Indicações geográficas e desenvolvimento territorial: um diálogo entre a
realidade europeia e brasileira
INTRODUÇÃO
Nos últimos dez anos o tema das indicações geográficas de produtos
agroalimentares converteu-se em assunto de renovado interesse no âmbito dos
países latinoamericanos, tanto do ponto de vista estritamente acadêmico quanto
na perspectiva da atuação das agências nacionais e, sobretudo, internacionais
de fomento e desenvolvimento rural1.
Este período coincide com a aparição de diversos estudos e eventos cujo foco é
analisar a importância das figuras de proteção dos chamados "produtos com
identidade cultural" (vinhos, queijos etc.) para fomentar o desenvolvimento de
zonas rurais marcadas pelo isolamento e crise de perspectivas em relação ao
futuro. Nesse sentido, coincidimos com Saraceno (2007:167) quando afirma que o
entusiasmo despertado
sobre esse assunto nos países latino-americanos é consequência do "êxito
inesperado das políticas de desenvolvimento rural" levadas a cabo nos países da
União Europeia (UE), onde se destacam os objetivos de coesão territorial e de
fortalecimento das identidades culturais. Os impactos que engendram essas novas
dinâmicas e esquemas de desenvolvimento são notáveis, tornando-se fonte de
inspiração para renovar a atuação estatal em muitos países, incluindo o Brasil.
Não obstante, há uma grande distância que separa o contexto latino-americano do
europeu no que afeta ao panorama das indicações geográficas2, em toda sua
diversidade. Assim, enquanto no primeiro caso apenas foram dados os primeiros
passos para o estabelecimento de legislação específica sobre a matéria,
coincidindo com o surgimento das primeiras experiências de proteção de produtos
agroalimentares, no velho continente há um amplo marco regulador e normativas
específicas, tantonoâmbitoeuropeu quanto no planodos Estados-membros, havendo
inclusive outras figuras de proteção ao nível das regiões eautonomias, como
éprecisamenteocaso da Espanha.
Apesar do grande otimismo verificado em ambas latitudes por parte das agências
de desenvolvimento implicadas nessas iniciativas, não se pode negar que o tema
suscita algumas importantes contradições. Se, por um lado, é capaz de
impulsionar processos de coesão social ao nível dos territórios,
potencializando ativos intangíveis (Letablier e Delfosse, 1995), também é
verdade que pode gerar mecanismos de exclusão para outras coletividades. Esse é
o caso de iniciativas que refletem uma flagrante ausência de habilidade social
(social skill) requerida para consolidar processos de cooperação e coalizões
políticas (Fligstein, 2001:3) mais amplas e duradouras.
Deste modo, não há como desconsiderar outro aspecto que alimenta a polêmica em
torno das supostas virtuosidades das indicações geográficas nos países da UE,
qual seja, os efeitos deletérios resultantes da proliferação de marcas e
figuras de proteção (Barco et alii, 2007; Sanz, 2007). Referimo-nos, entre
outras coisas, às dificuldades dos consumidores em reconhecer, de forma clara e
inequívoca, as singularidades e os atributos de que, presumivelmente, tais
artigos são portadores.
No caso europeu, sob o título de "produtos de qualidade diferenciada" acham-se
incluídos não somente os artigos que carregam uma marca diferencial, a exemplo
das denominações de origem e das especialidadesregionais
garantidas,comotambémosprodutosoriundosdaprodução ecológica e da produção
agrícola integrada.
Nãoobstante, oque parece claroéquenão somentesão distintasascircunstâncias e os
contextos que fazem emergir tais iniciativas em ambos continentes (latino-
americano e europeu), mas fundamentalmente a dinâmica que acompanha tais
processos e os respectivos resultados quesepodem lograr
desdeaperspectivadefomentarodesenvolvimento dos territórios. O presente artigo
objetiva incidir nesse debate.
Neste trabalho sustentamos a tese de que as indicações geográficas podem
converter-se em um importante instrumento para o desenvolvimento de muitas
zonas rurais do Brasil, sempre e quando exista uma base conceitual mais ampla,
a qual estabeleça a identidade cultural dos territórios no centro das
estratégias de intervenção dos entes públicos ou privados interessados nesses
processos.
Parte-se aqui da premissa de que não se trata apenas de fortalecer os vínculos
verticais da cadeia de valor de um produto típico de um determinado território,
mas sobretudo de ampliar os vínculos horizontais que conectam os distintos
atores que compartilham traços de uma mesma identidade cultural, como é
precisamente o caso dos italianos e de outros grupos étnicos do Sul do Brasil.
Por identidade cultural se entende uma ideia de pertencimento a um determinado
grupo social, o que pressupõe compartilhamento de traços culturais, costumes,
valores e crenças. Todavia, encontramo-nos frente a um objeto em permanente
processo de mutação, que continuamente se recria a osabor das influências que
emergem do mundo exterior, o qual espelha seu caráter imateriale anônimo pelo
simples fato de ser produto de uma coletividade (González, 2006:43).
A saga dos italianos no Brasil meridional é amplamente conhecida na história
recente desse país, cujo resgate escapa aos objetivos deste artigo. Nossa
ênfase recai na abordagem sobre a trajetória de certos processos levados atermo
numa região precisa da geografia gaúcha, em meio à criação da primeira
indicação geográfica do Brasil, cuja influência tem sido decisiva para incitar
o surgimento de outras iniciativas do gênero no território nacional. Todavia,
diferentemente do Brasil, esse assunto goza de uma ampla base de referência nos
países da Europa, particularmente dentro do marco das políticas de
desenvolvimento rural levadas a cabo no curso das grandes reformas da Política
Agrária Comum (PAC) e das sucessivas edições do Programa Leader, daí a
importância de estabelecer uma aproximação entre ambas as realidades.
Nesse sentido, além dessa breve introdução o presente artigo contempla outras
quatro seções. A primeira delas analisa a evolução recente das políticas de
desenvolvimento territorial na UE. Essa abordagem torna-se crucial para
compreender o contexto atual em que emerge o tema das indicações geográficas,
cuja abordagem realizamos, na segunda seção, com ênfase no caso espanhol. A
terceira seção examina a questão das indicações geográficas no contexto
brasileiro, com especial atenção para o caso do Vale dos Vinhedos, o qual se
considera como prototípico para avaliar o estado da questão em nosso país. O
exame dessa iniciativa supõe refletir acerca dos limites e possibilidades que
nos brindam as indicações geográficas frente ao compromisso de impulsionar o
desenvolvimento dos territórios. A quinta e última seção reúne as considerações
finais do artigo.
A EVOLUÇÃO RECENTE DAS POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL NA UNIÃO
EUROPEIA
As atuais políticas de desenvolvimento rural implementadas nos países da UE
surgiram sobretudo durante os anos 1980, coincidindo com o auge da crise
produzida pelos excedentes alimentares. Nesse sentido, as sucessivas reformas
da PAC devem ser vistas como um claro reflexo do esforço por reduzir o impacto
negativo produzido pelos instrumentos de acompanhamento às políticas de mercado
e de sustentação dos preços dos produtos agrícolas.
Durante esse período, desenvolvimento agrícola e desenvolvimento rural eram
tomados como se fossem conceitos equivalentes e intercambiáveis entre si. Ou
seja, admitia-se à época que o incremento na produtividade dos fatores de
produção conduziria, inevitavelmente, à melhoria das rendas agrárias e,
consequentemente, ao bem-estar do conjunto dosagricultoresedaspessoas
residentes nosespaços rurais. O resultado mais evidente consistiu no aumento
das desigualdades socioeconômicas entre os países e, inclusive, dentro dos
próprios países.
É somente a partir da segunda metade dos anos 1990 que se começa a avançar na
consolidação de uma política europeia de desenvolvimento rural autônoma e
diferenciada da PAC, por meio da criação dos Programas Leader e Proder3. Assim,
se a etapa anterior esteve associada ao paradigma da modernização agrária e da
centralidade da agricultura enquanto objeto do financiamento comunitário, a
etapa atual é mar-cada pelo paradigma da multifuncionalidade, no qual se passa
a considerar que o espaço rural deve incorporar outros papéis (ócio, turismo,
proteção à biodiversidade etc.) para além da produção agrária stricto sensu4.
Trata-se de uma mudança de orientação importante, através da qual emerge uma
nova concepção centrada no território e que, portanto,
nãomaissedestinaaapoiaraum setorespecífico'aagricultura eos agricultores '
senão ao conjunto dos atores sociais que interagem nos espaços rurais. Sob o
peso dessa perspectiva considera-se que a agricultura já não representa o eixo
central ou exclusivo sobre o qual transita a dinâmica dos territórios e que,
portanto, cabe impulsionar todas as atividades que contribuam para diversificar
e fortalecer o tecido social e produtivo dos espaços rurais.
As políticas com enfoque territorial somente foram concretizadas após a reforma
dos fundos estruturais, cujo objetivo fundamental era o de reduzir disparidades
entre as zonas europeias mais e menos desenvolvidas. Sua implementação requer a
instauração dos chamados partenariados5, cuja missão consiste em articular as
distintas dimensões institucionais (a União Europeia, o Estado nacional e a
região) sob o princípio do cofinanciamento e da subsidiariedade na sustentação
material dos projetos.
Decorridos dez anos da Iniciativa Comunitária Leader, surge o Novo Regulamento
de Desenvolvimento Rural, com o qual se buscam integrar as concepções agrária e
territorial em torno ao segundo pilar da PAC. O objetivo é "evitar a
dissociação observada durante os últimos anos entre, de um lado, a agricultura
e, de outro, o desenvolvimento rural, procurando recuperar a dimensão
territorial da atividade agrária e incorporando a dimensão agrária nas
estratégias territoriais de desenvolvimento" (Moyano, 2005:8).
Apartir do novo regramento surgem dois novos fundos. O FEGA(Fundo Europeu de
Garantia, anterior FEOGA), destinado ao financiamento do primeiro pilar da PAC
(a política de mercados), e um outro fundo específico: o FEADER (Fundo Europeu
para a Agricultura e Desenvolvimento Rural), orientado à construção do segundo
pilar da PAC. Nesse caso, todo o esforço está centrado na geração de emprego
(agrícola e não agrícola), na sustentabilidade ambiental, qualidade de vida,
fixação da população e no fomento à diversificação dos espaços rurais.
O fato de contar, pela primeira vez, com uma política de desenvolvimento
territorial não se reflete numa destinação de recursos correspondente à
grandeza dos objetivos propostos. Por certo, trata-se de uma mudança com a qual
apenas foram dados os primeiros passos, tendo em mente que o peso do primeiro
pilar da PAC foi sempre dominante. Parece óbvio que a conciliação de interesses
não é uma tarefa simples de resolver em meio a um contexto marcado por posições
já consolidadas, pela pressão exercida pelas corporações socioprofissionais e
por uma disputa em torno de recursos cada vez mais escassos, mormente depois da
ampliaçãononúmerodepaísesdaUE6.
A ideia da diversificação supõe o incentivo às atividades não agrícolas e à
pluriatividade dos estabelecimentos, ao turismo rural e à criação de pequenas
empresas. Ageração de empregos, o incentivo à inovação e o resgate de saberes
figuram como elementos de destaque no balanço sobre os êxitos das iniciativas
Leader. E é justamente nesse contexto que ganha relevo a estratégia de
fortalecimento aos produtos com identidade cultural, como é precisamente o caso
das indicações geográficas em toda sua riqueza e diversidade. Esse aspecto
merece ser ampliado para os efeitos que persegue este artigo.
Vale lembrar que, desde 2007, como resultado do êxito da iniciativa Leader, seu
enfoque se integrou à política de desenvolvimento rural da UE, seja em âmbito
nacional, seja em âmbito regional. Nesse sentido, é mister frisar que o método
Leader descansa sobre sete grandes eixos, a saber:
1) Enfoque territorial. O processo de intervenção leva em conta os
recursos e as necessidades de cada território com o objetivo de
responder às demandas prementes no marco da política de
desenvolvimento;
2) Enfoque ascendente. Em todas as fases do processo as soluções e
decisões devem ser assumidas de baixo para cima (bottom up) e não de
cima para baixo (top down), como convencionalmente ocorreu,
implicando o fomento explícito à participação do conjunto de atores
sociais do território;
3) Enfoque associativo e o Grupo de Ação Local (GAL). Constitui-se em
organização associativa integrada por agentes públicos e privados que
concebemuma estratégia conjunta e umplano de ação para desenvolver
uma determinada zona ou território;
4) Inovação. As ações propostas devem ser inovadoras, podendo ser
iniciativas destinadas a fomentar o uso de recursos locais,
utilizando novos meios, os quais ofereçam respostas novas aos
problemas das zonas rurais ou criem umnovo produto, processo ou novas
formas de organização no acesso aos mercados.
5) Enfoque integrado. Tem a ver com a necessidade de que as ações e
projetos contidos no plano de ação local estejam relacionados como um
todo coerente, podendo ser ações relacionadas a umúnico setor
econômico como também aosmais diversos agentes e setores econômicos
do ponto de vista social, cultural e ambiental da zona em questão.
6) Criação de redes de cooperação entre zonas. Nesse caso, trata-se
de animar o intercâmbio e circulação de informação sobre políticas de
desenvolvimento rural, bem como a difusão e transferência de boas
práticas e de estratégias inovadoras. Arede Leader implica evitar o
isolamento dos GAL, fomentando o diálogo à escala europeia e
nacional.
7) Gestão e financiamento local. Consiste em delegar ao GAL a tomada
de decisões no que afeta ao financiamento e gestão, levando em conta
a necessidade de comprometimento por parte de cada Estado-membro, da
região e de todos os atores do território implicados nesses
processos.
Dois aspectos merecem ser sublinhados nessa aproximação que fazemos ao Programa
Leader. Em primeiro lugar, é mister reafirmar a influência exercida pelo método
Leader sobre outras latitudes do plane-ta.Oestudo realizadonoMéxicopor De
losRíos et alii(2011) representa um exemplo gráfico da multiplicidade de
trabalhos7 que ilustram tentativas de aplicação deste enfoque nos países
latino-americanos.
O segundo aspecto tem a ver com a ênfase na inovação através do uso de recursos
locais. Todavia, criar um produto rural não quer dizer, necessariamente,
inventar algo novo. A inovação supõe, em muitos casos, resgatar saberes,
práticas e/ou processos esquecidos, ao longo do tempo, poruma
sociedadeondeapadronização euniformidadeseimpuseram de forma determinante,
sobretudo na esfera agroalimentar. Trata-se, em última instância, de combinar,
harmonicamente, tradição einovação.
Por que são importantes as indicações geográficas para a UE? Tal indagação
corresponde à epígrafe de Documento constante do marco europeu de
desenvolvimento rural (UE/MEMO 03/160, 2012) cujo foco da resposta se orienta,
entre outros aspectos, para o papel que as IG assumem na conservação do
patrimônio cultural, dos métodos tradicionais e dos recursos naturais dos
estados-membros, bem como por que elas representam um "signo de valor" que visa
satisfazer o gosto de consumidores interessados num produto distinto ao
convencional, que é típico e de alta qualidade.
Não é por acaso que boa parte da atuação dos GAL, em diversos países da UE, tem
sido no sentido de verdadeiramente garimpar informações que levassem à criação
de indicações geográficas. De um ponto de vista geral, pode-seafirmar
queestetipodedispositivo de diferenciação representa a busca de alternativas
para aquelas zonas submetidas ao impacto dos processos de reestruturação da
agricultura. Nesse caso, a agregação de valor aos produtos é vista como uma via
capaz de resgatar os vínculos com o território e fortalecer a identidade
sociocultural dos grupos envolvidos.
Não é por outro motivo que a promoção de tais produtos é assumida como uma
estratégia viável para reduzir excedentes, dinamizar socioeconomicamente as
regiões menos competitivas e marginais e dotar as pequenas explorações e
empresas de uma ferramenta com a qual possam diferenciar-se e competir nos
mercados globais (Lozano, 2009:24). Essa dinâmica é fortalecida pela emergência
de um novo perfil de consumidor interessado em produtos cujo ato de consumo não
produza apenas uma apropriação tangível do mesmo, mas que fundamentalmente
promova distintos tipos de sensações: sensoriais, emocionais, comunicativas
(Aguilar et alii, 2003:170).
São estes os aspectos que emolduram o cenário mais amplo em que se inscreve o
tema das indicações geográficas no contexto das políticas de desenvolvimento
rural da União Europeia, cuja abordagem, ainda que esquemática, torna-se
crucial para compreender os elementos que a seguir analisaremos.
AS INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS NA EUROPA E ESPANHA
Em resumidas contas, pode-se dizer que o último decênio esteve marcado pela
crise do padrão da quantidade (Hervieu, 1996) e sua paulatina substituição por
um novo modelo no qual a qualidade dos produtos e processos converte-se na
tônica dominante. De outro modo, pode-se dizer que o aludido período esteve
associado à substituição de uma economia de volumepor uma economia de
valor,medianteageraçãode produtos intensivos em conhecimentos (Aguilar et alii,
2003:177).
Por outro lado, os fatos mostram que nos encontramos diante de um novo discurso
sobre a ruralidade, o qual se encaixa perfeitamente nas teses que advogam em
favor das virtudes dos produtos, processos e serviços com identidade cultural.
Tais premissas constam no "Livro Verde sobre a qualidade dos produtos
agrícolas, normas de comercialização, requisitos de produção e regimes de
qualidade" da Comissão das Comunidades Europeias, o qual refere que os
agricultores, em lugar de perceberem as crescentes exigências como uma carga
adicional, devem, ao contrário, aproveitar todas as oportunidades e produzir o
que os consumidores desejam a partir de processos que permitam diferenciar seus
produtos frente a outros artigos encontrados nos mercados.
É mister recordar que se trata de um documento recente (CEE, 2008) e que prevê
quatro regimes de qualidade sob proteção, quais sejam: a) indicações
geográficas; b) agricultura ecológica; c) especialidades geográficas
garantidas; d) produtos procedentes das regiões ultraperiféricas8 da UE. As
indicações geográficas incluem as Denominações de Origem Protegidas (DOP) e as
Indicações Geográficas Protegidas (IGP). A diferença entre ambas está no fato
de que na DOP se exige que todas as fases de produção sejam realizadas numa
zona delimitada e que as características do produto dependam exclusiva ou
essencialmente de sua origem geográfica. Já no caso da IGP, ao menos uma das
fases de produção de verealizar-se na própria região, sendo que o vínculo deve
justificar-se a partir de uma qualidade específica, reputação ou outra
característica relacionada com a zona geográfica em questão.
Através desses instrumentos buscam-se, simultaneamente, resguardar os
produtores frente à concorrência desleal9 que acarretam os produtos de imitação
comercializados comummesmo nome e, poroutra parte, assegurar aos consumidores a
garantia de um produto elaborado mediante o cumprimento de normas estritas,
cuja qualidade é assegurada por órgãos certificadores públicos ou privados.
DOP e IGP representam as figuras mais importantes no âmbito da UE, mas em
setores como o vitivinícola há uma grande variedade de instrumentosdeproteção,
como éocaso dosvinhosdequalidadeproduzidos em regiões determinadas (VQPRD) e os
vinhos de mesa com indicação geográfica, segundo define o Regramento 1493/99
(CE, 1999) e que estabelece, ademais, a organização comum do mercado
vitivinícola e o conceito de VQPRD, com as seguintes categorias de vinhos de
qualidade, produzidos em regiões determinadas: vinhos de licor;
vinhosespumantes; vinhosbrancos frisantese,por fim, todososdemais vinhos.
No caso espanhol há que ressaltar que todas estas figuras europeias de proteção
dos VQPRD têm sua correspondência nas figuras de proteção deste país, como são
os vinhos de qualidade com indicação geográfica, com denominação de origem, com
denominação de origem qualificada e os "vinhos de pago"10. Já no caso dos
vinhos de mesa com indicação geográfica, sua transcrição no caso espanhol
corresponde aos chamados "vinos de la tierra". É mister recordar que a Espanha
ostenta uma forte tradição vinícola, bem como a maior superfície de vinhedos do
planeta, possuindo atualmente 72 Denominações de Origem, 5 Denominações de
Origem Qualificada, 4 Vinhos de Qualidade e 4 Vinhos de Pago, perfazendo um
total de 85 indicações geográficas. Some-se a isso a existência de 141 produtos
agroalimentares amparados por DOP e IGP, além de 16 DO ou IG das chamadas
bebidas espirituosas11, segundo informações oficiais (MARM, 2010).
Ao longo do tempo, o que se constata é que as IGs foram estendidas a inúmeros
setores e atividades, mas convém recordar, segundo alude Martín Cerdeño (2006:
89), que até 1992 não se havia produzido o reconhecimento da UE para
denominações de qualidade de outros produtos além do vinho. Tal ampliação
demonstra o grau de importância que assumem tais figuras de proteção, bem como
a necessidade de contar com um marco regulador onde caiba toda a diversidade
que caracteriza o espaço europeu, em que pese o grande número indicações
geográficas protegidas12.
Não obstante, há que recordar que logo abaixo das DOP e IGP estão os chamados
lábeles regionales, como por exemplo os produtos Calidad diferenciada de
Andalucía, Alimentos de Extremadurae um amplo leque de distinções que aludem à
qualidade e singularidade de alimentos distribuídos por toda geografia
espanhola.
Não resta dúvida acerca do papel transcendental que assumem as indicações
geográficas e os produtos de qualidade diferenciada do ponto de vista do
fomento ao dinamismo, à inovação e diversificação das áreas rurais. Mas também
é certo que o panorama europeu, e sobretudo espanhol, é relativamente confuso,
dado que nele se misturam legislações, propostas e figuras de proteção
provenientes da União Europeia, do Estado espanhol e das 17 comunidades
autônomas (Sainz, 2004:41).
O Regulamento (CE) 510/2006 (UE, 2006) relativo à proteção das IGs e DOs de
produtos agroalimentares adverte sobre a necessidade de o consumidor dispor de
informações claras e sucintas sobre a origem dos produtos. Não obstante, não há
como negar os efeitos produzidos tantopelaproliferação de figurasdeproteção,
gerandoconfusãoaos consumidores, quanto pela profusão de regimes de
certificação de produtos.
Parece claro que a DO é uma condição necessária para acessar mercados cada vez
mais exigentes, mas não é uma condição suficiente para atingir uma posição
consolidada, sob o império da acirrada concorrência que acarreta a globalização
dos mercados. Não obstante esses aspectos, parece lógico supor que as IGs
esboçam uma dupla conexão entre, de um lado, o lugar geográfico e os processos
de produção e, de outro, entre a qualidade do produto e o lugar onde o mesmo
foi elaborado.
Reconhece-se que através das figuras de proteção não se quer apenas garantir a
qualidade de um determinado produto, mas salvaguardar o entorno humano, físico,
histórico e cultural que lhe deu origem. Nesse sentido, cabe advertir que:
Uma coisa é a valorização de um produto típico de forma isolada,
outra coisa é reunir e tornar evidentes as conexões que possam
existir entre distintos aspectos da realidade local: os produtos
[...], os serviços [...], os conhecimentos técnicos disponíveis, o
idioma. A projeção, em termos de identidade cultural, facilita a
percepção do conjunto do sistema local, dando-lhe unidade e
coerência. (Saraceno, 2007:185-186; tradução livre)
Essa perspectiva se apoia no entendimento de que a valorização dos produtos
locais e o fortalecimento da identidade cultural de um território representam
as duas faces de uma mesma moeda. Reativar esse tipo de produção e recuperar o
patrimônio cultural têm sido apontados, no caso europeu, como responsáveis por
gerar novas perspectivas a muitas zonas rurais deterioradas e escassamente
integradas à sociedade mais ampla. Com isso, se passa a fomentar um turismo
rural baseado no potencial de seu entorno natural e, sobretudo, cultural
(Aguilar e Amaya, 2007:123).
Nesse sentido, a atuação dos Grupos de Ação Local criados na Espanha por força
das sucessivas edições do Programa Leader converteu-se em um marco de
referência para as políticas de desenvolvimento territorial em toda a Europa.
Mas, se o balanço é francamente positivo sob a perspectiva dos logros
alcançados, também é certo que o resgate de produtos com identidade cultural
converteu-se na pedra angular de muitas destas exitosas experiências. Apróxima
seção analisa a questão da abordagem territorial de desenvolvimento e o tema
das IGs no Brasil.
ABORDAGEM TERRITORIAL DO DESENVOLVIMENTO E INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS NO BRASIL
Uma visão retrospectiva sobre a última década, com respeito à evolução das
políticas de desenvolvimento rural nos países latinoamericanos, revela a
incorporação, em maior ou menor medida, da abordagem territorial do
desenvolvimento (Schejtman e Berdegué, 2003). Todavia, como alude Favareto
(2007), nem sempre o resultado é satisfatório quando o exame é feito à luz da
consistência dos instrumentos postos em funcionamento, cujas premissas foram
anteriormente expostas. O caso brasileiro exemplifica essa assertiva.
A criação, em 2003, da Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT) deve ser
vista como representativa do empenho do governo federal no sentido de operar a
transição da concepção setorial para a territorial em seus instrumentos de
intervenção na realidade. Todavia, é mister recordar quesetrata de
umasecretariacriadaparagerenciar os recursos de um outro programa (o Pronaf13
em sua vertente Infraestrutura), a qual se insere no corpo de um ministério
(Desenvolvimento Agrário) cuja atuação é deveras limitada do ponto de vista da
capacidade de concretar alianças com outras instâncias do governo federal, dos
Estados e municípios.
Convergimos com Favareto (2007:14) quando este afirma que o grande desafio está
justamente em superar um duplo viés que acomete a atuação do Estado brasileiro
nesse âmbito, qual seja, o viés do combate à pobreza e o viés setorial que
restringem as ações à esfera da agricultura. A criação dos "territórios da
cidadania" espelha claramente os efeitos dessa tendência, cuja aparição
responde aos anseios do Estado no sentido de conferir uma maior visibilidade
para suas iniciativas no plano social. Consideramos válida a criação dos
territórios no afã de conferir unidade e consistência à atuação estatal para
além da escala do município, fomentando a formação de consórcios em regiões
marcadas por graves problemas estruturais. Todavia, a ênfase na agricultura
familiar como protagonista único e exclusivo do desenvolvimento e foco estrito
no combate à pobreza impede a construção de alianças mais amplas com outras
forças sociopolíticas e representam, na nossa acepção, uma grande contradição
com os pressupostos da abordagem territorial.
Frente a este cenário é difícil imaginar que essa concepção possa ultrapassar a
condição de simples inovação da retórica oficial. A leitura dos documentos
referenciais da SDT para uma estratégia de desenvolvimento rural sustentável
corrobora esse tipo de assertiva. Para os efeitos do presente artigo é
importante observar que em nenhum momento é mencionada a questão das indicações
geográficas no quadro dos instrumentos que sinalizam para o desenvolvimento dos
territórios. Trata-se de uma discussão cujo teor escapa completamente ao escopo
da atuação e objetivos da SDT cuja visão de desenvolvimento mostra-se demasiado
restrita e totalmente incapaz de construir alianças mais amplas com outras
instâncias governamentais requeridas para aumentar a densidade do tecido
produtivo no contexto dos territórios. Feitas essas observações, cabe agora
retomar o tema das indicações geográficas no Brasil e suas conexões com o
argumento do presente artigo.
A legislação que dispõe sobre as IGs no Brasil segue as disposições que emanam
dos acordos firmados pelos países integrantes do Mercado Comum do Cone Sul
(Mercosul). O marco legislativo de proteção encontra-se no protocolo de
harmonização de normas sobre propriedade intelectual em matéria de marcas,
indicações de procedência e denominações de origem. Este documento (Lei no912)
foi aprovado na VIII Reunião do Conselho do Mercado Comum e Encontro
Presidencial do Mercosul ocorrido em Assunção (Paraguai), entre 1 e 5 de agosto
de 1995, o qual protege tanto as marcas de serviços quanto as marcas coletivas
e de identificação (Mercosul, 1995).
Os países-membros criaram a "marca Mercosul", mas como reitera Benedetto (2007:
152), falta muito para avançar nessa direção, se temos em mente que "ainda não
existe um organismo coordenador da marca, que funcione como instância de
identificação de produtos regionais com potencial exportador e que fomente e
fiscalize a incorporação das normas internacionais de qualidade dos produtos"
(tradução livre).
A bem da verdade, cabe frisar que desde 1995 negocia-se um acordo entre a União
Europeia e os países do Mercosul sobre este tema. Mas é preciso ter em conta,
como alude Niederle, que as tratativas nesse âmbito estão engessadas em virtude
das assimetrias entre os blocos. Por outro lado,
De modo geral, os países do Mercosul evitam os termos sugeridos pela
UE no que se refere ao tema das IGs. Mas existem posições
contraditórias entre os países sulamericanos e, às vezes, dentro do
mesmo país ' vide o caso do Brasil, único país representado por dois
ministérios referentes à agricultura nas reuniões da OMC. Por um
lado, estes países buscam desenvolver sistemas de indicações
geográficas que reconhecem a importância deste mecanismo para o
comércio internacional. Por outro, há quem trate a questão como uma
espécie de "moeda de troca" na demandaparaque aEuroparemovabarreiras
de comércio ecorte subsídios agrícolas, o que possibilitaria a países
como Brasil e Argentina exercer suas vantagens comparativas no
mercado internacional, notadamente no que tange ao setor do
agronegócio. (Niederle, 2011:48; aspas no original)
Ou seja, o que aqui se quer evidenciar é que não obstante o interesse
despertado pelas indicações geográficas por parte de diversos atores da esfera
agroalimentar ou de outros setores econômicos (turismo, entretenimento, agentes
culturais etc.), não cabe dúvida de que pouco se tem avançado nesta matéria nos
países do Cone Sul14.
A experiência vivenciada no Vale dos Vinhedos, sobre a qual nos aprofundaremos
mais adiante, corresponde a um dos casos de estudos por equipe liderada por
Ranaboldo e Schejtman no âmbito latinoamericano, dentro do que tais autores
denominam "produtos com identidade cultural". Uma das conclusões mais
importantes a que chegam estes autores é no sentido de afirmar que, não
obstante a enorme riqueza cultural desta parte do planeta, "são muito poucos os
casos em que estas iniciativas conseguem articular-se dentro do território,
diversificar-se e alcançar uma dinâmica e uma 'massa crítica' que lhes permitam
incidir nos processos mais amplos de desenvolvimento numa escala territorial"
(Ranaboldo, 2009:25; tradução livre; aspas no original).
O marco legaldas IGs no Brasil (Lei nº 9.279 de 14/5/1996) é muito recente e
contempla duas grandes figuras de proteção, quais sejam, as Indicações de
Procedência (IP) e as Denominações de Origem (DO). A IP refere-se ao nome
geográfico de um país, cidade, região ou localidade de um território e que se
tornou conhecida como centro de obtenção, produção ou fabrico de um determinado
produto ou de prestação de um serviço. Já a DO indica o nome geográfico do
país, cidade, região ou localidade de seu território e que designa o produto ou
serviço cujas qualidades ou características devam-se exclusiva ou
essencialmente ao meio geográfico, incluindo fatores naturais e humanos.
Adistinção entre tais figuras está no fato de que na IP o relevante é a
notoriedade associada à qualidade que alcançou um determinado produto, ao passo
que na DO a excelência deve estar obrigatoriamente associada aos aspectos
físicos (solo, água, clima), humanos e culturais do meio onde ocorreu a
obtenção ou produção.
Tanto a IP quanto a DO devem estar registradas no Instituto Nacional de
Propriedade Industrial (INPI). Até 2010 havia apenas seis (6) indicações
geográficas reconhecidas pelo INPI. Surgida em 2002, a IP dos vinhos finos e
espumantes do Vale dos Vinhedos corresponde à primeira delas, seguida do café
do Cerrado (2005), da carne bovina e derivados do Pampa Gaúcho da Campanha
Meridional (2006), cachaça de Paraty (2007) e couro curtido do Vale dos Sinos
(2009).
Não obstante, os dados do Gráfico_1 não deixam dúvidas acerca do vertiginoso
incremento no número de IG brasileiras, o qual foi multiplicado 4,7 vezes no
espaço de tempo correspondente aos últimos dois anos, e que, até o momento de
elaboração deste artigo, compreendia 21 IPs e sete DOs (28 IGs no total).

É oportuno ressaltar que a legislação brasileira admite tramitar pedidos de
registro de produtos nacionais e estrangeiros, havendo atualmente 26
solicitações que abarcam produtos alimentícios (vinhos, presuntos, água, queijo
etc.), e inclusive não alimentícios (algodão, equipamentos eletrônicos,
artefatos metálicos, couro etc.).
O Vale dos Vinhedos: A Valorização dos Vinhos e dos Encantos da Serra Gaúcha
O processo de colonização levado a cabo no Rio Grande do Sul durante
aprimeiraeasegunda metade do século XIX exerceu enorme influência na
conformação atual dessa unidade federativa. Nesse sentido, para o argumento
central deste artigo importa destacar dois grandes efeitos desse processo,
quais sejam, o de contribuir para a constituição de um dos mais importantes
setores da agricultura familiar15 nacional e, por outra parte, de assentar as
bases para consolidar a indústria regional.
Tais efeitos estiveram estreitamente ligados ao protagonismo exercido pelos
colonos provenientes da Europa (alemães, poloneses e italianos), os quais
incorporaram à sociedade gaúcha um ethossingular (Gaiger, 1994; Tedesco, 1999)
que expressa os traços típicos do campesinato centro-europeu, principalmente
seu dinamismo para a diversificação das atividades. Os analistas coincidem no
entendimento de que as raízes da industrialização das zonas setentrionais desse
Estado encontram-se precisamente associadas ao florescimento desta "agricultura
colonial" e ao processo de acumulação de riqueza daí resultante, um fenômeno
para o qual foi muito importante o conhecimento técnico destes imigrantes.
Some-se a isso a intensa articulação que se foi desenvolvendo entre os
interesses expansionistas de certos ramos de atividade fabril (metalúrgicas,
têxteis, calçados, vinhos etc.) e as estratégias próprias das famílias rurais
para garantir sua reprodução social, conferindo à dinâmica social e econômica
destes territórios um traço diferencial frente a outras regiões do país e,
inclusive, do próprio Rio Grande do Sul.
Para os objetivos do presente artigo importa destacar uma outra faceta deste
cenário e que se associa à trajetória da imigração italiana numa região precisa
deste Estado, qual seja, a chamada "Serra Gaúcha", conhecida como um importante
destino turístico do Brasil meridional onde se produz atualmente 90% da
produção nacional de vinhos (Gollo, 2006). E é precisamente no interior dessa
região que se encontra a primeira experiência de indicação de procedência do
Brasil. A trajetória que acompanhou essa iniciativa não pode ser descrita sem
aludir ao papel desempenhado pelos italianos que chegaram ao Estado em 1875.
Até o início do século XX o vinho era produzido com o objetivo de atender
fundamentalmente o consumo próprio das famílias, utilizando-se variedades
rústicas de uva. Mas a partir das décadas de 1970 e 1980 se ingressa em uma
outra etapa da vitivinicultura com o aporte de capital internacional e a busca
de aperfeiçoamento nos sistemas de produção, processo este impulsionado pela
ampliação do mercado interno, cada vez mais aberto ao consumo de vinhos de
melhor qualidade. Por essa época o Brasil adota uma política de incremento da
qualidade centrada nos chamados "vinhos varietais". Todavia, como afirma
Tonietto (2005:143), são vinhos cujo elemento de destaque não é a região
produtora, mas a variedade da uva usada em sua elaboração.
O período subsequente coincide com uma série de mudanças entre as quais figura
a criação do Mercosul e os efeitos que engendra sobre o setor vitivinícola
nacional em face do ingresso dos vinhos procedentes do Uruguai e,
particularmente, do Chile e Argentina em nosso país sob condições tarifárias
que promovem uma feroz concorrência com o produto nacional. É justamente no
rastro destas questões que se deve entender não somente a criação da Associação
dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale), para defender
os interesses dos produtores, mas sobretudo um conjunto de iniciativas
centradas no objetivo de demonstrar o "efeito terroir"desta região sobre os
vinhos elaborados16.
Desse modo o Brasil ingressa, como afirma Tonietto (2005:144), na produção dos
vinhos de "quarta geração", que devem afirmar a identidade e qualidade do
produto nacional, seja no plano do mercado interno quese enfrenta à aludida
competência do artigo importado, seja no plano do leque de oportunidades que
brindam os mercados internacionais.
A estratégia adotada culminou na aparição da indicação de procedência em 2002,
através da qual são estabelecidos critérios de delimitação geográfica e criação
de um Conselho Regulador. Esta IP abarca uma superfície de 81,23 km2 e se
distribui por três municípios (Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul).
Os produtos protegidos são os vinhos tintos, brancos e espumantes, havendo um
conjunto de rigorosos procedimentos que devem ser cumpridos para que os mesmos
levem a etiqueta "Vale dos Vinhedos". A Aprovale congrega atualmente 31
vinícolas, além de 28 associados que incluem hotéis, restaurantes, queijarias,
pousadas e outras empresas.
A principal agência de pesquisa agrícola do Brasil (Embrapa) desempenhou um
papel de destaque nesse processo, por meio do qual se buscava umasaídaàcrise
produzidapelos vinhosestrangeiros. Oprincipal agente articulador dessa
iniciativa menciona17 este fator como decisivo para induzir ao processo que
culminou na formação da Aprovale, num primeiro momento, e, num segundo momento,
na criação da IP. Segundo suas próprias palavras:
o Vale dos Vinhedos é uma carta de apresentação, é um diferencial,
contatar com o pessoal do Vale dos Vinhedos é um pessoal
diferenciado... Isso aí ajuda a enfrentar esse mercado muito
complicado, muito complicado. É um fator que tem ajudado, e essa é a
ideia. Quando a gente começou a construir as indicações geográficas
aqui no Brasil pra vinhos, se sabia que o mercado ia abrir porque tem
gente muito boa nesse mundão afora, as regiões são cada vez melhores,
investindo... Sem qualidade não se consegue nada.
Tal experiência gerou importantes efeitos, tanto interna quanto externamente à
região. No primeiro caso há que mencionar os benefícios sobre os processos de
produção vitivinícola, trazendo consigo a incorporação da rastreabilidade e os
diversos mecanismos de controle da qualidade da uva e do vinho, mas também na
perspectiva do fortalecimento de uma identidade regional calcada na alusão à
história dos pioneiros e que se reflete no encanto de paisagens que incluem
caminhos rurais, casarios de pedra e antigas cantinas, em meio a um cenário que
em muito se assemelha ao distante Vêneto, à Lombardia ou ao Piemonte italiano.
O êxito verificado na iniciativa do Vale dos Vinhedos induziu a que nessa
região fossem criadas outras associações de produtores imbuídas do mesmo
objetivo, qual seja, o da criação de uma IG, como é o caso da Aprobelo
(Associação dos Vitivinicultores de Monte Belo do Sul), Afavin (Associação
Farroupilhense de Vinicultores), Apromontes (Associação de Produtores dos
Vinhos dos Altos Montes) e Asprovinho (Associação dos Produtores de Vinhos de
Montanha). Tais associações encontram-se articuladas em torno de um ambicioso
projeto nacional intitulado18Wines of Brazil,cuja meta é dar a conhecer
internacionalmente a qualidade e singularidade dos vinhos do país, no qual há
um alto nível de protagonismo desta zona situada no interior da Serra Gaúcha19.
Se nos fixamos no âmbito externo, há que mencionar que esta experiência
contribuiu para impulsionar o florescimento de outras experiências de IG no Rio
Grande do Sul (Carne do Pampa Meridional Gaúcho e Couros do Vale dos Sinos) e
em outras regiões do país como é o caso da Cachaça do Brasil e do Café do
Cerrado.
Entretanto, o Vale dos Vinhedos enfrenta algumas dificuldades relacionadas com
o esforço de conciliar os distintos interesses implicados (públicos e privados)
e sedimentar as bases para uma estratégia territorial de longo prazo. Um dos
grandes problemas resulta do protagonismo excessivo das grandes vinícolas em
virtude do considerável peso econômico e político que lhes correspondem no
plano local e regional. O contato com os atores que interagem nesse cenário
detectou alguns discursos que se chocam frontalmente com as virtuosidades do
"Vale dos Vinhedos".
Referimo-nos, especialmente, às organizações não governamentais ligadas à
produção ecológica que consideram que esta iniciativa reproduz os mesmos
mecanismos de extração do sobre trabalho dos produtores familiares. Além disso,
argumentam que há um claro desprestígio com relação à produção vitivinícola
gerada através de variedades rústicas como no caso da cultivar Isabel, que,
apesar de produzir um vinho considerado inferior, demanda uma carga bem menor
de agrotóxicos em seu sistema de produção se comparada ao das uvas finas20.
Ainda assim, o balanço21 da iniciativa é muito positivo, particularmente por
favorecer a emergência de uma série de empreendimentos cujo atrativo essencial
reside no chamado "enoturismo". Nesse mesmo espaço (Serra Gaúcha) e sob o mesmo
tipo de apelo ' a cultura italiana e os encantos do seu entorno natural e
paisagístico ' levaram-se a cabo outros processos de valorização da identidade
regional, como é o caso dos "Caminhos de Pedra". A identidade étnica ítalo-
brasileira, forjada na saga dos imigrantes, ergue-se a partir da exaltação de
certos traços (religiosidade, campesinidade, gastronomia ou a ética do
trabalho) que, conjuntamente, são decisivos na ativação de um imaginário social
claramente identificável.
A arquitetura típica dos casarões de pedra e a beleza dos caminhos rurais se
conectam de forma harmônica com a atmosfera mágica do mundo do vinho. É um
processo recente que exigiu uma série de medidas, não somente orientadas a
recuperar e preservar o patrimônio material na montagem de rotas turísticas,
mas especialmente em prol do resgate de certos bens imateriais(idioma,
folclore, arte e habilidades manuais etc.) e profissionalização dos atores
locais (Cerdan et alii, 2009:307).
Mas não restam dúvidas de que existem importantes diferenças entre a iniciativa
Vale dos Vinhedos e a dos Caminhos de Pedra. Assim, enquanto a primeira revela
uma estratégia típica de agregação de valor a uma cadeia de produto (vinhos e
espumantes), a segunda representa umaestratégiatípicade"cestadebens",muito mais
vinculadaaodesenvolvimento integral do território.
Acampora e Fonte (2007:194) destacam que a estratégia de cadeia está centrada
na valorização de um produto específico, portador de uma identidade cultural
que lhe permite viajar a mercados distantes sem romper os vínculos com
suasorigens.Jánocasodaestratégia"cestade bens", trata-se de valorizar a
identidade territorial, não por meio de um único produto, senão através de uma
cesta de bens dentro da qual um dos "marcadores de identidade" pode ser o
grande protagonista, a exemplo do vinho.
Assim, enquanto no caso da primeira via se privilegia, claramente, os vínculos
verticais, na segunda a primazia recai sobre os vínculos horizontais entre os
atores envolvidos. Mas é importante destacar que as duas estratégias podem
conviver, sendo perfeitamente compatíveis, convergentes e/ou complementares, se
temos em mente que o vinho representa não somente a ideia de um artigo
tradicional, com toda carga de subjetividade, mas sobretudo por cristalizar as
características singulares do território e a herança cultural desta peculiar
região do país.
Encontramo-nos diante de duas experiências que surgiram muito mais como
resultado da iniciativa dos próprios sujeitos envolvidos nesses processos do
que propriamente por força da existência da atuação do poder público. O
conhecido empreendedorismo dos descendentes de italianos, a que anteriormente
nos referimos, ergue-se como a força essencial que impulsionou tais
iniciativas. Esse tipo de atributo também está presente no caso europeu, mas
não se pode desconsiderar a existência de um ambiente institucional (Abramovay,
2005) que conspirou fortemente em seu favor, especialmente a partir do advento
das iniciativas Leader e Proder em suas sucessivas edições.
Há diversas lições que pudemos extrair a partir da imersão que vimos
desenvolvendo na região em tela a partir das entrevistas realizadas com os
diversos atores sociais. A primeira delas é que a IPVV não pode ser vista
simplesmente como uma mera ferramenta mercadológica de promoção de um produto
de qualidade diferenciada, mas sim como um instrumento de desenvolvimento
ancorado num território específico eque se nutredeuma herançacultural e
histórica extremamente potente, em torno do qual outras iniciativas possam
aflorar (o turismo, a gastronomia, a prestação de serviços etc.).
Mas será que os resultados dessa construção capitaneada pela indicação
geográfica fortalecem, efetivamente, a plenitude dos setores constituintes do
tecido social e produtivo de um dado território? Esta questão remete o leitor
para uma discussão que extrapola os limites deste estudo. Consideramos, deste
modo, que é necessário um acúmulo de experiências que nos permitam afiançar a
veracidade desta hipótese.
Outrossim, o que está claro é que a evolução do mondovinoe a necessidade de
adaptação a um cenário cada vez mais competitivo e desafiador fizeram emergir
uma experiência que se baseia fundamentalmente na confiança, na cooperação e na
capacidade de inovação de diversos atores. Tal ambiente fez surgir estruturas
de governança (Conselho Regulador) que atualmente exercem suas funções para
além do universo da vitivinicultura, como no caso de influir na discussão sobre
o plano diretor dos municípios que conformam a indicação geográfica com a
finalidade de frear a especulação imobiliária22, notadamente a criação de
condomínios de luxo na área delimitada.
A construção das antigas capelas e centros comunitários, a criação de
associações locais para gerir a distribuição de água, o financiamento assumido
de forma compartilhada pelas famílias para construção e extensão de redes de
eletrificação e de telefonia podem ser vistos como manifestação do capital
social de uma região que, obviamente, extrapolaaáreadelimitadapelaIPVV.
Todavia, também é certo dizer que a estes aspectos somam-se outras questões
igualmente importantes, como é a preocupação em preservar a beleza cênica de
paisagens desenhadas pela mão do homem, como é o caso dos parreirais, dos
caminhos rurais e dos velhos casarões de pedra.
Coincidimos com Ortega e Jeziorny (2011:117) quando estes concluem: "Portanto,
é cabível de se entender que, no Vale dos Vinhedos, há reciprocidade,
cooperação, número de jogadores e informações a respeito da reputação de cada
indivíduo. É justamente a existência de todas essas condições que, segundo
Putnam (2000)23, facilita o surgimento de um bom estoque de capital social".
O caso da IPVV, que hoje conquistou a condição de "Denominação de Origem" para
seus vinhos e espumantes, demonstra, de forma cabal, que a competição e a
cooperação não podem ser vistas como vetores que se opõem ou se excluem
mutuamente. As empresas que se organizam em torno de um projeto dessa natureza,
que inclui uma plêiade de iniciativas (sobretudo as ligadas ao enoturismo),
buscam, de forma coordenada e articulada, veicular uma imagem do próprio
território e uma narrativa centrada na própria identidade. E, se essa
construção exprime com bastante clareza o que vimos aqui comentando, parece
igualmente interessante reproduzir a pergunta feita por Durston (1998) na
epígrafe de seu trabalho: "como criar capital social onde ele não existe?". A
resposta a esta questão tem a ver com a tentativa de explicação para o fato de
que outras iniciativas do gênero não avançaram no Rio Grande do Sul e no
Brasil, mesmo após a criação de dispositivos dessa ordem, como é o caso da
Indicação de Procedência da Carne e Derivados do Pampa Gaúcho da Campanha
Meridional ou mesmo da primeira Denominação de Origem brasileira (Arroz do
Litoral Norte), que literalmente, não avançaram em seus propósitos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não resta dúvida de que os cenários europeu e brasileiro são muito distintos do
ponto de vista dos resultadosedascircunstânciasque obram em favor da emergência
destas novas dinâmicas de desenvolvimento e inovação centradas nos produtos com
identidade cultural. Por outro lado, crescem os desafios que se devem
enfrentar, no caso europeu, diante dos problemas trazidos pela recente
proliferação de marcas e figuras de proteção, muitas das quais surgidas ao
sabor das políticas de desenvolvimento territorial.
Decididamente o coração de uma indicação geográfica reside em seu conselho
regulador, cujas atribuições extrapolam o mero estabelecimento de um pliego de
condicionespara a produção de um determinado artigo, especialmente em face do
papel transcendental que adquire na conciliação de interesses, na administração
de conflitos e na busca de soluções para problemas que afetam ao conjunto dos
atores sociais. Todavia, não coincidimos com certas análises que colocam
demasiado otimismo no potencial das IGs como instrumento capaz de impulsionar,
por si só, o desenvolvimento equilibrado dos territórios.
Os estados meridionais do Brasil contam com algumas infraestruturas produtivas
mais eficientes em relação ao resto do país e lograram alcançar alguns êxitos
na valorização de produtos regionais. Mas a realidade mostra que muitas dessas
iniciativas se aferram a uma visão estritamente setorial e agrarista que
dificulta, sobremaneira, o estabelecimento de vínculos horizontais para além da
cadeia de um determinado produto e do âmbito local.
O balanço sobre os êxitos alcançados pelas políticas de desenvolvimento na UE é
francamente positivo, mas não se pode desconsiderar o papel desempenhado pelos
atores sociais e o caráter inovador da metodologia Leader. No Brasil as
iniciativas de desenvolvimento rural são invariavelmente executadas pelo
serviço de extensão agrária ou por organizações não governamentais que, via de
regra, não se mostram identificados com as premissas da abordagem territorial.
A ênfase segue sendo o apoio a cadeias agroalimentares e na verticalização dos
processos produtivos.
Por outro lado, admite-se que é insuficiente o marco jurídico e normativo
brasileiro no que toca à proteção dos produtos típicos e isso se deve, em
parte, ao reduzido número de indicações geográficas existentes nesse país, se
comparado com o caso da Espanha e da UE.
A experiência do Vale dos Vinhedos cobra importância por duas grandes razões.
Em primeiro lugar, porque se trata da primeira indicação geográfica do Brasil,
convertida agora denominação de origem, cuja influência foi decisiva para
animar o surgimento de outras iniciativas do gênero no país. Em segundo lugar,
porque representa um exemplo gráfico do que se pode avançar em matéria de
desenvolvimento. Nessa região coabitam duas estratégias distintas, mas não
excludentes, de fortalecimento de uma identidade cultural comum que se busca
projetar para o mundo exterior.
Nesse sentido, se o Vale dos Vinhedos é uma estratégia típica de agregação de
valor a um produto rural, os Caminhos de Pedra configuram uma estratégia típica
de "cesta de bens", mais vinculada ao desenvolvimento integral do território.
Mas em ambos os casos se evoca uma mesma matriz cultural que descansa sobre o
imaginário social construídoem torno à trajetória da colonização italiana no
Sul do Brasil ' a Serra Gaúcha ' cujos traços socioculturais são
indiscutivelmente marcantes.
A cultura material (casas de pedra, caminhos rurais, antigas cantinas etc.)
conecta-se de forma indissolúvel com a cultura imaterialresgatada pelos atores
sociais do território que evocam valores como a campesinidade, a ética do
trabalho, a religiosidade e toda a tradição herdada dos antepassados
procedentes, especialmente, das zonas setentrionais de velha Itália.
E é por esse motivo que se quer aqui sublinhar a necessidade de estabelecer uma
base conceitual mais ampla que contemple os aspectos relativos à identidade
cultural dos territórios no centro dos mecanismos de intervenção estatal. Mas
para isso torna-se imperativo contar com instrumentos políticos mais
integrados, assim como romper com a visão setorial que associa os espaços
rurais ao cumprimento de funções estritamente produtivas. As indicações
geográficas podem converter-se em instrumento para o desenvolvimento
territorial, sempre e quando outras condições e circunstâncias estejam
presentes, sobretudo quando se pensa na necessidade de constituir um sujeito
coletivo em torno de uma ideia guia que expresse a capacidade de articulação
dos vetores dinâmicos do território.
NOTAS
1. Esse é o caso da FAO e IICA. Ver a propósito Riveros et alii(2008).
2. O projeto CAPES-COFECUB "Pluralité des signes de qualité et ajustements
institutionels em France et au Brésil. Contributions pour la production de
politiques de dévelopment rural durable", coordenado por John Wilkinson e
Claire Delfosse, representa outra iniciativa de pesquisa dirigida a explorar a
questão das IGs no contexto do desenvolvimento territorial. Ver a propósito
Wilkinson (2008).
3. LEADER é o nome com que se identifica as sucessivas iniciativas (LEADER I,
LEADER II, LEADER PLUS) comunitárias de Desenvolvimento Rural da UE.
Corresponde à sigla, em francês "Liaisons entre activités de Developement de
L'Economie Rural" (Relações entre Atividades de Desenvolvimento da Economia
Rural). PRODER é o nome do "Programa Operativo de Desenvolvimento e
Diversificação Econômica de zonas Rurais", destinado a impulsionar o
desenvolvimento de zonas rurais desfavorecidas e a busca de alternativas
econômicas viáveis no meio rural.
4. Ver a propósito Velasco et alii(2008).
5. A expressão em epígrafe deriva do inglês partner (parceiro) e faz parte do
glossário das políticas de desenvolvimento rural da UE. Sinteticamente pode ser
definido como uma aliança entre organizações de caráter público e privado,
ideologicamente afinadas com uma visão de desenvolvimento, tendo em vista a
planificação do processo de intervenção no território.
6. Some-se a isso os efeitos da recente crise econômica que confere sombras e
incertezas aos países da UE, sobretudo àqueles que integram atualmente a
chamada zona Euro.
7. Ver também Gómez (2004).
8. Corresponde aos departamentos franceses de ultramar (Guiana, Martinica,
Guadalupe e La Reunión), Ilhas Canárias (Espanha), Açores e Madeira (Portugal).
9. O marco fundamental destes dispositivos de diferenciação é o chamado "Acordo
sobre aspectos dos direitos de propriedade intelectual relacionados com o
comércio" (ADPIC), estabelecido em 1994, cuja supervisão ocorre no âmbito da
Organização Mundial do Comércio. O Acordo ADPIC não determina a legislação
nacional, mas em observância aos termos deste acordo, os Estados signatários
devem estabelecer um mínimo de proteção aos direitos de propriedade individual
previstos no mesmo.
10. Essa classe de VQPRD corresponde à mais pura expressão do efeito terroir de
um vinho. Entende-se que são originários de um pago, entendido como um local
com características edafo-climatológicas que o diferenciam de outros vinhos de
seu entorno, o qual é conhecido por um nome tradicional, cuja área máxima deve
ser limitada pela administração competente. A produção de uva, elaboração do
vinho e engarrafamento devem ocorrer dentro "do pago".
11. Trata-se de bebida que contém conteúdo alcoólico procedente da destilação
de matérias primas agrícolas (uva, cereais, frutos secos, beterraba, cana de
açúcar, frutas etc.), a exemplo do Brandy, Rum, Genebra, Vodka, licores, entre
outros.
12. Um queijo de ovelha tradicional da Sicília converteu-se, em fevereiro de
2011, na denominação de qualidade número 1000 registrada no sistema da comissão
de etiquetado de qualidade de produtos agrícolas e alimentares dos países
integrantes da UE. Se a esses dados agregarmos as 1.334 DOP e 587 IGP de
vinhos, chegaremos a um universo de 2.921 produtos registrados na UE.
13. Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar.
14. Como bem definiu Ortiz (2004), o Mercosul segue sendo uma estratégia de
segundo piso. Ou seja, primeiramente os países definem suas estratégias, sendo
que o Mercosul deve ser funcional a elas e não o contrário, como deveria ser.
15. Tal importância reside não exatamente no número de produtores identificados
com estas características e que somam 400 mil estabelecimentos rurais nesta
unidade federativa brasileira, mas sobretudo pelo conhecido dinamismo e
presença nos mercados nacionais e estrangeiros, a exemplo das grandes cadeias
de produtos de exportação (tabaco, soja, carnes e derivados, hortifrutícolas
etc.).
16. O interessante estudo de Barco et alii(2007) descreve a convivência de dois
modelos de produção e de duas estratégias comerciais personificadas em dois
grandes grupos que atuam no setor vitivinícola no plano mundial. O primeiro
deles é representado pelos países produtores tradicionais (PPT), localizados na
Europa;o outro corresponde ao dos novos países produtores (NPP), situados na
América do Norte, África e Oceania. Mas, se a base do modelo NPP apoia-se na
atuação de grandes empresas e forte protagonismo dos vinhos varietais, no caso
dos PPT a estratégia dominante recai na identificação dos vinhos com os
territórios e nos mecanismos de proteção e garantia da qualidade. O exemplo do
Vale dos Vinhedos, como se quer aqui demonstrar, serve para reafirmar a tese da
inexistência de modelos únicos, assim como do suposto êxito de um ou outro
grupo.
17. Entrevista concedida no dia 28 de abril de 2008 no município de Bento
Gonçalves, RS.
18. Ver a propósito: http://www.winesofbrasil.com/Defaultãpt.aspx
19. Entre as conquistas da Aprovale deve-se mencionar o reconhecimento do Vale
dos Vinhedos, em 2007, pela União Europeia, o que permitiu a exportação, nesse
mesmo ano, de 435 mil litros de vinho, uma modesta quantidade que corresponde a
35% da produção certificada (Niederle, 2009:12) mas interessante para acalentar
o sonho de abertura de novos mercados.
20. Guardadas as devidas proporções, trata-se de um enfrentamento similar ao
verificado no caso espanhol no caso do azeite de oliva e que coloca, em
trincheiras opostas, dois grandes grupos. De um lado, os produtores ligados às
denominações de origem e, de outro, os que se identificam como produtores do
azeite ecológico. Por mais segmentado que seja o mercado de azeites de
qualidade, não resta dúvida de que existe uma acirrada disputa entre duas
concepções que defendem a qualidade do seu produto.
21. Um dos grandes logros associados à iniciativa "Vale dos Vinhedos" está no
sentido de conter o avanço do processo de urbanização sobre as áreas rurais,
particularmente no município de Bento Gonçalves.
22. Curiosamente é esse um dos grandes desafios enfrentados pelos produtores de
uva e vinho da região italiana de Chianti. Ver a propósito o estudo de Brunori
e Rossi (2007).
23. Os autores se referem ao trabalho já citado, por nós, anteriormente.