Mensurando alteridades, estabelecendo direitos: práticas e saberes
governamentais na criação de fronteiras étnicas
INTRODUÇÃO
Este artigo pretende focalizar a quantificação por meio de dois procedimentos
nela contidos -a comparação, operação lógica que faz parte de um processo
cognitivo, e a normatização, ato de ordenamento político camuflado em técnicas
e rotinas administrativas. Quando um ator social pratica o ato de contar1
sujeitos ou processos sociais, está, de maneira implícita, realizando
conjuntamente esses dois procedimentos.
Por um lado, é afirmada uma unidade entre fatos diversos, subsumindo-os a uma
classe maior, cuja ação ou estrutura estão predefinidas, trazendo consigo
expectativas e capacidade de previsão. Por outro lado, a comensurabilidade
assim instituída funciona como uma ordem ideal, algo que possui um caráter
vinculante (presumido e compartilhado pelos demais integrantes desse processo
de comunicação) e que acarreta efeitos práticos sobre o observado. Em especial
quando o ato de contar é realizado por um sujeito que pode vir a deter algum
tipo de poder ou autoridade sobre os atores e processos observados, medir é uma
forma de arbitrar sobre direitos;um ato de exame e argumentação que envolve
igualmente a comparação e a normatização.
No entanto, uma vez produzidos, os dados numéricos tendem a apresentar-se como
desvinculados das condições em que foram gerados, como unidades absolutas de
informação que podem ser exportadas para outros contextos, que permitem
iluminar e explicitar deles uma nova significação. A sua dimensão normativa,
que já estava antes camuflada em operações lógicas, torna-se agora inteiramente
esquecida e naturalizada. No caso dos povos indígenas a história passa a ser
equiparada com o automatismo de uma locomotiva, que de modo cego e inexorável
atropela as alteridades e engendra os subalternos. O exame de como foram
colocados os trilhos e como foi desenhado o comando da máquina é tido como
inútil ou mesmo contraproducente.
Em uma leitura unilateral os procedimentos que integram a quantificação
costumam ser pensados como antagônicos, estimulando uma visão excludente e
simplificadora. O desafio que tento enfrentar neste artigo é fazer o caminho
inverso, buscando explicitar as associações e interconexões que se estabelecem
entre esses dois procedimentos, procurando mostrar como os instrumentos
cognitivos são artefatos indissociáveis de jogos sociais. Trata-se de tentar
uma leitura dos dados quantitativos que conjugue o esforço permanente de
contextualização com a análise das rotinas e instrumentos técnicos, sem
pretender ignorar ou reduzir o complexo jogo de possibilidades (inclusive com
suas esferas de autonomia) que vem a instituir.
O meu objeto concreto de reflexão são os povos indígenas localizados dentro dos
limites territoriais do Brasil, isto é, aquela parte da população autóctone que
foi inserida no mundo colonial português na América e, no pós-independência, no
processo de construção dessa nacionalidade. Em publicações diversas e em
documentos históricos (referentes ao passado ou à atualidade) aparecem muitos
dados numéricos sobre essas populações. Que utilidade podemos atribuir a tais
dados para o estudo e a compreensão das populações indígenas?
O caráter central do trabalho de campo na antropologia e a importância da
produção de dados pelo etnógrafo a partir da observação direta de fenômenos
locais têm sido um valor compartilhado por diferentes escolas e correntes
dentro da disciplina, funcionando como uma verdadeira doxa.Mas uma etnografia
raramente se compõe de modo exclusivo com dados de observação direta, baseando-
se frequentemente em descrições realizadas por observadores anteriores,
lançando mão igualmente de variadas e extensas fontes escritas.
Minha preocupação, aqui, é com o uso de material quantitativo (em especial de
estatísticas demográficas e fundiárias), usualmente referido a outras
temporalidades distintas do presente etnográfico. Em termos mais gerais, com a
relação entre antropologia e história na produção de uma interpretação que se
assuma como objetiva e rigorosa.
A incorporação de dados históricos e estatísticos à narrativa etnográfica não
pode ser feita de maneira acrítica e descontextualizada, equiparando-os
simploriamente aos registros descritivos resultantes da observação direta. Ao
mesmo tempo deslegitimar em sua totalidade o uso de tal material, pretendendo
relacionar todas as interpretações apresentadas exclusivamente ao contexto
etnográfico seria um exercício de miopia ou de simulação.
Ao confrontar-se com dados numéricos ou cronológicos não basta indagar-se
unicamente sobre como eles podem ser dirigidos a servir aos interesses e
perguntas colocadas pela pesquisa atua2, raciocinando puramente em termos de
uma epistemologia positivista e deixando-se enrodilhar nas armadilhas de um
pensamento realista. Há que avançar em uma direção preliminar e crítica,
buscando saber de que instrumento cognitivo os dados quantitativos foram
derivados, como foram efetivamente produzidos, que significados e projeções
sociais estão neles cristalizados, bem como a que usos sociais serviram e
servem.
Nessa linha de raciocínio a incorporação de dados procedentes de fontes
escritas não pode assumir uma postura simplesmente objetivista, mas precisa
tornar-se consciente de que os relatos falam da perspectiva de um observador,
retratando o seu universo mental e expressando a sua relação com o observado3.
É necessário, portanto, uma antropologia dos registros numéricos que, de uma
perspectiva etnográfica e crítica, os focalize enquanto produções contextuais e
dotadas de intencionalidade (que apesar de limitada e parcial, não deixa de ser
relevante, precisando ser recuperada e exposta). Por outro lado, tais
instrumentos podem vir a possuir uma capacidade de registro e articulação entre
fatos que exceda em muito as intenções e o olhar dos agentes sociais que os
produziram, permitindo visualizar fenômenos novos e que estimulam a imaginação
científica.
Nesse sentido, os dados quantitativos4 existentes sobre os índios brasileiros
estão associados sempre a uma preocupação com o controle social e ao avanço nas
técnicas de registro e contabilidade de populações e de territórios, vinculados
a um discurso da governança e da criação de condições para o exercício do poder
de um soberano (ver Foucault, 1977). Só nos podem fornecer informações úteis
após haverem sido adequadamente inscritos no horizonte discursivo propiciado
pela implantação de um império colonial e, posteriormente, pela constituição de
um Estado nacional soberano.
Este artigo irá abordar esse material quantitativo sobre os povos indígenas em
três partes sucessivas: a) no aspecto demográfico, focalizado por meio de
censos nacionais e levantamentos diversos, expressando uma duração
relativamente longa, de quase dois séculos; b) no aspecto econômico, enquanto
representado por estatísticas sobre terras, recursos ambientais e conflitos
fundiários procedentes das três últimas décadas; e c) nos números, imagens e
interpretações divergentes que nos últimos anos disputam as chaves para a
compreensão da presença indígena no Brasil contemporâneo.
CONTANDO SÚDITOS, CONTANDO CIDADÃOS
Os primeiros relatos sobre os indígenas nessa parte da América, como a carta do
"achamento", de Pero Vaz de Caminha, ou a relação de viagem pelo Amazonas do
padre Acufia, estão marcados pela descrição qualitativa, ressaltando os
aspectos contrastivos. Destacam os fatos de observação direta, envolvidos que
estão em uma barreira linguística de comunicação. Preocupam-se também em
aproximar os nativos e as suas instituições daquelas conhecidas na Europa.
Apontam efetivamente grandes diferenças, mas procuram tornar o observado
compreensível ao europeu, estabelecendo paralelos que não são exclusivamente
negativos para os nativos, distinguido-se, portanto, bastante do discurso
racializante (iniciado no século XVIII com a história natural), ou da ênfase na
primitividade, própria ao discurso evolucionista, dominante no longo século
XIX5. Descrevem com estupor e desagrado muitos costumes, mas com admiração
alguns outros e destacam maravilhados os recursos ambientais. Quando surgem
informações de natureza quantitativa, estão restritas ao potencial econômico
daquelas terras, eventualmente sendo possível perceber que a intensidade da
exploração econômica não é fortemente contrastante com aquela das áreas rurais
da Península Ibérica.
As informações numéricas começaram a surgir em documentos bem posteriores,
elaborados por intelectuais vinculados às atividades da Coroa ou das ordens
religiosas, encarregados no Novo (como no Velho) Mundo de reunir dados sobre a
população e os recursos existentes nos confins do território de um soberano. Os
territórios e os seus habitantes foram pensados, nessa perspectiva, como um
conhecimento voltado à consolidação da rede administrativa, em geral repetindo-
se nas colônias o nome das vilas e províncias da metrópole ibérica. A
especificidade era que nas Américas as linhas fronteiriças ainda estavam sendo
traçadas, deixando espaço aberto a políticas de expansão e conquista. O que
importava descrever e contabilizar eram os recursos abrangidos pelos núcleos de
colonização; o que estava além dessa fronteira era o desconhecido, a natureza
agreste e não domesticada, os terrenos de povos hostis ou as posses de
soberanos rivais.
Os mais abrangentes e difundidos desses relatos assumiram claramente o caráter
de amplos inventários de recursos e potencialidades das áreas em processo de
colonização. Um importante exemplo disso foi o livro do jesuíta João Daniel,
intitulado Tesouro Descoberto do Rio Amazonas(1710). Para tais cronistas os
indígenas eram populações a serem incorporadas em reinos católicos mediante um
processo político-pedagógico de catequese e civilização. O que importava não
era, de forma alguma, uma presumida uniformidade cultural (naquele momento
inexistente nos reinos europeus), mas, sim, a aceitação dos princípios gerais
da cristandade (enquanto referência partilhada pelos diferentes monarcas) e a
obediência ao poder do soberano. As duas finalidades integravam, de maneira
quase indissociável, o ritual político-religioso da conversão.
Os levantamentos sobre as aldeias missionárias, enquanto sentinelas avançadas
da colonização, contabilizavam a população indígena pela categoria de
almas,indicando assim claramente que aqueles nativos já teriam passado por um
processo de batismo e de incorporação política na autoridade colonial. Há pouca
preocupação em distinguir grupos locais, denominações étnicas ou localização de
origem, pois a atividade missionária tem um caráter de irradiação, existindo
paralelamente uma intensa circulação de famílias e pessoas indígenas para e
entre as aldeias.
Outra categoria que comparece nesses levantamentos é relativa ao número de
arcosexistentes em cada aldeia, o que indicava a quantidade de homens em idade
adulta capazes de serem mobilizados para a guerra contra indígenas hostis ou
tropas inimigas. Isso permitia avaliar a importância militar e geopolítica de
cada missão religiosa na incorporação do vale amazônico ao domínio português.
Se a contagem e localização das almase dos arcosassumiam uma grande importância
fiscal e militar para o exercício de controle local pela administração
colonial, mais além desse universo de vassalos d 'EI Reyexistia apenas o
desconhecido, os índios bravos,aqueles que não tinham sido aindaalcançados ou
que resistiam tenazmente à catequese. Não era possível, nem fazia sentido
tentar saber quantos eram ou onde estavam os índios bravos,pois não se tratava
de um atributo definitivo, mas de uma condição temporária, que remetia a
trajetórias sociais antagônicas, seja pelo descimento e consequente conversão,
seja pela guerra justa,com o seu extermínio, escravização ou fuga para outras
regiões. Como um pagão, o índio bravo não podia ser plenamente equiparado aos
humanos, sendo relativamente frouxos os controles morais e legais quanto ao
tratamento que lhe era reservado. Sua relação com o terreno, ademais, era
imaginada como instável e eventual, similar aos seres da natureza; só após a
conversão é que poderiam vir a se configurar eventuais direitos quanto a um
lugar.
Não pode ser esquecido que durante cerca de três séculos eram duas as colônias
portuguesas nas Américas, a do Brasil (incluindo do litoral do atual Ceará ao
Rio Grande do Sul) e a do Amazonas e Grão-Pará (incluindo o Maranhão e o vale
amazônico), cada uma mantendo diretivas administrativas distintas. Os
levantamentos e relatórios oficiais oferecem dados por colônias ou ordens
religiosas, estando ausente a preocupação em apresentar dados unificados para o
futuro território nacional. As dificuldades de comunicação e transporte também
limitavam em muito a significação dos dados à escala local e regional. A
prosperidade e riqueza das missões demonstrava também grande variabilidade,
alterando-se continuamente e com relativa rapidez. Todos esses fatores
contribuíram para justificar a limitação dos (poucos) levantamentos existentes.
No contexto pré-Independência surgiram alguns dados quantitativos sobre a
população do país, resultantes não de uma iniciativa da burocracia de Estado,
mas, sim, da estrutura molecular de atuação eclesiástica. Trata-se de um
levantamento de paróquias e freguesias realizado pelo conselheiro Antonio
Rodrigues Velloso de Oliveira entre 1815 e 1816, que coloca algumas
dificuldades para a sua transposição para as unidades político-administrativas
do Império (cf. Souza e Silva, 1951). Ali se estima a população total em três
milhões e seiscentas mil almas, aí incluídos os índios catequizados. Os índios
bravos, que não estão contados nesse total, foram avaliados em 800 mil, o que
correspondia a mais de22% da população, deixando perceber, assim, que se
tratava de uma presença significativa e que não podia ser ignorada nem pela
administração, nem pelo clero. Não é de surpreender, portanto, que reflexões
realizadas nos anos anteriores sobre o problema da obtenção de mão de obra para
a agricultura ainda considerem a colonização e catequese dos índios como uma
estratégia essencial, superior ao tráfico negreiro e à imigração de
trabalhadores livres.
A participação dos índios coloniais6 no conjunto da população foi, no entanto,
impossível de dimensionar, uma vez que inexistiu da parte do organizador uma
preocupação em distingui-los dos demais segmentos, o que mostra que essa
iniciativa continuava a se mover dentro dos instrumentos e categorias de
conhecimento coloniais.
Os fatos políticos relacionados à Independência trouxeram mudanças na estrutura
de poder e uma nova configuração na sociedade. A guerra enquanto instrumento de
política quanto aos indígenas foi explicitamente desautorizada pelas
orientações oficiais. José Bonifácio de Andrada e Silva (1992), mentor da
primeira Constituição e ideólogo do Primeiro Reinado, veio a recomendar em seu
clássico texto, Apontamentos para a Civilização dos Índios Bravos,que o Estado
desenvolvesse uma política indigenista baseada exclusivamente em "meios brandos
e suasórios". Implicitamente, o que ele censurava era a prolongada e cruenta
Guerra aos Botocudos levada a cabo, há pouco mais de uma década, nos sertões do
rio Doce, em Minas Gerais e Espírito Santo. Esse conflito, que durou de 1808 a
1812, resultou no quase completo extermínio dos indígenas da região, que
tiveram todas as suas terras e posses confiscadas, sendo os sobreviventes
distribuídos entre comerciantes locais e militares, a quem deviam servir em
regime de escravidão temporária. O objetivo da atuação governamental no novo
projeto deveria ser promover a civilização dos índios e torná-los úteis ao
desenvolvimento nacional, o que não ocorria de modo algum com a sua exploração
por mesquinhos e limitados interesses locais.
Para isso o Estado veio a definir instrumentos especiais de controle sobreos
indígenas. No período da Regência, ainda antes do Segundo Reinado, um decreto
(1831) estabelecia que doravante todos os pleitos relativos aos indígenas
deveriam ser julgados pelos Juízes de Órfãos. No longo Segundo Reinado, apesar
das variações existentes, é possível dizer que se conjugava um controle geral,
feito pelo Estado por meio de uma repartição específica, a Diretoria de
Civilização dos Índios, vinculada ao Ministério do Interior, e uma
administração local em que era priorizado o trabalho de missionários católicos.
Os dados numéricos sobre a população, agora contada através das unidades
assistenciais (os aldeamentos missionários), revelavam-se muito incompletos e
heterogêneos, inteiramente dependentes do interesse e dedicação de funcionários
e clérigos.
O ÍNDIO NOS CENSOS NACIONAIS
No primeiro censo nacional, realizado em 1872, a presença indígena está
claramente referida apenas aos índios catequizados e que já interagem
normalmente com os brasileiros. Os dados sobrepõem condição civil com divisão
racial, apresentando-se os homens livresdivididos em brancos, negros (ex-
escravos alforriados) e caboclos.Por sua vez, a população escrava subdivide-se
em negros e pardos,estes últimos designando o produto de relações sexuais
(maritais ou não) entre negros e brancos, ou negros e índios.
Na versão em francês das conclusões do censo de 1872, cabocloé traduzido
diretamente como indien,não deixando qualquer margem de dúvida sobre os
critérios acionados naquele trabalho7. Certamente os elaboradores do censo,
embora estivessem operando com uma visão similar àquela que Spalding utilizava
para o índio colonial,não encontraram uma expressão mais adequada em português.
Outras possibilidades, como o tapuia,tinham um caráter regional (amazônico) e
arcaico (século XVIII e primeira metade do XIX) ou, como índio manso,estavam em
franco desuso.
O fato é que a postura protecionista pós-Independência visualizava o índio como
um futuro brasileiro, isto é, como alguém que recebia (ou poderia vir a
receber) alguma atenção e assistência do Estado. Daí que só caberia vir a
registrar sua presença enquanto cidadão (e não como índio bravo,exterior,
portanto, à sociedade)8. Mas chamar, em português, esse segmento da população
simplesmente de "índios" (como no francês) não pareceria apropriado dado ao uso
acusatório e estigmatizante de índio como sinônimo de índio bravofeito pelo
senso comum. Para os estudiosos da dimensão étnica na formação do Brasil o
censo de 1872 apresenta um enorme interesse. Contrastando radicalmente com a
postura de muitos governadores e câmaras provinciais, que declaravam a
inexistência de índios nos estados e consideravam extintos os antigos
aldeamentos, bem como da elite letrada do Império, que falava do índio como
algo pretérito, recuperado demodo romântico apenas nas artes e nos signos
emblemáticos do país, os dados apresentados no censo de 1872 permitem apreender
o peso da presença indígena nas mais variadas regiões do Brasil monárquico e
escravocrata.
O censo de 1890 radicaliza ainda mais esse contraste entre dados censitários e
representações da época sobre a composição étnica do país. Em quase todos os
estados, e no geral, os dados apontam um aumento bastante significativo da
presença indígena na população total. Alguns demógrafos e historiadores
preferiram explicar isso mediante a suposição de menos rigor e de erros na
condução do censo. Levantamos aqui uma hipótese diversa.

O censo de 1890, posterior a fatos marcantes na história do país, como a
abolição da escravatura e a proclamação da república, opera com outras
categorias e em um contexto político e racial bastante modificado. Todos os
cidadãos recenseados eram legalmente livres, distinções entre eles podendo ser
estabelecidas apenas pela cor(que pela multiplicidade de indicadores físicos
que comporta - cor da pele, forma do cabelo, nariz, crânio etc. - se presta à
ambiguidade e inclusive à incorporação de características sociais a um complexo
jogo classificatório).
A categoria caboclocontinuava a existir, mas não ocupava mais um campo
semântico que a oporia ao escravo (agora inexistente), mas, sim, localizada em
um gradiente de cor, tendo ao seu lado brancos, negros (isto é, descendentes de
escravos) e pardos(que, nesse caso, indicaria a condição de mestiço, filho de
branco com negro). Para todos aqueles que não eram enquadrados como brancos ou
negros apresentavam-se assim duas opções: a de figurar como pardo(que em termos
de significados sociais difusos conotava a sua proximidade com a condição
escrava), ou como caboclo(destacando a sua proximidade com os indígenas). Não
deve causar surpresa o forte crescimento relativo da categoria caboclo,aumento
bem superior ao da taxa de crescimento demográfico, pois no período
imediatamente posterior à abolição essa seria, sem dúvida, a opção
classificatória mais favorável em termos sociais para os mestiços.
Há ainda um outro fator a considerar. Não era apenas na categoria de
caboclosque estavam colocados os indígenas no censo de 1872, mas também
figuravam secundariamente na condição de pardos.Nesses casos não se tratava de
população livre, mas, sim, de escravos. Diversas fontes indicam que uma maneira
empregada por interesses locais para camuflar a escravização de indígenas
(inteiramente ilegal no pós-Independência) era celebrar o casamento de
indígenas (livres) com negros (não alforriados), passando a sua prole à
condição de escravos do agenciador desse arranjo. Os dados disponíveis não
permitem, porém, quantificar o peso desse estratagema social. Após a abolição
esse contingente de pardos,migrando para a categoria de caboclos,poderia
sinalizar um vínculo com os indígenas.
Nos censos nacionais consecutivos o caboclo deixou de figurar como uma das
alternativas classificatórias maiores, passando a estar contido como uma das
possibilidades da categoria pardo, que com isso passou a se aplicar a toda e
qualquer forma de mestiçagem. Dessa forma, de 1890 até o ano de 1940 inexistem
nos censos dados específicos sobre os indígenas que habitavam o território
nacional9.
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O INDIGENISMO REPUBLICANO E O REGIME TUTELAR
Com o advento da República começa, no entanto, a delinear-se um novo cenário
para a política indigenista brasileira. Enquanto a Constituição transferia aos
estados o controle das terras devolutas (nas quais habitavam a grande maioria
dos índios, seja em antigos aldeamentos, seja pelos sertões adentro), toda a
preocupação se deslocava, outra vez, para os índios bravos, isto é, aqueles que
por seus costumes se distinguiam radicalmente dos brasileiros e não obedeciam à
autoridade nacional.
As áreas onde estavam localizados tais indígenas, que eram então objeto de
interesse do Estado brasileiro, não eram de modo algum aquelas de colonização
mais antiga, mas justamente ao contrário, aquelas situadas na linha da expansão
recente das fronteiras econômicas interiores do país, contrapondo-se à ação das
frentes pioneiras, bem como à construção de estradas, ferrovias e
empreendimentos estratégicos. O problema indígena passou a ser visto como uma
questão de expansão da fronteira,sobretudo do Norte e do Centro-Oeste, afetando
empreendimentos de interesse crucial da União, que precisava agir diretamente
sobre os conflitos que estavam se sucedendo10.
Um projeto de constituição elaborado por Teixeira Mendes, destacado pensador
positivista, atribuiu bastante relevo às formas políticas e culturais dos povos
indígenas, ao reconhecê-los como estados americanos autóctones, que deveriam
vir a integrar o Estado federativo republicano. Embora essa proposta não fosse
apreciada, veio a marcar uma ascendência dos positivistas sobre a temática
indigenista, logo consolidada pela atuação do engenheiro militar Cândido
Mariano da Silva Rondon no contato e pacificação de tribos isoladas nos estados
de Goiás e Mato Grosso e no território do Guaporé (depois Rondônia). A forma de
intervenção cunhada durante esses trabalhos transformou-se na base da criação
de uma agência indigenista federal, em 1910, o Serviço de Proteção ao Índio
(SPI)11, cuja equipe era constituída por colaboradores mais próximos de Rondon,
em geral militares e positivistas.
De que dados quantitativos dispunham Rondon e seus colaboradores no SPI? A
atuação indigenista era bastante heterogênea nas diferentes regiões, e os dados
de que dispunham resultavam, sobretudo, de situações locais, isto é, dos Postos
Indígenas. Ainda durante a comemoração do centenário da independência, os
trabalhos sobre a população brasileira (Carneiro, 1922; Garcia, 1922)
mencionavam a estimativa feita por Rondon de 1,5 milhão de indígenas.
Certamente não resultante dos dados esparsos e fragmentários de que dispunha o
SPI, mas de uma aproximação resultante do censo de 1890, que falava em 1,3
milhão caboclos(enquanto Rondon pensava de fato a partir do índio bravo).
A inadequação desses números tornou-se patente nas décadas de 1940 e 1950,
quando os censos nacionais lançaram mão de uma outra coleta que permitia uma
aproximação relativamente mais fina ao contingente de indígenas existente no
país nesse período. Em função da Segunda Guerra Mundial e da preocupação do
governo com a compacta presença de alemães e italianos no Sul do país12, foi
inserida nesses censos uma pergunta sobre o uso de língua estrangeira dentro
das unidades familiares. Trata-se da variável "pessoas que no lar falam outra
língua além do português". Entre alternativas de línguas estrangeiras
(europeias, asiáticas e outras) existia um item para os que falassem "guarani
ou qualquer outra língua aborígene". Esta última foi a situação de3,5% dos
recenseados que declararam não falar o português dentro de sua própria casa,
correspondendo então a um inequívoco contingente de 58.027 indígenas. No censo
de 1950 este número se reduziu para 46.208, e não foi mais coletado nos censos
posteriores. Um rápido exame dos números apresentados nos dois censos mostra
uma relativa coerência, em sua maioria com pequenas oscilações para baixo
verificadas no censo de 1950. São exceções a isso os acréscimos (também
pequenos) registrados no Acre, Maranhão e Santa Catarina. O aspecto confuso
fica por conta dos estados do Amazonas, Pará e Mato Grosso, todos com grande
população indígena, cujas variações parecem injustificadas.
Os dados utilizados pelo SPI só irão modificar-se já no correr da década de
1950, quando o antropólogo Darcy Ribeiro coordenou um levantamento sobre a
população indígena baseado nas fichas administrativas das unidades do SPI
(Postos Indígenas e Inspetorias). Nesse trabalho, concluído em 1957, era
apontada a existência em todo o território nacional de 143 etnias, com uma
população estimada entre 68.100 e 99.700 indivíduos (Ribeiro, 1970:258). Tais
números, pelo menos em seu limite inferior, não eram muito discrepantes
daqueles apresentados nos dois censos linguísticos de 1940 e 1950, sobretudo se
considerarmos que, por problemas de coleta nos estados do Amazonas, Pará e Mato
Grosso, já comentados acima, a população indígena estava subestimada.
[/img/revistas/dados/v55n4/a07tab03.jpg]
Os dados do SPI falam também de 21 povos isolados e apresentam informações
apenas sobre 110 etnias. Desse conjunto, 52 povos indígenas, ou seja, quase a
metade desses, possuía uma população inferior a 250 pessoas; no outro extremo
da escala demográfica estavam as maiores populações, em uma faixa de povos com
mais de duas mil pessoas, e que eram apenas seis.
A imagem que a sociedade brasileira tinha dos povos indígenas, refletindo o
discurso e as estatísticas do SPI, era de pequenas e frágeis microssociedades
que viviam isoladas no interior da floresta amazônica. Ameaçadas por um
processo doloroso e inexorável de aproximação da civilização, caberia ao Estado
evitar o seu completo extermínio e protegê-las das frentes de expansão
econômicas. Até sua classificação administrativa era feita segundo o grau de
contato, em uma linha evolutiva que ia da condição de isoladas até a de
integradas, em um quadro absolutamente compatível com o indigenismo tutelar e
suas formas de ação e conhecimento13.
TERRAS INDÍGENAS: UM COPO MEIO CHEIO OU MEIO VAZIO?
No processo de tornar públicos os seus fins e legitimar as suas ações o SPI
apoiou-se muito na figura emblemática de Cândido Mariano da Silva Rondon, que
por sua trajetória profissional conseguia conjugar mensagens distintas para
públicos diferentes. Para a opinião pública Rondon apresentava-se como um
abnegado idealista, um santo soldado,ou um missionário leigo14 que em seu
prolongado trabalho no interior dos sertões estabeleceu um modo humanitário e
inovador de relacionamento com os índios. Por outro lado, sua carreira como
militar disciplinado e, depois, como gestor da agência indigenista (SPI), lhe
assegurava o reconhecimento e a confiança de amplos e fortes setores da
burocracia de Estado. À diferença de seus colaboradores ou de outros
sertanistas que o sucederam15, Rondon funcionou como um símbolo de uma política
governamental, vindo a condensar em si tanto as imagens românticas e nativistas
presentes no imaginário brasileiro quanto o realismo e responsabilidade
necessários a um administrador eficiente. A atual agência indigenista, Fundação
Nacional do Índio (Funai), surgida após a morte de Rondon, e a grave crise
ocorrida na década seguinte (que culminou com sua extinção por meio de uma
rumorosa CPI), jamais contou com esse capital simbólico que lhe permitisse
gerenciar uma política pública com alto grau de legitimidade e sem sofrer
fortes questionamentos.
Durante o final dos anos 60 e em toda a década seguinte, a Funai e o governo
militar sofreram fortes críticas das imprensas nacional e internacional, sendo
objeto de denúncias e investigações, bem como tendo que enfrentar uma ampla
mobilização de setores da opinião pública contra a sua política indigenista,
expressada na minuta de decreto sobre a emancipação dos índios (elaborada em
1979, pelo então ministro do Interior, Rangel Reis).
É nesse quadro de retomada dos direitos civis e fortalecimento dos movimentos
sociais que surgiu o primeiro levantamento sobre as terras habitadas pelos
indígenas, realizado por funcionários da Funai e divulgado por uma publicação
oficial, um livro ricamente ilustrado e bastante informativo, projetado para
tentar mudar a imagem do órgão junto aos formadores de opinião (Funai, 1981).
As informações sobre as terras indígenas eram apresentados de forma simples e
direta, integrando um conjunto de dados sobre a estrutura administrativa
(composta por 163 Postos Indígenas, 18 Postos de Atração, 13 Delegacias
Regionais, dois Parques Indígenas e uma Ajudância Autônoma) e as atividades
assistenciais (de proteção tutelar, saúde e educação) desenvolvidas pelo órgão.
As áreas indígenas, em número de256, foram listadas por unidades
administrativas, em dados brutos que pareciam resultar de uma simples agregação
de relatórios parciais produzidos por essas unidades, contendo informações
sobre localização geográfica (estado e município), estimativas de população e
de superfície.
Os dados gerais sobre população e terra resultavam de uma soma simples, não
recebendo nenhum comentário ou tentativa de análise. Quanto à população,
estimada em 145.397 pessoas, poderia ser feito um paralelo com o levantamento
realizado por Darcy Ribeiro na década de 50, mostrando que em cerca de três
décadas a população indígena haveria crescido bastante, quase duplicando. Por
seu ineditismo, o dado geral sobre terra indígena, situado na ordem de 41
milhões de hectares (ha), não veio a receber uso algum, exceto aquele genérico
de realçar a amplitude e a eficiência da ação protecionista do indigenismo
tutelar.
No ano seguinte o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), órgão vinculado à
Igreja Católica e bastante crítico quanto à Funai e à política indigenista
oficial, divulgou uma outra listagem de terras indígenas. Em sua origem, os
dados eram basicamente os mesmos, procedentes do levantamento feito pela Funai
em 1981. As modificações eram de pequena monta, afetando principalmente
correções nos dados de populações verificadas em algumas áreas de atuação do
CIMI.
A leitura e a organização dos dados, no entanto, era bem diferente da
publicação da Funai, avançando uma interpretação radicalmente oposta. As áreas
indígenas eram enumeradas não de acordo com as unidades administrativas da
Funai, nem com as unidades políticas brasileiras (estados e municípios), mas
seguindo uma classificação por área cultural, produzida com finalidades
inteiramente diversas pelo etnólogo Eduardo Galvão (1979). Embora possua uma
utilidade museológica e sirva também para a classificação de material
etnográfico, a ordenação proposta é pouco operacional para a localização e
articulação de dados. Possui, contudo, um claro efeito ideológico, ao tentar
deslegitimar a Funai enquanto fonte exclusiva de dados sobre os índios
brasileiros e colocar explicitamente em questão a unidade entre tutor e
tutelado.
o texto elaborado, à diferença daquele da Funai (meramente de divulgação e
propaganda), pretende ter um caráter mais opinativo e analítico. É comentado
que o total de população ali apresentado (185.485 pessoas) indicaria um forte
crescimento demográfico face aos dados de 1957, em que pesem as precárias
condições de assistência existentes. Quanto às terras indígenas, foram somadas
apenas aquelas que já estariam demarcadas, totalizando apenas 12, 3 milhões de
hectares. Isso permitiu mostrar que a proteção oficial às terras habitadas
pelos índios ocorria somente para 46% da população indígena estimada.
As terras indígenas situadas em fases anteriores dos procedimentos
administrativos foram apresentadas como "sem informação", considerando que os
dados ali contados seriam apenas provisórios e parciais. A conclusão final é
bastante contundente, apontando a morosidade como característica dos processos
de reconhecimento de terras indígenas conduzidos pela Funai e a sua
ineficiência no exercício de uma tutela protetora.
A partir de então as estatísticas sobre terras indígenas passam a estar no
centro dos debates sobre a política indigenista brasileira, assumindo o lugar
de um indicador privilegiado, usado como eficiente arma política, retomado
pelos vários atores sociais e sempre com sentidos diferentes. Ainda em 1982 uma
revista de empresários rurais de Mato Grosso atacou vigorosamente a Funai por
transformar cerca de 14% do estado em terras indígenas, reivindicando mudanças
urgentes nessa política que estaria obstruindo o desenvolvimento regional.
Manifestações semelhantes ocorreriam nos anos seguintes em outros estados e
territórios (Pará, Amazonas e Roraima) através de associações de empresários e
autoridades regionais.
Em 1983 um decreto presidencial retirou da Funai o poder de criar terras
indígenas com base no critério exclusivo de posse imemorial e instituiu uma
nova sistemática legal (Decreto n2 81.118j1983).Os processos de criação de
terras deveriam agora passar pela aprovação de um grupo técnico
interministerial (no qual a Funai tinha assento juntamente com o Ministério do
Interior e a Secretaria Especial de Assuntos Fundiários, vinculada esta ao
Conselho de Segurança Nacional (CSN) e à Secretaria Geral da Presidência da
República). Tal grupo, por sua vez, estava subordinado a diferentes instâncias
administrativas (aprovação dos ministros) e deveria levar em conta igualmente o
critério de situação atualdas áreas reivindicadas, bem como avaliar o seu
possível impacto para o desenvolvimento e a segurança nacional.
Instala-se uma verdadeira guerra dos números,que na realidade corresponde à
multiplicidade de leituras por diferentes atores sociais dos mesmos dados
coligidos pela Funai. Funcionários do CSN, em documentos sobre a temática,
fizeram criticas à extensão, que reputavam excessiva, das áreas indígenas,
baseados no indicador numérico hectares/índio, O qual ultrapassava em muito os
parâmetros estabelecidos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (lncra) para a definição de módulos rurais. Durante a elaboração da
nova Carta constitucional a Funai dirigiu uma mensagem aos parlamentares
solicitando que o artigo 198 da antiga Constituição não fosse repetido no novo
texto, identificando-o como causa de enorme desgaste administrativo para o
órgão indigenista. Foram traçados longos paralelos entre o tamanho das áreas
indígenas e a superfície de alguns países europeus, pretendendo, assim,
demonstrar-se o descalabro que resultaria da manutenção dos critérios
existentes.
Uma investigação iniciada em 1985 por antropólogos do Museu Nacional e do
Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) vai empreender a
construção de um banco de dados sobre terras indígenas, organizado fora do
controle da Funai, em grande parte informatizado e guiado pelos princípios da
transparência e da democratização dos dados. Na apresentação da publicação
Terras Indígenas no Brasil,que contém uma listagem atualizada e revisada, estão
escritos os procedimentos adotados:
A documentação oficial (sobre terras indígenas) nunca esteve
organizada de modo sistemático e acessível aos interessados, exceto
durante curtos períodos na administração do órgão indigenista. O
quadro [...] aqui apresentado foi inteiramente montado a partir de
publicações oficiais (Diário Oficial, Boletim Administrativo, Atos
Legislativos e documentos diversos encontrados no Congresso Nacional
e em ministérios relacionados), a sua constituição funcionando como
um verdadeiro teste dos informes anuais feitos pela Funai para outros
órgãos governamentais e agências de fomento. Os dados obtidos de
diferentes fontes, com gêneros e destinações específicas, foram
reunidos e comparados através de uma avaliação criteriosa,
complementada por informações provenientes da rede de colaboradores,
sendo assim depurados os incontáveis equívocos verificados (que vão
de erros no registro do território, população ou localização dos
grupos, até grafias e formas múltiplas de referência a povos e grupos
locais) e explicitadas as dúvidas e ambiguidades que por ora ainda
não se conseguiu superar. A descrição da metodologia de trabalho
adotada nessa pesquisa está apresentada na Nota Metodológica que
acompanha essa listagem. (Pacheco de Oliveira, 1987a:7)
A listagem das terras indígenas apresentada em 1987 pelo PETI/Museu Nacional16
e CEDI17, além de trabalhar com um banco de dados próprio, traça um quadro
muito distinto daquele resultante do levantamento da Funai (1981). O número de
terras indígenas listadas efetivamente dobrou, passando de 256 a 518,
resultando esse crescimento tanto de um controle mais rigoroso sobre os
processos administrativos em curso na Funai (95 casos), quanto da inclusão de
demandas localizadas ainda não contempladas pela atuação desta (167 casos).
Duas consequências disso merecem ser assinaladas. Em primeiro lugar, a
ampliação do universo de áreas inventariadas (95 casos) implica significativo
aumento da extensão total das terras indígenas, que passam de 41 para 74,4
milhões de hectares, registrando um aumento de 81 %. Em uma reedição (revisada
e atualizada) dessa listagem no ano de 1990 o número de terras aumenta pouco,
ficando em 526, a extensão total subindo para 79,3 milhões de ha.
Em segundo lugar, e mais importante ainda, ao incluir nesse inventário as
terras reivindicadas pelos índios (ainda que não identificadas pela Funai) a
listagem transforma-se em um instrumento de reconhecimento de direitos e de
identidades locais,de caráter aberto e que opera com independência face ao
governo. Embora sua eficácia seja apenas virtual (pois é à Funai que cabe, em
última instância, a tarefa de demarcar as terras indígenas), a listagem tira do
limbo administrativo reivindicações políticas quanto ao reconhecimento de
direitos pelo Estado, dando visibilidade à existência dessa demanda junto à
sociedade e aos atores interessados. A listagem criaria, inclusive, uma agenda
de trabalhos para a agência indigenista, o que se tornou claro com a
significativa redução das áreas não identificadas (que na publicação de 1990
passa a ser de 90, isto é, uma redução de mais de um terço em apenas três
anos). Em poucos anos a metodologia de trabalho utilizada pelo Museu Nacional e
CEDI, apoiada pelos indígenas e pela opinião pública, e legitimada pela
academia, foi difundida e generalizou-se, sendo adotada inclusive pela Funai.
Tornado transparente e democrático, o banco de dados foi duplicado por diversas
outras entidades não governamentais (como a Operação Amazônia Nativa - OPAN, a
Associação Nacional de Ação Indigenista - ANAI-BA, e o Conselho Indigenista
Missionário - CIMI).
Enquanto as terras indígenas tornavam-se mais e mais o centro de todas as
disputas sobre a política indigenista, os dados de população tornaram-se de
interesse cada vez mais secundário. Constavam nas duas listagens produzidas
pelo Museu Nacional e CEDI estimativas de população, indicando, em 1987, um
total de213 mil índios, enquanto em 1990 eram mencionados 235 mil18. A pouca
ênfase no dado demográfico nessas publicações derivava da heterogeneidade de
fontes utilizada, correspondendo também somente a uma estimativa,
diferentemente dos dados sobre terra, registrados com precisão cartográfica em
documentos de valor jurídico e administrativo.
Na década seguinte, toda a atenção dos atores sociais e políticos que atuavam
no campo indigenista se concentraria na discussão das terras, menos no aspecto
de seu dimensionamento e mais nos critérios que deveriam orientar a sua
criação. Uma nova sistemática administrativa (Decreto nº 1.775/1996) veio a
regular todo o processo de estabelecimento das terras indígenas atendendo a
múltiplos interesses. Por um lado, contemplava os reclamos de proprietários,
autoridades locais e seus representantes jurídicos ao introduzir nos
procedimentos técnicos uma fase para a apresentação pelos possíveis
prejudicados de provas contrárias (chamada de direito ao contraditório). Por
outro, trazia importantes aperfeiçoamentos aos procedimentos técnicos, dando ao
trabalho do antropólogo um lugar central na identificação de terras e
incorporando também à equipe um especialista ambiental (ou seja, pela primeira
vez pensando a terra indígena em seu aspecto de carrying capacity(capacidade de
carga) e no aspecto da conservação dos recursos naturais.
Foi criada na Funai, graças a recursos do Projeto Piloto para as Florestas
Tropicais e provenientes do G-7, da União Europeia, do Banco Mundial e da
agência de cooperação alemã (GTZ) e inglesa (DFID) um setor relativamente
especializado que passou a se ocupar da demarcação e fiscalização das terras
indígenas na região amazônica. Entre 1997 e 2001, através de 10 projetos
executados no Amazonas, Acre e Pará chegariam a ser demarcados 22,7 milhões de
hectares (ver Pacheco de Oliveira, 1998 e 2006) dentro de uma política mais
global em que as áreas indígenas eram pensadas enquanto uma modalidade de
unidade de conservação. Todas as unidades de conservação existentes na Amazônia
até 2001, incluindo as federais e as estaduais, as de uso indireto ou direto,
totalizavam 64,5 milhões de ha (ou 12,9% da superfície da Amazônia Legal),
enquanto as terras indígenas por si só perfaziam 100,2 milhões de ha (isto é,
20% da região)19
Em um dado recente (2004) a Funai, utilizando-se agora de categorias e de uma
metodologia muito próxima daquela das listagens do Museu Nacional e CEDI (1987
e 1990), fala em 599 terras indígenas em diferentes fases do processo
demarcatório, cuja extensão totalizaria 101,4 milhões de ha. Destas, cerca de
98,8% estariam situadas na região amazônica, na chamada Amazônia Legal.
ESTATÍSTICAS EIMAGENS CONFLITANTES
Nos últimos anos manifestou-se uma abissal diferença entre as imagens de Brasil
que eram propiciadas pelas diferentes estatísticas quanto aos indígenas. Os
instrumentos cognitivos construídos ao longo de década para contar populaçãoou
para mensurar terrasparecem conduzir a conclusões radicalmente polarizadas.
Qual a origem e a relevância sociológica desse conflito?
Desde o censo de 1890 que a agência nacional responsável pelas estatísticas de
população abandonou a ideia de fazer uma contagem em separado da população
indígena. É paradoxal que isso tenha acontecido logo após um censo que indicava
como significativa -mesmo em termos quantitativos (9,6%) - a presença indígena
na população brasileira. A República utilizou-se algumas vezes de símbolos
ocidentais e imagens cosmopolitas para marcar sua contraposição aos signos
nativistas empregados nos emblemas do Império do Brasil. O fato é que uma
análise do censo de 1890 não deixa dúvida quanto à intenção dos que o
planejaram em contribuir para dar ao país uma "cara republicana", onde os
cidadãos seriam todos iguais, independente de raça (ou de seu eufemismo cor).
Assim, o censo nacional de 1900, ocorrido na virada do século, e o seguinte, de
1920, próximo às celebrações de um século de independência, ignoraram a
variável core não operaram com qualquer distinção étnico-racial.
Só a partir de 1940 é que ressurgiu tal distinção, primeiro de forma residual,
quase envergonhada20, de modo a indicar as situações de mestiçagem. O termo
pardofoi assumido enquanto um grupo censitário, o qual será o único a expandir-
se em termos proporcionais de modo contínuo, chegando a atingir 38,9% em 1980,
materializando assim no contexto brasileiro a perspectiva assimilacionista do
melting pot(Glazer e Moynihan, 1963). As séries estatísticas propiciadas pelos
censos sugeriam que o Brasil era um país crescentemente misturado, onde os
brancos ainda se mantinham como maioria, mas onde os negros estavam em
acentuado declínio (5,9%) e os índios, por sua presença escassa, dispersa e
confinada nos rincões extremos do país, eram vistos como quantitativamente
irrelevantes. Tornaram-se portanto, invisíveis ao censo.
Em todo esse ínterim inexistiram estatísticas gerais e confiáveis sobre os
índios do Brasil. A estimativa genérica feita por Rondon e baseada no censo de
1890 tinha, sobretudo, uma finalidade política (de expressar o peso do indígena
no país) e apoiava as demandas da agência indigenista por recursos e apoio. O
minucioso levantamento realizado por Darcy Ribeiro21 e videnciou uma outra
realidade -a pequena significação demográfica da população indígena, bem como
sua fragmentação em coletividades reduzidas e isoladas na floresta. Os índios
do SPI traziam para o presente, sem as conotações negativas e criminalizantes,
as antigas imagens coloniais sobre o índio bravo.Eram justamente essas
características que inviabilizavam que o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) viesse a especificar os indígenas dentro do processo
censitário.
Nos anos 80 a atenção da opinião pública e das autoridades (nacionais e
internacionais) se volta para os índios, mas abordando-os principalmente
segundo o prisma dos recursos ambientais que detêm ou que reivindicam. A
preocupação dominante será a de medir as suas posses e demandas quanto a terra.
É isso que será intensamente disputado nas três últimas décadas, ampliando em
muito a significação econômica e política dos indígenas, mas mantendo a imagem
produzida pelo antigo SPI. O discurso ecológico continuará a apoiar-se na
representação do índio bravo, depurada de uma maldade e belicosidade congênita
que lhe era atribuída pelo discurso colonial. A obra de Rondon e dos
sertanistas foi de ressemantizar o índio bravo, transmutando-o no índio dócil e
colaborativo ao qual o discurso ecológico irá acrescentar um novo significado,
o de protetor do meio ambiente.
Em 1991, em consequência de análises aprofundadas sobre as estatísticas
relativas à questão racial no Brasil22 e em resposta a pressões dos movimentos
sociais, o IBGE modificou o critério de atribuição étnica, passando a operar
com o mecanismo da autoclassificação. As respostas possíveis à pergunta sobre
cor permitiam, a partir de então, que o entrevistado se identificasse enquanto
branco, negro, amarelo, pardo ou índio. Em termos gerais, os dados apresentados
não chegavam a ser discrepantes das estimativas sobre a população indígena
fornecidas pela Funai ou pelo Museu Nacional e CEDI. Assim, o IBGE falava em
294 mil indígenas, desses, cerca de dois terços habitando em áreas rurais, um
número pouco inferior às estimativas realizadas pela FUNAI. Quanto aos índios
que habitavam em cidades, da ordem de 71 mil, não se dispunha de qualquer
levantamento anterior que pudesse dimensionar o fenômeno, não havendo base para
questionar os dados obtidos pelo IBGE.
Foi com a divulgação dos resultados do censo de 2000 que se instalou uma
profunda perplexidade. Por esses dados, o total de brasileiros que se
autodeclaravam indígenas correspondia a mais que o dobro daqueles que figuravam
nos quadros elaborados pela Funai e pelas ONGs, todos esses últimos operando
com uma metodologia similar e baseada no monitoramento das terras indígenas.
Enquanto o censo de 2000 realizado pelo IBGE encontrou 734 mil índios no país,
a Funai, em 2004, continuava a estimar a população indígena em 323 mil,
agregando a isso apenas a ressalva de que não estava computando os índios
urbanos. O Mapa das Terras Indígenas, elaborado pela Funai, atualizado para
2012, retirado do seu site oficial, permite visualizar os espaços étnicos,
reconhecidamente indígenas, existente no território nacional.
O censo de 2000 traz duas grandes novidades frente aos mapas de terras
indígenas e as estimativas de população daí derivadas. Primeiro, indica um
vertiginoso crescimento dos índios que moram em cidades (383 mil), o que em
números absolutos representa mais de cinco vezes o contingente de 1991, bem
como sua duplicação em termos proporcionais. Com isso, inclusive os índios
urbanos passam a ser mais numerosos (52,2%) do que os indígenas que vivem no
meio rural.
A relação dos estados onde é mais numerosa a população de índios urbanos
surpreende os estudiosos. Entre os sete primeiros, em ordem decrescente-São
Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul e
Paraná -, não está qualquer dos estados onde se localizam as mais extensas
terras indígenas, nem aqueles que sejam objeto de atenção especial da política
indigenista. Só em uma segunda faixa, entre 10 e 20 mil declarantes, é que
aparecem Amazonas, Goiás, Pará e Mato Grosso do Sul.
Segundo, mesmo as estimativas baseadas nas terras indígenas demonstram-se
acanhadas em relação aos declarantes que moravam no meio rural, cujo
contingente (350 mil) é superior em mais de 10% à estimativa com que opera a
Funai. Essa diferença não resulta de um único estado ou região, mas estende-se
por todo o Brasil, evidenciando a existência em número expressivo de pessoas
que mesmo residindo fora das terras indígenas se assumem como índios.
Até o ano de 2005, quando indagados sobre a disparidade de números entre Funai
e IBGE quanto aos indígenas no Brasil, os dirigentes da Funai costumavam
qualificar os dados do IBGE como errôneos, enfatizando a falta de preparo de
suas equipes de campo para lidar com a temática indígena. Sem dúvida, uma
melhor preparação dos entrevistadores nesse quesito poderia tornar mais
rigorosos os dados do futuro censo nacional, mas isto não é razão para
invalidar os resultados já obtidos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É preciso compreender que se constituem em instrumentos cognitivos distintos,
com metodologias diferentes e que respondem a interesses e ideologias também
distintas, articuladas com redes sociais que podem ter finalidades divergentes.
Os dados que se expressam nessas imagens e interpretações contraditórias não
devem ser abordados de uma perspectiva excludente, como se fossem uns exatos e
outros falsos, nem com a intenção de aferir o grau de verdade de cada. A meu
ver, trata-se de compreender que ali se expressam diferentes formas de conceber
os indígenas no Brasil, que correspondem a projetos políticos e que operam com
temporalidades distintas.
O que os dados produzidos pelo IBGE permitem visualizar são fatos que estão
muito além da estrutura tutelar da Funai ou das redes de articulação
estabelecidas pelas ONGs dentro de uma perspectiva assistencial, de
desenvolvimento ou conservacionista. A sua importância não se restringe a
chamar atenção para um movimento crônico de migração que leva pessoas e
famílias indígenas do meio rural para as áreas urbanas. É preciso que esse
deslocamento geográfico seja inserido em um processo maior, de longa duração,
de incorporação dos indígenas em múltiplos nichos da sociedade brasileira, seja
no campo (nas cercanias de sua área de origem ou muito afastados dela), seja
nas cidades (e não apenas nas capitais, mas nas pequenas cidades de interior).
A distribuição da população indígena recenseada pelo IBGE segundo os municípios
mostra a extensão dessa presença indígena nas mais diferentes regiões do país.
Não se trata de um fenômeno que possa ser reduzido a um mapa das terras
indígenas e de seus entornas (como aparece no Mapa_1), mas de algo muito mais
difuso e complexo, que necessita ser cuidadosamente investigado.
[/img/revistas/dados/v55n4/a07map01.jpg]
[/img/revistas/dados/v55n4/a07map02.jpg]
Chama a atenção, logo de início, o elevado número de municípios (3.489) em que
essa presença é registrada, afetando 63,3% dos municípios brasileiros. Ao
percorrer essa longa lista, seguindo por estados, é possível identificar sem
muita dificuldade aqueles onde se localizam as terras indígenas. Trata-se de
uma parte bastante pequena desse universo. Os indígenas representam mais de 20%
da população em 31 municípios, em outros 36 municípios estão entre 20% e 10% da
população, em outros 57 estão entre 10% e 5%.
Vamos deparar um quadro totalmente distinto quando se considera os dados
absolutos.
[/img/revistas/dados/v55n4/a07map03.jpg]
Em 2.610 municípios há registro da presença de menos de 100 indígenas, em
outros 587 essa presença é entre 100 e 500, em outros 272 essa população fica
entre 500 e 5 mil declarantes. Ao examinar a lista de municípios dessa última
faixa obtém-se uma extensa lista das pequenas e médias cidades do interior do
país. Uma parte destas é efetivamente próxima das terras indígenas (embora
situadas fora delas), como que indicando uma função de satelização que núcleos
urbanos desempenham em relação a áreas rurais circunvizinhas. Uma outra parte
apenas se localiza na mesma microrregião (ou mesmo em microrregiões vizinhas),
que não implicam relações sociais e espaciais diretas com as terras indígenas,
mas que configuram como que vasta e difusa poeira de indicações identitárias
fragmentárias e heterogêneas, cuja unidade é remeter a uma ancestralidade
indígena.
A condição urbana torna-se mais clara na faixa imediatamente seguinte, a dos 16
municípios que possuem mais de 5 mil indígenas. Embora alguns poucos desses
municípios possuam terras indígenas23, trata-se, na maioria, de capitais24,
para os quais os indígenas se deslocam em busca de melhores condições
socioeconômicas. Na faixa seguinte, dos municípios (quatro) que concentram
maior população indígena, apenas São Gabriel da Cachoeira Amazonas, tem a sede
municipal cercada por terras indígenas, os demais (São Paulo, Salvador e Rio de
Janeiro), constituem-se em foco de atração para os migrantes rurais (entre os
quais estão os indígenas).
O que surge como resultado desse trabalho do IBGE é uma primeira aproximação ao
que seria atualmente o equivalente social e identitário do caboclonos censos de
1872 e 1890, ou do índio colonialnos textos historiográficos. Não é por acaso
que alguns estados que possuíam expressivo contingente de indígenas naqueles
censos, como Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do
Sul, registram hoje em dia uma presença indígena igualmente significativa,
expressa em um número relativamente elevado de indígenas distribuídos por um
grande número de municípios.
Nesse sentido, o censo enquanto instrumento cognitivo que permitiria apreender
a manutenção de componentes identitários em uma população indígena dispersa e
desterritorializada, estaria apontando para um fenômeno que está apenas
começando a ser estudado pelos cientistas sociais, historiadores e
demógrafos25. Trata-se da persistente, difusa e generalizada presença indígena
na formação do Brasil, de forma alguma circunscrita ao século XVI, mas
estendida ao longo de cinco séculos (ver Pacheco de Oliveira, 2010). Seria
equivocado também buscar essa importância apenas no passado, pois este é um
país em que as terras indígenas hoje reconhecidas representam quase 15% de seu
território.
Adinâmica econômica e política desta colônia na América portuguesa, de uma
nação que se estrutura enquanto um Império e só inicia a sua transformação em
República nos últimos anos do século XIX, não pode ser entendida omitindo-se o
fator que permitiu tal continuidade histórica. Ou seja, a permanente criação de
fronteiras interiores (ver Pacheco de Oliveira, 2008 e 2010), do exercício de
um colonialismo interno, em que a população nativa, as terras que habitavam e
os recursos que possuíam, foram continuamente decretadas como espaços
econômicos a serem incorporados mediante uma variada gama de expedientes
(muitas vezes legalizados) que incluíam o terror e a guerra, a escravidão
disfarçada, os deslocamentos compulsórios e a imposição da tutela.
É este pano de fundo histórico, ainda pouco investigado, mas que alimenta o
imaginário, as instituições e práticas brasileiras, que uma leitura sociológica
do censo 2000 espelha com inusitada força. Um aspecto que esteve frequentemente
recalcado nas mais importantes interpretações do Brasil, e que foi tratado
apenas em sua dimensão insulada e etnificada pelos etnólogos, vem agora à luz.
Trata-se de apontar a continuidade de vínculos identitários supostamente
soterrados pela história política oficial e refratados pela consciência
europeizada da elite intelectua26.
Agora em um contexto histórico bastante novo, no pós-Constituição Federal de
1988 (ver Pacheco de Oliveira, 2008), em um mundo globalizado em que as
políticas públicas estão marcadas pelo multiculturalismo, revalorizando as
identidades étnicas e locais, as mobilizações indígenas voltam a ocupar um
espaço cada vez maior na agenda política e desvelam a importância do componente
indígena na formação da nacionalidade e nas perspectivas futuras de
desenvolvimento.
NOTAS
1. Cabe notar que, em português, atos tão distintos como aplicar uma ordem
numérica e relatar uma história são comumente referidos através do mesmo verbo
("contar").
2. Existem, assim, alguns autores que consideram que dados demográficos sobre
povos indígenas, por não operarem com as unidades étnicas ou culturais que os
dividem, não teriam qualquer utilidade para uma análise antropológica (Silva,
1994).
3. Uma importante aplicação dessa orientação no domínio da história cultural
foi realizada por Darnton (1986), abordando tanto fontes escritas (crônicas de
costumes e relatórios administrativos), quanto orais (os contos populares dos
camponeses franceses). Para um uso no Brasil relativo a fontes bibliográficas e
arquivísticas sobre os povos indígenas ver Fernandes (1954) e Pacheco de
Oliveira (1987b, 1988).
4. É interessante atentar para o fato de que os dados quantitativos, por sua
aparência de exatidão e objetividade, tendem a favorecer a crença no seu
automatismo, favorecendo a que as operações de comparação e normatização
tornem-se ainda mais invisíveis e compulsivas.
5. Em tuna leitura cuidadosa dos relatos hispânicos do século XVI sobre os
indígenas das Américas do Norte e Central, Todorov (1983) mostra a diversidade
de interpretações e doutrinas entre esses autores, sublinhando a
heterogeneidade dos relatos e das propostas quanto ao papel que o indígena
deveria assumir na colonização da região. Para uma interpretação mais referida
ao Brasil e à América do Sul, ver Buarque de Holanda (1969).
6. Categoria utilizada pela historiadora Karen Spalding no contexto da América
hispânica para designar os indígenas que aceitaram o batismo e passaram a viver
sob a autoridade colonial em cidades ou povoações do interior. Estudos recentes
sobre história indígena no Brasil revelam que esses índios mantiveram uma
identidade e um comportamento diferenciado dentro da sociedade colonial
(Monteiro, 1994; Almeida, 2003), devendo ser analisados com mais rigor e
profundidade, ao invés de serem equiparados ao conjunto da população.
7. Cabe notar, no entanto, que no português falado no Brasil caboclotem tun
sentido mais ambíguo e encoberto, apenas insinuando uma ascendência indígena
(mas que poderia corresponder também a um uso metafórico, aplicado a um
habitante do interiar, de costumes simples e rudimentares). A identificação do
caboclocomo indígena foi, assim, sobretudo residual e negativa (isto é, por
tratar-se de população livre, que se distinguia tanto da condição de brancos
quanto da de negros, bem como dos estrangeiros).
8. A própria Lei de Terras, de 1850, estabelecia que as posses indígenas
resultantes de antigos aldeamentos deveriam ser ratificadas por ato
administrativo (demarcação), caso contrário seriam julgadas de aldeamentos
abandonados ou extintos, devendo ser colocadas à venda em leilão público.
9. As tentativas de suprir essa lacuna por meio do exame criterioso da
distribuição dos pardos pode talvez produzir alguns dados relativamente
confiáveis somente em casos extremos, como o do Amazonas, em que o contingente
de negros e seus descendentes mestiços é bastante inferior ao de indígenas e
seus descendentes. Na maioria das situações, mesmo procedendo a um trabalho de
peneiramento dos dados por estados e municípios, apoiados em séries históricas
enotícias sobrefluxos migratórios, trata-se de um exercício arriscado e com
resultados absolutamente incertos.
10. Vide as análises de Cardoso de Oliveira (1972) e Pacheco de Oliveira
(1999a).
11. Para tuna análise mais aprofundada do SPI e da figura de Rondon ver Lima
(1994).
12. Segundo os dados coletados no censo de 1940, falavam outra língua dentro de
casa 25% dos residentes em Santa Catarina e 22,5% no Rio Grande do Sul. No
censo de 1950 esses números sofrem tuna expressiva diminuição.
13. A crítica dessa ideologia - conhecida como "rondonismo", "indigenismo" ou
"sertanismo" - está realizada em seus múltiplos aspectos em dois livros
(Pacheco de Oliveira, 1998 e 2006) e foi retomada recentemente em sua dimensão
histórica enquanto parte de um processo de nation building(Pacheco de Oliveira,
2004, 2009 e 2011).
14. Ver, em especial, os trabalhos de Lima (1994).
15. Ver, a esse respeito, a tese de Carlos Augusto da Rocha Freire (2005).
16. PETI éuma abreviatura utilizada para o Projeto Estudo sobre Terras
Indígenas: Invasões, uso do solo e outras ocupações sobrepostas, sediado no
Museu Nacional/UFRJ, sob a coordenação de João Pacheco de Oliveira, que atuou
de 1986 a 1993 no monitoramento das terras indígenas, contando com o apoio da
Fundação Ford. Tal projeto,formatado a partir de reflexões anteriores (Pacheco
de Oliveira, 1983), resultou em uma extensa produção, com dois livros (Pacheco
de Oliveira, 1998 e 2006), além de muitos artigos, dos quais cabe destacar
alguns (Pacheco de Oliveira, 1987, 1994,1997 e 1999b) mais diretamente
relacionados ao tema deste artigo.
17. Organização Não Governamental que, desde o final dos anos 1970, atou na
divulgação de informações sobre os povos indígenas, apoiando os seus processos
de mobilização por direitos. Nos anos 90 veio a dar origem ao atual Instituto
Socioambiental (lSA).
18. Vide, entre outros, Ricardo (1994).
19. Uma análise mais cuidadosa deste contexto pode ser encontrada em Pacheco de
Oliveira e Piedrafita Iglésias (2002).
20. Na apresentação do censo de 1940 é observado que as pessoas entrevistadas
foram classificadas enquanto brancos, negros e amarelos, sendo usado um traço
para indicar a inadequação a essa categoria.
21. O qual na realidade vinha a integrar-se em um projeto analítico maior, de
descrição do processo de assimilação das minorias nas Américas (vide Wagley e
Harris, 1967).
22. Vide, entre outros, Costa (1974), Harris (1974), Skidmore (1974), Degler
(1976), Hasenbalg (1979), Silva e Hasenbalg (1993).
23. Como Tabatinga, e São Paulo de Olivença, municípios da microrregião do Alto
Solimões/AM, respectivamente com 7.255 e 6.634 habitantes indígenas, isto para
exemplificar concretamente tun fenômeno que se encontra em outras regiões do
país.
24. Como Manaus, com 7.894, e Boa Vista, com 6.150, entre outras capitais.
25. Cabe destacar os estudos e análises desenvolvidos, com a coordenação de
Nilza Pereira, pelo próprio IBGE (vide IBGE, 2005 e 2012) e por outros
pesquisadores (entre estes, Paoliello, 2008 e 2012). Um polo agregador de
reflexões sobre esta temática tem sido o GT-Demografia dos Povos Indígenas, da
ABEP / Associação Brasileira de Estudos Populacionais.
26. Vide Pacheco de Oliveira e Rocha Freire (2007); Pacheco de Oliveira (2008 e
2010).