Expertise e participação da população em contexto de risco nuclear: democracia
e licenciamento ambiental de Angra 3
INTRODUÇÃO
No presente artigo, o objetivo é discutir a especificidade da participação de
cidadãos com relação ao monitoramento dos riscos tecnológicos, especialmente o
"risco nuclear", com base em uma situação empírica, qual seja, a audiência
pública para o licenciamento ambiental da usina nuclear Angra 3, terceira
unidade da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), situada no
município de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
As audiências públicas para o licenciamento de atividades poluidoras, bem como
os estudos de impacto ambiental (os chamados EIA), passaram a ser procedimentos
exigidos por lei a partir de 1986, quando o Conselho Nacional do Meio Ambiente
(Conama) instituiu política nacional compreendendo a avaliação de impactos
ambientais. Assim, a audiência pública visa permitir ao órgão licenciador - no
caso, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) - um diagnóstico dos
impactos que o empreendimento pode causar. Durante a audiência, a população e
setores do poder público se manifestam, e o Ibama pode concluir pela concessão
ou pela negação da licença ambiental.
Ao longo de 2007 ocorreram quatro audiências públicas para o licenciamento
ambiental prévio da usina nuclear Angra 3, todas com o mesmo teor, objetivando
a discussão do Relatório do Estudo de Impactos Ambientais sobre a implementação
dessa unidade1. Estive presente na quarta audiência pública, ocorrida em 26 de
novembro de 2007 na cidade do Rio de Janeiro, a que me refiro constantemente ao
longo deste texto2.
A especificidade sobre a qual versa o presente artigo, e que foi expressa na
demanda favorável ao monitoramento, por parte da população, do funcionamento
das atividades da central nuclear, surgida ao longo das audiências públicas
para o licenciamento de Angra 3, diz respeito ao fato de esse acompanhamento
implicar necessariamente a mediação de um experto, já que o tipo de poluição
produzido por uma usina nuclear - a radiatividade - não é perceptível pelos
sentidos. Para sua detecção e aferição, é necessária a intervenção de um
técnico com seus instrumentos de medida - os "órgãos sensoriais da ciência"
(Beck, 2001:355). Somente assim podem ser atestadas a presença e a quantidade
de determinados átomos. É essa forma de mensuração, com peritos e instrumentos
adequados, que faz a eventual desconfiança sobre o mau funcionamento de uma
usina ultrapassar o plano da suspeita. Assim, a participação requerida pela
vigilância dos riscos nucleares não pode dispensar o recurso à expertise (e
também à contraexpertise), já que, ao contrário do que encontramos no exercício
da "ciência do concreto" (Lévi-Strauss, 1976), os sentidos (olfato, tato,
paladar, audição e visão) são ineficazes para o estabelecimento de critérios
classificatórios.
Um dos temas predominantes na audiência pública para o licenciamento de Angra 2
foi a fragilidade do Plano de Emergência Externo (PEE) (Leite Lopes et alii,
2006), imprescindível para a concessão da licença para a operação das usinas. O
mau estado da estrada (Rodovia Rio-Santos, BR-101) que permitiria a evacuação
da população circunvizinha à central, em caso de pane, era realmente um tendão
de Aquiles, capaz de inviabilizar a licença ambiental que foi concedida sob a
condição de as obras serem feitas na rodovia. A análise desse processo e a
detalhada etnografia sobre tal audiência podem ser encontradas em estudo
anterior (idem, ibidem), que evidenciou como o prefeito da cidade de Angra dos
Reis soube fazer do problema do Plano de Emergência um motivo para que a
empresa se dispusesse a dialogar com associações locais e com a própria
prefeitura.
Na medida em que o espaço de uma audiência pública é utilizado essencialmente
pelas associações de moradores e pela população para que requeiram serviços
urbanos que o poder público não dá conta de prestar, a existência do risco fica
secundarizada. Embora o PEE evoque a existência de um risco, as discussões
ocorridas por ocasião do licenciamento de Angra 2 diziam respeito ao bom estado
da estrada, de grande importância para o município, e não a algum aspecto
substantivo do Plano. Pleitear a favor de um controle popular sobre o
funcionamento das usinas é ver, no risco, uma questão em si, e não apenas
um meio de melhorar condições de vida. Assim, o presente texto considera que a
demanda por controle social, o que torna imprescindível a mediação de um
experto, significa uma mudança na forma dessa participação que, ao exigir a
possibilidade de acompanhar a operação da central, acaba por "desnaturalizar"
(Leite Lopes et alii, 2000; Leite Lopes, 2004; Leite Lopes, 2006) a existência
do risco nuclear. Para a construção de tal argumento, as formas de controle
social engendradas na França servirão de contraponto (ver Silva, 2007).
Neste artigo, é considerado ainda que discutir a mudança na qualidade da
participação implica lidar com a questão teórica evocada pelo papel do experto
em contendas desse tipo. Com base em diversos autores, longe de ver o experto
como um porta-voz da ciência, sem nenhum viés ideológico ou político, será
mostrado, por um lado, como o exercício da expertise evidencia a perda do
monopólio da produção da verdade por parte da ciência; por outro, como os
expertos se tornam partes indispensáveis em disputas de interesses.
As audiências públicas para a construção de Angra 3 constituíram um
procedimento posterior a todo um complexo processo decisório cuja análise está
para além do escopo deste estudo, envolvendo diversos agentes formuladores de
políticas nacionais para o setor nuclear, culminando na aprovação da construção
da mencionada usina pela Comissão Nacional de Política Energética Nuclear.
Também não é meu intuito, neste artigo, mapear todas as posições e esboçar uma
etnografia nos moldes do que já foi feito sobre o licenciamento de Angra 2
(Leite Lopes et alii, 2006), pois, por um lado, a delimitação do objeto do
presente texto se perderia e, por outro, seria um esforço redundante na medida
em que há grande semelhança entre ambos os contextos. Por exemplo, a audiência
pública para o licenciamento de Angra 3, bem como a relativa à Angra 2, foi
organizada para viabilizar o projeto a ser licenciado, e em ambas o
empreendedor amenizou os impactos negativos (idem, ibidem:371). O regulamento
dos eventos foi igualmente idealizado a fim de evitar a discussão ideológica e
favorecer o discurso considerado "puramente técnico", como se este último
pudesse existir independentemente da dimensão política. Em estudos anteriores,
verificou-se que tal embate é, mesmo, cuidadosamente evitado por seus
promotores nesse tipo de evento, seja no Brasil (Leite Lopes et alii, 2006),
seja na França (Silva, 2007).
A grande diferença entre as duas situações é que, nas audiências relativas à
Angra 3, surgiu, como já mencionado, um novo tema, de caráter nitidamente
político, ou seja, a demanda por um controle social do funcionamento da
central. Essa novidade propicia reflexões sobre a adoção desse tipo de
tecnologia relacionadas tanto ao tipo de poluição que ela provoca quanto às
possibilidades de setores da população se articularem com cientistas que sirvam
de mediadores no monitoramento das atividades das usinas nucleares brasileiras.
AS AUDIÊNCIAS PARA AS ANGRAS: DA COMPENSAÇÃO AMBIENTAL AO CONTROLE SOCIAL
O Brasil vem construindo, desde a década de 1970, sua central nuclear,
denominada Almirante Álvaro Alberto e localizada no município de Angra dos
Reis3, que, além de dispor de outras indústrias de grande porte, apresenta
também a singularidade de, nas últimas décadas, ter sido palco de diversas
experiências consideradas "participativas", como o plano diretor da cidade4 e a
implementação de uma Agenda 21, bem-sucedida em um primeiro momento. A central
possui duas usinas - Angra 1 e Angra 2 - e empreende as obras de Angra 3,
última unidade prevista para o sítio.
A operação das usinas nucleoelétricas nacionais esteve, até agosto de 1997, a
cargo de Furnas Centrais Elétricas S.A., empresa criada em 1957 e que,
inicialmente, foi incluída no programa de privatização lançado na década de
1990 pelo governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). As atividades
nucleares são monopólio do Estado, garantido pela Constituição Federal, e o
setor não foi incluído no plano de privatização. A diretoria nuclear de Furnas
foi então desmembrada, originando a empresa de capital misto - "estatal" -
Eletronuclear (ETN), que, além do setor nuclear de Furnas, incorporou a
Nuclebrás Engenharia (Nuclen)5. Apesar de Furnas não ter sido privatizada, a
ETN se estabeleceu como uma empresa independente e cuja criação é entendida
como uma conquista importante por seus funcionários:
Para o setor nuclear foi extremamente importante a existência da
Eletronuclear. O setor nuclear era um patinho feio em Furnas. Hoje é
uma grande empresa e efetivamente conseguiu concluir a unidade 2.
Provavelmente, se não tivesse sido criada a empresa, levaria muito
mais tempo para construir esta unidade. Então, para o setor nuclear,
foi importante criar a empresa e ainda para nossa sorte não
conseguiram privatizar Furnas. A empresa tem problema financeiro;
quando houve a cisão, estabeleceu uma tarifa abaixo das suas
necessidades. Isso é um problema, mas na verdade a tarifa só foi
estabelecida para bancar o custo de operação. Então nunca houve risco
na operação da usina. Agora o problema é que tem outros custos. Nós
somos agora uma empresa subsidiária da Eletrobrás; como é Furnas
(depoimento de um alto funcionário da ETN)6.
No momento inicial de sua construção, a CNAAA foi considerada por seus
promotores um projeto benéfico para o "desenvolvimento" do país e da região.
Essa ideia foi suficiente para que o governo militar decidisse por sua
instalação (cf. Oliveira, 1989; Malheiros, 1993). Entretanto, na década de
1980, com a aprovação da legislação ambiental e a criação do Conama, a ETN teve
de começar a lidar com uma nova maneira de aprovar seus empreendimentos7. Para
o licenciamento de Angra 2, que entrou em operação em janeiro de 2001, a
empresa se submeteu a procedimentos inexistentes em 1985, quando Angra 1 foi
inaugurada. A Lei Orgânica do Município de Angra dos Reis, reformulada em 1990,
passou a estabelecer que novas usinas, para serem instaladas ali, deveriam
requerer à municipalidade alvará de licença para funcionamento.
O município não recebia da central nuclear, de propriedade de uma empresa
estatal, que tanto havia alterado seu cenário, nenhum tipo de contribuição
financeira. O primeiro prefeito a buscar uma fórmula que amenizasse tal
ausência foi João Luiz Gibrail (1983-1985). Furnas (por meio da diretoria que
hoje compõe a ETN) passou a manter "convênios" com a prefeitura de Angra dos
Reis, renovados, com algumas interrupções, desde a gestão de Gibrail.
A empresa assinou inicialmente um convênio de cooperação objetivando a
organização da Defesa Civil do município, em função do Plano de Emergência,
necessário para remediar casos de acidentes com vazamento radiativo. Visava
também auxiliar a municipalidade na promoção de infraestrutura (postos médicos,
escolas e rede de esgoto sanitário) em povoados próximos à central nuclear -
Frade, Mambucaba e Perequê. Assim, o convênio se convertia na solução de
problemas criados, pelo menos em parte, pela própria instalação da central.
Do início de sua construção, quando se apresentava somente em seus aspectos
positivos, associados ao "desenvolvimento", até a assinatura desse primeiro
acordo, houve um crescente reconhecimento de que aspectos "negativos" também
acompanhavam a instalação das usinas no local. Embora os mais sentidos fossem
de ordem urbanística, causados pelo afluxo de imigrantes de outras cidades e
estados brasileiros que vinham se empregar como trabalhadores da construção
civil, havia o risco nuclear propriamente dito, que não recebia a mesma
atenção. O PEE, por exemplo, só recebeu um tratamento mais cuidadoso quando da
construção de Angra 2, por exigência da nova legislação.
Quando Neirobis Nagae, membro do Partido dos Trabalhadores (PT) e militante
político egresso do movimento ambientalista e antinuclear local, foi eleito
prefeito de Angra dos Reis (1989-1992), preocupou-se em exigir um Plano de
Emergência exequível. Entretanto, a pretexto de seu passado político, a central
suspendeu os convênios que mantivera até então com a prefeitura e só lentamente
voltou atrás. Na gestão seguinte, o prefeito que o sucedeu, Luiz Sergio Nóbrega
de Oliveira (1993-1996), também do PT, assinou com a ETN (Furnas, na época)
convênio de valor maior (cf. Ribeiro, 2005:84). A prefeitura, por sua vez,
pediu a assessoria da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia
(Coppe - atual Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação em Engenharia)/
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para propor uma reformulação do
PEE.
Por um lado, uma nova legislação, que garante a participação da municipalidade
e da população no processo de licenciamento; por outro, os mencionados
convênios, que podem ser suspensos a qualquer instante. Ambos criaram um
contexto ideal para negociações entre prefeitura, população em geral e empresa
em momentos de expansão da central. Assim, quando se começava a construção de
Angra 2, a prefeitura pôde embargar, judicialmente, as obras civis, apoiando-se
no fato de que legisla sobre o território do município. A empresa teve então de
entrar com um pedido de licença de construção na prefeitura e se submeteu ao
processo de licenciamento exigido por lei. Com provas de força de ambos os
lados, empresa e municipalidade iniciaram, na época, um novo entendimento, em
que esta última exigia ressarcimento dos "impactos", por meio de outros
"convênios", e exequibilidade para o PEE, ao passo que a primeira conquistava a
ampliação de suas instalações.
No entanto, observa-se que, enquanto a existência de impactos urbanos negativos
foi sendo admitida ao longo do tempo pelos diretores da empresa, não se
estabeleceu nenhum tipo de taxa obrigatória (royalties, por exemplo) a ser paga
à municipalidade. Para alguns vereadores e líderes locais, uma cobrança desse
tipo seria uma forma de amenizar os chamados impactos urbanos. Ainda em 1999,
objetivando sensibilizar o Congresso Nacional para a assinatura de lei que
estipulasse o pagamento de royalties pela central, a comissão municipal de meio
ambiente angrense promoveu um fórum de debates específico para essa discussão
com congressistas, no qual os deputados Laura Carneiro (Partido da Frente
Liberal - PFL) e Antônio Feijão (Partido da Social Democracia Brasileira -
PSDB) estiveram presentes, sem ter tido, entretanto, nenhum resultado prático.
O instrumento de "compensação ambiental", conforme o que estabelece o Ibama ao
longo do processo de licenciamento ambiental, refere-se à aplicação de um
percentual da receita da indústria na manutenção de reservas indígenas e de
unidades de conservação8, nada estipulando com relação aos chamados problemas
urbanos do município. A empresa argumenta que cumpre rigorosamente a lei
destinando um percentual de sua receita para o financiamento de áreas de
preservação e conservação.
Assim, não existindo nenhum dispositivo legal que regulamente especificamente
uma forma de amenizar os chamados impactos urbanos, há o constante empenho por
parte dos prefeitos na tentativa de substituir os convênios (opcionais) por
taxas ou impostos (obrigatórios), âmago da tensão existente entre central
nuclear e prefeitura. Após três mandatos do PT, a eleição de um prefeito do
Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Fernando Antônio Ceciliano,
para o período 2001-2004, reeleito para 2004-2008, não alterou a tensão
existente com a continuidade ou não dos 22 convênios firmados entre empresa e
prefeitura em mandatos anteriores.
Antes mesmo dos acordos sucessivos com o município, a CNAAA, ao ser instalada,
já havia construído, na década de 1970, colégios e postos de atendimento médico
para os moradores das vilas residenciais. Ainda hoje, os dois colégios
estaduais são mantidos pela central, e o hospital de Praia Brava - atualmente
uma fundação - passou a integrar o Sistema Único de Saúde (SUS), complementando
as ações da rede municipal de saúde. Esses serviços foram assim gradualmente
sendo abertos aos habitantes das comunidades vizinhas, conforme o estabelecido
em um dos convênios assinados. Portanto, o que era destinado inicialmente ao
atendimento de seus empregados passou a ser incorporado ao conjunto de
benfeitorias - ou de "contrapartidas" - que a empresa dirige à população
angrense e é sempre objeto de renegociação em momentos de ampliação da central.
Nos últimos sete anos, visando a uma maior aceitação de sua presença no local,
a ETN tem buscado se aproximar diretamente da população por meio de uma prática
denominada "atendimento". A empresa financia iniciativas locais, tais como
camisetas para times de futebol, ônibus para excursões escolares e festividades
diversas. Pesquisas sobre os programas de responsabilidade social da empresa
(Ribeiro, 2005) evidenciam que, embora pouco enfatizado ou divulgado, um
importante critério para a aprovação dos pedidos feitos pelos habitantes é sua
proximidade para com o reator. Quanto mais perto o morador estiver da central,
mais chance terá de ver sua solicitação atendida. Uma interpretação possível
para esse critério é que o reator leva à naturalização do risco ao ampliar as
vantagens de quem mora próximo à central. Além da proximidade com hospital e
colégios, pode-se usufruir o atendimento para as iniciativas locais (idem,
ibidem).
Com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006), um ex-
prefeito de Angra dos Reis, pertencente ao mesmo partido político do presidente
eleito (PT), foi convidado para integrar a diretoria da ETN. Com a experiência
de doze anos de envolvimento com a prefeitura da cidade (como secretário
municipal, como vice-prefeito e, finalmente, como prefeito), o ex-prefeito
assumiu a Direção de Administração e Finanças da ETN. Criou-se também uma
assessoria voltada especialmente para as ações que visam compensar dos
"impactos" as prefeituras de Angra dos Reis, Rio Claro e Paraty. Houve, então,
a conformação, dentro da empresa, de um setor especificamente voltado para as
ações compensatórias. Essa iniciativa parece decorrer de um uso específico da
"política", que então passa a ser um mecanismo autorizado e privilegiado para a
construção da relação da empresa com os moradores locais.
Embora a empresa tenha feito um grande movimento com o propósito de se
aproximar da população de Angra dos Reis, o PEE continuou sendo o tendão de
Aquiles da ETN. Como ficou evidenciado em estudo anterior (Leite Lopes et alii,
2006), nas audiências para o licenciamento de Angra 2, o principal tema era a
exequibilidade do Plano de Emergência, cuja credibilidade estava sempre
ameaçada pelas quedas de barreira na estrada Rio-Santos, provocadas pelas
chuvas. Contudo, como será visto a seguir, essa situação sofreu modificações
perceptíveis nas audiências para o licenciamento prévio de Angra 3, nas quais o
tema das "compensações" e do PEE dividiu espaço com o do "controle social".
Essa mudança é de capital importância para a compreensão da natureza da
participação dos cidadãos com relação ao risco nuclear, como se quer evidenciar
aqui.
Diferentemente do que ocorre no Brasil, não há, na França, nenhuma forma de
compensação material dos riscos advindos das centrais nucleoelétricas. Ainda
que se considere que as grandes somas de impostos pagos pela central à
municipalidade possam ter a mesma função, a prática compensatória explícita não
é bem-vista, como conta um líder sindical, funcionário aposentado da companhia
Eletricidade de França [Électricité de France - EDF], em uma entrevista:
A EDF disse: "Nós vamos fazer um traçado de um perímetro de certa
área e quem estiver dentro dessa área terá uma conta de eletricidade
menos cara". Mas o Conselho de Estado, que é um organismo nacional,
disse: "Não. Isso vai contra o princípio da igualdade. Não há motivo
para que uma pessoa que viva ao lado da central pague menos caro do
que outra que viva a alguns quilômetros". Talvez eles tenham dito
também: "Se fizermos isso para as pessoas que moram perto, talvez
tenhamos de fazer para o trem que passa e, bom, a gente entra em uma
engrenagem que não tem mais fim". Então, na França não há compensação
financeira individual (sr. M.; tradução da autora).
Podemos entender a expressão "compensação financeira individual" como um
mecanismo de criar distinções entre parcelas da população que estariam assim
vitimadas, precisando de um ressarcimento. O que o entrevistado ironicamente
observa também é que, sob um argumento tão louvável, pode existir outro, de
ordem econômica. Se os vizinhos mais próximos da central são compensados
rotineiramente, isso poderia dar margem a outros tipos de reivindicação de
moradores mais distantes, mas passíveis de serem afetados.
Na França, portanto, não existem mecanismos econômicos expressamente declarados
de compensação do risco nuclear, uma vez que essa prática compensatória é
entendida como de inspiração contrária à ideia de igualdade entre os cidadãos.
Entretanto, além de medidas prévias que amenizem os efeitos sociais negativos
provenientes da instalação de uma central, há grande vantagem financeira para
as municipalidades que hospedam usinas, pois recebem impostos calculados sobre
a produção energética das centrais nucleares. Mas são impostos que incidem
sobre toda a atividade industrial, sem nenhuma correlação com uma possível
compensação por impactos ambientais. Como as centrais são instaladas em cidades
pequenas, estas aumentam sua arrecadação de forma que um município de 5 mil
habitantes arrecade o equivalente a um de 15 mil (Silva, 2007).
Até que se tenha uma lei que regulamente o pagamento de royalties, o debate
sobre formas de compensação monetária devida pela empresa à municipalidade de
Angra dos Reis vai estar em curso, bem como haverá suspeitas sobre a
exequibilidade do PEE enquanto houver usinas nucleares. A construção da
cidadania no Brasil, no entanto, torna possível o alargamento de temas trazidos
à tona nesses espaços de aprendizado coletivo (Leite Lopes et alii, 2006:387).
Durante a quarta audiência pública para o licenciamento ambiental de Angra 3,
membros da Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (Sape) fizeram repetidas
intervenções a fim de manifestar suspeitas sobre a exequibilidade do Plano de
Emergência, mas igualmente argumentaram favoravelmente à existência de
mecanismos de controle social das atividades da central, acompanhados pelo
representante da Associação dos Quilombolas do Campinho da Independência.
Contudo, o diretor da ETN, que compunha a mesa da audiência, argumentou pela
inutilidade de tal acompanhamento, já que para tanto seria indispensável o
conhecimento técnico do funcionamento do reator. A fala do diretor foi
implicitamente contestada quando representantes da Procuradoria-Geral da
República (PGR) e do Ministério Público (MP) deram importante apoio à demanda.
Também o secretário de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro, presente na
audiência, além de solicitar informações sobre o cumprimento das compensações
estipuladas pelo MP por parte da Eletronuclear, manifestou-se favorável ao
monitoramento, pela sociedade, do funcionamento das usinas.
Como já se observou por ocasião da audiência pública para o licenciamento
ambiental de Angra 2, ocorrida em 1999 (Leite Lopes et alii, 2006), o evento
aqui em foco, de novembro de 2007, também extrapolou seu principal objetivo - a
discussão do Relatório de Impacto Ambiental -, dando oportunidade para
manifestações de diversas ordens por parte das associações presentes. Foi
totalmente surpreendente, entretanto, ele ter sido igualmente palco para a
exposição de pendências internas ao próprio universo nuclear, o que também
aponta para a mudança que se quer evidenciar neste artigo. As audiências para a
terceira unidade da central não abandonam as questões relativas às
"compensações", cujo histórico foi sucintamente abordado anteriormente, e que
ficaram em evidência nos procedimentos para o licenciamento da segunda unidade.
Essas questões, porém, ampliaram o leque de problemas, incorporando discussões
específicas à dimensão propriamente tecnológica do empreendimento.
Um físico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), sentado no espaço da
audiência reservado aos funcionários da CNEN e da ETN, e, portanto, engrossando
as fileiras daqueles que eram favoráveis ao empreendimento, usou do microfone
para, em tom exaltado, criticar a superposição de tarefas assumidas pela CNEN:
produzir e fiscalizar. Afirmou o físico que era inaceitável, do ponto de vista
do bom funcionamento das atividades nucleares no Brasil, não haver completa
independência institucional para a fiscalização. Acrescentou que os fiscais,
como ele próprio, não tinham poder no exercício de seu trabalho e que
irregularidades observadas na fiscalização ficavam, por isso, muitas vezes
impunes. O que o funcionário - e representante sindical do setor - expunha
então era uma suposta inadequação na forma de funcionamento da gestão
institucional do risco. Assim, juntamente com a conformação mais nítida da
demanda por meios de controle social, ganhavam terreno também as vozes
descontentes do mundo nuclear.
Embora a inspiração institucional brasileira relativa à organização das
atividades nucleares seja norte-americana9, nos Estados Unidos, as usinas
nucleoelétricas são geridas por empresas privadas; da mesma forma, a
fiscalização é realizada por empresas particulares e independentes entre si
(Bourrier, 2004). No Brasil, o Estado produz, por meio da ETN, ao mesmo tempo
que fiscaliza, por meio da CNEN. Portanto, enquanto a ETN é responsável pela
produção energética, a fiscalização de toda a atividade e de todas as
instalações nucleares em solo brasileiro é de responsabilidade da CNEN,
autarquia criada em 1956 e ligada atualmente ao Ministério da Ciência e
Tecnologia. A própria CNEN, contudo, além de órgão fiscalizador, é também
proprietária da Indústria Nuclear Brasileira, localizada no município de
Resende, que, entre outras funções, produz pastilhas de combustível para as
usinas de Angra dos Reis. Essa superposição, no entanto, não é
especificidade brasileira, ocorrendo também na França.
O PAPEL DO EXPERTO
Diversos autores discutem o papel e a importância do experto - também referido
como técnico, cientista, especialista ou ainda perito - no processo de
monitoramento de riscos contemporâneos decorrentes do processo de
industrialização, bem como em disputas concernentes à chamada "questão
ambiental". O assunto é extremamente rico porque seu exame relaciona
necessariamente reflexões concernentes à construção da democracia e seus
limites com questões de ordem epistemológica, aí incluídas as críticas à
assunção da ciência como a única forma de produção de conhecimento verdadeiro
sobre o mundo e seu modelo disciplinar. Entre as visões dos autores aqui
referidos há tanto pontos de consenso quanto de divergências, algumas de grande
e outras de menor importância, que mereceriam uma confrontação acurada em
estudo voltado especialmente para tal exame. Assim, para mantermos o foco da
análise, obras que seriam indispensáveis, no caso de uma discussão
epistemológica mais abrangente (por exemplo, Bourdieu, 2000; 2007),
permanecerão apenas como fonte de inspiração implícita. Neste artigo, será
suficiente delinearmos pontos úteis para a compreensão do que seja o exercício
da expertise.
Funtowicz e Ravetz (1985; 1993) argumentam que há um esgotamento normal da
ciência, considerando a acepção proposta por Thomas Kuhn. Os autores trabalham
a ideia da possibilidade de outra forma de produção científica, a ciência pós-
normal, que procuraria organizar a complementaridade entre as racionalidades
científica e social, e aquela proposta pela propalada interdisciplinaridade, em
voga a propósito de problemas ditos ambientais, cujo grau de complexidade
requer a confluência de especialistas diversos. Também para Roqueplo (1992), a
abordagem interdisciplinar não pode fundar sua objetividade sobre os métodos de
validação da ciência clássica: a interdisciplinaridade deve sua autoridade às
qualidades subjetivas daqueles que a elaboram, apontando também para a
necessidade de novas bases para a produção científica.
Nesse mesmo sentido de crítica epistemológica, Beck (2001; 1994; 1995) e Latour
(1994; 1998; 2002; 2004) apresentam, em seus respectivos trabalhos, uma densa
análise sobre a ciência e o papel que ela desempenha em uma sociedade
democrática. Para Beck, a ciência é hoje uma das causas dos riscos industriais,
além de ser o meio de defini-los e a fonte para solucioná-los (2001:341). Em
virtude disso, ela abre novos mercados para si mesma. Beck afirma que a ciência
lidava com um mundo "dado" e passou a lidar, reflexivamente, com seus próprios
produtos, gerando o processo de autodesmistificação e a perda do monopólio da
produção do conhecimento: assim, a ciência tornou-se cada vez mais necessária e
cada vez mais insuficiente para produzir verdades. Explica ainda que essa
mudança é produto da reflexividade do desenvolvimento tecnocientífico nas
condições de uma "sociedade de risco" (ibidem:52; tradução da autora). Esse
quadro caracteriza o que Beck denomina "cientização secundária, ou reflexiva".
Para o autor, as ciências abandonaram seu fundamento de lógica experimental e
mantêm uma "união polígama com a economia, a política e a ética", vivendo uma
espécie de concubinato permanente com elas (ibidem:53; tradução da autora);
pensando tal poligamia como algo nocivo, acredita que o projeto iluminista de
modernidade esteja inacabado. A cientização primária, que caracterizou a
modernização da sociedade industrial até a primeira metade do século XX,
extraía sua dinâmica da oposição, hoje questionada, entre profanos (leigos) e
expertos. Beck conclui que os riscos, centro das atenções no período de
"modernização reflexiva", trazem a incerteza, destroem o padrão de
transformação intradisciplinar dos erros e dissolvem o modelo de cientização
primária, com suas relações de poder harmoniosas, entre profissões, negócios,
políticas e esfera pública. Beck clama então por um "segundo Iluminismo" (2003:
203) que ultrapasse o primeiro, acrescentando ao projeto de uma ciência
investigativa a dimensão reflexiva. Os riscos não seriam mais "externalidades"
a serem alienadas do produto final da ciência: "Estou convencido de que as
ciências precisam de um movimento e inclusive de uma divisão internos que
absorvam mais a reflexividade da sociedade de risco na lógica da ação
científica investigativa e técnica [...]. Para mim, essa seria uma peça
importantíssima na construção do segundo Iluminismo" (ibidem:208; tradução da
autora).
Latour (2004) afirma que a denominada "crise ambiental", característica do que
Beck chama de "sociedade de risco", é na verdade uma "crise de objetividade",
já que a ciência perdeu a capacidade de produzir um único e incontestavelmente
verdadeiro saber sobre a natureza, o que garantia para si a capacidade de
explicação objetiva. Embora sua visão se aproxime da de Beck no que diz
respeito ao papel central ocupado pela ciência em meio à propalada "crise",
dele se distingue bastante quando argumenta sobre a impossibilidade de separar
fatos de valores. Latour afirma que, apesar de a ciência supor tal separação,
esta permanece restrita à ordem do discurso, jamais tendo sido realizada na
prática (ver sobretudo Latour, 1994; 2004). A crítica que faz com relação à
ecologia política justamente se fundamenta no fato de essa disciplina se
sustentar sobre tal oposição, sendo, por isso, absolutamente incapaz de definir
o bem comum para uma natureza desumanizada. No entanto, para Latour, ela faz
algo melhor do que defender a natureza ao questionar as certezas concernentes
ao bem comum, seja ele entendido como o dos homens (bem social), seja o das
coisas (bem natural) (2004:37). Embora a ecologia política, afirmando falar em
nome da natureza, mantenha viva a dicotomia que, segundo Latour, levou aos
impasses hoje chamados "ecológicos", ela proporciona também o questionamento
dessas compartimentações.
A crítica que Latour faz ao pensamento moderno (e à ciência) não pode ser
confundida com aquela encontrada entre os construtivistas, pois afirma que,
quanto mais se fala de uma "construção" da natureza, mais se deixa de lado o
que se passa realmente na natureza abandonada à ciência e aos cientistas. Para
o autor, a realidade não é redutível à sua representação, tampouco é a
representação um filtro do real como se fossem entidades distintas: "Por que
falar de coisas ou de suas representações simbólicas? [...] Crer que existem
duas posições, o realismo e o idealismo, a natureza e a sociedade, é a fonte
essencial do poder simbolizado pelo mito da Caverna10 e que a ecologia política
deve hoje desmistificar [laïciser]" (ibidem:53; tradução da autora).
Para Latour, são os "coletivos" - conjuntos de humanos e não humanos, nos quais
se delibera sobre um bem comum (ibidem:351) - que podem assegurar a superação
das dicotomias modernas, incluindo a que separa ciência e representação ou
realidade e simbolismo. Para o autor, não se trata de uma sociedade ameaçada,
recorrendo, pela expertise, a uma natureza objetiva, mas de um coletivo em via
de expansão: as propriedades dos seres humanos e não humanos sobre os quais
esse conjunto deve deliberar não estão nunca irreversivelmente delimitadas;
sempre podem ser expandidas. Afirma que, de fato, existe a realidade exterior,
mas essa exterioridade não é jamais definitiva; apenas demonstra a existência
de novos não humanos, antes não incluídos no trabalho do coletivo (ibidem:57).
O coletivo assume a indissociabilidade entre fatos e valores. Conclui: "A
natureza é objetiva, mas domesticada, e esse é um novo tipo de exterioridade.
Os fatos não servem como prova, só como complicadores" (ibidem:55).
Se os fatos não servem como prova, então, como encarar o papel dos expertos?
Ao mesmo tempo que há uma crítica bastante difundida com relação à ciência como
fonte única de produção de verdade, vários autores observam que ela se tornou a
linguagem comum, constituindo a forma de conhecimento indispensável para a
solução das questões consideradas "ambientais". É indiscutível, pois, a
generalização do discurso científico pelos diversos setores da sociedade:
Revelemos, de início, um paradoxo. Enquanto durante os anos 1960 as
ações coletivas organizadas em torno da questão da defesa do meio
ambiente criticavam profundamente os saberes científicos e técnicos,
além do modo de desenvolvimento social que eles propunham, as
traduções dessas reivindicações em política pública desembocaram, ao
contrário, em um recurso crescente aos expertos, engenheiros e
técnicos, verdadeiros detentores dos reinos de um ecopoder também
crescente (Lascoumes, 1994:8; tradução da autora).
Atualmente, todos aqueles que querem protestar contra as usinas nucleares,
contra o aquecimento global ou ainda contra os organismos geneticamente
modificados devem fazê-lo com base em argumentos científicos. Beck (2001)
considera que os objetivos e os temas do movimento ambientalista foram
gradualmente descolados de situações concretas, e demandas isoladas deram lugar
a protestos gerais contra as condições e os pré-requisitos da industrialização.
Os protestos passaram a ter como alvo ameaças invisíveis e intangíveis para o
público leigo, ameaças que atingem os manifestantes e seus descendentes (Beck,
ibidem:354).
Assim como Lascoumes (1994), Beck constata que muitas das ameaças ambientais
requerem o apelo aos expertos porque inviabilizam qualquer possibilidade de
percepção direta. Isso em nada diminui a importância do protesto leigo, mas
mostra sua dependência com relação a mediações científicas e suas medições.
Outra constatação, também consensual para os autores aqui referidos, é que,
muitas vezes, os cientistas, ao serem chamados para dar um desfecho a um
debate, reiniciam outros, já que o grau de incerteza sobre os objetos
científicos aumenta, dando margem a cisões entre os pontos de vista dos
diferentes expertos. Em substituição ao monopólio de uma visão científica,
ocorre então o apelo à sua pluralidade, propiciando a confrontação entre
expertise e contraexpertise, isto é, mensurações e hipóteses de cientistas que
podem estar em contradição entre si:
A incerteza não estabelece apenas problemas de decisão [...] ela é,
com a multiplicação de controvérsias, um dos fatores que contribuem
para o ingresso da ciência em meio ao debate social e para turvar as
fronteiras entre cultura e natureza, apagando os limites
cuidadosamente traçados entre medo e saber. Contribui para que o
sonho positivista de uma sociedade governada pelo verdadeiro e pelo
falso se confronte com a imagem de uma ciência tornada refém,
instrumento de um jogo social em que se enfrentam poderes públicos,
grupos de pressão e científicos, jogo no qual os expertos e a mídia
ocupam doravante um lugar central (Theys e Kalaora, 1992:5; tradução
da autora).
Corroborando as respectivas visões de Latour e Beck com relação à existência de
uma ciência em crise ou questionada por seus efeitos reflexivos, Ravetz (1992),
Theys e Kalaora (1992), Roqueplo (1992) e Ewald (1992), em textos voltados
especificamente para a questão da expertise, evidenciam como o experto não pode
mais ser visto como o detentor da verdade, sendo antes um dos diversos atores
que participam dessa construção. Para esses autores, os representantes da
ciência acabaram por exceder a tarefa original de produção do saber para
exercer um poder despótico, típico da cientização primária (se quisermos usar
os termos de Beck), sobre outras formas de conhecimento. O experto, portanto,
não deve ser visto pelas partes envolvidas em uma querela como aquele que pode
dar a última palavra: "[...] dar incondicionalmente fé à palavra do experto, em
nome de sua competência, é assumir risco também enorme de se remeter a um tipo
de despotismo esclarecido que, dessa vez, se estende a todo o planeta" (Theys e
Kalaora, 1992:5-6; tradução da autora).
O recurso à expertise e à contraexpertise pode levar a um real confronto entre
as informações divulgadas por indústrias, tais como uma central nuclear, e as
que podem ser obtidas por outras fontes, como laboratórios considerados
"independentes". É verdade que a divergência pode decorrer da má-fé - uma
indústria interessada em manter seus lucros nega os efeitos danosos da poluição
que provoca -, mas não é isso que está em discussão. Frequentemente as visões
díspares decorrem do grande grau de incerteza com que lidam hoje os cientistas.
Nesse sentido, Nelkin e Pollak (1981) afirmam com ironia que sempre há
cientistas para falar a favor e outros para falar contra. Acrescente-se a isso
o fato de haver, além da científica, outras formas de racionalidades em jogo
que devem ser levadas em consideração para a tomada de uma decisão política,
como bem observam Theys e Kalaora:
A partir do momento em que a comunidade científica aceitar como não
absurda a ideia de que a opinião geral pode ter razões que não são
necessariamente as mesmas que as suas - como o fato de que, na
Suécia, três quartos da população foram desfavoráveis ao nuclear,
enquanto três quartos das instituições científicas foram favoráveis
-, um diálogo entre culturas (a do visível e a do invisível) poderá
ser estabelecido e servir de base para uma verdadeira democracia
esclarecida (1992:40; tradução da autora).
Há portanto muitas divergências entre cientistas e seus pares, entre leigos
entre si e entre cientistas e leigos para serem conciliadas. Para tanto, surgem
diversas alternativas de reuniões democráticas feitas justamente com o
propósito de concertação, como são as audiências públicas. Callon, Lascoumes e
Barthe, refletindo sobre a realidade francesa, propõem a construção de uma
"democracia técnica" (2001:326), entendendo que profanos e cientistas podem
contribuir para o avanço da ciência discutindo, de forma ampla, problemas em
que a incerteza é grande em espaços que denominaram "fóruns híbridos", base da
mencionada "democracia técnica", em que há a tradução do jargão científico para
uma linguagem acessível ao leigo. Callon considera, com outros autores (Callon
e Rip, 1998; Callon, Lascoumes e Barthe, 2001), que há uma tendência crescente
de formação desses espaços assim definidos
fóruns porque são espaços abertos, onde grupos podem se mobilizar
para debater escolhas técnicas que comprometem o coletivo. Híbridos
porque os grupos comprometidos e seus porta-vozes são heterogêneos;
neles se aglutinam expertos, homens políticos, técnicos e profanos,
que se consideram concernidos pelo problema. Híbridos também porque
os problemas abordados e as questões levantadas se inscrevem em
registros variados que vão da ética à economia, passando pela
fisiologia, física atômica e eletromagnetismo (Callon, Lascoumes e
Barthe, 2001:36; tradução da autora).
Os fóruns híbridos são então dispositivos de elucidação e, para seu
funcionamento, devem pressupor que a verdade nunca está apenas em um dos lados.
Por esse mesmo motivo, pelo apreço ao exercício da pluralidade, Callon,
Lascoumes e Barthe observam que os atores comprometidos em uma controvérsia
sociotécnica não podem aceitar o monopólio dos expertos (ibidem:60). Para
Callon e Rip (1998), ainda é preferível falar de expertise a falar de experto,
pois a expertise é o produto do trabalho de um fórum híbrido no qual são
confrontadas as visões de profanos e expertos, seus métodos e instrumentos de
trabalho:
A expertise envolve não somente humanos (os atores do fórum híbrido),
mas também os artefatos técnicos (sistemas peritos, instrumentos de
medida...) nos quais se encontram incorporados e estabilizados
procedimentos legitimados de análise, conhecimentos plausíveis,
verdadeiros protocolos. A expertise é o conjunto do dispositivo
sociotécnico que cria condições para a produção do acordo (ibidem:
181; tradução da autora).
Uma das principais preocupações de Callon e Rip é mostrar como os profanos
podem incorporar a linguagem técnica e ampliar o conhecimento científico em
"laboratórios" heterodoxos, montados informalmente por cidadãos envolvidos em
conflitos ambientais, no sentido amplo do termo. Os leigos podem adquirir bom
conhecimento sobre o assunto e somar seus esforços aos dos pesquisadores.
Para os autores citados nesta seção, é consenso que a participação democrática
não pode ser conquistada se a ciência anular outras formas de racionalidade. As
acusações de ignorância contra os leigos são argumentos de autoridade da parte
de empreendedores e cientistas na disputa política por seus interesses. Isso
motiva reflexões como as de Beck, Funtowicz, Ravetz, Callon e Lascoumes, em sua
tentativa de idealizarem formas de construção da ciência em que outras
racionalidades serviriam de complemento.
Frequentemente, a oposição ao projeto de implementação e de aumento da central
nuclear brasileira é vista por seus empreendedores como fruto de
"desconhecimento" e de "ignorância" (Silva, 1999a). Contudo, a audiência
pública ocorrida em 26 de novembro de 2007, para o licenciamento prévio da
usina nuclear Angra 3, não foi tão marcante por esse tipo de postura por parte
dos técnicos, revelando uma alteração no comportamento dos representantes da
empresa ao lidar com os oponentes do projeto. No evento, os cientistas/
engenheiros da central nuclear puderam ziguezaguear com desenvoltura entre os
"fatos" e "valores", somando às argumentações tecnicamente embasadas outras, de
ordem social, tais como o compromisso de oferecerem novas vagas de emprego aos
moradores locais. Os profanos, ao contrário, necessitam, para seu zigue-zague,
de um experto que faça a tradução, como pleitearam representantes da Associação
dos Quilombolas do Campinho da Independência, de Paraty, da Sociedade Angrense
de Proteção Ambiental (Sape)11, da PGR, do MP e também o secretário de Estado
de Meio Ambiente (RJ). A generalização da percepção segundo a qual a mediação
de um experto é fundamental para o "controle social" das atividades industriais
consideradas perigosas não se dá apenas entre os teóricos preocupados com o
assunto, sendo compartilhada também entre os leigos.
O papel desse experto seria, seguindo a proposição de Ewald (1992), menos o de
fornecer soluções do que o de propor termos que tornem possível a negociação
sobre os valores que o tema do meio ambiente institui. Ele seria peça
fundamental no monitoramento das atividades da central, confirmando os termos
de seus relatórios diários e dando a chance de a população se posicionar a
respeito de eventuais disfunções. Ou, como querem Callon e Rip, "os expertos
contribuem, por meio de sua atividade, para o estabelecimento de um
compromisso: eles são verdadeiros mediadores (1998:167; tradução da autora).
ASPECTOS DA DEMOCRATIZAÇÃO DAS ATIVIDADES NUCLEARES CIVIS
A Presença do Estado
Na França, as centrais elétricas nucleares pertencem à empresa estatal
Eletricidade de França (EDF), que, a despeito de manifestações contrárias
promovidas por sindicatos e partidos de esquerda, se abriu ao capital privado a
partir de 2004. Com função análoga à da Comissão Nacional de Energia Nuclear
(CNEN) no Brasil, a Autoridade de Segurança Nuclear (ASN), que também é uma
instituição da administração pública francesa, tem por atividade a fiscalização
das condições de trabalho dos funcionários das centrais e do funcionamento dos
reatores. Lá, esse tipo de "endogamia" vem sendo muito criticado, até mesmo por
cientistas adeptos do programa nuclear francês.
Então, se há alguma semelhança entre os programas nucleares brasileiro e
francês12, é que, em ambos os casos, o Estado acumula os papéis de empresário e
fiscalizador. Tal superposição de tarefas sempre foi criticada pelos Estados
Unidos, que condenam essa prática desde os anos 1950, quando sua indústria
nucleoelétrica passou para a iniciativa privada, logo após o funcionamento dos
primeiros reatores. Lá, então, sendo a produção e a fiscalização feitas por
companhias particulares e independentes, espera-se que haja, a princípio, uma
maior objetividade nos procedimentos fiscalizadores.
Na década de 1970, em países da Europa, essa superposição já era um motivo de
questionamento dos programas nucleares por parte dos cidadãos, como mostram
Nelkin e Pollak (1981). Os autores narram que, na Alemanha, uma professora
evidenciou a existência de relações informais entre uma usina nuclear que
estava sendo planejada e as autoridades responsáveis pelo licenciamento. Ela
iniciou um movimento contra o projeto alegando conluio entre fábrica e
autoridades licenciadoras; após cinco anos de processo, conseguiu interromper a
construção da central naquela localidade (ibidem:60).
A superposição encontrada em países europeus, nos quais o Estado concentra
funções de construção, licenciamento e fiscalização, deve-se a razões
econômicas. Também o caráter "estratégico" das atividades nucleares, em virtude
de o urânio, depois de usado para fins de produção elétrica nas centrais
termonucleares, poder servir para a fabricação de armas, é um fator que
contraindica, para muitos países, a privatização do setor. Nelkin e Pollak
observam que, na Europa, governos e indústria são necessariamente parceiros no
custoso empreendimento que é a energia nuclear. Afirmam, além disso, que o
tamanho do custo da empresa nuclear tende a reduzir a autonomia do governo na
área política, limitando sua disponibilidade para atender a solicitações
da população, porque o investimento inicial é sempre tão volumoso que passa a
justificar os investimentos subsequentes, na tentativa de se amortecer os
gastos anteriores (ibidem:188).
A política nuclear na França, na Alemanha e na Suécia é vista, por Nelkin e
Pollak, como um setor em que a teoria do capitalismo monopolista de Estado é
aplicada. Em 1974, quando o aumento do preço do petróleo foi uma pressão para
se criar fontes alternativas de produção de energia, esses três países se
tornaram rapidamente promotores de energia nuclear nacional e
internacionalmente. Também em 1974, Bélgica, Holanda e Itália fizeram um
consórcio (apenas Áustria, Dinamarca e Noruega renunciaram à tecnologia
nuclear). Nesses casos, a falta de comprometimento com uma indústria nuclear
nacional e laços econômicos relativamente limitados entre governo e usinas
nucleares permitiram aos governos manter maior independência na regulação e
maior possibilidade de responder aos apelos da população.
Se, como analisam Nelkin e Pollak, nos países industrializados, o investimento
em uma usina nuclear é tão elevado que cria constrangimentos para a
democratização do setor, esse quadro em outros países não é diferente, e isso
só reforça a importância da conquista de fórmulas participativas que levem ao
controle social pelo acesso à contraexpertise. A constatação de que o
envolvimento estatal com a produção nuclear restringe a possibilidade de
concessões no que concerne às demandas sociais não significa, em absoluto, que
a privatização das centrais nucleares em um país como o Brasil garantiria um
maior controle social das atividades. Ao contrário, o Estado poderia estar
menos comprometido financeiramente, porém mais incapaz de intervenção favorável
a tais reivindicações.
A Legitimação do Risco
Como se vê entre os moradores das cidades francesas que hospedam usinas, também
em Angra dos Reis a maioria dos habitantes não está interessada no
monitoramento do risco. Há, entretanto, uma parcela da população, numericamente
pouco expressiva, que se manifesta organizadamente e se preocupa com a questão
do risco nuclear. Trata-se dos cidadãos que são contrários à central, pois veem
em tal risco algo a ser evitado. São autodenominados "ambientalistas" e se
empenham para conseguir provas da empresa de que tudo vai bem com os reatores.
É plausível que cidadãos favoráveis ao empreendimento também queiram para si o
direito de ter acesso às informações sobre o que ocorre na central, mas essa
preocupação acaba sendo associada pelos empresários aos "antinucleares".
A desconfiança nutrida pelas associações (ambientais e outras) com relação às
informações dadas pelos técnicos da central decorre, pelo menos parcialmente,
da postura dos engenheiros da Eletronuclear (ETN). Durante anos, essa postura
foi a de não se submeter à prova nem ao diálogo, não se aproximando da
população circunvizinha. Em todo o mundo, a atividade industrial nuclear evoca
para a grande parte das pessoas a ideia da existência de um grande perigo
(Chiva, 1970; Zonabend, 1989). No entanto, o medo e a desconfiança não são
necessariamente manifestados ou canalizados para ações contestatórias ou de
vigilância.
Recentemente, na França, o confronto entre as visões dos engenheiros/cientistas
das centrais nucleares e aqueles denominados "independentes", por não
pertencerem às instituições oficiais que conformam o programa nuclear francês,
vem sendo considerado um passo importante para o monitoramento dos riscos
advindos dos reatores nucleares. Lá foram criadas as Comissões Locais de
Informação (CLIs), formadas com o objetivo principal de acompanhar o
funcionamento das centrais nucleares francesas, constituídas de representantes
da população, da empresa nuclear e de membros do órgão fiscalizador. As CLIs se
reúnem uma ou duas vezes por ano. Ao longo das reuniões, engenheiros fazem
relatório de suas atividades nas centrais, assim como os técnicos da
instituição fiscalizadora (Silva, 2007). Das trinta CLIs existentes, cerca de
cinco são consideradas "atuantes", isto é, buscam entender e debater os
relatórios apresentados; as outras têm um funcionamento considerado "formal".
São as comissões "mais ativas" que vêm tornando usual a confrontação entre
expertise e contraexpertise13.
No Brasil, as audiências, que são espaços de natureza bastante distinta das
CLIs, são utilizadas sobretudo para a discussão das compensações e dos
ressarcimentos que a empresa deve à municipalidade. Nelas, muitas associações
de moradores vêm com faixas manifestar seu apoio à ETN, com a expectativa de
que a companhia traga "benfeitorias" para seu bairro. Essa troca é explicitada
por alguns representantes; outros negam que estejam ali a troco de benefícios,
afirmando que sua presença é movida por um ideal maior, como o "progresso" que
a usina representa. O surgimento de novo tipo de reivindicação - controle
social - referido propriamente à questão do risco aponta para uma mudança na
qualidade da participação que ali é construída.
Diferentemente do que ocorre em um país periférico como o Brasil, na França, o
não reconhecimento de um "passivo" pode ser explicado pelo fato de que, em um
país central, "nuclearizado", a função social de produção de riquezas cumprida
pela industrialização se legitima com relação a um bem comum. Os riscos seriam
o mal necessário (Beck, 2001), e, dessa forma, a participação deve ser
pragmaticamente voltada sobretudo para a vigilância do cumprimento das normas
de segurança pela empresa. No Brasil, como a função social de produção de
riqueza para o bem comum, usufruído, portanto, por todos, não fica clara, a
participação dos cidadãos gira primordialmente objetivando um "arranjo"
(Boltanski e Thévenot, 1991:163) em que alguma vantagem financeira venha a
beneficiar a população já ameaçada pelo risco. No entanto, o fato de, na
França, a participação intentar, notadamente, o acesso às informações sobre o
que ocorre no interior das usinas não significa, como já foi dito, que lá a
instalação de uma usina não traga vantagens financeiras à municipalidade que a
hospeda, mas apenas que não há dispositivo legal ou institucional que assegure
o ressarcimento de um "passivo" a ser resgatado.
A adoção desse tipo de espaço para a participação só pode ser explicada por uma
multiplicidade de fatores - históricos, econômicos, sociais e culturais. Esses
mesmos fatores constituem diferenças notáveis entre países como o Brasil e a
França; por exemplo, os efeitos legitimadores provenientes de décadas de um
desenvolvimento voltado para o bem-estar social. Se é em países
industrializados que encontramos melhores condições para o exercício da
cidadania e, consequentemente, a possibilidade de presença de movimentos
sociais organizados, é também neles que os riscos encontraram até então sua
forma mais bem-acabada de legitimação moralmente justificada: produção de
riqueza e sua distribuição nem tão desigual. Esse raciocínio endossa as
colocações de Beck, segundo as quais entre o risco e a fome preferimos o risco
(2001:72), o que é moralmente ruim porque na verdade não se trata de opção.
O Recurso à Expertise
Na França, a prática do bénévolat, isto é, do trabalho oferecido voluntária e
gratuitamente, é muito difundida graças, sobretudo, ao grande número de pessoas
aposentadas e com bom nível de escolaridade dispostas a continuar em atividade.
Assim, cientistas aposentados passam a contribuir para o debate a propósito do
risco nuclear participando de comissões como as trinta CLIs existentes e de sua
associação nacional, denominada Associação Nacional das CLIs (Ancli). No seio
dessas comissões, o acesso às informações sobre o que se passa no interior das
centrais pôde ser transformado em rotina. Faz parte das atividades dessas
associações a "formação" de seus membros profanos, que são então iniciados no
tipo de conhecimento específico requerido para a monitoração dos riscos
nucleares (Silva, 2007). Esse tipo de concertação exige um grande esforço
político das partes envolvidas, pois, naquele país, o assunto "nuclear" é
considerado "sensível"14 e a metáfora de uma "guerra civil" (cf. Touraine et
alii, 1980, e Nelkin e Pollak, 1981) descreve frequentemente os embates entre
os favoráveis à utilização dessa alternativa energética e os que são contra,
também chamados "anti".
A existência de um bom número de expertos que levem à frente controvérsias está
correlacionada às condições de escolarização e ao nível de escolaridade de uma
população. O tamanho do parque nuclear também deve ser levado em conta, pois
depende da formação de profissionais especializados e propicia a ampliação das
instituições de ensino e de pesquisa nessa área específica. Talvez ele possa
igualmente explicar, muito embora parcialmente, a criação de canais
institucionalizados de participação para monitoramento. A importância econômica
do parque nuclear francês, instalado inicialmente pelo presidente Georges
Pompidou, com todas as implicações sociais e políticas que essa grande presença
traz à França, foi, indiscutivelmente, um relevante fator considerado para a
criação pelo governo Mitterrand das CLIs francesas. O número de usinas e o
consequente volume de dejetos gerados torna inevitável, em um país democrático,
a criação de algum tipo de estratégia para os promotores do "mundo nuclear"
responderem às inquietações da população.
No Brasil, a falta de profissionais especializados certamente impõe um problema
à efetivação do pleiteado controle social. Com a intenção de viabilizar o
monitoramento, o secretário de Meio Ambiente do Estado, na audiência de
novembro de 2007, sugeriu que a empresa deixasse disponível para a população
das proximidades da usina instrumentos de mensuração, a fim de que os
interessados pudessem ter autonomia para verificações que certificassem a
ausência de substâncias prejudiciais ao ambiente. A utilização desses
instrumentos, porém, bem como o que medir, não é tarefa simples.
Assim, a figura do experto independente (na França chamado para o exercício da
contraexpertise) parece indispensável para o efetivo controle social das
atividades industriais e poluentes. Como já comentado, o apoio de atores
institucional e politicamente importantes, como aquele trazido pela PGR e pelo
MP à implementação de mecanismos de controle social, fazendo eco à
reivindicação de associações como a Sape e a dos Quilombolas do Campinho da
Independência, de Paraty, é uma novidade nas audiências públicas de 2007,
relacionadas à Angra 3, inexistente naquelas organizadas para o licenciamento
de Angra 2 no fim dos anos 1990.
A Vontade de Transparência
Tanto na França quanto no Brasil as respostas dos promotores da energia nuclear
à dupla acusação de que a indústria nuclear é uma das mais perigosas e secretas
permeiam três pontos: (1) ressaltar o perigo existente em outras formas de
atividades, produtivas ou de outra ordem, advogando uma compreensão estocástica
do mundo; (2) diminuir a importância dos eventos ocorridos nas instalações
nucleares. Assim, o vazamento de alguma substância nociva é sempre um "pequeno
vazamento", e os incidentes são sempre "incidentes sem nenhuma importância".
Quando o reconhecimento da gravidade de um acidente é inevitável, há a
comparação com uma catástrofe que aconteceu em outro lugar, em outro canto do
mundo, onde as medidas de segurança são precárias ou a tecnologia é menos
confiável; e (3) reconhecer, ao menos no plano do discurso, a necessidade de
democratização do setor.
A "participação da população" se tornou exigência legal15 e ambição política
dos agentes envolvidos em contendas consideradas "ambientais". O incremento das
"fórmulas participativas" que passam cada vez mais a constituir formas de
administração e de sociabilidade política pode ser entendido basicamente sob a
ótica de duas vertentes. A primeira, como uma demanda da própria sociedade
organizada e fruto do conflito, inerente à democracia, entre representação e
representatividade. A segunda, como um mecanismo que vem facilitar o propalado
encolhimento do Estado. Essas interpretações de grande alcance são
indispensáveis para a articulação do trabalho sobre uma situação específica com
uma realidade mais ampla; porém, são inspirações que só explicam parcialmente
os processos locais. Por isso, o estudo do fenômeno da "participação" por
cientistas sociais tem consistido em sua qualificação, como atestam os
trabalhos de Ashforth (1980), Defrance (1988), Beynon (1999) e Leite Lopes
(Leite Lopes, 2004; Leite Lopes et alii, 2006), que versam sobre casos
específicos de audiências públicas.
Ashforth (1980) considera que as audiências são um espaço em que o poder do
Estado (no caso, a empresa ETN) é reafirmado com a submissão dos grupos
contrários ao empreendimento. Diferentemente de Ashforth, Beynon (1999) admite
que, em tais contextos, pode ser estabelecida a possibilidade de uma negociação
entre as partes, abrindo chance para conquistas por segmentos da população que
recebem os empreendimentos. Para Defrance (1988), há uma oscilação entre duas
situações: em alguns momentos, trata-se de um canal de comunicação entre as
partes reunidas; em outros, surge a possibilidade de negociação. Se entendermos
o espaço da audiência pública como um espaço de negociação, a observação de
Lascoumes (1994) é também especialmente pertinente:
A negociação é uma prática social muito sedutora para não ter
sombras, muito valorizada hoje para não dissimular os novos jogos de
dominação. É necessário dizer claramente que nada é mais alienante
que uma negociação desigual, nada é mais enganoso que uma negociação
improvisada, nada é mais ilusório que um pretenso ajustamento de
interesses desprovido de todo o contexto que o estrutura e lhe fixa
os limites (ibidem:287; tradução da autora).
O caráter das audiências públicas que são referência para a presente análise
não pode ser definido como um processo de negociação sobre o que está em pauta,
mas sim de negociações secundárias e possíveis que substituem a principal, já
definida. Por exemplo, na audiência para o licenciamento prévio de Angra 3, uma
representante do MP insistia na inconstitucionalidade de se decidir pela
licença sem que a discussão fosse ao Congresso. A ETN defendeu que não haveria
necessidade de aprovação pelo Congresso Nacional, pois essa unidade, fazendo
parte do acordo firmado com a Alemanha em 1975, já teria tido sua aprovação
antes da Constituição de 1988, na qual se baseava a procuradora. De qualquer
modo, essa discussão não polarizou a reunião. A maior parte do tempo do evento,
que durou seis horas, foi dedicada a pronunciamentos de entidades locais
favoráveis à ampliação do sítio nuclear e que solicitavam providências, as mais
diversas, relacionadas a melhorias urbanas para Paraty e Angra dos Reis, e
aproveitamento de mão de obra local. As entidades oponentes também fizeram seu
papel questionando a confiabilidade do Plano de Emergência e reclamando por
controle social. No fim da audiência, a procuradora disse: "Não se preocupem,
Angra 3 vai sair de qualquer maneira; isso já está definido pelo governo. O que
estou colocando é que, se não for aprovada pelo Congresso, será um processo
inconstitucional"16.
Em conversas informais com alguns funcionários da ETN, entendi que os
representantes do MP, no exercício da defesa dos direitos difusos, são
percebidos como críticos do programa nuclear brasileiro. Estender o debate e
levá-lo ao Congresso, com risco de uma desaprovação por parte dos
congressistas, é algo visto como oposição, e não como uma démarche democrática
ou constitucional. Por outro lado, os opositores acreditam que o aumento do
sítio é visivelmente um mau negócio em termos ambientais, e a lógica dos
engenheiros, que muitas vezes ainda funciona em termos de "cientização
primária", é confundida com má-fé.
Como conciliar, em um mesmo coletivo ou em um mesmo fórum, interesses tão
discrepantes? Um bordão usado pela ETN em audiência anterior, para Angra 2
(Leite Lopes et alii, 2006), ilustra a expectativa dessas reuniões. "Tudo às
claras" era a frase que sintetizava a função social da empresa (produção
elétrica) e sua disposição de abandonar a velha prática do segredo, entidade
intrínseca ao "mundo nuclear". Para Theys e Kalaora (1992), as relações entre
saber e democracia são
atualmente inteiramente sobredeterminadas pelo fato de que nós
vivemos em uma sociedade de comunicação generalizada e que atribui um
lugar central - e quase mágico - a um "mito" maior: o da
transparência. Inseparável de certa concepção de participação pública
na decisão, a noção de transparência recobre de fato várias ordens de
realidade diferentes. Em um primeiro sentido, ela é quase extensão do
papel da mídia - e em todo o caso a redução ao mínimo do segredo. Em
uma segunda acepção, ela evoca antes uma democracia aberta: a vontade
de fundar relações sociais sobre um tratamento adulto da opinião, ou
seja, a verdade e a responsabilidade. Em um terceiro plano, ela
remete mais profundamente à capacidade que possuem ou não as
sociedades de se autoconhecerem e autogovernarem, com toda a lucidez,
a partir do que sabem de si e da evolução do mundo. É o ideal
iluminista de autotransparência (ibidem:35-36; tradução da autora).
Entretanto, como concluem os mesmos autores, a proliferação de informação não
cria necessariamente transparência; ao contrário, produz um efeito de
turvamento (ibidem:37-38). Admitem, contudo, que a transparência é uma
necessidade social a ser construída de maneira voluntarista, ou seja, como uma
nova forma de "contrato social" (ibidem:39). Esse efeito de turvamento pode ser
explicado pela impossibilidade de separar fatos de valores, como bem afirma
Latour em suas obras. Como também explicam Theys e Kalaora, o reconhecimento da
impossibilidade de transparência não significa que a informação seja supérflua;
ao contrário, ela continua sendo fundamental para a formação de pactos e
compromissos.
Tomando o caso das atividades nucleares para exemplificar o que está sendo
dito, posso mencionar a prática das mensurações. As usinas nucleares, para seu
funcionamento, devem obedecer a acordos internacionais que estipulam as
quantidades das diversas substâncias a serem lançadas no exterior da fábrica
(atmosfera, rios ou mares). As usinas empreendem então constantes medições para
verificar se há algum vazamento indevido cujos resultados, embora não sejam
acessíveis à compreensão leiga, podem ser debatidos por intermédio de um
perito. Mesmo levando em conta a multiplicidade de métodos de medição, a
transparência não é, nesse caso específico, algo inatingível. Seu
questionamento começa quando o funcionamento normal da fábrica e as medições,
até então aceitas, perdem, por algum motivo, sua legitimidade. Assim, o
problema da expertise ultrapassa a questão da pura informação porque inclui uma
discussão sobre o que é aceitável, turvando a transparência dos laudos com
interesses e valores díspares.
Já foi mencionado que Latour (2004) associa esse processo de composição de
referências empíricas (os chamados fatos) e de valores com a formação de um
coletivo. Esse coletivo seria produto, por um lado, do reconhecimento de que a
realidade objetiva nunca é só objetiva, porque ela é também representada e
narrada; por outro, da concomitante superação de dicotomias modernas, tais como
natureza/cultura. O autor afirma: "A democracia só pode se pensar com a
condição de poder atravessar livremente a fronteira entre ciência e política"
(ibidem:107; tradução da autora).
Enquanto essa revolução epistemológica não se generaliza nas práticas política
e científica, ou enquanto o segundo Iluminismo de Beck não encontra, nos vários
pontos do planeta, possibilidade de efetivação, as associações favoráveis ou
desfavoráveis à instalação de Angra 3 dão mais um passo em direção à construção
da cidadania e da democracia brasileiras, clamando por condições de
monitoramento independente do funcionamento da CNAAA.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Discutiu-se, neste artigo, a especificidade da "participação" de cidadãos em
contextos de risco nuclear, evidenciando-se que essa participação depende da
mediação de um profissional que se disponha a fazer a tradução do jargão
científico característico dos relatórios técnicos e/ou faça seu próprio
relatório, a título de contraexpertise; do contrário, os leigos não poderão
legitimar seus argumentos cientificamente. O recurso à linguagem e à
racionalidade científicas é a condição para que se diagnostique um mal e se
oponha a ele. A supremacia da ciência como a produtora da verdade por
excelência se mantém, embora não mais como um monopólio.
Se antes as controvérsias entre técnicos e leigos eram convertidas rapidamente
em uma luta entre os detentores do conhecimento versus o desconhecimento,
atualmente isso muda em dois aspectos: 1) os leigos se apropriam cada vez mais
do saber científico para fazerem valer suas demandas; 2) os próprios cientistas
divergem entre si em virtude do grau de incerteza que hoje permeia o exercício
de estabilização do conhecimento, ou "fechamento de caixas-pretas", nos termos
de Latour (1998).
A centralidade da figura do perito ou, dito de outra forma, a importância
crescente da pluralidade de expertise pôde ser atestada em uma amplificação do
discurso de associações por representantes de instituições de caráter estatal -
MP, PGR e Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro (SEA/RJ) - em
direção à exigência de controle social sobre as atividades nucleares da CNAAA.
Assim, a almejada "participação da população", fundamental para o exercício da
democracia no Brasil, muda de qualidade na medida em que não se restringe à
expressão dos descontentes em um plano estritamente das reivindicações
compensatórias, indispensáveis, mas facilmente manipuladas a favor de uma
legitimação da empresa.
Por mais que as relações de dominação possam constranger os resultados das
audiências em que se discute a ampliação da central nuclear de Angra dos Reis,
tornando perdida a contenda entre os adeptos do nuclear e os segmentos da
população contrários à presença desse tipo de indústria na matriz energética
brasileira, e por mais que haja argumentos científicos favoráveis a cada um dos
lados, a complexificação do debate dá chance - com a entrada em cena da demanda
por monitoramento social - para que as assimetrias sejam revistas, abrindo
espaço para mudanças. Assim, o objetivo neste artigo foi inscrever essa pequena
e importante mudança como uma peça na construção da relativamente jovem
democracia brasileira.
NOTAS
1. A aprovação do local para a construção da usina nuclear Angra 3, concedida
originalmente em 1980, foi referendada pela Resolução da Comissão Nacional de
Energia Nuclear (CNEN) nº 11, de 19 de setembro de 2002. O Conselho Nacional de
Política Energética (CNPE), ligado à Secretaria de Assuntos Estratégicos,
aprovou, em 25 de junho de 2007, a retomada da construção da usina Angra 3, que
deve começar a funcionar em 2014.
2. A primeira audiência ocorreu na cidade de Angra dos Reis (19 de junho de
2007); a segunda, em Paraty (20 de junho de 2007); a terceira, em Rio Claro (21
de junho de 2007). Houve ainda cerca de dezessete pequenas reuniões
intermediárias que prepararam as três maiores. Consultei também, para este
estudo, a documentação relativa às audiências nas quais não estive presente,
disponibilizada ao público tanto pelo Ibama quanto pela empresa Eletronuclear
(ETN).
3. Tive a oportunidade de visitar o município para pesquisas consecutivas.
Inicialmente, entre 1992 e 1994, realizei um estudo para minha tese, junto com
os trabalhadores da usina nuclear Angra 1 e seus familiares, abordando a
questão da construção social do risco tecnológico (Silva, 1999a; 1999b). Em um
segundo momento, já integrando a equipe de pesquisa coordenada por José Sérgio
Leite Lopes (Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ/Museu Nacional -
MN), voltei a Angra dos Reis preocupada com a questão da "participação da
população", frequentando reuniões da associação de moradores e verificando a
implementação do plano diretor (que havia sido elaborado entre 1990 e 1992) sob
a efervescência de prefeituras do PT, ciosas da "participação popular" (Leite
Lopes et alii, 2000; 2006; Leite Lopes, 2004).
4. Outros antropólogos também desenvolvem pesquisas sobre temas correlatos no
local, tais como Prado (2002; 2003) e Bezerra (1995; 1999).
5. Empresa brasileira fundada em 1975 para projetar e construir usinas
nucleares.
6. Essa e outras entrevistas com funcionários da ETN foram feitas ao longo do
projeto intitulado Degradação Ambiental, Poluição e Risco Tecnológico: Um
Estudo de Caso no Litoral de Angra dos Reis/RJ, que coordenei entre 2000 e
2004.
7. Como já foi dito na introdução, em 1986, o Conama instituiu uma política
nacional de avaliação de impactos ambientais, exigindo estudos de impacto
ambiental e audiências públicas para o licenciamento de atividades poluidoras.
Além disso, em 1985, já havia sido criada a lei da ação civil pública, que é um
instrumento para que a sociedade civil busque ressarcimento dos danos causados
ao meio ambiente, entre outros. Ela assegura o direito de associações privadas,
organizações não governamentais e Ministério Público (MP) agirem, na justiça,
contra os poluidores.
8. O instrumento da compensação está especificamente tratado no art. 36 da Lei
nº 9.985, de 18 de julho de 2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades
de Conservação, regulamentado pelo Decreto nº 4.340, de 22 de agosto 2002,
alterado pelo Decreto nº 5.566/2005. É um mecanismo financeiro de compensação
pelos efeitos de impactos não mitigáveis ocorridos quando da implementação de
empreendimentos e identificados no processo de licenciamento ambiental. Esses
recursos são destinados às Unidades de Conservação para a consolidação do
Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).
9. Isso é explicado também pelos múltiplos acordos estabelecidos entre Brasil e
Estados Unidos, na área nuclear, desde a década de 1940, e que incluíram, na
década de 1960, a compra da primeira usina nuclear que funcionaria em solo
brasileiro, Angra 1, da empresa norte-americana Westinghouse (Silva, 1999a).
10. Refere-se à alegoria de Platão em A República.
11. A Sape reúne militantes que ainda hoje continuam um movimento, "Hiroshima
nunca mais", iniciado no primeiro ano da década de 1980.
12. A França exemplifica o que se denomina "país nuclearizado": além das
dezenove centrais nucleoelétricas, lá se encontram nove centros do Commissariat
à l'Energie Atomique (CEA), dois centros de estocagem de rejeitos radiativos,
um centro de tratamento, algumas instalações de fabricação de combustível e de
condicionamento de combustível, um laboratório de pesquisa sobre estocagem
subterrânea, o complexo de Marcoule e, finalmente, a base secreta de Valduc. O
fato de o Brasil ter até então dois reatores comerciais em funcionamento e a
França possuir 58 já evidencia que a produção de eletricidade a partir de
urânio tem pesos muito distintos dentro desses países. Estão aqui, portanto,
sendo contrastados aspectos de dois programas nucleares cujas magnitudes são
bastante diferentes.
13. As mensurações que constam dos relatórios dos funcionários das centrais
nucleares são comparadas, pelos cidadãos, com aquelas fornecidas por cientistas
e técnicos não vinculados à central nuclear. Em caso de disparidade de
resultados, é no interior das CLIs que o debate entre representantes da
população, da empresa e fiscais acontece.
14. A reação de alguns franceses ao ouvir o teor de meu estudo é útil para
avaliarmos quão polêmico é o assunto: "você não tem medo de acabar numa caixa
de concreto dentro do Sena?", "você não tem medo?" e "aqui na França o nuclear
é tabu" foram observações que escutei de pessoas de diversas formações
profissionais e que não estavam relacionadas à minha pesquisa. Um militante
antinuclear que entrevistei para a pesquisa afirmou já ter, mesmo, sofrido um
atentado: "[...] jogaram um carro em cima de mim [...], cortaram várias vezes a
energia da minha casa, quando eu participava mais ativamente do movimento".
15. Em vários artigos da Constituição Federal, é prevista a "participação
democrática na formulação de políticas públicas", princípio administrativo que
inspira a exigência de audiências públicas para licenciar empreendimentos, bem
como a formação de conselhos, tais como municipais, estaduais e gestores.
16. A fala da representante do MP na audiência teve um claro caráter de
denúncia e manifesta uma contradição, se não de propósitos, pelo menos com
relação aos meios para atingi-los, entre o Estado que licencia (Ibama), o
Estado que defende os direitos difusos (MP) e o Estado empresário (ETN). Este
último conta com o apoio do governo federal, empenhado em viabilizar o Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC). Enquanto a advocacia geral da União julgou
constitucional a construção de Angra 3, dispensando a manifestação do
Congresso, o MP anulou, por ação judicial na justiça de Angra dos Reis, as
audiências públicas ocorridas nos dias 19, 20 e 21 de junho de 2007, por terem
ocorrido sem a presença de representantes do MP. O Ibama marcou novas
audiências para os dias 25, 26 e 27 de março de 2008, respectivamente em Angra
dos Reis, Paraty e Rio Claro (Diário Oficial da União, 25 de janeiro de 2008).