As condições sociais da ação instrumental: problemas na concepção sociológica
da teoria da escolha racional
Em geral, as proposições da teoria da escolha racional aparecem vinculadas a
temáticas políticas expostas, sobretudo, pelos precursores Kenneth Arrow,
Anthony Downs, James Buchanan e Mancur Olson. Nesse sentido, as concepções
centrais da teoria, provenientes da tradição do pensamento econômico, servem
para demonstrar que as possibilidades normais de interação política teriam
suporte em grupos de interesse que intentam benefícios particularistas e em
partidos que maximizam votos. Por outro lado, tem alcançado relevância nos
últimos anos, no próprio campo da escolha racional, uma literatura que articula
a noção de racionalidade instrumental ao exame de questões e problemas sociais
que ultrapassam os limites da prática política. A temática das normas sociais
inaugura uma teoria da ação que relaciona a orientação instrumental com a idéia
de uma estrutura social controlada pelos agentes, de modo que se entende o
quadro societal como um jogo estratégico. O objeto analítico da concepção
sociológica da escolha racional refere-se aos bens ou atividades humanas que
não são comparáveis e não podem ser estudados, exclusivamente, de acordo com a
ciência econômica tradicional, que vê as situações sociais como generalizações
de decisões tomadas por sujeitos isolados. Assume-se a necessidade de uma nova
abordagem de comportamentos que são ao mesmo tempo racionais e não-econômicos
(Elster, 1984:127). O ponto original ressaltado é o fato de não se recorrer, ao
contrário do pensamento social padrão, às restrições culturais, à tradição, ao
acaso ou a estruturas que seriam apenas imaginárias. Os fenômenos sociais são
analisados por meio da percepção das normas e dos valores que estão inseridos
em complexos mecanismos de troca, diretamente vinculados aos interesses dos
agentes.
O projeto essencial da teoria sociológica da escolha racional é fundar uma
análise que examine de forma coerente os movimentos do nível macro do jogo
social para o micro das ações econômicas, e, inversamente, do micro para o
macro. O objetivo é entender as relações sociais como um jogo dependente das
práticas racionais, baseado na compreensão segundo a qual os indivíduos
participam livremente e ativamente da construção estrutural da sociedade, vista
como um conjunto de regras que limitam, mas não constituem, as interações.
Assim, a proposição sociológica é estudar as regras que, contratualmente
estabelecidas, organizam as ações e que são, posteriormente, modificadas e
desenvolvidas no movimento estratégico do jogo social. A necessidade da análise
dessas regras sobressai no momento em que as trocas interpessoais revelam
grandes diferenças de recursos, originadas pelas variadas posições sociais dos
indivíduos. A admissão da vida social como um jogo evidencia o postulado de um
espaço de carência e de disputa por bens raros. Por conseguinte, a sociedade é
vista como sinônimo de organização de interesses em conflito. Mais
especificamente, a estrutura social relaciona-se com o mecanismo de troca
ocorrida no mercado da seguinte forma:
"[...] a troca social muitas vezes ocorre não em transações isoladas
de duas pessoas, mas dentro do contexto de sistemas de troca em que
há competição por recursos escassos. Esses mercados sociais lembram,
por vezes, mercados econômicos, embora freqüentemente demonstrem
grandes diferenças. Uma idéia de ambas as similaridades e diferenças
pode ser vista pelo exame do papel do dinheiro nos sistemas
econômicos ' pois, mais do que qualquer outra diferença particular, é
a ausência de dinheiro que separa as trocas não-econômicas das
econômicas" (Coleman, 1990:119, tradução do autor)
Ou seja, a separação entre os sistemas social e econômico se dá pela mera
ausência de um meio objetivo. Essencialmente, esta citação revela a concepção
social adotada pela teoria da escolha racional. A teoria articula o tema da
escassez, fato natural que obrigaria os indivíduos a se relacionarem uns com os
outros e a gerarem a sociedade, com a temática da troca, que constitui o
mecanismo central de interação. O sistema social é visto como um sistema de
trocas, de modo que as normas e os valores se tornam contingentes às
preferências individuais. As práticas instrumentais constituem os
microfundamentos dessa teoria sociológica, que se contrapõe às perspectivas que
não ressaltam os interesses autônomos dos indivíduos em todas as situações. Por
sua vez, a estrutura não é uma dimensão própria da vida social, mas uma
necessidade construída intencionalmente, a posteriori, pelos interesses dos
agentes. As normas e regras nascem do conflito e da escassez e criam condições
para o advento de equilíbrios. Nesse sentido, Russell Hardin (1995:26-27)
indica a necessidade de estudar não apenas os contextos do que denomina
"cooperação" ' que representam o modelo ordinário de trocas de bens ' mas
também a "coordenação" que é regulamentada por normas sociais e que condiz com
situações em que uma parte da interação maximiza algo somente se as outras
também maximizarem. O importante é assinalar que as estratégias elaboradas
pelos indivíduos normalmente se baseiam em convenções que, por sua vez,
objetivam a promoção de mais transações. Por conseguinte, a escassez pode ser
em grande parte mitigada, se relacionada com um contexto que regulamente de
forma eficaz o livre intercâmbio. O entendimento sociológico é, portanto,
claramente funcional e circular: a lógica da ação coletiva e o oportunismo dos
indivíduos acarretam problemas de interação que devem ser resolvidos por
instâncias e normas abrangentes.
As regras sociais vinculam-se a uma agência individual anterior às suas
próprias regulamentações. Comumente, a idéia de norma na teoria sociológica da
escolha racional baseia-se na concepção de informação. É esta categoria que
reitera a perspectiva de um controle dos fatos sociais pela cognição
individual, pois há o pressuposto de que as regras sociais são instrumentos
informacionais que objetivam dar previsibilidade aos agentes inscritos nos
espaços de troca. Logo, as normas são princípios que regulamentam e informam as
interações, tornando-as mais ou menos previsíveis, mas que, por outro lado,
podem ser manipuladas pela orientação instrumental de uma das partes. Segundo
Elster (1983:16), a questão da ação social refere-se exatamente à relação
eficiente entre as crenças e as evidências disponíveis para um indivíduo.
Anoção de "juízo" afirma a possibilidade de os agentes alcançarem uma "crença
verdadeira", baseada no controle total das informações ou das normas de um
contexto social. O problema é que a busca de informação seria limitada pela
própria racionalidade, devido aos custos de aquisição de novas formas de
conhecimento da realidade (Hardin, 1995:15)1.
O ponto fundamental dessa perspectiva sociológica é que as normas são sempre
circunstanciais e não adquirem um estatuto social autônomo, na medida em que só
são "usadas" se estiverem de acordo com a aquisição estratégica de bens ou
serviços. Uma das conseqüências de tal compreensão é ver as normas como
"limites" às ações. Desconectadas de uma dimensão prescritiva, elas são
concebidas como instâncias de decisões individuais, relacionadas com os
cálculos de custos e benefícios pessoais. Reitera-se o entendimento de que as
normas e os valores se constituem de modo aistórico e contingente. Na verdade,
o valor dos fatos sociais pode ser percebido no espaço econômico, ou seja, no
valor de troca que possuem. Normas sociais e preços igualam-se, pois as
primeiras passam a depender, necessariamente, do interesse de diversos agentes.
Cabe notar que essa perspectiva opõe-se às teorias clássicas da sociologia que
indicam uma relação complexa entre os domínios da estrutura social e da agência
individual. Conseqüentemente, uma série de dados sociais é descaracterizada e
tornada irrelevante, principalmente as relações de condicionamento entre a
cultura e as normas e a explicação das diferenças entre as sociedades. Tais
questões são deixadas de lado em prol de um entendimento que homogeneíza as
esferas sociais e vê a sociedade como uma agregação de trocas independentes.
Desse modo, a explicação da coordenação dos agentes a partir das normas ou
convenções torna-se vazia. Como afirma Hardin, a coordenação "pode somente
ocorrer. E se ela ocorre da mesma forma algumas vezes, o resultado pode ser uma
convenção vigorosa que governa, então, comportamentos futuros na medida em que
dá incentivos específicos para agir" (idem:45, tradução do autor). O ponto
primordial das relações sociais é um indivíduo isolado, livre de imperativos, e
a estrutura é examinada como um resultado da volição constante advinda do
interesse próprio. Em vez de ser um componente determinante da constituição dos
indivíduos, a estrutura social aparece como um fato controlado, formada pelas
contingências de subornos, ameaças e promessas, sendo potencialmente não
cumprida se contrária às condições impostas pela conduta instrumental.
As singularidades da teoria social da escolha racional podem ser percebidas no
problema exposto por Parsons sobre a possibilidade da constituição de uma ordem
social pautada por condutas instrumentais. Parsons (1968:89-94) chama atenção
para os limites empíricos da perspectiva de pensar a integração social a partir
das atitudes de maximização de meios e fins pessoais. Segundo o autor, tal
ideal implica ou a própria desorganização social, dado que os indivíduos
buscarão utilizar os outros como meios para seus objetivos particulares,
criando assim o caos social, ou soluções metafísicas, como exposto no contrato
social fictício de Hobbes e no otimismo liberal de uma identidade natural dos
interesses. Nesse sentido, uma perspectiva sociológica que enfatiza o
comportamento instrumental, tal qual a da escolha racional, não expressaria de
forma adequada os elementos normativos da ação que, afinal, dão sustentação a
uma integração social e condicionam as escolhas e decisões individuais. Tais
problemas assinalados por Parsons, que na verdade refletem alguns pressupostos
centrais da tradição sociológica, não impediram o desenvolvimento da escolha
racional na direção de buscar fundamentar uma teoria social, e a possibilidade
de uma ordem, mediante a conduta utilitária. Contudo, como veremos, muitas
vezes a teoria revela dificuldades nos exames de grupos ou realidades sociais
mais complexas, e geralmente parece não criar um argumento consistente sobre o
papel da estrutura social perante a atitude instrumental.
O objetivo aqui definido é delinear alguns problemas dessa teoria social, o que
implica delimitar a análise em torno dos novos e peculiares entendimentos da
escolha racional acerca das normas sociais. Assim, não se intenta tratar dos
fundamentos ontológicos e perspectivas já clássicas da tradição teórica que
parte da concepção de racionalidade instrumental, a respeito da qual já existe
vasta literatura, sobretudo no campo da teoria política. Para considerar as
singularidades da sociologia da escolha racional, exponho a seguir as questões
da confiança e da disponibilidade de informações para os agentes, que refletem
alguns de seus temas medulares. A temática da confiança indica a funcionalidade
de certos arranjos sociais, geralmente de tamanhos reduzidos, na resolução dos
problemas de ação coletiva advindos do comportamento instrumental.
Posteriormente, demonstro que esse tipo de confiança está distante de
representar o caráter normativo de uma crença social. Procuro indicar, contudo,
que os problemas mais evidentes da teoria surgem quando tenta explicar a
viabilidade da confiança e das normas sociais em contextos sociais mais amplos,
já que não consegue expor de forma coerente as relações entre a agência
individual e a estrutura social. Lanço mão, então, do debate presente nas
últimas obras do sociólogo Raymond Boudon, demonstrando diferenças entre uma
ontologia das ciências sociais e a ontologia econômica que fundamenta as
análises da escolha racional. Por fim, articulando críticas à concepção de
racionalidade instrumental expressa por alguns autores que não pertencem ao
campo da teoria da escolha racional, argumento que não parece sociologicamente
consistente avaliar as normas e as condutas sociais pelo fato de maximizarem
necessidades, interesses e vantagens pessoais. Sugiro que é a caracterização
dessas mesmas necessidades e interesses que precisa ser explicada em sua
gênese, o que só pode ser feito com a análise da especificidade do
comportamento instrumental na modernidade.
O CÁLCULO DA CONFIANÇA E A EVOLUÇÃO DA COOPERAÇÃO
Na medida em que se pressupõe um sistema baseado em relações imprevisíveis de
competição, a confiança surge como um parâmetro que indica a funcionalidade de
certos ambientes na resolução dos problemas de ação coletiva. O crédito nos
outros é analisado a partir de sua potencialidade em permitir intercâmbios
previsíveis em contextos egoístas. Nesse caso, a questão sociológica é saber
quando um agente deve cooperar e em que condições ele deve seguir seus
interesses nas relações sociais (Axelrod, 1984:vii)2.
A confiança articula-se ao tema do risco a que os indivíduos se expõem em suas
transações. O risco pressupõe o tempo que as trocas levam para se concluírem, o
que implica incerteza para o agente que investe uma soma de recursos antes de
receber um retorno. A teoria da escolha racional afirma que, em espaços sociais
de tamanhos restritos, a incerteza pode ser mitigada de duas maneiras. A
primeira aponta para a criação de mecanismos formalizados por contratos e
sistemas legais. Todavia, o que interessa à sociologia da escolha racional é a
segunda forma, baseada em fatores de confiança que estimulam o intercâmbio de
baixo risco de um modo informal. Esses fatores manifestam e proporcionam um
ambiente previsível que prescinde dos custos de organização de um sistema legal
ou contratual. Cabe notar, porém, que a perspectiva sociológica da escolha
racional estabelece a união entre a idéia de uma dimensão social que se impõe
sobre as preferências pessoais e um cálculo de custo e benefício que os agentes
elaboram autonomamente. Assim, a confiança e o risco são vistos como fenômenos
paralelos, pois ainda que princípios sociais possam adquirir alguma
independência em relação à contingência das transações, eles também podem ser
instrumentalizados pelos interesses pessoais. A confiança é subordinada a uma
espécie de aposta individual, calculada matematicamente nos mínimos detalhes,
na medida em que
"[...] o ator sabe o quanto pode ser perdido, o tamanho da aposta, o
quanto pode ser ganho (a quantia que pode ser ganha) e as chances de
ganhar. Estes e somente estes são os elementos relevantes [...] Essa
expressão simples é baseada no postulado de maximização da utilidade
sob risco. O credor (trustor) potencial deve decidir entre não
depositar confiança, no caso de não haver mudança em sua utilidade, e
depositar confiança, no caso de sua utilidade esperada relativa a seu
statuspresente corresponder ao ganho potencial vezes a chance de
ganho menos a perda em potencial vezes a chance de perda" (Coleman,
1990:99, tradução do autor)
Nesse sentido, não há na norma da confiança um aspecto de prescrição
comportamental. As relações sociais são submetidas a um cálculo sobre os
benefícios e custos de cooperar ou não, de forma que o credor (trustor) deve
possuir mecanismos hábeis para dissuadir a outra parte de tomar o caminho do
rompimento dos acordos. Por conseguinte, o cumprimento das promessas estaria
vinculado ao advento de trocas freqüentes entre os mesmos indivíduos. Esta
seria uma característica natural das relações sociais, pois agentes racionais
procuram interagir com as mesmas pessoas. O principal incentivo para o
cumprimento dos acordos é que o parceiro da interação presente deverá ser útil
em um empreendimento futuro. As transações tendem a se constituir, então, como
jogos repetidos, de modo que todos os agentes envolvidos possuem um interesse
recíproco em reiterar promessas feitas. O "recebedor" (trustee) de um benefício
espera perder muito se a relação que estabelece tem continuidade temporal, ao
contrário de uma transação ou "jogada" simples e contingente com sujeitos
desconhecidos. A informação ganha statusespecial nessa perspectiva, pois existe
uma correlação direta entre os atos de um indivíduo e a próxima jogada a ser
elaborada por outro agente (Smith, 1982:149). Já que as relações sociais tomam
a forma de situações de risco, são as informações que precisam a possibilidade
de um contexto de confiança mínima. Paralelamente, quanto mais as informações a
respeito das jogadas estabelecidas forem difundidas por meio de uma estrutura
comunicativa, maior será a confiança inscrita nas interações.
Na medida em que os jogos são repetidos, torna-se possível guiar as
expectativas e estabelecer punições de acordo com as ações passadas. Além
disso, entra no quadro do jogo a questão das reputações (Axelrod, 1984; Heap e
Varoufakis, 1995:167-194). O ponto fundamental é que a repetição possibilita o
desenvolvimento de cooperações sem a necessidade de agências externas para as
estimularem. O dilema do prisioneiro tende a ser resolvido, e a possibilidade
de jogadas cooperativas voltadas para ganhos mútuos não é mais vista como
irracional. Os jogadores podem adotar a estratégia do tit for tat' repetição da
jogada anterior do adversário, de forma a ameaçá-lo com defecção se ele tender
a fazer o mesmo ' para resolver o jogo satisfatoriamente. Denomina-se essa
perspectiva como "evolucionária", dado o pressuposto de que a cooperação e a
reciprocidade de comportamentos advêm de forma espontânea, mesmo em um ambiente
composto de indivíduos egoístas (Axelrod, 1984:viii). Portanto, além de sua
composição espacial, um aspecto central da cooperação é a dimensão temporal. O
cálculo efetuado pelos agentes indica a razão entre os ganhos imediatos de uma
conduta oportunista em relação à cooperação baseada em uma rede evolutiva mais
ou menos estável de ganhos futuros, ainda que não tão certos quanto os
benefícios presentes.
Cabe notar que o entendimento das teorias dos jogos repetidos e evolucionária
parte do grau zero de uma sociedade sem normas sociais. A questão essencial diz
respeito ao surgimento da cooperação em um mundo povoado de pessoas egoístas e
sem autoridade central (idem:3). Supõe-se que uma moralidade, no sentido
ordinário, não é importante, dado que nada mais é demandado nas interações além
do interesse próprio dos agentes. Portanto, valoriza-se a esfera das
informações, em detrimento das regras ou convenções sociais. Quando os autores
manifestam uma concepção de cultura para o estudo da cooperação, sugere-se um
modelo muito simplificado, em que os indivíduos adquirem seus comportamentos
através da imitação de atores exitosos, o que compõe uma "evolução
estabilizada" (Smith, 1982:172, tradução do autor).
O que parece fundamental é que, mesmo certa desconfiança sendo inevitável, ela
pode ser parcialmente contida pela sistematização de informações sobre as
partes envolvidas nas interações. Assim, resolve-se parte do problema, apontado
por Anatol Rapoport (1980:178-179), das teorias dos jogos que descartam a
importância dos atos comunicativos e das crenças individuais, de modo que uma
esfera de informação e comunicação social passa a ser fundamental para as
análises das trocas sociais3. A importância das informações para deter os
comportamentos imprevisíveis não se limita às interações impessoais, mas é
pressuposta mesmo nas esferas privadas da família ou das relações amorosas.
Segundo Coleman, "é principalmente por essa razão que pais de estudantes de
highschoolquerem conhecer e saber o tanto quanto possível sobre os garotos com
os quais suas filhas saem" (1990:103, tradução do autor). É interessante
destacar este exemplo banal, pois ele explicita claramente a formulação
sociológica a respeito da relação entre confiança, risco e normas sociais. A
conduta dos pais e dos garotos em relação às meninas é comparada aos cálculos
elaborados, por exemplo, nos intercâmbios entre exportadores e seus futuros
importadores. Os garotos procedem ao cálculo sobre as perdas e ganhos da
agressão sexual das meninas, que seria, segundo Coleman, a atitude mais
desejada se não estivesse inserida em uma relação de reciprocidade estratégica.
Por sua vez, as meninas partem do fato de que "o ganho consiste na atenção do
garoto e em estar habilitada a sair em encontros futuros, em vez de ficar em
casa tal como no passado" (idem:102, tradução do autor). No mesmo sentido, a
construção de laços de amizade expressaria a expectativa, em parte instável, de
se depositar confiança em certos indivíduos e não em outros, estabelecendo
transações baseadas no interesse próprio. O rompimento ou a transgressão de uma
amizade, por exemplo, não se vinculam a certos deveres socialmente
compartilhados, mas a uma avaliação pessoal que indica que
"[...] um ganho potencial a partir de uma relação íntima também pode
ser grande, mas, desde que existam muitos outros amigos potenciais
que podem prover um ganho equivalente aproximado, a comparação
relevante não é entre a perda potencial absoluta e o ganho potencial
absoluto, mas entre a perda potencial absoluta (tal como a violação
da confiança de alguém ou o abuso do corpo de alguém) e a
diferençaentre o ganho esperado deste amigo e o ganho esperado de
outro" (idem:104-105, tradução do autor, ênfase no original)
O radicalismo de tais proposições faz transparecer a contingência da confiança
e das normas sociais, que aparecem como fatores a serem usados ou descartados,
dependendo das circunstâncias diversas dos interesses pessoais. A concepção de
racionalidade instrumental é levada nestes exemplos a situações-limites, tendo-
se em conta a fonte expressiva que as dimensões do amor ou da amizade possuem,
por intermédio de complexos esquemas normativos, nas sociedades modernas.
Contudo, a teoria não responde de maneira satisfatória à questão lógica de como
os atores podem gerar relacionamentos intensos e sair facilmente da situação do
dilema do prisioneiro se eles não confiam verdadeiramente em seus semelhantes.
Por outro lado, cabe questionar se a confiança, nas análises da escolha
racional, adquire um estatuto de norma social, dado que não há nenhuma
referência a uma esfera prescritiva inquestionável. O que se verifica é a
centralidade da concepção de "depósito de confiança" (placement of trust)(idem:
97, tradução do autor). Ou seja, a confiança não se caracteriza por uma
dimensão estruturante, independente das trocas efetuadas, mas sim como o
resultado da matemática instrumental de uma situação particular. Desse modo,
certos autores indicam a necessidade de as relações sociais, principalmente em
contextos impessoais, estarem patrocinadas por mecanismos formais ou contratos
ordinários, garantidos pelo aparelho estatal (idem:98; Hardin, 1988:46-47).
Fundamentalmente, as proposições sociológicas da escolha racional sugerem a
irrelevância da dimensão estrutural e cultural para a explicação das relações
sociais. Por sua vez, como veremos a seguir, os problemas mais patentes da
teoria se evidenciam quando ela sai da esfera de contextos de interação de
tamanho reduzido e tenta explicar a viabilidade da confiança e das normas em
grandes comunidades. Demonstrando indecisão analítica entre as esferas do
cálculo individual e da estrutura social, a teoria parece incapaz de explicar
eventos que comportam múltiplos agentes. Ela permanece indecisa, sobretudo,
entre proposições que afirmam a existência autônoma das normas e outras que
indicam a necessidade inexorável de sanções para a manifestação de orientações
não-egoístas.
NORMAS E AUTONOMIA INDIVIDUAL EM SOCIEDADES COMPLEXAS: PROBLEMAS TEÓRICOS
Saindo da esfera de troca direta de um grupo limitado de indivíduos, ou do que
podemos denominar microssociologia, parte da literatura da escolha racional
também procura explicar a emergência de normas em contextos sociais
abrangentes. As análises demonstram uma preocupação mais vasta em compreender
os fenômenos coletivos, principalmente os vinculados a um espaço caracterizado
por transações dispersas e impessoais. Os trabalhos procuram, sobretudo,
conceber a produção de normas sociais funcionalmente adequadas aos problemas
provenientes da interação estratégica, o que pode gerar um funcionamento mais
apropriado do contexto socioeconômico.
Parte da teoria sociológica da escolha racional afirma a centralidade das
"externalidades" como parâmetro essencial para o exame da interdependência
social em ambientes complexos (Coleman, 1990:20-21; Opp, 2001:15-16). A
existência de problemas voltados para atores externos a uma transação, sobre a
qual não possuem controle direto, origina uma preocupação singular e funcional
em relação às normas sociais. Existiriam dois tipos de externalidade: a
"positiva", quando uma ação beneficia outros indivíduos situados fora do
processo de transação; e a "negativa", quando uma ação acarreta conseqüências
maléficas aos agentes. Para os autores da escolha racional, são estas últimas
que geram um interesse mais efetivo, pois as pesquisas podem motivar o
impedimento de certas ações que causam prejuízos coletivos.
Uma das formas de deter as externalidades negativas seria instituir um sistema
de compensações aos indivíduos afetados por certas ações, produzindo uma
espécie de "mercado de externalidades". Assim, os agentes interessados na
consecução de ações que provocam danos estabelecem contatos diretos com os
afetados a fim de comprarem direitos de efetuarem tais ações. Uma estrutura
social é gerada, então, no momento em que os indivíduos concedem a outros
direitos de controle sobre certas práticas, o que gera benefícios a todas as
partes envolvidas no processo. Segundo Coleman (1990:145), é a fundação dessa
relação que cria a transição do plano micro para uma dimensão efetivamente
social. Para tal contexto ser passível de previsão, as normas aparecem como
mecanismos que direcionam as atitudes em certo sentido. Cabe notar que a
direção das ações não precisa ser definida legalmente, pois pode ser ocasionada
por uma situação de troca informal e voluntária entre os interesses envolvidos.
Contudo, como certos autores do próprio campo da escolha racional chamam
atenção, um mercado de externalidades está fora de questão em sociedades de
grande porte, devido à impossibilidade de estabelecimento de acordos entre uma
vasta gama de agentes. Em tais contextos, os indivíduos que impõem as
externalidades se encontram distantes das pessoas que as sofrem. A gênese das
normas sociais deve se encontrar, então, em outros mecanismos de controle sobre
as ações que causam danos coletivos.
Tal como nas circunstâncias em que o problema das externalidades se impõe, a
teoria sociológica da escolha racional reivindica uma "proposição instrumental"
(Opp, 2001:15, tradução do autor), pois as normas sociais devem surgir como
ferramentas para a obtenção de objetivos coletivos. Para além das condições que
geram externalidades, as normas da estrutura social aparecem como mecanismos
para resolver situações compostas pelo dilema do prisioneiro e que necessitam
de coordenação para a realização de um equilíbrio mais proveitoso. Assim,
situações sociais melhores podem ser obtidas por intermédio de um acordo
explícito ou tácito, no caso dos problemas de coordenação, ou por meio de
sanções que façam os indivíduos cumprirem as promessas efetuadas em situações
caracterizadas como dilemas do prisioneiro. Pode-se dizer que há um "uso
utilitário" das normas, na medida em que os sujeitos levam vantagem agindo de
acordo com elas. Desse modo, "o prêmio da conformidade em relação a uma
regularidade consiste, então, no ato mesmo da conformidade, visto que isto
garante o que é desejado por todos ' a realização de um equilíbrio coordenado"
(Ullmann-Margalit, 1977:85, tradução do autor).
Coleman (1990:253) indica a diferença dessa concepção social em relação ao
ambiente isento de normas definido pelo modelo tradicional do dilema do
prisioneiro. Enquanto neste a capacidade de instituir uma cooperação previsível
é excluída, pois os agentes não podem se comunicar (e mesmo se o fizessem não
poderiam confiar uns nos outros), sua perspectiva pressupõe um contexto de
livre comunicação, o que envolve a possibilidade de formação de regras que se
façam cumprir por si mesmas. O exame das normas sociais torna-se relevante nos
contextos paradoxais em que a teoria dos jogos é indiferente entre as soluções
apresentadas ou nos casos em que o resultado é subótimo e socialmente
inaceitável (Ullmann-Margalit, 1977:15). Nesse sentido,
"[...] quando um grande grupo ou sociedade encara um problema de
coordenação, eles podem não estar aptos a basear sua coordenação em
uma promessa. Porém, como Hume argumenta, eles podem resolver
prontamente seus problemas por intermédio da convenção. Se o problema
repete-se muitas vezes, qualquer coordenação exitosa pode assinalar
como se coordenar novamente na próxima ocorrência do problema. A
estratégia à qual o grupo recorre pode se tornar uma convenção, no
sentido de que é a escolha óbvia de praticamente todos sempre que o
problema padrão ocorre" (Hardin, 1988:49, tradução do autor).
Todavia, não se explica satisfatoriamente nessas análises que mecanismos
sociais específicos impediriam o advento do comportamento oportunista, ou seja,
falta uma explicação da resolução do próprio dilema do prisioneiro. A questão é
como proteger um contexto de benefícios coletivos que é instável devido às
tentações dos participantes envolvidos. Os princípios da racionalidade
individual chocam-se claramente com as proposições sociais, configurando-se uma
contradição que os autores parecem incapazes de resolver. O problema é que ao
pressuposto de que os agentes buscam minimizar os riscos e a falta de
previsibilidade das interações é adicionada a idéia de que eles determinam
espontaneamente o meio social mais eficiente para o alcance de tal objetivo. A
questão sociológica a ser enfrentada é, portanto, a explicação da maneira pela
qual esse meio é escolhido, pois isto depende de uma teoria que observe os
quadros cognitivos e sociais dos indivíduos, ou seja, de um exame bem mais
amplo que o modelo de racionalidade da escolha racional.
Devido à possibilidade do comportamento oportunista ' principalmente nas
situações em que há um elemento de renúncia individual em relação a
alternativas mais vantajosas ', a maior parte das análises considera as normas
sociais como dependentes de sanções específicas, condizendo com a necessidade
de controle para que os indivíduos não ajam somente a partir de seus
interesses. Atemática das sanções procura unificar racionalidade e normas
sociais, demonstrando que as ações desviantes podem afetar diretamente as
utilidades pessoais. Assim, as normas só podem se institucionalizar por meio da
vigilância, de forma que aqueles que não participam da ação coletiva passam a
ser vistos como perdedores ou exploradores (Wolfelsperger, 2001:85). É o desejo
de não ser explorado que estabelece uma ligação entre a sanção social e o valor
dos elementos ao nível racional das preferências pessoais em jogo. Prêmios e
punições tornam-se mecanismos essenciais nesse modelo de sociedade, em que
interesses e normas se relacionam de forma instável.
Entretanto, as questões tornam-se mais complexas nos contextos em que o
estabelecimento de sanções produz tanto beneficiários quanto perdedores, que
deixam de usufruir o direito de realizar ações mais vantajosas. Já que não há
como instituir um sistema de vigilância uniforme ou completo, não se explica o
porquê de os agentes aceitarem perdas pessoais em prol de um bem-estar geral,
mas abstrato. Por outro lado, é fundamental notar o problema substantivo da
temática das sanções em relação à concepção de eficiência definida nos
parâmetros da otimização paretiana, pois uma das partes de uma transação pode
perder algo. Para tentar evitar certas contradições, Ullmann-Margalit (1977:
117) faz somente vagas referências a respeito de sanções internas em relação ao
não-cumprimento das normas sociais, como sentimentos pessoais de culpa, remorso
e vergonha. Já Coleman (1990:260-262) indica a inevitabilidade de perdas
individuais, o que define uma situação subótima contrária a seus pressupostos.
Deve-se notar, além disso, que o âmbito das normas sociais pressupõe,
necessariamente, uma dimensão de poder, o que desqualifica a suposição de uma
distribuição igualitária e consensual de direitos entre os indivíduos. Assim,
normas e sanções tornam-se mais fracas se contrariam os interesses de agentes
detentores de mais recursos. Ainda que Coleman (idem:270) atente para o fato de
que o impedimento das externalidades depende do conjunto de recursos de poder
que os indivíduos possuem, o próprio autor pouco desenvolve esta questão,
preferindo notar a capacidade de os agentes estabelecerem sanções a partir de
canais de comunicação dispersos e a possibilidade de sistematização geral de
relações de confiança.
Esses problemas refletem a falta de resolução da teoria sociológica da escolha
racional em geral do dilema entre a noção de oportunismo e um comportamento
submetido às normas sociais. As análises geralmente limitam-se a notar que as
normas se constituem, por vezes, como fatores de "segunda ordem", que são
instrumentais para impedir certas condutas na tentativa de gerar bens públicos
de primeira ordem (Opp, 2001:15-16). Assim, o entendimento de eficiência e bem-
estar geral torna-se problemático, pois a teoria afirma, contraditoriamente, a
autonomia da busca do interesse próprio ao mesmo tempo em que supõe processos
de socialização que enfraquecem a sua concepção de ação. Além disso, não se
explicita por que indivíduos racionais, com seus problemas de ação coletiva, se
uniriam em ambientes impessoais a fim de superar certas externalidades ou
ocasionar um resultado socialmente benéfico.
Um dos problemas centrais das análises da escolha racional é que elas deslizam
para explicações tautológicas. Na tentativa de considerar as fontes de
coordenação social ' a língua, a religião, a comunidade e os costumes locais,
por exemplo ' como fatores de interesses pessoais, os autores passam a admitir
eventos que descaracterizam o conceito de ação racional. Os valores ou crenças
não são definidos como arcabouços discursivos que constituem em grande parte a
realidade social, mas limitam-se a instrumentos contingentes a serem usados na
maximização de interesses exclusivistas. Ainda que os trabalhos admitam que
muitas propriedades da cultura se produzem coletivamente, eles procuram
argumentar que o gozo e os benefícios desses aspectos sempre se vinculam a uma
dimensão de consumo racional de certos agentes (Hardin, 1995:68). Ora, nesta
lógica, claramente circular, qualquer comportamento social pode ser descrito
como racional, simplesmente porque o indivíduo assim quer e age. Por
conseguinte, nos momentos em que a teoria concede a existência de condutas
normativas que não indicam nenhuma referência instrumental, a tendência é
chamá-las de irracionais ou inseri-las na idéia de maximização de conforto
epistemológico (idem:61-63; 139), de modo que qualquer prática se torna
interessada. A conclusão padrão limita-se a afirmar que as normas sociais
tendem a ser mais fortes quando servem a certas preferências pessoais.
Fundamentalmente, não se explica satisfatoriamente a forma pela qual uma
conjuntura de coordenação social abrangente se constitui. Além disso, elimina-
se a questão das diferenças de uma comunidade para outra, pois se supõe que
todas estão subordinadas ao mesmo tipo de comportamento instrumental. Também
fica aquém de uma compreensão consistente a manifestação de grupos que provêm
poucos benefícios a seus membros, como comunidades religiosas periféricas,
identidades étnicas marginais sem expectativa de desenvolvimento ou até
agremiações esportivas fracassadas. É interessante notar que, enquanto as
proposições teóricas sobre o nível "macro" se condicionam pelo desenrolar do
"jogo social", nunca se questiona a dimensão "micro" na teoria social da
escolha racional. Esta última é sempre qualificada por meio da idéia de uma
natureza que não é passível de ser nem modificada nem desenvolvida pelos
intercâmbios que os agentes efetuam.
Cabe notar ainda como a teoria sociológica da escolha racional examina as
normas e valores sociais que, a princípio, não apresentam funcionalidade
específica. Nesse caso, a tendência da teoria é enfatizar a direção social
imprevisível e casual dos comportamentos racionais. Por meio de um processo
simples e imponderável, certas normas surgem quando atores que possuem
interesses similares geram, a partir de suas ações descoordenadas mas
regulares, o advento de uma regra. A norma social aparece, portanto, como um
resultado agregado não esperado (Opp, 2001:23-26). Um exemplo desse tipo de
entendimento pode ser dado pela mutilação genital feminina:
"[...] eu ilustrarei o modelo de emergência de normas não planejadas
com a explicação de Mackie (1996) da mutilação genital feminina. Suas
asserções básicas podem ser resumidas como: (1) tanto os homens
quanto as mulheres 'desejam fortemente criar com êxito suas crianças
biológicas' (p. 1.007); (2) os homens têm interesse em controlar o
comportamento sexual das mulheres de modo a assegurar que elas não
criem descendentes de outros homens; (3) em sociedades poligâmicas
com alta desigualdade de recursos, os custos de monitoramento são
altos para os homens que possuem várias mulheres; (4) os pais e as
mulheres têm interesse que as filhas se casem com homens ricos; (5) a
mutilação feminina serve a este interesse: ela é um sinal de
fidelidade e impede a promiscuidade sexual; (6) mulheres
circuncidadas são preferíveis pelos homens como esposas" (idem:27,
tradução do autor).
Este exemplo expõe as questões estruturais que a teoria não responde. A
primeira refere-se à explicação do surgimento do fato social específico da
circuncisão, e não de outros mecanismos de "monitoramento". Outra questão
sociológica que não se examina é a maneira pela qual a submissão da mulher, que
sofre corporalmente a violência, se constitui como um interesse próprio dos
homens. Também não são explicados fatos que parecem surgir exclusivamente da
estrutura social, como o de que "homens têm interesse em controlar o
comportamento sexual das mulheres", ou "pais e mulheres têm interesse que as
filhas se casem com homens ricos". Estes fatos e valores não são naturais,
outras sociedades não os valorizam. O que parece é que o autor usa, de forma
etnocêntrica, traços culturais relevantes de sua própria sociedade para compor
explicações ad hoc. Todavia, é a própria caracterização desses traços, que os
agentes internalizam e variam de sociedade para sociedade, que precisa ser
explicada em sua gênese e particularidade.
Importa notar que nenhuma referência histórica é mencionada pela teoria, mesmo
se as condutas possuem um aspecto tradicional que os indivíduos não questionam.
Dimensões prescritivas tais quais o sistema de castas na Índia, a repreensão
por sujar as ruas em uma grande cidade, as restrições a manter relações sexuais
antes do casamento em comunidades religiosas são vistas como exemplos de
resultados de trocas consensuais, e não como modelos culturais que exercem
alguma forma autônoma de condicionamento social. Na busca de entender
comportamentos que não se vinculam ao conceito de racionalidade instrumental '
tais como ações fortemente emotivas em seguir um líder; uma greve de fome por
interesses abstratos e longínquos; a expectativa em assumir uma posição na
linha de frente de uma guerra; terroristas que explodem a si mesmos com bombas
', Coleman (1990:273-282) aponta para certas satisfações pessoais baseadas nos
incentivos e prêmios resultantes da união de indivíduos que procuram um mesmo
objetivo. Contudo, não é evidente que indivíduos que seguem um determinado
líder sofram encorajamentos de outros indivíduos. Na sociedade moderna, por
exemplo, esta ação pode perfeitamente se dar em bases impessoais. No mesmo
sentido, o fato de estar em greve de fome para beneficiar terceiros não se
relaciona, necessariamente, com prêmios ou incentivos disseminados socialmente.
Seria ainda mais complexo tratar tal comportamento como portador de satisfação
pessoal, assim como a ida autônoma para a linha de frente de uma guerra. Por
outro lado, tratar como racional um conjunto de condutas diversificadas implica
análises tautológicas, sendo impossível imaginar que atitude não seria
racional. O conceito de racionalidade passa a se relacionar com elementos
variados, perdendo a sua capacidade de explicação.
Para tentar solucionar os impasses, alguns autores apontam para a emergência de
normas informais que implicam processos de policiamento interno. Segundo
Coleman, "é a instalação no indivíduo de algo que pode ser qualificado como uma
consciência ou um superego: chamarei a isto de sistema de sanção interno"
(idem:294, tradução do autor). Por vezes, o processo de socialização seria tão
influente que poderia até mesmo criar um outro self(idem:517-518).
Racionalidade e sancionamento interior aparecem, então, como dois mecanismos
paralelos. O agente internalizaria certas regras e normas, sob a forma de
restrições ao seu comportamento, e seria capaz de mentir a si mesmo para
escapar do caráter de sanção delas. Assim, a satisfação de interesses pode ser
alcançada pela transformação da estrutura interior do indivíduo, de forma a
adaptá-la aos imperativos do arranjo social exterior. Essa expansão do selfune
o indivíduo ao seu contexto sem questionar a sua racionalidade. Isto poderia
explicar, por exemplo, processos de identificação social tais como orientações
individuais que ocasionam benefícios psíquicos gerais, compartilhamento de
experiências, mesmo ruins, ou processos de transferência de poder, como a
identificação com lideranças políticas ou religiosas.
Freqüentemente, as análises destacam fatos psíquicos que, por sua vez, não são
devidamente explicados. Ainda que a negação da cognição instrumental seja
possível a partir de processos de socialização, as pesquisas da escolha
racional não compreendem tais mecanismos sociais. Por um lado, as normas
parecem ser produzidas internamente pelo indivíduo. Por outro, parecem ser
estrategicamente estimuladas por certos agentes, como organizações religiosas
ou o Estado nacional. Por vezes, configura-se a suposição de que os indivíduos
possuem duas funções de utilidade, uma baseada no ponto de vista moral e outra
fundamentada exclusivamente em sua racionalidade instrumental (Wolfelsperger,
2001:74-75). As questões tornam-se mais complexas mediante a idéia de que as
normas gerais de uma sociedade tendem a ser fracas quando são desconectadas de
um contexto de interações repetidas e de incentivos pessoais (Hardin, 1995:
107). Fundamentalmente, os problemas refletem o fato de que a internalização
das normas sociais aparece contraposta à natureza racional dos indivíduos,
gerando a concorrência de duas dimensões que, a princípio, são apresentadas
como antagônicas no pensamento da escolha racional.
A questão do voto é paradigmática desses problemas, principalmente das relações
que a teoria sociológica da escolha racional efetua entre razão instrumental e
irracionalidade, ou entre uma agência livre de determinações e um tipo de
estruturação social dos comportamentos. Na verdade, a questão já é
automaticamente anexada à expressão "paradoxo do voto". De acordo com as
proposições da teoria, um eleitor não tem nenhum benefício em votar, dado o
cálculo entre os custos de tempo e esforço da ação e a impossibilidade relativa
de seu ato de ir até as urnas influir no resultado final. Mesmo interessado no
resultado da eleição, e em seus ganhos pessoais no caso da vitória de um
candidato específico, o eleitor racional sabe claramente da incapacidade de seu
voto ser decisivo, fato que o dirige para a abstenção. A eleição reflete o
problema da ação coletiva de que nenhum cidadão pode ser excluído dos
benefícios de um bem público, mesmo que não tenha contribuído para a produção
de tal bem. Contudo, a maior parte dos eleitores vota, o que ocasiona o
paradoxo. Na medida em que a empiria contradiz as previsões da teoria, essa é
uma das questões mais debatidas no campo da escolha racional.
Os trabalhos contêm diferentes suposições sobre o ato de votar. Alguns
sustentam que os agentes não julgam corretamente a probabilidade de seu voto
influenciar no resultado, tendo uma reflexão que inflaciona a expectativa de
suas decisões particulares diante do contexto social. Outras análises recorrem
a fatos como o dever cívico, classificados como irracionais. Assim, sugere-se
que os agentes vão às urnas quando pensam ter uma obrigação para tal ato ou
quando procuram afirmar sua identidade partidária. Algumas pesquisas baseiam-se
na utilidade originada da contribuição para um esforço coletivo de sucesso. Por
outro lado, há trabalhos que continuam a propor a racionalidade do cálculo do
voto, e procuram demonstrar o medo que o indivíduo possui de perder a
oportunidade de decidir uma eleição, em caso de um provável empate. Outros se
fundamentam na teoria dos jogos e asseveram que, do ponto de vista estratégico,
é coerente votar devido à expectativa de que os outros agentes racionais não
votarão, o que tornaria um voto pessoal decisivo para o resultado final. Como
uma conseqüência não esperada, essas expectativas individuais acabam
ocasionando uma ida massiva às urnas.
Contudo, as evidências empíricas não provam tais expectativas,eatendência dos
trabalhos a respeito da conduta eleitoral é transformar os dados e torná-los
consistentes com a teoria da escolha racional (Green e Shapiro, 1994:55). As
análises limitam-se a concluir, sem explicações consistentes, que o ato de
votar é geralmente mais gratificante do que seus custos, sendo, portanto,
racional. Todavia, a noção de que a abstenção eleitoral introduz algum tipo de
perda pessoal é claramente contraditória com a concepção de racionalidade da
teoria, principalmente porque os custos e os benefícios de tal atitude são
explícitos para qualquer reflexividade instrumental. De forma geral, esse
caráter contraditório parece estar vinculado ao fato de a teoria não fazer
referência à estrutura sociopolítica na qual os atores estão inscritos. No caso
do voto, por exemplo, a falta de análise estrutural descarta o estudo essencial
da modificação circunstancial do comportamento cívico e político de uma eleição
para outra, ou em diferentes sociedades.
Deve-se notar que alguns autores assumem conscientemente a direção analítica
limitada à dimensão individual e afirmam as vantagens de uma metodologia
"positiva" e simples para evidenciar os fenômenos essenciais das ações. A
construção teórica procura efetuar certa depuração dos fatos empíricos,
interessada mais no que poderia acontecer às situações concretas se guiadas
pela racionalidade do que no que realmente ocorre (Ullmann-Margalit, 1977:1-2).
O modelo de interação social elaborado por Axelrod (1984:17-18), por exemplo,
evita explicitamente certas questões, como o comportamento fundamentado por
hábitos ou regras sociais e as escolhas inconscientes ou não-estratégicas. No
mesmo sentido, quando procura explicar a gênese das preferências dos agentes, o
que poderia gerar um tipo de análise decididamente sociológica, Coleman (1990:
515-516) prefere se dirigir para explicações de cunho estritamente psicológico.
Já Elster (2000:692) assume os limites da teoria da ação racional e aceita a
importância social das condutas quase-racionais ou baseadas em instâncias
emocionais que se contrapõem ao raciocínio estratégico e instrumental dos
agentes. Segundo o autor, a saída é encarar com modéstia a capacidade
explicativa do modelo da escolha racional, o que não implica questionar sua
qualidade em esclarecer e prever os fatos fundamentais da vida humana.
A ausência de um exame coerente da relação entre a estrutura social e a agência
racional resulta na tendência da teoria social da escolha racional em valer-se
dos fenômenos que não caibam em seu corpo teórico como ocorrências irracionais
ou ininteligíveis. Essa direção analítica lembra a divisão metodológica
elaborada por Pareto (1968) entre os comportamentos lógicos e não-lógicos.
Assim, pressupõe-se grande parte das ações como fatos que devem ser
desconsiderados, na medida em que pertencem a um estágio a ser ultrapassado
pela sistematização da racionalidade econômica. Por conseguinte, os autores não
atentam para o dado primordial de que a concepção de racionalidade que
sustentam depende de paixões e valores específicos formados por mecanismos
sociais complexos, o que subverte um modelo que objetifica as orientações
instrumentais e solipsistas.
RACIONALIDADE E INDIVIDUALISMO METODOLÓGICO
O ponto fundamental que parece ausente nas análises da teoria da ação racional
é que as decisões individuais incorporam aspectos desligados de situações
estratégicas e de interesse pessoal. Aspectos articulados a dimensões sociais
que estão, de certa forma, fora do controle dos agentes. As críticas que
Raymond Boudon (2002) faz ao paradigma da escolha racional são importantes por
evidenciarem essa esfera social. Além disso, suas críticas são fecundas por
indicarem as diferenças entre os campos teóricos do individualismo metodológico
e da escolha racional que, apesar de serem muitas vezes confundidos, estão, na
verdade, limitados por fronteiras que permitem separar a ontologia da teoria
econômica de perspectivas sociais identificadas com uma análise mais
estrutural.
Cabe notar, a princípio, que o próprio Boudon trata de desvincular a sua teoria
do individualismo metodológico de uma apreciação normativa sobre o
individualismo moderno, como fazem as análises pautadas pela concepção de
racionalidade econômica. Segundo o autor,
"[...] existe entre o individualismo no sentido metodológico e o
individualismo no sentido ético ou sociológico a mesma relação que
existe entre a palavra badna língua persa e a palavra badem inglês
[...] as duas pronunciam-se exatamente da mesma maneira, mas como
pertencem a duas línguas distintas, seus significados são diferentes.
No mesmo sentido, a noção de individualismo possui um significado
inteiramente diferente se aparece no contexto da sociologia, no da
ética ou naquele da teoria do conhecimento" (Boudon, 1991:46,
tradução e ênfases do autor)
Pode-se dizer que o individualismo metodológico expressa uma orientação
epistemológica que procura não fundamentar um posicionamento ontológico. Na
explicação de um fenômeno social, Boudon prescreve a necessidade de reconstruir
as motivações dos agentes e refletir o fato social em questão como um resultado
das ações individuais. A metodologia distingue-se das análises de caráter
holista que não observam a relação necessária dos fenômenos coletivos com as
razões individuais e tratam certas instituições coletivas, como partidos ou
organizações religiosas, como dotados de conhecimento ou vontade própria (idem:
50). Assim, o plano metodológico não pressupõe que se analisem as sociedades
como conjuntos formados de átomos independentes, mas sim que se entenda a
relação entre as atitudes e o espaço social, pois é somente esta relação que
possibilita identificar e justificar uma ação como racional.
A fim de expor de forma clara seu questionamento da teoria da escolha racional,
e as diferenças desta em relação ao individualismo metodológico, Boudon (2003:
19-22) indica a série de postulados que resumem o conjunto epistemológico da
primeira vertente: (1) todo fenômeno social é produto de ações, comportamentos
e crenças dos indivíduos; (2) toda ação individual pode ser compreendida; (3)
fora as ações automáticas (ação orgânica de piscar o olho, por exemplo), supõe-
se que as ações ou crenças individuais são produtos de razões; (4) as razões
consideradas pelo agente sempre levam em conta as conseqüências das ações; (5)
os indivíduos interessam-se exclusivamente ou prioritariamente por seus
interesses pessoais; (6) supõe-se que o indivíduo conhece e avalia as vantagens
e as desvantagens de uma ação ou crença, escolhendo a que lhe traga mais
benefícios. Boudon (idem:49-50) argumenta que a concepção de racionalidade
proposta pelo individualismo metodológico se limita às premissas 1,2e3, tendo a
teoria da escolha racional adicionado os preceitos 4, 5, e 6. A não-
incorporação dos três últimos postulados pelo individualismo metodológico tem o
efeito de dar o estatuto de casos particulares e contingentes às situações em
que os agentes manifestam um comportamento correspondente a estes preceitos.
Ainda que Boudon (idem:37) valorize parte da escolha racional por revelar as
razões pelas quais indivíduos possuem alguns tipos de conduta, ele critica o
fato de que uma vasta gama de fenômenos sociais deixa de ser explicada pelas
suposições instrumentais da teoria. Baseado em seu peculiar modelo de
racionalidade, Boudon elabora duas críticas essenciais ao paradigma da escolha
racional.
Em primeiro lugar, Boudon (idem:42-43; 2002:19-20) afirma a existência de
várias situações sociais em que a orientação dos agentes se apóia em crenças
não-triviais. O importante é a percepção de que a adesão pessoal a determinadas
crenças manifesta uma conduta de natureza cognitiva. Por conseguinte, o
problema da teoria da escolha racional é a sua incapacidade de esclarecer
fenômenos em que o comportamento dos atores reflete crenças socialmente
coerentes e não conseqüenciais. Boudon (2003:45) dá exemplos de ações que
tornam problemática a idéia de uma avaliação calculada e auto-referenciada: o
eleitor vota; dois jogadores dividem uma soma de dinheiro em vez de o primeiro
pegar mais para si mesmo; indivíduos praticam suicídio. Somente em certas
circunstâncias específicas as ações e as crenças estão direcionadas para as
conseqüências e para um cálculo de custo e benefício. Boudon (idem:44-45)
critica, sobretudo, a maneira pela qual a escolha racional procura explicar os
fenômenos que evidenciam essas crenças não-triviais e contrárias à
racionalidade econômica. O erro capital é supor que os indivíduos aderem às
vezes a uma espécie de falsa consciência, operando no interior de
"enquadramentos" que exprimem fatores emocionais inautênticos. Assim, o eleitor
que não percebe que seu voto não influi no resultado final se basearia em um
enquadramento mental que o faria acreditar no contrário, tendo uma estimação
errada de seu comportamento. Segundo Boudon, essas suposições são sempre
insatisfatórias, na medida em que sugerem que o indivíduo obedece a forças
sociais misteriosas e irracionais que não podem ser explicadas.
A segunda crítica de Boudon refere-se ao fato de que a escolha racional
permanece impotente perante os valores sociais que manifestam atitudes e
capacidades de justificação que não podem ser relacionadas com condutas
egoístas. O autor (idem:46) lembra que todo espectador de Antígonacondena
Creonte e aprova a protagonista sem hesitação, onde quer que se represente a
tragédia de Sófocles. O caráter universal de tal atitude está vinculado ao
direito de todos à dignidade ressaltada por Antígona. Aatitude diante da peça
representa uma série de fenômenos em que os agentes avaliam situações nas quais
não estão de nenhuma forma implicados. A fraqueza da escolha racional em tais
circunstâncias deve-se ao fato de que, ao contrário de um distanciamento, a
maior parte das pessoas emite uma opinião forte sobre uma questão que não as
envolve diretamente. O fato exemplar de vários indivíduos, que provavelmente
nunca serão condenados pela justiça, possuírem uma tendência normativa em
relação à pena de morte demonstra que há várias instâncias de envolvimento
pessoal não-interessado que não podem ser explicadas no quadro teórico da
racionalidade instrumental. No mesmo sentido, o plagiário provoca sempre um
sentimento de repulsão, até quando ele não lesa ninguém em particular e
contribui antes à notoriedade do plagiado. O impostor também é visto
negativamente, mesmo se seus atos não comportam qualquer inconveniente, senão
para ele próprio. A noção geral do direito do mais forte é chocante e seu
exercício, inaceitável. O cidadão comum reprova de maneira veemente a
corrupção, ainda que não seja afetado de forma direta, e a mesma atitude de
indignação é sentida em países com possibilidades remotas de serem atingidos
por níveis elevados de tal comportamento. Fundamentalmente, a percepção
sociológica demonstra que, independentemente do contexto social, esses fatos
são assuntos graves para os indivíduos e são tratados de forma minuciosa, com
despesa pessoal de tempo e informações para que tais ações não voltem a se
repetir. Na medida em que são fenômenos de conseqüências pessoais irrisórias, a
desaprovação que recebem só se explica porque contrariam regras fundamentais
que são a base de um pacto social.
Portanto, o ponto questionável da escolha racional é a sua limitação analítica
à racionalidade instrumental, o que a faz negligenciar a razão cognitiva ou
axiológica fundamentada em princípios ou teorias sociais. Segundo Boudon, as
razões do agente são de caráter cognitivo quando ele aceita uma teoria
ordinária pelo simples fato de que lhe parece justa, mesmo que ela não tenha
relação com seus interesses pessoais. Por outro lado, a racionalidade possui
uma qualidade axiológica quando o agente obedece normativamente a princípios
prescritivos. Boudon procura demonstrar que o individualismo metodológico
traduz de forma coerente a racionalidade dos atores como a incorporação, mais
ou menos consciente, de crenças e atitudes que apresentam "boas razões"
circunstanciais de existência. As instituições ou normas sociais, se
estabelecidas consistentemente na realidade, são compreendidas como boas,
legítimas e aceitáveis, estando desvinculadas dos interesses diretos dos
indivíduos. Assim,
"[...] muitas discussões seriam, sem dúvida nenhuma, evitadas se nos
lembrássemos que crençaé somente um substantivo formado a partir de
crer, ou racionalidadeum substantivo baseado na expressão ter razões
de. O verbo tem sobre o substantivo a vantagem de não induzir essas
visões substancialistas que levam às perguntas sobre o que é
realmentea racionalidade ou o que é realmenteuma crença" (idem:36,
tradução do autor, ênfases no original).
Nesse sentido, a adesão a uma crença ou a um valor social não se dá a partir do
cálculo de custo e benefício voltado para a minimização dos meios e maximização
dos objetivos. A incorporação de uma teoria ordinária ou prática pelo sujeito
não provém do fato de que estas lhe pareçam comportar certas conseqüências. Na
perspectiva do individualismo metodológico, a racionalidade consiste em adotar
uma crença que, fundamentada como uma teoria, permite perceber os dados de
determinado contexto social de maneira satisfatória, simplesmente porque a
crença possui razões coerentes. A ação racional implica assumir um conjunto
lógico de proposições, quando não se dispõe de uma teoria alternativa mais
aceitável. Boudon lembra que, se tomadas de forma literal pela idéia de uma
cognição exclusivamente instrumental, a maior parte das ações normais deveria
ser entendida como portadora de resultados absurdos e irracionais. A partir das
proposições de racionalidade cognitiva e axiológica, Boudon (1999:131) propõe
acabar com as "caixas-pretas" presentes na noção neoclássica de racionalidade,
produzindo um exame sociológico que admite a análise de novos dados sociais sem
recorrer a referências conceituais apriorísticas. Boudon (2003:57) sugere que o
processo do conhecimento ordinário é composto dos mesmos parâmetros de crenças
que criam o conhecimento científico. Por conseguinte, o aspecto efetivamente
social da racionalidade é que as razões se tornam fortes a partir do momento em
que elas também assim se apresentam para os agentes inscritos nos mesmos
ambientes sociais, ou "parâmetros contextuais", pois "uma razão, um sistema de
razões, somente são identificados como tais se o ator tem a impressão que esta
razão ou este sistema são compartilhados com outros" (idem:160, tradução do
autor).
A análise de Boudon sobre a teoria da escolha racional parece indicar a
diferença efetiva da epistemologia das ciências sociais em relação ao
entendimento da economia. Mesmo sendo uma vertente que parte de um método
centrado no indivíduo, o individualismo metodológico não descarta uma dimensão
social estruturante. Boudon (idem:11) deixa claro que sua perspectiva não
sugere que a socialização, quando entendida como um conjunto de efeitos
estruturais sobre o comportamento dos agentes, seja um fator desprovido de
interesse sociológico. Pelo contrário, a teoria do individualismo metodológico
indica a centralidade da descrição dos modos pelos quais os sujeitos incorporam
efeitos sociais. Sem entrar no mérito de suas conclusões ou argumentos
específicos, o importante é que a teoria procura examinar como os indivíduos
interagem com os condicionantes estruturais, se os admitem, os contrariam ou os
reivindicam politicamente. Consistindo no fato central de todo projeto
sociológico, a subjetividade se articula com certas determinações estruturais.
É essa articulação que permanece ausente na teoria social da escolha racional.
Nesta, a subjetividade é determinada apriorie a estrutura é vista como mera
agregação de interesses antagônicos. Não há um intercâmbio entre agência e
estrutura, o que implica uma objetivação do ambiente circunstancial pautado
pelo equilíbrio econômico de mercado.
COMENTÁRIOS FINAIS: AS CONDIÇÕES SOCIAIS DO AGENTE MAXIMIZADOR
Do ponto de vista sociológico das relações entre indivíduo e estrutura social,
o elemento mais questionável da teoria da ação da escolha racional é a sua
incapacidade de vincular a manifestação da razão instrumental ao ambiente da
modernidade. O fato de os agentes atuarem de acordo com as suas decisões não
significa que eles controlem as condições e o contexto social em que estão
inscritos. Como argumenta Marshall Sahlins a respeito do perigo analítico das
teorias que não observam a realidade estrutural e simbólica: "a alienação final
é um tipo de des-estruturação" (1976:220, tradução do autor). É somente através
da condição estrutural que podemos revelar as técnicas e as ações singulares
disponíveis para os indivíduos, pois as suas práticas, econômicas ou não,
dependem de um sistema cultural propagado por processos difusos ou explícitos.
Assim, o que é problemático na teoria da escolha racional é a incompreensão da
interdependência entre os fins pessoais e o meio social, o que dá um sentido
normativo específico às ações individuais.
A tese de Weber (1996) da articulação entre ética protestante e espírito do
capitalismo expressa o tipo de entendimento ausente na teoria da escolha
racional. Inscrevendo o comportamento racional em um quadro social determinado,
Weber procura demonstrar que tanto os valores do protestantismo quanto a sua
manifestação na ação econômica calculada e frugal pertencem a um nível
macrossocial e histórico. Cabe notar que o ponto relevante da análise weberiana
não é a discussão da relação histórica entre protestantismo e capitalismo como
uma explicação causal real, mas sim a exposição da interdependência entre a
atitude instrumental e a orientação por valores, entre a agência e a estrutura
social, na medida em que a racionalidade que caracteriza o espírito capitalista
reflete, em seu significado particular, valores singulares de uma ética
religiosa. Nesse sentido, as ações aparecem estruturadas por uma forma
simbólica irredutível ao controle direto dos indivíduos, como demonstra a tese
da criação de um arranjo econômico por uma religião que é o seu contrário. A
ação não se define por suas conseqüências pessoais, mas por resultados sociais
abrangentes formados por processos históricos.
A conceituação weberiana da ação social, que caracteriza outros três tipos de
orientação comportamental, além da forma instrumental desenvolvida pelo
"espírito capitalista", expressa o problema de restringir a concepção de
racionalidade a parâmetros instrumentais. Segundo Weber (1968:24-26), a ação
social pode ser caracterizada por quatro tiposde orientação: pela racionalidade
por fins; pela racionalidade por valores; pela afetividade; e pela tradição.
Assim, mesmo no ambiente social da modernidade, é importante compreender a
centralidade da orientação que, em oposição à razão econômica, é determinada
por valores ou crenças que não demandam correlação com resultados posteriores.
O significado dessa orientação reflete práticas que, condicionadas por algum
tipo de dever ou "causa", não pressupõem o cálculo de custos e benefícios dos
meios e fins da ação instrumental. O ponto essencial do argumento é seu viés
sociológico, que evidencia a relação necessária da formação das preferências
pessoais com valores específicos da realidade da qual os indivíduos participam.
Inserindo as práticas em um contexto social peculiar, esse tipo de procedimento
analítico nota que a racionalidade não é um dado transcendente, podendo se
articular a um tipo de reflexão desvinculada do interesse próprio. A análise
também identifica a potencialidade de um sistema sociopolítico não-
instrumental, criado por uma socialização reflexiva sobre crenças ou normas
diversificadas.
Portanto, parece não haver sentido, ao contrário do que propõe a filosofia
moral utilitarista em geral, em considerar os fins ou "prazeres" individuais a
não ser procurando a lógica social que adquirem. Toda prática, incluída a do
comportamento racional de maximização, articula-se com uma realidade que escapa
parcialmente ao próprio indivíduo. Torna-se necessário examinar os interesses
pessoais em uma perspectiva que não os defina a priori, ressaltando os
processos interativos e simbólicos criados historicamente que fixam certas
"disposições", ou seja, inclinações específicas para a ação ancoradas em normas
ou rotinas coletivas provenientes das propriedades de um sistema social
(Domingues, 1995:141). A teoria da escolha racional não observa tal
configuração social, preferindo explicar a emergência das normas e das atitudes
como entes independentes, de modo que não chegam nem mesmo a formar uma
estrutura (Cherkaoui, 2003:250-251). Todavia, as normas ou crenças vinculam-se
umas às outras, pois somente assim podem manifestar um conjunto coerente de
instituições e o funcionamento das sociedades. Como lembra Gellner a respeito
dos objetivos individuais,
"[...] se pensarmos o estado de coisas que poderiam satisfazer esses
fins em um isolamento completo, como se nada mais existisse no mundo,
chegaremos a qualquer coisa de absurdo em si, e ainda mais como
objeto de desejo. Ocupar o ponto cardinal de um universo que não
contém nada além é qualquer coisa de surrealista, tanto quanto
possuir barras de ouro em um mundo, para além disso, vazio" (Gellner,
1991:34, tradução do autor, ênfases no original).
Uma sugestão da dimensão social que chamo atenção é apresentada por Bourdieu
(1977). O autor apreende as disposições temporais da racionalidade moderna,
examinando a inscrição dos agentes em um sistema que estimula estruturalmente
um tipo específico de comportamento. Bourdieu afirma que o ponto central da
conduta do homo oeconomicusestá em sua percepção do tempo, pólo que determina
saberes originais de previsibilidade e cálculo de um futuro imaginário. Logo, a
ação instrumental aparece determinada por uma rede simbólica singular, pautada
por uma acumulação de bens indiretos que contraria a noção econômica de troca
direta de objetos das sociedades pré-capitalistas. A representação social do
sistema de bens indiretos fundamenta-se no dinheiro, que, sendo apenas um
signo, não é fonte, em si mesmo, de nenhuma satisfação. Seu uso está ligado a
um futuro calculado, definido pela disponibilidade de bens propostos pela
hierarquia de fins pessoais. Funcionando como mediador universal, o dinheiro
condiz com uma nova disposição das relações entre indivíduo e sociedade,
satisfazendo uma compreensão temporal desencantada que não considera o futuro
controlado por forças externas às ações individuais.
Bourdieu exemplifica essa tese expondo as diferenças das práticas da
racionalidade capitalista diante das condutas tradicionais presentes na
sociedade argelina. Assim, o espírito moderno do cálculo contrapõe-se ao
sistema cultural baseado na honra. Bourdieu demonstra que o trabalho possui nas
comunidades argelinas uma função social que é em grande parte desvinculada de
fins econômicos. A atividade laboriosa é valorizada em si mesma, tendo as
ocupações um caráter que limita as distinções entre trabalho rentável ou não,
trabalho produtivo ou improdutivo. O ponto fundamental é a tese de que a
condição racional moderna não é uma "escolha" objetiva, mas um fenômeno
histórico complexo. Por outro lado, os agentes modernos não se constituem por
meio de uma simples acomodação passiva e forçada a mecanismos econômicos
"reais". O movimento histórico apresenta vários processos pelos quais hábitos
tradicionais são mantidos paralelamente às disposições capitalistas, o que
manifesta uma "transformação criativa" e a interdependência entre os indivíduos
e as estruturas socioeconômicas (idem:11-18).
O caráter delimitado das práticas instrumentais pode ser verificado também por
sua contraposição às características das reuniões políticas mais importantes da
comunidade africana Douala, que transcorrem com o consumo de champanhe, ou ao
fato de que trabalhadores da comunidade Kigali juntam suas rendas somente para
gastá-las em festas da cerveja (Latouche, 2001:28-29). Em sentido similar, na
maior parte das tribos indígenas o trabalho é realizado não apenas como
mecanismo racional de garantia de alimentação, mas sobretudo como tempo de
atividade religiosa, de festa ou de dança (Castoriadis, 1982:40). O trabalho
nesses contextos aparece subordinado a bens simbólicos que não são passíveis de
serem quantificados ou calculados. Assim, não há "troca" sem identificação e
reconhecimento prévio dos participantes das interações, freqüentemente
fundamentadas em laços de parentesco. Longe de serem "irracionais", esses
comportamentos refletem dimensões culturais que reforçam a solidariedade,
enquanto a acumulação de bens materiais é tida como inócua, implicando
incômodos aos indivíduos (Latouche, 2001:19-21). Essas orientações não
representam qualquer tipo de ilusão ou mistificação, e sua explicação repousa
sobre a razoabilidade que possuem em um contexto.
Tendo em vista a inserção da noção de racionalidade em um contexto social que
lhe dá significação, podem-se questionar os argumentos que objetificam os
comportamentos instrumentais. Por outro lado, o tipo de configuração social
instrumental explicita as relações nas quais se fundamentam as práticas dos
agentes modernos. O contexto da produção, essencial ao campo econômico, assume
na modernidade um significado que conduz a experiências singulares, dentre as
quais o comportamento maximizador é sua característica medular. É fundamental
notar que a ação instrumental e a economia moderna dependem de certas
instituições, principalmente da generalização de mercados em que os bens e
serviços, incluindo o trabalho e o capital, sejam definidos por preços e pela
livre oferta e demanda (Polanyi, 1957:247). Somente neste ambiente adquire
relevância a idéia de escassez de meios, no caso representada pelo mecanismo
universal e quantificável do dinheiro, que sintetiza todos os fins pessoais.
Portanto, um olhar sociológico que parece mais promissor é entender os
interesses dos agentes por meio de rotinas, hábitos e rituais coletivos. A
formação das instituições sociais passa a ser vista como um processo complexo,
desvinculado dos pressupostos que as consideram resultados de objetivos
individuais. Desse modo, as normas sociais refletem um âmbito estruturante,
influenciando a identidade e o significado dos indivíduos, assim como suas
respectivas atividades. A conseqüência dessa influência é que as instituições
por vezes adquirem tal força que passam a ser compreendidas como leis, sejam
definidas por regras formais ou por costumes e crenças. Logo, torna-se evidente
que a força cultural do comportamento instrumental provém de uma dimensão
social que induz e legitima o discurso de um agente naturalmente detentor de
direitos fundamentais e competência para efetuar escolhas autônomas.
Esse tipo de análise desloca a racionalidade da esfera individual em direção às
regras abrangentes que demonstram que o individualismo moderno possui uma
história institucional produzida por teorias que pressupõem a democracia
liberal no plano político, o livre mercado no plano econômico e um modelo de
selfnos campos cultural e religioso (Meyer, 1987). Percebe-se, então, que os
sistemas sociais modernos prescrevem, através de elementos econômicos,
religiosos e políticos, um suporte para que os seres humanos trabalhem sua
subjetividade de forma aparentemente independente. Nesse modelo de análise, o
indivíduo não aparece só como sujeito, mas também como objeto do projeto de
racionalização que ordena uma subjetividade compulsória composta de um tipo
legítimo de vida privada. São estes elementos que dão significado à
racionalidade instrumental, enfatizando razões e aspirações particulares,
dentre as quais se destacam: que o ator deve encontrar auto-estima em si mesmo,
se desvinculando de padrões morais; que deve possuir um senso de eficiência e
iniciativa; que deve se relacionar com seu ambiente de forma que sua liberdade
e independência sejam preservadas (idem:253).
Logo, as ações humanas exprimem uma subordinação à dimensão social, de modo que
a concepção da ação econômica como esfera independente se torna destituída de
sentido. Uma maneira de perceber isto é chamar atenção para o "processo de
institucionalização do processo econômico" (Polanyi, 1957:249-250, tradução do
autor), que encaixa a economia em formas sociais e simbólicas as mais diversas,
dependentes do contexto histórico. A questão torna-se mais complexa quando, na
modernidade, a prática instrumental passa a adquirir relativa liberdade em
relação a outros fenômenos sociais, fato refletido na institucionalização da
propriedade privada como mecanismo central de regulação social. Enquanto nas
economias pré-modernas as trocas e a circulação de bens materiais são
fundamentadas mediante uma complexa classificação, na economia moderna o
funcionamento do mercado define modos descentralizados de comportamento
(Godelier, 1974:174). Como demonstram os trabalhos clássicos da sociologia,
quanto mais a divisão social do trabalho se desenvolve, mais as funções
econômicas tendem a assumir preponderância, o que se reflete no paroxismo de
uma produção que não é controlada por seus produtores diretos. É somente neste
contexto histórico particular, no qual as mercadorias são apropriadas
individualmente, que passa a fazer sentido a conduta cultural de maximização e
lucro produtivo. Contudo, esse fato deve ser explicado e não reificado em
categorias que sugerem uma concepção de natureza humana. Tomar a atividade
econômica como um espaço independente e universal implica substituir a ênfase
analítica nas relações sociais por uma objetivação da troca material do homem
com a natureza. Não é em outro sentido que a tradição da teoria crítica
questiona a ação instrumental, que absorveria as características liberalizantes
ou "negativas" do pensamento. Como exposto de forma geral nos trabalhos de
Adorno, Horkheimer, Marcuse e Habermas, as condutas de maximização tendem a
transformar a racionalidade em razão técnica. O resultado é uma reflexão
articulada a mecanismos de controle e perpetuação das relações sociais voltadas
para a eficiência lucrativa e para a padronização monopolista. As concepções
dicotômicas "razão crítica" e "razão instrumental", "subjetividade" e
"apparatus", "administração" e "pensamento negativo", "mundo da vida" e
"sistema", expressam a dialética da racionalização, condizendo com a
contradição entre o controle humano da natureza, ou a potencialidade de uma
ação autônoma, e a subordinação da condição interna e criativa dos indivíduos.
Por outro lado, deve-se notar que, mesmo com o estímulo da
individualizaçãoearelativa independência da ação econômica ocasionados pela
condição moderna, não há como determinar as fronteiras da dimensão simbólica,
como se fosse possível estabelecer uma diferenciação nítida entre instâncias
essenciais e secundárias. Ou seja, uma separação entre a orientação
instrumental, verdadeira substância da sociedade, e fenômenos tidos por
irracionais e dispensáveis. A "utilidade" que os indivíduos procuram satisfazer
em suas ações se relaciona com um código cultural de propriedades concretas que
governa tanto a produção quanto a dinâmica dos bens expostos no mercado
(Sahlins, 1976:166). Esse código desmistifica a idéia da escolha racional de
que a realidadeéoresultado agregado de trocas efetuadas por interesses
autônomos, em que os preços e a oferta e a demanda são os únicos elementos a
estruturar as transações. Ainda que nenhuma sociedade possa viver sem a
produção da vida material e a sua própria reprodução, estas não são ditadas por
uma lei natural ou racional. Há sempre uma margem de indeterminação em que se
situa exatamente o campo da história. O movimento social produz-se a partir de
sentidos que manifestam "distinções correlativas ao que vale e ao que não vale
(em todos os sentidos da palavra valer, do mais econômico ao mais
especulativo), entre o que deve e o que não deve ser feito" (Castoriadis, 1982:
176).
Ainda que de maneira diferenciada e original, as decisões individuais e a
construção de funções de utilidade no contexto social moderno dependem da
significação social do consumo e dos bens expostos no mercado. Essa
significação fixa contrastes que representam e legitimam as desigualdades de
poder presentes na sociedade. Não existe, portanto, um comportamento
instrumental livre, pois mesmo a esfera do consumo, que a teoria da escolha
racional procura sistematizar a fim de prever as ações, não aparece como uma
opção subjetiva, visto ser um processo estruturado por valores sociais e por um
sistema simbólico que determinam atitudes e proíbem certos objetos. Pode-se
dizer que a modernidade caracteriza-se por uma nova espécie de totemismo
(Sahlins, 1976:178), composta por um sistema predeterminado de objetos que
expressa um discurso de diferenças. A ordem cultural define-se a partir das
características diferenciais dos bens ofertados, codificados de forma a
determinar o tipo de consumo de cada grupo ou classe.
Desse modo, questiona-se a base do raciocínio da teoria social da escolha
racional que indica uma concepção mínima de agência, fundamentada na idéia de
uma capacidade independente de produzir decisões. Esse entendimento afirma uma
separação entre indivíduo e estrutura que torna limitada a percepção de algo
externo à cognição pessoal. Todavia, a teoria deve explicar a existência de
organizações que não são redutíveis às práticas individuais e que refletem uma
subjetividade composta de vários atores (Hindess, 1988:103-104). Em várias
instâncias sociais, como uma corporação produtiva ou o aparelho estatal, por
exemplo, não há possibilidade de se entender as decisões por meio de avaliação
de objetivos definidos individualmente. Nesses casos, as escolhas são produtos
de deliberações tomadas em uma variedade de pontos e os resultados subsistem
por si próprios. As escolhas tendem a expressar formas institucionalizadas de
avaliação e levantamento de informação, acarretando orientações rotineiras e
habituais distanciadas da reflexão instrumental.
Portanto, o que se demonstra mais problemático na sociologia da escolha
racional é a suposição de que a ação segue um caminho transparente traçado por
objetivos individuais. Em contraposição a esse ideal, sugere-se que os agentes
se baseiam normalmente em crenças ou hábitos que se conjugam, de uma maneira
específica, com os desejos pessoais e a estrutura social. Assim, os meios de se
alcançar uma decisão não devem ser prejulgados, como sugerem os modelos de
racionalidade econômica. Mesmo os tipos de questões que um indivíduo se coloca,
e as conseqüentes conclusões alcançadas, manifestam mecanismos ou formas de
pensamento particulares presentes na comunidade da qual faz parte. O essencial
é identificar a existência de algo externo ao âmbito individual, que fundamenta
relações singulares entre a agênciaeaestrutura. É exatamente o entendimento
dessas relações que pode revelar os modos de pensamento e os meios disponíveis,
legítimos e justificados para a ação dos homens.
NOTAS
1. Parte dessa discussão desenvolve-se a partir da concepção de racionalidade
limitada de Herbert Simon (1967), segundo a qual as escolhas individuais são
caracterizadas pela limitação da capacidade cognitiva, fundada pela falta de
conhecimento e de informações. Nessas condições, os agentes adotariam uma
conduta de "satisfação", em vez de uma tentativa de maximização ilimitada.
Simon (idem:271) caracteriza a satisfação como um mecanismo baseado em
seqüências curtas de decisão, o que pressupõe inércia dos sujeitos em condições
incertas. Levando em conta aspectos psicológicos, sugere-se que há limites
internos para a conduta instrumental, muito além das restrições externas, como
preços, oferta e demanda. Entretanto, deve-se notar que o comportamento de
satisfação nada mais é do que uma reflexão premeditada de como construir
decisões ótimas em ambientes de informações limitadas. Adespeito da grande
influência dos trabalhos de Simon no campo da escolha racional, não aprofundo
suas teses neste artigo devido ao fato de ressaltarem, sobretudo, aspectos não-
sociológicos de uma psicologia da ação e da construção individual de modelos
mentais.
2. Outro estudo fundamental sobre a temática da confiança e das possibilidades
de cooperação em contextos sociais que podem prescindir dos aparelhos
formalizados do Estadoéode Michael Taylor (1987).
3. Rapoport é o formulador da temática estratégica do tit for tataplicada por
Axelrod. O autor tem importância decisiva no debate sobre alguns limites da
concepção tradicional de racionalidade utilizada pela teoria dos jogos.
Todavia, suas proposições críticas remetem, substantivamente, a fatores
psicológicos, destacando os aspectos sensoriais da percepção, da perspectiva
individual e da persuasão mental.