Gênese e redefinições do militantismo ambientalista no Brasil
APRESENTAÇÃO
Os anos 1980 têm sido caracterizados pela literatura sobre o ambientalismo como
o marco do aparecimento de novas modalidades de militantismo na defesa de
causas ambientais, as quais se distinguem, entre outros fatores, pela ruptura
em relação às práticas militantes que predominavam no período anterior. Nesse
sentido, uma das principais transformações que tem sido salientada é a
tendência geral de institucionalização da ação associativa a fim de regularizar
seu acesso aos espaços e processos formais de produção de políticas públicas,
além de profissionalizar seus integrantes e suas atividades. Segundo esses
estudos, a participação regular das associações ambientalistas em instâncias
formais de proteção ambiental esteve associada ao recrutamento de militantes e
dirigentes dotados de elevada formação técnica e científica e à utilização de
competências de expertise adquiridas por meio da formação universitária, como
um dos principais recursos militantes nas intervenções públicas de tais
organizações, possibilitando a emergência de um novo campo de exercício
profissional. Em relações às diferenças de abordagem, tanto a literatura
nacional quanto a internacional (mais precisamente a européia e a norte-
americana) convergem para esse tipo de caracterização do ambientalismo
(Loureiro e Pacheco, 1995; Rootes, 1999; Sainteny, 1999; 2000; Ollitrault,
2001; Anquetin, 2002; Gallet, 2002). Além disso, outros trabalhos têm
demonstrado que a importância crescente dos recursos escolares e da
legitimidade de expertise nas mobilizações coletivas não parece ser uma
característica exclusiva do militantismo ambientalista, podendo ser igualmente
observada na defesa dos direitos do homem e de causas humanitárias
(Agrikoliansky, 2002; Siméant e Dauvin, 2002), no militantismo sindical
(Matonti e Poupeau, 2004; Wagner, 2004), entre outros.
No caso brasileiro, ainda são poucos os trabalhos que focalizam as condições
históricas e sociais de emergência e as dinâmicas de transformação das formas
de engajamento e de participação na defesa de causas ambientais. Como salientam
Alonso e Costa (2002), a partir do final da década de 1980, os estudos sobre
essa temática passaram a se concentrar no "desenvolvimento sustentável" e foram
produzidos fora das ciências sociais por especialistas das ciências naturais e
das humanidades, tais como filósofos, geógrafos, demógrafos, biólogos,
agrônomos, jornalistas, entre outros, mas mantendo um viés político, engajado.
Com isso, a categoria "movimento ecológico" foi praticamente abandonada pela
literatura, passando-se a privilegiar os estudos dos processos de "degradação
ambiental", o que conduziu à multiplicação dos estudos sobre os "impactos
socioambientais" do desenvolvimento econômico e político e sobre as
"estratégias alternativas" representadas pelas mobilizações ambientalistas
(Loureiro e Pacheco, 1995). Isso decorre de fatores relacionados à própria
dinâmica de configuração das ciências sociais no Brasil: de um lado a
emergência e a expansão da formação universitária e profissional no país como
indissociáveis do engajamento e da participação política (Dezalay e Garth,
2002; Coradini, 1998; Pécaut, 1990); de outro, a intensificação, nos últimos
anos, de sua utilização como instrumento de politização para a atuação
profissional em diferentes esferas de atividade (Coradini, 2002). Sendo assim,
semelhante ao que tem sido observado em outras situações nacionais (Devaux,
2005a; 2005b), no caso brasileiro, é a forte imbricação entre as abordagens
científicas e o debate político, bem como a própria ausência do militantismo
como objeto de estudo, que se apresenta como um dos principais problemas de
investigação (Oliveira, 2005; 2006).
Este artigo compreende essa problemática de investigação mais geral, referente
às condições de emergência e às dinâmicas do militantismo na defesa de causas
ambientais. Com base em uma investigação sobre as modalidades de engajamento e
de participação em mobilizações e organizações ambientalistas entre 1970 e
2004, pretende-se demonstrar que, no caso brasileiro, o contexto político
denominado "abertura política" e "redemocratização" constitui um marco do
aparecimento de novos padrões de reconversão da formação escolar e
universitária em recursos militantes e profissionais para a atuação na "área de
meio ambiente". Para evidenciar isso, e em consonância com outros estudos sobre
o ambientalismo brasileiro, levanta-se a hipótese de que as mobilizações
desenvolvidas nesse contexto têm uma importância destacada para a compreensão
do processo de emergência e de consolidação da problemática ambiental no caso
do Brasil (Alonso, Costa e Maciel, 2007).
Tal hipótese está sustentada também em estudos sobre outras formas de
militantismo, as quais tomam as mobilizações ocorridas naquele período como
representativas de um processo mais amplo de diversificação das modalidades de
utilização da formação escolar e profissional como instrumento de politização
em diferentes esferas de atuação (Mische, 1997; Coradini, 2002). Todavia, isso
não quer dizer que o aparecimento dessas novas modalidades de militantismo
tenha ocorrido apenas a partir daquele momento. Pelo contrário, elas dão
continuidade a certas concepções e práticas militantes que caracterizam o
ambientalismo desde o período antecedente (Oliveira, 2005). Por isso,
acrescenta-se à referida hipótese o postulado de que, em meio à maior
diversificação das modalidades de articulação da formação escolar com o
engajamento político, ocorrida durante o contexto de "abertura política",
existem também certas continuidades quanto às concepções de sociedade e de
política que fundamentam as práticas militantes dos ambientalistas. Tal
formulação está embasada em investigações empíricas sobre diferentes tipos de
"profissão". Esses estudos têm salientado que as concepções e as práticas
associadas à formação e ao exercício "profissional" em diferentes esferas de
atividade exigem sobretudo a capacidade de estabelecer um vínculo duradouro
entre o "conhecimento escolar" e a "realidade", de modo que a prática
profissional é concebida como algo que resulta quase sempre da utilização
instrumental de competências adquiridas por meio da formação escolar e
universitária com fins de politização nas mais diferentes esferas sociais
(Pécaut, 1990; Coradini, 1998; Dezalay e Garth, 2002). Em consonância com isso,
neste artigo, o crescimento da quantidade de organizações ambientalistas e a
maior difusão da causa ambiental que teve início nos anos 1970 são considerados
decorrentes da intensificação da imbricação da formação escolar com o
engajamento político em diversas esferas de atuação e de sua correspondência
com uma grande proliferação de organizações e "movimentos sociais" vinculados
às mobilizações pela "democratização" (Mische, 1997). Em decorrência,
demonstra-se que a participação em organizações e em mobilizações
ambientalistas resultou na configuração da defesa do meio ambiente como um
militantismo de reconversão de diferentes tipos de formação escolar e
universitária em recursos e competências para a ocupação de cargos e postos
profissionais em diversas esferas de atividade: estatal, partidária,
associativa, acadêmica, religiosa, entre outras.
A construção dessa abordagem defrontou-se também com o problema referente às
condições e aos processos sociais, políticos e culturais que tornam possíveis a
emergência de mobilizações e protestos coletivos. No tratamento dessa
problemática, as análises orientadas pelas teorias da "estrutura de
oportunidades" e dos "processos políticos" constituíram um ponto de partida
fundamental ao demonstrarem a pertinência do exame das características do
contexto político no qual ocorre o ingresso em organizações de movimentos
sociais e como tal contexto influencia tanto a estrutura organizacional dos
movimentos quanto seus referenciais ideológicos e suas estratégias de ação
(McAdam, McCarthy e Zald, 1996; Passy, 1998; Toni, 2001). No que tange à
relevância desse ponto de partida, um dos problemas que não encontrou um
tratamento adequado no âmbito de tais abordagens é o que diz respeito à
apreensão dos processos de engajamento individual (Tarrow, 1988; Mathieu,
2002). Uma das alternativas propostas para contornar essa problemática tem sido
investigar as relações entre as particularidades das configurações políticas e
as condições e os processos de engajamento individual na defesa de causas
coletivas (Fillieule, 2001; Devaux, 2005b). Para dar conta de tal desafio, um
dos procedimentos presentes em grande parte da literatura consiste em examinar
os recursos e os respectivos vínculos sociais e políticos que conduzem os
indivíduos ao engajamento e à permanência no militantismo em diferentes
contextos políticos. Com base nessas orientações, levanta-se a hipótese de que
a intensificação da utilização instrumental da formação escolar e universitária
no âmbito da defesa de causas ambientais está estreitamente relacionada às
características particulares dos contextos políticos nacional e internacional,
na medida em que o tipo de contexto influencia a conformação dos tipos de
causa, ator, recurso e respectivos vínculos associados ao ativismo
ambientalista. Nesse sentido, pretende-se evidenciar que, paralelamente à
modificação de um contexto de "fechamento" do sistema político para outro de
"abertura política", ocorreu a transformação do perfil dos ativistas que atuam
no ambientalismo, assim como dos tipos de recurso e respectivos vínculos que os
conduziram à defesa de causas ambientais: de um lado um militantismo composto
por lideranças com origens sociais elevadas, estreitamente ligado às elites
econômica, militar, política e cultural e dotado de disposições cosmopolitas
adquiridas no universo familiar e reforçadas por sua inserção na esfera
internacional; de outro, um militantismo que se caracteriza pelo ingresso de
indivíduos com origens sociais mais baixas e heterogêneas, predominantemente
vinculados a organizações estudantis, partidárias e a "movimentos sociais"
diversificados, e que são os principais protagonistas da aproximação entre as
questões ambientais e as lutas sociais e políticas que agitavam o contexto
político nacional naquele momento.
O material utilizado como fonte de informação decorre de uma investigação sobre
as condições e as lógicas sociais do engajamento e da participação na defesa de
causas ambientais no Rio Grande do Sul entre 1970 e 2005 (Oliveira, 2005).
Nessa pesquisa, foram realizadas cinqüenta entrevistas biográficas com os
dirigentes das principais Organizações Não-Governamentais - ONGs ambientalistas
do estado, que nelas ingressaram em diferentes momentos do período considerado,
possibilitando a caracterização e a comparação de distintas gerações
militantes. Tal material foi complementado pela realização de observações
etnográficas da intervenção desses dirigentes em uma série de eventos
vinculados à defesa do meio ambiente (reuniões de associações, seminários e
congressos, conselhos e comitês de proteção ambiental, entre outros). Os
procedimentos metodológicos utilizados para levantamento e análise do referido
material concentraram-se na investigação das trajetórias familiar, escolar,
ocupacional e militante que os conduziram ao ambientalismo; no exame dos
significados e das modalidades de uso da formação escolar associados à sua
atuação; e na análise da diversidade de esferas e de redes sociais que
contribuíram para a aquisição e a reconversão dos recursos que fundamentam suas
concepções e práticas profissionais. O material obtido por meio desses
procedimentos levou à identificação de diferentes padrões de carreira que
conduzem à atuação profissional na área de meio ambiente nos diferentes
contextos políticos considerados.
A "ELITE DE NATURALISTAS", OS "NATURALISTAS" DA ELITE E A "NOVA MORAL
ECOLÓGICA"
A existência de organizações e de mobilizações voltadas para a defesa de causas
ambientais no Brasil não se reduz à década de 1970. Desde o final do século XIX
a defesa de parques nacionais e de espécies animais e vegetais passou a ser
objeto de formulações governamentais e da ação desenvolvida por associações
ambientalistas. Esse é o caso das formulações voltadas para a constituição de
"reservas florestais" no início do século XX, da elaboração do Código de Águas
e Minas e do primeiro Código Florestal Federal Brasileiro, por volta da
implementação da Constituição de 1934, bem como da criação da Sociedade Amigos
das Árvores e da Sociedade Amigos de Alberto Torres, respectivamente em 1931 e
em 1934 (Bones e Hasse, 2002:22). Tanto a elaboração desses códigos e leis de
proteção ambiental quanto a criação das principais associações que atuaram
nesse período estão estreitamente relacionadas à realização de conferências e à
elaboração de diretrizes internacionais em matéria de proteção ambiental
(Svirsky e Capobianco, 1997).
De maneira geral, pode-se dizer que o movimento ambientalista brasileiro
anterior à década de 1970 esteve estreitamente vinculado à problemática
internacional, surgida na Europa e nos Estados Unidos, da conservação e da
preservação de sítios, paisagens e recursos naturais, assim como de espécies
animais, florestas, lagos etc. Por outro lado, ainda que sejam raros os estudos
sobre a composição social das associações no referido período, observa-se que
suas principais lideranças estavam vinculadas aos setores técnico-científicos e
à burocracia estatal da época: tratava-se, por um lado, de naturalistas,
botânicos, jornalistas, escritores e políticos; por outro, de agentes que
exerciam funções públicas ou burocráticas na administração estatal ou cuja
atuação em associações ambientalistas estava estreitamente vinculada à ocupação
de cargos em agências estatais (Urban, 2001). Nesse sentido, o movimento
conservacionista desse período foi caracterizado como restrito a uma "elite de
naturalistas" (Pádua, 1990). Um exemplo bem ilustrativo foi a criação da
Fundação Brasileira para Conservação da Natureza - FBNC, em 1958, no Rio de
Janeiro. Inspirada em associações de ativistas londrinos, era formada
basicamente por cientistas naturais que desenvolviam estudos sobre espécies
ameaçadas e também por jornalistas e políticos da época, transformando-se em
uma entidade de atuação destacada tanto no âmbito nacional quanto no
internacional entre 1950 e 1960 (Urban, 2001). Durante o governo Jânio Quadros,
um de seus fundadores e também presidente do Conselho Florestal Federal, a FBNC
participou na elaboração de medidas governamentais destinadas à proteção da
natureza, na criação de áreas protegidas e na elaboração do Código Florestal de
1965. Tal associação também influenciou e apoiou grande parte das associações
que surgiram no Brasil no início da década de 1970, desempenhando um importante
papel na articulação do movimento conservacionista brasileiro com organizações
e grupos internacionais.
Do mesmo modo, as mobilizações ambientalistas e as principais organizações que
foram criadas no início da década de 1970 estavam voltadas para problemáticas
relativamente antigas, algumas das quais remontam ao final do século XIX. Além
disso, observa-se também certa continuidade entre esse "novo momento" do
ambientalismo e o momento anterior, no sentido de que foram indivíduos
vinculados às elites os fundadores e as lideranças das principais associações e
mobilizações nos anos 1970 (ibidem). No entanto, esse momento se caracteriza
também pela modificação das reivindicações e do potencial de mobilização em
defesa de causas ambientais. Nesse sentido, a década de 1970 constitui um marco
importante do processo de configuração do ambientalismo no Brasil como uma
esfera de politização de diferentes espaços sociais. Segundo Loureiro e Pacheco
(1995), é somente nos anos 1970 que a questão ambiental emerge como uma
"questão política" no Brasil, pois é a partir daí que ela passa a ser integrada
na "agenda dos problemas nacionais" e os problemas ambientais começam a "ocupar
espaço crescente nos meios de comunicação e na opinião pública, mobilizando
grupos em torno da defesa ambiental e formando o que se pode denominar de
consciência ambiental no país" (ibidem:138). Para os militantes que
participaram das mobilizações desse período, trata-se de um "novo começo" na
medida em que os tipos de reivindicação que são levantados e as formas de
intervenção utilizadas pelas organizações e dirigentes já não correspondem ao
que ocorria anteriormente, durante a fase "conservacionista" ou
"preservacionista" (Oliveira, 2005). Para eles, o "ecologismo" se caracteriza
pelo questionamento da forma de "organização da sociedade", pois era o "modelo
de civilização" que provocava a destruição da natureza ou de parte dela, de
modo que somente uma "mudança global nas estruturas econômicas, sociais e
culturais" da civilização poderia solucionar a "crise ambiental" (Mafra, 1995).
Esse período é caracterizado também por "novos" repertórios de ação, que
incluíam ações coletivas de denúncia e de mobilização da opinião pública,
organização de manifestações de rua e de campanhas de politização de diversos
temas. Um bom exemplo é a criação da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente
Natural - Agapan, em 1971, em Porto Alegre, constituindo o principal marco
dessa "nova era" do movimento ambientalista brasileiro. Foi fundada por um
grupo de profissionais liberais, como médicos, arquitetos, advogados,
agrônomos, entre outros. Diferenciando-se do pensamento "conservacionista"
existente até então, a entidade criticava as características assumidas pela
civilização urbano-industrial e tinha entre suas principais reivindicações o
combate à poluição do ar e da água e ao uso indiscriminado de agrotóxicos,
visando à difusão de uma "nova moral ecológica". Tinha um estilo de atuação
que, "inspirado nos movimentos ambientalistas surgidos nos EUA e na Europa nos
anos 60, pautava-se pelo ativismo militante e pelo incentivo à mobilização
cidadã, assumindo um caráter de vanguarda no ambiente repressivo que
caracterizou a ditadura militar no Brasil" (Schmitt, 1995:87).
Todavia, diferentemente do que ocorria nos Estados Unidos e na Europa, tratava-
se de mobilizações realizadas em um contexto político nacional ainda marcado
pela existência de um "regime autoritário" em vigor desde a segunda metade da
década de 1960 e que se caracterizou, entre outras razões, pela limitação
formal das possibilidades de participação política. Várias organizações
políticas que lutaram contra o golpe militar, como o movimento estudantil e
certos grupos de esquerda, haviam sido perseguidas e proibidas de se
manifestar, ao passo que muitas lideranças saíram do país e passaram a viver no
exílio até meados dos anos 1980 (Landim, 2002). Já na esfera internacional, em
decorrência das mobilizações desenvolvidas nos anos 1960 na Europa e nos
Estados Unidos, voltadas para a promoção de um "espaço internacional" de
expressão e de reivindicação (Ollitrault, 1999), encontra-se um cenário no qual
a problemática ambiental emerge como um "discurso sem opositores", como uma
dessas "causas generosas que suscitam a priori a simpatia e que nenhum ator tem
o interesse em colocar em causa" (Juhem, 2001:10), destacando-se como um dos
marcos principais do período a realização, em 1972, da Conferência de
Estocolmo, na Suíça. Nesse sentido, o fato de o discurso ambientalista, na
situação em pauta, não se apresentar como uma contestação política ao "regime
autoritário" vigente no Brasil constitui, certamente, um dos aspectos que
contribuiu para o sucesso inicial das mobilizações levadas adiante pelos
"fundadores" das primeiras organizações ambientalistas. Como bem salienta uma
das lideranças do período em depoimento a Dreyer (2004:192): "Não éramos vistos
como uma ameaça direta, como subversivos. Nosso discurso era político, mas era
um conteúdo difícil de decifrar. Não estávamos falando contra o regime,
falávamos contra todo um modelo". Todavia, mesmo que a ecologia tenha surgido
nesse momento como uma espécie de "causa consensual" constituída por interesses
e reivindicações que dizem respeito à "humanidade como um todo" (Agrikoliansky,
2002), trata-se de um discurso cujos "constrangimentos gramaticais
particulares", como salienta Juhem (2001:26) a propósito do discurso
humanitário, estão estreitamente vinculados às propriedades dos atores que o
enunciam. Quanto a isso, cabe observar que as lideranças das principais
associações e mobilizações ambientalistas constituídas no início da década 1970
reuniam algumas propriedades que resultavam de sua inserção simultânea no
espaço internacional e nos espaços nacional e local.
A origem social elevada aparece, primeiramente, como uma das características
principais do recrutamento e da seleção aos postos dirigentes nas organizações
ambientalistas no início da década de 1970. A maioria dos dirigentes das
primeiras associações são filhos de grandes comerciantes, de estancieiros, de
juízes, de profissionais liberais, como advogados e engenheiros, e de oficiais
militares com formação universitária. Trata-se de indivíduos, como bem definiu
um desses dirigentes, que tiveram "toda a formação da boa sociedade", "boas
escolas", formação superior. Suas famílias "viviam no mesmo meio", sendo que
muitos deles já se conheciam antes de aderirem à causa ambiental em função
dessa convivência comum, por freqüentarem os mesmos clubes e pelos laços de
vizinhança ou de amizade há muito estabelecidos entre eles. O fato de se tratar
de lideranças recrutadas em famílias de posição elevada e vinculadas às elites
dirigentes do "regime autoritário" era uma das condições que possibilitava a
redução dos custos que a participação em mobilizações políticas poderia
acarretar para os indivíduos nesse período. A posição social de origem dos
ambientalistas "fundadores" foi um dos fatores que possibilitaram seu
engajamento na medida em que expunha tais indivíduos a um conjunto de situações
e de experiências que contribuíram para a formação de certas disposições
ligadas à participação na defesa de causas ambientais naquele momento. Os
vínculos de parentesco e de amizade com o universo das elites política,
religiosa, militar e empresarial é um dos principais ingredientes da
socialização familiar de tais lideranças e constitui um dos fatores que estão
na origem das disposições políticas que os conduziram à defesa de causas
ambientais. Além disso, a origem estrangeira do grupo familiar, as viagens e os
contatos freqüentes com organizações e pessoas em outros países estão na origem
de seu cosmopolitismo e de suas propensões para aderir a problemáticas
políticas e ideológicas que estão acima das divisões e das fronteiras nacionais
(Loureiro e Pacheco, 1995:149). Junte-se a isso o fato de os tipos de
engajamento que antecedem seu ingresso no ambientalismo consistirem na
freqüência a clubes e a eventos culturais, a grupos naturistas e a organizações
assistencialistas.
Tais aspectos estão na origem de um padrão de participação no ambientalismo
baseado fundamentalmente na bagagem cultural e política herdada do grupo
familiar de origem e resulta em uma concepção de participação política fundada
nas relações estabelecidas a partir da esfera familiar. Trata-se de modalidades
de inserção e de concepções de política "particularística" e "aristocrática"
(Coradini, 1998), fundadas no "dom" e na "opinião pessoal" que decorrem de sua
elevada condição social (Bourdieu, 1979), e não de formas de participação que
pressupõem a aquisição de recursos militantes mediante filiação ou militantismo
anterior em organizações políticas, partidárias e "movimentos sociais". Quando
isso ocorre, os recursos militantes adquiridos mediante a participação em
associações ambientalistas representam um "fim suplementar" que lhes permite
"maximizar outros bens raros" que tais dirigentes possuem (Gaxie e Offerlé,
1985:111). Isso conduz a concepções e a práticas que remetem sua atuação na
área de meio ambiente às esferas da "ética", da "filosofia" e dos "valores
morais".
A maioria dos dirigentes iniciou sua participação em associações ambientalistas
já com faixa etária elevada, em uma fase mais tardia da formação universitária
e profissional e em um período próximo ao momento da aposentadoria. Mesmo
assim, pode-se falar de um militantismo de reconversão profissional na medida
em que tal engajamento está diretamente associado tanto à retomada quanto à
reorientação da carreira e do exercício profissional. Nesse sentido, a
participação em mobilizações e em organizações ambientalistas constitui uma
forma de aquisição de posições de notabilidade com base na bagagem cultural e
familiar mesmo para aqueles que não exerciam atividades profissionais ou que
tiveram de recusá-las em decorrência da vida familiar. Pode-se, portanto,
distinguir duas modalidades principais de adesão ao ambientalismo entre os
dirigentes: de um lado aqueles casos cujo engajamento constitui uma forma de
retomada de uma "carreira profissional" interrompida; de outro, os que buscam,
na defesa ambiental, uma maneira de reorientação de seu exercício profissional.
Em primeiro lugar, trata-se de modalidades de carreira de ambientalista
constituídas por mulheres de empresários, médicos e juízes que haviam
abandonado suas atividades e carreiras profissionais em função do casamento e
da criação dos filhos. Dotadas de uma elevada bagagem cultural e escolar, no
sentido que Saint-Martin (1999) chama de capital de "boa educação", elas
adquiriram o aprendizado do voluntariado na família e na escola e, muito antes
de atuarem no ambientalismo, apresentavam um itinerário de dedicação a
atividades voluntárias, religiosas e caridosas. É como desdobramento da
formação adquirida no meio familiar e escolar e desenvolvida por intermédio do
trabalho voluntário que ocorre o ingresso na defesa do meio ambiente. Nesses
casos, a atuação no trabalho voluntário e, posteriormente, no ambientalismo
possibilita a "recuperação" ou a "retomada" de uma carreira escolar e
profissional interrompida ou mesmo abandonada. Em decorrência da grande
disponibilidade de tempo gerada pela ausência da necessidade de trabalhar,
puderam se dedicar integralmente à organização, tornando-se verdadeiras
"funcionárias" em um momento em que, segundo elas próprias, a "ecologia" não
era algo "muitíssimo sério", como o é atualmente, pois consistia basicamente em
uma "ocupação para pessoas que tinham tempo a dedicar". Com base nessas
condições e nos recursos proporcionados pela família de origem, elas adquiriram
notoriedade tanto no âmbito nacional quanto no internacional, conseguindo
estabelecer parcerias e vínculos financeiros com empresas, organizações
estatais, bem como com fundações e organismos internacionais.
Pode-se citar como trajeto típico dessa modalidade de carreira de ambientalista
o caso da presidente de honra da Associação Democrática Feminina Gaúcha/Amigos
da Terra - ADFG/AT. Seu pai era alemão e trabalhava como comerciante de
importação, conseguindo dar continuidade a seu trabalho durante a guerra por
causa das "ótimas amizades", sobretudo das relações de amizade estabelecidas
com o dono do principal jornal do Rio Grande do Sul, Breno Caldas. Ela
ingressou na associação quando estava com 40 anos, era casada com um grande
empresário gaúcho, tinha três filhos e já havia concluído fazia bastante tempo
sua formação universitária: tem mestrado no curso de línguas anglo-germânicas,
sendo também formada em didática pela Faculdade de Filosofia da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e em língua e literatura francesa pela
Aliança Francesa de Porto Alegre. Primeiramente teve de interromper os estudos
recusando, em decorrência da proibição do pai, uma bolsa para estudar um ano
nos Estados Unidos; posteriormente, em função do casamento e da criação dos
filhos. Antes mesmo de ingressar na entidade, já fazia o que chamou de
"intervenção social", que consistia em fazer "bordadinhos" e doá-los à Igreja
para "ajudar os pobres". Na referida associação, seu trabalho esteve
inicialmente voltado para a "ação social": participação em cursos de
assistência social na própria organização, em clube de mães, colégios, creches.
Entretanto, foi quando o trabalho da associação se voltou para a temática
ambiental que ela pôde retomar seus anseios antigos de atuação no âmbito
internacional e, com base em uma grande disponibilidade profissional e,
sobretudo, na notoriedade e no prestígio decorrentes dos vínculos familiares,
conseguir a articulação do trabalho desenvolvido pela associação com
organizações ambientalistas, organismos e fundações nacionais e internacionais.
Desse modo, torna-se uma das principais articuladoras da aproximação entre a
ADFG e as mobilizações ambientalistas e, mais tarde, da integração dessa
organização à Federação Internacional Amigos da Terra.
Em segundo lugar, destacam-se as modalidades de atuação no ambientalismo
representadas pelos que foram denominados "profissionais liberais".
Diferentemente da modalidade anterior, trata-se de indivíduos que dispunham de
uma razoável situação profissional e ocupacional como executivos de grandes
empresas multinacionais (Basf, Citibank) ou como funcionários do setor público
(Justiça Federal, universidade, Ministério da Agricultura). Seus engajamentos
também ocorrem em uma faixa etária elevada, mas esta se combina com uma fase
mais tardia do exercício da profissão, relativamente próxima ao momento de
aposentadoria. Além da bagagem cultural propiciada por sua origem social
elevada, esses dirigentes podiam contar também com a "notoriedade" e os
vínculos estabelecidos por meio do exercício profissional. A adesão ao
ambientalismo funciona como uma forma de reorientação de suas atividades e do
próprio exercício da profissão. Em alguns casos, tal redefinição constitui uma
forma de retomada de certas aspirações descartadas no decorrer de seus
itinerários escolares e profissionais. Uma das características predominantes
nesse conjunto é a articulação entre a bagagem cultural adquirida através da
família de origem e certa "notabilidade" e prestígio vinculados à formação e ao
exercício profissional como instrumento de intervenção em diferentes esferas de
atuação.
Um dos exemplos mais representativos dessa modalidade de atuação profissional é
o caso do primeiro presidente da Agapan (ver Dreyer, 2004). Um dos principais
aspectos que chama a atenção nesse caso e o torna extremamente significativo
quanto às modalidades de reconversão profissional dos ambientalistas da década
de 1970, e até mesmo dos dirigentes das gerações posteriores, é justamente a
diversidade de esferas que por meio de sua atuação passa a ser vinculada à
defesa ambiental. Essa combinação de atuação diversificada corresponde também a
seu reconhecimento simultâneo para com um conjunto bastante heterogêneo de
qualidades, tais como "cientista", "professor", "agrônomo", "ecologista".
Ele era filho de um arquiteto bem-sucedido, que se tornou mais tarde pintor e
professor do Instituto de Belas Artes da UFRGS, e de uma "fervorosa liderança
da comunidade católica" que pertencia a uma das famílias de maior influência
política e econômica no Rio Grande do Sul. Formou-se em agronomia pela UFRGS e,
logo em seguida, conseguiu uma bolsa de estudos na Louisiana State University,
nos Estados Unidos, onde realizou um curso de pós-graduação em estudos do solo
e agroquímica. Após trabalhar durante sete anos na Companhia Riograndense de
Adubos e, depois, na Sulpampa, do mesmo ramo, foi contratado para trabalhar com
fertilizantes como um alto executivo da multinacional Basf, que era também a
empresa para a qual trabalhava seu sogro. Em função desse novo emprego, ficou
fora do país como executivo da empresa durante treze anos: dois na Alemanha,
sete na Venezuela e quatro no Marrocos.
Seu ingresso no ambientalismo ocorreu quando estava com 45 anos e tem como
marco seu pedido de demissão da Basf, segundo ele próprio, para "mudar o rumo
da minha vida". Quando isso ocorreu, ele já havia aderido ao naturismo,
estabelecido contato com algumas associações e lideranças vinculadas ao
"ecologismo" na Europa e nos Estados Unidos, chegando a entrar em contato com
algumas "entidades de luta", como ele mesmo definiu, que eram a Audubon Society
ou o Sierra Club, as quais o inspirou na criação da Agapan. Sua "experiência
internacional" foi decisiva para a ocupação do cargo de presidente dessa
associação (Urban, 2001). A partir daí, entrega-se totalmente ao "trabalho de
proteção ambiental", a ponto de se tornar um "ativista em tempo integral". Com
base na visibilidade, na projeção e nos vínculos alcançados nos âmbitos
nacional e internacional, consegue articular de maneira exemplar e duradoura o
ativismo ambiental com a atuação profissional em associações ambientalistas,
organizações profissionais, empresas, administrações e organismos públicos nas
áreas de manejo e reciclagem de resíduos, paisagismo, urbanismo, saneamento
natural (Dreyer, 2004).
A principal característica da participação na defesa de causas ambientais no
Brasil a partir da década de 1970 é a mudança de uma situação em que a temática
ambiental estava restrita a uma "elite de naturalistas" - no sentido de que se
tratava de indivíduos vinculados predominantemente aos setores técnico-
científicos e à burocracia estatal - para uma outra, que trata de indivíduos
pertencentes às elites econômica, política, cultural, militar e religiosa e que
atuam como "ambientalistas" em diferentes setores da sociedade. Nesse sentido,
pode-se falar da década de 1970 como um marco do processo de constituição da
defesa ambiental como um espaço de articulação de recursos diversificados para
a politização e a intervenção em diferentes esferas de atividade. Todavia, até
o final dos anos 1970, as bandeiras de luta do ambientalismo ainda eram levadas
a cabo por um número relativamente pequeno de organizações e diziam respeito a
reivindicações pontuais e específicas, como a poluição do ar e da água,
provocada pela Borregaard Celulose; o uso abusivo de agrotóxicos; a luta contra
a instalação do Pólo Petroquímico; e a denúncia contra a destruição de reservas
florestais e espécies em extinção (Tornquist, 1992; Schmitt, 1995).
Como se pode perceber pelos dados apresentados, os recursos que respaldam o
ingresso e a permanência na defesa ambiental naquele contexto político se
encontram estreitamente associados à bagagem cultural e aos vínculos sociais e
políticos adquiridos a partir da família de origem. São os indivíduos
pertencentes às famílias que mantêm laços estreitos com as elites governantes
os que assumem as posições de liderança das principais associações e
mobilizações existentes naquele momento. Associado a isso, observa-se que as
causas defendidas pelas organizações e pelos dirigentes ambientalistas estavam
situadas acima das divisões políticas e ideológicas que agitavam o cenário
político nacional e internacional naquele momento, não constituindo uma
"questão política" que ameaçasse ou desafiasse o sistema político vigente. É
somente a partir da chamada "abertura política" que a composição social das
organizações ambientalistas sofre uma grande modificação. A imensa proliferação
de organizações e de "movimentos sociais" se torna um dos ingredientes
principais da diversificação da composição social das organizações
ambientalistas e das estruturas organizacionais e ideológicas do ambientalismo
brasileiro, de modo que o recrutamento das principais lideranças passa a se
concentrar nessas redes de organização e de "movimento social" vinculadas à
luta pela "democratização" (Alonso, Costa e Maciel, 2007). Dessa forma, pode-se
observar uma forte correspondência entre um contexto de "abertura política" e
de intensa luta pela "democratização" e uma maior imbricação entre as
reivindicações dos ambientalistas e os objetivos e bandeiras de lutas
defendidas pelos grupos e organizações vinculados às problemáticas social,
popular e partidária.
"REDEMOCRATIZAÇÃO", MILITÂNCIA MÚLTIPLA E ATUAÇÃO PROFISSIONAL
A partir da segunda metade da década de 1980, observa-se um aumento expressivo
do número de organizações e de participantes nas mobilizações em defesa de
causas ambientais, bem como uma maior diversificação dos tipos de reivindicação
e de bandeira de luta que passaram a integrar a atuação das organizações e
lideranças ambientalistas (Schmitt, 1995). Nesse sentido, pode-se falar da
década de 1980 como o marco da "explosão" do número de associações
ambientalistas brasileiras. No caso do Rio Grande do Sul, observa-se que, do
total de associações existentes entre 1970 e 2004, apenas 18% foram criadas nos
anos 1970, ao passo que um percentual de 82% corresponde às que surgiram entre
os anos 1980 e o início dos anos 2000. Tomando-se como referência as
mobilizações ocorridas na década anterior, pode-se dizer que nos anos 1980 se
assiste ao surgimento de uma "segunda geração" de organizações e de lideranças
ambientalistas. Nesse sentido, alguns trabalhos vão afirmar que é somente nesse
período que se pode falar propriamente de "movimento ecológico", pois é a
partir daí que ocorre a articulação dos mais diferentes grupos e organizações
sociais com as lutas ambientais.
Algumas das principais lutas desenvolvidas pelas organizações ambientalistas do
Rio Grande do Sul têm como referência esse período, como é o caso da aprovação
da Lei Estadual de Agrotóxicos, em 1983, cuja elaboração contou com a
articulação de diversos tipos de organização social, o que resultou na
participação de aproximadamente cem entidades. Foi também no início dos anos
1980 que ocorreu a luta contra a instalação do II Pólo Petroquímico, próximo a
Porto Alegre, à beira da Lagoa dos Patos. Os protestos contra o governo do
Estado, que era favorável a tal instalação, foram marcados pela crítica tanto
aos danos ambientais quanto à forma como a decisão foi tomada. Esses protestos
contaram também com o apoio e a participação de diversas organizações que não
eram vinculadas às lutas ambientalistas, como entidades profissionais e
comunitárias, além de políticos de oposição. A mobilização se caracterizou pela
inauguração de novas formas de fazer protesto - realização de shows,
seminários, acampamentos à beira da Lagoa dos Patos, divulgação de cartilhas -
e pela manutenção de um intenso debate na imprensa acerca do projeto. A luta
contra a instalação do Pólo Petroquímico é reconhecida como um marco na
história do ambientalismo gaúcho. Foi por meio dela que o "pensamento
ecologista" encontrou uma importante divulgação no "seio da sociedade gaúcha"
(Tornquist, 1992). Assim, como salienta Schmitt (1995:87), essa luta trouxe
importantes avanços políticos e organizativos para o movimento,
divulgando a problemática ambiental junto à população, motivando a
formação de novas entidades de "defesa do meio ambiente", fomentando
alianças entre os grupos ecológicos e as demais organizações da
sociedade civil e forçando o Governo do Estado a reconhecer os
"verdes" como interlocutores legítimos.
Com isso, militantes vinculados às lutas estudantis passam a integrar as
organizações de mobilização em defesa de causas ambientais, dando origem a
novas associações ambientalistas. Esse é o caso do grupo Em Nome do Amor à
Natureza, formado por universitários militantes do movimento estudantil que
eram contrários à centralização e ao "apartidarismo" da Agapan. Em função
disso, adotavam "procedimentos democráticos", como a organização de forma
descentralizada e horizontal, definiam-se como uma organização "eminentemente
política" e propunham a ligação entre as questões ambientais e as problemáticas
sociais e políticas mais amplas. Outro grupo, Deite na Grama, também
constituído por estudantes universitários, caracterizou-se pela proposta de
"ecologização dos estudantes em geral", no sentido de que a universidade
adotasse a "perspectiva ecológica" em seus cursos e em suas práticas
cotidianas. Por fim, um bom exemplo da maior aproximação e da influência
decisiva da política partidária sobre as organizações e as reivindicações
ambientalistas do Rio Grande do Sul nesse período é a criação do Núcleo de
Ecologistas do Partido dos Trabalhadores - PT, em 1985, a partir da iniciativa
de dirigentes das principais associações ambientalistas que também faziam parte
do referido partido. Esse núcleo tinha como objetivo principal reunir os
"ecologistas petistas" que atuavam em diferentes entidades e propor uma
intervenção organizada no "movimento ecológico gaúcho" (Tornquist, 1992). Além
do surgimento dessas e de outras entidades e da vinculação de organizações as
mais diversas em torno de lutas comuns, foi também nesse período que as
organizações ambientalistas começaram a se articular com partidos políticos
para apoiar as candidaturas de lideranças comprometidas com a causa ambiental
(Schmitt, 1995). Isso ocorreu durante a campanha pelas Diretas, nas eleições de
1986 para a Constituinte, com a elaboração de "listas verdes" na formulação de
uma proposta de governo intitulada Proposta de Vida para Porto Alegre, que foi
entregue para todos os candidatos às eleições municipais, assim como na eleição
de dois "vereadores ecologistas" pelo PT, em 1988, que faziam parte da
diretoria da Agapan e eram também do Núcleo de Ecologistas do PT. Trata-se,
portanto, de um período no qual ocorre uma forte imbricação entre "lutas
ambientais" e "sociais", que se manifesta sobretudo pela maior aproximação
entre associações ambientalistas, sindicatos, ONGs "sociais" e grupos herdeiros
dos movimentos populares da década de 1970, bem como pela incorporação de forma
generalizada de debates e reivindicações ambientais pelos setores empresariais,
órgãos jurídicos, agências governamentais, partidos políticos, universidades e
centros de pesquisa (Loureiro e Pacheco, 1995).
Entre os fatores que estão na origem dessas mudanças nas condições e nas formas
de protesto ambiental se encontram, inicialmente, certas transformações
ocorridas nas estruturas de oportunidades políticas vinculadas ao chamado
processo de redemocratização. Trata-se de um contexto político em que o Brasil
estava iniciando um longo processo de "abertura política" em relação ao regime
autoritário e que se caracteriza por uma grande afluência de organizações,
grupos e lideranças dos mais diversos setores sociais que se mobilizam contra a
ditadura por meio de manifestações de rua pela "democratização" (Linz e Stepan,
1999). A partir da segunda metade dos anos 1970, as possibilidades de
mobilização do ativismo ambientalista se expandiram acentuadamente, em
decorrência de modificações nas "dimensões formais e informais do ambiente
político" relacionadas à chamada "abertura política" (Alonso, Costa e Maciel,
2007:4). Trata-se, mais especificamente, da diminuição da repressão aos
protestos sociais em geral; da maior permeabilidade das instituições políticas
e administrativas às reivindicações da "sociedade civil"; da diversificação de
lideranças e movimentos sociais com o fim do bipartidarismo; da constituição de
redes de aliança entre lideranças da Igreja Católica, da Ordem dos Advogados do
Brasil - OAB, da mídia, dos partidos políticos, das elites dissidentes e dos
diversos movimentos sociais; da constituição de uma agenda ambientalista
internacional após a Conferência de Estocolmo.
Esse contexto foi marcado também por transformações no espaço de formação
escolar e profissional decorrentes da expansão e da diversificação do ensino
superior. Todavia, muito mais do que uma simples expansão formal, há sobretudo
uma acentuada diversificação das redes sociais vinculadas à formação
universitária (Coradini, 2002). Como demonstra Mische (1997:144), durante esse
período, a maioria dos estudantes universitários é socializada, com mais
freqüência, "fora da escola", por meio de redes diversificadas de estudo,
trabalho e sociabilidade. Associado a isso, assiste-se a uma ampliação das
formas de participação social e política dos estudantes universitários em redes
diversificadas de movimentos, partidos e outras organizações que se cruzam nas
mobilizações pela "redemocratização". Esse maior entrelaçamento de organizações
diversificadas durante o processo de redemocratização favoreceu o surgimento de
redes de liderança de diferentes organizações e movimentos sociais extremamente
interligadas e intensificou o "fenômeno da militância múltipla" (Mische, 1997).
Sendo assim, a inserção e a militância anterior e/ou simultânea em múltiplas
redes de organização e de movimento social constituem um dos principais
recursos para a ampliação dos usos instrumentais da escolarização e da formação
profissional com vistas à politização e à articulação de diferentes esferas de
atuação (Coradini, 2002; Pécaut, 1990).
Esse conjunto de mudanças na estrutura de oportunidades políticas, propiciadas
pelo processo de redemocratização, e sua vinculação com a diversificação do
ensino universitário contribuíram para a modificação do perfil dos ativistas
das associações ambientalistas na medida em que influenciaram a transformação
das próprias bases sociais e das dinâmicas de ingresso e de permanência em tal
militantismo. Nesse sentido, observa-se que, diferentemente do que ocorria na
geração anterior, o momento de ingresso no ambientalismo a partir dos anos 1980
coincide com o início da formação universitária e com o processo de entrada no
mercado de trabalho. Essa associação do engajamento político com a formação
universitária e profissional não ocorre apenas no momento de adesão ao
ambientalismo ou no momento posterior à entrada nas organizações
ambientalistas. Pelo contrário, a inserção anterior ou simultânea em diversas
redes de organização e de "movimento social" constitui um dos condicionantes
principais do ingresso, da permanência e da ocupação de postos nas organizações
e instâncias que atuam na defesa de causas ambientais (Oliveira, 2007).
Com isso, ampliaram-se consideravelmente as possibilidades de articulação da
formação escolar e universitária com diversas esferas de atuação, por meio do
engajamento na defesa de causas ambientais. Desse modo, paralelamente à
diversificação das organizações, dos atores e das reivindicações vinculadas à
defesa de causas ambientais, observa-se uma ampliação das associações,
lideranças e "facções" do movimento ambientalista cujas bandeiras de luta e
intervenções estão articuladas ao militantismo em grupos estudantis, sindicatos
e associações profissionais, em partidos políticos, em organizações religiosas
ou em outras organizações e movimentos populares, assim como em empresas de
consultoria, em administrações públicas e na burocracia estatal. Com o
surgimento de novas possibilidades de articulação da formação escolar e
profissional com diversas esferas de atuação por meio da defesa ambiental,
houve um crescimento considerável do potencial de retribuição da participação
na defesa do meio ambiente a partir desse período. Isso porque esse tipo de
engajamento passou a ser associado à ocupação de postos nas administrações
públicas e na burocracia estatal, nos partidos políticos, nos meios acadêmicos
e universitários, em organizações e grupos profissionais, em empresas de
consultoria, entre outras. Sendo assim, na medida em que os postos
profissionais ocupados com base na participação de organizações ambientalistas
estão fundados em recursos e vínculos estabelecidos pela inserção anterior ou
simultânea das lideranças em organizações e movimentos sociais variados e no
maior entrelaçamento entre as redes de liderança que atuam nessas diversas
esferas de atividade, as retribuições obtidas pelo militantismo ambientalista
se tornaram extremamente diversificadas.
Tais aspectos estão na origem de um padrão de participação no ambientalismo bem
diferenciado daquele encontrado no período anterior. Trata-se agora de
indivíduos com origens sociais mais baixas e heterogêneas, que têm como
principal base de recursos as inserções e os vínculos estabelecidos no decorrer
de seus itinerários familiar, escolar e profissional com organizações e
"movimentos sociais" diversificados (estudantis, sindicais, partidários,
religiosos), e cujas concepções de participação política remetem à politização
das mais diferentes esferas de atividade com base nesse intenso militantismo
(idem, no prelo). Todavia, no que tange à diversidade de esferas sociais
associadas à atuação profissional na defesa de causas ambientais, podem-se
identificar certas regularidades em termos dos vínculos sociais e políticos que
estão na base de tal forma de exercício profissional.
Uma modalidade de adesão típica dessas novas condições históricas e sociais é
constituída pelos casos em que a atuação em diferentes esferas de atividade
(organizações ambientalistas, conselhos e secretarias de proteção ambiental,
administrações públicas) tem como base de recurso principal as inserções e os
vínculos anteriores e/ou simultâneos estabelecidos com organizações
partidárias. Um trajeto exemplar dessa modalidade de carreira de ambientalista
é o caso do dirigente da associação HocTempore, de Pelotas, que se caracteriza
pelo intenso militantismo em organizações estudantis e partidárias e pela
articulação do engajamento associativo com a ocupação de cargos e funções
remuneradas na administração pública e na burocracia estatal com base nos
vínculos estabelecidos na militância partidária. Ele tem 34 anos, é filho único
e natural de Herval, onde o pai trabalha com comércio de carros e a mãe é
professora do ensino fundamental. Durante o segundo grau, deslocou-se para a
cidade de Pelotas, formando-se em eletromecânica pela Escola Técnica e em
direito pela Universidade Federal de Pelotas - UFPel. Seus pais eram adeptos do
Partido Democrático Trabalhista - PDT, mas ele iniciou sua participação
política por meio do grêmio estudantil e, depois, pela militância no PT,
integrando a "tendência" chamada de "democracia socialista".
Como ele mesmo salienta, foi a "participação político-partidária" que o
conduziu ao "movimento ambiental", no sentido de que foi com base na
"aproximação ideológica" com ambientalistas do Centro de Estudos Ambientais -
CEA, também filiados ao PT, que decidiu integrar tal associação. Desse modo,
durante a formação universitária, ocupou posição de direção no Diretório
Central de Estudantes, no CEA, além de participar da "setorial de meio
ambiente" do PT no âmbito estadual. Foi com base nesse trajeto de militância
simultânea no PT e no CEA que ocupou a pasta de secretário municipal de
Qualidade Ambiental durante a administração petista no município de Pelotas
(2001-2004). Todavia, no decorrer do processo de sucessão do então prefeito e
candidato à reeleição, tomou uma posição favorável à sua reeleição,
contrariando a decisão de outras lideranças do CEA, que, em função de atritos
com o então prefeito, decidiram indicar outro candidato petista. Com isso,
desligou-se da associação, criou uma outra denominada HocTempore e, com base
nos vínculos de longa data estabelecidos no PT, assumiu um cargo no Ministério
do Meio Ambiente. Atualmente é um dos principais articuladores de uma rede de
ONGs voltadas para a defesa do Bioma Pampa, a qual já conta com a adesão de
aproximadamente oitenta associações ambientalistas do Rio Grande do Sul. Disso
resulta uma concepção do movimento ambientalista como devendo estar associado à
política partidária. Ou seja, a única forma de unificar os objetivos e
estratégias de luta das organizações e mobilizações ambientalistas é,
necessariamente, por meio de uma orientação comum para a intervenção no âmbito
da política partidária. O que fundamenta essa imbricação da "política
ambiental" com a "partidária" é uma concepção militantista da própria política
partidária, no sentido de que esta deve estar sempre associada com outras
esferas de militância (Coradini, 2002).
Em outro extremo, encontram-se modalidades de atuação que têm como base de
recurso principal os vínculos estabelecidos a partir da esfera universitária.
Nesses casos, são as relações constituídas a partir da universidade com
lideranças que atuam em diferentes esferas de atividade - universidades,
associações ambientalistas, burocracia estatal, movimentos sociais - que
possibilitam a reconversão da formação escolar para a atuação em tais esferas.
Um dos casos exemplares é a coordenadora técnica da ADFG/AT, que tem um trajeto
de forte imbricação da formação universitária com a militância ambientalista,
inicialmente por meio do próprio movimento estudantil, seguido da ocupação de
funções técnicas em agências estatais e da inserção em organizações e
movimentos sociais na esfera internacional. Trata-se de uma geóloga, natural de
Porto Alegre, com 38 anos e casada com um ex-colega de faculdade. Seu pai é um
engenheiro mecânico que ocupava cargos de administração na indústria
automobilística e a mãe uma professora que abandonou o ensino em decorrência do
nascimento dos filhos. Seus pais não participavam de organizações políticas ou
movimentos sociais. Foi através do universo escolar e universitário que ela
desenvolveu o gosto pela participação associativa. Isso ocorreu, primeiramente,
pela atuação em diretórios e encontros de estudantes do curso de geologia em
questões vinculadas à temática ambiental. Em função disso, direcionou o
mestrado para a área de meio ambiente, começando a participar da ADFG por meio
de um colega de curso que era vice-presidente da associação e desenvolvia um
projeto em parceria com a universidade. Daí centrou sua pesquisa na questão da
"poluição causada por metais pesados" e na "avaliação do impacto disso na saúde
humana". No final do mestrado, atuou como estagiária na Fundação Estadual de
Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler - Fepam, vinculada à Secretaria
Estadual de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul - Sema-RS, em um projeto sobre a
"poluição do carvão", sendo depois indicada por seu orientador para fazer um
curso na Alemanha. Já no curso, sentiu-se mais impulsionada a participar da
associação. Entrou em contato com a Federação Amigos da Terra Internacional e
percebeu que podia, dentro da ADFG/AT, fazer de seu trabalho "um trabalho
profissional e que existiam fontes de financiamento e de projeto, inclusive dos
Amigos da Terra Internacional". Sendo assim, ao retornar, abandonou o estágio
na Fepam em troca de uma função remunerada na ADFG/AT e depois ainda na Rios
Vivos. Também nesse caso, a utilidade do conhecimento técnico-científico está
diretamente associada ao militantismo em organizações e movimentos sociais
diversificados. Mesmo que sua intervenção na associação esteja centrada no
exercício de uma função técnica vinculada ao tema "energia", trata-se da
realização de uma função de articuladora da ADFG/AT com "redes associativas" e
organizações nacionais e internacionais. Nesse sentido, ela salienta que uma
maneira de "trabalhar e fortalecer o movimento" não é "nem estudando ou levando
especificamente um tema", mas sim possibilitando os "contatos entre as
pessoas", "botando uma entidade em contato com a outra".
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como este artigo buscou demonstrar, há uma relação muito forte entre as
características do contexto político, as propriedades sociais dos ativistas e
as dinâmicas de engajamento individual na defesa de causas coletivas. Nesse
sentido, a reconstituição social da gênese e das transformações do ativismo
ambiental nos mostra o peso diferenciado das condições de origem e das
inserções em redes de organização e de movimento social para o ingresso e a
permanência no ambientalismo nos diferentes contextos políticos considerados.
No contexto ditatorial e de restrição formal da participação política, eram
indivíduos pertencentes ou que tinham acesso privilegiado aos grupos ou às
elites governantes os principais protagonistas das lutas ambientais. Isso
porque era indispensável reunir as condições e os recursos necessários para a
realização de tal empreendimento, sem acarretar custos políticos e
profissionais elevados a esses ativistas, de modo que eram os de origem social
elevada e com vínculos estreitos com as elites econômica, militar, política e
cultural os que detinham mais facilidades. Diferentemente, mesmo que não esgote
o conjunto de recursos e esferas sociais associadas à participação no
ambientalismo, os exemplos referentes ao contexto de "abertura política" e de
"redemocratização" demonstram a grande importância dos recursos e vínculos
decorrentes da inserção em organizações partidárias e em movimentos sociais
diversificados para o ingresso e a continuidade em organizações ambientalistas
a partir dos anos 1980. Em consonância com isso, observa-se uma mudança
significativa na composição social das principais associações de proteção
ambiental e, conseqüentemente, nos objetivos perseguidos com as mobilizações e
em suas relações com outros tipos de organização política, bem como uma grande
proliferação de organizações ambientalistas atuando nas mais diferentes esferas
de atividade, com os mais diferenciados objetivos ideológicos e a partir das
vinculações de seus dirigentes a redes de organização e de movimento social as
mais variadas.
Dessa forma, ao contrário das abordagens que consideram a emergência e as
transformações das mobilizações ambientalistas um resultado direto de um
processo de "difusão internacional", de "universalização" e de "imposição" de
causas legítimas, este artigo visou demonstrar a importância de integrar a
análise das características e das modificações relacionadas à estrutura de
oportunidades e aos processos políticos nos quais emergem as mobilizações
coletivas à investigação dos tipos de recurso e de vínculo social e político
que conduzem os indivíduos ao engajamento e à permanência no militantismo.
Sendo assim, em vez de se considerarem as condições de origem e os recursos
utilizados pelos ativistas como fatores constantes para o surgimento e o
desenvolvimento das mobilizações coletivas, foram evidenciadas suas
modificações no decorrer do tempo e seu peso relativo em diferentes contextos
políticos.
Tal investigação demonstrou que a análise do contexto político em que se
desenvolve determinada mobilização coletiva constitui um bom ponto de partida
para uma pesquisa mais detalhada do grau variável de pertinência das condições
sociais de origem e das redes de recrutamento para as dinâmicas do engajamento
individual. A combinação entre as configurações do contexto político e os tipos
de condição e de rede social vinculados à emergência e às dinâmicas de
transformação das mobilizações ambientalistas constitui um dos aspectos
principais para a apreensão das dinâmicas de reconversão profissional por meio
da participação na defesa de causas ambientais na referida situação. É com base
nisso que se pode melhor compreender os significados atribuídos à atuação
profissional nesses diferentes momentos, bem como as principais modificações
que ocorreram nas formas de definição e de intervenção dos ambientalistas.