pluripartidário" (apud Lafer, 1985:13-14). O
pronunciamento feito em Washington, no National Press Club, tinha o objetivo
político de concatenar o processo interno de transição democrática com a
proposta diplomática de democratizar as relações internacionais30. Não
obstante, a globalização das relações humanas, acompanhada do avanço de
argumentos em prol da democracia dentro do país e ao redor do mundo, trouxe
ressonâncias para a estrutura estamental do sistema de política exterior do
Brasil. Na expressão de Rubens Ricupero (2001), teria ruído o "consenso de
Tancredo". A principal plataforma institucional para a observação empírica do
fenômeno é o Ministério das Relações Exteriores, que, a pretexto de adequar-se
ao que se esperava dele em um regime democrático (uma maior aproximação com o
interesse manifestado pelo público), promoveu muitas e intensas reformas ' as
quais foram, até certo ponto, dramáticas, dado o dilema distributivo envolvido
' em seus mecanismos de recrutamento, promoção e avaliação de mérito
profissional (Faria, Belém Lopes e Casarões, 2013).
Dado que o estamento burocrático não é impenetrável a novos membros ' no que se
diferencia da categoria da casta ', ele pode mostrar-se resiliente e, por
conseguinte, perdurar no tempo, remodelando-se adaptativamente às
contingências. Conforme profere Diego Jesus acerca da suposta abertura do
debate democrático da PEB, havida durante o segundo mandato presidencial de
Fernando Henrique Cardoso (1999-2002),
Embora não tenha ignorado a presença de mais atores no debate sobre
as melhores opções diplomáticas ' o que certamente tornou menos
imediato e mais competitivo o processo de construção de consensos ',
o Itamaraty ainda é bastante relutante, por exemplo, na prestação de
contas de suas ações à sociedade civil e na construção de maior
transparência no processo negociador, buscando garantir sua autonomia
para assim permitir o cumprimento de seus compromissos externos sem
os percalços de uma oposição interna (Jesus, 2009:197).
Segundo Jesus (idem), o Ministério, em regra, aproveita-se da ausência de
normas e mecanismos de controle sobre o processo de formulação da política
externa para beneficiar-se de uma participação errática das forças sociais. Tal
leitura encontra guarida na proposição de Letícia Pinheiro (2003) de que o
Itamaraty, sob a Nova República, tem conseguido ganhar representatividade sem,
todavia, arcar com os ônus típicos de regimes democráticos ' como a prestação
de contas à população31. Na tentativa de descrever as novas estratégias do
Itamaraty para lidar com as mudanças sociais e políticas que têm impactado a
produção da PEB na contemporaneidade, Faria, Nogueira e Belém Lopes assim
elaboraram:
A histórica relação tutelar que o Itamaraty mantém com a política
externa brasileira permaneceu por meio de outras fórmulas, em que
pesem a aparição de novos stakeholdersnas relações internacionais do
país e o crescente compartilhamento de papéis institucionais (no
relativo à condução da PEB) no seio do aparelho de Estado. (...) A
necessidade de uma coordenação intragovernamental eficiente entre
agências [governamentais] tem levado o Ministério das Relações
Exteriores a reposicionar-se no ciclo de policy-making da PEB '
passando da condição de operador preferencial e praticamente
onipresente, pela via diplomática, para uma função mais propriamente
supervisora e articuladora das dinâmicas de cooperação internacional
do Brasil (2012:212-213).
Em estudos de caso recentemente publicados, essa posição ainda central ' e
pretensamente tutelar ' do Itamaraty fica demonstrada. Seja em direitos humanos
(Moulin, 2011; Milani, 2012), cultura (Lessa, Saraiva e Mapa, 2012), meio
ambiente (Inoue, 2012; Carvalho, 2012), comércio (Oliveira e Milani, 2012),
saúde pública (Mello e Souza, 2012) ou na cooperação sul-sul (Faria e Paradis,
2013), o que se constata, a despeito da proliferação de atores sociais com
interesses em jogo e dos canais institucionais para processamento de
inputsdemocráticos, é a manutenção do lugar privilegiado do Ministério do
Exterior brasileiro na produção da PEB contemporânea.
Ao repassar a evolução do sistema de formulação, tomada de decisão e
implementação da política externa brasileira desde o século XIX, apontamos
alguns de seus traços mais permanentes, em oposição aos conjunturais. As noções
de "republicanismo aristocrático" (conforme a matriz renascentista itálica) e
"estamento burocrático" (de Raymundo Faoro) mostraram-se úteis aos propósitos
do trabalho, pois forneceram substrato teórico à fabricação de narrativa
alternativa sobre a trajetória da razão de Estado ao republicanismo mitigado '
que, em diversos sentidos, diverge das grandes teses que estruturam o campo de
estudos da Política Externa Brasileira. O "republicanismo mitigado" pode ser
compreendido por meio de uma imagem singela: um instrumento de corda. Admita-se
que a corda em vibração produza sons. Nos termos abstratos do raciocínio, os
sons corresponderão às orientações da PEB nos diversos governos brasileiros.
Imagine-se agora que, ao longo dos anos, a corda tenha oscilado, de forma
irregular, entre as duas extremidades do seu intervalo de variação, mas, quando
em repouso, tenda ao equilíbrio. Ocorre que, com o uso continuado, essa corda
foi se de formando ' o que trouxe, por implicação, um novo ponto de equilíbrio
no repouso.
Assim, cremos, é o republicanismo mitigado que define a PEB contemporânea: uma
versão modificada do republicanismo aristocrático oitocentista, que incorporou,
parcial e seletivamente, a fórmula democrática ao seu modus operandi. Há dois
movimentos coordenados, complementares entre si e potencialmente reveladores
sobre o objeto da pesquisa: por um lado, faz-se notar a campanha
"democratizante" sobre o Itamaraty, acompanhada pela emergência de uma
concepção poliárquica de PEB, mais aberta a estímulos de um número plural de
atores sociais, mas, ainda assim, refratária à universalização da cidadania32;
por outro lado, a retórica e a institucionalidade da democracia têm sido
utilizadas, de maneira tutelar, pelos usuais promotores da inserção
internacional do país33. Trata-se de reconhecer variantes do que Alexandre
Parola (2007) chamou de "pragmatismo democrático" nas falas e iniciativas
práticas de presidentes da República e diplomatas de carreira, principalmente
nos últimos 20 anos de vida pública nacional (já no período da Nova República).
Na verdade, o tema da democratização da política externa brasileira sequer
parece estar posto, pelos atuais formuladores estratégicos da inserção
internacional do Brasil, como um problema efetivo. Embora o discurso e a
prática institucional do Itamaraty de notem ênfase crescente na questão
democrática e na pluralidade dos atores sociais ora envolvidos, de uma forma ou
de outra, com a produção da política externa brasileira, não se observa aí
senso de urgência ou de necessidade. Apesar de não dispormos de muitos
elementos objetivos para afirmar que a democratização ampliada da produção da
PEB seja tendência indesejável para o Ministério das Relações Exteriores do
Brasil e seus membros34, cumpre reconhecer que essa burocracia tem sabido
absorver muito do impacto proveniente das pressões por mais democracia,
convertendo-as, frequentemente, em insumo de legitimidade para uma condução
(ainda) aristocrática da política exterior do Estado brasileiro.
Exposto da forma mais direta possível: a inevitávelabertura, por diferentes
caminhos, de alguns processos da PEB à influência da sociedade brasileira pode,
curiosamente, ajudar a manter a estabilidade de propósito do Itamaraty, por
(ainda) não ameaçar a "arca das tradições" da Casa35. Mesmo que o pêndulo da
PEB alcance o lado democrático, ele não abandona o campo de forças republicano-
aristocrático36. Tudo isso descortina, provavelmente, uma solução de
compromisso discursiva, em que novas teses e elaborações conceituais têm
serventia para encobrir velhas motivações e barganhas políticas. Ainda que
bastante pressionado, o estamento da política externa sobrevive.
NOTAS
* Para a elaboração do artigo, beneficiei-me dos ricos comentários de Carlos
Aurélio Pimenta de Faria, Rogério Farias, Túlio Ferreira e dos revisores
anônimos de DADOS ' Revista de Ciências Sociais.Permaneço,não obstante, como o
único responsável pelos erros e omissões que poderão ter permanecido nesta
versão final.
1 Como se poderá argumentar, a postulação que faz Danese (1999) corresponde a
um discursocomum entre diplomatas brasileiros ' o qual também está enunciado,
com pontos de apoio ligeiramente distintos, nos trabalhos de Goes (1991),
Corrêa (2000) e Santos (2010).
2 Na metáfora original, o filósofo Zenão de Eleia combate a ideia de
indissociabilidade entre tempo e movimento, alegando que, caso essas categorias
estivessem atreladas, numa corrida hipotética que fosse realizada entre o herói
grego Aquiles e uma tartaruga, ainda que Aquiles se movimentasse mais
rapidamente que a tartaruga, se esta tivesse começado a se mover antes, ele
jamais a ultrapassaria. É por isso que, se admitido o pressuposto de Danese (de
que a diplomacia é, desde os princípios, a formatadora da nação no Brasil), por
mais que a sociedade brasileira (Aquiles) se democratize radicalmente e busque
participar ativamente da PEB, ela de fato nunca o poderá, uma vez que os
formuladores diplomáticos (tartaruga) sempre estarão à sua frente no tempo.
3 Em artigo previamente publicado, tentei sumariar as hipóteses mais
recorrentes da literatura para explicar a histórica baixa democraticidade da
política externa brasileira. Cf. Belém Lopes (2008).
4 Invariavelmente presente nos discursos dos últimos ministros das Relações
Exteriores do Brasil após 1984. Cf. Belém Lopes (2010 e 2011).
5 Sobre o histórico de conservadorismo, tradicionalismo e alegado virtuosismo
da diplomacia brasileira, ver Cervo e Bueno (2002) e Moura (2006 e 2007).
6 Para apanhado sobre a evolução institucional da organização, ver Cheibub
(1985).
7 Para uma exposição compreensiva sobre o sistema de política exterior do
Brasil na contemporaneidade, a referência é Souza (2009). Outro autor que se
aventura na tentativa de representar um esquema de organização institucional e
produção da política externa brasileira é Amorim Neto (2011).
8 Na primeira grande tentativa de organizar o corpo diplomático brasileiro,
datada de 22 de agosto de 1851, já se podia deparar com um dispositivo legal
(Lei nº 614, art. 3º) instrutivo a esse respeito: "Para os lugares de
secretários e adidos de legação serão preferidos os bacharéis formados nos
cursos jurídicos do império, e os graduados em academias ou universidades
estrangeiras, que mais versados se mostrarem em línguas" (apud Belém Lopes,
2013:180). Cabe ainda o contraste do caso brasileiro com o que se passou nos
Estados Unidos, no fim do século XVIII e início do XIX. Segundo Edmundo Coelho,
após a Guerra da Independência nos EUA, a frágil estrutura regulatória das
profissões que lá havia, foi desmontada: "estado após estado, os requisitos
formais de qualificação para o exercício da advocacia e da medicina foram
abolidos como sobrevivências 'aristocráticas' inglesas incompatíveis com a
cultura igualitária da nova nação" (1999:36). Já no Brasil do século XIX, o
autor entende que "é difícil não se deixar impressionar pela permanente
disposição dos nossos profissionais para o despotismo, a inclinação para ver na
extinção ou na limitação das liberdades individuais a via para a felicidade
geral. São histórias de elites saturadas de valores excludentes,
antidemocráticos, antipovo" (ibidem:289).
9 Mesmo quando concursos eram realizados para recrutar membros para o serviço
exterior, as idiossincrasias despontavam. Gilberto Freyre (1938) falava, por
exemplo, da predileção que o barão do Rio Branco manifestava pelos brancos de
pele, em detrimento dos pardos e pretos, nos recrutamentos que fazia. Marcos de
Azambuja (2011) conta que, na década de 1950, os exames psicológicos conduzidos
pela cúpula do Itamaraty para selecionar os diplomatas brasileiros "tinham um
objetivo acessório veladamente homofóbico". Nos manuais para candidatos à
carreira diplomática do início deste milênio, ainda se podia encontrar
referência a critérios de operacionalização duvidosa, a serem avaliados pelas
bancas por meio de entrevista, tais como o "currículo oculto" e a
"benevolência" do aspirante (Ministério das Relações Exteriores do Brasil,
2002).
10 Cf. Aristóteles (2001), Política, livro III.
11 O que se torna explícito nos Discursos sobre a Primeira Década de Tito
Lívio, livro III.
12 Traço importante da formação da milícia romana, que Bruni (1996) trata de
sublinhar, é a disposição das classes sociais nas tropas, que eram, ao tempo de
Rômulo, subdivididas em duas categorias: a infantaria, formada pela baixa
plebe, e a cavalaria, ocupada integralmente pelos nobres ou pelos homens mais
honrados da república. Bruni postula que, ao se criar uma milícia, a cavalaria
tem que estar no topo da hierarquia social ' portanto, no controle supremo das
atividades militares. Esse expediente dava face às honras que o cavaleiro já
gozava enquanto cidadão, em sua singularidade humana: "E tal honra um cavaleiro
não tinha somente quando estava no exército e na guerra, mas a portava também
na pátria e em tempos de paz, não porque agora era soldado, mas porque tinha
uma dignidade pela qual, quando tivesse que prestar serviço militar, o
prestava, não na infantaria, como a plebe mais baixa, mas num tipo mais elevado
de milícia, a cavalaria" (Bruni, 1996:671).
13 Para discussão sobre as distintas matrizes do republicanismo, ver Bignotto
(2013).
14 A prévia leitura do ensaio de Starling e Lynch (2009) é bastante instrutiva
a respeito do campo semântico dos termos "república" e "republicano" no Brasil
dos séculos XVIII e XIX.
15 Despotismo, na Grécia antiga, refere-se ao governo exercido
monocraticamente, mas não necessariamente pautado por rudeza ou crueldade.
Nesse sentido, o pai de família, na estrutura social de então, era um déspota
(oikos despote).
16 Argumento assemelhado encontra-se no trabalho de Lynch (2012) sobre Joaquim
Nabuco.
17 O que invertia a lógica católica, segundo a qual a escravidão decorria de
uma culpa prévia (pecado original).
18 Tratando da cidadania numa chave do Brasil oitocentista, José Murilo de
Carvalho registrou, em seu clássico trabalho A Formação das Almas,a tibieza do
estatuto do indivíduo, porquanto, para as correntes liberais "americanistas" e
"positivistas" que lideraram o processo de republicanização brasileira, não
interessava promover a ideia de "república popular" e expandir, além de um
mínimo necessário, a participação política (2005b:12). Fez-se a "transição pelo
alto", entre as elites políticas de então, a que o povo assistiu,
"bestializado" e inerte, tornando-se evidente a dissociação existente entre
sociedade civil e sociedade política (Carvalho, 2005b).
19 Com ironia, Edmundo Coelho afirmou a respeito desse republicanismo
aristocrático no Brasil do Oitocentos: "Se a você desagrada a noção de que a
autoridade do Estado emana da vontade ou da soberania popular, melhor não
utilizar o conceito de Estado em seus argumentos políticos; substitua-o, por
exemplo, por 'governo representativo' e proponha para operacionalizá-lo o
sufrágio censitário. Esta pode ser uma boa estratégia se você é um liberal
brasileiro do século passado [XIX]: ela elimina os inevitáveis problemas de
convivência do liberalismo com a democracia, tudo em nome de uma Razão
Ilustrada - a dos 'cidadãos bons' ' e da ordem pública" (Coelho, 1999:61).
20 De uma vertente romanizada, mais propensa ao militarismo que a ateniense.
21 Sumariando essas dificuldades lógicas e constrangimentos morais, afirma
Carvalho: "era atroz ironia ter que usar ex-escravos para defender o País. Era
insuportável contradição ter que usar ex-escravos numa guerra que se fazia em
nome do combate à ditadura e à opressão. Era, enfim, enorme risco ir à guerra
no exterior com a retaguarda ameaçada pelo inimigo interno" (Carvalho, 2005a:
57).
22 Na carta enviada pelo imperador ao conde d'Eu ' em 6 de abril de 1869, em
que convocava o genro para o comando do Exército na Guerra do Paraguai ' lia-se
(em demonstração, ao mesmo tempo, breve e eloquente da centralidade de Pedro II
no processo decisório da política imperial, fazendo lembrar o célebre dístico
de Luís XIV): "O Governo pensa como eu (...) é preciso quanto antes livrar o
Paraguai da presença de López (...) [o Governo] julgou conceder a demissão a [o
duque de] Caxias e nomear você" (apudSchwarcz, 2008:310, ênfase minha).
23 Tal percepção foi corroborada por Calógeras, para quem "ficara... por demais
centralizada a orientação dos negócios na pessoa do Diretor Geral [do MNE]"
(1936:210).
24 Superado em número de dias no cargo pelo ex-chanceler Celso Amorim, que
ocupou a chefia do Ministério das Relações Exteriores entre 1993-1995 (governo
Itamar Franco) e 2003-2011 (governo Lula).
25 Do que dá rico testemunho o volume organizado por Pereira (2012).
26 No fraseado (hagiográfico) que Álvaro Lins lhe dedicou, por motivo de sua
morte, "... agora morto, é que ele começava realmente a viver. Pois Rio Branco
continua a ser a principal figura do Itamaraty, que se tornou de modo ao mesmo
tempo simbólico e real a 'Casa de Rio Branco'. E isso aconteceu porque,
morrendo no momento certo, ele deixou de ser um homem para se tornar uma
imagem. Como imagem, ele é sempre um ideal inalterado e renovado, uma força
imaterial da qual procuramos aproximar-nos incessantemente" (Lins, 1996:443).
27 Max Weber (1997) apontava os seguintes entraves à manifestação do verdadeiro
capitalismo moderno: (a) o tradicionalismo; (b) o patrimonialismo sem quadro
administrativo; (c) o amplo campo de arbítrio do governante; (d) a má qualidade
do pessoal administrativo; e (e) o patrimonialismo via quadro administrativo.
Em alguma medida, todos eles estiveram presentes na construção do Estado
português na modernidade.
28 Segundo Faoro, tratava-se do "relicário das tradições monárquicas" (1958:
146).
29 Faoro escreve o seu ensaio muito antes da publicação, por José Murilo de
Carvalho, de A Construção da Ordem: A Elite Política Imperial (original de
1980).
30 Justamente quando o clássico trabalho do professor Zairo Cheibub sobre a
produção da PEB era apresentado à comunidade acadêmica, sob a forma de artigo,
na revista Dados. Cf. Cheibub (1985).
31 Em que pese ao anacronismo, poder-se-á dizer que o processo histórico
brasileiro guarda alguma semelhança com o que se deu na Península Itálica
durante o Renascimento. Segundo o historiador Hugh Trevor-Roper, estabeleceu-se
uma nova dinâmica política, a partir do século XV, em todas as repúblicas da
Itália: em face da ebulição sociopolítica europeia, as constituições
republicanas, que foram respeitadas e mantidas intocadas num primeiro estágio,
passaram a servir de pretexto de legitimação para determinadas ações despóticas
e concentradoras de poder no correr dos anos. Isso se deu tanto na Milão de
Visconti e Sforza quanto na Florença dos Médici: "[Cosimo de' Médici] pode bem
ter se lançado como pai da pátria e 'primeiro cidadão' da república, mas acabou
por fundar uma dinastia grã-ducal destinada a durar séculos" (Trevor-Roper,
2005:6-7). Em Veneza, diante do temor suscitado pelo mecanismo eleitoral e por
seu eventual sucessor (Francesco Foscari), o doge Mocenigo promoveu o
"aparelhamento" do seu governo, convocando para tal operação os mais
tradicionais aristocratas venezianos (cf. Trevor-Roper, 2005).
32 Para referência sobre os avanços e retrocessos nas propostas de
democratização da política externa brasileira entre 1985 e 2010, ver Belém
Lopes (2013, capítulo 2).
33 Matias Spektor (2013) ilustrou a referida tendência, criticando em artigo na
Folha de S. Paulo a proposta do Itamaraty para aproximar-se da sociedade civil
pela via da diplomacia pública unilateral ' estratégia que se assemelha, em
certo sentido, à propaganda governamental.
34 Em artigos recentemente publicados, busquei mostrar quão "circunstancial"
para o corpo diplomático brasileiro foi a redemocratização de 1985. Como se
depreende da sua leitura, não houve planejamento e qualquer impulso
democratizante por parte do Itamaraty; antes, o contrário. Cf. Belém Lopes
(2010 e 2011).
35 A expressão "arca das tradições" foi empregada por Joaquim Nabuco (1997:79)
para descrever o Conselho de Estado do Brasil Império. In verbis: "[o Conselho
de Estado era] o crisol dos nossos estadistas e a arca das tradições do
governo".
36 Indicativamente, dois séculos após o início dessa trajetória, os pontos de
partida (razão de Estado) e de chegada (republicanismo mitigado) continuam
próximos ' como na "viagem redonda" que Faoro (2005) descreveu em Os Donos do
Poder.