República, Confiança e Sociedade
Muito se tem pensado sobre o termo república. As ciências sociais têm, nos
últimos anos, propiciado um retorno ao passado, visando resgatar uma tradição
até então perdida ou sujeita a imprecisões e anacronismos conceituais, em
função de um suposto consenso liberal. Tem-se pensado de que modo a tradição
republicana pode ajudar a refletir sobre as mazelas e os dilemas que afetam a
sociedade contemporânea. Esse retorno ao republicanismo, ou a uma filiação
teórica típica de um mundo tradicional, pode conter algumas chaves analíticas
que tragam respostas a interrogações do presente. Todavia, é necessário
problematizar algumas questões essenciais ao tema da república, visando
enquadrá-lo em uma configuração social de tipo moderno, verificando, no plano
analítico, qual a possibilidade de uma formação republicana em sociedades
permeadas por uma pluralidade de doutrinas razoáveis.
O fato é que esse repensar a tradição política surge no contexto de uma crise
que afeta todas as sociedades, sem um núcleo claramente identificável,
acometendo tanto o Ocidente quanto o Oriente. Matrizes civilizacionais corroem-
se e reafirmam-se mediante fundamentalismos, ao mesmo tempo em que contextos de
enorme apatia figuram no cenário político. A conclusão é a necessidade de um
novo tipo de reflexão, não no vazio ou em uma reinvenção da linguagem política,
mas no trabalho de remover os escombros do fracasso liberal e nivelar o terreno
para abrir novos flancos de ação política em sociedades plurais e complexas.
Meu desafio é fazer um exercício normativo do modo como a república pode se
tornar efetiva em sociedades plurais e complexas, chamando a atenção para os
aspectos que seriam próprios de uma "sociologia republicana". Não está presente
nas páginas seguintes nenhum manancial empírico, mas apenas o horizonte de
problematizações do tema das virtudes em uma república, no contexto de
sociedades que apresentam uma pluralidade de doutrinas razoáveis, e, ao mesmo
tempo, que convivem com um ambiente institucional em crise. Por isso, este
artigo é inconcluso, porque aponta para uma miragem ainda a ser construída para
uma república na sociedade contemporânea, visando apenas sugerir questões que
seriam próprias de uma sociologia preocupada com o problema do ordenamento
civil.
O REPUBLICANISMO E O PROBLEMA DA FUNDAÇÃO E DAS VIRTUDES
O final do século XX e o início do século XXI são marcados pelo diagnóstico de
uma crise do mundo político, cujos diferentes significados estão na crise do
modelo de representação instaurado no Estado de direito liberal, na crise do
modelo partidário-eleitoral e na crise dos modelos de Bem-Estar Social. A
resultante é a degeneração da legitimidade do Estado como mecanismo de
contenção e solução de conflitos, figurando um cenário de desordem latente,
estreitando o horizonte de possibilidades de emancipação do homem ou qualquer
outro projeto fundado ao longo da modernidade.
Uma visão pós-estruturalista, tal como a defendida por Lyotard, afirma que o
mundo contemporâneo perdeu a grande narrativa do saber científico, o qual foi
inaugurado como o fator estruturante de um projeto de modernidade capaz de
legitimar as diferentes posições e ações por parte das instituições da
política, da cultura e da sociedade, mediante a razão (Lyotard, 1998). O mundo
contemporâneo é vazio de sentido e carece de princípios capazes de alongar a
vida institucional. Visões totalizantes, tais como a inaugurada pela
sociologia, no século XIX, não são possíveis no mundo fragmentado do presente,
derivando, desta forma, como afirma Baudrillard, a dissolução dos vínculos
sociais e a perda de uma sociedade orgânica, auto-regulada e capaz de se
reproduzir no tempo (Baudrillard, 1968). Não é uma crise meramente econômica ou
do modo de produção, mas da legitimidade das instituições sociais e políticas
como mecanismos de resolução de conflitos. A legitimação dos costumes e dos
estatutos modernos foi perdida na miríade de narrativas dissonantes ou
fractais, que se tornam inteligíveis por jogos de linguagem, recusando qualquer
forma de consenso, seja ele social, econômico, político, estético, ou, enfim,
civilizatório.
Se, de um lado, a paisagem niilista traçada pelos pós-estruturalistas chama a
atenção para o desgaste ou o fim de um projeto de modernidade, por outro,
propicia a criação de novos movimentos intelectuais que buscam a construção de
soluções criativas para este cenário de impasse e crise. Dentro destes
movimentos intelectuais, destaco o movimento republicano ou republicanista,
cuja agenda está centrada na busca da ampliação do horizonte valorativo da
política, mediante a construção de princípios que sejam capazes de reconfigurar
e alongar a vida das instituições, no sentido de uma ampliação da densidade
democrática. A reconstrução do ideal republicano mobiliza um sentido de
política orientado pelas idéias de participação e de vida boa. Fundamental-
mente, a reconstrução da idéia de república passa pela reconstrução da idéia de
um bem comum que transcenda o princípio de neutralidade característico do
modelo liberal.
O republicanismo, nesse sentido, caracteriza-se pela crítica ao modelo liberal
de política. No liberalismo político, o princípio de neutralidade das
instituições, de acordo com John Rawls, é o horizonte de construção da ordem em
sociedades complexas e plurais, uma vez que a justiça procedimental antecede
qualquer concepção do bem (Rawls, 2001). A vertente republicana da teoria
política contemporânea, entretanto, parte do princípio de que a construção do
bem antecede a idéia de uma justiça procedimental pura, que tem limites
intrínsecos porquanto a neutralidade não implica em uma construção pura do
justo. Não é possível a construção pura do justo com base no princípio de
neutralidade, visto que a justiça está amarrada a concepções do bem que
sustentam que, para sua justificação, os princípios de justiça dependem do
valor moral ou do bem intrínseco das finalidades para as quais são dirigidos
(Sandel, 2005).
O republicanismo, entretanto, não é um movimento único ou dotado de um objetivo
orgânico por parte de seus intelectuais. O conceito de república encontra
variantes ao longo da história do pensamento político e sempre foi mobilizado
em contextos políticos e sociais específicos, que exigiam da vida republicana
uma resposta a problemas práticos da política. Nesse sentido, não é possível
falar em um conceito unívoco de república, mas em vários conceitos,
circunscritos em certos contextos históricos e sociais. Exemplo das diferenças
de acordo com as quais o termo república já foi empregado é o contraste entre a
aplicação do conceito feita pelos humanistas cívicos do período renascentista e
o uso desse vocábulo durante o período medieval. Para os humanistas cívicos, o
conceito de república está ligado a ideais de participação e virtudes por parte
dos cidadãos. Para o mundo medieval, contudo, a idéia de república designa a
correlação entre os poderes da Igreja e do Império, tendo em vista a união dos
gládios espiritual e secular, respectivamente.
Não quero, neste texto, falar de um movimento republicano ou de um conceito
único de república, até porque estaria cometendo um equívoco teórico. Quero
apenas destacar dois elementos centrais à construção da idéia de república,
tendo em vista sua aplicação prática em contextos de sociedades plurais e
complexas do mundo contemporâneo. Esses elementos a que faço referência são os
temas das virtudes e da fundação, inerentes a uma discussão do conceito de
república. Não quero reconstruir o conceito de república, mas indicar a maneira
como esses dois elementos constitutivos do ideal republicano podem ser
aplicados em sociedades marcadas pela pluralidade de doutrinas morais e pela
complexidade. A questão fundamental que orienta este artigo é: como os
conceitos de virtudes e de fundação, centrais à idéia de república, podem ser
aplicados na política atual?
A reconstrução da idéia de república no mundo contemporâneo é a reconstrução de
uma outra via para o tema da liberdade, a qual não significa mais a existência
de indivíduos dotados de direitos privados e portadores de um tipo de autonomia
que encontra na ausência de constrangimento o fundamento da política. Ponto
comum ao ideal republicano contemporâneoéareconstrução de um ideal de liberdade
assente à existência de um sujeito coletivo, construído em torno de uma
identidade enquanto povo, em vista de uma autonomia pública de iguais sujeitos
de direitos. O repensar a república está relacionado a um tipo de liberdade
balizada em práticas de cooperação social que tenham alcance público, estando,
por conseguinte, além da dimensão privada.
O problema da liberdade, tal como colocado pela via do republicanismo, vai de
encontro à famosa distinção de Berlin1 a respeito de seus dois conceitos
(Berlin, 2002). Trata-se, como declara Bignotto, de uma reafirmação da
liberdade positiva entendida como a ação direta praticada pelos cidadãos no
âmbito da esfera pública, independentemente de qualquer noção circunscrita em
torno de sua consciência ou inclinação (Bignotto, 2004). O essencial é
reconstruir um ideal de participação e de virtudes do vivere civile, os quais
possibilitam o alongamento da vida institucional da ordem política. Reapropriar
o tema da liberdade positiva significa, no seio do republicanismo, como destaca
Bignotto, o eixo norteador da reflexão política, tendo em vista os problemas
práticos das democracias contemporâneas.
Imbricado no tema da liberdade, o tema da democracia é fundamental como
mecanismo de agregação de valor ao corpo político, além de servir como
instrumento de decisões eficazes, com a condição de uma vida ativapor parte dos
cidadãos. O sentido dado à democracia, no colorido republicano, é o fato de ela
ser o lugar das práticas virtuosas, as quais são capazes de incorporar valor
aos bens coletivos, evitando a corrupção do corpo político. A democracia é
condição necessária à vida republicana, segundo Pettit, porque impede o uso
arbitrário do poder e a dominação exercida por aqueles atores que se apossam
dos meios de poder (Pettit, 1997). A democracia, entretanto, como aponta
Bignotto (2004), não é contraditória a uma noção de império da lei, o qual se
torna capaz de absorver os conflitos no interior do corpo político. O teor
democrático do regime republicano é o ideal de não-dominação e a constante
contestação por parte da sociedade civil em relação ao governo, não sendo
contraditório em relação ao imperiumdas instituições da república. Em certo
sentido, a democracia termina por ser a realização do governo amplode
Maquiavel, cujo império é legibus restricto,impedindo qualquer forma de
usurpação ou uso indevido do poder por parte dos atores políticos, em
contraposição ao bem comum (Viroli, 1993).
A discussão da liberdade positiva, central a qualquer concepção de república,
no plano da teoria política contemporânea, demanda um tipo de vida republicana,
marcada, essencialmente, pela excelência do cidadão frente às instituições
(Taylor, 1997). A excelência esperada dos cidadãos é comumente compreendida
pelo conceito de virtude, o qual significa uma qualidade esperada do
comportamento dos agentes políticos em função de um aprendizado moral
permanente. As virtudes estão relacionadas a disposições do agir determinadas
de forma moral, conforme um aprendizado marcado por um ideal de vida boa,
configurado em torno da excelência esperada dos cidadãos, no âmbito dos
negócios públicos. A discussão acerca da liberdade positiva demanda a discussão
do tema das virtudes. Todavia, tal como o conceito de república, não existe
apenas um conceito de virtude (MacIntyre, 2001:305). De uma maneira geral,
trato do tema das virtudes como a excelência esperada do agir em conformidade
com valores fundamentais especificados no plano da ordem política, tais como
honra, coragem, justiça e prudência.
No que diz respeito ao tema das virtudes, adotarei neste artigo a trilha de
Maquiavel e a maneira como ele configurou esse tipo de discussão nos contornos
de sua abordagem do tema da república. Maquiavel abordou um mundo contingente e
marcado pela competência humana de lidar com os assuntos públicos. Os homens
agem, de acordo com o florentino, independentemente de qualquer ontologia
ligada à natureza ou às paixões, as quais os impediria de atingir um estado de
consciência2. A multidão é capaz de operar seus interesses e suas paixões no
sentido do bem, independentemente de um suposto estado natural ou de um
telosético para o qual a teoria política devesse caminhar. Nas palavras de
Maquiavel:
"O desejo que sentem os povos de ser livres raramente prejudica a
liberdade, porque nasce da opressão ou do temor de ser oprimido. E se
o povo se engana, os discursos em praça pública existem justamente
para retificar suas idéias; basta que um homem de bem levante a voz
para demonstrar com um discurso o engano do mesmo. Pois o povo, como
disse Cícero, mesmo quando vive mergulhado na ignorância, pode
compreender a verdade, e a admite com facilidade quando alguém da sua
confiança sabe indicá-la" (1985:32).
O centro da política é o conflito ou uma esfera pública em que os desejos dos
homens são, por princípio, incompatíveis. O conflito, segundo Maquiavel, é
desejável e é fonte do vigor dos homens em relação à república. Ou seja, o
conflito assegura a ação política por meio da participação cívica dos cidadãos
na condução dos negócios públicos. Como observa Skinner (1981:38), é justamente
o conflito que irá garantir a liberdade na república, fazendo com que os homens
saibam lidar com as contingências da vida política. O vivere politico, que
denota uma espécie de vida republicana, de acordo com Maquiavel (1985),
necessita ser institucionalizado, observando a existência de boas leis que
sejam compartilhadas na crença comum dos cidadãos acerca de sua efetividade,
conforme um imperiumassentado em virtudes cívicas derivadas de um bem viver
(Viroli, 1993). A aposta republicana será, portanto, a institucionalização do
conflito mediante leis que garantam a liberdade e a participação (virtú), em um
contexto marcado por contingências que determinam a cidadania como fator de
inclusão ou exclusão da república e como critério para o estabelecimento de
sanções.
Ações virtuosas, por conseguinte, são aquelas que conseguem reproduzir os
valores morais constituídos no plano da comunidade. Valores como justiça,
coragem, honra e prudência são elementos centrais à avaliação da ação política
por parte da própria comunidade. O tema das virtudes, dessa maneira, está
relacionado a uma permanente avaliação da ação política no âmbito da esfera
pública, sendo ela um qualificativo moral designado conforme os ideais de boa
vida da comunidade política. Em contextos conflitivos, como indica Maquiavel
(idem), a virtude é uma qualidade do caráter dos corpos da república, em função
de uma ação política permanente por parte dos atores. É nos contextos de
participação que a virtude aflora como um qualificativo moral da ação política.
Daí que a apatia, por outro lado, implica um mundo de vícios que contribuem,
gradativamente, para a corrupção da república.
Se a república depende de ações virtuosas por parte do corpo político, para que
as instituições sejam estáveis, não há qualquer preocupação com a natureza ou
com as paixões que os homens possam carregar consigo. Ao contrário do que
afirmou Kant (2002), a virtude não é o desatrelar-se das inclinações ou
desejos, mas uma disposição construída em torno de uma educação moral. O
sentido platônico, ou posteriormente hegeliano, que especifica a necessidade da
forma jurídico-política para proteger os homens deles mesmos não é o horizonte
da idéia de república, que lida, como destaca Bignotto (2004:30), com a
contingência. O fator de estabilidade das instituições não está contido na
engenharia jurídica das formas, como enseja o Estado liberal do século XIX, mas
nos valores que orientam e controlam a ação política, tanto por parte dos
governantes, quanto por parte dos súditos. Por isso que ao ver os súditos se
tornarem apáticos diante dos assuntos públicos, como no caso de Florença,
Maquiavel condenou a república florentina a se tornar uma forma de governo
estreito, a qual se corrompeu pelo uso arbitrário do poder em favor de
interesses privados do governante (Maquiavel, 1995). Quando as virtudes do
corpo político dão lugar à apatia, segundo o pensador florentino, ocorre a
corrupção da república, uma vez que as instituições têm um poder corruptor
inerente.
A maneira como Maquiavel construiu a idéia de virtudes está circunscrita à ação
praticada pelos atores em contextos conflitivos e marcados pela contingência. A
virtude não pressupõe uma negação do mundo, como as filosofias de teor
neoplatônico, mas a ação no mundo conforme certo ideal de vida boa construído
no plano da comunidade. As virtudes implicam o fato de que a ação política é
submetida à avaliação por parte dos próprios cidadãos, que não toleram a
apatia. No sentido renascentista de virtudes cívicas, o que está em jogo é a
excelência moral do agir político, que depende de um aprendizado permanente no
plano das instituições políticas. Mas como esse aprendizado moral, inerente a
práticas virtuosas, pode ser alcançado? O tema das virtudes, no contexto de uma
vida republicana, pressupõe o tema da fundação e a maneira como as tradições
políticas de uma comunidade operam esse aprendizado permanente.
A fundação é um momento originário da vida republicana, que configura um
contexto marcado pelas virtudes dos fundadores e a maneira como se estabelece
um processo histórico e social de democratização da esfera pública. A fundação
é o momento originário de uma história que marca a existência de uma tradição
responsável por alongar a vida institucional, conforme os feitos dos heróis
narrados no tempo e que exercem um aprendizado para a ação política, em função
dos princípios que fundamentam a existência das instituições.
O republicanismo é uma forma de liberdade positiva em que o agente moral deve
buscar sua condição através de um ato de vigília que leva à excelência, tendo
em vista uma pré-noção ou antecedência do bem comum, independentemente de
qualquer forma racional ou transcendental de consciência (Taylor, 1997:275). É
a existência de um bem comum que, para as diferentes vertentes do
republicanismo contemporâneo, deve ser resguardada de qualquer ato arbitrário
por parte do governante. O que justifica, na concepção republicana, a fundação
de uma ordem política e a institucionalização crescente do conflito entre os
homens, ou seja, o que justifica o vivere civile, é a existência de um bem que
pode ser compartilhado por todos, sem nenhuma restrição aos participantes da
comunidade política, a qual se reitera no tempo através dos mecanismos da
tradição.
Como consagrou a interpretação de Pocock sobre a obra de Maquiavel, o
republicanismo derivado do movimento renascentista aprimorou e inovou toda uma
tradição de pensamento político, permitindo destacar um momento maquiaveliano,
caracterizado por três elementos que aqui nos interessam: (1) a reativação da
vita ativaem contraposição a uma vita contemplativa,própria do cristianismo;
(2) a concepção de uma república como uma ordem política destinada a
satisfazereacontrolar as paixões do zoon politikon, destinado a uma vida civil;
e (3) a república como criadora de história e inscrita no tempo, ou seja, sem
uma eternidade ou projeção ideal, estando, portanto, sempre exposta a crises e
à potencialidade de corrupção, tendo em vista sua historicidade secular. A
república manifesta-se, desse modo, não como universal ou eterna, mas como uma
comunidade histórica singular, marcada por certas tradições responsáveis por um
aprendizado moral permanente (Pocock, 1975).
O republicanismo, desse modo, reconhece a vida comunitária como a única capaz
de criar um mecanismo de agregação da ação, consubstanciando uma idéia de bem
que se incorpora no imaginário dos indivíduos. A condição da vida comunitária é
o devotamento dos homens à construção da idéia de um bem comum, através do
alargamento da participação política ativa na esfera pública, derivando uma
ação virtuosa, independentemente de qualquer tipo de natureza dada a priori.
Atradição alonga a vida das instituições, possibilitando sua adaptação às
mudanças por meio de um constante experimentar, o qual se dá nos rituais
cívicos, que reforçam, no imaginário simbólico, o preceito do bem comum. No que
diz respeito ao tema da fundação, é interessante frisar a maneira como Robert
Bellah faz o tratamento da questão do papel da tradição na estabilidade
institucional, mesmo em sociedades, como a americana, que passam por processos
de fragmentação da solidariedade.
Cenários de crise institucional, conforme o tema da fundação, demandam um
retorno ao passado, um revigoramento da tradição, visando reordenar as
instituições para manter a estabilidade e impedir a corrupção do corpo
político. Assim como Maquiavel recuperou as tradições romanas para a Florença
de seu tempo, a mesma operação fez Robert Bellah para os Estados Unidos da
contemporaneidade (Bellah, 1975). Como observa o autor de The Broken Covenant,
os americanos passaram por três grandes crises institucionais que lhes
impuseram desafios de ordenação e de reordenação do político. O primeiro
momentoéoda independência e da instituição da liberdade. O segundo momento foi
a instauração da união mediante os resultados da Guerra Civil. Finalmente, de
acordo com Bellah, o terceiro momento é aquele da crise da justiça, da segunda
metade do século XX até o presente, o qual coloca o desafio da capacidade ou
incapacidade das instituições processarem os conflitos em uma sociedade
massificada e garantir, ao mesmo tempo, as liberdades republicanas.
O protagonismo americano, segundo Bellah (idem), foi combinar a república com o
plano religioso. O autor está preocupado com os significados culturais da
tradição americana, que construiu um pacto mediante a aliança do povo com Deus,
tendo como modelo a Canaã dos judeus, presente na narrativa do Antigo
Testamento. O mito de origem americano, criado pelos puritanos, permitiu a
criação de uma dimensão transcendental, capaz de amalgamar a relação entre os
homens no sentido da conversão, a qual os libera das amarras do pecado. A
tradição americana não se liga a uma concepção natural, como os modelos
escolásticos de matiz católico, possibilitando a instauração de um mundo da
harmonia ideológica e religiosa, bem como um mundo do senso comum e dos
interesses. A tradição americana, desse modo, foi fundada na ordenação do homem
comum, virtuoso pelo modo frugal como tratava os assuntos públicos.
Ao contrário de uma noção de representação, que mais tarde seria trazida pela
apropriação das leituras de Hobbes e de Locke, a união da república com o Deus
protestante possibilitou a criação de uma religião civil, a qual transmutou o
político do extramundano para a mundanidade do senso comum, através da
participação ativa por parte dos cidadãos nos negócios públicos, tendo em vista
a frugalidade com que os americanos tratavam os assuntos de suas comunas3. Ao
contrário de se fazer representar, a tradição americana ensejou em seu cidadão
o desejo de participar ativamente na esfera pública. O mito de origem americano
promoveu, nos termos de Bellah, os significados culturais para o indivíduo e
sua comunidade, exercendo uma função transmutadora da realidade, capaz de
estabelecer juízos morais de verdade ou falsidade a partir da própria ação
individual. Isto permitiu a Bellah afirmar que o americano, originalmente,
desenvolveu o primado da inocência, cuja função foi estabelecer uma moral forte
e eficaz da ação do sujeito.
A Reforma protestante operou a transposição do primado da graça, próprio do
matiz católico, para o primado da inocência virtuosa dos americanos, tal como
pregado pelos pioneiros puritanos.
Como destaca Bellah (idem), o atual perigo para a república americana,
entretanto, é a incapacidade de suas instituições de lidar com o eclipse das
comunidades religiosas, em função da massificação da sociedade e do
distanciamento do mito fundacional de sua religião civil. A mudança na vida das
comunidades implicou a incompatibilidade entre instituições e valores,
resultando na ineficácia de todo um ordenamento criado a partir dos pilares do
mito de origem e de seus rituais cívicos. Sem o horizonte dos valores da
fundação, o resultado inevitáveléadegeneração dos costumes e das convenções do
povo. O perigo é ofuscar a liberdade, no seu sentido positivo, tendo em vista a
degeneração das virtudes da religião civil. Como observa Bellah, torna-se
necessário, desse modo, operar um novo contexto religioso, moral e social,
capaz de reorganizar as instituições da república americana no sentido da
solução da crise institucional. Bellah operou um retorno às mais remotas
tradições americanas, visando resgatar os princípios básicos que tornaram a
república legítima perante o corpo político. Todavia, em sociedades
massificadas e permeadas por uma pluralidade de doutrinas razoáveis, continua
sem solução o problema de como operar a tradição e o imaginário tipicamente
tradicional em contextos morais marcados pela precedência do mundo privado.
O problema de uma concepção republicana da política, da forma como Bellah
(idem) articula a tradição, é o modo como a fundação do corpo político e a
institucionalização dos mecanismos de solução de conflitos podem operar os
termos de uma situação moral no âmbito da política, da sociedade e da cultura.
O republicanismo opera com um contínuo resgate e reprodução do imaginário
cívico, o qual reveste as práticas políticas e sociais em conformidade com o
tema das virtudes, reformulando-o para que se adapte às mudanças produzidas ao
longo da história. Todavia, como problematiza Bignotto, o modelo de reflexão
republicana precisa ser repensado para sociedades que não tiveram uma
experiência de fundação virtuosa de suas instituições, ou que se tornaram
errantes ou que tiveram sua fundação inconclusa, sem modificar o imaginário
simbólico (Bignotto, 2004:35). A questão de uma vida republicana, como observam
Werneck Vianna e Carvalho (2004:215), se dá na crescente experimentação de
formas institucionais, tendo em vista conteúdos substantivos presentes na
esfera pública. Resta saber, entretanto, como operar o tema das virtudes,
central na teoria republicana, na sociedade contemporânea, marcada por laços de
complexidade que consubstanciam uma transcendência para além da competência
humana. Ou seja, o tema das virtudes é central para o republicanismo, mas como
pensar o tema das virtudes em sociedades complexas e plurais?
A CONFIANÇA COMO ELEMENTO DAS VIRTUDES INSTITUCIONAIS
O referencial teórico republicano está assentado no par fundação e virtudes,
sem o qual não é possível operar a questão da liberdade positiva e a redundante
participação ativa dos cidadãos na condução dos negócios públicos. A gênese da
modernidade, todavia, operou uma virada radical dos padrões de sociabilidade e
de agregação do bem comum, problematizando a questão da república pela fundação
do Estado.
O pressuposto de uma vida republicana, marcada pela excelência, como mostrei
anteriormente, é a participação ativa dos cidadãos na esfera pública. No
entanto, a modernidade marcou a cisão das doutrinas morais e a constituição de
uma pluralidade de valores que não estão referidos a uma vida comunitária. A
sociedade moderna está submetida a um forte processo de individuação e
fragmentação, originado da divisão do trabalho e da diferenciação funcional de
sua estrutura. Nesse contexto, a vida republicana se confunde com a existência
do Estado de direito, porquanto a visão de uma sociedade como comunidade de
valores dá lugar a uma sociabilidade dividida e heterogênea. O Estado de
direito, nesse sentido, sustenta-se em uma lógica procedimental via direito,
cujo horizonte é uma natureza inclusiva, pela qual as instituições integram
igualmente a cidadania (Werneck Vianna e Carvalho, 2004).
O problema da política, desse modo, deixou de ser um problema de paidéiapara se
tornar um problema de engenharia institucional, capaz de moderar as inclinações
humanas através de leis positivas. Essencialmente, estas leis devem ser
eficazes o suficiente para manter a sobreposição do público ao privado,
mediante a identificação do primeiro com o Estado. Do modo como a sociedade
moderna assentou suas bases institucionais, não é possível, teoricamente, uma
república operar virtuosamente a criação do corpo político, tal como o mundo da
tradição aborda essa questão. Não é possível esperar uma ação tipicamente
virtuosa por parte dos cidadãos, uma vez que a possibilidade de aprendizado
moral se encontra fragmentada em uma pluralidade de doutrinas morais
configuradas pela crescente complexificação da existência social. Todavia,
devemos problematizar este tipo de narrativa da modernidade, pensando como os
padrões de sociabilidade podem assegurar a existência de uma república nos
moldes de instituições virtuosasque sejam estáveis e persigam o bem comum, sem
as virtudes por parte dos cidadãos, no âmbito da esfera pública. Ou seja, o
problema da república deixa de ser a questão das virtudes dos cidadãos para se
tornar o problema das virtudes das instituições.
Como esbocei na primeira seção, a virtude pressupõe um processo de avaliação
conforme os termos de uma vida por excelência. No mundo tradicional, tal como o
dos humanistas cívicos, a avaliação ocorria em torno da ação política do
cidadão. As virtudes, no mundo da tradição, estão referidas à ação do cidadão
conforme um conjunto de valores marcados pela fundação e dos feitos de seus
heróis, de acordo com um caráter público dos valores. Em sociedades complexas,
entretanto, não existe um critério de avaliação da ação política, como indica a
doutrina liberal, visto que os processos de crescente individuação e de divisão
do trabalho configuraram uma pluralidade de doutrinas morais que não permite um
critério substantivo de avaliação da ação política. Entretanto, argumento que
mesmo que exista essa pluralidade de doutrinas morais, a excelência da ação
política é sempre uma expectativa por parte dos cidadãos, que esperam o
respeito a determinados valores em contextos sociais.
Apesar desse processo de crescente individuação e cisão da moralidade no plano
da política, a virtude continua sendo um critério de avaliação em função da
excelência. É fato que a excelência não está mais na ação praticada pelos
atores, mas em contextos institucionais. Ou seja, o tema das virtudes não está
referido à ação praticada pelos atores, mas à existência de instituições
virtuosas. A república, em sociedades complexas e plurais, opera com a
construção de instituições virtuosas em função de um critério procedimental
inclusivo de cidadãos dotados de iguais direitos privados e políticos, que lhes
permite influenciar na construção da opinião e da vontade. A excelência
continua sendo um critério avaliativo da ação política, mesmo que essa
avaliação ocorra em contextos plurais. Uma situação típica desse processo de
avaliação a que me refiro é quando ocorrem escândalos de corrupção. A sociedade
avalia, em casos de corrupção, a ação praticada no interior das instituições,
submetendo-as a um critério de excelência. Dessa maneira, as virtudes continuam
sendo um critério razoável de avaliação da política, no plano de suas
instituições. Não significa, como no mundo tradicional, as virtudes dos
cidadãos, mas das instituições e de sua atuação frente à sociedade.
Argumento que a questão da avaliação das virtudes se dá no plano das
instituições políticas e de sua atuação na sociedade. O problema da república
configura-se no problema das virtudes das instituições e na maneira como
sociedades plurais e complexas as avaliam. Mas a questão permanece: como essa
avaliação por parte da comunidade ocorre? Uma chave que pode operar a questão
da avaliação de instituições virtuosas em contextos sociais pode ser encontrada
no problema da confiança. Ela pode conter um padrão de sociabilidade que sirva
ao propósito de ordenação virtuosa da política, mesmo em um contexto em que a
comunidade se encontra cindida pela moralização do interesse, em função do
processo de individuação. A confiança, por conseguinte, é um tema central à
vida republicana no mundo contemporâneo, porquanto agrega um critério de
avaliação que permite descrever as virtudes de determinado arranjo
institucional. A trilha que Simmel abre no tema da confiança, nesse sentido,
pode ser interessante a esta abordagem.
Como chama a atenção Simmel, toda ação social apenas será possível quando um
indivíduo forma uma imagem do outro indivíduo. Por outras palavras, ele afirma
que a existência de uma sociedade, seja com qual característica for, depende da
existência da alteridade. Todas as relações sociais desenvolvem-se sobre um
saber mútuo, sejam elas estabelecidas em sociedades de tipo primitivo ou de
tipo moderno (Simmel, 1977). É fato que a modernidade, todavia, assentou suas
bases de sociabilidade fora das instituições tradicionais da política. Simmel
afirma o fato de a sociedade moderna estar balizada em um saber constituído
através da idéia de honra, a qual se desenvolve em instituições próprias da
economia, como o comércio e os títulos de crédito. Contudo, a sociedade moderna
não é sinônimo de simples privatismo ou de vulgaridade das ações tidas como
sociais. A modernidade ensejou mecanismos distintos de socialização que estão
fora das virtudes cívicas, tornando, de fato, a república, em seu sentido
tradicional, um regime do passado.
Isto não significa, por outro lado, que a modernidade tenha rompido com a
tradição, nem que elementos tradicionais não estejam presentes na modernidade.
O fato é que, ao invés de o homem ser aparente no público, ele se torna, de
acordo com Simmel, anônimo e inserido em um padrão de sociabilidade entre
"estranhos". A dificuldade é operar mecanismos de socialização capazes de
estabelecer o referido saber comum entre estranhos, entre indivíduos que
preferem se isolar em seu espaço privado. Isto não significa, na sociologia de
Simmel, que o mundo moderno seja sinônimo de atomismo. O mundo, ao contrário de
ser o mundo de indivíduos atomizados, é o mundo de novos tipos de instituições,
que, ao invés de tornar o homem aparente na esfera pública, buscam preservar
seu anonimato e sua intimidade. A discrição é um dos elementos essenciais da
vida moderna, que não impede a existência do público. Nem se exige do homem
comum ou dos atores políticos as virtudes, mas a publicidade com que os
assuntos da coletividade devem ser tratados (idem:370).
O que diferencia o público tradicional do público moderno, de acordo com
Simmel, é o fato de ele ser constituído de diferentes associações criadas para
perseguir determinados fins. Não há mais a presença da comunidade enquanto
locuse valor para a existência humana. Ao contrário do partilhamento de um bem
comum, estas associações são absolutamente discretas, feitas de participantes
anônimos. As associações não absorvem a subjetividade dos indivíduos. Ao
contrário, reforçam esta subjetividade e fazem brotar energias impessoais,
capazes de moldar instituições e de estabelecer o convívio pacífico entre os
indivíduos. É o caso das associações de crédito mútuo, que não operam nos
termos retóricos da ágoragrega ou dos tribunosromanos, mas na confiança que os
indivíduos depositam nelas como instituições sociais. O mesmo pode se dizer dos
partidos políticos, que não exigem de seus correligionários as virtudes, mas
apenas a confiança em torno de uma ideologia ou programa conduzidos por uma
elite partidária.
A modernidade é o mundo do segredo, o qual se caracteriza por ser um elemento
individualizador de primeira ordem, capaz de processar a diferenciação social
em grupos e associações de diversas naturezas (idem). O segredo, de acordo com
Simmel, não tem nenhuma conotação moral, uma vez que admite os particularismos
ocultos em relação ao público. O que antes pertencia ao público, pensando na
vida comunitária da esfera tradicional, oculta-se mediante o segredo. A
constituição das associações e dos grupos da sociedade moderna, ou seja, das
diferentes sociedades secretas que permeiam o público, se dão na capacidade com
que conseguem proteger o segredo e resguardar a esfera de intimidade dos
indivíduos.
O público é o local das diferentes sociedades secretas, que individualizam o
homem porque protegem sua subjetividade. A essência do público, nos termos de
Simmel, é tornar-se exterior ao sujeito, em sua forma sociológica, demandando a
existência de uma contraparte de autonomia do indivíduo, que está na clausura
do segredo do mundo privado. As instituições sociais e políticas precisam lidar
com a diferenciação destes dois mundos, operando uma vida institucional marcada
dialeticamente pelo segredo e pela publicidade. Para realizar esta operação,
torna-se necessário um mecanismo que coloque em contato os indivíduos anônimos.
A participação na vida associativa depende da confiança que os co-partícipes
depositam no indivíduo e no grupo. O mecanismo mediante o qual a vida
institucional moderna, de acordo com Simmel, realiza a diferenciação entre o
agir público e o agir privado é a confiança:
"A confiança é uma hipótese sobre a conduta futura de outro, hipótese
essa que oferece segurança suficiente para fundar nela uma atividade
prática. Como hipótese, constitui um grau intermediário entre o saber
acerca de outros homens e a ignorância a respeito deles. O que sabe,
não necessita confiar; o que ignora, não pode sequer confiar. [...] A
objetivação da cultura tem diferenciado os graus de saber e
ignorância necessários para que se produza a confiança" (idem:367,
tradução do autor).
Mas como a confiança pode ser um elemento central no tema das virtudes, em uma
vida republicana? Os termos de uma vida republicana, como poderíamos derivar a
partir do ensaio de Simmel (idem), dão-se no modo como estabelecemos a
confiança em torno de instituições capazes de moldar o comportamento e os
desejos em um público sem virtudes. A institucionalização, tendo em vista as
questões da publicidade e do anonimato, em uma sociedade de "estranhos", só
pode ocorrer em contextos de confiança, que reduzem as expectativas dissonantes
dos indivíduos. A democracia resguarda o interesse material de todos, tornando
a expectativa de publicidade em relação aos assuntos do Estado desejável e
necessária. A dialética do segredo e da publicidade possibilita, no modo como
Simmel articula esta questão, a referência a padrões distintos de relação
social; ora sustentados na relação associativa, visando à satisfação de
interesses; ora sustentados na relação comunitária, visando à noção de
pertencimento. No sentido lógico, a democracia é necessária na sociedade
moderna, porque revela ao público o segredo das atividades do Estado,
impulsionando os indivíduos a intervirem nos assuntos públicos enquanto
pertencentes a um mundo comum, ou seja, impulsionando relações comunitárias com
o caráter de reconhecimento da autonomia pública, central em uma vida
republicana. A confiança, como tratada por Simmel, pode ser um elemento central
para a questão da avaliação das virtudes das instituições. A confiança em
instituições só pode ocorrer em contextos de alta publicidade das atividades do
Estado, porquanto ela se torna um elemento central para aferir as virtudes das
instituições políticas. Isto é, instituições virtuosas são aquelas que
conseguem estabelecer, frente à sociedade, um contexto de confiança construído,
fundamentalmente, em cima do princípio da publicidade e da proteção da
autonomia privada.
A confiança é o instrumento essencial para que a vida associativa possa ser
construída, uma vez que ela propaga e protege o segredo característico dos
grupos. A função contraposta da confiança em relação à publicidade serve para
manter intacta a existência das sociedades secretas e de padrões de
sociabilidade que dão a noção de pertencimento a uma comunidade formal. Desse
modo, a confiança está na contramão da publicidade, e, por derivação, da
democracia, se considerarmos o conceito de público com o qual a tradição
clássica opera. Acondição democrática dos modernos, entretanto, como observa
Simmel (idem), não é contraditória em relação ao segredo e à existência das
sociedades secretas. Ela exige certa autonomia formal dos grupos, que agem na
base da confiança nas instituições. De outro lado, exige a noção de publicidade
enquanto mecanismo vinculador das sociedades secretas, sem a qual a noção de
ilegalidade impera. De acordo com Simmel, uma democracia sem publicidade tende
a proporcionar ações consideradas ilegais por parte das sociedades secretas. E
o princípio da publicidade quer dizer que as instituições políticas estão
submetidas a uma permanente avaliação por parte dos diferentes grupos e
associações que constituem a esfera pública na modernidade. A confiança pode
ser construída apenas em contextos democráticos, tendo em vista o princípio da
publicidade.
A confiança, nesse sentido, é um elemento central na constituição de
instituições virtuosas, em sociedades complexas, porquanto é um elemento
individualizador mas que permite a avaliação por parte dos próprios cidadãos,
mesmo que não exista uma comunidade de valores harmônica e homogênea. Ao
contrário disso, o conflito é a marca distintiva desse tipo de vida política,
reconfigurando os termos de Maquiavel e sua marcação do conceito de república.
A república, em sociedades complexas e plurais, está sedimentada no conflito e
em um ideal de inclusão dos diferentes grupos, na base da construção da
confiança em instituições. O conceito de confiança de Simmel, por conseguinte,
é central para se pensar um mecanismo de virtudes das instituições, conforme
valores atribuídos a essa vida institucional típica dos modernos, ou seja,
marcada pela pluralidade de doutrinas morais e pela complexidade.
O problema da confiança, todavia, tem um tratamento distinto na sociologia
política contemporânea. Com base na teoria da modernização e sua vertente de
estudos da cultura cívica, o tratamento do tema da confiança, enquanto um
mecanismo central de estruturação da democracia e das organizações econômicas,
se dá em um plano diferente da abordagem de Simmel. De acordo com Ronald
Inglehart (1990), a confiança está nas relações face a face estabelecidas por
indivíduos, resultando em interações capazes de estruturar a ação coletiva e de
assegurar padrões horizontais de organização social. Ao contrário de interações
sem confiança, em que o padrão estruturante da ação coletiva leva a hierarquias
rígidas no interior das sociedades. A análise do tema da confiança, desse modo,
se dá na presença ou ausência do cenário social em que se pesquisa, construindo
modelos binários na busca de um maior ou menor grau de democracia e
prosperidade econômica. Além disso, a perspectiva da confiança, tal como
abordada nessa vertente, não é o modo como ela solidifica a existência de
instituições da sociedade moderna, como afirma Simmel (1977), mas a confiança
de indivíduos uns nos outros, ou seja, a confiança interpessoal.
O tema da confiança interpessoal ganhou pujança na análise da prosperidade ou
das mazelas comparativas entre culturas cívicas, uma vez que procura descrever
padrões de interação social democrática ou autoritária (Putnam, 1993). Do ponto
de vista lógico, o que os autores ligados ao tema da cultura cívica afirmam é
que o baixo nível de confiança interpessoal leva a interações de caráter
autoritário, enquanto o alto indicador de confiança interpessoal leva a
interações democráticas e a uma maior prosperidade econômica. Esta relação, do
ponto de vista estatístico, corrobora 60% dos casos estudados, conforme
pesquisa conduzida por Inglehart em 65 sociedades (Inglehart, 2002). Nesta
abordagem, a confiança interpessoal aumenta a capacidade de a sociedade
coordenar as expectativas, gerando o capital social4 necessário para a
estabilização e eficácia das instituições políticas. Por outro lado, os baixos
indicadores de confiança interpessoal, como observam Power e González,
característicos de sociedades "pouco" avançadas e católicas, nos termos da
cultura cívica, resulta na existência de corrupção como forma de mediação
social (Power e Gonzalez, 2003).
Esse tipo de abordagem do problema da confiança tem sofrido diferentes
críticas, tanto teóricas, quanto metodológicas. Não estou preocupado em
identificar essas críticas, mas em destacar uma que aborda o tema da confiança
de uma maneira interessante, ligando-o ao problema das instituições. Como
destacam Eisenberg e Feres Júnior (2006), o conceito de confiança interpessoal
carece de substância política. É um conceito, tal como tratado pela vertente
americana de estudos da cultura cívica, pensado de maneira estritamente formal
e que abdica de sua semântica original. Aformalidade com que os estudos de
Inglehart foram conduzidos em seu manancial empírico encobriu eventuais
diferenças de significados para a palavra confiança, fazendo com que a medida
empírica seja prejudicada, devido ao fato de diferentes povos terem um conceito
distinto do que é confiar em seu semelhante. Eisenberg e Feres Júnior, além
disso, afirmam que o termo confiança dista de estar relacionado com interações
pessoais, mas está ligado à sua raiz latina na palavra fides. Aconfiança, no
modo como é empregada na tradição romana, é correlata à idéia de relações
comerciais, estabelecidas mediante crédito monetário (Eisenberg e Feres Júnior,
2006).
Como mostram os autores, a maneira como Inglehart e toda a vertente americana
da sociologia política empregaram o termo confiança leva à corroboração de que
países de tradição católica tendem a ter, no mínimo, uma democracia fraca, com
baixo grau de participação, uma vez que não é a lógica da ação coletiva que
realiza os benefícios públicos. Do modo como a vertente da teoria da
modernização empregou o termo, pode-se derivar, do ponto de vista lógico, que
um excesso de confiança levaria à apatia, porque os atores irão preferir
transferir as atividades sob seu controle para outros agentes confiáveis. Como
destacam Eisenberg e Feres Júnior (idem), o exercício da confiança depende de
todo um aparato institucional presente na lei, bem como não se confunde com a
apatia. O exercício da confiança não se dá meramente por raízes religiosas de
determinada cultura, mas pelo modo como as instituições são capazes de reduzir
o risco em sociedades complexas. A confiança interpessoal, portanto, é
inadequada a uma teoria democrática moderna, porque em sociedades complexas os
padrões de interação são mediados por instituições. Por outro lado, a confiança
em instituições é uma categoria fundamental para a análise da estabilidade de
regimes políticos, porque, como lembram os autores, recuperando as noções dadas
por Locke e por Hobbes, o exercício da confiança não significa a renúncia da
comunidade política à sua existência, mas um poder originário supremo, que pode
mudar a composição dos órgãos governamentais, transferindo sua confiança para
outros.
Do modo como imaginam Eisenberg e Feres Júnior, a análise comparativa de
regimes políticos, tendo em vista a confiança nas instituições, pode funcionar
como medida de seu teor democrático. Compreender a questão da confiança por sua
raiz etimológica possibilita constatar a maneira como o confiar nas
instituições se torna um elemento central para a vida republicana. O ato de
confiar, de acordo com os autores, torna-se uma espécie de poder constituinte
permanente, conforme a formação e a composição das instituições e o modo como
elas são avaliadas pela própria comunidade política. A confiança nas
instituições políticas carrega essa avaliação permanente, sendo um tema
essencial, desse modo, a uma abordagem da república em sociedades plurais e
complexas.
Todavia, vale ressaltar, do ponto de vista etimológico, mais uma distinção
semântica não atentada por Eisenberg e Feres Júnior (idem), que diz respeito à
diferença entre truste confidence, no âmbito da língua ingle-sa. Apalavra
confidenceestá relacionada com a existência de uma informação ou revelação
secreta, do modo como Simmel (1977) tratou o problema da confiança. De fato, a
palavra está ligada à questão do crédito monetário, que é tratado na base de um
segredo entre devedor e credor. Trazendo o problema da confiança, nesta chave
lingüística, para a análise política contemporânea, é essencial, como observa
Simmel, o modo como as instituições são capazes de guardar o segredo dos
indivíduos. Por outras palavras, o essencial é compreendermos o modo como as
instituições podem proteger as esferas de autonomia e de intimidade do
indivíduo, tendo em vista a contraparte da publicidade necessária nos regimes
democráticos, como, por exemplo, a prestação de contas perante o público e a
publicação da contabilidade pública. Eisenberg e Feres Júnior (2006) estão
corretos ao afirmar que o tema da confiança está correlacionado ao tema das
instituições. Contudo, o confiar nas instituições não é apenas um problema do
poder originário a que os autores se referem, mas a maneira como essas
instituições são depositárias dos elementos individualizadores da vida moderna,
como afirmou Simmel (1977). O problema da confiança não é a possibilidade da
constituição de sujeitos coletivos em torno de temas públicos, mas a maneira
como estas instituições mantêm intacta a autonomia dos grupos, reforçando a
solidariedade como cimento da sociedade. Ou seja, é fundamental à construção da
confiança, o princípio da publicidade e a forma como as instituições incorporam
esse princípio e configuram suas práticas.
Justapor essas duas perspectivas'ade Simmeleade Eisenberg e Feres Júnior ' para
o problema da confiança nas instituições pode ser mais interessante, na medida
em que a confiança pode se constituir como um elemento para a avaliação das
virtudes das instituições. A confiança nas instituições é um elemento central
para uma vida republicana em sociedades plurais, porquanto ela assegura um
critério de avaliação permanente da sociedade em relação ao tema das virtudes.
Confiar nas instituições, portanto, é essencial para operar uma
consubstanciação entre público, de um lado, e privado, de outro, atentando para
a diferenciação lingüística de confidence, tratada por Simmel (1977), e trust,
tratada por Eisenberg e Feres Júnior (2006). Articular dialeticamente
confidencecom trustsignifica refletir sobre o modo como as instituições
políticas podem realizar a proteção do indivíduo, junto com a existência
permanente do poder originário da comunidade política, o qual pode modificar as
instituições visando a diferentes imperativos éticos através da exigência de
publicidade.
O mundo moderno, deste modo, não necessita de virtudes do cidadão para que as
liberdades republicanas possam operar em um contexto institucional. A
moralização da dimensão privada requer não virtudes por parte do corpo
político, mas a confiança dos homens nas instituições, as quais geram um mínimo
de "inteligibilidade" em uma sociedade de estranhos. Pelo princípio da
publicidade, a república pode operar em sociedades fragmentadas, ao associar
público e privado pela construção da confiança em suas instituições. A
moralização da dimensão pública, em contrapartida, só pode ser operada em um
contexto social que estabeleça virtudes que assegurem uma unidade no seio dos
princípios das instituições, ou seja, estabeleça instituições virtuosas. A
moralização do público, acompanhada da moralização do mundo privado, permite a
unificação dos bens em termos de valores que sustentem a vida institucional da
república, projetando um ideal de bom governo e excelência moral. A crítica
republicana ao liberalismo, nesse sentido, pode ser enriquecida se tomar o tema
da construção da confiança em instituições como um tema central da estabilidade
política e da avaliação das virtudes.
O tema da confiança nas instituições, dessa maneira, permite um aprendizado
moral que reproduz suas virtudes, tendo em vista o princípio da publicidade.
Mesmo em sociedades marcadas pela pluralidade de doutrinas morais e pela
fragmentação, o tema das virtudes pode operar pelo aprendizado moral
estabelecido pela maneira como se constrói a confiança nas instituições
políticas. A confiança, desse modo, é um elemento central à vida republicana,
na medida em que marca a excelência esperada do arcabouço institucional e a
maneira como ele protege os segredos da vida privada e atua na base do
princípio de publicidade, como apontou Simmel (1977).
Em função do tema da confiança, a questão fundamental na próxima seção é a
maneira como vincular à existência da república a existência de um bem comum em
sociedades plurais, no sentido de superar uma lógica essencialmente
procedimental que caracteriza a vida política moderna. Ou seja, em função do
tema da confiança, como se pode construir a idéia de república em sociedades
complexas? Argumento que a construção da confiança não se resume a uma lógica
procedimental da política, mas a um experimentalismo da vida democrática, que
permite um constante aprendizado moral e uma constante reformulação das
instituições, conforme a confiança esteja na base da avaliação da sociedade em
relação a suas instituições políticas.
A REPÚBLICA, A CONFIANÇA E A DEMOCRACIA
A modernidade moralizou o mundo privado, ensejando o paradigma da representação
enquanto mecanismo de agregação da vontade popular. O homem representa a si
mesmo enquanto sujeito moral, que, perante seus semelhantes, busca o
reconhecimento e a validade de seus interesses (Eisenberg, 2003)5. Ao contrário
de ser virtuoso, o homem moderno procura preservar seu anonimato e sua
intimidade, como vimos anteriormente, transferindo para as instituições do
Estado o papel de regular as ações através da contraparte de sua confiança.
Isto leva, por outro lado, a uma neutralização moral das instituições políticas
em si, cujo telosé apenas garantir a segurança jurídica necessária para que o
indivíduo possa fazer-se representar através de seus interesses.
De acordo com Cícero Araújo (2004:7), o problema da república deve ser
distinguido em relação ao problema do Estado, porque são duas modulações
distintas para se fundar uma boa ordem política. Enquanto a república se funda
pelo conflito entre as partes virtuosas do corpo político, o Estado funda-se
pelo alargamento da cidadania, tendo em vista a noção de plebeísmo. Enquanto a
república exige virtudes de cunho aristocrático, a fundação do Estado exige um
processo revolucionário, em que plebeus forçam sua entrada na civitase exigem a
extensão da cidadania. A ascensão da plebe, que muitos autores republica-nos
reconhecem como fator da corrupção (Filgueiras, 2005), funda o Estado mediante
sua inclusão através da revolução, que, no seu momento inicial, exige alto grau
de civismo. Porém, o Estado sobrepõe-se à comunidade de cidadãos, derivando sua
autoridade de mecanismos formais do direito, como observou Weber (1999:164),
que dão a ele o poder de regular as relações privadas no âmbito da própria
comunidade.
O Estado, ao contrário da república, funda-se pela constituição de normas,
independentemente de qualquer ato virtuoso por parte dos cidadãos. Basta que
sejam formalmente reconhecidos enquanto tal, para que possam buscar o
reconhecimento de seus interesses. O Estado é constituído, dessa forma, a
partir do modo como personifica um ordenamento jurídico, tornando-se uma pessoa
jurídica, capaz de ação e sujeita a direitos e deveres. Esta personificação,
por sua vez, permite ao Estado controlar os mecanismos de inclusão ou exclusão
da cidadania, uma vez que, para se representar, o cidadão necessita ser
formalmente reconhecido enquanto tal, independentemente de seu estado de
consciência ou alienação. A fundação do Estado, por sua vez, como observa
Araújo (2004:150), acaba por colocar, ontologicamente, a dimensão do
procedimento sobreposta à dimensão das substâncias valorativas, as quais estão
presentes no tema das virtudes.
Pelo fato de a modernidade efetuar uma moralização do indivíduo, o qual traz
consigo todos os segredos de seu anonimato e de sua intimidade (Simmel, 1977),
é necessário criar uma esfera de representação capaz de agregar vontades
particulares e transformá-las em vontades coletivas. Por abdicar das
substâncias valorativas, o Estado termina por legitimar-se na articulação
formal dos interesses daqueles que compõem a sociedade, em uma condição civil.
Para isso, diferencia estruturas jurídicas com o objetivo de construir,
artificialmente, a pessoa do súdito e a pessoa da autoridade política. Por
isso, como observa Eisenberg (2003), a linguagem do direito, na modernidade,
lida com a idéia de dominiume não com a idéia de imperium. A noção de
dominiumsignifica que os sujeitos do direito (o súditoeopróprio Estado) são
proprietários de direitos individuais, diferenciados, porém, conforme as coisas
que regulamentam6. Quando regulamentam as coisas particulares, o dominiumé
privado; por outro lado, quando regulam coisas que dizem respeito a muitos, o
dominiumé público. Derivando, do ponto de vista lógico, a relação de
dominiumentre os sujeitos de direito, o Estado só pode ser concebido enquanto
dominação, tendo em vista a relação de propriedade, ou seja, entre aqueles que
têm e aqueles que não têm (Eisenberg, 2003:164).
Como observa Cícero Araújo (2004), o direito fornece ao Estado uma ordem
jurídica, que faz com que as decisões e as regras emanadas de sua vontade se
dêem em um plano impessoal. Mediante a impessoalidade das relações privadas e
uma moral que não requer um ideal de perfeição, a relação de dominação, ou
seja, a relação entre governantes e governados, se dá no plano da
representação. Isto impõe, do ponto de vista normativo, como defende o autor, a
democracia enquanto mecanismo formal de decisões no governo, canalizando as
vontades individuais, no sentido utilitarista da maior felicidade para o maior
número. Entretanto, o ideal da representação termina por conter o ideal de
civismo, uma vez que não demanda do cidadão uma projeção de excelência de suas
ações. Uma vez portadores de direitos da cidadania, os indivíduos modernos
participam de uma comunidade política como iguais sujeitos de direitos, tendo
em vista a tutela formal do Estado, que personifica o interesse público. Essa
igualdade, por sua vez, implica o estabelecimento de identidades coletivas
entre os indivíduos e o Estado, rompendo o vínculo patrimonial entre
governantes, corporações e famílias, próprio do mundo tradicional. Acomunidade,
no mundo moderno, entretanto, é restrita enquanto amálgama do bem comum. Ela é
constituída por sujeitos de direitos, que buscam preservar seu
dominiumreconhecido no âmbito do Estado.
O horizonte do Estado e da cidadania moderna implicou, como mostra Araújo, duas
modulações distintas de fundação da boa ordem política. De um lado, a
constituição mista plebéia, que busca equilibrar o domínio daqueles que têm
sobre aqueles que não têm, gerando laços de solidariedade social entre grupos
orgânicos que se identificam mediante a categoria trabalho. E, de outro lado, o
Estado democrático, que opera no âmbito das relações associativas sem a
morfologia social dos grupos, que polariza a relação de dominação no mundo
plebeu. O Estado democrático lida com uma pluralidade de grupos, conforme
diferentes aspectos da vida social, centrando o foco de estruturação a partir
do indivíduo.
Mediante a criação destes equivalentes funcionais no mundo privado, torna-se
necessária, como destaca Araújo, a existência de mecanismos de solidariedade,
capazes de agregar a plebe em torno da constituição mista, dirimindo as
desigualdades reais entre aqueles que têm e aqueles que não têm. Araújo (idem),
entretanto, encontra uma modulação distinta de fundação da boa ordem, tendo em
vista a noção de um Estado democráticocapaz de amalgamar os distintos grupos
presentes na arena social, que não se caracterizam por sua vida orgânica,
estendendo-se por diferentes aspectos subjetivos dos interesses. Nesta
modulação, o público se distingue por uma pluralidade de arenas sociais, que
buscam o reconhecimento de seus interesses junto à esfera estatal. A república,
de acordo com Araújo, termina por se confundir com o Estado democrático e a
maneira como ele promoveu o alargamento da esfera pública, tendo em vista a
noção de plebeísmo. O Estado democrático é a expressão de uma vida republicana
nas sociedades contemporâneas, visto que não demanda virtudes de seus cidadãos,
mas de suas instituições políticas. O Estado democrático, típico de sociedades
plurais, é republicano na medida em que representa o resultado de criações
institucionais virtuosas. Ao se apresentar em uma lógica procedimental pura, o
Estado democrático corre o risco de perder sua base social efetiva, uma vez que
depende de uma permanente reprodução de suas instituições e de seus princípios.
O problema da lógica procedimental do Estado democrático e seu teor republicano
é que a proteção da autonomia privada do cidadão, portador de segredos e de uma
intimidade, traz o permanente efeito de corrosão quando a participação e a base
da sociedade deixam de existir para essa vida institucional. Ou seja, o Estado
democrático não consegue subsistir sem uma mobilização social e política. Os
processos de individuação e de complexificação das sociedades contemporâneas
retiraram o indivíduo das comunidades auto-reguladas e exclusivas. Nesse
sentido, a lógica procedimental do Estado democrático é necessária à política
moderna, apesar de correr o risco de corrosão em função de uma baixa
participação da cidadania.
Existe uma modulação do Estado democrático não atentada por Araújo, presente no
pragmatismo de John Dewey. A comunidade envolve uma variedade de associações às
quais os indivíduos se filiam na busca da satisfação de seus interesses, não
envolvendo nenhum tipo de juízo sobre o bem, dado a priori. Um mesmo indivíduo
pode pertencer a diferentes associações, fazendo com que os laços de
pertencimento se fortaleçam mediante uma forma de socialização secundária, dada
pelo Estado. O público, na acepção de Dewey, depende da existência do Estado
como mecanismo secundário de associação, capaz de coadunar os diferentes
interesses, organizando-os na forma pública através de regulações acima da
pluralidade dos grupos. Todavia, a comunidade é a realização de um ideal ético,
que torna a democracia uma exigência para a consecução da república,
contrabalançando o agonismo dos interesses e das necessidades dos atores
políticos (Dewey, 1991).
Se, como apresentei anteriormente, a sociedade moderna perdeu uma
característica comunitária que pertencia à tradição, o modo como Dewey (idem)
articula a questão permite uma solução de continuidade sem o espírito virtuoso
do passado, entendido enquanto ideal de excelência. As pequenas associações
reforçam os laços de pertencimento, desde que haja a regulação dada pelo Estado
acima delas, congregando os diferentes interesses na forma de soluções
cooperativas. O Estado é responsável por dar uma vida moral à vida orgânica das
associações, permitindo o engajamento dos indivíduos nos assuntos tidos como
públicos. A virtude, como podemos derivar de um viés pragmático como o de
Dewey, é uma disposição do cidadão para participar dos assuntos das associações
às quais pertence, configurando uma unidade experimentada entre contextos
práticos de açãoeoeu moralizado da modernidade. Uma vez que a participação em
diferentes associações visa à satisfação dos interesses privados, o engajamento
coletivo resulta em uma vida moral que sustenta o Estado democrático,
garantindo a virtude de suas instituições e de seus princípios. Essa moral,
entretanto, segundo o autor, é contingente e depende de uma experimentação
constante por parte dos indivíduos. O indivíduo é cônscio de seus interesses,
mas compartilha uma moral independente da pluralidade de doutrinas às quais
eles pertençam. Ou seja, as virtudes das instituições são construídas conforme
um contexto de aprendizado moral que vem de baixo para cima, conforme uma
esfera pública que se amplia pela existência de associações e outros sujeitos
coletivos.
O Estado é responsável, segundo Dewey (idem), por fundar uma cooperação
reflexiva entre os grupos. Por um lado, esta cooperação reflexiva entre os
grupos permite limitar a função do Estado na sociedade, contendo sua capacidade
opressiva. Por outro, a participação dos grupos de interesse na arena estatal
(pública) permite uma representação ampliada, independente da sua forma. A
participação dos grupos, nos termos como o pluralismo de Dewey é apresentado,
possibilita uma substância democrática, convergindo os diferentes interesses
mediante a experimentação. O experimentalismo democrático do autor permite aos
indivíduos interagirem com seu contexto e formarem um saber comum, o qual
enseja consensos capazes de reproduzir a comunidade auto-regulada e propiciar
padrões de sociabilidade que garantam a existência de mecanismos de
solidariedade. Ao contrário do pluralismo vazio de conteúdo ético, apresentado
por Araújo (2004), Dewey (1991) reforçou a existência moral da comunidade
enquanto construção de um saber que perpassa a vida econômica, universalizando
as condições para a cidadania política. Esse saber é, fundamentalmente, o valor
da democracia enquanto princípio da vida republicana e das virtudes das
instituições.
Essa experimentação, contudo, é paralisada em um contexto próprio do início do
século XX, em que o público é eclipsado pela degeneração dos laços comunitários
originários de uma moral dada pelo Estado. A sociedade tornou-se complexa,
exigindo uma administração especializada, em função dos desenvolvimentos em
matéria tecnológica e industrial. O Estado deixou de se legitimar pela
agregação das vontades privadas das associações e se impôs mediante imperativos
técnicos da linguagem científica. O fato, segundo Dewey (idem), é que a "Great
Society" invadiu as pequenas comunidades, intensificando um processo de apatia
crescente em função da modernização. A complexidade da "Great Society"
prejudicou os canais de comunicação no interior da comunidade, impedindo a
construção de consensos pragmáticos em torno de uma pluralidade de doutrinas
razoáveis. A "Great Society", segundo Dewey (idem), retirou da capacidade
humana de experimentação a criação de instituições sociais, jurídicas e
políticas, responsivas às demandas do homem comum, criando um contexto de
apatia.
A noção de um Estado democrático ou de uma constituição mista plebéia, como
apresentada por Araújo (2004), mediante seus mecanismos formais de articulação
dos interesses, não dá conta de estabelecer a legitimação de uma boa ordem
política, sem as formas pedagógicas que propiciem o pleno exercício da
cidadania, no seu formato da busca de uma liberdade positiva, ou republicana. A
questão da república assenta-se não meramente em uma reforma moral, como Araújo
(idem) é tentado a concluir. Assenta-se, sobretudo, em uma pedagogia que
permita ao homem comum criar um saber compartilhado, que transmute as
instituições do Estado de uma noção de dominiumpara uma noção de imperium,
capaz de absorver os conflitos e as necessidades da arena social, mediante uma
legitimação substantiva em torno de consensos normativos. Saber comum, como
mostramos anteriormente, capaz de proporcionar a confiança necessária nas
instituições políticas, possibilitando alongar a vida institucional pela
participação concreta do homem comum nos negócios públicos. A pedagogia
política decorrente da experimentação permite ao homem comum fundar uma nova
modulação republicana, ampliando os horizontes da participação no âmbito da
esfera pública, tendo em vista os diferentes contextos de uma sociedade plural
e complexa, na qual a confiança é fator de primeira ordem para a construção da
solidariedade.
Se o Estado democrático incorporou os ideais republicanos de alargamento da
esfera pública, esse tipo de operação apenas pode ser realizado se suas
instituições puderem exercer um permanente processo de aprendizado moral, como
demonstra Dewey (1991). É fundamental pensar a idéia de uma democracia do homem
comum, tendo em vista a maneira como o alargamento dessa esfera pública ocorre
em um contexto de participação ampliada. O experimentalismo de Dewey (idem) é
fundamental para a constituição de um pensamento republicano, na medida em que
ele está sustentado em um aprendizado moral. Esse aprendizado moral,
entretanto, depende de instrumentos de avaliação por parte da sociedade em
relação às instituições políticas. Como apresentei na seção anterior, a
avaliação das virtudes das instituições pode ser realizada na construção da
confiança, visto que ela é um elemento individualizador e que pode garantir o
aprendizado moral referido por Dewey (idem), bem como potencializar o
experimentalismo democrático no sentido de aperfeiçoamento e busca de um estado
ideal de excelência de suas instituições. Como o resgate de uma concepção
republicana passa pela superação de uma lógica procedimental da política, é
possível imaginar que o conceito de confiança, aliado à idéia de
experimentalismo democrático de Dewey, possa contribuir para a construção de um
horizonte valorativo para a política, mesmo em sociedades plurais e complexas.
O experimentalismo democrático contém um elemento de aperfeiçoamento permanente
das instituições, em contextos de participação e aprendizado moral. Argumento
que o tema da confiança, nesse sentido, pode ser um elemento central desse
aperfeiçoamento e busca pela excelência das instituições, na chave em que
Simmel (1977) e Eisenberg e Feres Júnior (2006) apresentam o tema. Esta
concepção permite superar uma leitura procedimental da república, bem como
agregar valor à análise de suas instituições, mesmo que se esteja falando de
sociedades marcadas por uma pluralidade de doutrinas morais. A construção da
confiança, nesse sentido, é fundamental a uma concepção republicana da
política, já que ela procura ser a superação de uma leitura política baseada no
princípio da neutralidade, ou seja, uma superação da leitura liberal de mundo.
Como a confiança nas instituições é construída pela sociedade, ela se torna
constitutiva de um aprendizado moral que integra sua excelência em contextos
marcados pelo pluralismo.
A confiança nas instituições torna-se um elemento central para a construção de
uma referência republicana à existência do Estado democrático. Ela é um
elemento individualizador fundamental, como destacou Simmel (1977), bem como é
um elemento constituinte que permite à sociedade avaliar, de forma permanente,
o mundo dessas instituições, como indicaram Eisenberg e Feres Júnior (2006). As
virtudes das instituições dependem de um estado de vigília perene por parte dos
cidadãos em relação ao Estado. A vida associativa e a maneira como se
constituiu o Estado democrático, de acordo com Dewey (1991), possibilitam um
processo de aprendizado moral, em face de instituições virtuosas, porquanto
portadoras da confiança do cidadão comum. A república depende, nesse sentido,
da existência de uma base social disposta a criar uma esfera pública marcada
pela pluralidade, mas que partilha a confiança em uma vida institucional
assentada, fundamentalmente, na democracia.
CONCLUSÕES ESPARSAS: REPÚBLICA, CONFIANÇA E INSTITUIÇÕES
O experimentalismo democrático de John Dewey pode fornecer algumas chaves
teóricas para a compreensão de uma vida institucional republicana, no contexto
de sociedades complexas e plurais. A forma como o pragmatismo propôs o
tratamento da questão de uma comunidade auto-regulada, capaz de estabelecer
consensos que impliquem na consecução de uma noção de bem, a qual se anteponha
à noção de interesses, permite a construção de uma vida institucional efetiva,
apta a moldar os padrões de sociabilidade no contorno de uma moralização do
público e do privado.
O modo como o pragmatismo de Dewey articulou a questão de um saber comum
constituído pela comunidade dos intérpretes permite a consecução de uma arena
pública, independente de estados de consciência. A premissa é a capacidade de o
homem comum fomentar padrões de sociabilidade que permitam a livre participação
em contextos de necessidades práticas, articulando interesses, com o intuito da
satisfação dos desejos. A constituição deste conhecimento comum possibilita a
moralização do público, refundindo o corpo social e político mediante uma
esfera pública ativa, a qual seja capaz de mediar e reaproximar o indivíduo das
instituições. Padrões de confiança nas instituições, tal como tratamos na
segunda parte deste artigo, torna-se possível mediante o resgate de relações
comunitárias no âmbito de sociedades complexas, possibilitando a constituição
de valores no âmbito de instituições, as quais são constantemente interpretadas
e reformuladas, conforme contextos de ação prática, sem abdicar do processo de
individuação, típico da modernidade. Não significa, portanto, recuperar um
período romântico da política, mas pensar a república em estados práticos da
razão.
Além disso, a possibilidade aberta pelo experimentalismo democrático
possibilita transcender os mecanismos formais do Estado de direito, atrelado à
noção de dominium, para uma noção de imperium, uma vez que as normas e os
costumes são derivados não por instrumentos formais da razão, mas pelo
constante experimentar, de forma que absorva forças emancipatórias da
sociedade. Como chama a atenção Eisenberg (2003), o experimentalismo
democrático propicia superar a crise da razão liberal, fomentando um novo
contexto de liberdades republicanas. De outro lado, o experimentalismo
democrático, como observam Werneck Vianna e Carvalho (2004), possibilita
resgatar o tema da pedagogia cívica exercida pelo direito e suas instituições.
A Constituição passa a ser uma construção aberta por parte da sociedade,
derivando princípios fundamentaiscapazes de generalizar a participação mediante
formas organizadas, não orgânicas, presentes na arena social (Buttle, 2001).
Estes princípios fundamentais, dados pela refundação do corpo político, no
sentido republicano, permitem a efetivação de substâncias valorativas que
sustentem o aparato formal do Estado, em consonância com uma vida moral
passível de interpretação por parte da sociedade, ganhando textura concreta no
âmbito da sua aplicação prática. A nervura do aparato institucional, dado pela
experimentação, torna possível a existência de contextos de confiança ampliada,
protegendo tanto o indivíduo ' portador de segredos ', quanto a comunidade '
local da publicidade. O essencial é essa vida institucional refutar qualquer
forma de ignorância ou indiferença ' apatia. O experimentalismo democrático
possibilita o constante agir político, tendo em vista o horizonte do princípio
republicano como motor do corpo político e de suas virtudes, sendo a
solidariedade social derivada da confiança como guia de uma vida institucional.
A experimentação democrática possibilita uma vida moral, uma vez que a
participação ampliada e a pedagogia cívica permanente ensejam um contexto de
virtudes capazes de assegurar, intersubjetivamente, normas de convivência no
interior da comunidade. A experimentação, portanto, permite a compatibilização
da moral do mundo privado com a moralização necessária do público, coibindo
contextos de apatia ou ignorância por parte dos cidadãos. Contudo, o
experimentalismo democrático não exige virtudes cívicas típicas do mundo
tradicional. Não significa, para qualquer concepção republicana, simplesmente
resgatar a existência de uma comunidade assentada no mundo aristocrático, que a
todo tempo avalia a virtude dos cidadãos. As sociedades complexas e plurais do
mundo contemporâneo operam em contextos políticos assentados no mundo privado e
na confiança em instituições. É a construção dessa confiança que representa o
elemento estabilizador para a vida republicana, tendo em vista seu poder
mediador da relação entre o público e o privado, como observou Simmel (1977).
Instituições virtuosas de uma república são aquelas que procuram sustentar uma
relação de confiança com a sociedade.
A construção dessa confiança só pode ocorrer em contextos efetivamente
democráticos, tendo em vista os termos da liberdade positiva e a maneira como
os cidadãos participam no âmbito da esfera pública. A república deve absorver
essa idéia de confiança como um elemento central para sua construção, no âmbito
de sociedades plurais e complexas. A idéia da confiança nas instituições pode
ser um elemento unificador das práticas plurais construídas na esfera pública
contemporânea, tornando-se um elemento central de reprodução e aprendizado das
próprias instituições e de seus valores.
NOTAS
1. Isaiah Berlin distingue dois tipos de liberdade, a positiva e a negativa. A
liberdade positiva é aquela, segundo Berlin, em que o homem nutre uma vontade
de ser seu próprio senhor, de decidir sem que os outros decidam por ele. Por
outro lado, a liberdade negativa é aquela que consiste no impedimento, por
parte de outros homens, de escolher como um indivíduo deve agir. A liberdade
negativa demanda a criação de mecanismos coercitivos, via direito, que protejam
o indivíduo de seus semelhantes. A posição de Berlin é a defesa do modelo
negativo de liberdade, referendando uma posição já clássica nas filosofias de
Platão e Hegel, em que o modelo positivo de liberdade pode tornar o homem
escravo da natureza ou de suas paixões, devido ao fato de ainda não terem se
tornado conscientes de sua ontologia. Aliberdade positiva em uma sociedade
massificada, tal como a sociedade moderna, pode tornar o homem escravo de seus
interesses, resultando na degeneração de qualquer forma de organização da
política. A esse respeito, conferir Berlin (2002).
2. Maquiavel direciona sua crítica a toda filosofia de teor neoplatônico,
ligada especialmente a narrativas cristãs do mundo. A política, nos termos
apresentados por Maquiavel, é independente de qualquer estado ou situação de
consciência por parte dos agentes políticos. É neste sentido que Maquiavel irá
recuperar os grandes historiadores da tradição helênica e romana, entre eles,
especialmente, Heródoto, Homero, Políbio e Tito Lívio.
3. Apesar de Bellah não citar a obra de Carl Schmitt, é interessante o modo
como este autor articula o conceito de representação com o catolicismo romano e
sua defesa do homem natural. A formalidade, segundo Schmitt, das instituições
de tradição católica assenta-se no rigor desempenhado pelo princípio de
representação da Igreja perante Deus. A esse respeito, conferir Schmitt (1998).
4. O conceito de capital social diz respeito a um conjunto de valores ou normas
informais, os quais permitem aos membros de um determinado grupo cooperarem
entre si. O capital social pode ser considerado como um estoque de normas
cooperativas, tais como reciprocidade, honestidade e altruísmo, que cada
sociedade constrói em sua história cultural. O capital social propaga-se
conforme externalidades positivas, em seu sentido econômico, fazendo com que os
indivíduos sejam socializados no conjunto destas normas e reproduzam suas
funções no interior da sociedade. A esse respeito, ver Putnam (1993) e Fukuyama
(2002).
5. Para uma análise do problema dos interesses, conferir Eisenberg (2003).
6. É interessante pensar o modo como o mundo moderno opera com a questão do
direito a partir do dominiume não do imperium, retornando à obra de Locke, que
eleva o tema da propriedade como um direito pertencente à natureza humana, que
deve ser resguardado pelo Estado. A guinada a esta concepção propiciou a
emergência de uma razão liberal, atrelada à noção de proprietários e não-
proprietários. A esse respeito, conferir Locke (2001).