De Cambridge para o mundo, historicamente: revendo a contribuição metodológica
de Quentin Skinner
"The one duty we owe to history is to rewrite it."
Oscar Wilde
A publicação recente de Linguagens do Ideário Político, uma coletânea de textos
de J.G.A. Pocock (2003), tornou disponível pela primeira vez em língua
portuguesa parte da contribuição desse autor ao debate metodológico sobre a
história do pensamento político. É interessante notar que, enquanto esses
textos chegam agora ao leitor brasileiro, contribuições metodológicas mais
centrais à metodologia historicista, da qual Pocock esposa, ainda não foram
traduzidas para o português. Refiro-me aqui, principalmente, aos trabalhos de
Quentin Skinner e também a outras contribuições que procuraram, de alguma
maneira, elucidar aspectos metodológicos daquela que foi posteriormente
rebatizada pelo próprio Skinner de abordagem collingwoodiana1 ao estudo da
história do pensamento político (Skinner, 2001). Essa lacuna se torna ainda
mais significativa se considerarmos que os principais trabalhos
historiográficos do autor já foram traduzidos (idem, 1996a; 1996b), e que seus
escritos, assim como os de Pocock, integram os programas de cursos de história,
teoria política e filosofia política por todo o país.
Entre os autores que esposaram de alguma maneira a abordagem collingwoodiana,
podemos identificar, além de Skinner e Pocock, Anthony Pagden, James Tully,
Richard Tuck e John Dunn. Porém, dentre todos, Skinner é, sem dúvida alguma, o
autor que mais se esforçou em sistematizar um projeto metodológico para a
história intelectual. Começando em 1966 com "The Limits of Historical
Explanations", e tomando força em 1969 com a publicação daquele que se tornaria
seu texto mais polêmico e contundente sobre a matéria, "Meaning and
Understanding in the History of Ideas", a cruzada metodológica de Skinner
manteve-se ativa até os dias de hoje (Skinner, 2002)2, seja através de suas
próprias contribuições, das várias respostas que essa tem suscitado, ou mesmo
das tentativas de aproximação, empreendidas por adeptos anglófonos da
Begriffsgeshichte.
O esforço intelectual de Skinner no campo metodológico teve dois objetivos
principais. O primeiro foi promover uma total revisão das abordagens mais
influentes ao estudo da história do pensamento político, nas quais identifica
problemas metodológicos batizados por ele de mitologias. O segundo objetivo que
animou sua empreitada foi a proposição de um novo programa para o estudo da
disciplina. Skinner parece ter tido sucesso quanto ao primeiro objetivo, pois,
se não conseguiu acabar de vez com os presentismos e idealismos na prática da
história do pensamento político, abriu um espaço amplo para o exercício do
historicismo lingüístico dos collingwoodianos, isto é, para o estudo das
"idéias em contexto"3. É a parte propositiva de sua contribuição, contudo, que
a meu ver é problemática.
O novo programa proposto por Skinner suscitou uma ampla resposta. Alguns
comentadores apontaram para suas inconsistências internas (Gunnell, 1982;
Graham, 1988; Hollis, 1988), outros acusaram o autor de promover um tipo de
positivismo que se mostra incapaz de refletir sobre o papel do intérprete na
produção de leituras (Fermia, 1988; Keane, 1988; Minogue, 1988), outros ainda
deitaram-lhe a pecha de adepto do antiquarianismo (Tarlton, 1973). O presente
artigo pretende ser uma contribuição à essa literatura crítica. Contudo, dada a
fartura e diversidade do material crítico produzido durante as últimas três
décadas, meu esforço só terá sentido se de alguma maneira for capaz de
apresentar algo que ainda não foi cotejado. Há, a meu ver, um aspecto que,
apesar de não ter sido tratado de maneira significativa pela literatura
crítica, é central ao programa metodológico de Skinner. Pretendo mostrar que
todo o edifício da metodologia skinneriana se assenta sobre um erro, qual seja,
o de trabalhar com a premissa, presente em todos os seus trabalhos sobre
metodologia, de que comunicação oral e comunicação textual não são
significativamente diferentes, ou melhor, com a premissa de que uma teoria
desenhada para a análise dos atos de fala pode ser simplesmente aplicada, sem
maiores adaptações, à interpretação de textos.
Não basta, contudo, apontar para a existência dessa premissa no texto de
Skinner e simplesmente declarar sua natureza equivocada. Tem-se que, de fato,
indicar porque ela é errônea, o que implica mostrar que essas duas modalidades
de comunicação diferem uma da outra em aspectos importantes que não foram
cotejados pelo autor. Para tal, a argumentação dar-se-á através dos seguintes
passos: começo com a exposição dos aspectos principais do projeto metodológico
de Skinner, chamando atenção para a operação da premissa supracitada; em
seguida mostro que, apesar de representar uma facção importante das críticas ao
projeto do autor, a hermenêutica de inspiração gadameriana não está bem
posicionada para identificar esse problema; por fim, baseado nos apontamentos
de Paul Ricoeur sobre as especificidades da comunicação textual, que chamo aqui
de fenomenologia do texto, exporei as diferenças cruciais em relação à
comunicação oral introduzidas pelo ato da escrita. No decorrer deste exercício
crítico, mostrarei que a fenomenologia do texto é um ponto de partida
privilegiado para organizar algumas das críticas anteriormente feitas a
Skinner, e também uma passagem para novas possibilidades metodológicas que não
foram cotejadas pela abordagem collingwoodiana.
I
Antes de expor os problemas inerentes ao projeto metodológico de Skinner, é
preciso primeiro apresentar suas linhas gerais. Na verdade, ele sofreu algumas
mudanças com o passar dos anos, apesar de muitos de seus aspectos principais
terem sido preservados. Já no final da década de 1960, em "Meaning and
Understanding", o autor expõe brevemente seu projeto de inovação. Após dedicar
grande parte desse longo artigo a uma crítica primorosa das principais
correntes do mainstream da história do pensamento político, Skinner volta-se
para o problema que, segundo seu modo de ver, está no cerne da questão
epistemológica da disciplina: a produção de significado através do uso da
linguagem. Na verdade, já é desse ponto de vista que o autor promove sua
empreitada crítica, acusando uma e outra abordagem de produzirem interpretações
equivocadas através da violação, distorção ou pura ignorância das condições em
que a comunicação lingüística se dá. De acordo com Skinner, o entendimento
(understanding) de uma sentença (statement) não corresponde estritamente à
compreensão de seu significado (meaning), isto é, a sentença contém algo mais:
"Foi demonstrado de maneira clássica [...] por J. L. Austin que o
entendimento de sentenças pressupõe a compreensão não somente do
significado de um dado enunciado (utterance), mas também do que
Austin chamou de força ilocuninária intencional" (Skinner, 1969:45-
46).
Portanto, conclui Skinner, esse entendimento requer o conhecimento da intenção
do autor ao proferir tal ato de fala. Segundo ele, a questão a respeito do que
um agente pode estar fazendo ao (doing in) proferir o enunciado não concerne ao
significado desse enunciado propriamente dito, mas sim à força que se coordena
ao significado do enunciado, que é um aspecto essencial para o entendimento de
tal ato (idem). Emprestando a terminologia de Austin, Skinner chama essa força
de ilocucionária ou de conteúdo ilocucionário do ato de fala.
Qualquer pessoa com alguma leitura da teoria dos atos de fala conhece esse
argumento. O que está sendo dito por Skinner a despeito de sua formulação não
muito enxuta é que o entendimento do conteúdo comunicativo do enunciado não se
restringe ao conteúdo propriamente semântico do que é dito. O que sobra, isto
é, aquilo que está a mais, é exatamente a intenção dada pelo autor ao ato. Por
exemplo, a frase "feche a porta" pode ser proferida com intenções diversas, de
ordem, conselho, súplica, ironia etc. Portanto, tanto para o falante quanto
para sua audiência, o entendimento correto dessa intenção é crucial para a
compreensão correta do ato (Skinner, 1972).
Desses apontamentos acerca da maneira como a linguagem falada é entendida,
Skinner salta diretamente para o problema da interpretação de textos, como se
fossem as duas uma só problemática. Segundo o autor:
"Mesmo se pudéssemos decodificar o significado de uma sentença
através do estudo de seu contexto social, ainda ficaríamos sem
compreender a intenção de sua força ilocucionária, e, portanto, sem
um entendimento real da sentença. O problema é, em suma, que uma
lacuna inevitável permaneceria: mesmo se o estudo do contexto social
de textos pudesse servir para explicá-los, ele não serviria como
instrumento para entendê-los [...]. A compreensão da força, assim
como a do significado, é essencial ao entendimento de textos" (1969:
46).
Na passagem acima, o autor transpõe o modelo de entendimento da comunicação
oral previamente delineado para o problema da interpretação de textos,
esforçando-se para separar o significado convencional do texto, que é dado pelo
contexto lingüístico no qual ele está inserido, da força ilocucionária
proprimente dita. Uma leitura cuidadosa do texto mostra que Skinner usa os
termos statement e utterance de maneira indistinta. Acontece que esses termos
do vocabulário inglês não são sinônimos perfeitos. Enquanto utterance se refere
primordialmente a um enunciado falado, o statement pode ser tanto falado quanto
escrito. Contudo, esse não é um sinal de falta de atenção, mas sim uma
evidência de sua convicção na propriedade de se aplicar a teoria dos atos de
fala ao problema da interpretação textual.
Como conseqüência dessa transposição teórica, Skinner conclui que, somente
dessa maneira (compreendendo os dois aspectos da comunicação), é possível
entender aquilo que "o autor, ao escrever na época em que escreveu, para a
audiência que ele pretendeu alcançar, poderia na prática ter a intenção de
comunicar ao proferir um dado enunciado" (1969:49). Ou seja, o modelo da
comunicação falada o induz a conceber a possibilidade do resgate perfeito do
conteúdo comunicativo original imprimido ao texto. Ele então conclui que,
"dessa maneira, o foco apropriado desse estudo é concebido como essencialmente
lingüístico e sua metodologia correta, portanto, diz respeito ao resgate das
intenções" (ibidem).
Em um esforço de polir os elementos básicos de sua teoria da interpretação,
Skinner publicou em seguida a "Meaning and Understanding" dois artigos em que
discute questões concernentes à teoria dos atos de fala (Skinner, 1971a;
1971b). No texto intitulado "On Performing and Explaining Linguistic Actions",
o autor apresenta de maneira mais sistemática seus apontamentos sobre a relação
entre significado e entendimento, e sobre os conteúdos, ou forças, dos atos de
fala. Essa sistematização se encontra resumida nas passagens seguintes:
"O entendimento da natureza do ato ilocucionário perpetrado pelo
falante ao proferir um dado ato de fala parece análogo (talvez
equivalente) ao entendimento daquilo que Grice chamou de significado
não-natural ' isso se construirmos esse conceito como o significado
do ato do falante ao proferir um dado ato de fala. E o entendimento
desse significado "não-natural" ' isto é, a compreensão daquilo que o
falante, ao proferir um dado ato de fala, pode ter querido dizer ' de
fato parece equivaler ao entendimento daquilo que o falante pretendia
fazer ao proferir o dado ato de fala. Identificar nesse caso a
natureza da força ilocucionária coordenada com o significado
ordinário daquilo que foi dito equivale a entender a natureza da ação
(lingüística) perpetrada pelo falante ao dizer o que disse" (Skinner,
1971b:2).
Enquanto Skinner havia afirmado previamente que a força ilocunionária de um
dado ato de fala não deveria ser confundida com seu significado, agora ele
parece voltar atrás ao chamar essa força, seguindo a terminologia de Grice, de
significado "não-natural" ' mudança terminológica que não transforma o conteúdo
de sua teoria. Em um artigo imediatamente posterior a suas contribuições à
filosofia da linguagem, Skinner aplica essa reelaboração terminológica ao
problema da interpretação textual.
"Parece-me que o conhecimento das intenções do autor ao escrever, no
sentido que tentei isolar, não é meramente relevante, mas na verdade
equivalente ao conhecimento do significado3[4] daquilo que ele
escreve. Dessa maneira, a equivalência entre as intenções ao escrever
e o significado daquilo que foi escrito é estabelecida. Pois, como já
indiquei, saber o que um autor quis dizer (meant) com um dado
trabalho é saber quais eram suas intenções ao escrevê-lo" (Skinner,
1972:404).
Uma vez mais, Skinner trata de maneira equivalente, ou mesmo indistinta, a
interpretação de textos e a compreensão dos atos de fala. É interessante notar
que essa transposição agora é ainda mais arriscada do que a sugerida em
"Meaning and Understanding", pois se antes Skinner igualava atos de fala a
sentenças (statements), agora ele os iguala a trabalhos inteiros, algo que só
contribui para nublar a compreensão de sua proposta.
Na passagem acima, Skinner conclui que aquilo que o autor intencionou ao
escrever um dado trabalho, seu significado e o entendimento conferido a ele
pelo intérprete, é de fato idêntico, ou, para usar as palavras do próprio
autor, "equivalente". Através dessa afirmação, o autor está defendendo a
primazia do autor na determinação do significado correto de seu trabalho.
Conseqüentemente, ele conclui que uma interpretação válida é aquela que o
próprio autor teria hipoteticamente aceito como uma descrição correta daquilo
que ele quis dizer ou fez. Pois, segundo Skinner, esse critério "excluiria a
possibilidade de que uma descrição aceitável do comportamento de um agente
pudesse resistir à demonstração de que ela, de fato, dependeu do uso de
critérios de descrição e classificação que não estavam disponíveis para o
próprio agente" (idem,1969).
Skinner parece ter consciência de que a defesa da possibilidade do resgate
total da intenção autoral e da proposição de que é isso que importa na
interpretação de textos pode soar um pouco extremada para uma audiência que
aprendeu a suspeitar das promessas da ciência social positivista e também
conhece as críticas formuladas contra ela pela hermenêutica de Gadamer, pela
teoria crítica e pelo pós-estruturalismo. Nas páginas iniciais de "Meaning and
Understanding", Skinner diz que é impossível para um historiador estudar o que
um autor disse sem ser influenciado por suas próprias expectativas sobre aquilo
que o autor deve ter dito. Porém, no conjunto do argumento exposto no texto,
esse preâmbulo tem uma função eminentemente retórica. A ele segue-se uma
advertência contra os perigos de se contaminar o resgate das intenções autorais
puras com nossas próprias expectativas.
Skinner por fim desiste de defender abertamente a autoridade, em última
instância do autor, sobre o significado de seu texto no artigo intitulado "Some
Problems in the Analysis of Political Thought and Action". Contudo, a essa
aparente mea culpa se segue a defesa da noção de que o conhecimento da intenção
de um autor ao escrever (in writing) o texto e o significado desse mesmo texto
são equivalentes (Skinner, 1974).
Nota-se em "Some Problems" um esforço do autor de reformular aspectos de seu
projeto de modo a escapar a algumas das críticas mais argutas, que naquele
momento já haviam começado a circular no meio acadêmico. As palavras
"utterance" e "illocutionary force" desaparecem do seu texto. Ademais, Skinner
declara abertamente que sua primeira tentativa de aplicar a teoria e o método
dos atos de fala foi malsucedida, sem contudo oferecer um detalhamento da
natureza de seu erro. Como anotei no parágrafo acima, ele desiste da premissa
da autoridade do autor sobre o significado do texto. Agora, Skinner propõe que
a compreensão da intenção autoral advém do conhecimento das convenções
lingüísticas que historicamente contextualizam o texto. Essas convenções
"fechariam" o rol de significados que o texto pode ter tido. Skinner também
descarta o princípio de que o resgate da intenção do autor deva ser o objetivo
principal da interpretação, adotando a fórmula mais branda que coloca esse
resgate "entre as tarefas do intérprete".
De acordo com Skinner, em "Some Problems", a história da teoria política
deveria ser escrita como uma história de ideologias, isto é, como um processo
de formação e mudança ideológica.
"Essa história teria várias vantagens que se somariam ao fato de
poder nos dar pela primeira vez um quadro realista de como o
pensamento político em suas várias formas foi produzido no passado.
Ela nos permitiria iluminar os papéis diversos desempenhados por
fatores intelectuais na vida política, abrindo-nos o caminho para o
estabelecimento de conexões entre o mundo da ideologia e o mundo da
ação política. E isso, por sua vez, adicionaria uma dimensão a mais
no estudo da história geral, que parece, no momento, faltar mesmo nas
obras de seus autores mais consagrados" (idem:280).
Apesar do novo vocabulário e da mudança de foco, o projeto renovado de Skinner
ainda preserva elementos importantes do anterior. Ademais, ele é ainda mais
ambicioso. O autor, na verdade, não desiste da tese do resgate total do
significado do texto, dado que ela continua sendo uma das tarefas do
intérprete, que agora são estendidas ao estudo dos eventos não lingüísticos
daquilo que Skinner chama de "história geral"5. O mais importante, porém, é
notar que a declaração de fracasso na aplicação da teoria dos atos de fala não
leva Skinner a retirá-la de sua proposta metodológica. Na verdade, a opção pela
primazia das convenções lingüísticas sobre a autocompreensão do autor na
determinação do significado é consonante com os fundamentos da teoria dos atos
de fala. Como defende Austin, convenções sociais são condições necessárias para
a compreensão exitosa do conteúdo ilocucionário de um ato de fala. Se essas
convenções não existem ou são mal-interpretadas pelo falante, a comunicação
falha e o "ato que se propunha fazer se torna nulo ou vazio"6. Skinner parece
ter chegado à conclusão de que sua tese original era difícil de sustentar, dado
que se, por um lado ela postula um possível acesso às intenções do autor, por
outro, ela não explicita as fontes desse conhecimento ou a maneira como ele
seria produzido. Na formulação anterior, fica claro que o conteúdo locucionário
(semântico) é de natureza convencional, mas não há qualquer clareza quanto às
fontes do ilocunionário. Portanto, ao adotar em sua reforma o estudo da
convenção como método para se conhecer também a intenção autoral, Skinner tenta
se livrar da aporia inicial e transpõe de maneira ainda mais completa a teoria
dos atos de fala para seu projeto de interpretação de textos.
II
Skinner às vezes chama seu trabalho de hermenêutica7, termo de origem grega que
reapareceu na academia alemã durante a primeira metade do século XIX, nos meios
dedicados ao estudo da interpretação do texto bíblico. De tecnologia de
interpretação textual, a hermenêutica ganhou importância filosófica, primeiro
como método por excelência das ciências humanas, com Wilhelm Dilthey (1976), e,
depois, como atributo principal da condição do homem como um ser cultural, com
Martin Heidegger e Joan Stambaugh (1996) e Hans-Georg Gadamer (1995). A escolha
do termo por Skinner não deixa de ser irônica dado que muitos autores se
baseiam exatamente na hermenêutica filosófica para criticar seu projeto. Joseph
V. Fermia, por exemplo, escreve que mesmo Dilthey, que defende a noção de que o
intérprete deveria entender o autor melhor do que o autor entendeu a si
próprio, por outro lado, afirma que o intérprete está preso à sua própria
situação, experiência, valores e costumes. Para Fermia, toda história é
"contemporânea", no sentido de que o seu fazer é ditado pelos interesses do
intérprete no presente. Ele conclui dizendo que entender uma obra de acordo com
as intenções de seu autor não é necessário e tampouco desejável (Fermia, 1988).
Mas a maior fonte de inspiração crítica ao projeto skinneriano vem mesmo da
hermenêutica de Gadamer. Contrário à primazia do autor sobre o significado do
texto, Charles Taylor argumenta a noção de que a interpretação requer uma
negociação entre a linguagem do historiador e a do texto ' negociação essa que
pode vir a transformar a primeira. Isto é, ao entrar em contato com as
linguagens do passado, o historiador é deslocado de sua situação original e,
portanto, torna-se capaz de examinar a tradição contemporânea a qual pertence
de um ponto de vista crítico8.
Também gadameriano, John Keane (1988) acusa Skinner de propor um modelo
positivista de interpretação que há muito tempo foi "abandonado dentro dos
círculos mais sofisticados da teoria da interpretação". Como Fermia, ele afirma
que a situação histórica do intérprete é condição de possibilidade e ponto de
partida necessário ao processo hermenêutico. Ao contrário daquele autor,
contudo, Keane argumenta que a interpretação não requer a submissão do passado
aos interesses do intérprete. Seguindo Gadamer, Keane afirma que, no ato
interpretativo, o intérprete entra em conversação com o texto de maneira que a
distinção entre sujeito do conhecimento e objeto é parcialmente apagada. A
interpretação é um embate entre a alteridade espacial e temporal do texto e o
horizonte do mundo (world horizon) do autor: uma fusão de horizontes
(Horizontverschmelzung) que deve ser resolvida na linguagem do presente.
Contrariando as pretensões de resgate total de Skinner, Keane conclui que "cada
época deve, portanto, entender um texto transmitido a sua própria maneira"
(1988:216).
A teoria da interpretação de Paul Ricoeur também é inspirada na filosofia de
Gadamer7. Contudo, há diferenças entre as duas que são de grande relevância
para a reflexão que conduzo aqui. O projeto hermenêutico de Gadamer é, na
verdade, muito mais ambicioso que o de Ricoeur. Baseando-se em Heidegger,
Gadamer escreve que "a interpretação não é uma atividade humana específica mas
a estrutura básica de nossa experiência de vida" (1984:58). Diferentemente de
autores que conferiam à hermenêutica um papel mais restrito ' como técnica de
interpretação textual para (Schleiermacher) ou método das ciências humanas
(Dilthey) ' Gadamer a amplia até abarcar as esferas histórica, lingüística e
estética da vida humana. O autor, porém, reconhece que a "lingualidade"
(Sprachlichkeit) da experiência humana media tanto as experiências históricas
quanto as estéticas. Seu interesse, portanto, é pela linguagem enquanto parole
e não como langue, isto é, linguagem como ação vivida em oposição aos sistemas
lingüísticos. Para Gadamer (1975), parole é o dado definidor da experiência
humana e, portanto, o núcleo do esforço hermenêutico.
Ricoeur, por seu lado, tem uma compreensão mais restrita da hermenêutica. Ele
argumenta que a tentativa de Gadamer de promover a compreensão hermenêutica de
uma modalidade de conhecimento a um modo do ser e da relação com os seres e com
a existência, na verdade, tornou a hermenêutica incapaz de tratar o problema
epistemológico das ciências sociais. Isto é, do ponto de vista epistemológico,
a hermenêutica de Gadamer não oferece uma solução alternativa à concepção
ingênua proposta por Dilthey de se encarnar o autor, mas somente um desvio para
questões de ordem ontológica que nunca se traduzem em ganhos de ordem
metodológica. Seguindo essa senda crítica, Ricoeur redefine a hermenêutica como
"a teoria das operações do entendimento em sua relação com a interpretação de
textos" (1981:43); ao invés de estendê-la às três esferas da experiência humana
enumeradas por Gadamer, esse autor propõe uma teoria da interpretação que
começa pela experiência da leitura.
O interesse de Gadamer pela ação lingüística (parole) leva-o a privilegiar o
diálogo como um modelo de interação lingüística. Conseqüentemente, ele dá menor
importância para o problema do "ser para o texto" (Sein zum Texte). Ricoeur,
por sua vez, observa que nossas experiências estéticas e históricas são
mediadas primordialmente, não pela linguagem falada, mas por "signos, trabalhos
e textos nos quais as heranças culturais estão inscritas, e se oferecem para
serem decifradas" (1981:9). Portanto, a "qualidade de ser inscrito"
(Schriftlichkeit) torna-se em sua teoria mais importante que a lingualidade.
O interesse pela linguagem como ação e, conseqüentemente, a pouca atenção dada
aos problemas introduzidos pela inscrição são duas características comuns às
teorias interpretativas de Gadamer e Skinner8. Como pretendo mostrar na seção
seguinte, essa característica similar em ambas as teorias permite-nos usar a
fenomenologia do texto de Ricoeur, originalmente elaborada como crítica a
Gadamer, para identificarmos os erros embutidos na proposta metodológica de
Skinner.
Minha intenção aqui não é esposar o todo do projeto hermenêutico de Ricoeur,
que para o autor consiste em uma nova epistemologia para as ciências sociais.
Pretendo, sim, fazer um uso instrumental de sua contribuição e apropriar dela
somente aquilo que possa contribuir para uma crítica eficaz da metodologia
collingwoodiana. Ademais, dado que a fenomenologia pode ser vista como um
positivismo radical ' para Husserl ela é o único positivismo de fato (Gadamer,
1984) ' seu confronto com a proposta de Skinner oferece uma oportunidade
interessante de se jogar um positivismo contra outro.
É fato que a hermenêutica, particularmente a de inspiração gadameriana, pode
ser usada para identificar problemas no projeto collingwoodiano, como o fizeram
os críticos acima comentados. Contudo, penso que, ao invés de expor as
contradições e imperfeições internas à metodologia de Skinner, esse tipo de
crítica a contrasta com um esquema filosófico que lhe é totalmente estranho.
Gadamer escreve dentro de uma tradição intelectual a qual investiga o problema
da relação entre sujeito e objeto do conhecimento há mais de dois séculos. Sua
reflexão acerca da hermenêutica dialoga com as teorias e conceitos da filosofia
da consciência ' para usar um termo de Habermas ', da hermenêutica de Dilthey e
Schleiermacher, da fenomenologia de Husserl e da filosofia do ser de Heidegger.
Essa tradição é tão diversa daquelas que inspiram a teoria de Skinner ' o
empiricismo inglês e a filosofia da linguagem ' que pouco podemos esperar da
conversação entre elas. Essa conversação hipotética se complica ainda mais
quando consideramos a aversão de Gadamer à idéia de que a hermenêutica possa
ser aprisionada pelo método (Gadamer, 1975; 1984) ' a proposta de Skinner não
seria uma exceção.
III
Não seria difícil contrastar o apego radical de Skinner à intencionalidade do
autor com teorias que declaram a morte do autor e da autonomia do texto, como o
estruturalismo de Roland Barthes e Stephen Heath (1977) ou o projeto
arqueológico de Michel Foucault (1972). Contudo, o empreendimento torna-se mais
produtivo se pudermos escolher um autor cujo ponto de partida e fundamentos
teóricos não sejam totalmente estranhos a Skinner. Paul Ricoeur parece ser
talhado para a empreitada.
Assim como Skinner, Ricoeur também se debruça ' mas não com exclusividade '
sobre o problema da interpretação de textos históricos. Ambos os autores
consideram a comunicação como ação social e a tomam como uma forma de texto.
Ademais, a Ricoeur também interessa a questão da relação entre interpretação e
intenção do autor. Diferentemente de Skinner, contudo, esse autor leva o
problema do texto muito a sério.
Ricoeur dá-se conta de que a comunicação entre o intérprete e o ato intencional
do autor em escrever é mediada pelo texto ' um meio de comunicação que impõe
limitações específicas ao conteúdo daquilo que é de fato comunicado. O autor
começa sua reflexão sobre o assunto com uma questão que Skinner nunca cotejou
em seus artigos sobre metodologia: há problemas específicos, relativos à
interpretação de textos, os quais podem ser atribuídos ao fato de o intérprete
lidar com textos e não com linguagem falada? (Ricoeur, 1981).
A resposta para essa questão requer um exame delicado das particularidades que
diferenciam a comunicação falada da linguagem escrita. Ricoeur começa a
explorar a matéria com a introdução do conceito de discurso. Segundo ele,
discurso é um evento de linguagem e, como tal, deve ser entendido em oposição
aos sistemas ou códigos de linguagem. Enquanto esses últimos são coleções de
unidades léxicas e fonológicas construídas por lingüistas, discurso é o produto
vivo da atividade humana que tem a sentença como unidade. Para Ricoeur, "é a
lingüística da sentença que baseia a teoria da fala como evento" (1981:74).
Não podemos deixar de notar a semelhança entre as concepções de sentença oral
esposadas por Ricoeur e Austin. Apesar da diferença de vocabulário, ambos os
autores defendem que o entendimento não pode ser reduzido à mera compreensão
dos conteúdos semântico e sintático da sentença. Isto é, para eles o discurso é
uma forma de ação social ' um evento, nas palavras do autor francês.
Ao chamar o discurso de evento, Ricouer pretende sublinhar o fato de que esse
não pode ser reduzido a uma mera construção ideal. Como todos os eventos,
discurso deve ser estudado de acordo com suas características fenomenológicas,
ou seja, da maneira como ele se dá no mundo. O autor identifica quatro
características fundamentais. A primeira corresponde à sujeição do discurso ao
fluxo temporal. O tempo do discurso é o presente, pois o ato de enunciá-lo
ainda não existe no passado, e seu efeito sonoro rapidamente dissipa-se depois
que a sentença é enunciada, isto é, ele não se estende em direção ao futuro.
Segunda, o discurso é auto-referenciado, no sentido de que ele é prenhe de
referências explícitas e implícitas a seu autor, o falante. Terceira, ele versa
sobre algo que está fora dos limites do código da língua, referindo-se ao mundo
que é por ele expressado, descrito e/ou avaliado. E quarta, o discurso é um ato
de comunicação e, portanto, tem não somente um sujeito humano, mas uma
audiência-objeto também humana (Ricoeur, 1981).
Essa rápida exposição das características do discurso segundo Ricoeur revela
ainda outros pontos em comum com Austin. Como o ato de fala, o discurso está
atado à intencionalidade subjetiva do autor e não pode ser reduzido ao seu
conteúdo estritamente lingüístico. Por fim, mesmo que indiretamente, sugere-se
a importância que as convenções sociais partilhadas entre falante e audiência
têm para o entendimento do discurso.
Uma vez que as características fenomenológicas do discurso falado são
enumeradas, as especificidades introduzidas pelo ato da escrita podem ser
examinadas. Primeiro, como argumenta Ricoeur, a escrita modifica a
temporalidade do discurso. O discurso, enquanto evento existe somente no
presente. Porém, o ato da escrita produz uma fixação do discurso que é capaz de
sobreviver ao evento na forma de uma seqüência coerente de caracteres
alfabéticos. A escrita é uma técnica material originalmente criada para
facilitar a memorização. Contudo, essa técnica mnemônica não preserva o
discurso em sua totalidade original. Segundo Ricoeur, a escrita não preserva o
discurso como evento; esta fixa somente o "dito" do discurso. A questão que
resta esclarecer, portanto, é como o "dito" do discurso difere do discurso como
evento vivido.
Ricoeur empresta as categorias formuladas por Austin para explicar essa
diferença9. Segundo ele, o ato locucionário do enunciado é aquilo que é
preservado mais integralmente pela inscrição. Esse conteúdo é fixado através de
formas léxicas e sintáticas e permanece igual a si mesmo, no sentido de que,
uma vez escrita, uma sentença pode sempre ser identificada consigo mesma. A
força ilocunionária, por sua vez, é apenas parcialmente apreendida pela
inscrição. Enquanto o uso de convenções gramaticais e léxicas pode permitir a
identificação e reidentificação da intenção comunicativa do autor, os elementos
mímicos, de gesto e de entonação, característicos da linguagem falada, perdem-
se na escrita. Por fim, o ato perlocucionário, por se basear ainda mais
fortemente nos aspectos emocionais e afetivos da comunicação oral, também não é
em grande parte capturado pela escrita. Em suma, a comunicação é afetada de
maneiras diferentes pela escrita: seu conteúdo locucionário é preservado,
enquanto o ilocucionário e o perlocucionário são parcialmente retidos. Ricoeur
concorda que:
"[...] é necessário entender por significado do ato de fala (o noema
do dito), não apenas a sentença, no sentido estreito do ato
proposicional [ato locucionário], mas também a força ilocunionária e
mesmo a ação perlocucionária, na medida em que esses três aspectos do
ato de fala são codificados, organizados dentro de paradigmas, e
onde, consequentemente, eles podem ser identificados e
reidentificados como tendo o mesmo significado" (1981:200).
Se parássemos nesse ponto da análise, pensaríamos que as conclusões de Ricoeur
quanto ao entendimento de textos são de fato muito próximas às de Skinner,
particularmente da última versão de sua proposta metodológica apresentada em
"Some Problems". Em relação à objeção de que a perda dos significados
associados aos elementos não lingüísticos da comunicação acarretaria uma
compreensão muito incompleta da força ilocucionária, Skinner poderia
corretamente contra-argumentar que o autor tem consciência de que aspectos como
entonação, gestos e mímicas não podem ser expressos através dos caracteres do
texto, concluindo o fato de, na comunicação textual, a escolha das convenções
lingüísticas feita pelo autor ser a única fonte de entendimento dessa força.
Contudo, a aparência de concordância entre esses dois autores desaparece quando
nos damos conta de que, na verdade, eles não estão tratando do mesmo problema.
Ricoeur examina as diferenças entre fala e escrita de maneira progressiva.
Quando se debruça sobre a primeira característica particular introduzida pela
inscrição, usando categorias austinianas, Ricoeur está considerando uma
temporalidade somente de curto prazo, isto é, aquele necessário para que a fala
se desvaneça e a escrita sobreviva. Portanto, nesse contexto, ambos, intérprete
e escritor, são contemporâneos. Essa contemporaneidade é a condição para que o
ato preposicional e as convenções do ilocunionário sejam prontamente
"identificadas e reidentificadas" pelos leitores. Em outras palavras, até esse
ponto da análise, a questão de se interpretar textos escritos em um passado
distante, que é, afinal de contas, o tema do projeto de Skinner, ainda não foi
cotejado. Como veremos, o exame subseqüente das implicações da escrita sobre as
outras três características do discurso abordará o problema da grande distância
temporal entre o ato de escrever e a interpretação, com conseqüências drásticas
para a possibilidade de resgate total do significado.
Para Ricoeur, a segunda característica do discurso também é afetada pela
inscrição. O discurso é prenhe de referências ao sujeito falante, seu autor. A
referência do discurso ao sujeito é dada pela imediatez da situação de fala, em
que a audiência reconhece o autor na pessoa do falante, e também suas intenções
naquilo que é dito. Portanto, entender o que o "falante quer dizer" é o mesmo
que entender "o que o discurso quer dizer". A escrita, porém, destrói a
equivalência imediata entre intenção autoral e significado do discurso. O
discurso escrito não perde o autor, mas a relação entre as intenções desse e o
significado do texto é "distendida e complicada". Segundo Ricoeur,
"[...] a carreira do texto escapa o horizonte finito da vida do
autor. O que o texto diz agora importa mais do que aquilo que autor
quis dizer. Toda exegese adota procedimentos dentro de um círculo de
significados que já quebrou suas amarras com a psicologia do autor"
(1981:201).
Para ele, a presença física e psicológica do autor é a garantia do
reconhecimento de sua "possessão" do significado daquilo que é dito10. Dado que
o texto não conta com a imediatez da presença do autor, seu significado é
acessível apenas através da interpretação ' um tipo de interpretação que não
vislumbra resgatar a intenção autoral original que foi perdida para o texto
junto com a presença do autor.
A falta de atenção de Skinner ao caráter mediativo do texto leva-o a falar de
autores como se sua presença fosse de alguma maneira acessível ao intérprete e
a interpretação nos desse a oportunidade de presenciar o enunciar de seus atos
de fala e também reconhecesse esses atos como produtos da ação intencional de
um sujeito específico. Contudo, somos forçados a perguntar, do ponto de vista
do intérprete, quem é esse autor-sujeito? Quem são Maquiavel, Hobbes ou
Francisco Vitória, senão coleções de material escrito? Como tal, eles
apresentam-se para nós, intérpretes do presente, sempre através do mesmo meio,
o texto. Alguns comentadores acusam os collingwoodianos de alimentarem a
"ilusão da presença do autor" (Harlan, 1989:586). Essa crítica é correta na
medida em que, contrário ao que Skinner sugere, não parece haver maneira
possível de se eliminar a mediação textual no ofício do intérprete da história
do pensamento político e, assim, garantir seu acesso à pura intenção autoral.
Ricoeur afirma que o discurso sempre representa algo que é exterior ao código
lingüístico ' sua terceira característica fenomênica. Enquanto evento, o
discurso é cercado por uma situação que é compartilhada pelas partes envolvidas
' falante e audiência ' fazendo referência aos aspectos dessa situação através
de expressões dêiticas e sinais físicos de referência. Em outras palavras, a
referência é uma característica ostensiva da comunicação oral. A inscrição, por
seu turno, abre uma vala entre a referência do autor e de seu público. No caso
de textos antigos, a situação original do autor não está mais à disposição do
leitor. Isso leva Ricoeur a concluir que "da mesma maneira em que o texto livra
seu significado da tutelagem da intenção mental, ele livra sua referência dos
limites da referência ostensiva" (1981:201).
Skinner sabe da importância do entendimento mútuo da referência para o sucesso
da comunicação oral. Baseado na distinção entre sentido e referência, elaborada
por Frege, Skinner afirma que a referência não é parte do significado de uma
palavra, mas o "critério de sua aplicação correta", a coisas particulares,
ações e situações. Para Skinner, a referência é uma ponte entre "a palavra e o
mundo"11. Ou seja, a concepção de referência abraçada por Skinner não é
diferente da de Ricoeur. Contudo, o problema da interpretação de textos do
passado é novamente ignorado quando Skinner transforma essa teoria da situação
de fala no centro de um projeto metodológico para o estudo da história
intelectual, pois ele está de fato deixando de ver que a inscrição também
transforma o mundo do autor em palavras (escritas). Para o intérprete, não há
nenhum acesso imediato possível ao mundo do passado que não seja mediado pelo
próprio texto ou por textos contemporâneos. O texto é necessariamente a única
fonte disponível à interpretação, e as palavras contidas nele somente se
referem a mais palavras no próprio texto ou em algum outro. A interpretação é
presa do círculo da textualidade, na qual a distinção entre sentido e
referência se torna obsoleta.
Na verdade, Skinner parece acreditar na possibilidade de se resgatar também as
referências ostensivas da situação original do autor. Isso poderia ser feito
através da coleta de informações sobre a biografia do autor e o contexto
histórico geral de sua vida. Entretanto, Skinner não nos revela como poderíamos
ter certeza do significado que as palavras escritas por um jesuíta do século
XVI, por exemplo, tiveram para ele e para aqueles que lhe foram contemporâneos.
Como nota Gordon J. Schochet (1974), há uma contradição básica no projeto
metodológico proposto pelo autor, pois ele pretende manter a linguagem do
passado imune à poluição lingüística do presente e, ao mesmo tempo, fazer isso
usando instrumentos conceituais derivados da tradição filosófica e crítica do
século XX. Há somente duas soluções possíveis para esse dilema. Uma seria
considerar o instrumental analítico de Skinner algo de fato transistórico e,
portanto, útil para interpretação de textos produzidos em qualquer período.
Isso, contudo, estaria em desacordo com sua tese de que não há teorias
transistóricas. A segunda solução corresponderia a aceitar o caráter
historicamente contingente do instrumental analítico. Mas isso corresponderia a
aceitação da interferência necessária entre o instrumental e o objeto da
análise ' algo que poria em xeque a idéia de resgate total (Schochet, 1974).
O tipo de resgate imaginado por Skinner requer a transferência do intérprete
para o mundo do autor ' uma missão impossível simplesmente porque aquele mundo
não existe mais enquanto experiência vivida, mas somente como texto. Na
verdade, todas as fontes textuais de um dado período apresentam o mesmo
problema ao intérprete: os textos que constituem o contexto não são menos
problemáticos que o texto principal que se constitui enquanto objeto de
análise12. Não quero aqui assumir uma posição de total pessimismo em relação à
possibilidade de se extrair algum entendimento do passado. Pelo contrário, devo
levar em consideração a importância das fontes textuais primárias nesse
entendimento, mas, de maneira complementar, tenho também que estar ciente de
que as noções contemporâneas de historicidade e contexto histórico não advêm
exclusivamente da interpretação direta de fontes primárias, mas também da
recepção dessas pelas gerações que sucederam ao texto. Isto é, há de fato uma
teia complexa de mediações textuais que condicionam nosso entendimento presente
do contexto de um dado período histórico, e, portanto, condicionam também nosso
entendimento do texto em contexto.
Mesmo supondo que a possibilidade de um intérprete poder entender um mundo do
passado em seus próprios termos, esse entendimento ainda teria que ter validade
hoje, no mundo do intérprete e, portanto, em uma linguagem do presente. Em
outras palavras, à viagem ao passado deve-se seguir uma viagem de volta ao
presente. Essa necessidade coloca em pauta o problema dos jogos de linguagem
dos quais o intérprete é partidário (ou presa). Skinner demonstra grande
sensibilidade em relação ao contexto lingüístico que cerca seu objeto de
estudo, mas nem sempre a mesma disposição para integrar a sua análise os jogos
de linguagem nos quais ele Skinner, está inserido. Sua falta de engajamento com
o presente levou alguns comentadores a acusá-lo de conservadorismo e
antiquarismo (Tarlton, 1973; Fermia, 1988; Taylor, 1988) ' a primeira pecha é
certamente exagerada, enquanto a segunda talvez tenha algum fundamento.
Por fim, voltando a Ricoeur, a quarta característica do discurso diz respeito à
sua natureza dialógica: o discurso é sempre direcionado a uma audiência. A
inscrição também tem conseqüências para esse aspecto da comunicação que não
podem ser desprezadas. O texto é escrito, na maioria das vezes, para uma
audiência que lhe é contemporânea; contudo, ele sobrevive não somente a seu
autor e situação, mas também à sua audiência. Ao contrário do evento
discursivo, que é restrito à platéia de ouvintes, o texto escrito está aberto a
todos que sabem ler.
"A co-presença dos sujeitos em um diálogo deixa de ser o modelo para
todo entendimento. A relação escrever-ler deixa de ser um caso
particular da relação falar-escutar. Mas, ao mesmo tempo, o discurso
é revelado como discurso na universalidade de seu alcance. Ao escapar
[através da inscrição] o caráter momentâneo do evento, as limitações
da vida do autor e a estreiteza da referência ostensiva, o discurso
escapa os limites de estar 'cara a cara'. Ele não tem mais uma
audiência visível. O leitor desconhecido e invisível se torna o alvo
privilegiado do discurso" (Ricoeur, 1981:203).
A quarta conseqüência fenomenológica introduzida pelo ato da escrita aponta
para um aspecto interessante da história do pensamento político que tem sido
ignorado pelos autores da abordagem collingwoodiana: o estudo da recepção. Ao
sobreviver à presença autoral, ao seu mundo e à sua audiência, os textos abrem-
se para as novas gerações de leitores e, portanto, para novas interpretações.
Essa independência relativa do texto permite que o estudo do pensamento
político se enriqueça com novas possibilidades, entre elas uma ênfase maior no
aspecto diacrônico da análise que permite a condução da narrativa histórica até
o presente13.
Um entusiasta do enfoque collingwoodiano, David Hollinger (1989) rejeita as
noções de que o texto adquire relativa autonomia semântica em relação à
intenção do autor e de que os contextos não podem ser completamente resgatados
argumentando que elas são importadas da teoria literária e, portanto,
inadequadas à prática contemporânea e à condição hermenêutica do praticante de
história intelectual. De maneira similar, Donald Kelley escreve que a "falácia
da intencionalidade" é uma noção que deveria ser restrita ao estudo de textos
literários, e que o estudo da recepção é inadequado ao ofício da história
intelectual, pois ele é primordialmente dirigido à análise de atributos
estéticos do texto, que, por sua vez, são marginais ao significado histórico
central que eles carregam. Kelley vai ainda mais longe ao afirmar que o estudo
da recepção objetiva somente um "enriquecimento do significado", o que redunda,
de fato, na criação de novos significados. Portanto, essa ferramenta
metodológica não deve ser empregada sem "qualificações" ao estudo de fontes
históricas e documentais. O autor conclui que a premissa da intenção autoral é
inevitável ' uma ficção necessária, no mínimo ' para as "histórias
disciplinares", como, por exemplo, a história da ciência ou a história do
pensamento político (a disciplina dos collingwoodianos par excellence) (Kelley,
1990).
Devemos, contudo, duvidar dos argumentos apresentados por esses adeptos da
abordagem collingwoodiana, uma vez que o estudo da fenomenologia do texto
mostra que a autoria relativa do texto em relação à intenção autoral original e
seu contexto é uma conseqüência inevitável da inscrição e, portanto, não tem
relação com o estilo mais ou menos literário desse mesmo texto. Em relação às
origens da teoria da recepção (Rezeptionslisthetik), deveríamos ser gratos aos
teóricos literários que chegaram a um refinamento metodológico tão produtivo em
uma época em que os historiadores do pensamento político estavam ainda falando
da "Grande Corrente do Ser" (The Great Chain of Being) e outras concepções
idealistas que os próprios collingwoodianos veementemente deploram. Ademais, a
atitude de qualificar como irrelevante as contribuições da teoria literária é
um tanto arrogante e imprudente, dado que, entre outras coisas, esses mesmos
teóricos têm acolhido os artigos de "historiadores disciplinares" como Quentin
Skinner em suas próprias publicações acadêmicas14.
Ao contrário do que Hollinger (1989:611) pensa, o estudo da recepção pode
constituir o centro da "condição hermenêutica do praticante da história
intelectual", como é o caso da Begriffsgeschichte alemã, que é, pelo menos
naquele país, uma "prática corrente" há cinco décadas. Mas as coisas estão
mudando, mesmo nos meios acadêmicos de fala inglesa. O contato recente entre
collingwoodianos e intelectuais ligados a Begriffgeschichte está fazendo
circular na academia anglófona algumas das contribuições disciplinares
germânicas. O esforço crucial de Melvin Richter (1990; 1995; 2001) em promover
esse encontro, tanto através de seus escritos sobre metodologia quanto de seus
trabalhos substantivos (Richter, 1997; 1999; 2000), tem demonstrado, entre
outras coisas, o quanto o estudo da recepção pode também se tornar uma "prática
corrente" na academia de fala inglesa, e por extrapolação, em outros meios
acadêmicos ainda presos aos rigores do historicismo.
IV
O uso que fizemos da fenomenologia do texto de Ricoeur tem a vantagem de
possibilitar uma crítica mais produtiva do projeto metodológico de Skinner. A
exposição das diferenças entre comunicação verbal e escrita serve não somente
para identificar um erro capital em Skinner, mas também para apontar para
outras possibilidades metodológicas, como a valorização do estudo da recepção
dos textos. Essas diferenças nos mostram que é exatamente porque estudamos
textos que não podemos sonhar com o resgate total de seus significados,
incluindo aí a intenção autoral. As conseqüências dessa constatação põem a
abordagem collingwoodiana em xeque, pois, uma vez que a autoridade do autor e
de seu contexto sobre a interpretação correta é desbancada, a necessidade de se
justificar uma dada interpretação retorna ao intérprete, que terá que lidar com
ela na linguagem do presente, ou melhor, em uma de suas linguagens. Contudo, é
exatamente no presente que a política existe como experiência vivida e
comunicação. Seja através de estratégias de conflito ou de entendimento
racional, as linguagens políticas do presente são continuamente empregadas na
reconstrução do passado e na projeção do futuro. Por conseqüência, uma
disciplina que se propõe a interpretar o pensamento político não pode evitar o
debate político do presente. Em suma, desistir do sonho do resgate total
significa assumir a politização da atividade interpretativa. Será que os
collingwoodianos estariam prontos para essa guinada?
NOTAS
1. O nome homenageia o filósofo britânico R. G. Collingwood. A alcunha original
dessa abordagem é "Escola de Cambridge", que faz referência à instituição
inglesa na qual ela se originou e onde trabalharam ou estudaram muitos de seus
adeptos.
2. Para frustração de seus interlocutores, o tão esperado livro de Skinner
sobre metodologia, recentemente publicado, é apenas uma coletânea de textos já
publicados anteriormente pelo autor.
3. Título de uma coleção da qual é editor.
4. No mesmo texto, Skinner já havia definido previamente significado3 como
aquele que corresponde àquilo que "o autor quer dizer (means) com aquilo que
ele diz (says) em seu trabalho". Ou seja, esse significado diz respeito à força
ilocucionária do ato. Note-se mais uma vez a mistura de termos relativos à fala
com aqueles próprios da escrita.
5. O novo interesse manifesto do autor por ideologias leva Skinner a concentrar
sua atenção sobre os esforços do autor em usar, adaptar e transformar
vocabulários e teorias convencionais (jogos de linguagem) com o objetivo de
justificar práticas sociais e comportamentos inovadores. Coerentemente, o
interesse de Skinner pelos usos instrumentais da linguagem levam-no a
revalorizar técnicas retóricas ' uma démarche posta em prática em seu mais
recente trabalho sobre a filosofia política de Thomas Hobbes (Skinner, 1996b).
6. Para Austin, essas convenções constituem o que ele chama de primeira
condição (A.1) para o sucesso (felicity) de um ato de fala: "Deve existir um
procedimento convencional aceito que tenha um determinado efeito convencional e
que implique a enunciação de certas palavras por certas pessoas em
circunstâncias estabelecidas" (ver Austin, 1962).
7. Ver Skinner (1975-1976:209-232).
8. Ver Taylor (1988). Maiores detalhes sobre as afinidades entre Taylor e
Gadamer no tocante à hermenêutica e à filosofia das ciências sociais encontram-
se em Gadamer (1975) e Taylor (1971). Taylor também usa da hermenêutica
gadameriana ' particularmente a noção de fusão de horizontes ' para tentar dar
uma resposta ao problema do reconhecimento de minorias em democracias modernas.
Ver, ainda, Taylor (1992).
9. Não é meu objetivo aqui explicar em detalhes os aspectos comuns e destoantes
da teoria de cada autor. Tal tarefa é levada a cabo pelo próprio autor em
Ricoeur (1981).
10. Apesar de similares na importância que dão à parole, as teorias de Gadamer
e Skinner diferem em muitos aspectos. Por exemplo, como já sugerido em minha
análise dos críticos gadamerianos, Gadamer rejeita a idéia da possibilidade do
resgate total do significado, algo que ele identifica na proposição de Dilthey
de se colocar no lugar do autor (Ricoeur, 1981).
11. Nas palavras do autor "O ato da fala, de acordo com Austin, é constituído
por uma hierarquia de atos subordinados que são distribuídos em três níveis:
(1) o nível do ato locucionário ou proposicional, o ato da fala, (2) o nível do
ato ilocunionário ou força ilocunionária, aquilo que fazemos ao falar (in
saying), e (3) o nível do ato perlocucionário, aquilo que fazemos por falar (by
saying)" (Ricoeur, 1981).
12. Ao contrário de Ricoeur, Gadamer defende que o significado e o dito nunca
podem ser equivalentes. O falante não pode ter total controle sobre o
significado do dito porque esse é necessariamente estruturado pela linguagem,
que, por seu turno, não pertence à consciência individual do falante mas à
coletividade.
13. "Word and world" no jogo de palavras em inglês. Ver Skinner (1979).
14. Reinhart Koselleck (1996) identifica a importância do estudo da recepção
dos conceitos na produção de uma narrativa diacrônica, em oposição ao
historicismo radical dos collingwoodianos. Em um primeiro momento, Skinner
aferrou-se a sua posição historicista para defender publicamente a
impossibilidade de uma história conceitual, argumentando que um conceito tem
uma existência única em uma obra de um determinado autor ' ver Richter e
Lehmann (1996) ou Skinner (1998). Recentemente, contudo, o autor parece ter
revisto sua posição anterior, passando a definir sua atividade acadêmica, e a
de seus colegas de Cambridge, como uma forma de história conceitual, mas
tomando o cuidado para resguardar o foco no uso de conceitos na argumentação,
ou seja, "naquilo que é feito com eles" (Skinner, 2005).
15. É irônico notar que um autor que cita Michel Foucault generosamente, como
Kelly, possa defender a intenção autoral como uma "ficção inevitável" para o
estudo de "histórias disciplinares" como as histórias da ciência e do
pensamento político. Ora, não seria o próprio Foucault um crítico acerbo da
idéia de intencionalidade autoral como fonte de significado para o entendimento
do texto. Foucault aponta para a intertextualidade, idéia que pode ser
interpretada como uma forma de recepção. Mas Kelly parece fazer vistas grossas
a essa questão.