Masculinização rural: uma abordagem a partir da regionalização por sistemas
agrários no Rio Grande do Sul
Introdução
Desde o final do século XX e no início do XXI, o espaço rural vem sendo cenário
prolífico de transformações, entre as quais estão aquelas que afetam seus
estratos populacionais. Alguns estudos que abordam a configuração da população
rural no Brasil, nas últimas décadas, apontam para o caráter de seletividade do
êxodo rural em várias regiões do país, ou seja, o fluxo predominante de jovens
e mulheres e a consequente intensificação dos processos de envelhecimento e de
masculinização da população que permanece no rural (CAMARANO; ABRAMOVAY, 1999;
ANJOS; CALDAS, 2005). A gravidade do processo de masculinização rural1 está nas
implicações da diminuição da presença feminina neste contexto social, o que
compromete a formação da família, supondo-se que as uniões apresentem homogamia
por local de residência e, provavelmente, a sucessão dos estabelecimentos, como
apontado por Bourdieu (2004) na França. Dessa forma, a sustentabilidade social
destes territórios pode ser comprometida, como indica Camarero (2009a) para o
caso da Espanha.
No Brasil, destaca-se o estudo de Camarano e Abramovay (1999), que utiliza
dados secundários para mostrar as características das grandes regiões
brasileiras em termos de demografia rural. Os autores demonstram que é
crescente a masculinização da população rural brasileira, principalmente entre
os jovens. Também se pode mencionar o trabalho de Anjos e Caldas (2005), no
qual o processo de modernização conservadora da agricultura é apontado como
responsável pela masculinização da população rural da Região Sul, apresentada
como a região com a população rural mais masculinizada do país.
Estes estudos são importantes, entretanto, não abordam uma questão fundamental
para a melhor compreensão do fenômeno da masculinização rural: o processo de
masculinização ocorre homogeneamente ou algumas regiões rurais são mais
masculinizadas do que outras? Caso haja diferenças, o que poderia ser cogitado
para explicá-las?
Na perspectiva de tratar estas questões, foi analisado o processo de
masculinização da população rural nos diferentes sistemas agrários2 do Estado
do Rio Grande do Sul, procurando interpretar suas eventuais particularidades e
distintas configurações. Especificamente, buscou-se avaliar a variação da razão
de sexo nos sistemas agrários do Rio Grande do Sul, entre 1950 e 2007,3 bem
como investigar os grupos de idade em que o processo de masculinização rural
concentra-se nas diferentes regiões gaúchas e interpretar as variações a partir
das características presentes nos diferentes sistemas agrários.
A seguir, são abordadas as principais referências teóricas da proposta do
trabalho e detalhados os procedimentos metodológicos realizados. Na sequência,
é apresentada a regionalização do Rio Grande do Sul em sistemas agrários.
Posteriormente é analisada a diferenciação da razão de sexo (RS) conforme o
sistema agrário e discute-se a influência da modernização agrícola no processo
de masculinização rural. Na penúltima seção trabalha-se a variação da RS
conforme a faixa etária da população rural e, por fim, são pontuadas algumas
considerações finais.
Considerações teóricas e metodológicas
Buscou-se na Teoria dos Sistemas Agrários (TSA) a base para a compreensão da
problemática apresentada anteriormente. Esta teoria também dá origem à
regionalização utilizada para a análise. Conforme Mazoyer e Roudart (2010,
p.71),
a teoria dos sistemas agrários é um instrumento intelectual que
permite apreender a complexidade de cada forma de agricultura e de
perceber, em grandes linhas, as transformações históricas e a
diferenciação geográfica das agriculturas humanas.
A TSA propõe o entendimento das formas de agriculturas como objetos complexos e
historicamente constituídos, que podem ser analisados como sistemas. Nesta
perspectiva sistêmica, o objeto de estudo, sistema agrário, é considerado
delimitado e formado por subsistemas interdependentes. Desta forma, para
estudar "a agricultura praticada em um momento e lugar", utilizando-
se a noção de sistema agrário, é preciso considerar o ecossistema cultivado e o
sistema social produtivo, bem como as suas inter-relações (MAZOYER; ROUDART,
2010). Com pequenas adaptações, a teoria também pode abranger as atividades não
agrícolas desenvolvidas no espaço rural, ampliando assim seu potencial de
análise sobre o complexo mundo rural contemporâneo.
Sistemas agrários expressam um arcabouço teórico que visa facilitar a
compreensão das relações sociopolíticas, culturais e tecnológicas que
ocorrem em um determinado ecossistema. Eles são a expressão de
decisões e ações técnicas de produção que se efetivam em espaços
territoriais e institucionais mais ou menos estruturados e
historicamente constituídos (FRANTZ; SILVA NETO, 2005b, p. 33).
O estudo da estrutura por idade e sexo da população é comumente utilizado na
demografia. Estas variáveis demográficas são especialmente importantes porque
determinam, em grande parte, a evolução da população quanto ao seu tamanho. Por
sua vez, a estrutura por sexo influi diretamente na formação de novos núcleos
familiares. Conforme Wolf (2011), a família tem importantes funções como
provisão econômica, socialização, troca de serviços sexuais e concessão de
afeto. Pode-se dizer, com base em Malinowski (1975), que esta instituição tem
papel fundamental nas diferentes sociedades, estando relacionada com a
reprodução e continuidade dos grupos humanos.
A razão de sexo é uma medida útil para comparar populações com diferentes
tamanhos quanto à sua estratificação para homens e mulheres (BERQUÓ, 1991).
Geralmente, se não houver interferências sociais ou biológicas, a razão de sexo
ao nascer indica um leve predomínio masculino, conforme Henry (1977), o que
varia ao longo das fases da vida e das diferentes realidades. Segundo Goldani
(1999), a razão decresce entre a população idosa, já que a expectativa de vida
feminina é maior do que a masculina.
Neste trabalho utilizaram-se dados de pesquisas realizadas pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os quais foram sistematizados e
submetidos a alguns testes estatísticos. Na análise, empregaram-se,
principalmente, os dados do Censo Demográfico de 1950 e da Contagem
Populacional de 2007. De forma complementar, também foram incluídas informações
dos Censos Demográficos de 1960, 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010. Os dados do
Censo de 1950, referentes à população rural do Rio Grande do Sul, foram
sistematizados por região, distrito,4 sexo e faixa etária (0-14 anos, 15-24,
25-59 e 60 ou mais anos). Já os dados da Contagem Populacional 20075 foram
agrupados por região,6 município, sexo e faixa etária. Calcularam-se as razões
de sexo (geral e por faixa etária) da população rural dos distritos, em 1950, e
dos municípios, em 2007. Também foram calculadas estas razões para as
populações rural e urbana do Rio Grande do Sul em 1950, 1960, 1970, 1980, 1991,
2000 e 2010.7 Para tanto, utilizou-se a fórmula RS=(H/M)*K, onde RS é a razão
de sexo; H corresponde ao número de homens; M é o número de mulheres e K
refere-se à constante, 100.
As razões de sexo da população rural de 1950 e 2007, agrupadas por regiões,
foram submetidas, inicialmente, ao Teste de Normalidade Lilliefors. A
distribuição dos escores, na maioria das vezes, não era normal. Foi escolhido,
então, um teste não paramétrico (o de Kruskal-Wallis) para verificar a variação
das razões entre as regiões. Este teste foi escolhido por possibilitar o
confronto entre três ou mais amostras independentes e desiguais (CARGNELUTTI
FILHO et al., 2001), em conformidade com a realidade dos dados a serem
testados. Além de aceitar dados não normais, ele também é mais adequado para os
casos de sistemas agrários com poucos municípios. Quando existiam diferenças
entre as regiões, empregou-se o método de comparações múltiplas de Kruskal-
Wallis para verificar quais delas diferiam estatisticamente entre si quanto às
razões de sexo, com um nível de significância de 95%.
Os sistemas agrários do Rio Grande do Sul
Conforme Frantz e Silva Neto (2005b), constituíram-se historicamente no Rio
Grande do Sul, inicialmente, dois sistemas agrários: o agrícola e o pastoril,
que predominavam, respectivamente, na região de floresta (metade norte do
Estado) e na região de campo (metade sul). Tais sistemas agrários
desenvolveram-se em períodos diferentes.8 Como não havia interesse de praticar
a pecuária extensiva nas áreas de floresta, estas foram utilizadas para
projetos de colonização no século XIX, desenvolvendo o sistema agrário
agrícola. A estrutura dual dos sistemas agrários gaúchos transforma-se aos
poucos, tornando-se mais complexa (FRANTZ; SILVA NETO, 2005b).
A partir da necessidade do estabelecimento de uma regionalização contemporânea
para o Rio Grande do Sul, Silva Neto (2005) faz uma proposta com base na
relação entre categoria social e agroecossistema. Para definir os limites entre
as regiões, foram utilizados indicativos sobre a predominância de categorias
sociais com a utilização dos dados do Censo Agropecuário do IBGE. Consideraram-
se a estrutura fundiária, o número de empregados permanentes, a quantidade de
arroz vendido, a quantidade de soja vendida, o número de máquinas para a
colheita e as condições fisiográficas. O resultado foi a formação de nove
regiões descritas a seguir.9
A região 1, Campanha, localiza-se no sudoeste gaúcho, apresentando relevo
plano, onde o solo tem formação basáltica, e relevo acidentado, onde o solo tem
formação sedimentar (Mapa_1). O campo é limpo e de bom rendimento forrageiro
nas áreas com presença de rochas basálticas. A região apresenta a maior
concentração fundiária do Estado. A pecuária extensiva domina a maior parte da
área, que também se caracteriza pela produção de arroz, em menor escala.

A Serra do Sudeste, região 2, tem relevo ondulado a fortemente ondulado, o que
dificulta a mecanização, apresentando solos geralmente pobres. A região tem a
pecuária como grande expressão, entretanto, a produção agropecuária é mais
diversificada do que na Campanha. A agricultura familiar10 tem uma importância
econômica maior nessa região, desenvolvendo sistemas de produção mais adaptados
à sua realidade. A menor concentração fundiária, entretanto, não esconde a
presença hegemônica dos estancieiros.
Na Depressão Central, região 3, predominam as grandes planícies e as
ondulações. Esse relevo, juntamente com a baixa produtividade da pecuária
extensiva, favoreceu o desenvolvimento da cultura do arroz irrigado. Essa é a
região onde mais se desenvolveu a orizicultura no Rio Grande do Sul.
As regiões 4 e 5, Litoral Norte e Litoral Sul, são marcadas pela altitude
inferior a 40m. A agropecuária no litoral gaúcho é pouco desenvolvida.
Destacam-se a produção de frutas tropicais no Litoral Norte, principalmente a
banana, e a orizicultura no Litoral Sul.
A região 6, Colônias Velhas, situa-se ao sul dos Campos de Cima da Serra. Ela
tem o relevo bastante acidentado e uma grande diversidade de solos. Nessa área
a agricultura familiar, que é amplamente hegemônica, apresenta o maior grau de
acumulação econômica do Estado. Também é a região com maior diversidade social
do Rio Grande do Sul.
Acima dessa área, no extremo nordeste do Rio Grande do Sul, fica a região 7,
dos Campos de Cima da Serra. Seus solos têm como característica a profundidade
e a baixa fertilidade natural. A pecuária extensiva é bastante representativa,
tendo baixa produtividade. Nas áreas de mata densa se faz a exploração
madeireira e, em alguns municípios, destaca-se a produção empresarial de frutas
de clima temperado, principalmente a maçã.
A região 8, Colônias Novas, está situada no norte e noroeste do Estado e se
caracteriza agroecologicamente por relevos ondulados e solos profundos, com
exceção do Médio e Alto Vale do Rio Uruguai, onde o relevo é acidentado e os
solos rasos. A agricultura familiar predomina na região, que tem grande
dependência da produção de soja. Assim, a agricultura é menos intensiva do que
a das Colônias Velhas e vem empobrecendo onde a estrutura fundiária está muito
fragmentada.
Por último, o Planalto, região 9, localiza-se entre Colônias Novas, Colônias
Velhas e Depressão Central. Seu relevo é ondulado e os solos são profundos e
pobres em nutrientes. Caracterizam a região as lavouras de grãos relativamente
extensas, principalmente soja, e o campo onde existe uma pecuária extensiva
pouco lucrativa. A estrutura fundiária é mais concentrada, com um número
considerável de empregados permanentes e um maior grau de mecanização do que as
regiões dominadas pela agricultura familiar.
Os sistemas agrários do Rio Grande do Sul apresentam diferentes graus de
intensidade de uso da terra. Em alguns deles, especialmente Campanha e Campos
de Cima da Serra, a produção agropecuária é tipicamente extensiva, com sistemas
de produção11 com baixíssimas contribuições marginais de valor agregado
(CMVA).12 O trabalho assalariado é muito representativo e a estrutura fundiária
bastante concentrada. Na Serra do Sudeste e Depressão Central, como nos
sistemas agrários anteriores, a pecuária extensiva predomina, mas a diversidade
dos sistemas de produção garante uma CMVA mais elevada. Entre os sistemas de
produção importantes estão os que trabalham com arroz, nos dois sistemas
agrários, e com fruticultura e olericultura, na Serra do Sudeste. No Planalto
também é representativa a pecuária extensiva, mas o destaque é a produção de
soja. A CMVA dos sistemas de produção do Planalto é maior do que a da Campanha
e Serra do Sudeste, mas ainda é bastante baixa quando comparada às das Colônias
(SILVA NETO; BASSO, 2005).
Os sistemas de produção das Colônias Novas são predominantemente familiares,
onde a soja é bastante importante. Os valores de CMVA são bem maiores do que os
das outras regiões já mencionadas, devido à presença significativa de sistemas
de produção de leite, suínos, aves e fumo. Nas Colônias Velhas e Litoral Norte
a agricultura familiar é característica. Esses sistemas agrários são os mais
intensivos na utilização da terra no Rio Grande do Sul, tendo a maior CMVA do
Estado. Destacam-se os sistemas de produção com base na fruticultura e
olericultura, leite, suínos e aves (SILVA NETO; BASSO, 2005).
Variações da razão de sexo nos sistemas agrários do Rio Grande do Sul
A partir de 1970 observa-se diminuição em termos absolutos na população rural
no Rio Grande do Sul em todas as regiões, conforme Frantz e Silva Neto (2005a).
Esta situação reflete as consequências de fatores como a redução das taxas de
fecundidade, a modernização da agricultura e o fechamento das fronteiras
agrícolas no Estado, como apontam os trabalhos de Camarano e Abramovay (1999),
Brumer (1996) e Berquó e Cavenaghi (2006). Conforme Frantz e Silva Neto
(2005a), entre 1950 e 1970, as Colônias continuavam mantendo a população rural
por meio do parcelamento das propriedades e da permanência de um ou dois filhos
casados na propriedade dos pais. Esta estratégia, entretanto, é alterada pela
modernização e especialização da agricultura.
Mesmo com a diminuição da população rural e o significativo crescimento da
população urbana no Rio Grande do Sul nas décadas posteriores a 1970, o
contingente rural ainda corresponde a um percentual considerável do total do
Estado, principalmente nas Colônias Novas, onde 40% dos habitantes viviam no
meio rural em 2000. Já Campanha e Litoral Sul são as regiões que mantinham os
menores percentuais de população rural em relação à urbana no mesmo ano, em
torno de 10% (FRANTZ; SILVA NETO, 2005a).
De forma geral, o processo de masculinização rural vem se intensificando
lentamente no Estado nas últimas décadas, conforme pode ser observado na Tabela
1. Segundo dados dos Censos Demográficos, a razão de sexo, que correspondia a
104,87 homens para cada 100 mulheres rurais em 1950, passou para 109,86 em
2010. Na Contagem Populacional de 2007, essa RS era de 110,57, sugerindo uma
leve redução entre 2007 e 2010. Entretanto, cabe lembrar que são duas pesquisas
diferentes. Provavelmente a proporção em 2007 tenha sido ligeiramente aumentada
em função de a população rural dos 12 municípios mais populosos do Estado não
ter sido contabilizada na pesquisa. Já a razão de sexo urbana sofreu uma
pequena redução entre 1950 e 2010, passando de 93,35 para 92,42.
[/img/revistas/rbepop/v30n2/a07tab01.jpg]
Em 1950, já havia oscilações na intensidade do processo de masculinização rural
conforme as regiões do Estado (Tabela_2). Campanha e Litoral Sul destoavam da
maioria das regiões quanto à razão de sexo. A primeira mostrava diferença
estatística com Depressão Central, Colônias Velhas, Colônias Novas e Planalto,
sendo que a mais expressiva se dava com Colônias Velhas. Litoral Sul
diferenciava-se dessas mesmas regiões, mas com intensidade menor. Já Serra do
Sudeste, Litoral Norte e Campos de Cima da Serra não diferiam de nenhuma outra
região.
[/img/revistas/rbepop/v30n2/a07tab02.jpg]
Entende-se que esta diferenciação é determinada, em grande parte, pelas
relações de produção estabelecidas no sistema agrário e pelo grau de
intensidade dos sistemas produtivos mais representativos. As regiões
caracterizadas pela pecuária, com forte presença das estâncias derivadas da
doação das sesmarias, têm a razão de sexo diferente daquelas onde a propriedade
da terra é mais fragmentada e a área é utilizada por descendentes de caboclos
ou de colonos europeus não ibéricos. O trabalho produtivo feminino é mais
necessário nas regiões onde a agricultura familiar é característica e onde são
representativos os sistemas de produção intensivos em mão de obra e terra. O
histórico destes sistemas de produção é marcado pelo trabalho de toda a
família, para 'dar conta do serviço', conforme Boni (2006) aponta
para o caso da bovinocultura de leite. Assim, a necessidade do trabalho
produtivo da mulher pode ter formado uma cultura de maior valorização dessa
atividade em relação ao contexto social e produtivo de outros sistemas
agrários. Este arranjo parece contribuir para a permanência de um percentual
representativo de mulheres e, consequentemente, para a manutenção de valores da
razão de sexo mais baixos em relação aos das demais regiões.
Foge dessa explicação, entretanto, a situação das regiões Serra do Sudeste e
Campos de Cima da Serra, que, mesmo sendo caracterizadas pela pecuária
extensiva, não se diferenciam das regiões com forte presença da agricultura
familiar quanto à razão de sexo. Nestes casos, mesmo havendo concentração de
terra, a existência de estabelecimentos familiares neste período pode ter
influenciado este resultado. Quanto ao Litoral Norte, não foram cogitadas
explicações para a não diferenciação com nenhuma outra região, cabendo estudos
específicos a respeito.
Já em 2007, apenas Litoral Norte não se diferencia de nenhuma outra região
quanto à razão de sexo da população rural total dos municípios, conforme pode
ser visto na Tabela_2. Campanha e Serra do Sudeste se diferenciam de Colônias
Velhas, Colônias Novas e Planalto. Litoral Sul apresenta diferenças bastante
significativas em relação a Colônias Velhas e Colônias Novas. Já os valores da
razão de sexo de Campos de Cima da Serra divergiam estatisticamente daqueles
encontrados para Colônias Velhas, Colônias Novas e Planalto. Os valores da
razão de sexo referentes a Colônias Velhas foram os que divergiram
estatisticamente do maior número de regiões (Campanha, Serra do Sudeste,
Depressão Central, Litoral Sul, Campos de Cima da Serra e Planalto).
As regiões onde a agricultura familiar é característica, sendo representativos
os sistemas de produção intensivos em mão de obra e terra, como os que envolvem
a bovinocultura de leite, a vitivinicultura e a fumicultura, bastante
representativos em Colônias Velhas e Colônias Novas, têm médias da razão de
sexo mais baixas (Tabela_3). Além destes sistemas produtivos, a presença
significativa de atividades não agrícolas também pode ser uma importante fonte
de trabalho para as mulheres rurais nestas regiões, o que pode estar
contribuindo para manter muitas delas no campo (STADUTO, 2009).
[/img/revistas/rbepop/v30n2/a07tab03.jpg]
As novidades em 2007 ficam por conta dos comportamentos de Serra do Sudeste,
Campos de Cima da Serra, Depressão Central e Planalto. Estas regiões,
diferentemente do que mostram os dados do Censo de 1950, apresentam diferenças,
por vezes significativas, em relação a Colônias Velhas e Colônias Novas. Para
as duas primeiras regiões, esse fato pode estar relacionado a um possível
incremento na pecuária extensiva, aumentando a concentração da terra. Já nos
casos de Depressão Central e Planalto, a influência pode ser da modernização
agrícola que ocorreu a partir da década de 1960. Atividades importantíssimas
para a dinâmica dessas regiões, como o cultivo de arroz e soja, diminuem
drasticamente a necessidade de mão de obra, passando a ocupar produtivamente
principalmente os homens, o que pode ter estimulado o êxodo rural feminino,
tornando as razões de sexo mais parecidas com as das regiões caracterizadas
pela pecuária extensiva.
As regiões de Campanha, Serra do Sudeste e Litoral Sul são as que registram as
maiores razões de sexo. Nestes sistemas agrários, o trabalho assalariado
relacionado à pecuária é bastante representativo, não sendo característico,
entretanto, o emprego de mão de obra feminina para o trabalho de campo. Além
disso, a pecuária extensiva na região tem forte vinculação histórico-cultural
com o trabalho produtivo calcado na figura masculina, o que pode ter
influenciado o papel das mulheres naquele contexto, também favorecendo o êxodo
rural feminino.
A modernização da agricultura também parece ter influências no processo de
masculinização rural. Como já comentado, algumas regiões dependentes de
culturas agrícolas que foram altamente tecnificadas, como Planalto e Depressão
Central, mostram razões de sexo da população rural bem mais altas em 2007 do
que em 1950,13 mostrando o predomínio de homens. Dadas a importância e a
polêmica da questão, optou-se por tratá-la separadamente.
Masculinização rural e modernização agrícola: qual relação?
Conforme Graziano da Silva (1982), o processo de modernização agrícola ocorrido
no Brasil a partir da década de 1960 não foi adequado à realidade do país. A
expectativa de incremento de produtividade da modernização, como forma de
conseguir altas rentabilidades, foi bem maior do que os resultados alcançados.
As consequências dessa modernização foram as concentrações de terra e de renda
no setor agrícola. As propriedades voltaram-se mais para o mercado e
especializaram a produção e até mesmo a concepção de produção, e a agricultura
se industrializou com o incentivo do Estado (GRAZIANO DA SILVA, 1982).
A diminuição da necessidade de mão de obra, que era abundante no espaço rural
brasileiro, na verdade beneficiou principalmente as grandes indústrias de
máquinas e insumos agrícolas e os bancos, excluindo muitas pessoas do processo
produtivo. O trator e o herbicida, por exemplo, substituem a junta de bois ou a
enxada no preparo do solo. Neste processo, a pessoa que dirige o trator passa a
dar conta do trabalho de várias outras e, geralmente, quem dirige o trator é um
homem. Assim, a mulher perde espaço nas atividades produtivas durante a
modernização, concentrando seu trabalho nas atividades do lar, vistas como
improdutivas, conforme Brumer (1996).
É comum a vários autores a ideia de que a modernização agrícola modifica o
papel da mulher na unidade produtiva, como pode ser visto em Magalhães (2009),
Brumer (1996), Panzutti (2006) e Anjos e Caldas (2005), supostamente
dispensando o trabalho feminino de seu caráter produtivo, o que favoreceria a
busca de trabalho e renda nas cidades. Porém, é necessário ponderar esta
assertiva, pois os resultados apresentados neste trabalho apontam para a
existência de uma relação parcial e indireta entre modernização agrícola e
masculinização rural (Tabelas_2 e 3). A modernização agrícola atingiu todas as
regiões gaúchas, embora o processo tenha ocorrido nelas com diferentes
intensidades. Regiões como Colônias Novas também vivenciaram esse processo por
meio da bovinocultura de leite, por exemplo.
A produção de leite, muito representativa para o caso das Colônias Novas,
transformou-se nas últimas décadas, passando a utilizar massivamente
equipamentos como a ordenhadeira mecânica e o resfriador a granel. Os animais
passaram também a ter uma genética apurada por meio da inseminação artificial.
O manejo sanitário é igualmente dependente de insumos externos à propriedade. A
produção torna-se mais dependente da agroindústria e do mercado. Apesar de ter
passado por esse processo de modernização, a produção de leite ainda possui
alta demanda de mão de obra, sendo que o trabalho continua tendo uma
característica feminina, ou sendo realizado por ambos os sexos, embora este
possa estar subordinado ao homem, conforme Magalhães (2009). Entende-se que
esta situação favoreça a permanência da mulher no campo, o que repercute nos
valores da razão de sexo. A região de Colônias Novas, inclusive, é a que
registra razões de sexo de 1950 e de 2007 mais semelhantes, sendo os menores
valores encontrados para o Rio Grande do Sul no último ano (Tabela_3).
Já na Depressão Central, onde os cultivos de arroz e soja são característicos,
os valores da RS de 2007 mostram-se consideravelmente maiores do que os de
1950, conforme pode ser visto na Tabela_3, sendo que em 2007 o comportamento é
semelhante ao das regiões caracterizadas pela pecuária extensiva e
estatisticamente diferente das Colônias Novas (Tabela_2). Uma possível
explicação para esta situação pode ser a drástica diminuição do grau de
intensidade de uso da terra e mão de obra na mecanização das culturas de arroz
e soja, interferindo diretamente no trabalho da mulher, que é separada das
atividades produtivas. Neste caso, há favorecimento ao êxodo rural feminino e,
consequentemente, ocorre aumento nas razões de sexo. Cabe ressaltar que, em
Colônias Novas, a produção de soja também é significativa, entretanto, a
presença marcante da produção leiteira e da agricultura familiar parece
explicar a manutenção dos valores relativamente baixos da RS nesta região.
Portanto, o que parece influenciar o incremento da masculinização não é o
processo de modernização diretamente, mas sim a diminuição drástica do grau de
intensidade de utilização da terra e da mão de obra, que acontece em algumas
atividades agropecuárias modernizadas. Assim, aponta-se para a redução do papel
produtivo da mulher e o favorecimento ao êxodo rural feminino, animado pela
busca de trabalho urbano, principalmente em algumas regiões, como consequência
desta conjuntura.
É importante mencionar o caso do Planalto gaúcho, onde a modernização agrícola
se fez bastante presente, principalmente nas culturas da soja e trigo,
diminuindo consideravelmente a necessidade de mão de obra. Nesta região,
entretanto, não são observadas diferenças expressivas entre as RS de 1950 e as
de 2007, nem a diferenciação estatística das regiões caracterizadas pela
agricultura familiar em 2007 (Tabelas_2 e 3). Uma explicação possível pode ser
a representativa presença da fumicultura em unidades produtivas familiares de
vários municípios da região, como Arroio do Tigre, onde o trabalho feminino se
faz necessário. Por outro lado, os altos valores da RS de Campanha e Serra do
Sudeste, em 2007, também podem ter sido influenciados pela significativa
produção do arroz, que se desenvolveu nessas regiões nas últimas décadas,
apresentando-se como uma cultura altamente tecnificada e costumeiramente
manejada por homens.
O processo de masculinização rural também varia conforme a faixa etária da
população. As especificidades de tais variações são abordadas a seguir.
A razão de sexo nas diferentes faixas etárias
O equilíbrio da proporção entre os sexos ao nascer e a tendência de residência
com os pais na infância contribuem para os baixos valores da razão de sexo
entre a população rural de 0 a 14 anos, o que é comum a todos os sistemas
agrários gaúchos em 2007, sem que haja diferenciação entre nenhum deles.
Já para o grupo jovem de 15 a 24 anos, a masculinização é bastante alta em
todos os sistemas agrários gaúchos. Há um crescimento representativo para todas
as regiões quando comparado à primeira faixa etária (Tabela_3). Não existe,
entretanto, diferenciação entre o comportamento da razão de sexo de cada
região. Este é um resultado importante, já que demonstra um significativo
predomínio masculino entre a população jovem em todas as realidades rurais do
Rio Grande do Sul. A tendência de maior escolaridade das jovens pode ser uma
das principais explicações para esta situação.14
O fenômeno de masculinização rural amplamente instalado na faixa etária de 15 a
24 anos pode repercutir em uma tendência geral de agravamento do processo no
futuro, uma vez que essa condição tende a ser repassada para a população
adulta, que hoje já está bastante masculinizada. Outra possibilidade é que
aconteça, com a passagem dos anos, um maior reequilíbrio entre os sexos, com a
migração dos homens solteiros, podendo provocar a formação de espaços vazios
entre as gerações, como relata Camarero et al. (2009b) para o caso espanhol.
Na maioria das regiões, o grupo populacional mais masculinizado é o adulto, de
25 a 59 anos, como pode ser visto na Tabela_3. Todavia, nas regiões Colônias
Novas, Campos de Cima da Serra, Colônias Velhas e Planalto o grupo jovem é o
mais masculinizado.
Para o estrato da população adulta já aparecem significativas divergências
estatísticas quanto ao comportamento da masculinização rural entre as regiões
analisadas. Campanha divergiu de Litoral Norte, Colônias Velhas, Colônias Novas
e Planalto. Serra do Sudeste também apresentou diferença destas mesmas regiões.
Depressão Central diferiu de Colônias Novas e Planalto. A região Colônias Novas
também diferiu de Litoral Sul, Colônias Velhas e Campos de Cima da Serra. Este
comportamento, na maior parte, já era esperado, pois foi de acordo com o
resultado dos dados da população rural total, já trabalhados. Eles reforçam a
existência de relação entre características do sistema agrário e o processo de
masculinização rural.
Porém, a existência de diferença estatística dos valores da razão de sexo entre
Colônias Velhas e Colônias Novas, para esse grupo de idade, com a maior média
da RS na primeira região, foi algo surpreendente. Uma possível explicação para
este fato pode ser dada pelas características dos empregos urbanos em Colônias
Velhas, "mais femininos" (como nas indústrias de calçados). Assim,
haveria maior demanda de trabalho feminino nas cidades desta região, animando o
êxodo das mulheres rurais, processo que, todavia, merece ser mais bem
investigado.
Quando não está integrada às atividades produtivas, geralmente nos sistemas de
produção extensivos, a mulher de origem rural pode residir na cidade com os
filhos, buscando trabalho nesse contexto. Em alguns sistemas de produção
extensivos ou mecanizados, essa situação é bastante comum. Com relação aos
empregados (peões), em regiões de forte presença da pecuária extensiva, é
frequente o caso de solteiros que residem na propriedade do patrão,
disseminando a figura do "solteirão" ou celibatário. Embora também
exista na agricultura familiar, essa situação é bem mais comum na agricultura
empresarial patronal, onde as mulheres se mantêm mais afastadas da produção.
Entre a população idosa houve comportamentos bem diferenciados. As regiões
Colônias Velhas e Colônias Novas apresentaram leve predomínio de mulheres, com
razões de sexo médias de, respectivamente, 93,46 e 97,09, o que está de acordo
com a maior expectativa de vida feminina. A região Litoral Norte mostra uma
proporção entre sexos praticamente igual, mas todas as outras regiões
registraram predomínio masculino. Nos casos de Campanha, Litoral Sul e Campos
de Cima da Serra, a magnitude da diferença é tanta que ultrapassa as razões de
sexo médias da população jovem e adulta (Tabela_3). A região Serra do Sudeste
também apresentou índice médio bastante alto, embora não seja maior do que o da
população adulta. Desta forma, entre a população rural idosa, acentua-se a
relação entre o sistema agrário e a masculinização, configurando-se três
comportamentos diferenciados: predomínio moderado de mulheres nas regiões de
agricultura familiar; predomínio moderado de homens nas regiões de agricultura
mecanizada; e predomínio intenso de homens nas regiões de pecuária extensiva.
É comum que após a aposentadoria rural, alcançada aos 55 anos pela trabalhadora
e aos 60 anos pelo trabalhador, o casal sem sucessor diminua consideravelmente
a produção comercializada. Entretanto, dificilmente a produção agropecuária é
totalmente abandonada, principalmente nos primeiros anos após o início do
recebimento do benefício e nos casos de inexistência de doenças graves. Assim,
entende-se que continua a haver neste grupo a influência do processo produtivo
sobre os valores da razão de sexo.
Nas atividades intensivas em mão de obra, como a fumicultura ou a pecuária de
leite, o trabalho da idosa na unidade produtiva é muitas vezes importantíssimo,
seja diretamente nestas atividades, seja no cuidado das crianças e da casa,
preparando a alimentação para que as outras pessoas possam se dedicar
integralmente às atividades produtivas. Geralmente, as regiões onde sistemas
produtivos com essas atividades são representativos são mais povoadas do que as
de pecuária extensiva, existindo uma infraestrutura que oferece postos de saúde
relativamente próximos às unidades produtivas, o que pode estar favorecendo a
permanência de idosos.
Assim, nesta faixa etária, os valores da RS da região Colônias Velhas
diferenciaram-se das outras regiões, com exceção de Colônias Novas. Já esta
última região mostrou diferença com relação a Campanha, Serra do Sudeste,
Depressão Central, Litoral Sul, Campos de Cima da Serra e Planalto, conforme
pode ser visto na Tabela_2. A região Litoral Norte registrou praticamente uma
igualdade entre os sexos.15 As regiões Depressão Central e Planalto
diferenciam-se de Colônias Novas e Colônias Velhas, já que apresentam
predomínio masculino para a população idosa, mas possuem valores da RS bem
menores do que os das regiões características da pecuária, 111,06 e 108,25
respectivamente.
Considerações finais
A principal contribuição deste trabalho foi a de apontar para a existência de
fortes indícios que vinculam a maior ou menor magnitude do processo de
masculinização da população rural com dadas características dos sistemas
agrários regionais. Mostrou-se, a partir da realidade do Rio Grande do Sul, que
a masculinização rural não é um processo homogêneo, variando conforme a região
e a faixa etária.
Assim, para 2007, os resultados mostram a recorrência dos maiores valores de
razão de sexo nas regiões caracterizadas pela pecuária de corte extensiva, em
contraste com a recorrência dos menores valores nas regiões que se caracterizam
pela forte presença da agricultura familiar, bem como a posição intermediária
das RS nas regiões Depressão Central e Planalto. Interpretam-se estas
configurações a partir de características dos sistemas agrários, como a
importância socioeconômica da agricultura familiar, ou, ainda, a intensificação
dos principais sistemas de produção.
Além disso, aponta-se para a existência de relação indireta entre a
modernização da agricultura e a intensidade da masculinização rural, a partir
da diminuição drástica do grau de intensidade de utilização da terra e da mão
de obra, que ocorreu em algumas atividades agropecuárias modernizadas. Ao se
abordar a masculinização rural por faixas etárias, também foi possível
constatar que o processo só não é recorrente na faixa etária de 0 a 14 anos,
mas, entre os jovens (15 a 24 anos), apresenta-se intenso em todas as regiões.
Diante das especificidades do processo de masculinização rural em cada sistema
agrário do Rio Grande do Sul, indica-se a necessidade de promoção de ações que
guardem mais estreitas relações com os contextos regionais. Nesse sentido,
entende-se que o Estado precisa agir, estimulando um contexto mais propício à
permanência e ao trabalho da mulher rural, combatendo assim a masculinização
rural.
Por fim, sugere-se a continuidade de estudos nesta linha temática, que busquem
melhor elucidar as vinculações do processo de masculinização rural com as
realidades regionais, sejam estas baseadas em regionalizações assentadas na
abordagem dos sistemas agrários ou em outras pertinentes. De forma específica,
pode ser importante investigar qualitativamente os aspectos particulares que
condicionam a inserção da mulher rural e do trabalho feminino em cada região.