Assimilação ressignificada: novas interpretações de um velho conceito
As discussões sobre modos de incorporação de imigrantes às sociedades
receptoras tornaram-se mais acaloradas na última década. Reflexo de uma nova
era de migrações internacionais e da magnitude dos fluxos recebidos no passado,
tanto a sociologia histórica americana quanto a argentina procederam a uma
revisão do tema. No caso brasileiro e, sobretudo paulista (dado o maior peso
dos fluxos a este estado no contexto nacional), estes novos desenvolvimentos
teóricos exigem novas interpretações de nossa experiência de recepção de
imigrantes estrangeiros.
Até os anos sessenta do século passado, o paradigma da assimilação reinava
praticamente absoluto, influenciado pelos expoentes mais conhecidos da Escola
de Chicago, desde Robert Ezra Park (1921) até Milton Gordon (1964).
Esquematicamente, estes argumentaram - geralmente apoiados sobre estudos da
chamada "segunda leva" de imigrantes (provenientes da Europa Oriental e
Meridional) aos Estados Unidos - que os imigrantes gradualmente haviam perdido
(diga-se de passagem, felizmente, para seu próprio bem e da sociedade mais
ampla, segundo tais autores) sua "identidade étnica", para se integrarem ao
mainstream americano.
A partir dos anos setenta, o modelo de assimilação foi contestado e criticado
na literatura americana - desde Glazer e Moynihan (1963) até Conzen et alii
(1992), entre muitos outros - pelos pluralistas, que o julgaram como irrealista
na prática e, ademais, politicamente incorreto, devido a seu pressuposto
etnocêntrico e "anglo-conformista" de definir (ou subentender) o que seria o
mainstream americano (Persons, 1987; Kazal, 1995). Objeto de intensa polêmica,
alguns chegaram a declarar como "morto" o próprio conceito de assimilação
(Glazer, 1993). De modo simplificado, desde então, as posições se cristalizaram
segundo a dicotomia "assimilacionistas" versus "pluralistas".
O objetivo deste artigo é propor uma interpretação sobre como o termo
assimilação foi utilizado no Brasil em três períodos distintos e apresentar uma
reconceituação do mesmo baseada na obra Remaking the American Mainstream -
Assimilation and Contemporary Immigration,de Richard Alba e Victor Nee,
publicada originalmente em 2003. Argumenta-se que a nova formulação proposta
por esses autores pode contribuir para uma compreensão mais precisa das
diferentes trajetórias de incorporação de grupos de imigrantes estrangeiros à
sociedade brasileira, no passado e no presente.
*
Logo após o seu surgimento e popularização acadêmica nos Estados Unidos a
partir dos anos vinte, o termo "assimilação" passou a ser utilizado no Brasil.
De lá para cá, podem-se distinguir pelo menos três fases nas quais o conceito
foi empregue de formas distintas: em primeiro lugar, o uso que dele fizeram
intelectuais preocupados em discutir, promover e alguns deles em preservar1 a
formação nacional do povo brasileiro, que acabaram por influenciar tanto os
rumos da política migratória praticada durante a Primeira República, quanto a
política de nacionalização forçada empreendida durante o Estado Novo, conhecida
como campanha de nacionalização. Em segundo lugar, o uso propriamente acadêmico
e estritamente associado a uma interpretação cultural do termo a partir dos
anos quarenta, inaugurado provavelmente com a obra de Emilio Willems, e que se
prolongou até pelo menos os anos setenta. Por fim, o período no qual a
utilização do termo assimilação caiu em descrédito nos meios acadêmicos,
concomitantemente à valorização das identidades étnicas de diferentes grupos de
imigrantes, do passado e do presente, período este influenciado pela emergência
de uma perspectiva multiculturalista.
ASSIMILAÇÃO E A FORMAÇÃO NACIONAL
Um dos primeiros intelectuais a utilizar o termo no Brasil foi Alfredo Ellis
Jr. em seu livro Populações Paulistas, escrito ao final dos anos vinte, mas
publicado somente em 1934. Interessado em valorizar a influência das famílias
paulistas - que produziram o bandeirismo e, segundo o autor, a formação da
lavoura de café - na prática caracterizando-as como o mainstream paulista, o
autor distingue entre dois processos de assimilação: o cruzamento e a educação
ou adaptação. Trabalha, pois, com uma concepção de assimilação calcada em
aspectos de natureza racial e cultural, cujo desfecho se traduz pela
aniquilação das culturas alienígenas em favor de uma suposta primazia paulista,
considerada uma raça de gigantes:
a assimilação, pois, é a redução a outra civilização de um grupo
humano mais ou menos numeroso de indivíduos, o qual abandona todos os
laços culturais anteriores, adquirindo novos que lhes são
transmitidos pelo grupo humano em contato com o qual ele é posto
[...]. Do cruzamento do estrangeiro com o paulista resulta a
homogeneização de duas mentalidades diferentes, ficando a exótica
plasmada nos moldes da paulista que acaba prevalecendo. É o que se dá
entre nós (Ellis Jr., 1934:84-85).
Tal qual exposta por Ellis Jr., o conceito de assimilação, concebido como
fenômeno biológico-racial (além de cultural), sofreu no Brasil a influência de
intelectuais que, ao final do século XIX e início do século XX, debateram
obsessivamente a formação (de um tipo) nacional, influenciados pelas teorias
eugenistas2. Tais teorias tomavam como premissa a desigualdade entre as raças e
propugnavam sua classificação e hierarquização, entre os extremos de uma raça
branca superior e uma raça negra inferior. Ademais, as teses do darwinismo
social e da pureza racial difundidos até a Primeira Guerra Mundial condenavam a
mestiçagem racial. Contudo, conforme argumentou Seyferth,
os cientistas brasileiros encontraram meios para contornar a visão
negativa seguida pelo racismo para a mistura de raças ora
classificadas como inferiores, ora como atrasadas: inventaram a tese
do branqueamento e os mestiços "superiores"! [...] Nos termos da sua
versão "científica", [...] o branqueamento da raça era visualizado
como um processo seletivo de miscigenação que, dentro de um certo
tempo (três gerações), produziria uma população de fenótipo branco
[...]. Sendo assim, os imigrantes tinham um papel adicional a
exercer: contribuir para o branqueamento e, ao mesmo tempo, submergir
na cultura brasileira (Seyferth, 1996:48-49).
Por outro lado, a massa de trabalhadores nacionais era pensada como racialmente
inferior, embora a esta fosse atribuída o importante papel de transformar
imigrantes em brasileiros.
Assim é que Silvio Romero, nos albores do século XX, criticou o descaso da
monarquia com a composição étnica da população nacional, ao mesmo tempo em que
defendeu a ideia de misturar migrantes nacionais com estrangeiros em todas as
regiões do país3, colocando-os lado a lado, para o trabalho, de modo a educar
os primeiros e abrasileirar os últimos. Adepto da mestiçagem, Romero - e, após
ele, outros - fizeram um uso muito particular das teorias raciais em voga nos
países civilizados: de um lado, como mostraram Schwarcz e Queiroz (1996:172-
174), naturalizou hierarquias sociais, políticas e econômicas com base na ideia
de raça; de outro, rejeitou que a mestiçagem gerasse indivíduos degenerados,
piores ainda que as ditas raças inferiores4.
Tal debate é anterior ao conceito de assimilação, tal qual definido por Robert
Park e outros expoentes da Escola de Chicago, mas certamente influenciou o uso
do conceito aqui no Brasil, a partir do final dos anos vinte. Além de Ellis
Jr., pode-se também tomar como exemplo Oliveira Vianna (que por sinal foi aluno
de Silvio Romero), cujas teses sobre o caldeamentooufusão de raçasconjugam dos
mesmos pressupostos de hierarquia racial e primazia branca, ao propor que,
quando duas raças desiguais são colocadas em contato, as menos fecundas são
absorvidas ou dominadas: uma gera os senhores e a outra os servidores (Vianna,
1933a:154-155). Em Raça e Assimilação, publicado originalmente em 1932,
desenvolve uma série de cálculos sobre coeficientes de homogeneidade,
coeficientes de fusão e índices de fusibilidade para aferir o que denomina
melting pot nacional. Em suas palavras, o objetivo seria dotar de "bases
científicas para a solução de alguns problemas mais urgentes e imperativos,
como os que se prendem à formação da nossa nacionalidade [...]. Por exemplo: o
problema da mestiçagem das raças. Ou o da seleção eugênica da imigração. Ou o
da distribuição racional das etnias arianas [sic] segundo o critério da sua
maior ou menor adaptabilidade às diversas zonas climáticas do país" (Vianna,
1933b:89-90).
Neste livro, Oliveira Vianna insurge-se contra as teses de igualdade das raças
que começavam a tomar corpo nos anos vinte5. No meio intelectual nacional, ele
talvez possa ser apontado como um dos últimos propagadores do racismo
científico como princípio de explicação do Brasil e da necessidade imperiosa de
promover a assimilação racial.
De fato, como observou Skidmore (1976:183-192), as explicações que tomavam as
características raciais como responsáveis pelas mazelas do país passaram a
ceder lugar, a partir já da eclosão da Primeira Guerra Mundial6, para a relação
homem-meio, tanto no que se refere aos males causados por condições de vida
insalubres, como advogavam os próceres do movimento sanitarista, como pelas
apreensões concernentes a reformas sociais e, sobretudo, à necessidade de
educação do trabalhador nacional - tal como era defendido por escritores como
Monteiro Lobato ou por cientistas como Roquete Pinto. O próprio Lobato, que
antes condenara seu personagem Jeca Tatu em função de seu hibridismo racial,
mudara de opinião, creditando-lhe seus infortúnios às epidemias que o
flagelavam. "Jeca Tatu não é assim, ele está assim", decretou em Urupês7.
Em São Paulo, a própria revolução cultural do modernismo trazia em seu bojo a
valorização de uma identidade nacional. Stepan, em obra recente, notou que,
"por volta da década de 1920, a classe educada estava cada vez mais
'assimilacionista' no discurso público, ainda que privadamente e em suas
relações sociais fosse racista e discriminadora" (Stepan, 2005:165). O
pressuposto básico, por tanto tempo dominante, da perspectiva racista de que o
sangue dos ex-escravos africanos representara um prejuízo ao desenvolvimento
nacional, começara, enfim, a ser questionado. Ao mesmo tempo, entre os
intelectuais, Roquete Pinto, Arthur Ramos e, mais tarde, Gilberto Freyre
promoveram uma reinterpretação otimista do caráter nacional, destacando a
herança negra e a mestiçagem no que elas poderiam aportar de positivo à nação.
Contudo, havia diferenças significativas entre eles. Para alguns autores, como
Arthur Ramos, o tema do caldeamento e, portanto da assimilação (compreendida
também como fenômeno racial), mantém-se ainda em sua obra Introdução à
Antropologia Brasileira (1943/7), na qual dedica páginas e páginas à
caracterização racial dos diferentes grupos (imigrantes inclusive) presentes no
território nacional (Seyferth, 2004:13). Assim, conforme observou Stepan (2005:
179-180),
embora as avaliações raciais tenham mudado, a estrutura do argumento
eugênico - com sua ênfase nas diferenças biológicas como fato-res-
chave na composição de uma nação - não mudara. Poder-se-ia dizer que
a 'miscigenação construtiva' era, por conseguinte, tanto um produto
do racismo quanto seu reverso. O conceito havia estabelecido a raça
biológica como o ponto crucial da nacionalidade e deixara, em alguns
casos, legados institucionais duradouros na forma de leis de
restrição à imigração influenciadas pela eugenia. A ênfase dos
eugenistas na homogeneização através do amalgamento biológico era uma
mistificação das realidades políticas e sociais de suas sociedades
muito pobres tanto quanto a teoria inversa que alertava contra a
heterogeneidade racial e a degeneração híbrida.
Assim, muito embora a partir de então crescentemente desacreditado por parcelas
da intelectualidade que não se fiavam à tese do determinismo biológico - e
Gilberto Freyre e Roquete Pinto, ambos bastante influenciados por Franz Boas,
aqui são os nomes maiores -, o ideário assi-milacionista ainda repercutiu
diretamente na agenda política do novo regime instaurado nos anos trinta. Mas o
fez buscando instaurar uma consciência homogênea de nacionalidade disposta a
eliminar ou ao menos aplainar disparidades étnicas. Nessa medida, não tratava
de amaldiçoar a herança negra8, mas, sobretudo, de proteger supostas ameaças
externas representadas por grupos alienígenas cujas características físicas e
culturais poderiam por em risco o processo de homogeneização racial e cultural
do país. O que se desejava, portanto, não era uma intervenção cultural do
estrangeiro, que pudesse ameaçar a língua portuguesa, a hegemonia católica e,
de modo geral, a cultura latina. Daí serem alguns grupos mais desejáveis que
outros, justamente porque mais assimiláveis (Ramos, 1996).
O foco passava a ser garantir o processo de assimilação para quaisquer grupos
que pretendessem se fixar ou que já haviam se fixado no país. Prova disso são
os debates que presidiram a Constituinte de 1934 e a adoção do regime de cotas
migratórias, cujos efeitos restringiram com maior intensidade o fluxo de
japoneses, tidos à época como menos assimiláveis, e também de judeus
perseguidos pelo nazismo. Tais apreensões seriam confirmadas poucos anos
depois, na própria definição e rumos que tomou a campanha de nacionalização
durante o Estado Novo, arquitetada por funcionários do governo que difundiam
suas ideias na Revista de Imigração e Colonização, publicada pelo Conselho de
Imigração e Colonização. Entre as atribuições deste órgão - instituído em maio
de 1938 e diretamente subordinado ao Presidente da República - constavam
explicitamente: "propor ao Governo as medidas que convenham ser adotadas, a fim
de promover a assimilação e evitar a concentração de imigrantes em qualquer
ponto do território nacional", além de "estudar os problemas relativos à
seleção imigratória, à antropologia étnica e social, à biologia racial e à
eugenia"9. Tais medidas alçaram o combate aos ditos "enquistamentos étnicos" e
o imperativo do abrasileiramento compulsório ao nível de política de estado,
forçando o fechamento de associações, escolas e periódicos ligados a
instituições étnicas (Seyferth, 1999:199-228).
ASSIMILAÇÃO COMO EXPRESSÃO EXCLUSIVA DE MUDANÇA CULTURAL
Somente com o fim da ditadura varguista e consequente redemocratização, o termo
assimilação no Brasil foi objeto de uma utilização mais acadêmica e menos
influenciada pelos preceitos de uma política de governo preocupada com a
questão da definição de um povo para uma nação em formação. A crise dos anos
trinta, as restrições impostas à imigração estrangeira pela Constituinte de
1934 e, em seguida, a eclosão do segundo conflito mundial arrefeceram o ímpeto
migratório vendo do exterior e, por conseguinte, o debate acerca do tema com
tons nacionalistas. Os próprios horrores do nazismo, revelados com a derrota da
Alemanha, contribuíram para colocar o tema da assimilação, visto sob uma
perspectiva racial, na berlinda. Nessa segunda fase, a partir do pós-guerra, os
meios acadêmicos trataram de interpretar a experiência de recepção de
imigrantes internacionais sob uma perspectiva menos assimilacionista
(ideológica e racialmente falando), ainda que se valendo do termo assimilação.
A esse respeito, o autor seminal é Emilio Willems, que tratou do conceito com
maior rigor teórico e metodológico em seus dois livros sobre alemães no sul do
Brasil publicados em 1940 e 1946. Vale a pena reproduzir o verbete assimilação
constante do Dicionário de Sociologia, de sua autoria, publicado em 1950
(Willems, 1950:8):
conjunto das mudanças de ordem psíquica a que estão sujeitas as
pessoas que se transferem de uma determinada sociedade para outra,
culturalmente diversa. Praticamente essas mudanças consistem na
obliteração, substituição e modificação de hábitos (modos de sentir,
pensar e agir) anteriormente adquiridos. Os novos hábitos
exteriorizam-se em forma de atitudes total ou parcialmente diferentes
de atitudes anteriores. É óbvio que as atitudes novas surgem
condicionadas a elementos
culturais novos ou diferentes. Grau e ritmo de assimilação são determinados
sobretudo pelas diferenças ou semelhanças culturais, pela frequência e espécie
de contatos que se estabelecem entre pessoas culturalmente diversas. Outro
fator importante representam as condições sociais em que ocorrem os contatos.
Geralmente, a assimilação é acompanhada de conflitos mentais cuja intensidade
varia em razão dos antagonismos que se observam entre os padrões de
comportamento da sociedade antiga e da nova. Enquanto duram esses conflitos, a
pessoa é marginal. A assimilação não exige a substituição de todos os hábitos
anteriormente adquiridos. As necessidades básicas dos homens são as mesmas e as
culturas criadas para sua satisfação apresentam semelhanças fundamentais. Daí
se pode inferir que, em qualquer hipótese, uma parte das experiências
anteriores pode ser utilizada para fazer os reajustamentos que a nova situação
exige. A assimilação compreende exclusivamente hábitos, quer dizer, traços que
a pessoa humana adquire em interação com seus semelhantes. Por isso, a
assimilação nada tem que ver com fatores biológicos como nascimento,
ascendência ou "sangue" do indivíduo. Importante é apenas o meio social em que
a pessoa é educada.
Portanto, trata de definir o conceito de assimilação como:
a) atributo de mudanças na personalidade de indivíduos expostos a situações
culturais distintas (ele reservará o conceito de aculturação (Willems, 1950:1-
2) para tratar das mudanças na cultura de dois ou mais grupos em contato direto
e contínuo);
b) que varia em grau e ritmo, segundo a distância cultural, frequência e tipo
de contato;
c) que pode gerar ainda conflitos mentais (e daí marginalidade individual);
d) que apresenta caráter exclusivamente cultural, e não racial ou biológico,
como comumente interpretavam os defensores do chamado melting potnacional10;
e) que pode ser de natureza bilateral, ainda que prevaleça a influência da
sociedade inclusiva sobre o grupo minoritário.
Como ressaltou Seyferth, os trabalhos de Willems têm muitos méritos, mas podem
ser criticados por incorrerem a psicologismos em voga na época, como o conceito
de indivíduo marginal ou desajustado, enredado em uma cultura híbrida que, ao
longo do tempo e de uma geração à outra, tenderia inevitavelmente a se
desfazer. "Todos os indícios de existência de uma ideologia étnica e de valores
culturais próprios (...) são minimizados como resíduos ou sobrevivências, ou
resistências a uma assimilação inarredável!" (Seyferth, 1988:31). Seu trabalho
foi muito influente para toda uma geração de antropólogos e sociólogos
empenhados em descrever as mudanças socioculturais experimentadas ao longo da
experiência de diferentes grupos migratórios. Autores como Saito (1961), Saito
e Maeyama (1973), Vieira (1973), Rattner (1977), Azevedo (1981), Schaden
(1956), Diegues Jr. (1964) e Albersheim (1962), todos citados por Seyferth11,
ao lado de outros, como Balhana (1958), recorrerão, de uma forma ou de outra,
ao conceito de assimilação, até pelo menos o final dos anos setenta.
Em São Paulo, contudo, ocorreram diferenças importantes na própria cadeira de
Antropologia da Universidade de São Paulo, onde Willems fora catedrático entre
os anos de 1941 e 1949. Aí os conceitos de assimilação e aculturação, tal qual
definidos por Willems, foram inicialmente empregues nos assim chamados estudos
de comunidade. Havia um traço comum entre tais estudos e os de grupos
migratórios, já que estes normalmente eram capturados em sua inserção em uma
determinada comunidade, mais comumente no meio rural12. O próprio Willems, após
escrever sobre os alemães, havia publicado um estudo pioneiro sobre Cunha, no
Vale do Paraíba, imprimindo aqui pioneiramente o formato dos estudos de
comunidade13. Após a saída de Willems, a cadeira foi então ocupada
provisoriamente por Egon Schaden, até meados dos anos 60, que continuou a
empregar o conceito de aculturação, sobretudo no estudo de grupos tribais
(Pereira, 1994)14.
Contudo, as assistentes mais jovens da cadeira de Antropologia, Eunice Durham e
Ruth Cardoso, pautaram suas produções acadêmicas iniciais por um relativo
distanciamento dos estudos de comunidade e aculturação. De fato, embora ambas
também tenham se dedicado a estudar grupos migratórios e efetivamente tenham
utilizado o conceito de assimilação, o fizeram sob uma perspectiva que já
ecoava as disputas institucionais na própria Universidade de São Paulo (USP)
entre as cadeiras de Sociologia I, conduzida por Florestan Fernandes, e a de
Antropologia. Conforme apurou Corrêa (1995:61),
Ruth observa que a tese dela e a de Eunice deviam muito mais à
influência geral de Florestan Fernandes e de Gioconda Mussolini, a
partir de suas críticas derivadas do funcionalismo inglês à ideia de
aculturação, então hegemônica na Antropologia da USP, do que à
orientação de Egon Schaden (...). "Os estudos de comunidade e os
estudos de aculturação representavam tudo o que estávamos renegando:
o foco na vida rural, a ideia da integração. Nós tínhamos interesse
na mudança social, nos processos de urbanização... era uma análise
mais sociológica" (Ruth Cardoso, depoimento). O trabalho de Eunice
Durham já sinalizava a partir do seu título (A Caminho da Cidade)
essa transição15.
A crítica aos estudos de comunidade pautava-se, de modo geral, por duas
vertentes: em primeiro lugar, alegava-se que tais estudos desdenhavam os
processos históricos que conduziram às realidades sociais analisadas16. Em
segundo lugar, criticava-se o isolacionismo imposto pelo recorte da comunidade
e a ausência de foco nos vínculos desta com a sociedade mais ampla, na qual se
insere e da qual depende. Pode-se tomar, a esse respeito, o comentário de Ruth
Cardoso sobre um estudo dos italianos em um bairro de Curitiba, realizado por
Altiva Pilati Balhana, nos moldes dos estudos de comunidade. Após elogiar a
riqueza descritiva do trabalho, emenda: "o que falta é a tentativa de explicar
o processo de assimilação, de esclarecer como funcionam os padrões culturais
europeus e como são abandonados ou modificados" (Cardoso, 1961). Ou ainda, a
apresentação de Antonio Cândido à sua obra Os Parceiros do Rio Bonito:
"não é um 'estudo de comunidade', no sentido hoje corrente, sobretudo
entre americanos e ingleses. Não pretendi levantar sistematicamente
os diferentes aspectos de determinado agrupamento, englobando todo o
seu sistema institucional numa visão completa e orgânica. Depois de
bastante hesitar, rejeitei esse ponto de vista, em parte pelo que tem
de estático e convencional - levando-nos quase sempre a encarar os
traços de uma dada realidade sociocultural como algo que, para usar
velha expressão caipira, 'deverá de ser assim mesmo'. Por outras
palavras, o estudo de comunidade, em seu corte descritivo mais
frequente, me pareceu comprometer no pesquisador o senso de
problemas" (Cândido, 1982:19-20).
Tal qual observaram Peixoto e Simões (2003:401), ao analisar os primeiros anos
da Revista de Antropologia, "os balanços e comentários críticos realizados
sobre os 'estudos de comunidade' - elaborados de formas diferentes e a partir
de lugares distintos - parecem bater numa mesma tecla: o risco do
encapsulamento da comunidade pela desconsideração de seus vínculos com a
sociedade mais ampla e com a história".
A que concepção de assimilação recorrem Durham e Cardoso para se afastarem do
modo como esta foi empregue nos estudos de comunidade? Durham esclarece que
utilizou o termo assimilação no mesmo sentido que Eisenstadt (1954) empregou o
termo absorção. Tal noção abrange, simultaneamente, a aculturação, a dispersão
étnica e o ajustamento individual17. Nesse processo, a autora enfatiza como a
integração do imigrante esteve associada às oportunidades de ascensão criadas
pela transformação da sociedade mais ampla. Nessa concepção, a noção de
assimilação do imigrante encontra-se ancorada a noções mais dinâmicas de
mobilidade social e de mudanças na sociedade que o inclui, pautas estas um
tanto distantes dos estudos de comunidade tradicionais18. Em seus próprios
termos, "para realizar o objetivo do trabalho assim definido, não podíamos nos
restringir à análise dos fenômenos no âmbito estritamente local. Descalvado não
é um sistema isolado. A sua história, como a história de seus imigrantes, só
pode ser entendida como manifestação de tendências que caracterizam a sociedade
global na qual ela se insere" (Durham, 2004:80).
Do mesmo modo, no caso de Cardoso, o próprio título de seu trabalho, "Estrutura
familiar e mobilidade social; estudo dos japoneses no Estado de São Paulo",
denota o compromisso da autora em realçar os processos de mobilidade a partir
de uma crítica ao conceito de aculturação.
"A realidade do contato sociocultural só pode ser apreendida e sua
explicação só será concreta se levar em conta um conjunto de
dimensões (entre as quais a cultural é fundamental) que devem ser
empregadas na interpretação do processo, reproduzindo teoricamente a
unidade do real. O conceito de aculturação não facilita esta tarefa
porque privilegia os traços culturais e supõe uma dinâmica que lhes é
própria" (Cardoso, 1972:172).
A partir dessa crítica, a autora dispensa o uso do conceito de aculturação e,
ao invés de assimilação, prefere utilizar o termo integração:
"o processo de integração do imigrante japonês é caracterizado neste
trabalho, por um lado, por sua mobilidade social e, por outro, pela
diminuição da distância cultural entre ele e o conjunto da sociedade,
isto é, pela menor utilização de sistemas expressivos próprios. A
mobilidade é importante porque os japoneses emigraram para o ocidente
aceitando voluntariamente uma posição (talvez a mais baixa) na
hierarquia das classes sociais. Não há exclusão étnica, como em
outras situações de contato, e, com maiores ou menores obstáculos,
dependendo do país, os imigrantes se situam dentro do sistema social
como membros de uma classe. Sua posição na sociedade que o recebe
está dada dentro do sistema de classes. É, portanto, dentro da
estrutura existente e em transformação que o imigrante procura mudar
de posição e mede seu progresso. Buscando ascensão, primeiramente
como grupo e, depois de dado o primeiro passo, como indivíduo, é que
os japoneses aspiram melhores posições. É de notar, entretanto, que a
partir do momento em que age como indivíduo, o imigrante deixa de
distinguir-se dos demais brasileiros de sua mesma classe social. Sua
dissolução como etnia significa sua absorção como membro de uma
classe, o que constituiria sua integração total" (Cardoso, 1972:175-
176).
Seria injusto afirmar que os autores mais comprometidos com o conceito de
aculturação utilizado, sobretudo, nos estudos de comunidade, tenham ignorado as
relações de mão dupla entre mobilidade social e assimilação. O próprio Willems
(1946:575) já observara o quanto a mobilidade social, favorecida por uma
inserção urbana (em contraste com o meio rural), facilitara a assimilação e,
pelo lado inverso, como esta constituía condição essencial à ascensão social e
participação política. Entretanto, tanto Durham como Cardoso procuraram
demarcar suas distâncias em relação ao conceito de aculturação tal qual
empregue nos estudos de comunidade19. Nesse sentido, como já se ressaltou
anteriormente, ambas seriam bastante influenciadas por uma perspectiva
sociológica, já então dominante. Como fez questão de enfatizar Cardoso (1972:
176) na conclusão de seu livro: "no interior das distinções de classe é que
operam as identificações étnicas, estabelecendo novos recortes".
ASSIMILAÇÃO EM BAIXA
De qualquer modo, mesmo levando em conta as diferenças de contexto e ênfase
acima apontadas, entre todas as concepções anteriores havia um traço comum: a
de que a assimilação (ou outro termo equivalente) constituía, de uma forma ou
de outra, um processo inapelável. Assim sendo, quaisquer traços culturais
remanescentes de um grupo eram interpretados como indícios de uma assimilação
ainda incompleta em direção a um padrão dominante. Nessa concepção, não havia
espaço para a afirmação de uma cultura étnica que vai se modificando, entendida
como construção historicamente determinada e iterativamente negociada, por
solicitações tanto internas ao próprio grupo quanto externas da sociedade mais
ampla. Para dar conta disso, começou então a se firmar o conceito de identidade
étnica - ou etnicidade - nos estudos migratórios, simultaneamente ao
progressivo abandono do conceito de assimilação.
A mudança de paradigma ocorreu antes nos Estados Unidos do que aqui, e sob uma
forma que adverte o quanto as discussões sobre incorporação de imigrantes
sempre se encontram social e historicamente ancoradas sobre as conjunturas
enfrentadas pelas sociedades receptoras. Conforme observou Kazal, o apogeu do
conceito de assimilação ocorreu ao longo dos anos cinquenta e início dos anos
sessenta20, como reflexo da necessidade gerada pela Segunda Guerra Mundial de
unidade nacional e da tendência no pós-guerra de interpretar a história norte-
americana mais como uma narrativa de consensos, do que de conflitos. Em
contraposição, toda a movimentação social do final dos anos sessenta,
acompanhada das reivindicações sobre os direitos de afirmação de grupos
minoritários, favoreceu estudos focados na persistência étnica, questionando
frontalmente o paradigma da assimilação e a noção de uma referência cultural
anglo-americana em direção à qual todos deveriam se aproximar (Kazal, 1995). A
obra que assinala a mudança de tom, defendendo a persistência de identidades
étnicas na sociedade americana foi a de Glazer e Moynihan (1963:v), que
escreveram, em meados dos anos 1960: "the point about the melting pot (...) is
that it did not happen". Surgia assim uma nova perspectiva - de avaliar os
diversos grupos imigrantes e de reinterpretar a história de cada um deles - que
endossava as teses do pluralismo cultural emergente, também às vezes tratado de
modo genérico como multiculturalismo21.
O debate, como era de se esperar, repercutiu, embora tardiamente, na literatura
nacional. Mas a passagem, de um paradigma a outro, não foi brusca, e sim
mediada por aproximações. Assim é que Cardoso (1972:177), atenta às
insuficiências do modelo anterior, na conclusão de seu livro, pôde escrever:
a identidade étnica é uma forma de estabelecer contrastes e separar o
"nós" dos "outros", enfim, situar o grupo dentro do conjunto de
outros que compõem a sociedade. Esta identificação indica a percepção
da situação de contato e leva à utilização e ordenação de categorias
culturais particulares que fundamentam a "consciência étnica". O
objetivo do antropólogo é, na medida do possível, compreender as
significações particulares que este grupo cria e o modo como as
utiliza. Em outras palavras, o grupo étnico manipula formas próprias
de expressão que poderíamos chamar de "ideologia étnica".
Na opinião de Seyferth (2004:18), a mudança de orientação teórica foi mais
perceptível nas abordagens influenciadas por Eisenstadt que, embora tenha dado
maior importância à socialização e à transformação dos valores dos grupos
primários, também observou que os processos de absorção dos imigrantes, ou a
evolução de uma nova estrutura institucional, não eram suficientes para
obliterar as distinções grupais, desenvolvendo-se uma estrutura pluralista em
que emergem identidades separadas22.
De qualquer modo, se, até os anos oitenta no Brasil, a noção de assimilação (ou
de aculturação, em sua variante antropológica) havia dominado o campo dos
estudos migratórios, a partir de então, vários autores passaram a criticá-la
devido a impropriedades em sua utilização e a descortinar um novo campo de
possibilidades ao se revalorizar a experiência específica de cada grupo étnico,
agora fora do paradigma assimilacionista. Seyferth (1988:33), por exemplo,
analisando o significado da pertinência étnica teuto-brasileira, concluiu: "a
cultura original foi transformada e certos valores, ideologias e instituições
de caráter étnico desapareceram ou foram reelaboradas; mas critérios de
instintividade usados para marcar a identidade étnica persistem apesar da
assimilação." Na mesma linha, Fausto (1991:38) observou que "a noção de
pluralismo cultural tem ainda a vantagem de não estabelecer uma constelação
onde se localiza uma grande estrela - a sociedade nacional - para a qual todas
as outras se dirigem, em ritmo mais ou menos acelerado. As relações são vistas
de um modo mais complexo e não são redutíveis simplesmente à polaridade
nacional/estrangeiro".
Truzzi, ao generalizar a partir do estudo das trajetórias dos sírios e
libaneses em São Paulo, concluirá:
para se apreender a diversidade de apelos e de alternativas trilhadas
pelos imigrantes, não é possível se trabalhar com uma perspectiva
assimilacionista que nos conta uma história unidimensional,
desenrolada entre os polos de um passado de tradições deixadas e de
um futuro de integração na nova pátria. Não existiram nem caracteres
culturais importados de modo fixo, nem abrasileiramento (ou
apaulistanização), no sentido tantas vezes subjacente às análises
sobre imigrantes. A pluralidade de combinações entre a herança
cultural e as interações mantidas entre grupos e subgrupos étnicos e
a nova sociedade constitui um processo muito mais rico e contradiz a
noção de um padrão dominante em direção ao qual esses grupos
tenderiam a se aproximar com o tempo. Os imigrantes não
necessariamente foram "assimilados", mas construíram relações sociais
absolutamente originais como estratégias de sobrevivência na nova
terra. Abandona-se, assim, a noção de grupo étnico como a-histórico,
imutável, e sua história pode ser contada, não como um dado, mas como
um processo sujeito a idas e vindas, onde atuam forças centrífugas e
centrípetas (2008a[1993]:281).
Seguiu-se então uma profusão de estudos que ressaltaram a especificidade das
trajetórias e a revalorização das diferenças culturais de cada grupo étnico:
italianos, espanhóis, portugueses, japoneses, sírios e libaneses, alemães,
judeus etc. Houve ganhos evidentes nesse novo olhar, pois tal movimento de
revalorização étnica, que - diga-se de passagem - coincide com a crescente
busca pelo reconhecimento de cidadania estrangeira entre brasileiros
descendentes de imigrantes, vem, de fato, ensejando uma série de novos estudos
que promovem uma releitura das trajetórias dos grupos imigrantes que chegaram
ao país. Traços culturais remanescentes, próprios a cada grupo, que antes eram
vistos ora com preocupação, ora como resquícios culturais marginais de uma
assimilação inarredável, passaram a ser então interpretados sob uma ótica de
resistência cultural ou de afirmação de uma identidade étnica legítima,
constitutiva mesmo de uma sociedade que hoje busca eleger a diversidade e a
pluralidade étnica (e racial) como valores.
Porém, como já assinalou Fernando Pessoa, tudo são maneiras de ver e uma
maneira de ver é também uma maneira de não ver. Assim, o foco centrado nas
comunidades étnicas, nos lugares de concentração étnica ou nas próprias
organizações étnicas colocou na penumbra a ocorrência de processos sociais mais
abrangentes, entre eles a questão de como tais grupos, de uma geração para
outra, se integraram ao tecido social, seja despojando-se de parte de seus
marcadores étnicos, seja habitando em bairros da capital ou em cidades do
interior sem características étnicas, seja incrementando índices de exogamia,
seja formando comunidades, sociabilidades e desfrutando de valores nos quais o
crivo era mais racial ou por classe do que étnico, seja renegociando e
redefinindo estas próprias categorias étnicas e raciais.
De alguma forma, o foco sobre a pluralidade étnica e, por consequência, na
formação, persistência, transformação e relevância de identidades culturalmente
demarcadas, foram e ainda são temas tão recorrentes que, aliados ao criticismo
associado ao modelo clássico de assimilação, acabaram por eclipsar e descartar
toda uma problemática definida sobre modelos de incorporação de imigrantes,
avaliados sob uma perspectiva intergeracional, às sociedades de recebimento. É
sob essa perspectiva que se apresenta hoje uma recuperação do conceito de
assimilação em novos moldes.
RECONCEITUAR O PROCESSO DE ASSIMILAÇÃO
Nos Estados Unidos, no início da década passada, um artigo assinado por Roger
Brubaker (2001:533-534) reconhecia que "a virada diferencialista" dava sinais
de esgotamento e havia atingido uma espécie de turning point, ao mesmo tempo em
que especulava sobre o retorno do conceito de assimilação, ainda que
reformulado sob novas bases: "o que 'retornou' não foi a velha, analiticamente
desacreditada e politicamente condenada compreensão de assimilação, mas outro
entendimento analiticamente mais complexo e normativamente defensá-vel"23. Dois
anos depois, o conceito de assimilação foi definitivamente revisitado nos
Estados Unidos a partir da influente obra Remaking the American Mainstream:
Assimilation and Contemporary Immigration,de Richard Alba e Victor Nee,
publicada originalmente em 2003. O lançamento do livro ensejou uma série de
discussões e reavaliações a respeito do uso do conceito de assimilação na
interpretação de como levas imigratórias são incorporadas às sociedades que as
recebem.
Nele, os autores defendem que o conceito de assimilação, depurado de seus maus
usos, constitui-se no paradigma mais apropriado, não somente para interpretar
as imigrações históricas que a nação americana recebeu, mas também os fluxos
contemporâneos. Ao redefinir assimilação e ao contrapor o conceito, agora
revisto, com outros enfoques alternativos - como o do pluralismo cultural e o
do transnacionalismo - o livro, já em si polêmico por sua ambição, foi, no
entanto, muito bem recebido pela crítica especializada, gerando apreciações
positivas entre sociólogos e historiadores da imigração (Massey, 2004, Barron,
2004; Bean e Stevens, 2004; "Symposium", 2004; Hao, 2005).
É impossível retomar neste artigo todos os argumentos desfilados pelos autores,
mas o ponto central é a retomada do conceito em novas bases, alijado de suas
conotações espúrias que, segundo eles, deturparam-no e condenaram-no. Assim,
Alba e Nee argumentam que o conceito de assimilação, tout court, continua a ser
relevante para explicar a incorporação de imigrantes à sociedade, ainda que
esta não constitua a única possibilidade.
Tomando por base o caso americano, os autores defendem que, embora as
identidades étnicas e raízes culturais possam ter sido valorizadas e
celebradas, a chamada etnicidade tornou-se, com o tempo, um traço menos
decisivo para influir nas trajetórias de vida. Ao contrário, Alba e Nee
defendem a contínua relevância da assimilação, desde que se proceda a uma
reavaliação do conceito, de modo a evitar o etnocentrismo implícito a ele
associado. Buscam por isso construir uma teoria da assimilação que especifique
mecanismos causais e, ao mesmo tempo, evite implicações normativas como a de
que os imigrantes devem inevitavelmente ser assimilados ou implicações
prescritivas, no sentido de haver um único modo ou ritmo de assimilação para
todos os grupos. Assim, reconhecem a assimilação como um dos padrões possíveis
de incorporação, ao lado de outras possibilidades, como o pluralismo/
transnacionalismo étnico (Basch, Glick-Schiller e Blanc-Szanton, 1994; Portes,
2004) ou a assimilação segmentada (Portes e Zhou, 1993)24. O mesmo tipo de
argumento pode ser levantado em outras sociedades que também receberam (ou
recebem) imigrantes, como foi o caso do Brasil (e do Estado de São Paulo, em
particular), entre as últimas décadas do século XIX e o início da Segunda
Guerra Mundial.
Contudo, em relação ao primeiro padrão, pluralista, enfatizam que as
identidades étnicas e as raízes culturais podem ser celebradas no âmbito de
cada grupo, de acordo com o que Gans (1979) denominou "etnicidade simbólica":
uma forma de etnicidade vivenciada por indivíduos que podem "se sentir
étnicos", ocasionalmente em família ou em atividades de lazer, mas que implica
poucos compromissos na vida social do dia a dia. Para brancos, o conceito
semelhante de "opções étnicas" (no sentido que vivências étnicas podem ser
praticadas, mas não de modo obrigatório) foi cunhado pela antropóloga Mary
Waters (1990). Alba e Nee argumentam que, no geral, a assim chamada tecnicidade
constitui um traço pouco decisivo para influenciar as trajetórias de vida de
descendentes de imigrantes, ao contrário do que ocorria na geração de
imigrantes propriamente dita, muito mais dependente de vínculos étnicos para se
inserir no novo país, arrumar trabalho, local de moradia, se socializar, se
reproduzir por casamentos, educar os filhos, atuar politicamente etc. Em
relação ao transnacionalismo, argumentam que, ainda que este possa se
constituir como um fenômeno importante para alguns grupos de imigrantes,
dificilmente o será para a primeira geração nascida nos Estados Unidos, ansiosa
por afirmar sua nacionalidade americana e ser aceita como tal. Assim, ainda que
significativo para a geração contemporânea de imigrantes, quando observado sob
uma perspectiva geracional, a vitalidade do conceito enfraquece.
Promovem então uma reavaliação do conceito de assimilação, procurando evitar o
etnocentrismo implícito nas análises clássicas que estipulavam um padrão para o
qual os imigrantes e seus descendentes deveriam transitar (no caso da sociedade
americana, o que se convencionou chamar de WASP (White Anglo Saxon Protestant);
no caso da brasileira, o europeu branco, preferencialmente católico). Nessa
operação, os traços culturais dos grupos minoritários eram avaliados como
inferiores; aprender um novo estilo de vida era necessário para a plena
aceitação de tais grupos. Consequentemente, forjava-se implicitamente uma
hierarquia de aceitabilidade racial e cultural (de ingleses protestantes a
negros, no caso da sociedade americana; de brancos europeus a negros, no caso
da nacional).
A partir do final da década de 1960, em uma época de movimentos sociais
enfatizando direitos das minorias, de mudanças institucionais propugnando o
reconhecimento e o direito de cada grupo a sua história, o conceito de
assimilação foi condenado pela implicação de que grupos étnicos teriam que
inevitavelmente ocultar seus próprios traços culturais. Os assimilacionistas
foram criticados por não reconhecerem muitas vezes seu papel positivo.
Criticava-se também a natureza unilateral do processo de assimilação proposta
por autores como Gordon (1964): uma minoria deveria mudar completamente a fim
de se assimilar enquanto a maioria (moldada pela cultura anglo-saxônica)
permanecia incólume, como se não houvesse impacto das culturas étnicas sobre a
cultura dominante.
Nos termos de Alba e Nee (2003:11), a assimilação deve ser compreendida e
definida como
o declínio de uma distinção étnica e de suas diferenças culturais e
sociais resultantes. Declínio significa nesse contexto que tais
distinções se tornam menos relevantes, que as ocorrências para as
quais elas são significativas diminuem em número, e que, portanto,
elas produzem efeitos sobre domínios cada vez mais restritos da vida
social. As origens étnicas dos indivíduos tornam-se cada vez menos
relevantes em relação a membros de outro grupo étnico (tipicamente,
mas não necessariamente, o grupo étnico majoritário), e que
indivíduos de ambos os lados da fronteira se veem como cada vez mais
parecidos, assumindo-se como similares em termos de algum outro fator
crítico, como a classe social; em outras palavras, percebem-se
mutuamente cada vez menos em termos de categorias étnicas, a não ser
sob circunstâncias específicas25.
Em um extremo, observa-se uma situação (época) na qual as distinções étnicas
são relevantes para todos os aspectos mais decisivos das trajetórias dos
indivíduos pertencentes ao grupo - onde residem, com que tipo de emprego
sobrevivem, com quem se relacionam, com quem se casam, o que aspiram, o que
celebram etc. - ao passo que, em outro extremo, tais características étnicas
retrocederam em importância, limitando-se a se fazerem presentes apenas em
rituais familiares ou religiosos ocasionais.
Definida nestes termos, a assimilação não requer o desaparecimento da
etnicidade, de modo que os indivíduos, por assim dizer "assimilados", não
possam mais apresentar determinados marcadores étnicos. Não se faz necessário
se despojar de ou negar traços culturais próprios ao grupo e concomitantemente
aprender um novo estilo de vida necessário para a plena aceitação. Não se elege
um modelo cultural particular - no caso americano, os WASPs - como padrão
normativo26. A nova teoria proposta descarta tal tipo de etnocentrismo e
rejeita a natureza unilateral do processo de assimilação presente no velho
conceito. Tampouco compartilha da presunção de que a assimilação trará
homogeneidade cultural onde antes reinava a diversidade.
Uma redefinição do conceito de assimilação, para ser viável - argumentam os
autores - deve reconhecer que:
1) a etnicidade é essencialmente uma fronteira social, uma distinção que os
indivíduos fazem em seu dia a dia, moldando ações e orientações mentais em
relação a outros (Barth, 1998);
2) tal distinção é tipicamente contextualizada numa variedade de diferenças
culturais e sociais entre grupos que emprestam às fronteiras étnicas
significação concreta27, o que leva indivíduos a pensarem algo do tipo "eles
não são como nós";
3) a assimilação, como uma forma de mudança étnica, pode ocorrer através de
mudanças que se dão em ambos os lados da fronteira entre minorias étnicas e
mainstream.
Desse modo, processos de assimilação podem ocorrer não apenas via mudanças em
um grupo que o tornam mais próximo de outro, mas também via mudanças nos dois
(ou mais) grupos, que minimizam suas diferenças entre si. Em resumo, a
assimilação advém muitas vezes de processos de convergência entre grupos. Ao
contrário de uma concepção estreita de assimilação, na qual um grupo adota os
traços culturais de outro, em um processo convergente o impacto de culturas
étnicas minoritárias sobre o mainstream pode ocorrer pela ampliação do que é
considerado comportamento normativo pelo mainstream, portanto elementos de
culturas minoritárias podem ser incorporados à cultura central para criar uma
cultura composta. Tal processo refaz o repertório de atitudes, valores, gostos
e preferências, preconceitos, elementos de cultura popular, mitos etc, que
passam a ser incrementalmente incorporados e refazem o mainstream.
E o que é o mainstream? É simples e pragmaticamente definido pelos autores como
aquela parte da sociedade no interior da qual as origens étnicas e raciais
apresentam um impacto menor sobre oportunidades ou trajetórias de vida dos
indivíduos. Segundo os autores, os fundadores da escola de Chicago também
enfatizaram uma concepção de mainstreamvista como cultura composta decorrente
da interpenetração de diversas práticas e crenças culturais. Esse sentido,
porém, foi deixado de lado por outros autores, influenciados pelo funcionalismo
de Parsons28, que canonizaram uma teoria da assimilação baseada em hierarquias
de aceitabilidade racial e cultural - de protestantes ingleses a negros, no
caso americano.
Neste ponto, fica evidente a importância da noção de fronteiras sociais entre
grupos, em particular os processos de diluição e mudança, capazes de alterá-
las. Após constatar que o mainstream muda quando elementos da cultura dos novos
grupos são a ele incorporados29, Alba e Nee argumentam que a alteração de
fronteiras ocorre segundo três tipos ideais:
1) Cruzamento de fronteiras(ou assimilação ao nível individual): ocorre quando
alguém muda de um grupo para outro sem que a fronteira realmente mude. Por
causa disso, tal possibilidade não altera a ordem relativamente estável da
estratificação étnica30.
2) Obscurecimento de fronteiras: ocorre quando o perfil social de uma fronteira
se tornou menos nítido, quando a clareza de uma distinção social se tornou mais
nuançada. É a típica mudança invocada em misturas raciais (casamentos
exogâmicos) em escala significativa, formando um grupo intersticial, que quebra
a rigidez da divisão étnica ou racial. Tal possibilidade altera a ordem estável
da estratificação étnica. Ocorre, por exemplo, com casais de diferentes origens
religiosas: as fronteiras não desapareceram, mas os casais participam de ambas
tradições religiosas. Nesse caso, apenas a situação de contato entre grupos não
é condição suficiente. O fator-chave é o contato entre membros de diferentes
grupos com statusigualitário, mantido e produzido em uma escala apreciável por
oportunidades socioeconômicas e residenciais disponíveis para cada um, às vezes
apoiadas por mecanismos de cumprimento de direitos igualitários (proibição de
segregação residencial, por exemplo). Se as interações ocorrem em uma escala
substancial, o obscurecimento da fronteira tende a ocorrer, produzindo em
membros de grupos distintos a percepção de que as diferenças são menores que as
imaginadas. Grupos então que eram vistos em determinada época como etnicamente
ou racialmente diferentes passam a ser percebidos como mais próximos ao longo
do tempo.
3) Mudança de fronteiras: ocorre quando se trata efetivamente de uma
relocalização da fronteira, de modo que grupos antes situados de um lado são
agora incluídos de outro. Outsiders são assim, de uma época para outra,
transformados em insiders.
Conforme já observado, tais categorias funcionam como tipos ideais: na prática,
qualquer análise de um processo de assimilação envolve os três processos acima
apontados.
Os autores investem então em deslindar os chamados mecanismos de assimilação -
um repertório de processos, operando aos níveis individual, de grupo e
institucional - que moldam as trajetórias de adaptação dos imigrantes e seus
descendentes. Os mecanismos individuais e de grupo são configurados pelas
formas de capital (social, econômico e educacional) que estes possuem, enquanto
os mecanismos estruturais de assimilação se orientam por arranjos
institucionais do estado, das empresas e do mercado de trabalho.
Assim, a assimilação, definida como a atenuação de distinções baseadas em
origens étnicas, não se apresenta como resultado inevitável, universal, da
trajetória de grupos minoritários. Os indivíduos ou famílias agem segundo as
formas de capital (econômico, educacional, social etc.) de que dispõem e também
segundo suas crenças culturais - costumes, normas sociais, leis, ideologia e
religião - que moldam percepções de autointeresse. Tomam suas decisões em um
contexto de racionalidade limitada, confrontando riscos e informações
disponíveis, de acordo com suas percepções de custos e benefícios. Se as
decisões tomadas levam a um resultado benéfico, o grupo tende a reforçar tais
escolhas.
Desse modo, para Alba e Nee, a assimilação aparece como um processo
incremental, que ocorre a diferentes ritmos entre indivíduos e grupos. Tampouco
pode ser caracterizado como um processo intencional, mas sim concebido como
efeito cumulativo de decisões pragmáticas que os indivíduos e grupos tomam em
determinados contextos institucionais historicamente variáveis. Tais decisões
são operadas na maior parte dos casos no âmbito familiar, que é em última
análise quem responde pela sobrevivência e busca da melhoria das condições de
vida dos indi-víduos31. Não há um único mecanismo causal, mas sim um conjunto
de mecanismos que varia segundo grupos étnicos e raciais, forjando modos de
incorporação distintos, ora pautados por padrões iniciais de incorporação mais
coletivistas (nos quais as famílias dependem inicialmente mais do grupo étnico)
ou mais individualistas (nos quais a incorporação ao mainstream transita por
fora do grupo). De modo geral, quando barreiras discriminatórias bloqueiam um
padrão individual de mobilidade social, a assimilação, quando ocorre, depende
de estratégias coletivas. O mais comum, porém, é se observar, no dia a dia dos
grupos étnicos, um misto entre estratégias coletivas e individualistas. Pode-se
pensar, por exemplo, no caso paulista, como os imigrantes europeus no pós-
abolição se distanciaram coletivamente dos negros para ganhar aceitação social,
impedindo casamentos e interações inter-raciais. Ou ainda, como alguns grupos
de imigrantes investiram mais que outros em uma estratégia de inserção de seus
filhos no mercado de trabalho como profissionais liberais.
Ao propugnar uma assimilação inevitável, os ideólogos do assimilacionismo
ignoraram que, em alguns casos, o grupo étnico, ao dominar nichos econômicos,
pode constituir a fonte de melhores oportunidades para empreendedores étnicos,
diminuindo riscos e incrementando as chances de sucesso32. Além disso, o grupo
pode prover modos não econômicos de contribuir para o bem-estar de seus
membros, como prestar solidariedade e apoio a indivíduos com quem se
compartilha um senso de ancestralidade comum.
Para completar, os mecanismos que desencadeiam processos de alteração de
fronteiras, que lastreiam a assimilação assim conceituada, não dependem
unicamente da agência de indivíduos (ou, coletivamente, de grupos de
indivíduos), mas também de processos estruturais e institucionais que oferecem
(ou denegam) oportunidades. Entre eles, os mais importantes dizem respeito às
políticas reguladoras do mercado de trabalho (que coíbem ou incentivam nichos
ocupacionais), às políticas educacionais e culturais mantidas pelo Estado, às
políticas públicas capazes de assegurar33 a extensão de direitos
constitucionais a minorias étnicas e raciais (aumentando o custo da
discriminação), e às mudanças de valores de modo geral na sociedade (como o
declínio de ideologias racistas, ou a valorização da diversidade, por exemplo).
Assim, a capacidade e a vontade de grupos estabelecidos como maioria em
resistir e excluir recém-chegados podem retardar a assimilação. Ao contrário, o
combate à discriminação e a afirmação de direitos civis para quaisquer grupos,
independentemente de suas origens, tornam as fronteiras institucionais do
mainstream mais abertas, favorecendo uma gradual assimilação. Também o
crescimento econômico pode ser visto como condição estrutural para uma
assimilação em grande escala, ao propiciar a abertura de novos espaços, o
desenvolvimento de novos setores, de alguma forma incentivando imigrantes com
vocação empreendedora34.
Temos então um conjunto de causas próximas, moldadas pelas formas de capital
que indivíduos e grupos possuem, e outro conjunto de causas estruturais,
expressas em políticas institucionais do Estado, dinamismo econômico e valores
sociais. Da interação entre estas duas esferas, que variará de grupo para
grupo, de lugar para lugar e de época para época, a assimilação, com seu ritmo
específico para cada combinação, poderá surgir como uma das possibilidades de
incorporação de minorias étnicas e raciais ao mainstream.
Desse modo, o esquema proposto é suficientemente flexível para acolher
diferenças tanto no que diz respeito a trajetórias distintas de indivíduos (no
interior de um mesmo grupo), quanto entre diferentes grupos étnicos ou raciais.
Em ambos os casos, as trajetórias efetivamente desenvolvidas de incorporação
dos imigrantes e de seus descendentes à nova sociedade serão bastante
influenciadas pelas formas de capi-tal35 que indivíduos e grupos possuem ao
aportarem ao novo destino: qualificação da força de trabalho, escolaridade,
experiência profissional (urbana ou rural) anterior36, vitalidade das redes de
acolhimento étnico etc. Ao mesmo tempo, não se ignoram as influências do papel
do Estado na formulação de políticas públicas e de outras características da
chamada sociedade receptora.
Os autores em questão concedem que, embora os modelos de incorporação
alternativos - pluralista/transnacional e segmentado - possam apresentar suas
próprias esferas de validade, nenhum deles exclui a circunstância de que a
assimilação jogou um papel central no passado e provavelmente também o fará no
futuro com os novos imigrantes. Assim, apesar das críticas precisas recebidas
dos pluralistas, argumentam que a vitalidade do conceito de assimilação não
perdeu sua utilidade para iluminar e esclarecer as experiências dos imigrantes
a longo prazo na nova sociedade.
Embora a obra de Alba e Nee tenha sido amplamente discutida e acolhida com
entusiasmo nos meios acadêmicos norte-americano e europeu, infelizmente no
Brasil - país que, entre os anos de 1880 e 1940, alinhou-se entre os três que
mais receberam imigrantes do estrangeiro - até agora tais discussões não
reverberaram na pauta dos estudos migratórios, quer da época, quer atuais.
Do mesmo modo, na historiografia da imigração argentina, a rígida oposição
entre assimilação e pluralismo como alternativas de interpretação da
incorporação de imigrantes à sociedade nacional perdeu fôlego na última década.
A própria fundação da sociologia acadêmica nesse país, por Gino Germani, fora
originalmente tributária de uma concepção que atribuía à assimilação dos
imigrantes um papel central, uma mediação necessária ao problema que de fato
interessava a Germani: a transição da Argentina tradicional à Argentina
moderna37. Assim, a afirmação da assimilação era necessária porque permitia
designar ao imigrante europeu o papel principal de agente modernizador
(Germani, 1987; Devoto, 1992; Jorrat e Sautu, 1992). A partir dos anos oitenta,
no entanto, essa visão idílica em relação a uma assimilação precoce e bem-
sucedida na sociedade argentina e, sobretudo, portenha, passou a ser
crescentemente criticada a partir de estudos historicamente mais precisos que
enfatizaram a baixíssima participação política dos imigrantes, o forte
associativismo étnico, as altas porcentagens de retorno, a vigência de
preconceitos, os limites à mobilidade social etc. Polarizou-se então um debate
entre assimilacionistas e pluralistas, no qual o que estava em disputa não era
propriamente se havia ocorrido ou não a assimilação, mas a que ritmos, segundo
quais compassos e intensidades diferentes dependendo do grupo, de sua época de
chegada, segundo que dinâmicas regionais próprias etc., abrindo-se uma pauta
distante de uma trajetória-padrão única de assimilação unânime e uniformemente
trilhada38.
Pode-se agregar a tais considerações que os assimilacionistas enfatizaram mais
os resultados do que os processos e que os pluralistas prestaram mais atenção
às fases iniciais que às diferenças finais nos processos de incorporação dos
grupos imigrantes à sociedade (Devoto e Otero, 2003). Por outro lado, é
razoável supor que, pelo menos a curto prazo - e aqui os prazos são avaliados
em termos de gerações (isto é, pelo menos para a primeira e segunda gerações)
-, em nenhuma sociedade existe uma plena assimilação ou um pleno pluralismo. Ao
contrário, estes deveriam ser encarados como tipos ideais, como instrumentos de
análise teórica, como padrões que facilitam a comparação entre grupos distintos
e entre sociedades receptoras distintas, e não como realidades absolutas e
diretamente observáveis. Assim, também na sociologia histórica argentina, a
polaridade entre partidários das perspectivas as-similacionista e pluralista
arrefeceu e as apreciações por demais dicotômicas e generalistas a esse
respeito abrandaram, cedendo lugar a estudos de natureza mais empírica, muitas
vezes recortados regionalmente, que explorassem o que efetivamente ocorreu no
que diz respeito às dimensões mais comumente exploradas em estudos do gênero:
padrões ocupacionais, pautas matrimoniais, aglomerações residenciais,
sociabilidades e inserção política dos diferentes grupos de imigrantes, vis-à-
vis à sociedade nativa.
Da mesma forma, em artigo recente que analisa o caso uruguaio e, em particular,
as estratégias matrimoniais de italianos, espanhóis e seus descendentes em três
regiões deste país, Michael Goebel pôs em dúvida a noção de que assimilação e
ascensão social, por um lado, e segregação étnica e exclusão socioeconômica por
outro, caminhem paralelamente, tal como supuseram os assimilacionistas
clássicos. Contudo, confirma, sob uma perspectiva de longo prazo, e por meio de
uma variedade de caminhos, a importância decrescente do pertencimento étnico
como fator determinante na vida social de imigrantes italianos, espanhóis e
seus descendentes no Uruguai. Argumenta então este autor que "pluralismo étnico
e assimilação, ao invés de se apresentarem como opostos irreconciliáveis,
interagem de modo complexo, mas o fazem de maneira que em última análise
resultam em um declínio, ainda que não no desaparecimento completo, da origem
étnica como marcador identitário" (Goebel, 2010). Assim, após um longo período
de desprestígio, o termo "assimilação" parece experimentar certa revalorização
no mundo acadêmico anglo-saxão, especialmente nos Estados Unidos, ao mesmo
tempo em que se procura reavaliar sua pertinência em sociedades platinas.
Na literatura nacional, contudo, tal reapreciação do conceito de assimilação
ainda não chegou. O próprio uso do termo é condenado corriqueiramente como
sinônimo de etnocentrismo e intolerância. No campo disciplinar da sociologia,
da antropologia e da história das migrações no Brasil, o que hoje se assiste é
a adoção - diga-se de passagem, muito bem vinda - de uma visão relacional do
mundo social, incorporando-se o conceito de redes aos estudos migratórios.
Assim, a inclusão de critérios interacionais (conteúdo, intensidade, duração e
frequência de contatos), o problema da difusão da informação (para migrar,
casar e obter emprego, por exemplo), a par de outras dimensões, testemunham o
esforço (e o desafio) de como integrar dimensões relacionais a fatores
estruturais clássicos (demográficos, econômicos e sociais), comumente presentes
nas análises do tipo push-pull (fatores de atração e repulsão) nos estudos
migratórios (Truzzi, 2008b; Martes e Fazito, 2010).
Não há nada, contudo, que procure reavaliar a experiência de recepção de
imigrantes estrangeiros, tão decisiva na formação da população paulista e de
outras regiões brasileiras, à luz desses novos desenvolvimentos teóricos
ocorridos na última década. Sem pretender negar a enorme contribuição que
estudos específicos aportaram para a elucidação e revalorização das identidades
étnicas peculiares a cada grupo, não se pode deixar de reconhecer, sobretudo
quando analisada sob uma perspectiva geracional e macro, a prevalência, a longo
prazo, de um processo de assimilação no contexto nacional, desde que entendido
sob a nova ótica proposta por Alba e Nee, de declínio progressivo (e
multilateral) de uma distinção étnica e de suas diferenças culturais e sociais
resultantes.
Desse modo, é preciso situar a experiência nacional de incorporação de
imigrantes frente ao que vem sendo debatido em outras sociedades receptoras,
como os Estados Unidos, a Argentina e o Uruguai. Além disso, a própria
experiência nacional é extremamente diferenciada: o que ocorreu no Estado de
São Paulo39 também merece ser confrontado com a experiência de incorporação de
imigrantes em outros estados da Federação, como os da região sul e o Espírito
Santo, nos quais também houve imigração expressiva, mas não vigeu o regime de
colonato característico da economia cafeeira de São Paulo.
CONCLUSÕES
Expurgado de seus elementos apócrifos, o conceito de assimilação vem
recuperando terreno na análise de processos migratórios, sem que isso
signifique abrir mão do conceito de etnicidade. Como precisamente observou
Giralda Seyferth (2004:23) referindo-se aos autores que trabalharam no
paradigma vigente até os anos 1980, assimilação (ou aculturação), por um lado,
e etnicidade, por outro, não são fenômenos mutuamente excludentes.
É falacioso considerar esta abordagem teórica imprópria face aos
criticismos advindos dos conceitos de identidade e etnicidade que
reconfiguraram as análises de contextos multiculturais ou
multiétnicos (...). Torna-se necessário lembrar que esses
pesquisadores [referindo-se aos que trabalharam com o conceito de
assimilação] estavam mais interessados nos processos de mudança
social e cultural que conduzem à integração do imigrante no país de
acolhida, e menos preocupados com a pluralidade cultural e étnica do
Estado-nação imigrantista e assimilacionista. [Ou ainda:] o período
que alguns analistas da colonização assinalam como início do processo
de assimilação (ou de aculturação) dos imigrantes é também o da
formação das identidades étnicas - processos que, sem paradoxos a
considerar, são concomitantes, desde que não se perceba o primeiro
como tendo sentido único e irreversível (Sey-ferth, 2000a:149).
A reconceituação do termo assimilação sob as novas bases propostas por Alba e
Nee abre a possibilidade de reconciliar estas duas perspectivas, sem incorrer
aos etnocentrismos que o antigo conceito de assimilação implicava. A crítica ao
antigo conceito, ainda que justa e producente do ponto de vista de fomentar uma
grande quantidade de estudos sobre diversos grupos migratórios, de algum modo
produziu o efeito de se "descartar a criança junto à água do banho". À luz da
nova orientação do conceito proposta, etnicidade e assimilação não se
apresentam como irreconciliáveis e a afirmação e reconhecimento do primeiro não
implica necessariamente desqualificar a problemática da incorporação, a longo
prazo, de imigrantes a um determinado tecido social. Como bem assinalou Fausto
(1991:38), a adoção da primeira perspectiva "não importa em negar o fato óbvio
de que, nas condições de São Paulo, se deu um profundo inter-relacionamento
entre a sociedade nacional e as várias etnias e destas entre si".
A ressignificação do conceito de assimilação proposta por Alba e Nee abre,
pois, uma dupla agenda de trabalho. Do ponto de vista da sociologia histórica
das migrações, importa reavaliar a experiência migratória dos diferentes grupos
que acorreram às diferentes regiões do país (e especialmente ao Estado de São
Paulo), sobretudo na época da imigração em massa, situada, grosso modo, entre
1880 e 1940, próximo à eclosão da Segunda Guerra Mundial. Na verdade, esse
período se refere à chegada dos imigrantes, mas para dar plena consequência às
formulações propostas por estes dois autores, seria necessário ir pouco mais
além, investigando também o que aconteceu com a primeira geração nascida no
Brasil, em particular o modo como cada grupo, com suas características próprias
(época de chegada, inserção socioeconômica e backgroundsculturais distintivos),
interagiu com distintas conjunturas decorrentes de políticas de estado
(imigratórias, reguladoras do mercado de trabalho, ou de maior ou menor
tolerância em relação a estrangeiros), e foi "assimilado," isto é, que
processos presidiram a quebra de fronteiras, de modo bilateral, entre cada
grupo e o restante da sociedade. Em outras palavras, como cada grupo ou
segmento de grupo (por exemplo, localizado na capital, ou no interior, neste em
zonas mais antigas ou mais novas, em áreas rurais ou urbanas) transitou de um
regi-me onde o crivo étnico pautava as agendas culturais, de inserção econômica
(trabalho) e de sociabilidade (associativismo, casamento, moradia etc.) para
outro regime (mais pautado por critérios de classe) no qual aquele pouco
interferia no cotidiano concreto dos indivíduos, a não ser pela remota alusão a
uma origem comum.
Seria ingênuo, e por demais generalizante, supor que cada grupo ou fração
deste, tenha experimentado o mesmo tipo de trajetória e enfrentado os mesmos
dilemas, neste processo, independentemente dos atributos relativos às suas
características próprias - isto é, de quando chegou e de uma certa estrutura de
capitais que o singulariza -, em interação com o restante da sociedade e com as
políticas de estado singulares a cada época. A respeito da relevância destas
últimas, basta lembrar as mudanças decisivas concernentes às políticas
migratórias nacionais ocorridas ao longo dos anos trinta. Tal agenda de
trabalho não deve se esgotar na análise dos processos estruturais e
institucionais envolvidos nesta "assimilação", mas também contemplar uma
análise comparativa das formas de capital detidas por cada corrente étnica ao
chegar ao Brasil. Tal análise mostra-se especialmente oportuna devido ao seu
grande potencial heurístico, já que pode permitir um aporte crítico mais agudo
em relação às ideologias nativas de cada etnia acerca do "sucesso" ou
"fracasso" de cada corrente imigratória que se estabeleceu no país.
Por outro lado, do ponto de vista da sociologia dos fluxos migratórios atuais,
ainda que estes sejam menos relevantes numericamente, importa analisar e
avaliar as possibilidades de "assimilação" que se apresentam, segundo essas
mesmas características próprias a cada grupo. Será que, por exemplo, bolivianos
e coreanos, chegados a São Paulo em décadas mais recentes, embora possam
trabalhar no mesmo bairro do Bom Retiro, apresentam experiências e estratégias
de inserção social comuns? Se ocorrer, suas famílias e seus filhos são ou serão
incorporados ao mainstream da sociedade paulistana da mesma forma? Guardam (ou
se despojam de) suas características étnicas distintivas seguindo um mesmo
padrão e com a mesma intensidade? E o que dizer dos imigrantes africanos
chegados há menos tempo? E os muçulmanos instalados no Brás, em Santo Amaro e
imediações, ou na região do ABC, que ganham a vida comercializando roupas e
móveis? Terão as mesmas estratégias de seus conterrâneos instalados em Foz do
Iguaçu? O fim de uma conjuntura recessiva, muito presente até os anos noventa,
e a retomada recente do emprego e do crescimento econômico, ao acelerar a
mobilidade, vêm favorecendo a incorporação de imigrantes ao tecido social? Há,
portanto, uma pauta evidente de questões que merecem ser mais bem analisadas à
luz do novo conceito de assimilação proposto por Alba e Nee e das novas
reflexões que vêm sendo reelaboradas tendo por base o mesmo tema da
incorporação de imigrantes ocorrida nos países platinos. Por sua relevância e
peculiaridades, o caso nacional - ou melhor, os casos nacionais em suas
variantes regionais específicas - podem contribuir para a formulação de teorias
mais amplas na área dos estudos migratórios, ao mesmo tempo em que o novo
conceito de "assimilação" pode contribuir para uma compreensão mais refinada de
nossa(s) experiência(s) específica(s) de incorporar imigrantes ao tecido
social. O desafio, para os que se dedicam à sociologia das migrações, é fazê-
lo.
NOTAS
* Este artigo foi parcialmente desenvolvido no projeto Observatório das
Migrações em São Paulo: Fases e Faces do Fenômeno Migratório no Estado de São
Paulo, coordenado por Rosana Baeninger e apoiado pela Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Agradeço pelos comentários recebidos
tanto por ocasião da reunião do GT Migrações Internacionais da Associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) em 2011,
quanto dos pareceristas da Dados que o avaliaram.
1. Preservar no sentido de impedir a imigração de grupos alienígenas dotados de
características físicas e culturais muito distantes do padrão nacional. Tomem-
se, como exemplo, os debates sobre a imigração de chineses ao final do Império
e de japoneses ao final dos anos trinta.
2. Para uma visão aprofundada de como tais teorias se difundiram e foram
apreendidas não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, consultar
Stepan (2005).
3. Em seus termos, "quanto aos estrangeiros, (...) que se vão espalhando por
todo o país, especialmente o Norte e o grande Oeste. Nada de aglomerá-los às
dezenas e centenas de milhares de uma só raça nas quatro províncias do sul"
(Romero, 1959:38). Consultar também a dissertação de Pinto (1996:130).
4. Nesse sentido, afasta-se da visão de outros cientistas da época, como o
médico baiano Nina Rodrigues, que adere às teorias de Lombroso e Gobineau,
interpretando a mestiçagem como modelo de degenerescência.
5. Para uma análise pormenorizada dos argumentos utilizados por Vianna,
consultar Ramos (2003).
6. Consultar as citações de Miguel Calmon, Gilberto Amado, Basílio de
Magalhães, Afrânio Peixoto e José Maria Belo trazidas ao texto de Skidmore
(1976).
7. Consultar também Lima e Hochman (1996).
8. Como observou Skidmore (1976:216), ao final dos anos vinte, a confiança no
embranquecimento progressivo do país já permitia o reconhecimento de que "o
africano havia dado estimável contribuição à construção do Brasil, mas era um
elemento étnico inferior", o que o excluía a priori da definição de uma
política imigratória, apesar de a vinda de qualquer contingente ser, àquela
altura, altamente improvável.
9. Cf. cap. II, art. 3o, alíneas f e g, respectivamente, do decreto que
instituiu o Conselho.
10. A esse respeito, Willems (1951:209) observou, por exemplo, em tom ao mesmo
tempo crítico e irônico, que, no Brasil, "assume-se que estes grupos devem ser
'absorvidos', 'digeridos', 'diluídos' ou qualquer que seja a metáfora
biologicamente ou quimicamente colorida utilizada para indicar que os grupos
alienígenas devem cessar de existir como unidades socioculturais distintas, e
se fundir na sociedade brasileira sem deixar padrões divergentes no todo
nacional".
11. Além da referência acima, consultar também Seyferth (2000b:48-49).
12. Acompanhando Pereira (1994:250), pode-se assim dizer que os estudos de
Willems sobre os alemães jogam "com três vertentes temáticas - etnia, vida
rural e comunidade". Igualmente, Melatti (1984) observou que alguns trabalhos
sobre aculturação de imigrantes alemães, japoneses e italianos tomaram a forma
de "estudo de comunidade". Este autor arrola uma série de estudos de comunidade
focados em grupos de imigrantes.
13. Willems (1947). No cenário da sociologia paulista à época, a tradição dos
estudos de comunidade era mais forte na Escola Livre de Sociologia e Política,
trazida pela presença do próprio Willems e de Donald Pierson, ambos
influenciados pela Escola de Chicago (Limongi, 2001).
14. Schaden publicou um artigo comparando a aculturação de alemães e japoneses
na Revista de Antropologia.
15. Vide também Durham (1982).
16. Consultar, por exemplo, em Hollanda (1979) o capítulo dedicado a analisar o
trabalho de Willems sobre Cunha. Outro tipo de crítica, distinta, foi a
formulada por Guerreiro Ramos (1954:78), para quem uma sociologia engajada
politicamente deveria buscar soluções para os problemas nacionais.
17. Percebe-se já aqui a influência de sociólogos, como Eisenstadt, sobre o
trabalho de antropólogos, em uma perspectiva que buscasse entender como
processos socioeconômicos poderiam explicar transformações culturais. Tudo isso
em contraposição aos estudos de aculturação de caráter mais estático e
descritivo que, como Willems acreditava, devia suas causas últimas a processos
psíquicos de ajustamento de valores e atitudes.
18. Mais uma vez, o próprio título de sua dissertação de mestrado (Assimilação
e Mobilidade: A História do Imigrante Italiano num Município Paulista) refletia
tal perspectiva de análise.
19. Não por acaso, mais tarde, ambas seriam responsáveis pelo desenvolvimento
de linhas de pesquisa em antropologia urbana durante as décadas de 1970 e 1980
na USP.
20. Embora muito influente, a obra de Milton Gordon, anteriormente citada e
publicada em 1964, já marca o declínio de tal concepção.
21. Para distinções mais precisas entre os termos, consultar Cashmore (1996:
275-276; 244-246).
22. Para ela, as obras no Brasil mais influenciadas por este autor foram as de
Vieira (1973) e de Rattner (1977).
23. Após distinguir entre dois significados para o termo assimilação - o
primeiro abstrato e geral, no sentido de significar aumento de similaridade ou
semelhança; o segundo específico e orgânico, no sentido de converter e absorver
- o autor defende, julgando mesmo indispensável, a utilização sociológica do
conceito no primeiro sentido (Brubaker, 2001:544).
24. Resumidamente, o chamado modelo pluralista advoga a conservação ou mesmo o
incremento das características étnicas de cada grupo e das fronteiras entre
grupos, ao longo de gerações; o transnacionalismo, por sua vez, chama a atenção
para a referência identitária e cultural simultânea a países de origem e
destino dos imigrantes; enquanto o modelo da assimilação segmentada enfatiza a
consolidação de um determinado grupo como minoria prejudicada e marginal,
impossibilitada de ascender socialmente de uma geração à outra.
25. Como, por exemplo, guerras no país de origem que mobilizam a etnicidade dos
grupos imigrados.
26. No caso nacional, Seyferth (1999; 2000b) mostra, por exemplo, como as
identidades dos imigrantes colidiram com os preceitos de abrasileiramento no
contexto da imigração para o sul do Brasil.
27. Como uma pessoa é tratada pela sociedade depende não do que ela é, mas da
maneira pela qual é definida (cf. o conceito de definição da situação,
desenvolvido por Mead (1934)).
28. Neste, a sociedade é entendida como sistema social homogêneo, integrado por
normas e valores centrais, no qual o equilíbrio estável entre estruturas e
funções dos subcomponentes do sistema sustentam a ordem social. Tal noção é
perfeitamente compatível com a noção que enxerga a cultura e sociedade da
classe média anglo-americana como ponto final da assimilação.
29. Apresentando uma série de dados empíricos, os autores argumentam, por
exemplo, como após a Segunda Guerra Mundial, judeus e católicos e, mais
recentemente a partir dos anos setenta, asiáticos, foram incorporados ao
mainstream americano, caracterizando efetivamente processos de alteração de
fronteiras.
30. Embora, se isso acontecer em larga escala, a estrutura social será
alterada.
31. Os autores mostram, por exemplo, como, ao longo do tempo, a decisão de
passar a residir em zonas mais afastadas do centro da cidade, favoreceu o
relacionamento, como vizinhos, de grupos de origens étnicas e raciais diversas
e, por consequência, a assimilação.
32. Sem prejuízo do reconhecimento, também, da existência de mecanismos de
exploração de conterrâneos, no interior do próprio grupo.
33. Além da política em si, é muito importante aqui seu enforcement, ou seja, o
monitoramento e a exigência de cumprimento da mesma.
34. Recorde-se aqui que economias em pleno crescimento garantem espaço para
todos, abrindo oportunidades e fazendo com que os imigrantes possam conquistar,
sobretudo, posições novas no tecido social, sem necessidade de deslocar velhas
elites (Hutchinson, 1959). Tal situação de mobilidade, como já se viu, pode
obviamente contribuir para a assimilação.
35. Nos termos de Pierre Bourdieu, das estruturas de capitais (econômico,
social, político e cultural) apresentadas.
36. É interessante mencionar aqui o quanto, por exemplo, as trajetórias de
mobilidade social das chamadas etnias comerciais (sírios, libaneses, judeus,
armênios etc.) se assentaram sobre experiências com o comércio ou com um modo
de vida urbano, adquiridas ainda na terra de origem.
37. A esse respeito, é notável o paralelismo com Florestan Fernandes no tocante
ao papel de agente modernizador atribuído à burguesia imigrante (sobretudo em
relação aos negros) em A Revolução Burguesa no Brasil.
38. Consultar, por exemplo, os numerosos artigos publicados em Estudios
Migratorios Latinoamericanos, revista sediada em Buenos Aires e especializada
no tema.
39. Que tampouco pode ser tratado indistintamente, no mínimo devendo-se
distinguir o espaço polarizado pela capital das zonas mais antigas do interior
e das zonas mais novas a oeste do estado.