Padrões de casamento dos imigrantes brasileiros residentes em Portugal
Introdução
A integração dos imigrantes tem merecido a atenção dos investigadores europeus,
desde as últimas décadas do século 20. Dos vários estudos desenvolvidos
ressaltam algumas grandes temáticas: a questão da integração dos imigrantes no
mercado de trabalho e sua relação com os problemas do emprego e dos salários
(ZIMMERMANN, 2005; FURTADO; THEODOROPOULOS, 2009); as questões decorrentes da
segregação residencial/espacial, em particular no que se refere às suas
consequências em termos de educação e integração cultural dos imigrantes
(SCHONWALDER, 2007); as alterações demográficas relacionadas com a integração
dos imigrantes, em termos de fecundidade (ANDERSSON; SCOTT, 2005) e de saúde
(MCGEE et al., 1999; LINDSTROM et al., 2001; SUNDQUIST, 2001); e, mais
recentemente, os casamentos mistos entre os imigrantes e os naturais do país de
acolhimento como indicador da integração desses imigrantes nas sociedades
europeias (MENG; GREGORY, 2005; FURTADO, 2006; FURTADO; THEODOROPOULOS, 2008;
DRIBE; LUNDH, 2008; MUTTARAK; HEATH, 2010).
De um ponto de vista sociológico, podemos entender os padrões de casamento
existentes em determinada sociedade como indicadores dos padrões de interação
social presentes nessa mesma sociedade. Um nível elevado de casamentos mistos
indicia a existência de interações que atravessam fronteiras (nacionais,
culturais, linguísticas, econômicas, etc.) e é típico de uma sociedade que se
caracteriza pela abertura ao exterior; de forma contrária, um baixo nível de
casamentos mistos remete para o seu fechamento (ALBA; GOLDEN, 1986; KALMIJN,
1998; LIEBERSON; WATERS, 1986; PAGNINI; MORGAN, 1990). Para além de um
indicador da integração dos imigrantes na sociedade de acolhimento, os
casamentos mistos potenciam interações que podem, elas próprias, promover essa
integração (LIEBERSON; Waters, 1986; KANTAREVIC, 2004; MENG; GREGORY, 2005).
Muitos dos estudos que abordam as questões relacionadas com a integração dos
imigrantes, e em particular os casamentos mistos, têm origem na realidade de
países que são tradicionalmente de imigração, como os Estados Unidos ou o
Canadá (BLAU et al., 1982; ANDERSON; SAENZ, 1994; HWANG et al., 1997; PAGNINI;
MORGAN, 1990; QIAN; LICHTER, 2001; JACOBS; LABOV, 2002; LICHTER et al., 2007,
para citar apenas alguns). Na Europa, e em especial em Portugal e Espanha (onde
o fenômeno da imigração é relativamente jovem), esta temática tem sido menos
abordada. Por outro lado, vários autores mostraram já que os padrões de
imigração e de integração dos imigrantes nos EUA e na Europa são diferentes
(ROTTE; STEIN, 2002; ZIMMERMANN, 2005). Assim, tirar conclusões acerca do
impacto da integração de imigrantes na Europa a partir dos resultados
americanos pode ser, no mínimo, suscetível de questionamento, sendo óbvia a
necessidade de estudos centrados na realidade europeia.
Assumindo a integração enquanto processo que ocorre ao longo da história de um
país, a análise não pode ser limitada a um momento no tempo, tornando-se
crucial a análise diacrônica (permitindo avaliar as mudanças ao longo do
tempo). Assim, neste artigo, será feita uma análise quantitativa de casamentos,
com base nos dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística
(INE) para o período 2001-2009. Pretende-se com esta pesquisa determinar as
características dos imigrantes brasileiros que se casaram em Portugal neste
período, bem como os aspectos desses casamentos, contribuindo, dessa forma,
para o conhecimento da realidade europeia no que se refere à possível relação
entre casamentos mistos e integração dos imigrantes (neste caso específico, dos
imigrantes brasileiros em Portugal).
Atendendo a que a nossa análise incide sobre os microdados referentes a todos
os casamentos realizados em Portugal entre 2001 e 2009, disponibilizados pelo
INE, teremos de nos cingir às variáveis por ele colectadas no momento do
casamento. Por meio dos instrumentos da estatística descritiva, iremos, por um
lado, desenhar o perfil dos brasileiros que se casaram em Portugal, entre 2001
e 2009, dos seus cônjuges e dos próprios casamentos e, por outro, analisar sua
evolução.
Este trabalho está dividido em cinco partes. A primeira trata de algumas
questões teóricas acerca da integração dos imigrantes e da sua relação com os
casamentos mistos. Em seguida, é contextualizada a questão da imigração em
Portugal, à luz de algumas transformações históricas e legislativas.
Posteriormente, descrevem-se as tendências recentes da imigração em Portugal e
analisa-se o perfil dos casamentos nos quais os imigrantes brasileiros estão
envolvidos, descrevendo as características destas uniões e dos dois cônjuges.
Por fim, são apresentadas e discutidas as principais conclusões.
Enquadramento teórico
A imigração aumentou e com ela cresceram também os estudos relacionados com a
integração dos imigrantes. Não se pretende aqui fazer uma revisão crítica
exaustiva das correntes teóricas que têm servido de suporte a estes estudos,
mas apenas realçar alguns conteúdos que deverão ser tidos em conta na
construção de uma nova visão sobre integração.
Durante muito tempo, na análise das questões da imigração, predominou a
perspectiva da sociedade de acolhimento, sendo a imigração entendida como um
meio ao qual se recorria conforme as necessidades conjunturais, com vista a
manter o equilíbrio e a ordem econômica e social vigentes (FERREIRA; RATO,
2000). Nesta ordem de ideias, a integração dos imigrantes implicava
necessariamente uma adaptação à sociedade de destino, por meio da assimilação
dos valores, regras, atitudes e comportamentos característicos dessa sociedade.
Dentro desta abordagem, em termos teóricos, a teoria da assimilação foi o
enquadramento preferencial para explicar a integração e possível assimilação
(entendida como o grau máximo de integração) dos imigrantes nas sociedades de
acolhimento (ALBA; GOLDEN, 1986; ALBA; NEE, 2003; LIEBERSON; WATERS, 1988;
PAGNINI; MORGAN, 1990).
De acordo com a teoria assimilacionista clássica, a submissão à ordem social
existente no país de acolhimento é uma das condições de sucesso para a
integração dos imigrantes. A integração é entendida como um processo durante o
qual o imigrante rompe com os seus valores e estilos de vida e que culmina
(quando bem-sucedido) com a partilha da história, dos valores e padrões
culturais, bem como das condutas sociais dominantes da sociedade de destino
(ALBA; NEE, 1997).
Segundo esta teoria, os aspetos culturais e socioeconômicos que caracterizam os
imigrantes e que constituem potenciais barreiras aos casamentos mistos vão se
esbatendo ao longo do processo de integração, o qual inclui não apenas a adoção
dos padrões culturais do grupo de acolhimento (aculturação), mas também a
aquisição de um estatuto socioeconômico que lhe seja comparável (integração
estrutural). Para Gordon (1964), o processo fica completo quando não existem
diferenças percebidas entre o grupo imigrante e o grupo que o acolhe. À medida
que a integração favorece o contato com outros grupos, potencia a propensão
para o casamento exogâmico, o qual é visto, então, como um resultado lógico do
processo de integração.
Se a integração é um processo, o tempo de adaptação dos imigrantes tem papel
fulcral neste modelo de assimilação. A ideia-base é a de que, ao longo do
tempo, as características individuais vão se esbatendo porque os indivíduos vão
adquirindo competências (entre as quais linguísticas), conhecimentos e códigos
de conduta da sociedade de acolhimento que lhes permitem a integração nos
mercados de trabalho e habitacional (DRIBE; LUNDH, 2010). Dado que este atenuar
das características individuais leva tempo, será mais provável a ocorrência de
casamentos mistos, quanto maior for o tempo de residência do migrante no país
de destino. Dribe e Lundh (2010) argumentam ainda que quanto mais semelhantes
forem os imigrantes, em termos de estatuto socioeconômico e de rendimento, ao
grupo maioritário, maior é a probabilidade de se realizarem casamentos mistos.1
O sistema educacional, ao promover normas universais e democráticas, para
nativos e imigrantes, atua neste processo como um fator promotor da quebra de
barreiras (GORDON, 1964; LIEBERSON; WATERS, 1988; KALMIJN, 1998; HWANG et al.,
1997). Por outro lado, ao se exporem os imigrantes a diferentes culturas,
promovendo a interação com outros grupos (FURTADO, 2006; FURTADO;
THEODOROPOULOS, 2008), constitui-se também um espaço para o mercado
matrimonial, em que jovens de diferentes etnias se encontram (BLAU, 1977; BLAU;
SCHWARTZ, 1984; GULLICKSON, 2006a, 2006b ).
A perspetiva assimilacionista clássica, para a qual a integração bem-sucedida
dos imigrantes surgia associada à ideia de homogeneização (isto é, do abandono
dos seus valores e modos de vida), foi sucessivamente criticada e "reformulada"
por Sandberg (1974) e Massey (1985), surgindo uma variante desta teoria: a
teoria da assimilação segmentada, segundo a qual as sociedades modernas são
diversas e segmentadas (GONSOULIN; FU, 2010; LUCASSEN; LAARMAN, 2009; PORTES et
al., 2005; FURTADO, 2006, PORTES; ZHOU, 1993, 1997, entre outros).
A presença de percursos e trajetórias distintas leva diversos autores à
conclusão de que a assimilação, longe de poder ser vista como um processo
uniforme, tem de ser entendida como resultado de dificuldades socioeconômicas
encontradas pelos imigrantes e seus descendentes, no âmbito das quais coexistem
diferentes estratégias de adaptação à sociedade de acolhimento, dependentes de
fatores individuais (por exemplo, educação, aspiração ou idade de chegada) e
estruturais (como o estatuto racial, o contexto familiar, socioeconômico ou
local de residência). Neste processo, não é de menor importância, segundo
Massey (1985), a influência da segregação espacial e residencial na integração
dos estrangeiros.
De acordo com esta teoria, a assimilação dar-se-ia em graus diferentes: alguns
imigrantes seriam totalmente assimilados, outros sê-lo-iam parcialmente e
outros não o seriam nunca. A assimilação far-se-ia também distintamente nas
suas diversas componentes: cultural, estrutural e conjugal. A forma como os
imigrantes vão se integrar e se ajustar à sociedade de acolhimento dependerá,
de acordo com esta teoria, de três tipos de condicionantes: as variáveis
individuais, referentes aos fatores de exposição à sociedade de acolhimento,
designadamente a capacidade de falar a língua, a idade à chegada, o local de
nascimento, o tempo de residência no país, entre outras; as variáveis
familiares, que se referem ao capital social e econômico detido pelos pais; e
as variáveis contextuais, que dizem respeito à diversidade encontrada na
sociedade de chegada, como sejam as diferentes políticas governamentais e os
valores e preconceitos diversos da sociedade de acolhimento (PORTES; ZHOU,
1993; DRIBE; LUNDH, 2008; CHISWICK; HOUSEWORTH, 2010). Em suma, é a visão da
assimilação enquanto um processo segmentado.
Portes e Rumbaut (2001), argumentando que os Estados Unidos oferecem uma
assimilação segmentada, analisam os fatores que determinam a aceitação dos
imigrantes pela sociedade americana: a história da primeira geração de
imigrantes; o ritmo de aculturação entre pais e filhos e sua influência na
integração das normas; as barreiras culturais e econômicas com que se
confrontam os jovens da segunda geração na busca de uma adaptação bem-sucedida;
e os recursos da família e da comunidade para enfrentarem tais barreiras.
Para a teoria da assimilação segmentada, as diferenças culturais dos imigrantes
teriam como elemento mediador importante, na sociedade de acolhimento, as redes
de apoio familiares, de amizade ou baseadas na identidade cultural. Para esta
teoria, e ao invés do que preconizava a teoria clássica da assimilação, a
proximidade dos imigrantes a grupos pertencentes ao meio cultural de origem não
é necessariamente prejudicial, podendo mesmo ter papel importante de suporte,
enquanto capital social, para alterar as condições socioeconômicas.
O fato de existirem redes próximas do ponto de vista cultural e com diferentes
níveis de integração em face da sociedade receptora é considerado benéfico para
a integração dos imigrantes. Por outro lado, a existência de segregação
espacial, no sentido de uma alta concentração de imigrantes com uma mesma
origem étnica num mesmo território, poderá não ser benigna, na medida em que
potencia menores taxas de exogamia e uma maior propensão para perpetuar a
diferença entre a sociedade de origem e a de acolhimento, permitindo o
aparecimento de situações de desrespeito e conflito (PALRIWALA; UBEROI, 2008).
Para a teoria da assimilação segmentada existem basicamente três formas de
integração: a assimilação do grupo minoritário pelo grupo maioritário; a união
de grupos minoritários, com separação da sociedade de acolhimento; e, por
último, a recusa de integração na sociedade de acolhimento e a preservação dos
valores e atitudes da comunidade minoritária. Estas diferentes formas de
integração refletem-se, obviamente, nas estratégias de casamento. Os imigrantes
podem escolher um parceiro da comunidade de acolhimento, de outra comunidade de
imigrantes ou do seu próprio grupo.
Igualmente importante para a análise dos casamentos mistos é a teoria da troca
(MERTON, 1941; KALMIJN, 1998), de acordo com a qual são razões econômicas que
estão na base da escolha de um parceiro. O casamento é um intercâmbio (de
recursos emocionais, simbólicos e materiais), uma troca decidida após avaliação
racional de vantagens e desvantagens. Assim, indivíduos de grupos minoritários
podem usar seu estatuto socioeconômico (por exemplo, a educação) como um
elemento de troca para compensar possíveis desvantagens decorrentes da sua
origem racial ou étnica. Se alguns estudos têm fornecido dados empíricos que
suportam esta teoria, nomeadamente quando em causa estão casamentos entre
indivíduos de raça branca e negra nos EUA (KALMIJN, 1993; QIAN, 1997;
GULLICKSON, 2006), estudos com outros grupos étnicos, como, por exemplo,
asiáticos, têm conduzido a conclusões diferentes (HWANG et al., 1995; QIAN et
al., 1999; JACOBS; LABOV, 2002).
Para a teoria da estratificação social, há que ter em conta também a estrutura
demográfica e socioeconômica quando se analisam os casamentos mistos. A
dimensão do grupo minoritário, a disponibilidade de parceiros dentro do grupo e
o grau de heterogeneidade racial, socioeconômica e residencial deverão ser
fatores considerados na análise da propensão à exogamia (BLAU, 1977; BLAU et
al., 1982; SOUTH; MESSNER, 1986, RYTINA et al., 1988).
A partir dos anos 1990, surgem também os chamados movimentos
multiculturalistas, que aceitam e legitimam a especificidade cultural e social
das minorias, defendendo que a plena integração na sociedade de acolhimento é
possível sem que os imigrantes percam sua especificidade, sua identidade
(TAYLOR, 1998). Uma destas correntes, o multiculturalismo da diferença, no
entender de Green (2006), é uma redefinição da assimilação; ou, como ele
próprio menciona, "uma assimilação leve", cuja característica principal é a
possibilidade de integração dos imigrantes a longo prazo sem que haja um apagar
das diferenças.
As teses multiculturalistas vieram retomar algumas questões, nomeadamente o
conteúdo do termo assimilação ' que pode ser integração, inserção ou inclusão
', a necessidade de analiticamente incorporar a dimensão tempo e a importância
(até mesmo desejabilidade, porque valiosas para as sociedades) das diferenças
culturais.
É neste contexto ' em que, apesar das suas diferenças, tal como afirma Kalmijn
(1998), todos os estudos coincidem na visão da exogamia (ou casamentos mistos)
como um indicador da interação entre diferentes grupos sociais e como um
indicador de aceitação social da diferença ' que serão analisados, neste
artigo, os padrões de casamento da comunidade brasileira em Portugal. Ou seja,
os casamentos são aqui vistos como um indicador de integração, entendida esta
não como homogeneização e absorção dos imigrantes pela sociedade de
acolhimento, mas sim como um processo que dura toda a vida e que diz respeito à
identidade dos indivíduos.
A integração dos imigrantes não só depende da vontade política dos governantes
e das políticas públicas produzidas e postas em prática (em que, por exemplo, a
obtenção da cidadania pode ser um instrumento importante), mas também é o
resultado da interação de ideologias e preconceitos entre o grupo imigrante e
aquele que o acolhe. A integração é, neste sentido, um processo bidirecional:
cada indivíduo tem sua própria percepção da situação de integração, que é
sucessivamente reinterpretada e reinventada no decurso da sua vida.
Esta integração não envolve apenas o indivíduo, mas também a sociedade no seu
todo e tem implicações em diversas questões, como a não discriminação e a
inclusão das diferenças, a abertura a novas relações e comportamentos, a
prevenção de situações de marginalização, a interação positiva entre imigrantes
e os elementos da sociedade de acolhimento, entre outras. Neste sentido, as
várias correntes teóricas aqui apresentadas são todas elas, por si só,
insuficientes para analisar e interpretar o fenômeno da integração dos
imigrantes. Todavia, todas elas foram importantes pelos avanços que
possibilitaram nesta mesma análise e interpretação.
Na nossa perspectiva, a integração tem de ser entendida como um processo de
gestão de determinada realidade social, um processo bidirecional, que visa
salvaguardar a diversidade dos seus elementos e simultaneamente sua unidade,
algo que não ocorre em uma só vez, mas que passa pela interação permanente no
seio da sociedade de acolhimento.
Neste sentido, os casamentos mistos, representando a forma mais íntima de
interação, são por nós entendidos como um indicador (obviamente não o único) da
integração dos imigrantes brasileiros em Portugal. Nas páginas que se seguem,
argumentar-se-á que, no caso desta comunidade, a assimilação marital ' uma das
componentes da assimilação tal como definida por Gordon (1964) ' está presente
em Portugal e constitui um indício da integração dos brasileiros residentes
neste país.
Contextualização da imigração em Portugal
Ao longo da sua história, Portugal passou por fases distintas no que se refere
aos fluxos migratórios,2 os quais ocorreram em estreita ligação com
acontecimentos marcantes na vida do país, por um lado, e com alterações
legislativas importantes, por outro.
Como é amplamente conhecido, Portugal foi durante séculos um país de emigração.
Com efeito, pode-se falar em imigração desde os Descobrimentos, tendo como
destinos principais, nos séculos XV e XVI, Marrocos, Açores, Madeira, São Tomé,
Cabo Verde e Canárias e, posteriormente, com a descoberta do caminho marítimo
para a Índia, o Oriente. Já em meados do século XVI, o Brasil tornou-se o
principal destino e assim se manteve até meados do século XX, altura em que
outras paragens começaram a ser procuradas. Entre estas, há que se destacar a
emigração, a partir de finais dos anos 1950, em direção a alguns países
europeus, como França (com particular destaque), Alemanha, Bélgica, Holanda,
Luxemburgo e Suíça, bem como em direção às antigas colônias portuguesas na
África (Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, etc.). Até a década de 1960, os
fluxos migratórios registraram sempre um saldo negativo. Este perfil de país
marcadamente emigratório não é, aliás, exclusivo de Portugal. Também na vizinha
Espanha encontramos uma situação semelhante (CORTINA; ESTEVE; DOMINGO, 2007;
MASANET; PADILLA, 2010; RIPOLL, 2008).
No último quarto do século XX, a situação alterou-se substancialmente e o
fenômeno da imigração assumiu, em Portugal, uma importância crescente, em
especial no período pós-revolução de 25 de abril de 1974, passando de país de
emigração para um país de imigração (INE ' Estatísticas Demográficas; PORDATA,
Serviços de Estrangeiros e Fronteiras ' Estatísticas). Com a independência dos
atuais países africanos de língua oficial portuguesa (Palop), na sequência da
revolução, assiste-se à vinda em massa para Portugal de cidadãos provenientes
daqueles países. Ao regressarem, estes cidadãos nascidos nas antigas colônias e
também muitos daqueles que anteriormente à ida eram cidadãos nacionais,
regressaram com o estatuto de "estrangeiros". Assim, no início dos anos 1980,
registrou-se um aumento sem precedentes do número de estrangeiros residentes em
Portugal, movimento este decorrente do processo de descolonização. Só com a
nova Lei da Nacionalidade em 1981, estes cidadãos passaram a ter acesso à
nacionalidade portuguesa, sendo até então considerados estrangeiros residentes
em Portugal (SEF, 2006).
Segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras ' SEF (2009), o número de
estrangeiros residentes3 em Portugal duplicou numa década, passando de 50.750,
em 1980, para 107.767, em 1990. Durante a década de 1990 consolidou-se a
presença das comunidades estrangeiras residentes em Portugal, com destaque
especial para aquelas oriundas dos países africanos de expressão portuguesa e
do Brasil. Com a Regularização Extraordinária de 1992,4 a população estrangeira
residente em Portugal, que tinha crescido até então a uma média anual de 5%,
registrou, em 1993 e 1994, um crescimento de 8% e 10%, respetivamente.
O processo migratório ocorrido até ao fim do século passado está muito marcado
por um predomínio de imigrantes provenientes das antigas colônias portuguesas,
de todos os grupos etários, portadores de títulos de residência e que se
beneficiaram do reagrupamento familiar, para ascendentes e descendentes (SEF,
2009).
Durante a primeira década do século XXI, a comunidade brasileira aumentou sua
implantação e assistiu-se, por outro lado, ao surgimento de novos fluxos
migratórios vindos do leste europeu, em especial da Ucrânia; neste período
assumiram particular importância os beneficiários de regimes de regularização
extraordinários ou equiparados, sendo igualmente importante o reagrupamento
familiar, mas agora direcionado para cônjuges e descendentes (SEF, 2009; PIRES
2002). Em 2010, o SEF (2010) indicou a existência de 445.262 estrangeiros
residentes em Portugal, dos quais mais de ¼ proveniente do Brasil.5
Estas mudanças surgem, como é evidente, enquadradas por alterações legislativas
favoráveis à obtenção de títulos de residência6 e que alargam o conceito de
estrangeiro residente em Portugal.7
A partir de 2001, no total da população estrangeira residente em Portugal,
incluem-se todos aqueles com autorizações de residência, bem como os com
autorização de permanência (que decorridos cinco anos facultava o acesso à
autorização de residência) ou prorrogação de autorização de permanência,8 o que
tem como consequência direta um aumento acentuado em termos estatísticos dos
estrangeiros em território nacional. Com efeito, o aumento registrado entre
2000 e 2001 que, à luz da nova legislação, é de 69,0%, seria de apenas 7,9% se
fossem considerados estrangeiros residentes em Portugal apenas os portadores de
autorização de residência.
Em 2005, com o objetivo de espelhar cada vez mais a realidade dos cidadãos
estrangeiros que permanecem de uma forma duradoura no país, o conceito de
estrangeiro residente em Portugal alargou-se ainda mais e passou a englobar os
portadores de vistos de longa duração.
No caso da comunidade brasileira, há ainda a destacar alguns aspetos (para além
das Regularizações Extraordinárias que beneficiaram todos os imigrantes) que
podem explicar a atração por Portugal, em particular a não necessidade de visto
de entrada e o chamado "Acordo Lula" (PADILLA, 2005). Este último, um acordo
bilateral destinado a facilitar a contratação de brasileiros em Portugal e de
portugueses no Brasil, assinado em 2003 e que começou a ser implementado em
2004, permitia a legalização dos brasileiros recém-chegados (entre 2001 e 2003)
e daqueles que não tinham conseguido o título de residência no processo de
regularização anterior (SEF, 2009). Destaca-se também o estatuto de igualdade
que pode ser solicitado pelos brasileiros e que os equipara em praticamente
todos os direitos aos nascidos em Portugal.
Neste contexto, a comunidade brasileira, impulsionada não apenas pela
globalização dos movimentos migratórios internacionais, mas também pela
existência de redes sociais de apoio que facilitam a sua inserção (MASSEY et
al., 1998), pelos laços históricos e culturais existentes entre os dois países
(PORTES, 1995; SAYAD, 1998) e por alguma legislação que facilita a entrada dos
brasileiros em Portugal, foi aumentando sua representação no conjunto dos
estrangeiros residentes em Portugal.
De acordo com a informação disponibilizada pelo Serviço de Estrangeiros e
Fronteiras, em 2000 existiam em Portugal 22.411 brasileiros, representando
10,8% do total de estrangeiros residentes. Em 2008, eles passaram a constituir
a principal comunidade estrangeira residente em Portugal, ultrapassando aquelas
provenientes das antigas colônias portuguesas na África (que tradicionalmente
constituíam os grupos mais importantes), passando a representar cerca de 25% do
total de estrangeiros residentes, situação que se manteve em 2009 e aumentou
ligeiramente em 2010 (26,8%), apesar da redução do número de estrangeiros
residentes em Portugal registrada entre 2009 e 2010 (1,97%).
Este crescimento do número de imigrantes em Portugal tem, obviamente,
consequências no âmbito da nupcialidade.
Num contexto em que os casamentos (enquanto união legalmente celebrizada) têm
vindo a diminuir ' entre 2001 e 2009 o número de casamentos registrou um
decréscimo de 30,8%, passando de 58.390 para 40.390 ', aqueles em que estão
envolvidos indivíduos brasileiros fogem a esta tendência. Com efeito, os
casamentos em que pelo menos um dos cônjuges era brasileiro passaram de 947, em
2001 (representando 1,6% do total de casamentos), para 3.773, em 2009, o
corresponde a cerca de 9% do total.
Dada a relativa juventude deste fenômeno, existem ainda em Portugal poucos
estudos sobre os casamentos aí ocorridos em que estão envolvidos parceiros de
naturalidade não portuguesa. Com o presente trabalho, pretende-se fazer uma
análise quantitativa deste fenômeno com base nos dados disponibilizados pelo
INE para o período 2001-2009,9 com vista a analisar as características dos
imigrantes que se casam com portugueses no nosso país, bem como as
características destes mesmos casamentos. Num segundo momento, proceder-se-á à
caracterização dos naturais de Portugal que se casam, no nosso país, com
naturais de outros países, procurando saber quem são os portugueses que, em
Portugal, se casam com imigrantes.
Para muito autores (MENG; GREGORY, 2005; FURTADO, 2006; FURTADO;
THEODOROPOULOS, 2008; DRIBE; LUNDH, 2008; MUTTARAK; HEATH, 2010), os casamentos
mistos são um bom indicador da integração das comunidades imigrantes na
sociedade de acolhimento, uma vez que representam diminuição da distância
social entre grupos minoritários e grupos dominantes e, como se trata de um
mecanismo para transmissão de valores e práticas culturais específicas às
gerações vindouras, terão efeitos ao nível da definição das fronteiras sociais,
constituindo-se como motor de mudanças demográficas e sociais.
Atendendo, por um lado, à importância que os casamentos mistos podem ter
enquanto motor de mudanças sociais e culturais e, por outro, à relevância da
comunidade brasileira residente em Portugal, parece-nos particularmente
importante analisar os padrões de casamento desta comunidade. Estamos perante
indivíduos que se casam majoritariamente fora do seu grupo de origem, em
especial com portugueses, o que indiciaria sua integração na comunidade de
acolhimento? Ou, pelo contrário, estamos diante de casamentos endogâmicos
(cujos parceiros pertencem ao mesmo grupo de origem)?
A partir da análise estatística dos microdados dos casamentos disponibilizados
pelo Instituto Nacional de Estatística, apresenta-se, a seguir, a evolução dos
casamentos, registrados em Portugal entre 2001 e 2009, em que estiveram
envolvidos elementos da comunidade brasileira residente em Portugal. Pretende-
se, desta forma, caracterizar e definir os padrões destes casamentos, por meio
de indicadores como a nacionalidade, o sexo, a idade, as habilitações, o estado
civil anterior, a existência de filhos anteriores ao casamento, a forma de
celebração do casamento, o regime de comunhão de bens, as características do
cônjuge (naturalidade, nacionalidade, idade e habilitações), entre outros.
Tendências recentes da imigração em Portugal
A importância do número de casamentos em que pelo menos um dos cônjuges tem
naturalidade diferente da portuguesa explica-se, fundamentalmente, pelo aumento
do número de cidadãos estrangeiros residentes em Portugal (em 2001 o total da
população estrangeira era de 350.898 pessoas, passando para 454.191 em 2009),
conjugado com sua estrutura populacional, especialmente concentrada nas idades
ativas que são igualmente aquelas mais "casadoiras".
Efetivamente no que diz respeito às idades, trata-se de uma população
relativamente jovem, o que poderá ser explicado pelo próprio perfil dos
brasileiros residentes em Portugal, com predominância de indivíduos jovens que
buscam na imigração a concretização das suas aspirações econômicas e
profissionais (MASANET; PADILLA, 2010; PIRES, 2002; GOIS et al., 2009).
Em 2001, a população estrangeira residente em Portugal possuía, em média, 32,5
anos; no caso da comunidade brasileira, a idade média era ainda mais baixa
(31,2 anos), bastante inferior à dos portugueses (39,8 anos). Em 2009, esta
tendência se manteve. Como mostram os dados da Tabela_1, quase 65% da população
estrangeira residente em Portugal tem menos de 40 anos, sendo que o grupo de 65
ou mais anos de idade apresenta um peso quase residual.10
Ao longo dos anos, os imigrantes têm-se distribuído pelo território português
de forma marcadamente assimétrica, com uma forte concentração em distritos do
litoral, com especial destaque para Lisboa, Faro, Setúbal e Porto, refletindo
em parte a concentração da atividade econômica. Com efeito, em 2009 os
estrangeiros residentes nestes quatro distritos representavam 76,5% do total de
estrangeiros residentes em Portugal.
Entre as várias nacionalidades presentes em Portugal, em 200911 consolida-se a
importância do Brasil, bem como dos países do leste europeu. O Brasil, que em
2001 era o quarto grupo mais importante, respondendo por 9,3% do total de
pedidos de residência (SEF, 2001), passou em 2008 a ser a comunidade mais
representativa entre os estrangeiros residentes em Portugal e assim continuou
em 2009 (25%), em detrimento de Cabo-Verde (7%), que, entre 2001 e 2008, foi a
comunidade mais representada (Gráfico_1).

Paralelamente ao crescimento registrado pela comunidade brasileira, é preciso
assinalar também a importância acrescida, desde 2006, das comunidades do leste
europeu. Com efeito, entre 2006 e 2007, a Ucrânia era a terceira nacionalidade
mais representada em Portugal, passando para o segundo lugar em 2008 (a par de
Cabo-Verde), posição que manteve em 2009 (12%), juntando-se-lhe, nos lugares de
topo, a Romênia (7%) com valores próximos aos de Angola e Guiné-Bissau (6%) e
Moldávia (5%).
A história da imigração portuguesa é marcada por diferenças de gênero, com uma
prevalência constante do sexo masculino. Todavia, esta situação vem se
alterando: se em 2001 os homens representavam 56,3% dos imigrantes, em 2009 a
diferença já é menos acentuada (234.412 homens para 219.779 mulheres),
representando os homens 51,6% do total de estrangeiros residentes em Portugal.
Esta diferença entre homens e mulheres, que se registra para o global, não
ocorre da mesma forma para os vários grupos geográficos de origem (Tabela_2).
No caso das nacionalidades mais representadas em Portugal, entre os romenos, os
guineenses e os ucranianos, os homens são claramente o grupo majoritário (para
cada 100 mulheres existem aproximadamente 130, 150 e 180 homens,
respetivamente). Já para o Brasil, Cabo-Verde e Angola, a situação é inversa:
para cada 100 mulheres há 80 homens, no caso dos brasileiros, e 90 homens nos
outros dois grupos. Em 2001 a situação era bem diversa, já que para cada 100
mulheres brasileiras existiam 107 homens dessa nacionalidade (SEF, 2001).
Como se casam os brasileiros em Portugal?
Características dos casamentos
Neste ponto, serão caracterizados os casamentos realizados em 2001 e 2009, em
que pelo menos um dos cônjuges tinha naturalidade brasileira, bem como as
principais características dos dois componentes destes casais, com base nos
microdados disponibilizados pelo INE.12 Tem-se assim em conta não uma amostra
de casamentos, mas sim o universo dos casamentos realizados em Portugal em 2001
e em 2009; para esta análise serão retidos aqueles em que pelo menos um dos
cônjuges é natural (nasceu) do Brasil.
Considerou-se imigrante brasileiro todo o indivíduo nascido no Brasil13 e não
aquele com nacionalidade (constante no bilhete de identidade) brasileira, uma
vez que a nacionalidade é mais facilmente sujeita a alteração (por exemplo, por
casamento) enquanto a naturalidade permanece a mesma ao longo da vida.14
No que se refere à distribuição geográfica destes casamentos, analisada a
partir do distrito onde a formalização da união se realiza, verifica-se que ela
é muito concentrada no território nacional, com Lisboa e Porto abarcando,
respetivamente, 34,5% e 13,4% destes casamentos. Se a estes distritos forem
somados Setúbal e Faro, têm-se 65% dos casamentos em que um dos cônjuges é
natural do Brasil (o que se explica pela própria distribuição regional dos
estrangeiros residentes em Portugal, que, como se viu anteriormente, se
concentra precisamente nestes distritos).
A importância dos casamentos celebrados em Portugal e em que estão envolvidos
imigrantes brasileiros tem aumentado desde 2001. Com efeito, do total de 58.390
casamentos realizados em 2001, em 947 pelo menos um dos cônjuges era
brasileiro, o que equivale a apenas 1,6%. Já em 2009 os valores foram bem
diferentes: registraram-se 3.773 casamentos em que estiveram envolvidos
imigrantes brasileiros, representando 9,3% do total dos 40.390 casamentos
realizados nesse ano.
Na sua esmagadora maioria, os casamentos celebrados em Portugal em 2001 e 2009,
com pelo menos um dos cônjuges de origem brasileira, foram casamentos civis
(Gráficos_2 e 3); no entanto, salienta-se o fato de este tipo de celebração ter
aumentado de forma assinalável, durante o período em análise, para a totalidade
dos casamentos realizados em Portugal, sendo que aqueles com celebração
católica passaram de 21,2% para 4,3%.
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[/img/revistas/rbepop/v29n2/a09grf03.jpg]
Em termos de regime de bens, e também tal como acontece com a generalidade dos
casamentos em Portugal, a comunhão de adquiridos corresponde à situação mais
comum, não se verificando, neste caso, alterações de destaque entre os dois
anos (85,6% para 2001 e 2009).
Cerca de 38% e 48% dos casamentos realizados, respetivamente, em 2001 e 2009,
em que pelo menos um dos cônjuges é natural do Brasil, foram precedidos de
coabitação, e em torno de 6,2% (2001) e 7,4% (2009) existiam filhos comuns aos
dois cônjuges (Gráficos_4 e 5). Quanto à existência de filhos somente de um dos
nubentes, verifica-se não só ser mais frequente em qualquer dos anos como ter
crescido bastante naqueles oito anos ' 24,0% e 39,4, respectivamente.
Comparativamente com o que aconteceu para o total dos casamentos registrados em
Portugal em 2009, o peso da coabitação foi bem mais importante entre aqueles
que envolveram brasileiros do que para o global (29,2%). Já a existência de
filhos comuns prévios é uma situação mais comum quando consideramos a
generalidade dos casamentos (10,1%) do que entre os matrimônios em que pelo
menos um dos cônjuges era brasileiro. No que diz respeito às uniões em que
existiam filhos de um só dos cônjuges, a situação dos casamentos com
brasileiros é muito particular: para o total de casamentos, em 18,1% havia
presença de filhos de um só dos cônjuges, contra cerca de 40% para as uniões em
que pelo menos um dos cônjuges era natural do Brasil.
No que se refere ao país de origem dos cônjuges, a maioria dos brasileiros
escolhe um português para se casar (exceção para o caso em que o cônjuge
imigrante é um homem brasileiro, em 2009); todavia, os valores obtidos apontam
para uma mudança no comportamento dos brasileiros no período entre 2001 e 2009,
com tendência para aumento do casamento dentro do grupo, especialmente
acentuada para os homens. Este acréscimo da homogamia na comunidade brasileira
é visível e mensurável por meio do índice de homogamia proposto por Savorgnan
(BAILY, 1980: 39), o qual passou de 0,18, em 2001, para 0,31, em 2009.15
TABELA_3
Quem são os brasileiros que se casaram em Portugal?
Os homens brasileiros
Casaram-se em Portugal 360 homens de naturalidade brasileira, em 2001, e 1.358,
em 2009, o que equivale a uma variação de cerca de 277%. Em 2001, 47% tinham
nacionalidade portuguesa; no entanto em 2009 a situação é bastante distinta,
dado que a grande maioria (cerca de 79%) tinha nacionalidade estrangeira. A
maior parte destes homens, tanto em 2001 (68,5%) como em 2009 (41%), casou-se
com mulheres naturais de Portugal.
Esses homens tinham em média 29 anos (DP=7,0), em 2001, e 30 anos, em 2009
(DP=7,5), sendo que cerca de 89% eram solteiros anteriormente ao casamento em
causa. Em termos de habilitações (Gráfico_6), em 2001 a situação mais frequente
era a posse de habilitações de nível secundário, equivalente a mais de nove
anos de escolaridade (32,5%), ou superior (cerca de 29%). Em 2009 registram-se
um decréscimo da importância do ensino superior e um aumento das habilitações
de nível secundário (46,6%), bem como do 3º ciclo do ensino básico, equivalente
a nove anos de escolaridade (26%).
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A existência de filhos não comuns prévios aos casamentos constituiu uma
situação pouco frequente nos dois anos, embora tenha crescido ligeiramente:
16,1% em 2001 e 26,6% em 2009.
Relativamente à profissão, há que ter alguma cautela na leitura dos resultados
sobre profissão para o ano de 2009, dado o elevado número de não-respostas e de
situações mal definidas (35,6%).
Considerando-se os casos relativamente aos quais existe informação disponível
(349 do total de 360, em 2001, e 875 dos 1.358, em 2009), oberva-se que
predominavam, em ambos os anos, os operários, artífices e trabalhadores
similares (respetivamente, 24,4% e 32,6%). Em 2001 seguiam-se os especialistas
das profissões intelectuais e científicas (20,1%) e as profissões ligadas aos
serviços e vendas (18,6%), situação que já é um pouco diferente em 2009 quando
ganhou importância o pessoal administrativo e similares (24%), por contraponto
ao pessoal dos serviços e vendedores, bem como os especialistas das profissões
intelectuais e científicas que perderam importância (Gráfico_7).
As mulheres brasileiras
O número de mulheres brasileiras que se casaram em Portugal (em qualquer dos
anos em análise) é muito superior ao de homens com a mesma naturalidade. Tal
como se registrou para os homens brasileiros, também o número de mulheres
brasileiras que se casaram em Portugal aumentou substancialmente entre 2001 e
2009, passando de 680 para 3.130. Em 2001, 57% delas não tinham nacionalidade
portuguesa, enquanto em 2009 88,8% estavam nessa situação.
Estas mulheres, com uma média etária de 29 anos (DP=8,0) em 2001 e 32 anos
(DP=8,7) em 2009, eram anteriormente solteiras em mais de 80% dos casos em 2001
e 75% em 2009. Majoritariamente (em mais de 70% dos casos nos dois anos),
trata-se de mulheres que não tinham filhos de relações anteriores.
Em termos de habilitações literárias (Gráfico_8), as brasileiras que se casaram
em Portugal tinham, tal como os homens, o ensino secundário como habilitação
mais frequente, com cerca de 35% e 42% com este nível de ensino concluído,
respetivamente, em 2001 e 2009.
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No que se refere às profissões, se para os homens brasileiros que se casaram em
Portugal há um elevado número de não respostas ou de situações mal definidas, a
realidade para as brasileiras é ainda mais grave. Com efeito, em 2001, há
informação sobre a profissão de 54 das 680 mulheres envolvidas nestes
casamentos (7,9%). Em 2009 a situação não é tão complexa, mas mantém-se um
elevadíssimo número de não respostas ou profissões mal definidas (não existe
informação para 1.818 dos 3.130 casos, ou seja, 58,1%). Assim, mais uma vez
chama-se a atenção para a necessidade de ler estes resultados com muitas
reservas.
Para os casos em que se dispõe de informação, a situação é muito distinta nos
dois períodos observados (Gráfico_9). Enquanto em 2001 predominavam as
profissões ligadas aos serviços e vendas (33,0%), bem como os especialistas das
profissões intelectuais e científicas (27,8%), em 2009 a representação das
profissões administrativas e similares destaca-se largamente das restantes
(44,0%).
Com quem se casam os brasileiros em Portugal?
As mulheres portuguesas
Como se viu anteriormente, os imigrantes brasileiros que se casaram em
Portugal, no período em análise, fizeram-no majoritariamente com portugueses.
Quem são, então, estes portugueses? Neste ponto, iremos dar conta das suas
principais características.
As portuguesas que se casaram com brasileiros tinham, em 2001, uma média etária
de 27,6 anos (DP=6,8), enquanto em 2009 essa média era de 28,9 anos (DP=8,0
anos), ou seja, cerca de três anos, em média, mais novas do que as mulheres
brasileiras que desposaram, nesse período, homens portugueses.
No que diz respeito às habilitações acadêmicas, a situação mais frequente, em
2009, entre as portuguesas que se casaram com brasileiros em Portugal é o
ensino superior, enquanto para as brasileiras que se casaram com portugueses
corresponde ao secundário (Gráfico_10).
Quanto ao estado civil, estas mulheres eram solteiras em 90% dos casos, em
2001, e 76%, em 2009, sendo que, na sua grande maioria, não levaram filhos para
o casamento (90% e 78,4%, respectivamente em ambos os anos).
No que diz respeito à profissão, também aqui existe uma grande falha na
informação. Se em 2001 não se dispõe de dados para apenas 35 dos 237 casos
(14,8%), em 2009, pelo contrário, somente para 233 das 577 mulheres portuguesas
que se casaram com brasileiros se conhce sua profissão (ou seja, não há
informação para 41,8% dos casos).
Considerando-se os casos para os quais existe informação (Gráfico_11), em 2001
predominavam as categorias correspondentes a pessoal dos serviços e vendedores
(25,7%) e especialistas das profissões intelectuais e científicas (23,8%).
Entre 2001 e 2009 assiste-se a um aumento da participação do pessoal
administrativo e similares (38,0%), bem como dos técnicos e profissionais de
nível intermédio (18,8%).
Os homens portugueses
Os homens naturais de Portugal que, em 2001 e 2009, se casaram no país com
mulheres brasileiras eram consideravelmente mais velhos do que os brasileiros
que se casaram com portuguesas, tendo, em média, 33,7 anos (DP=10,0) e 38 anos
(DP=11,0), respetivamente, em 2001 e 2009. Este aumento da idade média entre os
dois anos deve-se, em parte, ao fato de a dispersão aumentar; em 2009, a idade
dos homens que se casaram com brasileiras varia entre 18 e 107 anos, enquanto
em 2001 se encontrava entre 18 e 76 anos.
Quanto ao estado civil, 75% destes homens, em 2001, e 55,6%, em 2009, eram
anteriormente solteiros e 21% e 42,9%, respetivamente, eram divorciados. Cerca
de 80% e 67,5% deles (em 2001 e 2009) não tinham filhos de relações anteriores.
No que concerne às suas habilitações acadêmicas (Gráfico_12), verifica-se que
50% deles têm habilitações inferiores ou iguais ao terceiro ciclo do ensino
básico, para os dois anos, ou seja, habilitações inferiores quer às dos homens
quer às das mulheres brasileiras que estiveram envolvidos nestes casamentos.
Para 2001 não existe informação acerca das profissões dos portugueses que se
casaram com brasileiras. Apenas se dispõe de dados para o total dos homens
(portugueses ou não) que estiveram envolvidos nesses casamentos e mesmo assim
para um número muito residual de casos (90 em 680).
Mesmo admitindo que, dado que das 680 mulheres brasileiras a grande maioria
(75,6%) se casou com portugueses e que, por isso mesmo, se pode admitir que a
tendência se mantém para os casamentos com portugueses, qualquer resultado aqui
encontrado levanta muitíssimas reservas. Assim, para os casos conhecidos, as
profissões mais comuns foram operários, artífices e trabalhadores similares
(27,8%), especialistas das profissões intelectuais e científicas (21,1%) e
técnicos e profissionais de nível intermédio (20,0%).
Relativamente a 2009 (Gráfico_13), a situação mais frequente envolveu
portugueses operários, artífices e trabalhadores similares (29,9%), seguindo-
se, a uma distância considerável, os profissionais administrativos e similares
(17,8%) e técnicos e profissionais de nível intermédio (14,1%).
Considerações finais
Em primeiro lugar, há que referir que, entre 2001 e 2009, num contexto em que
os casamentos na sua totalidade têm diminuído, aqueles em que estiveram
envolvidos brasileiros aumentaram em número e, consequentemente, também cresceu
sua importância no total de casamentos celebrados em Portugal nesse período.
A grande maioria dos brasileiros (homens e mulheres) escolheu seu parceiro
dentro da comunidade portuguesa, tanto em 2001 quanto em 2009, o que indicia a
sua integração na comunidade de acolhimento, tal como sugerido por diversos
estudos (ALBA; GOLDEN, 1986; KALMIJN, 1998; LIEBERSON; WATERS, 1988; PAGNINI;
MORGAN, 1990). O imaginário português acerca dos brasileiros, fatores como a
língua, as relações históricas entre os dois países e o próprio papel dos mídia
ao longo dos anos, poderá explicar, em parte pelo menos, este nível elevado de
integração (não podemos esquecer que sucessivas gerações de portugueses
cresceram embalados pelos valores brasileiros transmitidos pelas novelas, pela
música, pela prosa e poesia brasileiras). Lages (2006) destaca o fato de a
grande maioria dos portugueses atribuir características positivas aos
imigrantes brasileiros, sendo este o grupo de imigrantes com quem mais se
identificam. Gomes (2011) afirma que parece existir uma especificidade maior
quando se trata das mulheres brasileiras, as quais, além da marca de
brasilidade, relacionada a uma alegria tropical e exótica, carregariam uma
marca muito acentuada de erotismo.
Todavia, apesar do aumento da comunidade brasileira no total dos casamentos
celebrados em Portugal e do fato de estarmos perante um elevado nível de
casamentos mistos, quer em 2001 quer em 2009, estes diminuem sua importância
dentro da comunidade brasileira e de forma substancial entre os homens. Será
interessante, em estudos futuros, tentar perceber se se mantém esta tendência e
que fatores poderão explicar esta inversão.
Os casamentos celebrados em Portugal em que estiveram envolvidos brasileiros
foram, na sua grande maioria (em especial em 2009), casamentos civis,
celebrados sob o regime legal de comunhão de adquiridos; em quase metade dos
casos, os casamentos foram precedidos de coabitação e só numa pequena proporção
de casos existiam filhos em comum prévios ao casamento. Já a existência de
filhos de apenas um dos cônjuges ocorre com maior frequência e sua importância
aumentou substancialmente ao longo do período em análise.
Em qualquer dos anos analisados, os homens brasileiros envolvidos nestes
casamentos mistos tinham idade média em torno dos 30 anos, eram solteiros na
sua grande maioria, possuindo como habilitação mais frequente o ensino
secundário. Bastante diferente é a situação quanto à nacionalidade destes
homens em 2001 e 2009: se em 2001 quase metade tinham a nacionalidade
portuguesa, já em 2009 isso apenas acontecia em menos de 1/4 dos casos.
No que diz respeito às suas parceiras portuguesas, estamos perante mulheres um
pouco mais jovens, com idade média na ordem dos 28 anos, também elas
anteriormente solteiras na sua grande maioria (embora tenha aumentado
substancialmente a importância das divorciadas entre 2001 e 2009) e sem filhos.
São mais habilitadas do que os seus parceiros, sendo o ensino superior a
situação mais frequente. Em termos profissionais, com as ressalvas levantadas
anteriormente, encontramos uma ligeira tendência para terem também profissões
mais consideradas socialmente do que os brasileiros com quem se casaram.
Já a idade média das mulheres brasileiras que se casaram com portugueses
aumentou consideravelmente durante o período em análise, passando de 29 para 32
anos. Na sua grande maioria, elas eram anteriormente solteiras (embora as
divorciadas assumam já alguma importância em 2009, o que não acontece para os
homens), com habilitações mais frequentes ao nível do ensino secundário, à
semelhança do que acontece com os homens brasileiros. Tal como se registrou
entre os homens, também entre as brasileiras que se casaram em Portugal
diminuiu substancialmente a expressão do grupo com nacionalidade portuguesa.
Quanto aos seus parceiros portugueses, são homens mais velhos em qualquer dos
períodos analisados, com uma diferença etária média de cerca de 5 e 6 anos,
respetivamente em 2001 e 2009. Além disso, são tendencialmente menos
habilitados do que as mulheres brasileiras com quem se casaram e com profissões
socialmente menos qualificadas.
Em suma, se é certo que foram encontrados indícios da integração da comunidade
brasileira na sociedade portuguesa, será importante perceber algumas diferenças
observadas entre os sexos. As mulheres brasileiras são tendencialmente mais
exogâmicas e, enquanto os homens brasileiros se casam com mulheres portuguesas
mais habilitadas, as brasileiras fazem-no com homens menos habilitados.
Os resultados obtidos parecem apontar para a possibilidade de, tal como
sugerido pela teoria da troca, as qualificações poderem estar sendo usadas (por
alguns indivíduos) como um elemento de troca. O estatuto socioeconômico mais
elevado das mulheres portuguesas (de que as habilitações literárias e a
profissão são indicadores) poderá estar a funcionar como moeda de troca por um
tropicalismo/exotismo/erotismo dos seus parceiros brasileiros.
E no caso das mulheres brasileiras? Trocarão este seu presumível exotismo por
condições econômicas mais favoráveis ou pelo acesso à nacionalidade portuguesa,
ainda que associadas a homens menos habilitados? O conhecimento da distribuição
dos rendimentos dos parceiros envolvidos nestes casamentos, para além das
habilitações e da profissão, seria importante para tentar aprofundar esta
questão.
Quanto à relação entre exogamia e sexo, os resultados desta investigação
mostram que as mulheres brasileiras são claramente mais exogâmicas. Todavia, no
período em análise, e para ambos os sexos, registrou-se acréscimo do casamento
dentro do grupo. Se no caso dos homens este fato pode, em parte, ser explicado
pela relação homem/mulher lhes ser mais favorável em 2009 (na medida em que há
mais mulheres brasileiras para cada brasileiro, o que aumenta a possibilidade
de escolha), já no caso das mulheres esperar-se-ia que, pela mesma razão, se
verificasse o contrário. Assim, dever-se-ão procurar outras explicações para
justificar este acréscimo da homogamia nas brasileiras entre 2001 e 2009.
Estas são questões que ficam em aberto e que só investigações futuras poderão
ajudar a responder. Fica a nossa contribuição para a análise dos padrões de
casamento dos imigrantes na Europa, que tencionamos prosseguir num futuro
próximo incluindo a comparação desta comunidade com outros grupos de imigrantes
em Portugal.