TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

BrBRHUAp0102-30982010000100009

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioHumanities
Great areaApplied Social Sciences
ISSN0102-3098
ano2010
Issue0001
Article number00009

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Dinâmicas de urbanização na hiperperiferia da metrópole de São Paulo: análise dos processos de expansão urbana e das situações de vulnerabilidade socioambiental em escala intraurbana

Introdução A segunda metade do século XX marcou a aceleração do processo de urbanização no Brasil, em particular no Estado de São Paulo, acarretando, principalmente, a formação de regiões metropolitanas, a verticalização e o adensamento das áreas urbanizadas e a expansão urbana para as áreas periféricas (REIS; TANAKA, 2007; MEYER et al., 2004). No Estado de São Paulo, estes processos assumiram grandes proporções, fazendo com que a população urbana chegasse a quase 40 milhões de pessoas em 2010 (cerca de 95% do total estadual). Grande parte desta população urbana vive em regiões de caráter metropolitano, sendo a principal delas a Região Metropolitana de São Paulo, que abrange 39 municípios e abriga quase 20 milhões de pessoas em 2010.1 No presente trabalho, serão estudadas algumas dimensões sociais e ambientais das dinâmicas de urbanização que estão ocorrendo em uma região hiperperiférica da metrópole de São Paulo, no período recente (2000 a 2006). Mais especificamente, o foco recairá nos processos de expansão urbana (periferização e periurbanização) e nas situações de vulnerabilidade socioambiental, procurando analisar as inter-relações entre estes dois fenômenos em escala intraurbana.

Os processos de expansão urbana, periferização e periurbanização, que se desenvolvem na metrópole de São Paulo, são muito diversos, envolvendo a dispersão espacial tanto de grupos de baixa renda (exemplificados pela autoconstrução e por loteamentos irregulares e favelas), quanto de grupos de média e alta renda (como os condomínios fechados). Estas dinâmicas de ocupação das áreas periféricas e periurbanas têm fortes implicações sociais e ambientais. Entre os impactos socioambientais deste processo de periferização, está a ampliação das jornadas entre o centro e as áreas periféricas, com consequente aumento do trânsito e da poluição do ar. A expansão destas áreas também implica ausência de saneamento básico, principalmente rede de esgoto, e poluição de rios e córregos, além de um forte processo de desmatamento e degradação ambiental (TORRES; ALVES; OLIVEIRA, 2007a).

as situações de vulnerabilidade socioambiental podem ser definidas como a sobreposição ou cumulatividade de problemas e riscos sociais e ambientais, que se concentram em determinadas áreas, espalhadas por toda a metrópole. Esta sobreposição (ou coexistência espacial) faz com que situações de pobreza e vulnerabilidade social, presentes em muitas áreas periféricas e periurbanas, sejam agravadas por exposição a riscos e degradação ambiental, tais como enchentes, deslizamentos de terra, poluição, contato com doenças de veiculação hídrica, etc. Portanto, acreditamos que o conceito de vulnerabilidade socioambiental pode captar e traduzir os fenômenos de sobreposição espacial e interação entre problemas e riscos sociais e ambientais, sendo adequado para analisar o crescente entrelaçamento entre as dimensões sociais e ambientais da urbanização (ALVES, 2006; ALVES; TORRES, 2006).

Assim, o objetivo geral deste trabalho é fazer uma análise, em escala intraurbana, das inter-relações entre os processos de expansão urbana e as situações de vulnerabilidade socioambiental, em uma região hiperperiférica da metrópole de São Paulo, no período recente (2000 a 2006).2 Desse modo, serão analisadas as associações entre estes dois fenômenos, particularmente a forma como os processos de expansão urbana e crescimento das áreas periféricas e periurbanas podem gerar novas situações de vulnerabilidade socioambiental, ao promoverem a presença de população de baixa renda em áreas sem infraestrutura e serviços urbanos e com exposição a riscos e degradação ambiental. É o caso, por exemplo, do surgimento e expansão de loteamentos irregulares e favelas em áreas de risco e naquelas protegidas por legislação ambiental, nas periferias e áreas periurbanas dos diversos municípios da Região Metropolitana de São Paulo.

Para atingir o objetivo proposto no trabalho, a metodologia geral do estudo envolve o mapeamento do uso do solo e das áreas de expansão urbana, por meio de imagens de satélite, e a identificação e caracterização de situações (áreas) de vulnerabilidade socioambiental, com a construção e análise de indicadores socioambientais ao nível dos setores censitários do Censo 2000 do IBGE, integrando dados socioeconômicos, demográficos e ambientais.3 Portanto, este artigo traz contribuições metodológicas, empíricas e analíticas bastante relevantes e atuais para os estudos de população, em sua interface com os estudos urbanos e ambientais.4

Breve revisão da literatura Além da breve revisão de uma literatura que discute os temas vulnerabilidade socioambiental e expansão urbana, apresenta-se uma rápida discussão sobre aplicações de geoprocessamento e sensoriamento remoto para áreas urbanas e metropolitanas.

Uma parte significativa da literatura sobre a questão urbana no Brasil mostra que a expansão urbana para as áreas periféricas está relacionada à procura por habitação em áreas com baixo preço da terra, o que provoca aumento das ocupações precárias, como favelas e loteamentos irregulares, em áreas sem infraestrutura e expostas a risco e degradação ambiental (BONDUKI; ROLNIK, 1982; SMOLKA, 1993; MARICATO, 1996).

Assim, esta dinâmica de urbanização nas regiões periféricas, através da ocupação ilegal e predatória de terra urbana, faz com que grande parte das áreas urbanas de risco e proteção ambiental, tais como as margens dos cursos d'água, esteja ameaçada pelas ocupações precárias de uso habitacional de baixa renda, por absoluta falta de alternativas habitacionais, seja via mercado privado, seja via políticas públicas sociais (MARICATO, 2003).

Portanto, uma tendência de os grupos de mais baixa renda residirem em áreas com más condições urbanísticas e sanitárias e em situações de risco e degradação ambiental, tais como terrenos próximos de cursos d'água e de lixões ou com alta declividade. A explicação mais geral é a de que estas constituem as únicas áreas acessíveis à população de mais baixa renda, seja porque são públicas e/ou de preservação (invadidas), seja porque são muito desvalorizadas no mercado de terras, devido às características de risco e à falta de infraestrutura urbana (ALVES, 2007).5 De fato, o nível dos problemas sociais e ambientais de determinadas áreas é impressionante, superpondo, em termos espaciais (e sociais), os piores indicadores socioeconômicos com riscos de enchentes e deslizamentos de terra, um ambiente intensamente poluído e serviços públicos extremamente ineficientes.

Assim, em alguns espaços da periferia, verifica-se intensa concentração de indicadores negativos, que sugerem a presença de "pontos críticos" de vulnerabilidade social (e ambiental), revelando a existência de uma espécie de periferia da periferia (TORRES; MARQUES, 2001).

Na metrópole de São Paulo, o expressivo crescimento demográfico e a expansão horizontal das áreas periféricas mais distantes, também denominadas hiperperiferia ou fronteira urbana, têm contribuído para o aumento da heterogeneidade das periferias e para o crescimento da pobreza e vulnerabilidade social e ambiental. A porção da periferia que Torres (2005) classifica como "fronteira urbana" refere-se a um tipo particular de periferia, com altas taxas de crescimento demográfico e substancial migração e precariedade no acesso a serviços públicos, particularmente saneamento. Ou seja, as fronteiras urbanas são regiões que apresentam infraestrutura precária e em construção, sendo objeto de importantes conflitos sobre a posse da terra urbana (loteamentos clandestinos, favelas). O Estado, em geral, está pouco presente, seja regulando o uso da terra, seja por meio da oferta de serviços públicos. Estes elementos revelam o elevado grau de vulnerabilidade social (e ambiental) destas áreas hiperperiféricas e de fronteira urbana (TORRES; ALVES; OLIVEIRA, 2007a).6 Na verdade, desde a década de 1970, tem havido um forte processo de periferizacão, com incorporação de uma vasta área à mancha urbana da metrópole, muitas vezes pela invasão de terras por loteamentos clandestinos e favelas (MARCONDES, 1999). Nas três últimas décadas, os dois grandes eixos de expansão da cidade de São Paulo foram as regiões leste e sul, sendo que esta última, inserida na área de proteção a mananciais, tem apresentado forte ritmo de crescimento, que se intensificou nos últimos anos. Mais recentemente, vem ocorrendo forte expansão na direção da região norte do município, que está localizada nas encostas da Serra da Cantareira, com muitas áreas com altas declividades (MEYER et al., 2004).7 Nas últimas décadas, também tem ocorrido um forte processo de expansão e periferização das favelas da Região Metropolitana de São Paulo, particularmente no município de São Paulo, geralmente ocupando áreas públicas que, muitas vezes, localizam-se em fundos de vale e beiras de córregos, com risco de enchentes, ou em encostas com declividades acentuadas, com alta propensão à erosão (TASCHNER, 2000).

Cabe destacar que estes grandes processos de transformação por que têm passado as áreas periféricas da metrópole de São Paulo explicitam um crescente entrelaçamento e sobreposição entre problemas socioeconômicos e ambientais, constituindo um desafio para as políticas públicas que, na maioria das vezes, são compartimentalizadas segundo áreas de intervenção setorial. Assim, o grande número de situações de sobreposição de péssimas condições sociais e sanitárias a riscos e conflitos ambientais torna necessárias abordagens que contemplem as relações e interações entre as dimensões sociais e ambientais da urbanização (ALVES, 2006; ALVES; TORRES, 2006).

Nesse sentido, um conceito viável para analisar estas relações é o de vulnerabilidade socioambiental, que pode ser definido como a coexistência, cumulatividade ou sobreposição espacial de situações de pobreza/privação social e de situações de exposição a risco e/ou degradação ambiental. Assim, é justamente a combinação dessas duas dimensões - social e ambiental - que está sendo considerada uma situação de vulnerabilidade socioambiental (ALVES, 2006).8 No Brasil, o Grupo de Trabalho População, Espaço e Ambiente, da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep), tem tido papel fundamental no avanço conceitual e metodológico, no contexto da demografia, nos estudos sobre risco e vulnerabilidade. Um dos conceitos centrais abordados pelos pesquisadores deste grupo foi o de populações em situação de risco (MARANDOLA; HOGAN, 2005).

Em um dos livros publicados por este grupo, Torres (2000) discute teoricamente o conceito de risco ambiental, debatendo sobre os problemas e as dificuldades para sua operacionalização. Para o autor, um dos aspectos mais relevantes diz respeito à questão da cumulatividade de riscos de diferentes origens. Nesse sentido, as áreas de risco ambiental (próximas de lixões, sujeitas a inundações e desmoronamentos), muitas vezes, são as únicas acessíveis às populações de mais baixa renda, que acabam construindo nesses locais domicílios em condições precárias, além de enfrentarem outros problemas sanitários e nutricionais.

Para finalizar esta breve revisão da literatura, apresenta-se, a seguir, uma rápida discussão sobre aplicações de geoprocessamento e sensoriamento remoto para áreas urbanas e metropolitanas.

O monitoramento da expansão urbana em regiões metropolitanas torna-se difícil e oneroso se realizado com técnicas convencionais de obtenção de dados, como levantamentos de campo e aerofotogramétricos tradicionais. Em países com dimensões continentais e escassez de recursos para atualização de dados cartográficos fundamentais para estudos que envolvem a espacialização das informações, como no caso do Brasil, o uso de imagens de satélite poderá fornecer informações importantes de fenômenos que se diferenciam pelo seu dinamismo, como é o caso da expansão das áreas urbanas e periurbanas, principalmente em regiões metropolitanas. Assim, uma fonte confiável e atualizável de dados para estudos urbanos, alimentação de modelos urbanos e validação dos mesmos pode ser fornecida por Sensoriamento Remoto (PENG et al., 2007).

Até o começo dos anos 2000, a maioria dos trabalhos de Sensoriamento Remoto era focada em levantamento de recursos naturais e pouco desenvolvida para estudos urbanos. A aplicação da tecnologia para áreas urbanas, entretanto, se intensificou com o avanço das imagens de alta resolução. O progresso tecnológico e o desenvolvimento de novos sensores têm resultado em considerável melhoria da resolução espacial, radiométrica e espectral dos dados. Dessa forma, surgem novas possibilidades de uso de imagens orbitais para estudos urbanos mais detalhados em escalas intraurbana e local (BLASCHKE; KUX, 2005).

Por meio de Sistemas de Informação Geográfica (SIG), os dados retirados das imagens de satélite, a um baixo custo e em curto espaço de tempo, poderão ser integrados a informações obtidas por censos demográficos, pesquisas institucionais e dados de cadastros das prefeituras. O uso de imagens e SIG permite avaliar não apenas os impactos ambientais causados pela urbanização espontânea, mas também os riscos aos quais se submetem as populações por se localizarem em áreas ecologicamente frágeis, como planícies de inundação e áreas de encosta (ALMEIDA et al., 2007).

Breve contextualização da região de estudo - o distrito de Cidade Tiradentes e áreas contíguas Na realização do presente trabalho, foi definida como região de estudo uma porção do extremo leste do município de São Paulo, que inclui o distrito de Cidade de Tiradentes e algumas áreas contíguas a ele (Mapa_1).

A região de estudo é representativa dos processos de periferização e crescimento de áreas periurbanas na Região Metropolitana de São Paulo, marcados pela presença de grupos populacionais de baixa renda em áreas sem infraestrutura urbana e expostos a risco e degradação ambiental. Grande parte da região é classificada por estudos anteriores como área de alta vulnerabilidade social (CEM-CEBRAP; SAS-PMSP, 2004).

A expansão de assentamentos precários e informais, como loteamentos irregulares e favelas, nessa região, é um aspecto importante para sua seleção como área a ser estudada. Além disso, grande parte da expansão destes tipos de assentamento se deu em áreas de risco ambiental, tais como margens de rios e córregos e localidades de altas declividades, sujeitas a enchentes e deslizamentos, respectivamente. Assim, é uma área que necessita de estudos que forneçam subsídios para o planejamento de políticas públicas sociais e ambientais, no que se refere a habitação, saneamento e uso do solo.

Cidade Tiradentes foi planejada como um grande conjunto periférico tipo "bairro-dormitório", com a finalidade de realocar população sem moradia de outros bairros do município de São Paulo e diminuir o déficit habitacional, passando a abrigar enormes contingentes de famílias, que aguardavam na "fila" da casa própria de companhias habitacionais. Esse distrito é considerado, atualmente, o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina, com cerca de 40 mil unidades habitacionais, a maioria construída na década de 1980 pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab), pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) e por grandes empreiteiras.9 Além das questões habitacionais mencionadas anteriormente, a distância do centro de São Paulo e a ausência de postos de trabalho estão entre os principais problemas enfrentados pela população residente em Cidade Tiradentes, que registra um desgastante deslocamento diário de milhares de pessoas em direção às regiões centrais, o qual chega a demorar de quatro a cinco horas por dia no percurso casa-trabalho-casa, por meio de ônibus, trem, metrô e van (ALMEIDA et al., 2008).

Com relação às características demográficas e socioeconômicas, o distrito de Cidade Tiradentes possui 191 mil habitantes (ano 2000) e apresenta níveis bastante baixos de renda e escolaridade, além de infraestrutura e serviços urbanos muito precários, correspondendo a um padrão típico de região hiperperiférica da metrópole de São Paulo.10 Porém, destaca-se que a região não é homogênea, abrangendo desde áreas formalizadas e legalizadas, como os conjuntos habitacionais, até áreas bastante precárias e informais, como as ocupações, favelas e loteamentos irregulares.

Metodologia Para atingir o objetivo proposto no trabalho, que é analisar as inter-relações entre os processos de expansão urbana e as situações de vulnerabilidade socioambiental, a metodologia geral do estudo envolveu o mapeamento do uso do solo e das áreas de expansão urbana, bem como a identificação e caracterização de situações (áreas) de vulnerabilidade socioambiental. Assim, a metodologia do trabalho foi desenvolvida em duas partes: classificação de imagens de satélite, para identificar as classes de uso e cobertura do solo e os processos de expansão urbana, no período 2000-2006; e construção e análise de indicadores sociais e ambientais, ao nível dos setores censitários do Censo 2000 do IBGE, de maneira a operacionalizar o conceito de vulnerabilidade socioambiental. A seguir, descreve-se cada uma destas partes da metodologia.

Inicialmente, foram mapeadas e caracterizadas as classes de uso e cobertura do solo e as áreas de expansão urbana, por meio da classificação e análise multitemporal de duas imagens de satélite de alta resolução espacial (IKONOS) de 2000 e 2006, abrangendo a região do distrito de Cidade Tiradentes e entorno.

Com isso, visou-se verificar se houve aumento e mudanças nos diferentes tipos de uso do solo urbano, especialmente de assentamentos precários, como favelas e loteamentos irregulares.11 As classificações foram feitas de forma manual, por interpretação visual e edição digital diretamente na tela do computador. A definição das classes que comporiam a legenda de uso e cobertura do solo para a área de estudo levou em consideração os objetivos do trabalho e algumas legendas existentes. As legendas utilizadas como referência foram o sistema desenvolvido por Anderson et al. (1972) e as classes descritas pela Emplasa, no Mapeamento de uso e ocupação do solo da RMSP (EMPLASA, 2003). O Mapa_2 mostra a imagem classificada da região de Cidade Tiradentes para 2006.12 Como mencionado, a segunda parte da metodologia consistiu na operacionalização do conceito de vulnerabilidade socioambiental, por meio da construção e análise de indicadores sociais e ambientais. Esta metodologia foi originalmente desenvolvida para outro estudo sobre vulnerabilidade socioambiental no município de São Paulo e está descrita em detalhes em Alves (2006).

Para se chegar ao conceito de vulnerabilidade socioambiental, primeiramente foi realizada a operacionalização do conceito de vulnerabilidade social, utilizando-se dados do Mapa da vulnerabilidade social da população da cidade de São Paulo (CEM-CEBRAP; SAS-PMSP, 2004). A partir deste mapa, os setores censitários da região de Cidade Tiradentes e entorno foram classificados em três grupos: baixa, média e alta vulnerabilidade social. Em seguida, foram selecionados apenas os setores de alta vulnerabilidade social.

Posteriormente, operacionalizou-se o conceito de vulnerabilidade ambiental, por meio da construção e análise de indicadores ambientais, relativos à proximidade de cursos d'água e à cobertura de esgoto. Assim, foram definidos dois tipos de área: as de baixa vulnerabilidade ambiental, que correspondem aos setores censitários com mais de 50% dos seus domicílios com cobertura da rede de esgoto e localizados a mais de 50 metros de cursos d'água; e as de alta vulnerabilidade ambiental, que englobam os setores com menos de 50% dos seus domicílios com cobertura da rede de esgoto e/ou localizados a menos de 50 metros de cursos d'água. Assim, os setores de alta vulnerabilidade ambiental são aqueles com baixa cobertura de esgoto e/ou localizados muito próximos de cursos d'água (ALVES, 2006).

Portanto, na metodologia desenvolvida para o presente estudo, foi realizada a integração de dados socioeconômicos, demográficos e ambientais, por meio de metodologias de sensoriamento remoto, geoprocessamento e indicadores socioambientais, para análise das inter-relações entre os processos de expansão urbana recente e as situações de vulnerabilidade socioambiental, em nível intraurbano.13

Análise dos indicadores socioeconômicos e demográficos para as duas categorias de vulnerabilidade [socio]ambiental Nesta parte do trabalho, analisam-se os setores censitários de alta vulnerabilidade social da região de Cidade Tiradentes e entorno (selecionados do Mapa da vulnerabilidade social), de acordo com as duas categorias de vulnerabilidade ambiental apresentadas na metodologia, as quais foram construídas com base em indicadores de risco e degradação ambiental, mais precisamente da combinação das variáveis relativas a proximidade de cursos d'água e cobertura de esgoto. Portanto, neste trabalho, analisa-se a vulnerabilidade ambiental apenas para os setores censitários de alta vulnerabilidade social.

A região de estudo (Distrito de Cidade Tiradentes e entorno) possuía uma população de 266 mil pessoas em 2000, das quais 149 mil residiam em áreas (setores censitários) de alta vulnerabilidade social, o que correspondia a 56% da população da região. Entre os moradores em áreas de alta vulnerabilidade social, 68,8% (102,4 mil pessoas) encontravam-se em áreas com baixa vulnerabilidade ambiental e 31,2% (46,5 mil pessoas) naquelas com alta vulnerabilidade ambiental (Tabela_1 e Mapa_3).

A seguir, realiza-se a comparação entre os indicadores socioeconômicos e demográficos desses dois grupos de vulnerabilidade ambiental, para observar as expressivas diferenças entre eles.

Inicialmente, compara-se o acesso a serviços públicos, no caso, às condições de saneamento básico, para os dois grupos de vulnerabilidade ambiental. Como mostram os indicadores da Tabela_1, as diferenças entre os dois grupos são significativas em relação às coberturas da rede de abastecimento de água e da coleta de lixo. Assim, enquanto no grupo de baixa vulnerabilidade ambiental o acesso à rede de água e à coleta de lixo é quase universal, nas áreas de alta vulnerabilidade ambiental os acessos a estes dois serviços atingem porcentagens médias bem menores, com 87,2% para rede de água e 90,1% para coleta de lixo.

em relação à cobertura de esgoto, as diferenças entre os dois grupos são extraordinárias. Enquanto nas áreas de baixa vulnerabilidade ambiental 93,3% dos domicílios estão ligados à rede de esgoto, no grupo de alta vulnerabilidade ambiental este percentual é de meros 40,7%, o que revela a total ausência de cobertura da rede de esgoto na maioria dos domicílios deste grupo.

As diferenças nos indicadores de escolaridade e de renda também são bastante expressivas entre os dois grupos de vulnerabilidade ambiental. Nas áreas classificadas na categoria de baixa vulnerabilidade ambiental (com alta cobertura de esgoto e fora da margem de curso d'água), 23,6% dos chefes de domicílio possuem baixa escolaridade (até três anos de estudo), percentual que chega a 31,2% nas áreas de alta vulnerabilidade ambiental (com baixa cobertura de esgoto e/ou à margem de curso d'água) (Tabela_1).

Nos indicadores de renda, também se observa considerável variação entre os dois grupos de vulnerabilidade ambiental. A concentração de chefes de domicílio com baixa renda (que recebem até três salários mínimos, incluindo-se os sem renda) é significativamente maior nas áreas de alta vulnerabilidade ambiental (67,9%) do que naquelas com baixa vulnerabilidade ambiental (60%) (Tabela_1).14 Com relação à estrutura etária da população, as diferenças entre os dois grupos de vulnerabilidade ambiental também são significativas. Nas áreas de alta vulnerabilidade ambiental, as crianças de zero a quatro anos de idade15 representam 13,3% da população, enquanto naquelas de baixa vulnerabilidade ambiental correspondem a 11,5%.16 Em resumo, os resultados mostram que as áreas (setores censitários) com alta vulnerabilidade ambiental possuem condições socioeconômicas significativamente piores, além de maior concentração de crianças e jovens, do que aquelas com baixa vulnerabilidade ambiental.

Uma explicação para esta elevada concentração de problemas e riscos sociais e ambientais, nas áreas de alta vulnerabilidade ambiental, está ligada ao fato de que estas, muitas vezes, são as únicas localidades acessíveis à população de mais baixa renda, pois são muito desvalorizadas no mercado de terras por serem pouco propícias à ocupação, devido às características de risco e falta de infraestrutura urbana. Outra possível explicação é a de que estes locais correspondem a áreas não edificantes, isto é, consideradas impróprias, pelas legislações urbanística e ambiental, para ocupação urbana, seja porque oferecem risco ambiental, seja porque são áreas de preservação permanente. Neste caso, na maioria das vezes, são áreas (públicas ou privadas) invadidas, em geral por assentamentos precários, que se configuram como áreas de favela.

Análise dos tipos de uso e cobertura do solo e da expansão urbana para as duas categorias de vulnerabilidade [socio]ambiental A seguir, realiza-se uma análise comparativa entre as duas categorias de vulnerabilidade ambiental (descritas na metodologia e no item anterior), em relação aos tipos de uso e cobertura do solo e aos processos de expansão urbana, a partir da classificação de duas imagens de satélite IKONOS (de 2000 e 2006) da região da Cidade Tiradentes e entorno.

Os resultados revelam que, nas áreas (setores censitários) de baixa vulnerabilidade ambiental, predominam assentamentos formalizados e legalizados, como conjuntos habitacionais e zonas residenciais consolidadas. nas áreas (setores censitários) de alta vulnerabilidade ambiental, são mais expressivos os assentamentos precários e informais, tais como favelas e loteamentos irregulares (Tabelas_2, 3 e 4).

A classificação da imagem de satélite IKONOS de 2000 mostra que, no conjunto de setores censitários de baixa vulnerabilidade ambiental, 67% da malha urbana correspondia a assentamentos não precários (ou formalizados), sendo 19,4% de conjuntos habitacionais e 47,6% de zonas residenciais consolidadas. Nessas áreas de baixa vulnerabilidade ambiental, os assentamentos precários englobavam apenas 19,2% da mancha urbana, sendo 14,2% de loteamentos irregulares e 5% de favelas.

no conjunto de setores censitários de alta vulnerabilidade ambiental, a proporção da mancha urbana ocupada por assentamentos precários chegava a expressivos 44%, dos quais 30% eram loteamentos irregulares e 13,9% favelas.

Nessas áreas, os assentamentos não precários (ou formalizados) correspondiam a apenas 38,6% da mancha urbana, sendo 11,6% de conjuntos habitacionais e 27,1% de zonas residenciais consolidadas (Tabela_2).

Também cabe destacar que os assentamentos precários presentes no grupo de alta vulnerabilidade ambiental ocupavam uma área quase duas vezes maior do que no grupo de baixa vulnerabilidade ambiental, com respectivamente 197 e 106 hectares.

Em resumo, a classificação da imagem de satélite de 2000 revela que tanto a proporção como a extensão territorial de assentamentos precários nas áreas de alta vulnerabilidade ambiental possuem dimensão duas vezes maior do que naquelas de baixa vulnerabilidade ambiental. Estes dados reforçam a hipótese de sobreposição entre vulnerabilidades sociais e ambientais, com concentração e cumulatividade de problemas e riscos sociais e ambientais em determinadas áreas, espalhadas pelas periferias da metrópole de São Paulo.

Entre 2000 e 2006, ocorreu um processo bastante dinâmico de expansão urbana na região do distrito de Cidade Tiradentes e entorno, com a mancha urbana passando de 1.637 hectares, em 2000, para 1.886 hectares, em 2006, correspondendo a um crescimento de quase 250 hectares (ou 15,2%) nesse período.

Porém, comparando-se os dois grupos de vulnerabilidade ambiental, verifica-se que as áreas de alta vulnerabilidade ambiental tiveram uma expansão urbana muito maior do que aquelas de baixa vulnerabilidade ambiental, tanto em números absolutos como relativos. Assim, no período 2000-2006, enquanto no grupo de baixa vulnerabilidade ambiental a mancha urbana aumentou 66 hectares (11,8%), no de alta vulnerabilidade ambiental, esse crescimento correspondeu a 113 hectares (25,1%), ou seja, mais de ¼ da mancha urbana existente em 2000.

Outra diferença marcante entre os dois grupos diz respeito aos tipos de uso do solo que mais cresceram no período 2000-2006. No de baixa vulnerabilidade ambiental, a área ocupada por assentamentos não precários (ou formalizados) cresceu 19,7% (74 ha), enquanto aquela ocupada por assentamentos precários diminuiu 29,3% (31 ha). Esta redução significa que houve uma mudança para outros tipos de uso do solo, principalmente de loteamentos irregulares para zonas residenciais consolidadas, por meio da consolidação e regularização desses loteamentos (Tabela_4).

No grupo de alta vulnerabilidade ambiental, a área ocupada por assentamentos não precários (ou formalizados) aumentou em 72 ha, valor muito próximo ao do grupo de baixa vulnerabilidade ambiental (74 ha). em termos relativos, este crescimento foi bastante expressivo (41,5%), o que é explicado pela pequena extensão territorial ocupada por assentamentos formalizados no grupo de alta vulnerabilidade ambiental em 2000.17 Porém, para a problemática abordada neste artigo, o que chama mais atenção é o significativo crescimento da área ocupada por assentamentos precários no grupo de alta vulnerabilidade ambiental, que passou de 197 hectares, em 2000, para 224 hectares, em 2006, correspondendo a um crescimento de 27 hectares (ou 13,7%) nesse período. Tal expansão contrasta com a forte redução da área ocupada por assentamentos precários no grupo de baixa vulnerabilidade ambiental (Tabelas_2, 3 e 4).

Assim, verifica-se que ainda está havendo crescimento significativo de assentamentos precários (tais como loteamentos irregulares e favelas) nas áreas de alta vulnerabilidade ambiental da região de Cidade Tiradentes e entorno.

Este processo provavelmente também está ocorrendo em outras regiões hiperperiféricas e periurbanas da metrópole de São Paulo, gerando novas situações de vulnerabilidade socioambiental, uma vez que estas áreas se caracterizam pela forte presença de situações de risco e degradação ambiental, particularmente ausência de saneamento básico e proximidade de cursos d'água.

No entanto, no caso da região de Cidade Tiradentes e entorno, também é preciso destacar a ocorrência simultânea de crescimento de assentamentos formalizados e implantação de grandes conjuntos habitacionais. Porém, cabe investigar se este processo de crescimento de assentamentos mais formalizados é específico da região de Cidade Tiradentes, que concentra grande parte dos conjuntos habitacionais de São Paulo, ou se também está ocorrendo em outras áreas periféricas e periurbanas da metrópole de São Paulo.

Por fim, é importante destacar que, como resultado dos processos de expansão urbana ocorridos no período 2000-2006, os dois grupos de vulnerabilidade ambiental da região de Cidade Tiradentes e entorno ficaram ainda mais distintos em relação à distribuição dos tipos de uso do solo urbano. Assim, em 2006, as áreas urbanizadas do grupo de baixa vulnerabilidade ambiental possuíam 71,8% de assentamentos formalizados e apenas 12,1% de assentamentos precários. no grupo de alta vulnerabilidade ambiental, a proporção de assentamentos formalizados chegava a 43,7% das áreas urbanizadas em 2006, mas a proporção de assentamentos precários ainda era muito elevada, com 39,9% (Tabela_3).

Discussão dos resultados e considerações finais No presente artigo, procurou-se operacionalizar o conceito de vulnerabilidade socioambiental, por meio de indicadores em escala intraurbana, para representar empiricamente os fenômenos de sobreposição espacial de riscos e vulnerabilidades sociais e ambientais, bem como suas relações com os processos de expansão urbana e periferização, em uma região hiperperiférica da metrópole de São Paulo.

Os resultados das análises mostram que as áreas urbanas da região de Cidade Tiradentes e entorno, assim como de grande parte das regiões hiperperiféricas da Região Metropolitana de São Paulo, continuam crescendo muito rapidamente.

Estas áreas são ocupadas por população de baixa renda, como mostram os dados do Censo 2000, e apresentam elevado número de áreas de ocupação precária e informal em termos de uso do solo, como pode ser inferido das imagens de satélite de 2000 e 2006.

Além disso, os resultados também revelam a existência de grandes sobreposições entre vulnerabilidades sociais e ambientais, com forte concentração de problemas e riscos sociais e ambientais em determinadas áreas, como é o caso dos setores censitários de alta vulnerabilidade social e ambiental da região de Cidade Tiradentes e entorno. Como visto, estas áreas de alta vulnerabilidade socioambiental apresentam elevados níveis de irregularidade no uso do solo, com forte presença (em termos absolutos e relativos) de assentamentos precários, como favelas e loteamentos irregulares, além de condições socioeconômicas extremamente desfavoráveis, com baixíssimos níveis de renda, escolaridade e saneamento. Desse modo, a crescente sobreposição e o acúmulo de problemas e riscos sociais e ambientais fazem com que situações de pobreza e vulnerabilidade social sejam agravadas pela exposição a riscos e degradação ambiental, tais como enchentes, deslizamentos de terra, poluição, contato com doenças de veiculação hídrica, etc.

* Em síntese, os resultados das análises comparativas entre as duas categorias de vulnerabilidade ambiental (no âmbito dos setores de alta vulnerabilidade social) da região de Cidade Tiradentes e entorno, em relação aos tipos de uso e cobertura do solo e aos processos de expansão urbana, mostram que: * as diferenças no uso do solo urbano entre os dois grupos de vulnerabilidade ambiental são muito expressivas, com elevada proporção de assentamentos precários (favelas e loteamentos irregulares) nas áreas de alta vulnerabilidade ambiental e pequena proporção deste tipo de assentamento naquelas de baixa vulnerabilidade ambiental; * a mancha urbana das áreas de alta vulnerabilidade ambiental teve um crescimento substancialmente maior do que a daquelas de baixa vulnerabilidade ambiental, no período 2000-2006; * nas áreas de alta vulnerabilidade ambiental, os assentamentos precários (favelas e loteamentos irregulares) cresceram de maneira significativa; * além das diferenças no uso do solo urbano, as áreas com alta vulnerabilidade ambiental possuem condições socioeconômicas significativamente piores e estrutura etária mais jovem, o que revela a sobreposição de vulnerabilidades sociais e ambientais.

Portanto, estes resultados revelam uma expressiva associação entre os processos de expansão urbana e crescimento de assentamentos precários e as situações de vulnerabilidade socioambiental, na região hiperperiférica de Cidade Tiradentes e entorno.

Nesse sentido, os resultados obtidos pela metodologia utilizada credenciam este trabalho a estabelecer um diálogo e fazer contribuições relevantes para um conjunto de estudos sociodemográficos, urbanos e ambientais a respeito das relações entre os processos de expansão urbana/periferização e as sobreposições de riscos e vulnerabilidades sociais e ambientais na metrópole de São Paulo e em outras metrópoles do Brasil e do mundo (TORRES; COSTA, 2000; RIBEIRO, 2000; MEYER et al., 2004; TORRES; MARQUES, 2005; HOGAN; 2007; UNFPA, 2007; MARTINE et al., 2008).

Assim, uma das contribuições relevantes do presente trabalho para esta literatura está justamente na utilização de metodologias de geoprocessamento e sensoriamento remoto, que possibilitaram a identificação e caracterização (em termos quantitativos e espaciais) de situações de vulnerabilidade socioambiental em escala intraurbana, bem como a análise das suas relações com os processos de expansão urbana e periferização.

Além disso, a metodologia desenvolvida neste estudo representa uma contribuição para a detecção de áreas de alta vulnerabilidade socioambiental e expansão urbana recente, podendo ser estendida para outras regiões periféricas e periurbanas de São Paulo e de outras metrópoles do Brasil, fornecendo, assim, subsídios importantes para formulação de políticas públicas sociais e ambientais, relativas ao uso do solo e melhorias de habitação e saneamento, no sentido de regular e conter a expansão urbana descontrolada e de mitigar e enfrentar as situações de vulnerabilidade socioambiental.

Nesse sentido, cabe ressaltar que os estudos de população têm muito a contribuir com os estudos urbanos e ambientais, por meio do desenvolvimento de metodologias de integração de dados de diferentes tipos (demográficos, socioeconômicos, ambientais) e fontes (censos, imagens de satélite e cartografias ambientais), para análise das sobreposições entre riscos e vulnerabilidades sociais e ambientais. Em particular, acreditamos que o uso de metodologias de geoprocessamento e sensoriamento remoto é um dos caminhos mais frutíferos para ampliar este diálogo dos estudos de população com outras disciplinas que abordam os processos de urbanização e metropolização, principalmente o planejamento urbano e a geografia.

Neste contexto, reafirmamos que o presente artigo traz uma importante contribuição metodológica para os estudos de população, ao realizar a integração de fontes censitárias de dados sociodemográficos com cartografias ambientais (áreas de risco) e com imagens de satélite de alta resolução. Além disso, traz contribuições relevantes para os estudos urbanos e ambientais, por meio da identificação e caracterização de situações de vulnerabilidade socioambiental em escala intraurbana e das suas relações com os processos de periferização e expansão urbana.

Desse modo, o artigo insere-se na proposta do Grupo de Trabalho População, Espaço e Ambiente, da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep), de estabelecer um diálogo profícuo e permanente entre os estudos de população e os urbanos e ambientais.

Por fim, pode-se concluir que a alta concentração de problemas sociais e ambientais faz com que essas áreas hiperperiféricas e periurbanas da metrópole de São Paulo sejam bastante inadequadas para continuar recebendo novos assentamentos urbanos, particularmente os precários. Porém, é importante destacar que não se pode culpar as famílias e imigrantes de baixa renda que vão residir nessas áreas, gerando processos de expansão descontrolada da mancha urbana. Na verdade, eles são os primeiros a serem afetados pela degradação ambiental, não pela exposição a riscos ambientais e vetores de doenças contagiosas, mas também porque seus domicílios são menos protegidos em termos de infraestrutura e condições de moradia, o que reforça o elevado grau de vulnerabilidade socioambiental destas famílias.

Assim, uma questão fundamental, suscitada pelos resultados deste trabalho, é como mudar o curso desses processos tão perversos e indesejáveis de expansão urbana descontrolada para áreas periféricas e periurbanas cada vez mais distantes. Apesar de não termos uma resposta fechada, uma das conclusões do trabalho é que uma mudança significativa na dinâmica dos mercados imobiliário e de terras e a presença de políticas públicas relativas ao uso e ocupação do solo que utilizem informações atualizadas e pratiquem a fiscalização poderiam permitir um padrão de uso e ocupação do solo mais sustentável. Atualmente, as terras disponíveis nas porções mais centrais da metrópole não são ocupadas, devido tanto ao alto preço da terra nestas áreas quanto à falta de políticas públicas que pudessem redirecionar os novos assentamentos para muitas áreas adensadas e dotadas de infraestrutura urbana, por meio de projetos habitacionais voltados para população de baixa renda.


transferir texto