Construindo a América do Sul: identidades e interesses na formação discursiva
da Unasul
INTRODUÇÃO
A União de Nações Sul-Americanas (Unasul) desenha-se nos últimos anos como novo
nível de integração regional na América do Sul, somando-se ao Mercado Comum do
Sul (Mercosul), à Comunidade Andina (CAN) e à Aliança Bolivariana para os Povos
da Nossa América (ALBA) - sem contar as várias iniciativas de cooperação
bilaterais no interior do subcontinente e multilaterais compreendendo outros
países da América, como a Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), a
Organização de Estados Americanos (OEA) e a recente Comunidade dos Estados
Latino-americanos e Caribenhos (CELAC). No jardim de veredas que se bifurcam do
multilateralismo sul-americano, a Unasul é criada com amplos objetivos
políticos, sociais, econômicos, securitários e de infraestrutura, visando à
convergência gradual das demais iniciativas de integração na região como meio
de alcançar "um futuro comum de paz e prosperidade econômica e social" (Tratado
Constitutivo da Unasul, 2008, preâmbulo).
As origens da Unasul remontam à Primeira Reunião de Presidentes da República da
América do Sul, a qual se dá em Brasília, em 31 de agosto e 1o de setembro de
2000, a convite do presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso. Nela,
discute-se como organizar a convivência cooperativa e coordenada entre os
Estados nos setores de comércio, infraestrutura, luta contra drogas ilícitas,
informação e tecnologia - objetivo oriundo da "convicção de que a contiguidade
geográfica e a comunidade de valores levam à necessidade de uma agenda comum de
oportunidades e desafios específicos" (Comunicado de Brasília, 1/9/2000,
parágrafo 2o). Os mesmos fins e princípios são reiterados no Consenso de
Guayaquil assinado na Segunda Reunião de Presidentes da América do Sul
(Guayaquil, 26 e 27 de julho de 2002), o qual confere especial ênfase para o
plano de ação da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-
Americana (IIRSA).
É na Terceira Reunião de Presidentes do subcontinente, realizada entre 7 e 9 de
dezembro de 2004 em Cusco, que se decide criar a Comunidade Sul-Americana de
Nações (CASA), reforçando a pretensão de formar um bloco econômico entre os
doze países: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru,
Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname. Conforme dispõe a Declaração
de Cusco (8/12/2004) em seu item 1, a Comunidade estaria fundada sobre "uma
identidade sul-americana compartilhada e valores comuns", voltada para o
desenvolvimento dos povos e da integração física.
Em 2007, os representantes dos Estados-membros da CASA, após sugestão da
Venezuela, decidem mudar sua epígrafe para União de Nações Sul-Americanas
(Unasul), assinando no ano seguinte seu Tratado Constitutivo - o qual tem a
ratificação completada por seus participantes em agosto de 2011. Entretanto, os
lentos avanços das demais experiências de integração sul-americanas, assim como
a desconfiança quanto à grande amplitude dos objetivos da Unasul levantam
hesitações quanto à sua capacidade de constituir-se institucionalmente com
eficácia real, para além do discurso.
Nesse contexto, determinados autores apontam a Unasul como exemplo de uma
presumida tendência dos líderes sul-americanos a envolver discursos políticos e
instrumentos normativos com uma retórica marcante e uma forte simbologia. Para
Paulo Roberto de Almeida, "A despeito da retórica integracionista das reuniões
presidenciais nos últimos dez anos - grosso modo, desde o primeiro encontro de
chefes de Estado e de governo realizado em Brasília em 2000 - não existe o
mínimo sinal prático de que os países possuam visões convergentes, e menos
ainda coincidentes, sobre a integração" (Almeida, 2010:10).
Entretanto, seriam esses discursos indiferentes à política regional sul-
americana e sua análise? Para além dos limites topográficos, uma região é
forjada pelos vínculos que os indivíduos desenvolvem com um determinado
território, o que deriva de uma história coletiva mas também de interações
presentes, inclusive por meio de instituições. Estas instituições prescrevem
normas de comportamento e regulam atividades, bem como frame the discourse
(Schmidt, 2008:314): definem os limites dentro dos quais determinados
repertórios de ideias e interações discursivas serão mais ou menos aceitáveis.
No caso de uma organização incipiente como a Unasul, voltar-se para seus
discursos de institucionalização pode ser de especial valia para entenderem-se
seus objetivos, pontos focais de cooperação e conflito.
Nesse contexto, o presente artigo propõe-se a, partindo de discursos
concernentes à conjuntura de construção da Unasul, analisar se a ideia de
identidade coletiva sul-americana constitui um elemento discursivo apropriado
pelas elites políticas de modo a embasar o arranjo cooperativo na América do
Sul. Para tanto, toma-se o discurso como dimensão em que essas ideias são
trocadas e expostas ao público: adota-se uma perspectiva neoinstitucionalista
discursiva, levando ideias e discursos a sério ao mesmo tempo em que se os
observa dentro de um quadro institucional.
Desta forma, investiga-se como a identidade sul-americana é construída ou
reproduzida por diferentes atores estatais, empregando estratégias discursivas
diversas para estabelecer uma identidade coerente com interesses e objetivos
particulares. As políticas neoliberais implementadas durante a década de 1990
em adesão ao Consenso de Washington e a posterior ascensão ao poder de
lideranças de esquerda (em plurais vertentes) contestando a ordem liberal podem
gerar a impressão de que a região se caracteriza pela homogeneidade de
processos e interesses e, consequentemente, por uma mesma visão de integração.
Com o objetivo de observar se há uma ideia coerente e homogênea de América do
Sul ou se, ao contrário, podem-se identificar diferentes narrativas
relacionadas à identidade sul-americana, a pesquisa examina como as identidades
regionais são relacionadas aos interesses nacionais e a que valores estão
discursivamente associadas.
A análise centra-se, assim, na identidade sul-americana conforme concebida
pelos líderes políticos: frisam-se as construções identitárias realizadas pelas
elites políticas e expressas em seus discursos públicos. No quadro de uma
definição mínima de elite como "os que tomam as decisões de importância a serem
tomadas" (Mills, 1981:30), isto é, decisões de amplas e significativas
consequências, centra-se aqui no grupo político, mais especificamente, em seus
membros diretamente envolvidos na condução da política externa: os chefes de
Estado e governo e ministros das Relações Exteriores. Presidentes da República
são atores maiores no discurso político de um país não apenas dada a amplitude
das consequências de suas ações, mas também porque, ao contrário de outras
elites, são sujeitos à accountability do eleitorado e devem justificar seus
atos e decisões (Anderson, 2008). Além disso, como explica Danese:
A diplomacia de chefes de Estado e de governo é marca da diplomacia
contemporânea, queira-se ou não. Mesmo sofrendo indizíveis abusos, é
ela quem consegue alavancar iniciativas externas ou mobilizar a
burocracia interna [...]. Além disso, é a diplomacia de chefes de
Estado e governo que consegue dar protagonismo ou liderança a um país
na sua ação externa. (Danese, 2009:142)
Em suma, em um quadro de análise neoinstitucionalista discursivo, a hipótese
aqui trabalhada é a de que líderes nacionais proativamente promovem processos
discursivos de identificação social na construção institucional da Unasul, mas
que as narrativas identitárias diferem entre os países de acordo com os valores
a que são relacionadas, em consonância com interesses e identidades nacionais.
Para explorá-la, o artigo traça um panorama geral das percepções regionais dos
países que compõem a União de Nações Sul-Americanas, inserindo-os para tanto
dentro do contexto de iniciativas de integração sub-regionais em que se
engajam. Em seguida, discute-se o marco teórico neoinstitucionalista
discursivo, enfatizando a ótica que fornece para a questão identitária.
Por último, realiza-se a análise empírica dos discursos selecionados e se
avançam as considerações finais e conclusões pertinentes. O teste empírico da
hipótese foi realizado por meio de análise de conteúdo (AC) assistida por
computador, recorrendo-se ao software Yoshikoder1 0.6.3. Por meio deste último,
elaborou-se um dicionário para examinar os documentos selecionados, obtendo a
frequência das palavras e observando as palavras-chave em contexto (key-words-
in-context)2. Essa análise de conteúdo foi realizada em uma abordagem quali-
quantitativa, de modo que os discursos foram analiticamente inseridos em seu
contexto sócio-histórico. Nesse sentido, dado o objetivo da pesquisa, foram
examinados:
1) declarações de intenções e de princípios, consensos e declarações formais
coletivas reportando os resultados das primeiras reuniões de chefes de Estado
sul-americanos (2000, 2002, 2004, 2005 e 2006) nas origens da Unasul, seu
Tratado Constitutivo (2008) e declarações formais coletivas das Cúpulas
Ordinárias e Extraordinárias de Chefes de Estado e Governo que se seguiram
(Grupo Textual 1);
2) discursos proferidos por chefes de Estado e ministros das Relações
Exteriores em ocasião de reuniões da Unasul ou nas reuniões que a precederam,
de 2000 a 2011 (Grupo Textual 2).
A UNASUL E SEUS PAÍSES-MEMBROS NO QUADRO DA INTEGRAÇÃO REGIONAL SUL-AMERICANA
Embora seja constituída em tratado de 2008, a Unasul é resultado de um processo
de discussão iniciado com as Reuniões de Presidentes da América do Sul de 2000,
2002 e 2004, quando foi fortalecido com a criação da CASA. Paralelo às
iniciativas dos Estados Unidos de dar novo impulso à Área de Livre Comércio das
Américas (ALCA), e oficializar o Plano Colômbia em agosto de 2000, o primeiro
encontro de presidentes sul-americanos desenhava os novos contornos de como
pensar a região (Vizentini, 2007), em momento marcado por questionamentos do
neoliberalismo e pela eclosão de movimentos sociais reivindicativos de novas
agendas políticas.
Embora reconheça as instâncias de integração latino-americanas e tenha o
objetivo de para elas contribuir, a Unasul reduz o âmbito regional do latino ao
sul-americano respondendo a anseios operacionais e de autonomia, já que a
maioria dos países da América Central, inclusive o México, possuem nas relações
com os Estados Unidos o norte primordial de suas políticas exteriores (Amorim,
2009). Nesse sentido, a União de Nações Sul-Americanas evolui sobre as bases de
uma estrutura institucional que, embora simples e de natureza
intergovernamental, vem impulsionando a cooperação entre os países em
determinadas áreas específicas.
Nesse contexto, os estudos sobre a Unasul partem com frequência da observação
de tratar-se de fórum primeiramente de concertação política, concluindo que tal
iniciativa de integração percorreu o caminho inverso ao de blocos que só
assumem aquela como objetivo após consolidarem acordos comerciais (Barnabé,
2011; Veiga e Ríos, 2011; Sorj e Fausto, 2011). De fato, a Unasul surge de
discussões políticas sobre como fomentar a convergência de interesses dentro da
região, e o arcabouço normativo em que se fundamenta explicita em repetidos
momentos este seu caráter.
Além disso, a estratégia econômica da Unasul se baseia na convergência dos
outros processos de integração (Mercosul e CAN) e dos acordos bilaterais entre
eles e com outros países da região. Ainda não se estabeleceram regulamentações
próprias sobre como se dará essa convergência, e apenas em 26 de novembro de
2010 criou-se uma instância específica para fomentá-la, o Conselho Sul-
Americano de Economia e Finanças. No entanto, a incipiência da
institucionalização e da atuação da Unasul em tema de comércio, indústria e
finanças não significa a inexistência de uma dimensão econômica própria. Ao
contrário, os objetivos econômicos estão diretamente ligados às iniciativas
políticas, voltadas para o reforço da autonomia dos países e de sua
estabilidade política. Ademais, a promoção de obras de infraestrutura, central
desde a primeira Reunião de Presidentes Sul-Americanos, tem como fim primeiro o
desenvolvimento econômico dos países por meio da articulação física entre eles.
A prioridade de ênfase na dimensão política relaciona-se, por sua vez, com a
necessidade de afirmação de autonomia, objetivo presente em momentos históricos
diversos nos países sul-americanos desde as primeiras reivindicações de
independência. Não obstante, as percepções sobre esse objetivo e sobre o
caminho para atingi-lo variam acentuadamente, dadas as diversas e assimétricas
conjunturas domésticas. Nesse sentido, uma breve análise das iniciativas de
integração paralelas à Unasul pode auxiliar no entendimento dos interesses de
seus membros quanto à região, além de fornecer elementos para a investigação de
que papel exerce a organização sul-americana nesse emaranhado de processos
regionais.
O Mercosul, união aduaneira incompleta formada por Argentina, Brasil, Uruguai
e, o mais recente membro, Venezuela3, tem raízes nos tratados de cooperação
estabelecidos nos anos 1980 entre Brasil e Argentina, dentre os quais o Tratado
de Integração, Cooperação e Desenvolvimento assinado em 1988 pelo presidente
brasileiro José Sarney e seu homólogo argentino Raúl Alfonsín. Observe-se que
se trata de negociações entre dois países recém-saídos de regimes autoritários,
característica também presente em Paraguai e Uruguai quando de suas adesões. A
integração regional representava, nesse contexto, um apoio externo a suas
incipientes democracias, reforçando sua estabilidade por meio de compromissos
internacionais que erigiram o princípio democrático como condição essencial
para o desenvolvimento do processo de integração (Protocolo de Ushuaia, 1996,
artigo 1o). Ademais, a abertura econômica dos países-membros em um contexto de
globalização econômica e o risco de serem marginalizados frente à formação de
grandes blocos econômicos (Amorim, 2009) inseriu a alternativa regional dentro
de uma estratégia dos países de participação ativa no sistema mundo - apoiada
justamente na consolidação da democracia, a qual conferia aos Estados respeito
e credibilidade na cena internacional.
De fato, a diplomacia brasileira vinha historicamente assumindo o objetivo da
autonomia para sua política exterior (Vigevani e Cepaluni, 2007; Lafer, 2009),
concebendo distintos meios para atingi-lo. Nesse sentido a construção de um
espaço integrado de coordenação política com os vizinhos do subcontinente
tornou-se uma estratégia já no governo Cardoso. Naquele momento, segundo
apontam Sorj e Fausto,
A valorização da América do Sul (como uma área explicitamente
diferenciada do resto da América Latina, excluindo a América Central
e o México) contribuía, principalmente, para fortalecer a posição do
país no processo de negociação da Área de Livre Comércio das Américas
(ALCA), em meio a crescentes dificuldades de integração no âmbito do
Mercosul (Sorj e Fausto, 2011:12).
A perspectiva foi reforçada no mandato de Lula da Silva, quando se tornou uma
prioridade. Nesse contexto, o Brasil toma a liderança de iniciativa de
integração de uma região da qual constitui a economia mais forte, o maior
mercado consumidor, o território mais vasto. Liderança essa ligada ao objetivo
de projeção no sistema internacional, de um exercício de global player que
seria alavancado pelo status regional. Entretanto, esta liderança depende da
existência de um reconhecimento da mesma pelos outros países da região, o que
resultará não apenas da capacidade do Brasil de oferecer trade-offs aos seus
vizinhos, mas também de sua habilidade para fomentar a ideia de uma América do
Sul unida e voltada a objetivos comuns.
A década de 1980 assistiu também ao fim da ditadura argentina, e ao consequente
direcionamento dos eixos principais de sua política exterior para o esforço de
consolidar uma relação com os EUA e de aproximar-se aos países latino-
americanos, este último corroborado pelas primeiras negociações do Mercosul.
Entretanto, se a tônica desse primeiro período fora a vontade política, a
década de 1990 foi marcada pelo papel que assumiu o mercado na condução do
processo de integração, tendência que se faz reverter nos governos Kirchner
(Rapoport, 2009).
Saraiva e Ruiz (2009) apontam que as posições quanto ao Mercosul na Argentina
são marcadas por debates sobre o temor de uma dependência em relação ao Brasil,
os riscos de se ter um parceiro imprevisível com uma economia instável, bem
como sobre o nacionalismo e a autonomia brasileiros. Os importantes trade-offs
comerciais e o aumento da confiança mútua advindos da experiência de
cooperação, porém, têm estimulado a convergência de posições favoráveis.
Mantém-se, contudo, a oposição a um assento permanente do Brasil no Conselho de
Segurança da ONU.
Uruguai e Paraguai, este último desde junho de 2012 afastado do Mercosul, são
os países mais integrados ao bloco em termos de fluxos econômicos
intrarregionais. Em razão dessa abertura, ambos os países se encontram muito
mais dependentes de um bloco cujos avanços institucionais não acompanharam os
acordos comerciais (Malamud, 2005; Ventura, 2005), especialmente no caso do
mecanismo de solução de controvérsias. A Unasul, como instância multilateral
mais ampla, traria a oportunidade de diluir o impasse entre os interesses dos
dois Estados com maiores capacidades econômicas e aqueles de dois países mais
vulneráveis, desde que estabeleça meios institucionais eficazes para lidar com
as assimetrias internas.
A Comunidade Andina (CAN), união aduaneira com numerosas exceções e o objetivo
de constituir-se em mercado comum, é formada por Bolívia, Colômbia, Equador e
Peru, tendo como membros associados Chile, Argentina, Uruguai, Brasil e
Paraguai. Sua inserção nos quadros da Unasul acompanha, pois, movimento de
aproximação do Mercosul iniciado em 1998, com a subscrição do Acordo Marco para
criação de uma Zona de Livre Comércio entre a CAN e o Mercosul.
Entretanto, as instituições andinas experimentam nos últimos anos um franco
declínio (Ventura e Baraldi, 2008), para o que contribuíram inclusive conflitos
entre seus membros, como a disputa territorial armada entre Equador e Peru em
1995 e a crise diplomática entre Colômbia e Equador de 2008. Os comportamentos
de seus países-membros parecem denotar interesses distintos sobre a região:
enquanto Colômbia e Peru assinaram autonomamente tratados bilaterais de livre
comércio com os Estados Unidos, Bolívia e Equador tornaram-se partes da Aliança
Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA) - a qual é liderada por um
antigo membro da CAN e atual membro do Mercosul, a Venezuela. Nesse sentido, a
Unasul representaria um novo fôlego para países com impulso de integrar-se
regionalmente para além de uma estrutura quadrangular que, embora gere frutos
comerciais razoáveis, não teve êxito em estabelecer um projeto político comum.
A Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América - Tratado de Comércio
entre os Povos (ALBA-TCP)4 é criada em 2004 como um nível de integração
alternativo baseado no bem-estar social. No início dos anos 1990, a política
exterior da Venezuela se orientava sobretudo para a região andina e do Caribe
(Saraiva e Ruiz, 2009), tendo o petróleo como princípio norte e os Estados
Unidos como parceiro natural. Com a subida de Hugo Chávez ao poder e sua
declaração de um governo anti-imperialista, a estratégia regional da Venezuela
passou a englobar críticas à ALCA, a retirada da CAN (dada a aproximação com os
Estados Unidos) e a solicitação de entrada no Mercosul em 2005. Paralelamente,
a Venezuela impulsiona a Unasul, lidera a ALBA e estimula a Comunidade dos
Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Conforme analisam Saraiva e
Ruiz, a Venezuela constitui "[...] um país caribenho e andino, além de
amazônico [...]. Estas múltiplas identidades explicam em boa medida a política
externa venezuelana e, como consequência, suas estratégias em matéria de
integração e cooperação regionais promovidas pelos governos desde o início da
era democrática." (Saraiva e Ruiz, 2009:157)
O Chile não é membro pleno de qualquer das iniciativas sub-regionais
mencionadas, participando como associado do Mercosul e da CAN. Para Larraín
(2005), a visão chilena sobre a integração regional estaria associada aos
distintos discursos sobre a identidade nacional. Se o discurso empresarial
salienta um Chile desenvolvido, diferente da América Latina e modelo para ela,
trata-se de uma das versões dessa identidade, em concorrência com outras dentro
da estrutura social. Essa versão estaria relacionada com um Chile que se faz
presente, mas não faz parte. Sua inserção e ativa participação no quadro da
Unasul, contudo, pode apontar para novas construções identitárias nacionais em
emergência.
Guiana e Suriname, por último, são membros do Caricom5, Comunidade do Caribe,
bloco econômico cujas origens se situam em 1973, mas tendo-se renovado nos anos
1990 com avanços institucionais que o conduziram à constituição de uma união
aduaneira incompleta (Valencia, 2002). Tanto Guiana quanto Suriname veem na
Unasul, assim, a primeira oportunidade de maior envolvimento político e
econômico com a América do Sul, continente com o qual compartilham fronteiras
terrestres e, consequentemente, desafios.
Em suma, a ampliação do espectro multilateral materializada por meio da Unasul,
não obstante acolher os processos de integração sub-regionais existentes em um
movimento centrípeto, deve lidar com os conflitos de interesse e as assimetrias
de poder que ocorrem em menor escala. Paralelamente, a amplitude geográfica, a
diversidade cultural e a complexidade política e econômica parecem apontar para
a necessidade de um ponto focal que embase a convergência de objetivos, para o
que o argumento identitário se apresenta como possível alternativa. Nesse
sentido, passa-se a uma análise da questão da identidade social dentro da
política internacional dentro de um contexto neoinstitucionalista discursivo.
IDENTIDADES SOCIAIS E NEOINSTITUCIONALISMO DISCURSIVO
O estudo de identidades coletivas parte inicialmente de conceitos da psicologia
social, e de sua definição básica de identidade social como o liame psicológico
entre indivíduos e grupos sociais ou comunidades a que pertencem (Abrams e
Hogg, 1990, apud Herrmann e Brewer, 2004) - liame este que engendra a
autodefinição dos primeiros como partícipes dos segundos. Para além desta
dimensão cognitiva, tal vínculo entre o indivíduo e o grupo não se constitui
autonomamente sem intermédio da coletividade, já que identidades sociais são
também "construções sociais coletivamente compartilhadas" (Risse-Kappen, 2010:
9; tradução livre). Possuem, assim, uma necessária dimensão social, sem a qual
permaneceriam identidades individuais. O compartilhamento coletivo dessa
construção social se dá através de símbolos, signos, histórias e ritos
expressos direta ou indiretamente no discurso dos seus membros (Marcussen et
al., 1999), os quais conectam indivíduos ao grupo social fornecendo orientações
para convergir a interpretação dos significados do liame identitário.
Ao contrário de perspectivas essencialistas que tratam de identidades imutáveis
e unificadas, a maior parte dos estudos contemporâneos assumem-na como dinâmica
e construída, variável portanto no transcorrer do curso histórico (Hall, 2000;
Larraín, 1994). Essa mesma literatura costuma apontar como elementos da
identidade coletiva: i) base histórico-cultural comum: conteúdo que confere
significação às "comunidades imaginadas" (Anderson, 2008), representado por
atributos, símbolos e valores comuns incorporados historicamente; ii) processos
sociais presentes: hábitos e práticas sociais presentes reproduzem as
identidades (Hopf, 2002), mas estão sujeitos a modificações por iniciativa de
agentes ou pela superveniência de novas condições sociais internas ou externas;
iii) dinâmica de construção do "eu" a partir da diferenciação do "outro" (Hall,
2000; Brewer, 1991). Saliente-se, ainda, que a identidade pode se configurar
não apenas como background de hábitos e práticas sociais, mas também como um
projeto (Checkel e Katzestein, 2009) de agentes com capacidade de sobre ela
atuar, fomentando sua modificação ou reprodução.
Autores que partem de um marco teórico da escolha racional tendem ou a negar a
importância de identidades para o estudo da política internacional, ou a
limitar esta importância ao uso estratégico do argumento identitário por
Estados autointeressados. Nesse último caso, estuda-se a identidade como
artifício retórico, asserções instrumentais que serviriam a interesses, prévios
e exógenos, de determinados atores que agiriam motivados por uma lógica de
consequência, isto é, realizariam um cálculo de antecipação das consequências
de suas decisões. Nesse contexto, o impacto de instituições sobre as
identidades dos atores é muitas vezes desconsiderado e, outras vezes, observado
como autointeresse das próprias instituições, sua escolha racional e consciente
em busca de legitimidade (Schimmelfennig, 2007).
Por outro lado, abordagens institucionalistas com foco histórico ou sociológico
tendem a observar a relação entre identidades, interesses e instituições a
partir de lentes mais amplas, apontando outros mecanismos, além da lógica de
consequência, capazes de reger a interação entre os três elementos. Um deles é
a lógica do apropriado (logic of appropriateness), a qual define modelos de
ação, comportamento e organização como apropriados, legítimos, corretos ou
mesmo naturais (March e Olsen, 2004). Nesse sentido, por exemplo, Wendt (1999)
argumenta que as identidades sociais dos atores podem gerar interesses
coletivos como resultado de uma identificação com o destino do "outro", que
passa a ser visto como uma extensão cognitiva do "eu". Já para autores como
Hopf (2002), haveria ainda uma lógica do dia-a-dia, espontânea, arraigada nas
práticas sociais e por elas reproduzida irrefletidamente. Hábitos e práticas
responderiam, assim, por parte das representações e ações sociais dos
indivíduos.
Na interação entre essas três lógicas, os interesses são vistos como
construções históricas e estariam ligados a identidades: admite-se que o
arcabouço simbólico e as práticas sociais que compõem a identidade de uma
sociedade ou grupo criam maneiras de organizar a experiência e parâmetros para
avaliar a realidade (Swidler, 1986), moldando assim as visões de mundo de seus
membros e seus entendimentos de condições políticas e materiais, bem como suas
representações dos problemas a serem decididos e suas percepções de interesses
(Abdelal et al., 2009). Interesses adquirem, portanto, seus significados a
partir dos significados predominantes, socialmente e discursivamente
estabelecidos, com os quais os indivíduos entendem e percebem o mundo -
inclusive no caso dos tomadores de decisão.
Isso não significa que identidades não possam ser utilizadas de maneira
instrumental, estratégica, para justificar políticas motivadas por interesses
materiais - ou deslegitimá-las. Entretanto, mesmo o uso da identidade com tais
objetivos tem sua eficiência ligada à consensualidade da identidade evocada
(Rosamond, 1999), isto é, ao fato de os demais atores, sejam eles componentes
da sociedade doméstica sejam outros Estados, estarem convencidos da validade da
identificação ou a possuírem internalizada de tal modo que a identidade seja
automaticamente classificada como natural. Ainda, construções identitárias
interiorizadas pelos tomadores de decisão influem na definição do que eles
perceberão como seus interesses, bem como na escolha do argumento identitário
como meio hábil a alcançá-los. Assim, mesmo quando atuam segundo uma lógica
primariamente de consequência, as identidades e os interesses construídos
envolvem em última instância uma lógica do dia-a-dia e/ou do apropriado.
Mas nesse contexto, como as instituições importam? O presente artigo parte de
um marco neoinstitucionalista discursivo, isto é, busca observar a relação
entre instituições e comportamento de atores, com ênfase nos discursos que as
forjam formalmente; reproduzem-nas nas práticas diárias, nas deliberações e
tomadas de decisão; e possibilitam sua comunicação ao público em geral
(Schmidt, 2008). Em instituições supranacionais, os discursos envolvem a
comunicação e a coordenação política entre Estados, o arcabouço normativo da
instituição e os pronunciamentos que operam a comunicação dos atores políticos
com os cidadãos.
Quanto à relação entre instituições e identidades, desde os trabalhos de Ernst
Haas em integração europeia, estudos têm procurado demonstrar que instituições
internacionais podem criar sentimentos de comunidade para além do Estado-nação.
Para Haas (2004), instituições seriam capazes de equilibrar e conciliar
interesses divergentes de governos nacionais, partidos políticos e grupos de
interesse em uma nova comunidade política regional por meio do realinhamento
das lealdades voltado ao nível supranacional. A existência das instituições
traria mudanças na estrutura política que, eventualmente, ao proporcionarem
experiências compartilhadas e fornecerem normas sociais comuns, alterariam
percepções dos indivíduos sobre o grupo em termos de criação de um senso de
comunidade; bem como, ao aumentarem a interdependência e o fluxo de informações
entre os atores, reforçariam a confiança mútua.
Mas como instituições, identidades e interesses se conectam? E qual papel
exerce o discurso nessa dinâmica? A resposta parece apontar para mecanismos de
interação entre lógica do dia-a-dia, comportamentos estratégicos e processos
sociopsicológicos de internalização normativa; os quais são definidos em
sentido amplo na literatura como mecanismos de socialização.
A socialização é conceituada por Checkel como o "processo de introduzir atores
em normas e regras de uma determinada comunidade" (2007:187; tradução livre).
Na abordagem de Checkel, a internalização das normas pelos agentes engendraria
seu cumprimento continuado pois levaria ao câmbio de uma lógica de consequência
para uma lógica do apropriado. Nesse sentido, argumenta-se que identidades
coletivas transnacionais se tornariam consensuais quando os atores as
internalizam e naturalizam, percebendo-as como suas e seguindo autonomamente
seu repertório de práticas sociais6.
Por sua vez, Schimmelfennig (2000) procura demonstrar como o processo de
socialização seguiria, na verdade, a lógica da consequência, envolvendo
cálculos estratégicos de custos e benefícios voltados para o aumento da
legitimidade da instituição e para as vantagens que normas comuns trariam para
a cooperação.
Entretanto, nem a formulação de Schimmelfennig nem a de Checkel observam o
mecanismo segundo a lógica do dia-a-dia, isto é, a socialização de práticas
sociais pela repetição das mesmas e por força do hábito. Ambos os autores
negligenciam o poder da instituição enquanto estrutura social discursiva de
estabelecer um repertório de significados, práticas e ações ao qual os agentes
aderem automaticamente, sem realizar cálculos estratégicos ou normativos.
Johnston (2007) enfrenta esta lacuna e identifica o mimetismo como uma espécie
dos processos de socialização, através do qual indivíduos inicialmente copiam
normas de comportamento do grupo, inclusive suas práticas discursivas, de
maneira a navegar em um novo ambiente. Diferencia-se da adaptação estratégica
por não conter um cálculo utilitário custo-benefício, e distingue-se da
socialização normativa por não compreender uma interiorização de normas segundo
um juízo de valor sobre sua legitimidade. Trata-se, pois, dos primeiros
momentos de adaptação a uma formação discursiva e suas práticas.
Em resumo, sob uma perspectiva neoinstitucionalista discursiva, instituições
são locus de práticas sociais e discursivas que moldam as representações que os
atores fazem de si, dos outros e do mundo, seja por constituir uma formação
discursiva que socializa ao fornecer um conjunto de práticas discursivas e
significados, seja pela atuação proativa dos agentes socializando, persuadindo
ou mimetizando. Nesse sentido, instâncias de integração regional como a Unasul
podem atuar como formação discursiva de mediação entre os interesses nacionais
e o discurso identitário regional - no caso em estudo, sul-americano.
CONSTRUINDO A AMÉRICA DO SUL: DIVERSIDADE E CONVERGÊNCIA
Observou-se acima que instituições se caracterizam por seu corpo discursivo,
marcado por regularidades de conceitos e terminologias, em construção que se
aproxima da formulação de Foucault (2008) sobre formações discursivas: "campos
homogêneos de regularidades enunciativas" (Foucault, 2008:164), espaços
temporais sócio-históricos nos quais determinados significados predominam. De
fato, o corpo discursivo da Unasul (cujos componentes examinados serão adiante
precisados) se caracteriza pela tendência geral a referir-se aos "povos
sulamericanos" como uma coletividade, ao modo de tratamento mútuo como países
ou presidentes "irmãos", e a utilizarem-se termos de caráter emocional como
"carinho" e "amor". Percebe-se, ainda, a regularidade de remeter-se a
argumentos e terminologia identitária, normalmente ligando-os a "valores
comuns", "futuro comum" e "paz". No intuito de examinar essa formação
discursiva, passa-se ao exame empírico dos dados.
Documentos Analisados
Conforme mencionado na Introdução, analisaram-se os dados textuais em dois
grandes grupos: declarações de intenções e de princípios, consensos e
declarações formais coletivas (Grupo Textual 1); e discursos proferidos por
chefes de Estado e ministros das Relações Exteriores em ocasião de reuniões da
Unasul ou nas reuniões que a precederam, de 2000 a 2011 (Grupo Textual 2).
No caso do Grupo Textual 1, trata-se do embasamento normativo da Unasul,
materializado em declarações de intenções e princípios que regem o
desenvolvimento institucional ou em seu tratado constitutivo; bem como de
declarações presidenciais coletivas que reportam as reuniões ordinárias ou
extraordinárias do Conselho de Chefas e Chefes de Estado e de Governo e/ou
realizam um balanço dos avanços institucionais até então atingidos. Em ambos os
casos, restringiu-se a análise às declarações que estabelecem as linhas
políticas gerais, os planos de ação e projetos centrais e o desenho
institucional básico da integração sul-americana.
Essas declarações foram selecionadas em detrimento de decisões do Conselho de
Chefas e Chefes de Estado e Governo pelo caráter mais amplo de suas
determinações, enquanto as decisões costumam abordar questões específicas.
Declarações do Conselho de Ministras e Ministros das Relações Exteriores também
foram preteridas dado seu caráter hierarquicamente inferior às do Conselho de
Chefes de Estado e Governo, sendo aquelas vinculadas às últimas. Declarações e
normas oriundas dos conselhos setoriais ou instituindo esses ou outros órgãos
específicos também não foram levadas em conta. O Grupo Textual 1 compreende,
pois, os treze documentos listados no Quadro_1.

No que concerne ao Grupo Textual 2, é de se ressaltar que Guiana e Suriname,
apesar de membros da Unasul, não são analisados, pois trabalhar com línguas de
origem germânica e anglo-saxã e compará-las com línguas latinas de notável
proximidade entre si (português e espanhol) traria à análise uma complexidade
linguística indesejável para sua exequibilidade dentro dos fins a que se
propõe.
Ainda quanto ao Grupo Textual 2, observe-se que os discursos compreendem: as
reuniões de presidentes da América do Sul prévias à Unasul; discursos
proferidos em reuniões ordinárias e extraordinárias do Conselho de Chefas e
Chefes de Estado e do Conselho de Ministras e Ministros das Relações Exteriores
da Unasul; pronunciamentos em ocasiões nas quais a América do Sul agia enquanto
ator de política exterior cúpulas entre América do Sul e África ou Países
Árabes; discursos de presidentes da República em conselhos setoriais ou outros
órgãos da Unasul.
As amostras utilizadas foram, a priori, a totalidade dos discursos proferidos
publicamente disponibilizados em meios de divulgação oficiais. No entanto,
note-se que esta disponibilidade é bastante irregular entre os países, havendo
casos como o do Brasil, que fornece todos os discursos de política exterior, e
outros como o da Bolívia, que não realiza qualquer disponibilização. Nesse
contexto, a ferramenta virtual Youtube7 foi utilizada de maneira suplementar,
quando não houvesse divulgação em veículos institucionais.
Paralelamente, uma análise suplementar de discursos referentes à integração
latino-americana foi realizada, no intuito de instrumentalizar um exame sobre a
relação empreendida discursivamente entre uma identidade latino-americana
versus sul-americana. Nesse sentido, foram analisados pronunciamentos no âmbito
da Cúpula Ibero-Americana, ALADI, Grupo do Rio e CELAC, escolhidos
aleatoriamente em número de um a três por país.
Nesses termos, o universo de discursos analisados concernentes à Unasul se
distribui consoante expresso na Tabela_1.
[/img/revistas/dados/v56n3/07t01.jpg]
Identidade Regional e Valores Nacionais
a. O recurso discursivo à identidade sul-americana
Entre as normas e declarações que fundamentam a Unasul, sete se referem
expressamente, ao menos uma vez, a "identidade sul-americana" e/ou "identidade
da região"8. A Declaração de Cochabamba (2006) é a que realiza mais menções,
seis no total. O Comunicado de Brasília (2000) e o Tratado da Unasul (2008)
fazem referência três vezes cada um, apontando uma identidade cultural que se
relaciona com a proximidade geográfica e a consolidação de valores comuns. O
Consenso de Guayaquil (2002) precisa que "é vontade da América do Sul, fiel ao
mandato de seus Libertadores e à sua identidade como região com história comum
e herança cultural compartilhada, construir de maneira coordenada um espaço
integrado" (item 5).
A história é, aliás, elemento frequente no Grupo Textual 1. As expressões
"história compartilhada" ou "história comum" aparecem seis vezes, e remissões
aos processos de independência dos Estados ocorrem 21 vezes. Simón Bolívar é
citado em cinco ocasiões, em documentos que também mencionam José de San
Martín, General António José de Sucre e o Congresso Anfitiônico do Panamá.
Identificam-se ainda quatro ocorrências do atributo "irmãs" relacionado às
nações sul-americanas, uma referência à "Pátria Americana" e três a "herança"
ou "patrimônio cultural comum". "Cidania sul-americana" é mencionada sete
vezes. As expressões "nossos povos", "povos sul-americanos" ou "povos da
América do Sul" são utilizadas 22 vezes, apontando para uma coletivização dos
sujeitos nacionais.
Essa terminologia identitária é utilizada tanto em construções associadas ao
passado, como base histórico-cultural de legitimação da integração regional,
quanto em outras relacionadas ao futuro, materializando a identidade como
projeto. Na Declaração de Cochabamba (2006), por exemplo, coloca-se que "nossa
integração se assenta [...] na valorização de uma identidade cultural sul-
americana com participação de atores locais e regionais" (item 3; tradução
livre), e paralelamente se insere a identidade regional no seu Plano
Estratégico para Aprofundamento da Integração Sul-Americana, estabelecendo que
A comissão de Altos Funcionários se destina ao estudo dos elementos
de um Acordo Constitutivo que conduza à afirmação, no plano
internacional, de uma verdadeira identidade e cidadania sul-
americana, fundada nos valores comuns de respeito à democracia e aos
direitos humanos na construção de um futuro comum de paz e
prosperidade econômica e social (alínea A, item 7; tradução livre).
Em uma perspectiva teleológica, ainda, verifica-se a utilização da categoria
"integração" associada ao atributo "cultural" em 12 repetições, encontrando-se
também duas ocorrências de "integração dos povos": desta maneira, salienta-se a
amplitude dos objetivos da instituição regional estendendo-se para além da
integração econômica.
Ressalte-se que o Grupo Textual 1 é formado por marcos normativos da Unasul,
dispondo sobre princípios gerais institucionais e sobre a atividade da
organização. A inclusão da identidade coletiva em seu bojo, seja como
background histórico-cultural, seja como projeto político, indica a importância
que esse argumento adquire no contexto, utilizado como meio de justificar a
integração regional ao naturalizá-la como "vontade da América do Sul" (Consenso
de Guayaquil, 2002, item 5), como um destino comum natural. Além disso, a
remissão a símbolos históricos sugere a intenção de revestir instrumentos
formais de elementos emocionais, o que demonstra a busca por um apoio que se
respalde não necessariamente em cálculos utilitários.
Sublinhe-se ainda que mesmo as declarações indicadas acima como não fazendo
referência explícita à "identidade sul-americana" remetem-se a ela por meio de
outros termos, à exceção da Declaração de Margarita (2007): a Declaração de
Ayacucho (2004) cita Bolívar, a história em comum e os movimentos de
independência; as Declarações de Quito (2009), a de Los Cardales (2010) e de
Lima (2011) mencionam os processos de independência e um futuro em comum; e a
Declaração de Georgetown (2010) emprega a ideia de "nações irmãs".
Outro elemento de destaque nos discursos da Unasul é a narrativa do futuro
comum. A Declaração de Ayacucho (2004, preâmbulo) fala em "constatação" de um
futuro de integração, definido pelo Consenso de Guayaquil (2002, item 3) como
um "futuro de fecunda e pacífica convivência e de permanente cooperação e bem-
estar". Na Declaração de Cusco (2004, preâmbulo), o futuro comum é colocado
como um anseio dos cidadãos processado pelos líderes que, então, decidem criar
a CASA.
Nesse contexto, observa-se que o argumento identitário se coloca como
instrumento para se construir uma ponte entre passado, presente e futuro, ponte
esta que se materializaria na Unasul. Elabora-se uma narrativa cíclica: o
presente é eixo em torno do qual se discorre sobre o passado e o futuro, mas
esse mesmo presente é historicizado, enquanto o futuro é visto como desenrolar
natural do presente - naturalizando-se, destarte, decisões políticas. Nesse
sentido, observa-se afirmação de Tabaré Vázquez9:
Para além da localização geográfica concernente à linha equinocial de
cada um dos países aqui presentes, todos pertencemos a esse Sul, cuja
história não contou com o favor dos deuses. Mas o Sul também é
presente e futuro; nós somos parte deste presente e futuro que será o
que nós e nossos contemporâneos somos capazes de fazer, sem modelos
nem receitas (Vázquez, 26/9/2009; tradução livre).
No âmbito do Grupo Textual 2, isto é, entre os discursos de chefes de Estado e
ministros das relações exteriores, percebe-se uma grande heterogeneidade no uso
do argumento identitário, como se pode constatar na Tabela_2. Enquanto o Brasil
foca no próprio conceito de identidade, bem como na ideia de história e cultura
comuns, a Venezuela enfatiza os processos de independência e os personagens
nele envolvidos, tais quais Simón Bolívar, San Martín, General Abreu e Lima,
dentre outros. Equador e Colômbia são os casos extremos: Equador registra quase
100% a mais de ocorrências que a Venezuela, país com segundo maior número de
menções10; e a Colômbia utiliza os termos em número ínfimo, podendo-se afirmar
que não faz uso do argumento identitário. Atente-se ainda que esses termos são
utilizados, no caso do Grupo Textual 2, algumas vezes em certa promiscuidade
com a ideia de América Latina.
Anteriormente neste artigo, afirmou-se que as construções identitárias são
realizadas em uma dinâmica de diferenciação do "outro". Diante da história sul-
americana de construção regional, decidiu-se testar a personificação do "outro"
como os colonizadores e nos Estados Unidos: entre os discursos do Grupo Textual
2, o Brasil é o único que faz menção direta aos colonizadores (quatro vezes).
Já no que concerne aos Estados Unidos, percebe-se uma variação nas posturas
assumidas pelos países.
Argentina, Brasil, Paraguai e Peru referem-se aos Estados Unidos como "outro"
em relação ao qual se constrói a região sul-americana, porém o fazem em tom
neutro, isto é, de diferenciação mas não de contestação, como por exemplo em
"Todos nós nos habituamos a ir para a Europa e para os Estados Unidos, todos
nós. Nós não olhávamos uns para os outros" (Silva, 6/8/2010). No entanto,
Argentina e Brasil assumem uma postura mais firme de oposição no caso dos
debates sobre a instalação de bases norte-americanas em território colombiano.
Uruguai, Chile e Colômbia, por sua vez, não realizam menções aos Estados Unidos
(Colômbia o faz, porém, incentivando a cooperação com o mesmo em intervenções
no âmbito da América Latina). Por outro lado, Evo Morales, Hugo Chávez e Rafael
Correa operam uma diferenciação marcada pela crítica ativa e contestação ao
"outro" norte-americano, verificada em construções como: "Presidentes, os
impérios apenas nos usam. A luta de nossos povos tem sido contra os distintos
impérios, mas agora nos cabe uma luta contra o império norte-americano"
(Morales, 26/9/2009; tradução livre).
Paralelamente, essa narrativa identitária de base histórico-cultural se
relaciona com uma de base cívica, de valores políticos compartilhados. Na
dinâmica entre ambas narrativas, o discurso acaba adquirindo diferentes
contornos nos diversos contextos nacionais que o evocam, em relações que serão
adiante examinadas. Não obstante, pode-se de antemão avançar a conclusão de que
o discurso identitário está significativamente presente na Unasul, seja em suas
normas e declarações institucionais, seja nos discursos de chefes de Estado e
ministros das relações exteriores em ocasião de reuniões da organização.
b. Valores relacionados à integração regional
Consideradas as configurações regionais como "[...] os resultados de processos
sociais que refletem e moldam ideias particulares sobre como o mundo é ou
deveria ser organizado" (Murphy, 1991:24; tradução livre), cabe analisar os
valores que são discursivamente relacionados à integração regional na América
do Sul. Esses valores são aqui observados em construções que sublinham tanto
sua existência como precondição para a integração, quanto em enunciados que os
definem como objetivos a serem atingidos por meio desta última.
No contexto do Grupo Textual 1, é interessante observar que a dimensão
econômica11 e a social12 assumem pesos semelhantes: os termos têm frequência de
113 e 129 respectivamente, proporções de 0,0034 e 0,0039 cada. "Comércio" conta
ainda outras 33 ocorrências (0,001). Já o termo "desenvolvimento", repetido 165
vezes (0,005), é por vezes qualificado de "sustentável", "dos povos", "social",
"humano", "integral", "econômico" e, mais frequentemente, "socioeconômico".
Segurança e paz13 contam com 108 menções (0,0033). Contextualmente relacionado
com a questão anterior, o termo "soberania" é relacionado em 17 ocasiões, maior
parte delas associada com "integridade do território", outra parte com
"independência", e que estaria "em fase de consolidação". "Democracia"
apresenta 68 repetições (0,002), 11 delas associadas à "participação cidadã".
"Direitos humanos" são evocados 37 vezes (0,001), "solidariedade"14, 34, e
"igualdade"15, 23.
Nesse sentido, os corpos textuais analisados demonstram que a dimensão
econômica está longe de ser negligenciada no discurso da Unasul. Ao contrário,
assume um papel central junto à dimensão social e a questões de segurança e
paz. O mesmo se apreende, aliás, dos discursos de chefes de Estado e governo e
ministros das relações exteriores. Em ambos os casos, percebe-se um esforço de
aliar o compartilhamento de tais valores à ideia de identidade regional, como
no exemplo da Declaração de Cochabamba: "[...] uma verdadeira identidade e
cidadania sul-americana, fundada nos valores comuns de respeito à democracia e
aos direitos humanos e na construção de um futuro comum de paz e prosperidade
econômica e social" (2008, alínea A, item 7; tradução livre).
De maneira a possibilitar-nos examinar comparativamente as frequências dos
valores e objetivos relacionados à integração regional elencados em cada país,
aplicou-se o teste de qui-quadrado de Pearson aos dados obtidos na análise de
conteúdo, como se verifica na Tabela_3. Nela, apenas os valores e objetivos
mencionados com maior frequência foram tomados em conta. Recorde-se que apenas
os discursos no âmbito da integração sul-americana são neste momento
analisados. Precise-se, ainda, que, quanto à noção de desenvolvimento, a
tendência no Grupo Textual 2 é utilizar o termo sem qualificadores, explorando-
se seu significado vago ao abster-se de defini-lo como desenvolvimento
econômico ou social.
[/img/revistas/dados/v56n3/07t03.jpg]
Pares de frequência em destaque demostraram haver diferenças significativas
entre as frequências observadas e esperadas. Nesse contexto, ressalta a alta
frequência de remissões ao "social" nos discursos de Chile e Venezuela, bem
como a baixa utilização do mesmo nos pronunciamentos da Argentina. Esta última
se destaca ainda pela pequena frequência de "democracia", significativamente
mais baixa do que a frequência esperada, bem como pela alta ocorrência de
termos relacionados a "segurança e paz". Já Venezuela possui poucas referências
a "segurança e paz", bem como a "desenvolvimento" e a "comércio": por outro
lado, sobressai sua elevada proporção de menções a "democracia" e "social".
Finalmente, o Equador se destaca na alta menção ao "desenvolvimento"; e a
Colômbia, ao "comércio"16.
Acompanhando as diferenças na menção a valores relacionados à integração sul-
americana, os discursos regionais assumem traços distintos em cada país,
inclusive em sua relação com o nível latino-americano. O Gráfico_1 auxilia a
visualização dessas diferenças ao esboçar a proporção de ocorrências nos
discursos do Grupo Textual 2 dos principais valores e objetivos relacionados à
integração regional por país, diferenças estas que são em seguida exploradas em
suas especificidades.
[/img/revistas/dados/v56n3/07g01.jpg]
c. Discursos regionais por país e padrões de socialização
Na Argentina, apenas os discursos dos presidentes Néstor Kirchner e Cristina
Kirchner estão disponíveis, portanto referentes ao período de 2003 a 2011. No
contexto dos discursos proferidos nos quadros das reuniões de presidentes de
América do Sul e da CASA, Néstor Kirchner (2003-2007) possui uma tendência a
expressar a integração sul-americana como uma extensão do Mercosul, utilizando
com frequência nessas ocasiões a expressão "América Latina" como o "nós"
coletivo.
Com Cristina Férnandez de Kirchner (2007-), nota-se não somente um aumento de
visitas a países sul-americanos e assinatura de acordos com os últimos, mas
também uma referência discursiva mais intensa à América do Sul. Embora as
menções à América Latina sigam existindo em suas intervenções, constata-se que
a indistinção presente no governo Nestor diminui progressivamente com Cristina:
a proporção de referências a Latinoamérica cai de 0,0035 para 0,0007, e a
Suramerica sobe de 0,0004 a 0,0024. Poder-se-ia apontar para a mudança de
presidente como motivo da diferença, porém verifica-se que 62,5% das
referências de Cristina Kirchner à América Latina ocorrem no seu primeiro
discurso, de um total de sete discursos da presidenta analisados no Grupo
Textual 2. O uso de terminologia identitária histórico-cultural, outrossim,
acompanha a tendência de aumento.
A progressiva utilização do argumento identitário e a consolidação da
identificação à América do Sul a despeito da Latina não parecem ser devidamente
explicadas pela lógica da consequência. Uma tal explicação assumiria uma
modificação dos interesses da Argentina em relação à integração regional entre
Néstor e Cristina Kirchner, bem como durante o mandato da última. A lógica do
dia-a-dia em um processo de socialização e mimetismo no contexto da formação
discursiva da Unasul, atuando por meio do hábito e da repetição de práticas
discursivas, parece mais apta a explicar essas mudanças de narrativa.
Quanto aos ministros das relações exteriores, percebe-se um maior cuidado na
reserva do argumento identitário particularmente ao contexto da América do Sul,
a exemplo das construções propostas no tratado e declarações da Unasul. Além
disso, os pronunciamentos argentinos no contexto de integração latino-americano
são especialmente desprovidos de argumentos identitários, predominando o
discurso econômico e comercial.
No quadro da integração sul-americana, "segurança e paz" constituem a dimensão
mais explorada discursivamente pela Argentina, seguida por "economia". Nesse
sentido, é de se ressaltar que o tema das Ilhas Malvinas é levantado por seus
líderes em diversas ocasiões, buscando angariar apoio para sua decisão de dar
por terminada a declaração argentino-britânica de 1995, apoio este
consubstanciado na Declaração Presidencial da CASA sobre as Ilhas Malvinas de
dezembro de 2006. Por último, "democracia", "social" e "igualdade", além de
valores a eles conexos, apresentam índices baixos nos discursos argentinos,
situados entre os menores de todos os países.
O Brasil, seguindo os nortes propostos do Grupo Textual 1, empreende uma
identificação clara e coerente com a América do Sul no âmbito institucional de
sua integração, além de ressaltar sua existência como ator distinto da Latina
mesmo nas arenas de cooperação desta última. A identidade é um elemento
discursivamente relacionado à primeira sub-região, mais que à segunda: para
Lula da Silva (2005), "as gerações futuras de brasileiros terão o espanhol como
segunda língua, assim como terão a América do Sul como nossa segunda pátria".
Dentre os valores elencados em nosso dicionário, "economia", "social" e
"democracia" são, nesta ordem, os mais frequentes nos pronunciamentos
brasileiros.
Além disso, a Unasul é reiteradamente colocada como plataforma de diálogo com a
sociedade internacional, ator necessário para conduzir os interesses de seus
membros ao debate em nível mundial. Essa atuação internacional da Unasul
reforçaria, ademais, o vínculo identitário dos países à coletividade. Ressalte-
se ainda que o Brasil explicita em seus discursos a lógica de consequência que
envolve o projeto identitário na integração sul-americana. Amorim17 salienta
que:
Eu me sinto muito ibero-americano, com uma avó espanhola e um avô
português, mas sou também muito sul-americano e não tenho nenhuma
dificuldade em dizer ao mundo que a América do Sul tem a sua
personalidade. Por isso quando surgiu a ideia, entre outras, de se
realizar uma reunião com os países árabes, que teve um grande êxito,
decidimos fazer com a América do Sul, pois vimos a necessidade de
desenvolver a consciência da América do Sul. (Amorim, 2006)
No que atine aos discursos de política exterior uruguaios, constata-se, no
período analisado (2005-2011), uma significativa ênfase na relação com os
países sul-americano. O Uruguai apresenta alta frequência de utilização das
categorias "segurança e paz" e "soberania", bem como de "democracia". Apresenta
uma narrativa identitária consistente, guardando-se o mesmo tom entre os
mandatos de Tabaré Vázquez (2005-2010) e José Mujica (2010-), e fazendo uso de
argumentos históricos mas, sobretudo, fundamentando-se em um conteúdo cívico, o
qual se coloca como pressuposto e norte para a integração.
Quanto ao Paraguai, tem "social", "segurança e paz" e "soberania" como valores
em torno dos quais orbitam seus pronunciamentos. Frisa o papel exercido pela
Unasul de "permitir que os países sul-americanos pudessem contar com um papel
importante no plano internacional e um novo papel no desenho de um mundo
multipolar" (Lugo, 2011; tradução livre). No mais, empregam uma construção
identitária próxima à uruguaia: predomínio de um conteúdo cívico, embora
utilizem também elementos histórico-culturais.
Uma primeira análise dos discursos chilenos de política exterior nos mostra uma
atenção especial conferida à Unasul, primeiro bloco de integração ao qual o
Chile adere como membro pleno. O país apresenta, entre todos os Estados, a
maior proporção de uso de uma palavra do dicionário, no caso, "social". Também
possui alta proporção de "democracia" e de "desenvolvimento". Nesse contexto,
os discursos de Michelle Bachelet tendem a frisar valores e desafios
compartilhados, propondo uma identificação política sobre tais bases cujas
linhas gerais podem ser traduzidas no trecho seguinte:
Meu país comparece com entusiasmo a esta União Sul-Americana de
Nações, porque, como aqui foi dito com muita clareza, não apenas é
indispensável em termos dos desafios comuns que temos a possibilidade
de seguir avançando em respostas comuns, mas também porque, em nossa
opinião, é um gigantesco catalizador para o desenvolvimento, porque
nos outorga a oportunidade de termos uma voz forte e uma voz clara
ante este mundo do século XXI (Bachelet, 2008; tradução livre).
Ressalte-se que não apenas essa identificação de base cívica é mantida nos
pronunciamentos de Sebastián Piñera (2010-), como também são reforçados os
argumentos histórico-culturais, inclusive fazendo menção aos movimentos de
independência e, no quadro da América Latina, citando Simón Bolívar. Essa
conclusão se mostra interessante ao observarmos os partidos políticos de ambos
os presidentes: Michelle Bachelet foi eleita pelo Partido Socialista do Chile,
situado na centro-esquerda do espectro político do país, e Sebastián Piñera,
pela Renovação Nacional, centro-direita. Nesse mesmo sentido, observa-se uma
continuidade de argumentação identitária entre Fernando Henrique Cardoso18
(Partido da Social Democracia Brasileira, centro-direita) e Luiz Inácio Lula da
Silva (Partido dos Trabalhadores, centro-esquerda), no Brasil, e entre Nicanor
Duarte Frutos (membro do Partido Colorado, centro-direita) e Fernando Lugo
(Aliança Patriótica para a Mudança, centro-esquerda), no Paraguai.
No caso do Peru, embora não contemos com discursos de Ollanta Humala (2011-) em
reuniões da Unasul, seu discurso de posse de tom emocional sul-americanista
(Humala, 28/7/2011) sugere um aumento no uso de simbologia identitária em
relação a seu predecessor, Alan García Pérez (2006-2011). Apesar do menor apelo
identitário, porém, García Pérez se mostrou um grande entusiasta da integração
regional, clamando inclusive por seu aprofundamento com vistas à
supranacionalidade. Anteriormente, Alejandro Toledo (2001-2006) e Alberto
Fujimori (1990-2000) mantiveram um discurso identitário regular, fundamentado
mais em valores compartilhados que em símbolos históricos, mas sem desprezar os
últimos. "Segurança e paz", "soberania" e "social" são os valores de maior
frequência nos discursos peruanos, observando-se um forte apoio ao Conselho de
Segurança Sul-Americano.
A Bolívia passa de um pronunciamento salientando valores comuns com Hugo Bánzer
(presidente de 1997-2001) a um corpo discursivo que os entrelaça intensamente a
argumentos histórico-culturais com Evo Morales (2006-). "Economia",
"democracia" e "social" são os valores mais frequentemente repetidos por
Morales, sendo de se ressaltar, outrossim, uma especial atenção conferida à
questão do meio-ambiente. Observa a Unasul como ator importante para
representar os interesses dos países na cena internacional, e realiza
reiteradas menções ao mastigar da folha de coca, pedindo apoio aos presidentes
sul-americanos frente a iniciativa dos Estados Unidos de reprimir a tradição.
Este último é frequentemente apontado como o "outro" frente ao qual a América
do Sul se constitui enquanto ator.
O Equador assume, com o presidente Rafael Correa, a mais ampla utilização de
argumentos identitários entre todos os países sul-americanos. Símbolos
históricos, termos de identificação ("irmãos", "pátria grande"), citações de
personagens históricos, remissões a destino natural e a sonho realizado, todos
esses elementos estão imbuídos em um discurso no qual "economia", "soberania" e
"segurança e paz" são os valores mais repetidos quantitativamente. Ressalte-se
a ligação realizada pelo Equador entre América do Sul e América Latina,
salientando o vínculo identitário que liga a primeira à segunda. Citações
relacionadas a "economia", porém, costumam referir-se ao nível sul-americano,
enquanto o latino se reveste de uma dinâmica de diferenciação do "outro" norte-
americano. Para Correa, "Sempre recordamos, não me cansarei de dizer: enquanto
os países europeus terão que explicar a seus filhos porque se uniram 27 países
com cultura, língua, religião, sistemas políticos diferentes, nós teremos que
explicar aos nossos porque demoramos tanto" (2011; tradução livre).
No que concerne à Colômbia, embora os discursos do governo Uribe (2002-2010)
estejam disponíveis e organizados, há apenas um pequeno número de intervenções
no quadro da Unasul ou da América Latina. Em termos de integração regional, a
Comunidade Andina parece receber uma atenção maior, observando-se ainda uma
intervenção ativa nos fóruns do Sistema de Integração Centro-Americano (SICA),
com ênfase no Plano Panamá-Puebla de integração física na América Central. De
fato, o exame dos discursos colombianos no quadro da Unasul aponta para o
objetivo de uma integração englobando toda a América Latina, dentro da qual a
Colômbia, por sua localização geográfica, assumiria o papel de intermédio entre
o Centro e o Sul: "para que a Colômbia possa, como membro que vem se integrando
paulatinamente ao Plano Panamá-Puebla, cumprir a tarefa de vincular essa bela
América Central com a América do Sul" (Uribe, 2005; tradução livre).
Igualmente influenciada por sua localização geográfica, a Venezuela tende, com
Hugo Chávez, a enfatizar a necessidade de expansão da integração regional à
América Central e Caribe, que fariam aliás parte da Sudamérica, segundo
conceito empregado por Simón Bolívar. "Social", "democracia" e "igualdade" são
os valores mais citados, apresentando o maior índice para este último entre os
países. Mas são os apelos emocionais, históricos e identitários que
caracterizam o discurso venezuelano, elementos que são igualmente empregados no
nível de integração latino-americano.
Diante do exposto, observa-se uma base homogênea na utilização do argumento
identitário pelos países sul-americanos no contexto de institucionalização da
Unasul, exceto pela Colômbia. Entretanto, seus usos apresentam determinadas
diferenças entre os Estados, diferenças essas que podem ser explicadas por
distintas perspectivas sobre a integração - diferenças que parecem fundadas não
no partido político dos líderes nacionais, mas nas distintas percepções dos
interesses nacionais dos países em interação com seus vizinhos sul-americanos.
Nesse sentido, podem-se identificar três grupos: o primeiro, formado por Chile,
Paraguai, Uruguai e Peru, com uma tendência a revestir seus discursos de
argumentos identitários de base cívica, sem negligenciar porém os de base
histórico-cultural. Embora participem de iniciativas de integração latino-
americanas, os membros desse grupo focam seus esforços no nível sul-americano,
defendem uma relação moderada com os Estados Unidos, reforçam a importância da
Unasul como ator internacional e conferem uma maior ênfase a questões de
segurança e paz e de soberania (à exceção do Chile) - defendendo uma
alternativa regional autônoma para atingi-las.
Brasil e Argentina formam um segundo grupo, próximo ao primeiro, porém
reservando uma atenção maior à integração da América Latina. Desenham a Unasul
como esfera prioritária, cujo fortalecimento contribuiria para uma articulação
com a América Central e Caribe. Em ambos os níveis, enfatizam a dimensão
econômica, e no âmbito da América do Sul, conferem um espaço importante para
argumentos de segurança e paz, bem como para a projeção internacional da
região. Reservam a terminologia identitária histórico-cultural para o quadro da
Unasul.
Finalmente, o terceiro grupo é formado por Venezuela, Equador e, sugere-se
aqui, Colômbia. Trata-se de um grupo cindido, uma vez que composto, de um lado,
pelos dois países com mais frequente uso de argumentos identitários, do outro,
por aquele que praticamente não o faz no contexto da América do Sul. De um
lado, os dois países com mais forte discurso de oposição aos Estados Unidos, de
outro, um de histórica proximidade com os norte-americanos. Constituem, além
disso, Estados que enfrentaram crises diplomáticas sérias nos últimos dez anos.
O que une os três, porém, é a concepção da Unasul como um passo no caminho da
integração latino-americana, objetivo que lhes confere sentido para a primeira
instituição. Os três, ainda, possuem intensas relações com a América Central e
Caribe, fundamentadas inclusive em suas vocações geográficas.
Bolívia, por sua vez, situa-se no liame entre o segundo e o terceiro grupos:
embora com forte caráter identitário utilizado tanto na América Latina quanto
na do Sul, além de repetidas construções de crítica e oposição aos norte-
americanos, o discurso boliviano, apesar de um primeiro momento de indistinção
entre os níveis latino e sul-americano de integração, desenvolve paulatinamente
uma clareza em relação a ambos, e parece conceder ao último uma importância
própria, independente de sua propagação para o primeiro, relevância esta
vinculada inclusive à dimensão econômica.
Essas percepções dos interesses nacionais quanto aos países sul-americanos são
afetadas pelas identidades nacionais em sua relação com a região. Identidades
essas que seriam, se não acompanhadas de uma identidade regional autônoma, ao
menos regionalizadas: um indivíduo se sente "brasileiro" e "sul-americano", ou
sente-se apenas "brasileiro", mas dentro da própria ideia nacional está incluso
o atributo de pertencer à América do Sul. Nesse sentido, dos cinco
pronunciamentos examinados proferidos por ocasião da Primeira Reunião de
Presidentes Sul-Americanos (2000), três fazem uso de elementos identitários:
Brasil, Peru e Bolívia. Tal constatação sugere a existência de uma identidade
coletiva prévia, background dos tomadores de decisão nacionais, ratificada
ainda pela utilização rotineira, intensa e espontânea de argumentos
identitários no âmbito institucional da Unasul.
Paralelamente, a análise dos discursos selecionados revela a existência de uma
identidade coletiva como projeto, inserida em seu próprio arcabouço normativo.
Nesse contexto, percebe-se a utilização de argumentos identitários segundo uma
lógica de consequência, explicitada em pronunciamentos brasileiros; de
apropriação, identificada especialmente nos discursos de Equador e Bolívia; e
do dia-a-dia, sugerida pela progressiva utilização de uma mesma terminologia e
estrutura textual pelos países. Essa homogenização dos discursos no decorrer do
tempo, marcada pela distinção paulatina entre América do Sul e América Latina e
pela utilização de enunciados e termos semelhantes, aponta para a ação da
Unasul como formação discursiva que, à força de repetição e institucionalização
normativa desse discurso, molda o repertório de significantes e significados
dos tomadores de decisão nacionais.
CONCLUSÃO
O marco teórico adotado no presente trabalho parte da visão de que identidades
importam para: i) justificar a ação estatal e angariar apoio dos cidadãos; ii)
fomentar na população um "espírito" da região, e incutir-lhe o nível regional
como possibilidade a ser considerada na formação de suas preferências,
aprofundando a integração econômica e cultural entre as sociedades; iii)
definir o politicamente possível dentro da instituição regional, uma vez que é
a partir de suas identidades que os atores internacionais definem os objetivos
a serem perseguidos na política exterior.
Ao analisar a União de Nações Sul-Americanas como uma formação discursiva, o
artigo verificou a presença de elementos que reforçam a construção identitária:
i) uso de terminologia identitária conduzindo à dinâmica de formação do "nós"
e, em consequência, dos "outros": referências a "nações-irmãs", "família sul-
americana", "Pátria Grande"; ii) busca de uma projeção internacional para a
identidade coletiva, ligada à construção da Unasul como ator de defesa e
exposição dos interesses de seus membros internacionalmente; iii) dimensão de
conteúdo: baseada em experiências históricas e elementos culturais
compartilhados, fazendo-se uso especialmente de simbologia relacionada aos
movimentos de independência; iv) dimensão normativa: remete-se ao
compartilhamento de valores como princípios da integração regional ou como seus
objetivos; v) está inserida em uma narrativa cíclica que envolve passado,
presente e futuro em comum.
Podem-se observar, ainda, algumas características especiais nessa
identificação: associa-se a identidade a valores sociais, democráticos e de
paz, embora também ao objetivo de prosperidade econômica; bem como se relaciona
com o conceito de América Latina em diferentes maneiras em cada Estado, segundo
suas visões da região.
A Unasul não se constitui, entretanto, como um quadro de significados unívocos:
ao contrário, aponta para diversas visões da América do Sul entre os países,
distintas quanto à perspectiva sobre sua relação com o "outro" norte-americano
e com a América Latina, bem como erigindo diferentes valores e objetivos como
prioridades. Além disso, se apresenta para os Estados como arena de discussão
de seus interesses de modo a conquistar o apoio dos vizinhos para reivindicá-
los internacionalmente: por exemplo, no caso da Argentina, com a questão das
Ilhas Malvinas; e da Bolívia, com o mastigado da coca. Sugere-se, portanto, que
a Unasul se constitui como estrutura institucional de mediação entre o discurso
sul-americanista comum e os vários discursos baseados nos interesses nacionais.
Percebe-se assim que a integração sul-americana compreende divergências e
conflitos que se instauram em um contexto no qual unidades compartilham uma
identidade coletiva, mas seguem preservando sua individualidade, com sua
própria identidade nacional e seus interesses. Nesse sentido, embora a União de
Nações Sul-Americanas represente a institucionalização de uma visão de
continente historicamente esboçada desde Simón Bolívar, essa visão representa
espectro de diferentes nuances, sendo prudente realçar-se a pluralidade de
percepções e visões nacionais.
Normas e Declarações
MERCOSUL. Protocolo de Ushuaia sobre Compromisso Democrático, 1998. Disponível
em http://www.mercosur.int/innovaportal/file/101/1/1998_protocoloushuaia-
compromisodemocratico_es.pdf. Acessado em 21/12/2011.
I REUNIÃO DE PRESIDENTES SUL-AMERICANOS. Comunicado de Brasília, 1o de setembro
de 2000. Resenha de Política Exterior, no 87, pp. 163-174.
II REUNIÃO DE PRESIDENTES SUL-AMERICANOS. Consenso de Guayaquil sobre
Integração, Seguridade e Infraestrutura para o desenvolvimento, 27 de julho de
2002. Disponível em http://www.comunidadandina.org/documentos/dec_int/
Consenso_guayaquil.htm. Acesso em 1/8/2013.
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III REUNIÃO DE PRESIDENTES SUL-AMERICANOS. Declaração de Cusco sobre a CASA, 8
de dezembro de 2004. Resenha de Política Exterior do Brasil, no 95, pp. 468-
470.
III REUNIÃO DE PRESIDENTES SUL-AMERICANOS. Declaração de Ayacucho, 9 de
dezembro de 2004. Resenha de Política Exterior do Brasil, no 95, pp. 470-471.
COMUNIDADE SUL-AMERICANA DE NAÇÕES. Declaração presidencial por ocasião da I
Reunião de Chefes de Estado da CASA, 30 de setembro de 2005. Resenha de
Política Exterior do Brasil, no 97, pp. 299-304.
COMUNIDADE SUL-AMERICANA DE NAÇÕES. Declaração de Cochabamba, 9 de dezembro de
2006. Disponível em http://www.unasursg.org/
index.php?option=com_content&view=article&id=445:declaracion-de-
cochabamba-diciembre-de-2006&catid=96:declaraciones._Acessado_em_31/1/2011.
COMUNIDADE SUL-AMERICANA DE NAÇÕES. Declaração de Margarita, 17 de abril de
2007. Disponível em: http://www.unasursg.org/
index.php?option=com_content&view=article&id=435:declaracion-de-
margarita-abril-de-2007&catid=96:declaraciones. Acessado em 31/1/2011.
UNASUL. Tratado Constitutivo da Unasul, 23 de maio de 2008. Disponível em:
http://www.itamaraty.gov.br/temas/america-do-sul-e-integracao-regional/unasul/
tratado-constitutivo-da-unasul. Acessado em 31/1/2012.
UNASUL. Declaração de Quito da III Reunião Ordinária de Chefas e Chefes de
Estado da Unasul, 10 de agosto de 2009. Disponível em http://www.unasursg.org/
index.php?option=com_content&view=article&id=357&Itemid=358.
Acessado em 31/1/2012.
UNASUL. Declaração de Los Cardales da Reunião Extraordinária de Chefas e Chefes
de Estado da Unasul, 4 de maio de 2010. Disponível em http://www.unasursg.org/
index.php?option=com_content&view=article&id=357&Itemid=358.
Acessado em 31/1/2012.
UNASUL. Declaração do Conselho de Chefas e Chefes de Governo por ocasião da IV
Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da UNASUL - Georgetown, 26 de novembro
de 2010. Resenha de Política Exterior do Brasil, no 107, pp. 340-347.
NOTAS
1. Programa multilíngue de AC desenvolvido pelo Projeto Identidade do Centro
Weatherhead para Negócios Internacionais da Universidade de Harvard. Disponível
em: http://www.yoshikoder.org/. Acesso em 12/8/2011.
2. Os resultados da AC foram controlados pela observação das palavras em seu
contexto de modo a evitar resultados espúrios: por exemplo, a análise da
palavra "desenvolvimento" desprezou ocorrências tais como "o desenvolvimento de
projetos".
3. Até o envio do presente artigo, a situação do Paraguai, antigo membro do
Mercosul até seu afastamento do bloco em junho de 2012, ainda não fora
regularizada.
4. Atualmente constituída por Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador, Dominica,
Nicarágua, Antígua e Barbuda e São Vicente e Granadinas.
5. Formado por: Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Dominica,
Granada, Guiana, Haiti, Jamaica, Montserrat, Santa Lúcia, São Cristóvão e
Nevis, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trindade e Tobago.
6. Autores como Risse (2004) salientam como espécie da socialização o mecanismo
de persuasão, o qual enfatizaria o papel proativo dos agentes por meio do
convencimento.
7. Disponível em: http//www.youtube.com. Acesso em 10/12/2011.
8. À exceção de: Declaração de Ayacucho (2004), Declaração de Margarita (2007),
Declaração de Quito (2009), Declaração dos Cardales (2010), Declaração de
Georgetown (2010) e Declaração de Lima (2011).
9. Presidente do Uruguai entre 2005-2010.
10. Ressalte-se que, em termos proporcionais em relação ao número total de
palavras dos discursos, a Venezuela registra uma proporção de 0,0051, e o
Equador de 0,0071.
11. Termos: econômico(a)(s); económico(a)(s); economia(s).
12. Termos: social, sociais, sociales.
13. Segurança, seguridad, defesa, defensa, paz.
14. Solidariedade, solidaridad, solidário(a)(s), solidário(a)(s).
15. Compreendendo "diminuição/redução de desigualdade".
16. O Brasil, dado possuir elevado número de casos em análise, apresenta
proporções que tendem a atrair as proporções gerais, motivo pelo qual não se
constataram diferenças significativas entre as frequências observadas e
esperadas.
17. Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores do Brasil entre 2003 e 2010.
18. "Não foi sempre assim e agora é cada vez mais fácil dar-nos conta de que,
efetivamente, quando Bolívar e San Martín aqui se encontraram, há 180 anos,
tinham um sonho que não era somente um sonho. Levavam em seus corações uma
utopia que não era somente uma utopia, que tinha uma base na geografia, tinha
uma base na história Ibérica, tinha base na mestiçagem desta história Ibérica
nas serras da América, tinha base na vontade grandiosa de construir algo que
fosse capaz de ir mais longe do que o instante presente. E chegamos a esse mais
longe" (Cardoso, 2002).