As amenidades naturais influenciam a escolha locacional dos trabalhadores?
evidências para as regiões metropolitanas brasileiras
Introdução
Em decorrência do crescimento e desenvolvimento das cidades, pesquisadores
regionais e urbanos, interessados em mensurar a importância atribuída pelos
trabalhadores ao consumo das amenidades locais, vêm aplicando a abordagem
hedônica1 como instrumento para valoração das amenidades locais (ROSEN, 1979;
ROBACK, 1980; 1982; BLOMQUIST et al., 1988; GYOURKO; TRACY, 1991).
Nesse contexto, quando o objetivo de análise é a valoração das amenidades
locais, a mesma ideia da abordagem hedônica, aplicada a produtos heterogêneos,2
é imposta às unidades geográficas de análise, já que são caracterizadas por um
conjunto de atributos locais diferenciados. Porém, como as amenidades locais
não possuem preço de mercado, o valor que as pessoas estão dispostas a pagar
por elas, a partir da abordagem hedônica, é obtido indiretamente, em função das
escolhas locacionais dos indivíduos, do preço que os consumidores estão
propensos a pagar pela habitação e/ou do salário recebido na localidade3 onde
residem (ROSEN, 1974; 1979; ROBACK, 1980; 1982).
Assumi-se, portanto, que o consumidor, ao escolher um imóvel para residir, está
escolhendo simultaneamente o conjunto de amenidades ' atributos locais que
influenciam no preço do imóvel ' que irá consumir e, portanto, no preço do
imóvel deve estar embutido o valor que ele atribui ao consumo das amenidades
(ROSEN, 1974). De forma alternativa, Rosen (1979) parte da suposição de que a
escolha locacional dos trabalhadores depende, entre outros fatores, do salário
que a localidade oferece e dos atributos locais. Assim, supondo-se que ambos,
as amenidades e o salário, são fatores de atração dos trabalhadores, tem-se que
a remuneração do capital humano em cada região também pode informar sobre as
preferências dos consumidores pelas amenidades.
Unindo os dois mercados ' o de trabalho e o de habitação ', pode-se dizer que
Roback (1980,1982), com a inclusão do mercado de produção no modelo de Rosen
(1979), fornece pioneiramente um indicador que mensura o valor que as pessoas
estão propensas a pagar pelas amenidades, com base em um modelo de escolha
locacional. A autora, a partir da propensão marginal a pagar pelas amenidades,
constrói uma medida para avaliar a qualidade das amenidades das regiões, a qual
nomeia de "índice de qualidade de vida local".
Tomando como referência o modelo de Roback (1982), este artigo tem como
objetivo principal apresentar evidências da importância das características
naturais das regiões metropolitanas para a escolha locacional dos
trabalhadores. Desse modo, a partir da abordagem hedônica, estima-se a
propensão marginal a pagar por estes atributos locais, indicando o valor
monetário que os trabalhadores estão dispostos a pagar por eles; e, com base
nesta informação, calculam-se índices de qualidade das amenidades locais. A
análise é realizada para as nove principais regiões metropolitanas brasileiras:
Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo,
Curitiba e Porto Alegre.
Esta pesquisa justifica-se pela falta de evidências empíricas, para o Brasil, a
respeito da importância das amenidades locais para a escolha locacional dos
trabalhadores e da influência destes fatores na função de bem-estar deles.
Também a pesquisa em torno das amenidades naturais4 justifica-se, em primeiro
lugar, pela importância dos fatores climáticos para o bem-estar dos
trabalhadores e, ainda, pela falta de evidências empíricas, para o Brasil, da
relação entre as amenidades naturais, o bem-estar e a escolha locacional dos
agentes produtivos.
Este tema torna-se ainda mais relevante quando se observam localidades que
podem deixar de ser habitadas devido às suas características naturais. Neste
contexto, citam-se, por exemplo, as consequências das mudanças climáticas e
seus efeitos para o meio ambiente e para as escolhas locacionais dos
indivíduos. Em decorrência desse fato, defende-se a proposição de que os
fatores climáticos das regiões de um país, que devem possuir diferentes
características ' considerando-se que esta heterogeneidade pode ter diversas
magnitudes ', além de impactar de forma diferenciada no meio ambiente, também
podem atuar como fatores de aglomeração da população para as regiões que
ofereçam condições climáticas mais agradáveis. Ou melhor, dando força para a
relação entre o clima e o bem-estar, pois sabe-se que o clima pode influenciar
na qualidade da saúde dos seres humanos, o qual, em situações extremas, pode
levar à proliferação de epidemias e de doenças respiratórias e até à morte dos
indivíduos.5
Além dessa introdução, o artigo está estruturado com uma seção que apresenta o
modelo empírico de Roback (1982) e estudos empíricos que abordam o tema. A
terceira seção é destinada à da base de dados e aos modelos empíricos
estimados. Posteriormente, são analisados os resultados e, finalizando, são
tecidas as considerações finais.
Modelo de escolha locacional
Modelo empírico
De forma resumida, o modelo de escolha locacional de Roback (1980, 1982) parte
da suposição de que a função de utilidade do trabalhador depende, além das
oportunidades econômicas ofertadas pela região onde o trabalhador mora, das
dotações das amenidades da região. No modelo, a decisão locacional dos
trabalhadores é influenciada pelo tradeoffentre as oportunidades econômicas
ofertadas pelas regiões, traduzidas como o aumento de salário e redução no
preço do aluguel,6 e a qualidade de vida das regiões, ou, seja, a dotação das
amenidades das regiões. Em decorrência das hipóteses de equilíbrio do modelo '
no equilíbrio de mercado os trabalhadores não têm ganhos de bem-estar migrando
', as regiões com maior dotação de amenidades tendem a ofertar menores salários
e maior custo de habitação, de forma a igualar a utilidade entre as regiões. Já
as localidades com baixos níveis de amenidades precisam oferecer boas
oportunidades econômicas para atrair os trabalhadores e, assim, compensá-los
por um menor consumo das amenidades.
Roback (1982), portanto, a partir da contribuição marginal das amenidades para
a formação dos salários e aluguéis em cada região, recupera a informação do
valor monetário que as pessoas atribuem ao consumo das amenidades. Obtém-se
este valor regredindo o salário dos indivíduos que moram nas jslocalidades em
função de atributos locais, que se quer valorar, controlando pelas
características dos trabalhadores e de sua ocupação, na forma:

onde: wij corresponde ao salário que o indivíduo "i" recebe na localidade "j";
Xi é um vetor das características individuais dos trabalhadores e da ocupação
dos trabalhadores, Zj refere-se ao vetor dos atributos locais; e uij é o erro
estocástico.
De forma semelhante, o preço do aluguel é regredido em função das amenidades
locais, controlando pelas diferenças na qualidade do imóvel, como:
[/img/revistas/rbepop/v28n2/a08eq02.jpg]
onde: rij é o aluguel pago pelo indivíduo "i" na localidade "j"; Qi refere-se
ao o vetor das características estruturais do imóvel; Zj corresponde ao vetor
dos atributos locais; e vj é o erro estocástico.
A partir dos coeficientes dos atributos locais, de dw/dz e de dr/dz, é
calculada a função de preço implícito dado por:
[/img/revistas/rbepop/v28n2/a08eq03.jpg]
onde: "h"representa a quantidade de terra consumida pelo trabalhador, comumente
normalizada para 1; dp/da é o diferencial do preço da terra de equilíbrio e dw/
da corresponde ao diferencial salarial de equilíbrio. A função fa é denominada
de função de preço implícito, a qual mensura o valor que as pessoas estão
dispostas a pagar (ou que devem ser compensadas) por cada atributo local. Em
outras palavras, a função de preço implícito quantifica o peso que cada
atributo tem para a função de bem-estar dos trabalhadores.
Assim, com base na função de preço implícito, Roback (1982) propõe uma medida
para mensurar a qualidade de vida (IQV) nas localidades, resultado do somatório
entre a multiplicação do preço implícito de cada amenidade (fa ) pelo nível da
amenidade na localidade "j":
[/img/revistas/rbepop/v28n2/a08eq04.jpg]
O IQV é a soma da dotação dos "k" atributos locais da localidade "j",
ponderados pelas respectivas funções de preço implícito (f), a qual mensura as
preferências dos trabalhadores pelos atributos locais. Assim, quanto maior o
IQV da localidade "j", maior é a qualidade das amenidades de "j" em relação às
demais js localidades consideradas na análise.
Evidências empíricas
Pode-se considerar que o modelo proposto por Roback (1982) ' com a incorporação
das empresas no modelo dos diferenciais compensados de Rosen (1979) '
representa pioneiramente uma tentativa de construir um indicador de "qualidade"
das amenidades, com embasamento teórico no comportamento em ambos os mercados:
dos consumidores e das empresas.
A partir das contribuições pioneiras de Rosen (1979) e Roback (1982) para a
construção de um índice de qualidade de vida, Blomquist et al. (1988) e Gyourko
e Tracy (1991) flexibilizam algumas das hipóteses do modelo básico de Roback
(1982). Blomquist et al. (1988) fazem variar as amenidades dentro de uma área
urbana, assumindo que as economias de aglomeração podem influenciar a função de
produção da empresa. Gyourko e Tracy (1991), por sua vez, incorporam no modelo
os atributos fiscais que caracterizam cada região, respaldando-se na hipótese
de que há atributos locais, como os serviços de segurança e educação, que os
indivíduos pagam por meio de tributos e, portanto, segundo os autores, esses
custos devem ser incluídos nas despesas das famílias.
Contudo, a despeito de essas extensões impostas ao modelo básico de Roback
(1982) proporcionarem modelos teóricos mais realísticos, pode-se dizer que o
modelo proposto por Blomquist et al. (1988) não traz contribuições relevantes
para o cálculo do índice de qualidade de vida de Roback (1982), uma vez que o
índice é derivado da condição de equilíbrio de mercado imposta aos
trabalhadores. Já a respeito do que é sugerido por Gyourko e Tracy (1991), com
a incorporação dos atributos fiscais na restrição orçamentária dos
trabalhadores no modelo de Roback (1982), é preciso reconhecer que, se os dados
dos preços dos serviços públicos não forem disponíveis para os pesquisadores, a
implementação empírica com as extensões propostas por Gyourko e Tracy torna-se
inviável. Além disso, as sugestões de Gyourko e Tracy (1991) são aplicáveis
apenas quando há diferenças no sistema tributário entre as regiões em análise.7
Por outro lado, contrapondo a abordagem hedônica, alguns pesquisadores
questionam se a hipótese de equilíbrio de mercado imposta pelo modelo dos
diferenciais compensatórios de Roback (1982) ' no equilíbrio de mercado, os
consumidores não têm ganhos de bem-estar migrando da localidade que residem
para outra qualquer ' é sustentada na realidade (EVANS, 1990; GREENWOOD et. al,
1991; HARRIGAN; MCGREGOR, 1993).
A principal argumentação a favor dos que acreditam na persistência do
desequilíbrio de mercado está relacionada com a não verificação da hipótese,
que está por trás do modelo de Roback (1982), de que os mercados de trabalho e
habitação são eficientes (EVANS, 1990; GREENWOOD et. al., 1991). Para Evans
(1990) e Greenwood et. al. (1991), se não houver ajustamento instantâneo dos
preços a um choque exógeno nos mercados, as análises com base no modelo de
equilíbrio espacial de Roback (1982) podem levar a conclusões erradas do
verdadeiro valor que os trabalhadores atribuem ao consumo das amenidades.
Graves e Muesser (1993) contra-argumentam e defendem a ideia de que algumas
suposições impostas a modelos originalmente desenvolvidos de demanda,
inicialmente, são necessárias para tornar os modelos aplicáveis. Além disso,
estes autores colocam que Roback (1982) não descarta a possibilidade da
tendência dos mercados ao desequilíbrio, quando inclui o crescimento
populacional no modelo empírico, nas equações de salários e aluguéis.
Em geral, os pesquisadores que investigam se o mercado de trabalho está em
equilíbrio associam os contínuos movimentos migratórios como um fenômeno de
desequilíbrio (EVANS, 1990; GREENWOOD et. al., 1991). Greenwood et al. (1991),
por exemplo, verificam a suposição de equilíbrio igualando a taxa de migração
líquida ' função do valor presente do salário potencialmente ganho e das
amenidades locais ' a zero, assumindo, assim, que, se a renda estimada de
equilíbrio, obtida para cada região, diferir da renda observada, os mercados
estariam em desequilíbrio. Por outro lado, Berger et al. (2003) e Gyourko et
al. (1997) contra-argumentam colocando que a existência de migração não
necessariamente implica um fenômeno de desequilíbrio. Como exemplo, os autores
citam os movimentos migratórios advindos do efeito ciclo de vida, os quais
podem ser fenômenos de equilíbrio.8 Graves e Muesses (1993), embora reconheçam
que os motivos que levam à persistência da migração líquida devam ser
examinados, discordam quando a persistência do desequilíbrio de mercado é
associada à existência de migração, a partir de um modelo derivado para um
ponto no tempo.
Quanto aos estudos empíricos que objetivam valorar as amenidades locais a
partir da abordagem hedônica, aplicados principalmente para os Estados Unidos,
é possível identificar pelo menos dois principais objetivos de pesquisa.
Aqueles que buscam investigar a influência das características da vizinhança '
tais como proximidade de boas escolas, hospitais, qualidade ambiental, entre
outras amenidades ' no preço dos imóveis, para uma determinada unidade
geográfica de análise (SONG; KNAAP, 2003; BRASINGTON; HETE, 2003; DOWNES;
ZABEL, 2002), objetivam analisar o mercado de habitação em função das
preferências dos consumidores pela vizinhança, com vista a estimar o valor que
os indivíduos estão dispostos a pagar ' embutido no preço do imóvel ' por morar
em localidades que tenham "boa" vizinhança.
Com outro objetivo de análise, têm-se os estudos realizados para um grupo de
unidades geográficas, como, por exemplo, as regiões metropolitanas, que visam,
de modo geral, obter evidências da qualidade das amenidades das regiões em
estudo, a partir da escolha locacional dos trabalhadores (BLOMQUIST et al.,
1988; GYOURKO et al., 1991; STAURT et al., 1996; BERGER et al., 2003).
Para o Brasil, são poucos os estudos empíricos que objetivam valorar as
amenidades com um enfoque regional. Ainda mais escassos são os que unem os dois
setores, o de trabalho e o habitacional, para inferir sobre o valor que as
pessoas estão propensas a pagar pelas amenidades. Em parte, pode-se associar
esta relativa escassez de trabalhos empíricos realizados para o Brasil à
limitação dos dados que estão disponíveis para o país, pois não existe um banco
de dados integrado para as unidades geográficas brasileiras, com informações
sobre os imóveis. Além disso, são limitados ou inexistentes os dados de
amenidades naturais para as unidades geográficas do Brasil, como, por exemplo,
indicadores da qualidade ambiental, com uma desagregação para as cidades ou
regiões metropolitanas.
Contudo, cabe fazer referência a três trabalhos. Herman e Haddad (2005)
realizam um exame localizado para a Região Metropolitana de São Paulo, com o
objetivo de examinar a influência das amenidades urbanas sobre o preço dos
imóveis. O método de estimação adotado é o hedônico (ROSEN, 1974) e os autores
utilizaram a construção de fatores para minimizar o efeito da
multicolinearidade presente nos dados. O exame é realizado a partir de uma
amostra de 497 imóveis da base de dados da Pesquisa Orçamento Familiar (POF) de
1999, da Fipe, georreferenciado pelo endereço de cada domicílio. Os autores
exploraram dados de amenidades tanto naturais quanto sociais: indicadores de
criminalidade na área ao redor dos imóveis; qualidade do meio ambiente,
representada pelo coeficiente arbóreo; variáveis de acessibilidade do imóvel
aos principais centros (distância ao centro histórico de São Paulo, ao centro
novo, e outra variável com a distância mínima entre os dois centros); e acesso
ao transporte público (as estações de trem). Herman e Haddad (2005) encontraram
evidências de que os imóveis próximos às estações de trem e de áreas
arborizadas tendem a ser mais valorizados, enquanto a criminalidade tem efeito
contrário no preço do imóvel. Além destes resultados, a partir do modelo
estimado com a inclusão dos fatores, os autores obtiveram indicações de que,
além das amenidades citadas anteriormente, os imóveis com um melhor acesso aos
serviços de modo geral são mais valorizados. Por outro lado, a partir de testes
de dependência espacial aplicados aos modelos, a hipótese de dependência
espacial entre os preços dos imóveis foi rejeitada, resultado este não
esperado.
Com outro enfoque de análise ' o mercado de trabalho ', Silveira Neto e Azzoni
(2004) estimam uma equação tipicamente minceriana dos salários, com o objetivo
de examinar a influência de algumas amenidades, sociais e naturais, para a
persistência dos diferencias de renda entre os residentes nas aéreas urbanas
dos Estados brasileiros. A partir dos diferenciais de renda observados entre as
unidades da federação, os autores inferem sobre as diferenças na qualidade das
amenidades entre as áreas urbanas das unidades geográficas de análise. O
estudo, realizado com base na PNAD de 2002, incorpora, no exame empírico,
dummies para as grandes regiões, a razão entre a população residente na costa e
a população total, temperatura média do mês de julho, média da precipitação
anual, altitude, latitude e amenidades sociais, representadas por três
indicadores: taxa de mortes violentas; índice de Gini; e participação dos
trabalhadores no setor de alojamento e alimentação em relação ao pessoal
ocupado total. Os resultados encontados pelos autores indicaram que as Regiões
Sul e Nordeste estão mais bem servidas pelas amenidades incorporadas no exame
quando comparadas com a Região Sudeste. Mas os resultados sugerem que a
qualidade das amenidades do Sudeste é melhor do que as do Norte e Centro-Oeste.
Os autores também encontraram evidência da importância de se considerarem as
diferenças no custo de vida para explicar diferenças regionais nos salários
entre os trabalhadores residentes na área urbana das unidades da federação. E,
por meio de regressões quantílicas, Silveira Neto e Azzoni (2004) obtiveram
evidências de que as disparidades de renda entre as Regiões Nordeste e Sudeste
tendem a ser mais significativas para os quantisde renda menores, tendendo a
diminuir quando são considerados os trabalhadores de classes salariais mais
elevadas.
Unindo os dois mercados, o de trabalho e o de habitação, conforme proposto por
Roback (1980, 1982), e buscando minimizar os problemas econométricos gerados
pela inclusão de amenidades endógenas nas equações hedônicas de salários e
aluguéis, Monte (2004) estima a propensão a pagar pelas amenidades de clima:
temperatura média anual; variação da temperatura anual; volume total da
precipitação anual; umidade relativa do ar; horas de sol; além da distância
para a praia mais próxima. O autor utilizou a Pesquisa de Orçamento familiar
(POF), como fonte das características dos imóveis e dos trabalhadores, e os
dados de clima estão reportados no Anuário Estatístico do Brasil de 1987, do
IBGE. Os resultados encontrados indicam que o aumento da temperatura média
anual e da variação impactam positivamente a função de utilidades dos
trabalhadores. Os demais resultados sugerem que os trabalhadores preferem morar
nas regiões metropolitanas menos umidas, em relação às RMs que foram
incorporadas no exame, nas RMs com menos horas de sol, e próximas ao mar.
Implementação empírica
Base de dados
A base de dados utilizada na pesquisa foi construída a partir de três fontes
principais: a Pesquisa Nacional por Amostra e Domicílios (PNAD), do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em que foram extraídos os dados
das características e da ocupação dos trabalhadores e dos atributos dos
imóveis; o Instituto Nacional de Meteorologia, para as informações climáticas
do período de 1990 a 2006; e o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos
(CPTEC), para os dados sobre o nível de poluição.
A unidade geográfica de analise corresponde às Regiões Metropolitanas de Belém,
Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio Janeiro, São Paulo, Curitiba e
Porto Alegre. O Mapa_1 apresenta a localização geográfica das RMs.
[/img/revistas/rbepop/v28n2/a08mp01.jpg]
A amostra definida para o exame empírico é composta por todos os chefes da
família (declarados na PNAD como pessoa de referência da família), que
trabalham em atividades não agrícolas, com mais de 15 anos, com algum ganho
positivo na semana de referência em que foi entrevistado e que mora em imóvel
alugado. A amostra final é composta por 5.636 pessoas, a qual, expandida pelo
peso da PNAD, representa 4% da população total das regiões metropolitanas
consideradas na pesquisa.
A variável dependente da equação dos salários é a renda mensal derivada do
trabalho da pessoa de referência da família, e a variável dependente da equação
dos aluguéis corresponde ao preço do aluguel pago mensalmente.
Assim, seguindo a literatura padrão sobre os diferenciais compensatórios de
renda (ROBACK, 1982), na equação dos salários foi incluído, além de um vetor de
variáveis controles das características dos trabalhadores e da ocupação do
trabalho dos trabalhadores, um vetor de atributos locais das regiões
metropolitanas, os quais serão especificados a seguir. De forma semelhante, na
equação dos aluguéis, incluiu-se, além de um vetor com informações sobre as
características estruturais do imóvel, o mesmo vetor de variáveis dos atributos
locais que foi considerado na equação dos salários.
Entre os dados das amenidades naturais incorporados no exame empírico, estão
indicadores do nível da precipitação (mm), da temperatura média mensal (ºC) e
da umidade relativa do ar (%), observados no período de 1990 a 2006.9
Foram incluídas, na análise, as médias mensais das temperaturas de janeiro e
julho, respectivamente, o mês mais quente e o mais frio do ano para a maior
parte das regiões metropolitanas. Com relação aos meses escolhidos, espera-se
que aqueles com temperaturas extremas tenham uma maior influência para o bem-
estar dos indivíduos do que aqueles com temperaturas mais amenas.
Com o propósito de explorar um indicador "médio" e outro que captasse a
variação da precipitação, a média das observações da precipitação anual e a
média das observações da precipitação do mês de setembro foram as variáveis
consideradas na análise. Outra variável climática incorporada no exame empírico
corresponde à média dos registros da umidade relativa do ar durante o período
em análise. Esse atributo climático influencia na sensação térmica,10
juntamente com a temperatura, a velocidade e a direção dos ventos e, por isso,
é sempre utilizado em estudos desta natureza (CRAGG; KAHN, 1997; TIMMIS, 1999).
Também foram considerados, no exame empírico, outros dois importantes atributos
locais: uma variável de proximidade para a costa, que compreende a distância
entre a capital e a praia mais próxima (km); e uma variável proxy do nível da
poluição do ar ' o material particulado decorrente de queimadas calculado com
base em Freitas et al. (2005),11 que constitui um dos componentes da poluição
do ar.
Em paralelo, um modelo foi estimado incluindo, além das amenidades naturais
descritas anteriormente, a latitude, variável significantemente correlacionada
com o IDH.12 Um terceiro modelo também foi estimado, incorporando a densidade
demográfica, a qual pode ser considerada uma proxy das amenidades sociais ou
das amenidade negativas geradas pelo congestionamento dos bens públicos.
Menezes Filho et al. (2006) encontram evidências de que a latitude é um bom
instrumento para a qualidade das instituições atuais, utilizando-a para
examinar a relação entre a qualidade das instituições atuais e o Produto
Interno Bruto per capita das capitais brasileiras.13 A Justificativa para esta
relação está na tendência de os Estados do Norte e Nordeste serem menos
desenvolvidos do que os do Sudeste e Sul, o que deve ter uma relação com a
localização geográfica (latitude média) dos Estados e com a forma como foram
colonizados, o que repercuti na qualidade das suas instituições atuais.
Quanto aos coeficientes estimados dos atributos locais, de acordo com a
abordagem hedônica, deve-se esperar que seja negativo o diferencial do salário
com relação ao atributo local e positivo o diferencial do preço do aluguel, se
o aumento marginal do atributo impactar positivamente a função de utilidades
dos trabalhadores. Caso contrário, se o incremento marginal do atributo
influenciar negativamente a função de utilidade dos trabalhadores, o sinal do
coeficiente estimado a partir da equação de salários deverá ser positivo, e o
sinal do coeficiente obtido pela estimação da equação de aluguéis, negativo.
Equação reduzida dos salários e aluguéis
Três equações na forma reduzida do salário são estimadas. A primeira inclui
apenas atributos climáticos, geográficos e da poluição do ar (modelo 1). Além
desta, mais duas equações dos salários são estimadas, considerando, além dos
atributos do modelo 1: a latitude (modelo 2); e a densidade demográfica (modelo
3). Os modelos estimados em forma de equação podem ser representados como:
[/img/revistas/rbepop/v28n2/a08eq04.jpg]
A variável dependente é a da renda do trabalho do indivíduo "i" que mora na
localidade "j". A equação dos salários é composta por um conjunto de variáveis
controles das características socioeconômicas do trabalhador (carc_ind), do
setor de atividade em que o indivíduo está empregado e da categoria da ocupação
do trabalhador (carc_ocup); e dos atributos locais (clima). Além destas, têm-se
as variáveis latitude (LAT) (modelo 2) e densidade demográfica (DEN) (modelo
3). E μi é o termo de erro dos modelos.
Desta forma, no vetor carc_ind, incluíram-se: uma variável dummy para o sexo do
trabalhador (sexo), tomando o valor 1 se for do sexo feminino (0 caso
contrário); a idade (idade); a idade ao quadrado (idade2); e uma variável dummy
para a raça do indivíduo (raça),1 se é branca (0 outro caso). Também foram
incorporados um vetor de variáveis dummies para os anos de estudos ' se o
trabalhador tem de 1 a 3 anos de estudos (est1a3), de 4 a 7 dos (est4a7), de 8
a 10 (est8a10), de 11 a 14 (est11a14) e 15 anos ou mais de estudo (est15mais),
em relação aos trabalhadores com menos de um ano de estudo (categoria omitida)
' e um vetor de dummies para o tipo de família: casal sem filhos (familia1);
casal com todos os filhos menores de 14 anos (família2); casal com filhos
menores de 14 anos e de 14 anos ou mais (familia3); mãe com todos os filhos
menores de 14 anos (familia4); mãe com todos os filhos de 14 anos ou mais
(familia5); mãe com filhos menores de 14 anos e de 14 anos ou mais (família6) e
outros tipos de família; sendo que a categoria de comprarão é casal com todos
os filhos de 14 anos ou mais.
O vetor carc_ocup de variáveis inclui dummies para a posição da ocupação do
trabalhador: se o trabalhador tem carteira assinada (posiçao1); se é
funcionário público estatutário ou militar (posição2); se é autônomo
(posiçao3); e se é empregador (posiçao4), em relação aos empregados sem
carteira assinada e aqueles sem declaração de carteira (categoria de
comparação). Também são incluídos dummiespara o setor de atividade do trabalho
do indivíduo: indústria da transformação e outras atividades industriais
(setor1); construção (setor2); comércio (setor3); alojamento e alimentação
(setor4); transporte, armazenagem e comunicação (setor5); educação, saúde e
serviços sociais (setor6); serviços domésticos(setor7); outras atividades
(setor 8), sendo queo setor referência de comparação é o de administração
pública.
No vetor clima incorporaram-se a média mensal das observações da precipitação
(mm) de setembro (RSEP), as médias mensais das temperaturas (ºC) de janeiro
(TJAN), mês mais quente do ano, e de julho (TJUL), mês mais frio do ano; a
média da umidade relativa do ar (%) (UANUAL), a média das observações da
precipitação anual (RANUAL) e a distância para a praia mais próxima (km)
(DISTMAR). Além destas variáveis, foi incluída, no vetor clima, uma variável
proxy do nível de poluição da região metropolitana: o material particulado
decorrente de queimadas (PM).
Da mesma forma, os três modelos são estimados para a equação dos aluguéis. As
formas reduzidas das equações são:
[/img/revistas/rbepop/v28n2/a08eq05.jpg]
[/img/revistas/rbepop/v28n2/a08eq06.jpg]
[/img/revistas/rbepop/v28n2/a08eq07.jpg]
onde a variável dependente é o preço do aluguel mensal, rij. Nestas equações, o
vetor "mor/com" é composto por uma variável que busca captar a densidade do
imóvel, número de moradores dividido pelo número de cômodos (morcom), o número
de cômodos do imóvel (ncomo), o número de cômodos do imóvel que servem de
dormitório (ndorm), e o número de banheiros do imóvel (nbanheiro).
O vetor "car_imov" inclui uma variável dummy, napart, igual a 1 se o imóvel é
uma casa ou cômodo (0 caso contrário); e duas variáveis dummies para o acesso a
serviços básicos de saneamento: se o imóvel tem acesso à coleta direta do lixo
(lixo); e se o imóvel está ligado à rede coletora de esgoto ou pluvial
(esgoto). O vetor clima é o mesmo considerado nas equações dos salários. O
termo de erro dos modelos é vij.
Analise dos resultados
Equações dos diferenciais salariais e das equações dos aluguéis
As Tabelas_1 e 2 apresentam os resultados dos três modelos estimados a partir
da equação hedônica dos salários e da equação hedônica dos aluguéis,
respectivamente. A variável dependente, na equação dos salários, é o salário
real mensal e, na equação dos aluguéis, é o preço real do aluguel pago
mensalmente. Como o objetivo principal da pesquisa é estimar a função de preço
implícito dos atributos locais considerados nos modelos empíricos definidos na
seção anterior, sendo, portanto, as características dos trabalhadores e dos
imóveis apenas "variáveis controles", nas Tabelas_1 e 2 são omitidos os
coeficientes estimados dessas últimas variáveis. Ou seja, aqui não são
analisados os diferenciais dos salários14 em função das características
individuais dos trabalhadores e da ocupação do trabalho, como meio de
explicação da persistência dos diferencias da remuneração do trabalho entre as
regiões metropolitanas, mas sim os diferenciais dos salários e aluguéis com
respeito aos atributos locais incorporados nos modelos. Contudo, vale salientar
que as referidas variáveis controles incorporadas nos modelos apresentaram
sinais condizentes com as evidências observadas para as regiões metropolitanas
brasileiras.
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Quanto aos resultados dos modelos estimados da equação dos salários, todos os
coeficientes dos atributos locais mostraram-se significantes a 5% e, também,
são conjuntamente significantes. Contudo, cabe ressaltar que os resultados
obtidos pela estimação dos modelos 2 e 3 são utilizados apenas como parâmetros
de comparação com o modelo 1, já que a variável DENSIDADE é endogenamente
determinada pelo modelo, pois as regiões que oferecem melhores oportunidades
econômicas tendem a atuar como uma força de atração dos trabalhadores. Além
disso, o segundo modelo estimado, incluindo a variável LATITUDE, também pode
apresentar esse viés, já que tal variável está significativamente
correlacionada com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Assim, a análise é realizada enfatizando, principalmente, os resultados obtidos
pela estimação do modelo 1.
A respeito da interpretação dos coeficientes estimados dos atributos locais, de
acordo com a abordagem hedônica, deve-se esperar que o diferencial do salário
com relação ao atributo local seja negativo, se o atributo impacta
positivamente a função de utilidade dos trabalhadores, indicando que o
trabalhador está disposto a receber um menor salário na localidade que lhe
ofereça uma maior dotação de tal amenidade. Caso contrário, se o incremento
marginal do atributo local impactar negativamente a função de utilidade dos
trabalhadores, o sinal do coeficiente estimado deverá ser positivo, pois, nesse
caso, o trabalhador deve ser compensado com um maior salário para residir em
uma localidade com uma menor dotação da amenidade.
Tendo, assim, como referência para a análise os resultados obtidos pela
estimação do modelo 1, nota-se que a variável material particulado (PM)
apresentou sinal negativo, o que contradiz as expectativas de que a qualidade
do ar é uma amenidade para os trabalhadores. Contudo, é possível que essa
variável seja correlacionada com outras variáveis econômicas e, portanto, pode
estar captando a influência dessas variáveis, como, por exemplo, da capacidade
produtiva da região na formação dos salários pagos.
Por outro lado, o sinal positivo da variável distância para o mar (DISTMAR)
corrobora as expectativas de que os trabalhadores preferem morar em regiões
próximas ao mar e, por isso, devem ser compensados com um maior salário para
morar mais distantes do litoral.
Ainda de acordo com resultados do modelo 1, há indicações de que os
trabalhadores devem ser compensados com um maior salário para morar nas regiões
metropolitanas com maiores índices médios de precipitação (RANUAL). Mas, o
sinal negativo do coeficiente da precipitação média do mês de setembro (RSET)
indica que esse atributo é uma amenidade para os trabalhadores, impactando
negativamente no seu salário.
A respeito da variável umidade relativa do ar (UANUAL), os resultados sugerem
que um incremento marginal nessa variável impacta negativamente nos salários
dos trabalhadores, sugerindo, conforme preconiza a abordagem hedônica, que tal
variável é uma amenidade para os trabalhadores.
Quanto à temperatura média do mês de janeiro (TJAN), o diferencial do salário
com relação à variável apresentou o sinal negativo, sugerindo que tal variável
é uma amenidade para os trabalhadores. Mas, de acordo com os resultado do
modelo 1, a temperatura média de julho (TJUL) atua como uma "amenidade
negativa" para os trabalhadores, já que eles devem ser compensados com um maior
salário para morar nas regiões metropolitanas mais quentes.
Comparando os resultados do modelo 1 com aqueles obtidos a partir dos modelos 2
e 3, nota-se que a inclusão das variáveis LATITUDE, no segundo modelo, e
DENSIDADE, no terceiro, alterou o sinal dos coeficientes de algumas variáveis.
O coeficiente da variável LATITUDE, referente ao modelo 2, apresentou o sinal
negativo, indicando que as pessoas devem ser compensadas com um maior salário
por morar em regiões com menores latitudes. A variável LATITUDE, correlacionada
positivamente com o IDH, pode captar a influência de outras variáveis, além dos
fatores climáticos, nos diferenciais salariais.
Por fim, o coeficiente positivo da variável densidade demográfica (DENSIDADE),
do modelo 3, sugere que esse atributo é uma "amenidade negativa" para os
trabalhadores, uma vez que eles devem ser compensados com um maior salário para
morar em regiões densamente povoadas.
Analisando agora os resultados obtidos pela estimação das equações dos aluguéis
(Tabela_2) , observa-se que os atributos dos imóveis incorporados no exame
empírico explicam em torno de 56% da formação dos preços dos aluguéis nas
regiões metropolitanas. Além disso, os coeficientes das variáveis incluídas nos
modelos empíricos são estatisticamente significantes a 5% e, também, são
conjuntamente significantes.
A respeito da interpretação dos sinais dos coeficientes estimados, a partir das
equações dos aluguéis, segundo preconiza a abordagem hedônica, se a variável
apresentar o sinal positivo, significa que o atributo é uma amenidade para os
trabalhadores, os quais estão dispostos a pagar um maior preço do aluguel para
morar nas regiões metropolitanas com uma maior dotação da amenidade. Por outro
lado, se o atributo apresentar o coeficiente negativo, indica que um incremento
marginal implicará perdas de bem-estar para os trabalhadores e, portanto, eles
deverão ser compensados com um menor preço do aluguel para morar nas
localidades menos dotadas do atributo.
Dessa forma, tomando como referência o modelo 1, os resultados da equação
hedônica dos aluguéis sugerem que o aumento de um dos componentes da poluição
do ar ' o material particulado (PM) ' influencia positivamente no valor do
aluguel, o que contraria as expectativas de que tal atributo é uma "amenidade
negativa" para os trabalhadores. Contudo, do mesmo modo que foi argumentado
para a equação dos salários, é possível que a variável capte a influência de
outras variáveis nos diferenciais dos aluguéis, como, por exemplo, o
crescimento econômico da região, sendo que esse efeito pode superar as
externalidades negativas geradas pela poluição do ar.
Quanto aos demais coeficientes estimados dos atributos locais, o sinal negativo
do coeficiente da distância para o mar (DISTMAR) sugere que o aumento desta
distância desvaloriza o preço do imóvel, resultado esse também encontrado por
Monte (2004). Há ainda indicações, de acordo com o modelo 1, de que um
incremento na umidade relativa do ar (UANUAL) impacta negativamente o bem-estar
dos trabalhadores.
Com respeito aos atributos de precipitação, os resultados sugerem que a
precipitação média anual (RANUAL) representa uma amenidade para os
trabalhadores, enquanto a precipitação média de setembro (RSET) constitui uma
"amenidade negativa", sendo que a primeira atua valorizando o preço do aluguel
do imóvel e a segunda desvalorizando.
Para os atributos de temperatura, o sinal positivo da temperatura média de
janeiro (TJAN) sugere que o aumento da temperatura neste mês influencia
positivamente a função de bem-estar dos trabalhadores, enquanto o incremento da
temperatura média de julho (TJUL) atua negativamente.
Também foi evidenciado, pela estimação do modelo 2, que os trabalhadores
preferem morar nas regiões metropolitanas com latitudes mais elevadas. A
respeito do coeficiente da densidade demográfica (DENSIDADE), o sinal positivo
do coeficiente da variável (modelo 3) sugere que um incremento marginal na
densidade demográfica age valorizando o preço do aluguel do imóvel.
Estimação da propensão marginal a pagar pelas amenidades e construção do índice
de qualidade de vida hedônico
Com base nos coeficientes obtidos a partir da estimação das equações dos
salários e dos aluguéis, é derivada a função de preço implícito que os
trabalhadores estão dispostos a pagar por cada atributo local "z", calculado
pela diferença entre o coeficiente estimado do atributo local com base na
equação hedônica dos aluguéis [/img/revistas/rbepop/v28n2/a08tx01.jpg] e do
coeficiente estimado a partir da equação hedônica dos salários [/img/revistas/
rbepop/v28n2/a08tx02.jpg] :
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onde Βrz é o coeficiente do atributo "z" obtido pela estimação da equação dos
aluguéis, e Βwz é o coeficiente do atributo "z", estimado a partir da equação
dos salários.
Dessa forma, de acordo com a abordagem hedônica, se o atributo local "z"
representar uma amenidade para os trabalhadores, a função de preço implícita
quantifica o quanto os trabalhadores estão dispostos a pagar por um incremento
marginal no atributo. No caso contrário, se um incremento no atributo local
impactar negativamente a função de utilidade dos trabalhadores, a função de
preço implícito apresentará o sinal negativo.
A Tabela_3 informa sobre o preço implícito de cada atributo local incorporado
no exame empírico, calculado com base na expressão (11), conforme sugerido por
Roback (1982). Analisando, assim, as funções de preço implícito, referente ao
modelo 1, na ordem como estão dispostos na Tabela_3, observa-se que o sinal
positivo do preço implícito da poluição do ar (PM) sugere que o incremento
marginal da poluição do ar influencia positivamente a função de utilidade dos
trabalhadores. Mais uma vez, pode-se intuir que essa variável deve estar
captando a influência de outras variáveis que são correlacionadas com a mesma
e, nesse caso, não estaria refletindo o verdadeiro valor que os trabalhadores
atribuem para morar em localidades que tenham uma boa qualidade do ar.
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Em adição, os resultados estimados indicam que os trabalhadores preferem morar
em localidades próximas ao mar (ver o sinal negativo da variável DISTMAR).
Com relação aos indicadores de precipitação, conforme o modelo 1 sugere, os
trabalhadores preferem morar nas regiões metropolitanas com maior índice médio
de precipitação anual (RANUAL), mas com menor média de precipitação no mês de
setembro (RSET). Contudo, pode-se dizer que esses resultados são
contraditórios, pois, contrário do obtido pela estimação da equação hedônica
dos salários e aluguéis, no caso de os dois atributos representarem uma
amenidade para os trabalhadores, ambos deveriam apresentar o coeficiente
negativo, pela estimação da equação dos salários, e o sinal positivo, pela
estimação da equação dos aluguéis (ver Tabela_4)
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Já a função de preço implícito da umidade relativa do ar (UANUAL), calcu-lada a
partir do modelo 1, sugere que o aumento marginal da umidade relativa do ar
(UANUAL) influencia positivamente a função de utilidade dos trabalhadores.
Quanto à temperatura média de janeiro (TJAN), o sinal positivo da função de
preço implícito desse atributo, obtido a partir do modelo 1, sugere que o
aumento da temperatura neste mês tem um efeito positivo para o bem-estar dos
trabalhadores. Mas, os resultados sugerem que a temperatura média de julho
(TJUL) atua como uma amenidade negativa para os trabalhadores, um incremento
desse atributo influencia negativamente a função de utilidade dos
trabalhadores.
Além disso, de acordo com o modelo 2, os trabalhadores preferem morar nas RMs
com as maiores latitudes. E a função de preço implícito estimado da densidade
demográfica (DENSIDADE), referente ao modelo 3, indica que os trabalhadores
preferem residir nas RMs com menores densidades demográficas.
De posse dos preços implícitos estimados, é calculado o índice de qualidade de
vida proposto por Roback (1982), ordenando-se as regiões metropolitanas de
acordo com suas dotações dos atributos locais considerados para o cálculo do
índice.
A respeito dos índices de qualidade de vida calculados com base em Roback
(1982), vale a ressalva de que interpretações cautelosas devem ser realizadas
quanto aos rankings obtidos com base na abordagem hedônica. Primeiro, como já
evidenciado, algumas variáveis não apresentaram o sinal esperado e, por isso,
tais limitações devem ser levadas em conta para a interpretação dos resultados.
Segundo, o índice de qualidade de vida hedônico é uma medida relativa, pois
mensura apenas o valor dos atributos locais incorporados no exame empírico.
Consequentemente, pode haver variabilidade nos rankings, quando são explorados
diferentes atributos locais.
Contudo, os rankings obtidos a partir dos três modelos estimados ' do modelo 1,
o qual explora apenas atributos de clima, geográfico e da poluição do ar, do
modelo 2, que, além desses atributos, foi adicionada a variável "latitude", e
do modelo 3, com a incorporação da variável "densidade demográfica" ' apontaram
para a mesma ordenação das duas regiões metropolitanas que ficaram nas primeira
e segunda colocações do ranking: do Rio de Janeiro e de Porto Alegre,
respectivamente. Quanto às demais regiões metropolitanas, considerando-se o
modelo 1, ficaram ordenadas da seguinte forma: RM de Belém em terceiro lugar,
seguida pelas de Curitiba, Salvador, São Paulo, Fortaleza, Recife e Belo
Horizonte.
Um fato a ser destacado é a baixa variabilidade nas colocações das regiões
metropolitanas nos três ranking, com a introdução da variável "latitude", no
segundo modelo, e da variável "densidade", no terceiro, apontando os dois
últimos modelos para a mesma ordenação das regiões metropolitanas.
A respeito dessa regularidade observada dos resultados, primeiramente pode-se
intuir que os atributos, comuns aos quatro modelos, têm um maior peso quando
ponderados pela função de preço implícito, para o cálculo do ranking, em
relação à latitude (modelo 2), e da densidade demográfica (modelo 3).
Por outro lado, considerando-se o modelo 1, um resultado mais intuitivo seria
que as regiões metropolitanas mais próximas geograficamente e com atributos
climáticos mais parecidos ficassem em colocações mais próximas nos rankings.
Porém, observando os rankings, percebe-se, por exemplo, que, enquanto a RM de
Belém ficou na terceira colocação, a de Fortaleza ocupou o sétimo lugar.
Considerações finais
O artigo teve como objetivo principal inferir sobre a influência das amenidades
naturais nas escolhas locacionais dos trabalhadores das regiões metropolitanas.
Além disso, são apresentadas estimativas para a propensão marginal a pagar
pelas amenidades locais exploradas na pesquisa, bem como um ranking da
qualidade desses atributos para as regiões metropolitanas brasileiras.
Três modelos são estimados. O primeiro considera apenas atributos climáticos,
geográficos e da poluição do ar, variáreis estas comuns aos três modelos. Da
mesma forma, um segundo modelo foi estimado adicionando, ao primeiro, a
variável "latitude" das regiões metropolitanas e, no terceiro modelo estimado,
incluiu-se a variável "densidade demográfica".
De acordo com o modelo de Roback (1982), se o atributo local influencia
positivamente a função de utilidade dos trabalhadores, o diferencial do salário
com relação a esse atributo deve ser negativo e o diferencial do preço do
aluguel com relação ao atributo, positivo. Nesse caso, portanto, a diferença
entre os dois diferenciais, do preço do aluguel e do salário, com relação ao
atributo local, será positiva, indicando que o atributo é uma amenidade e que
os trabalhadores estão dispostos a pagar pelo seu consumo.
Assim, utilizando como referência o modelo 1, os resultados indicaram que os
trabalhadores estão dispostos a pagar para morar em regiões mais próximas à
costa, nas RMs com os maiores índices médios de precipitação anual, nas RMs
mais úmidas e com as maiores temperaturas médias no mês de janeiro. Por outro
lado, os trabalhadores devem ser compensados monetariamente para morar nas RMs
com os maiores índices médios de precipitação no mês de setembro e com as
maiores temperaturas médias em julho.
Porém, também foram obtidos alguns resultados não esperados, dos sinais dos
diferenciais dos salários e dos preços dos aluguéis com respeito aos atributos
locais incorporados no exame empírico, o que influenciou no sinal positivo da
função de preço implícito da variável "poluição do ar". Contudo, vale ressalvar
que tal variável pode estar captando a influência de outras variáveis que devem
atuar como amenidades para os trabalhadores.
Desta forma, diante de alguns resultados não esperados, obtidos pela estimação
das equações hedônicas dos salários e dos aluguéis, recomenda-se que pesquisas
que utilizem a abordagem hedônica, como método de valoração das amenidades,
sejam realizadas com cautelas, levando em consideração as limitações impostas
pela abordagem para a obtenção do verdadeiro valor que as pessoas estão
dispostas a pagar pelas amenidades.