Causas e consequências da dívida no cartão de crédito: uma análise multifatores
1. INTRODUÇÃO
A crescente disponibilidade e aceitabilidade do crédito nas economias mundiais
tem estimulado o desenvolvimento econômico e facilitado o cotidiano dos
indivíduos (Silva,_2011). No âmbito brasileiro não é diferente, visto que o
crescimento e a estabilidade econômica têm levado o governo a expandir a oferta
de crédito e ampliar os prazos de pagamento possibilitando, dessa forma, a
participação das classes sociais menos favorecidas no mercado consumidor e
provocando, consequentemente, o crescimento acelerado nos níveis de consumo
(Claudino,_Nunes_& Silva,_2009).
Para Bertaut_e_Haliassos_(2005), entre outros motivos, o acesso do consumidor
ao crédito foi facilitado a partir da propagação e da aceitação dos cartões de
crédito, que se tornaram, em pouco tempo, um dos principais instrumentos
financeiros utilizados pelos indivíduos. De acordo com estudos da Associação
Brasileira das Empresas de Cartão de Crédito e Serviços [ABECS] (2012), a
quantidade de cartões de crédito em circulação no mercado brasileiro atingiu o
patamar de 178,8 milhões de unidades, sendo realizadas ao longo do ano 4,5
bilhões de operações. Tais números comprovam a crescente inserção do cartão de
crédito no cotidiano dos brasileiros e sua grande difusão como meio de
pagamento.
A rápida popularização do cartão de crédito, segundo Kim_e_DeVaney_(2001), está
atrelada a sua multifuncionalidade ao atuar como ferramenta de pagamento e
recurso de crédito. Em termos individuais, o acesso ao cartão de crédito tem
exercido forte influência sobre o estilo de vida e o poder de compra (Mendes-
da-Silva,_Nakamura_& De_Moraes,_2012), provendo aos usuários facilidade,
conveniência e segurança nas transações (Bertaut_& Haliassos,_2005). No
entanto, o uso indiscriminado e/ou o mau gerenciamento do crédito são capazes
de conduzir à acumulação de dívidas que, por sua vez, podem comprometer a saúde
financeira doméstica (Norvilitis,_Merwin,_Osberg,_Roehling,_Young,_& Kamas,
2006; MacGee,_2012) e o bem-estar físico e mental (Lyons,_2004). O cartão de
crédito promove o aumento do endividamento pessoal e familiar devido à
eliminação da necessidade imediata de dinheiro e à facilidade de pagamento
(Wang,_Wei_Lu_& Malhotra,_2011).
O crescimento acelerado do número de indivíduos que utilizam cartão de crédito
e, principalmente, o aumento dos níveis de endividamento e inadimplência têm
feito com que o governo e a indústria financeira passem a tratar tal questão
com maior atenção (Mendes-da-Silva_et_al.,_2012). A maior preocupação está
atrelada ao nível de responsabilidade financeira no uso do cartão de crédito e
aos prováveis riscos de problemas financeiros e psicológicos decorrentes do mau
gerenciamento (Lyons,_2004). Apesar de vários estudos sobre a dívida no cartão
de crédito já terem sido desenvolvidos e já ter sido comprovado que essa
questão ultrapassa o universo econômico e social, ainda persiste muita
incerteza sobre quais são efetivamente suas causas e consequências. Nesse
sentido, o grande desafio que se apresenta à academia e, especificamente, o
foco deste estudo é buscar uma resposta para a seguinte questão: Quais são os
fatores determinantes e consequentes da dívida no cartão de crédito? Para
responder a esse questionamento, estabeleceram-se os seguintes objetivos:
desenvolver e validar um modelo para mensuração da dívida pessoal no cartão de
crédito; identificar e validar os fatores associados à dívida no cartão de
crédito; construir e validar um modelo estrutural para as relações entre os
fatores.
A realização deste estudo contribui para a ampliação do acervo de pesquisas
empíricas acerca do uso e do endividamento no cartão de crédito gerando um
conhecimento mais aprofundado sobre o assunto que ainda é incipiente em âmbito
brasileiro. A importância do estudo também está em seu caráter inovador, dado
que, em âmbito brasileiro, não há registros de pesquisas que busquem
compreender os determinantes da dívida e suas implicações. Ademais, raras são
as pesquisas, tanto em contexto internacional quanto nacional, que se dedicam
ao estudo dos fatores comportamentais associados à dívida em uma população
heterogênea composta por indivíduos de diferentes idades, rendas e ocupações.
Destaca-se ainda que o tema é extremamente atual e faz parte da pauta de
discussões dos meios governamental, empresarial e acadêmico. Em suma, a
realização desta pesquisa oferecerá subsídios aos organizadores das políticas
de crédito e aos educadores financeiros para auxiliar os consumidores a melhor
gerenciarem o uso do crédito evitando, assim, as armadilhas embutidas no uso
indevido e exagerado do cartão.
Este trabalho está dividido em cinco seções, incluindo a introdução. Na segunda
seção apresenta-se a base teórica e empírica. Na terceira parte contemplam-se
os procedimentos metodológicos. Na sequência, são apresentados os resultados e,
por fim, as considerações mais relevantes sobre a temática, as limitações e as
principais sugestões para estudos futuros.
2. DÍVIDA NO CARTÃO DE CRÉDITO E SEUS FATORES DETERMINANTES E CONSEQUENTES
A dívida no cartão de crédito refere-se a um tipo de passivo a descoberto,
constituído mediante um empréstimo rotativo de curto prazo (Lamcobe,_2012).
Tecnicamente, todas as compras realizadas no cartão de crédito criam dívida
para o usuário; no entanto, sobre tais dívidas não há incidência de juros caso
o pagamento seja realizado até a data de tolerância máxima. Dessa forma, os
usuários que pagam devidamente as faturas mensais não são considerados
endividados. Já os usuários que mantêm um saldo devedor sobre o qual passam a
incidir juros após o encerramento do prazo de tolerância são considerados
detentores de dívida no cartão de crédito. Nesse sentido, dívida no cartão de
crédito pode ser compreendida como o saldo devedor remanescente após o
pagamento da fatura mensal. Dependendo do nível da dívida, os indivíduos podem
comprometer uma parcela significativa de sua renda, tornando-se incapazes de
honrar os compromissos financeiros assumidos.
Levando em conta a ascensão do número de indivíduos endividados, diversos
estudos vêm sendo desenvolvidos, tanto pela academia quanto pelo governo e pelo
mercado financeiro, para avaliar o nível de propensão à dívida e seus fatores
determinantes e consequentes (Kim_& DeVaney,_2001; Lyons,_2004; Norvilitis
et_al.,_2006; Mendes-da-Silva_et_al.,_2012). Segundo Davies_e_Lea_(1995), a
investigação sobre os aspectos associados ao endividamento obteve destaque a
partir do estudo de Katona_(1975). A importância desse trabalho está na
avaliação da origem dos problemas de crédito, os quais são avaliados não apenas
pelo viés econômico, mas também por meio de fatores psicológicos e
comportamentais. É sobre esses aspectos comportamentais que a pesquisa se
debruça.
O primeiro construto a ser investigado refere-se à alfabetização financeira, a
qual pode ser entendida como uma combinação de conhecimentos, habilidades,
atitudes e comportamentos necessários para a tomada de decisão e o alcance do
bem-estar financeiro (OECD,_2013). Neste estudo, seguindo modelo adotado por
Jorgensen_e_Savla_(2010), a alfabetização financeira é a relação entre os
conceitos de conhecimento financeiro, atitude financeira e comportamento
financeiro. A dimensão do conhecimento financeiro é um tipo particular de
capital humano que se adquire ao longo do ciclo de vida, por meio da
aprendizagem de assuntos que afetam a capacidade para gerir receitas, despesas
e poupança de forma eficaz (Delavande,_Rohwedder_& Willis,_2008). O
comportamento financeiro é um elemento essencial da alfabetização financeira e,
sem dúvida, o mais importante (OECD,_2013). Segundo Atkinson_e_Messy_(2012), os
resultados positivos de ser financeiramente alfabetizado são movidos pelo
comportamento, tais como o planejamento de despesas e a construção da segurança
financeira; por outro lado, certos comportamentos, tais como o uso excessivo de
crédito, podem reduzir o bem-estar financeiro. Já as atitudes financeiras são
estabelecidas por meio de crenças econômicas e não econômicas que um tomador de
decisão tem sobre o resultado de determinado comportamento e são, portanto, um
fator-chave no processo de tomada de decisão pessoal (Ajzen,_1991).
A grande oferta de produtos financeiros, segundo Amadeu_(2009), exige dos
indivíduos a habilidade de compreender as características de cada opção, de
calcular os custos embutidos nas diferentes ofertas de crédito e de administrar
a capacidade de endividamento. É dentro desse contexto que pode ser verificada
a importância da alfabetização financeira, uma vez que ela auxilia os
consumidores, mediante o fornecimento de informações e instruções, a melhorar
seu entendimento acerca dos conceitos e produtos financeiros e a aumentar a
autoconfiança, tornando-os mais conscientes dos riscos e das oportunidades
financeiras (OECD,_2013). Segundo Vitt,_Anderson,_Kent,_Lyter,_Siegenthaler,
& Ward_(2000), a alfabetização financeira somente é capaz de auxiliar no
desenvolvimento das capacidades necessárias para fazer escolhas bem informadas
ao inter-relacionar conhecimentos, atitudes e comportamentos financeiros. É no
esforço sistemático e contínuo de desenvolvimento desses aspectos que a
alfabetização financeira desempenha papel-chave para a tomada de decisões
responsáveis (Xiao,_Tang,_Serido,_& Shim,_2011). Tendo por base tais
fundamentos, elaboraram-se as hipóteses apontadas a seguir.
* H1 — O conhecimento financeiro impacta positivamente o comportamento
financeiro.
* H2 — A atitude financeira impacta positivamente o comportamento
financeiro.
* H3 — O conhecimento financeiro impacta positivamente a atitude
financeira.
Para Lyons_(2004), indivíduos inexperientes ou com conhecimentos financeiros
limitados e com atitudes e comportamentos irresponsáveis podem não entender
conceitos financeiros básicos como, por exemplo, o efeito cumulativo da taxa de
juros sobre a dívida no cartão de crédito, aumentando o risco de má gestão dos
recursos e de problemas financeiros. Nesse sentido, Disney_e_Gathergood_(2011)
afirmam que o conhecimento, a atitude e o comportamento financeiro desempenham
um importante papel na redução de problemas de gestão financeira no uso do
cartão de crédito. Com base em tais estudos, espera-se que maiores níveis de
conhecimento e melhores comportamentos propiciem comportamentos responsáveis no
uso do cartão e levem a um menor risco de endividamento (Matta,_2007).
* H4 — O conhecimento financeiro impacta positivamente o uso responsável do
cartão de crédito.
* H5 — O conhecimento financeiro impacta negativamente a dívida no cartão
de crédito.
* H6 — A atitude financeira impacta positivamente o uso responsável do
cartão de crédito.
* H7 — A atitude financeira impacta negativamente a dívida no cartão de
crédito.
* H8 — O comportamento impacta positivamente o uso responsável do cartão de
crédito.
* H9 — O comportamento financeiro impacta negativamente a dívida no cartão
de crédito.
O segundo construto a ser considerado no modelo foi o materialismo, o qual é
definido por Richins e Dawson (1992) como a importância atribuída pelo
indivíduo à posse e à aquisição de bens materiais no alcance dos principais
objetivos da vida. Indivíduos altamente materialistas acreditam que a aquisição
e a posse de bens materiais representem o objetivo central da vida, são um
indicador de sucesso e status social e a chave para a felicidade (Richins,
2004). Consumidores materialistas, independentemente de sua condição
financeira, valorizam a posse e consideram-na um importante instrumento para
nortear suas atitudes e ações (Richins_& Dawson,_1992). Nesse sentido, a
acessibilidade ao cartão de crédito pode ser prejudicial aos materialistas, uma
vez que lhes oferece um meio para alcançar seus objetivos de consumo (Richins,
2011). Portanto, o desejo de alcançar status social por meio de bens materiais,
atrelado à facilidade de obtenção de recursos, via cartão de crédito, pode
facilmente levar o indivíduo a gastar mais e, provavelmente, a utilizar
indevidamente o cartão de crédito incorrendo em dívidas (Pirog_& Roberts,
2007).
* H10 — O materialismo impacta negativamente o uso responsável do cartão de
crédito.
* H11 — O materialismo impacta positivamente a dívida no cartão de crédito.
O materialismo também vem sendo relacionado com o fator compras compulsivas.
Para Dittmar_(2004), indivíduos materialistas, por serem mais emotivos e
apresentarem menor autoestima seriam mais propensos a exibir comportamentos de
compra compulsiva, como forma de minimizar sentimentos negativos e melhorar o
bem-estar pessoal (Dittmar,_2004). Assim, espera-se uma relação positiva entre
materialismo e compras compulsivas.
* H12 — O materialismo impacta positivamente as compras compulsivas.
Ainda no campo do consumo, investigaram-se as compras compulsivas, definidas
como uma vontade crônica de comprar diferentes itens visando minimizar eventos
ou sentimentos negativos (Leite,_Rangé,_Ribas,_Filomensky,_& Oliveira_e
Silva,_2011). Os consumidores compulsivos têm uma vontade irresistível de
comprar sobre a qual não têm domínio, o que os leva à continuidade do consumo
mesmo após o conhecimento das consequências adversas sobre sua vida pessoal e
social e sobre sua situação financeira (Dittmar,_Long,_& Bond,_2007).
Dentro desse escopo, Koram,_Faber,_Aboujaoude,_Large_e_Serpe_(2006) afirmam
que, uma vez que tenham perdido sua capacidade para controlar o processo de
compra, os consumidores irão comprar coisas que talvez não utilizem, em
quantidade superior ao necessário e superior ao permitido por seus recursos
financeiros, ocasionando consequências adversas como sofrimento e problemas
financeiros. Para Veludo-de-Oliveira,_Ikeda_e_Santos_(2004), indivíduos com
comportamento mais próximo à compulsividade tendem a apresentar maior
quantidade de cartões, utilizá-los de forma mais intensa e menos regrada e
possuir maior nível de dívidas no cartão (Roberts_& Jones,_2001). Com base
em tais estudos, espera-se que indivíduos com comportamentos de compra
compulsiva sejam mais irresponsáveis no uso do cartão de crédito e, por
consequência, mais propensos a contrair dívidas, conforme as hipóteses 13 e 14.
* H13 — As compras compulsivas impactam negativamente o uso responsável do
cartão de crédito.
* H14 — As compras compulsivas impactam positivamente a dívida no cartão de
crédito.
Afora a problematização acerca dos comportamentos materialistas e de consumo
compulsivo, pesquisadores têm considerado o impacto do valor do dinheiro. Para
Macedo_Jr.,_Kolinski_e_De_Morais_(2011), nenhuma pessoa é indiferente ao
dinheiro, cada qual atribui ao dinheiro um significado de acordo com o esforço
e a satisfação que ele lhe proporciona. Mudanças na atitude em relação ao
dinheiro são um importante catalisador por trás da propagação da cultura
consumista, a qual é definida como a cultura na qual os indivíduos desejam
comprar e consumir bens buscando felicidade, prazer e prestígio social (Roberts
& Jones,_2001). Para os autores, a valorização do dinheiro como uma
ferramenta de poder e prestígio social tem o potencial de conduzir a
comportamentos materialistas e de compra compulsiva. Já a visualização do
dinheiro como fonte de insegurança e preocupação torna os indivíduos menos
propensos ao consumo. Tendo isso em mente, constata-se que o fator valores do
dinheiro influencia o materialismo e as compras compulsivas de maneira
distinta, dependendo do significado que o indivíduo atribui ao dinheiro.
* H15 — O valor do dinheiro impacta as compras compulsivas.
* H16 — O valor do dinheiro impacta o materialismo.
Concluindo a investigação dos fatores determinantes da dívida no cartão de
crédito, tem-se o comportamento de uso do cartão de crédito, entendido como o
grau de responsabilidade mantido pelo indivíduo na gestão do cartão (Roberts
& Jones,_2001). Ao observarem que o uso responsável do cartão proporciona
ao indivíduo um meio conveniente de pagamento, uma ferramenta útil para gestão
dos recursos financeiros e um meio de estabelecer um bom histórico de crédito,
Bertaut_e_Haliassos_(2005) concluem que ele diminui a probabilidade de
contração de dívidas.
* H17 — O uso responsável do cartão de crédito impacta negativamente a
dívida no cartão de crédito.
A fim de uma melhor compreensão acerca da dívida, deve-se verificar, além de
seus determinantes, suas consequências econômicas, sociais e psicológicas.
Neste estudo, foram investigadas a redução do bem-estar financeiro e a presença
de emoções negativas. O bem-estar financeiro pode ser compreendido como a
percepção do indivíduo sobre sua situação financeira atual e futura
(Norvilitis,_Szablicki_& Wilson,_2003). Conforme destacado por Sevim,
Temizel_e_Sayilir_(2012), a tomada de decisões de empréstimo incorreta pode
conduzir a um excesso de endividamento o qual pode ser, por sua vez,
prejudicial à credibilidade do consumidor perante o mercado, bem como ao bem-
estar financeiro tanto no curto quanto no longo prazo. A posse de um número
elevado de cartões, atrelado a seu uso indiscriminado e ao não pagamento da
fatura integral, reduz significativamente a sensação de bem-estar financeiro
(Norvilitis_& MacLean,_2010).
* H18 — A dívida no cartão de crédito impacta negativamente o bem-estar
financeiro.
Na última hipótese do modelo teórico, buscou-se mensurar a relação entre dívida
no cartão de crédito e emoções. As emoções são encaradas como um elemento
essencial na vida e na experiência humana, sendo consideradas fundamentais para
a compreensão do comportamento e do funcionamento dos seres humanos, uma vez
que preparam respostas comportamentais necessárias, harmonizam a tomada de
decisões e facilitam as relações interpessoais (Dias,_Cruz_& Fonseca,
2010). Diversos estudos (Nelson,_Lust,_Story_& Ehlinger,_2008; Sevim_et
al.,_2012) têm documentado que indivíduos endividados e sobre-endividados são
mais propensos a vivenciar problemas físicos, sintomas de depressão,
sentimentos de incapacidade e impotência. Por exemplo, Nelson_et_al._(2008)
constataram associação positiva entre altos níveis de dívida no cartão de
crédito e excesso de peso, atividade física insuficiente, hábitos alimentares
incorretos, consumo excessivo de álcool, pensamento suicida, sentimentos de
desamparo, desempenho profissional insatisfatório e estresse. Com base nessa
perspectiva, espera-se encontrar uma relação negativa entre dívida no cartão de
crédito e emoções.
* H19 — A dívida no cartão de crédito impacta negativamente as emoções.
Tendo em mente a teoria de base e as hipóteses, foi construído o modelo teórico
ilustrado na Figura_1.
Figura 1 Diagrama do Modelo Teórico com Construtos e Hipóteses
3. MÉTODO
Visando responder ao questionamento levantado neste estudo, realizou-se uma
pesquisa descritiva de cunho quantitativo. O estudo considerou como universo de
pesquisa toda a população brasileira usuária de cartão de crédito. De acordo
com dados divulgados pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC BRASIL, 2013), o
número de brasileiros que utiliza cartão de crédito corresponde a 77% da
população, ou seja, corresponde a, aproximadamente, 147 milhões de pessoas.
No processo de amostragem, considerou-se um nível de confiança de 95% e um erro
amostral de 2,5% obtendo-se uma amostra mínima de 1.538 indivíduos. Pela
dificuldade em aplicar os questionários em todo o território nacional, definiu-
se, a critério do pesquisador, que o estudo seria realizado em três estados,
sendo escolhidos, por conveniência, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Maranhão.
A decisão de investigar esses três estados está atrelada à diversidade
econômica, cultural e social encontrada. Os questionários foram aplicados de
forma aleatória, em ambiente externo, entre os meses de março e setembro de
2013, por meio de contato com moradores dispostos a participar da pesquisa.
Como pré-requisito para participação no estudo, o indivíduo deveria ser usuário
e utilizar de forma ativa pelo menos um cartão de crédito. Ao final da
pesquisa, foram coletados 1.831 instrumentos válidos. Desse total, 945 foram
coletados no estado do Rio Grande do Sul; 602, no Maranhão; e 284, no estado de
Minas Gerais. Ressalta-se que o estudo foi submetido ao Sistema Nacional de
Ética em Pesquisa (SISNEP), sendo aprovado sob Certificado de Apresentação para
Apreciação Ética (CAAE) nº 13265013.3.0000.5346.
O instrumento de coleta de dados foi um questionário estruturado composto por
114 questões divididas em dez seções, as quais abordaram:
* aspectos relacionados ao cartão de crédito (Kim_& DeVaney,_2001; Wang
et_al.,_2011; Mendes-da-Silva_et_al.,_2012);
* perfil da amostra, representado por aspectos demográficos, culturais e
econômicos;
* fatores comportamentais:
o - comportamento de uso do cartão de crédito avaliado com base na
escala proposta por Roberts_e_Jones_(2001),
o - alfabetização financeira por meio de seus fatores integrantes:
conhecimento financeiro (Rooij,_Lusardi_& Alessie,_2011),
atitude financeira (Shockey,_2002) e comportamento financeiro
(Matta,_2007),
o - dívida no cartão de crédito analisado mediante questões adaptadas
de Wang_et_al._(2011),
o - materialismo, fundamentado na escala de valores materialistas
proposta por Moura_(2005),
o - valores do dinheiro com base em uma versão adaptada da escala do
significado do dinheiro desenvolvida por Moreira_(2000),
o - compras compulsivas por meio da escala desenvolvida por Leite_et
al._(2011),
o - bem-estar financeiro com base na escala proposta por Norvilitis
et_al._(2003),
o - emoções, a partir de questões obtidas do estudo de Disney_e
Gathergood_(2011).
Para a análise dos dados, foram utilizados dois software: SPSS 18.0® e Amos™.
Em um primeiro momento, realizou-se a estatística descritiva dos dados com o
objetivo de conhecer o perfil da amostra. Na sequência, realizaram-se testes de
diferença de média, teste t e Anova, visando verificar se há diferença no
construto dívidas no cartão de crédito se considerados fatores demográficos,
culturais e características do cartão de crédito.
Para a estimação e a validação do modelo integrado, utilizou-se a modelagem de
equações estruturais (MEE). A avaliação do modelo foi realizada em duas etapas,
conforme sugestão de Kline_(1998). Inicialmente realizou-se uma análise
fatorial confirmatória (AFC) para validar os construtos. Os relacionamentos
entre as variáveis observadas e seus construtos foram estimados utilizando o
método da máxima verossimilhança. Na segunda etapa, o modelo híbrido foi
validado por meio dos índices de ajuste do modelo global e da significância e
magnitude dos coeficientes das regressões estimadas. Seguindo a recomendação de
Garver_e_Mentzer_(1999), a validade do modelo foi ponderada por meio da
verificação da validade convergente, unidimensionalidade e confiabilidade dos
construtos.
A validade convergente foi analisada pela observação da magnitude e
significância estatística dos coeficientes padronizados e pelos índices de ajuste
absolutos: estatística qui-quadrado (Χ2), Root Mean Squares Residual(RMR, <
0,05), Root Mean Square Error of Aproximation (RMSEA, < 0,08), Goodness -of-Fit
Index (GFI > 0,95) e índices de ajuste comparativos: Comparative Fit Index
(CFI, > 0,95), Normed Fit Index (NFI, > 0,95), Tucker-Lewis Index (TLI, > 0,95)
(Garver_& Mentzer,_1999). Para mensurar a confiabilidade, utilizou-se o
alfa de Cronbach que, segundo Hair,_Black,_Babin,_Anderson_e_Tatham_(2009),
deve possuir um valor superior a 0,6. A verificação da unidimensionalidade foi
realizada mediante avaliação dos resíduos padronizados. Nesse procedimento,
consideraram-se unidimensionais os construtos que apresentaram, para todos os
pares formados por variáveis observadas, resíduos padronizados inferiores a
2,58 (Hair_et_al.,_2009).
Para a análise do modelo integrado, que agrega o modelo de mensuração e o
modelo estrutural, optou-se pela estratégia de aprimoramento, na qual, a partir
de um modelo inicialmente proposto, são feitas modificações para chegar-se a um
modelo ajustado. No procedimento de ajuste, os coeficientes de regressão não
significativos foram retirados, sendo incorporadas covariâncias não previstas
no início.
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A pesquisa compreendeu os usuários de cartão de crédito dos estados do Rio
Grande do Sul, Minas Gerais e Maranhão, sendo a amostra final composta por
1.831 indivíduos. Quanto ao perfil, a maioria dos respondentes pertence ao
gênero feminino (59,1%); tem, em média, 31 anos; é solteira (60,9%); de
ascendência brasileira (68,4%); raça branca (66,1%); e não tem filhos/
dependentes (71,5%). Quanto às características financeiras, 66,8% possuem renda
média mensal de até três salários mínimos. Já em relação ao grau de
escolaridade, verificou-se que representativa parcela apresenta um bom nível de
instrução educacional, uma vez que 51% estão cursando ou já concluíram um curso
técnico ou curso de graduação. No que tange à ocupação, os respondentes
distribuíram-se entre empregado assalariado (32,3%), funcionário público
(21,6%) e autônomo (9,8%).
Em relação ao número de cartões de crédito, significativa parcela relatou
possuir somente um (46,9%) ou dois cartões de crédito (32,6%). Entre aqueles
que possuem três ou mais cartões, somente 10,4% costumam utilizá-los
ativamente. Segundo Kim_e_DeVaney_(2001), a posse de maior quantidade de
cartões contribui para a elevação do endividamento, tendo em vista que
indivíduos detentores de maior quantidade de cartões possuem uma fonte de
crédito muito superior àqueles que detêm um menor número. Quando questionados
acerca da continuidade de utilização do cartão de crédito, caso a taxa de juros
incidente sofresse uma elevação, 66,8% declararam que diminuiriam a frequência
de uso. Apesar desse indicativo de prudência, somente 26,4% declararam conhecer
o valor da taxa mensal de juros incidente sobre a dívida no cartão.
Considerando que gastar mais de 30% da renda mensal com o pagamento do cartão
aumenta a propensão de o indivíduo ter dificuldades para pagar integralmente
suas contas (Lyons,_2004), os participantes da pesquisa mostraram-se cautelosos
e coerentes no uso do crédito, uma vez que expressiva porcentagem (67%) costuma
gastar menos de 30% do salário com esse instrumento de crédito. Investigando,
especificamente, a posse de dívidas no cartão de crédito, verificou-se que os
indivíduos são responsáveis na hora de utilizar esse tipo de cartão, pois a
maior parcela raramente ou nunca deixou de pagar o valor integral da fatura,
recorreu ao saque do cartão ou ultrapassou o limite disponível considerando o
período dos últimos doze meses. Importante também destacar que parcela
considerável dos respondentes (70,3%) não depende do cartão para pagar despesas
corriqueiras. O uso consciente e controlado do cartão de crédito fez com que
67,2% não apresentassem dívidas resultantes do não pagamento do valor integral
da fatura. Dentre a parcela que apresentou dívidas, 17,8% têm dívidas entre R$
0,01 e R$ 500,00; 6,8% entre R$ 501,00 e R$ 1.000,00; e somente 8,1% têm
dívidas superiores a R$ 1.001,00. Em média, os respondentes exibem dívidas no
valor de R$ 334,00. O estudo realizado por Mendes-da-Silva_et_al._(2012) com
769 estudantes de universidades públicas e privadas do estado de São Paulo
reafirma os resultados obtidos nesta pesquisa. Para os autores, os usuários de
cartão de crédito, em sua maioria, não apresentam comportamentos de risco de
crédito, uma vez que não costumam utilizar o limite total disponibilizado, não
costumam deixar de pagar o valor integral da fatura nem manter elevados níveis
de dívida.
Verificando possíveis diferenças entre os grupos para o construto dívida no
cartão de crédito, se consideradas variáveis demográficas, culturais e aspectos
de uso do cartão de crédito, observaram-se diferenças de média significativas
para as variáveis gênero, idade, dependentes, filhos, nível de escolaridade,
renda, número de cartões de crédito, conhecimento da taxa de juros e limite do
cartão, além de que indivíduos do gênero masculino, jovens, com filhos/
dependentes, com menor nível de escolaridade, menor nível de renda, maior
número de cartões de crédito, desconhecedores do valor da taxa de juros, alto
limite de crédito são mais propensos a contrair dívidas no cartão de crédito.
Para Baek_e_Hong_(2004), o maior endividamento masculino e de pessoas jovens
está atrelado ao fato de serem eles mais imprudentes em suas decisões
financeiras e de não gerenciarem adequadamente o orçamento financeiro. Quanto
ao fato de indivíduos com dependentes serem mais propensos à dívida, Wang_et
al._(2011) apontam que a presença de um membro adicional no agregado familiar
contribui para a presença de mais compromissos financeiros e, por consequência,
para a maior necessidade de recursos, os quais são obtidos, em muitas ocasiões,
por intermédio do cartão de crédito. Para Davies_e_Lea_(1995), indivíduos de
baixa renda costumam endividar-se mais no cartão de crédito devido à
necessidade de mais recursos financeiros para saldar compromissos ou, ainda,
pelo fato de o aumento de renda não ser suficiente para acompanhar o aumento
das despesas, fazendo com que continuem dispostos a usar o crédito rotativo
para atender às demandas. Por fim, quanto ao fato de indivíduos com maior
quantidade de cartões e maior limite de crédito serem mais propensos a contrair
dívidas, Kim_e_DeVaney_(2001) ressaltam que a disponibilização de maior
quantidade de recursos de crédito influencia os consumidores a emprestar/gastar
mais dinheiro, elevando o valor da dívida.
Dando seguimento às análises, realizou-se a validação individual dos
construtos. Para essa etapa foi realizada a AFC, os relacionamentos entre as
variáveis observadas e seus construtos foram estimados pelo método da máxima
verossimilhança. Depois de realizados todos os procedimentos cabíveis à etapa
de validação, confirmou-se o ajuste de todos os construtos inicialmente
propostos, com exceção do construto valores do dinheiro, uma vez que os
coeficientes padronizados das variáveis mostraram-se significativos, a
estatística qui-quadrado mostrou-se não significativa e foram confirmados os
pressupostos de:
* validade convergente, dado que os índices CFI, GFI, NFI e TLI foram
superiores a 0,95 e os índices RMR e RMSEA foram inferiores a 0,05 e
0,08, respectivamente;
* confiabilidade, tendo em vista que o alfa de Cronbach e a variância média
extraída foram superiores ao valor mínimo de 0,6 e 0,5, respectivamente;
* unidimensionalidade, dado que o valor de todos os resíduos padronizados
foi inferior a 2,58 (p < 0,05).
Por não ter se mostrado ajustado, o construto valores do dinheiro foi retirado
do modelo integrado.
Depois de realizado o processo de validação individual dos construtos, partiu-
se para a construção e a avaliação do modelo integrado, o qual agrega tanto o
modelo de mensuração quanto o modelo estrutural. Nesta etapa, teve-se por
objetivo avaliar a estrutura teórica das hipóteses, isto é, as relações entre
os construtos e as variáveis propostas no modelo. A avaliação da estrutura
teórica foi feita a partir da análise da significância estatística dos
coeficientes de regressão estimados e dos índices de ajuste do modelo.
A partir da análise do protótipo inicialmente proposto, verificou-se que
algumas das relações estabelecidas mostraram-se não significativas e alguns
índices de ajuste apresentaram-se insatisfatórios, exigindo alterações, as
quais foram realizadas com base no relatório de modificações sugeridas pelo
software Amos. Primeiramente, foram inseridas novas relações entre os
construtos para, na sequência, serem incluídas correlações entre os erros das
questões. A realização de todas essas modificações possibilitou a validação do
modelo integrado, cujos resultados estão expostos na Figura_2 e nas Tabelas_1 e
2.
[/img/revistas/rausp/v50n2//0080-2107-rausp-50-02-0169-gf02.jpg]
Figura 2 Resultado Final do Modelo Integrado
Tabela 1 Índices de Ajuste Finais do Modelo Integrado
Índice Valor ÍndiceValor ÍndiceValor
Qui-quadrado 1.043,04 GFI 0,961 TLI 0,953
Graus de liberdade 350 CFI 0,959 RMR 0,045
Significância 0,000 NFI 0,940 RMSEA 0,033
Tabela 2 Coeficientes Padronizados e Significância das Relações do Modelo
Final
Relação entre os Construtos Coeficientes Z Sig
Padronizados
Comportamento financeiro < — Conhecimento financeiro 0,146 6,023 ***
Comportamento financeiro < — Atitude financeira 0,224 7,680 ***
Materialismo < — Comportamento financeiro -0,134 -4,894 ***
Compras compulsivas < — Materialismo 0,506 16,018 ***
Compras compulsivas < — Comportamento financeiro -0,210 -7,163 ***
Compras compulsivas < — Atitude financeira -0,165 -5,716 ***
Comportamento de uso do cartão de crédito < — Conhecimento financeiro 0,125 5,086 ***
Comportamento de uso do cartão de crédito < — Atitude financeira 0,180 6,288 ***
Comportamento de uso do cartão de crédito < — Compras compulsivas -0,084 -2,686 **
Comportamento de uso do cartão de crédito < — Comportamento financeir 0,128 4,331 ***
Dívida no cartão de crédito < — Comportamento de uso do cartão de -0,179 -6,967 ***
crédito
Dívida no cartão de crédito < — Atitude financeira -0,095 -3,781 ***
Dívida no cartão de crédito < — Comportamento financeiro -0,087 -3,368 ***
Dívida no cartão de crédito < — Compras compulsivas 0,267 8,596 ***
Emoções < — Dívida no cartão de crédito -0,084 -2,913 **
Emoções <& — Compras compulsivas 0,168 5,057 ***
Bem-estar financeiro < — Comportamento financeiro 0,274 7,268 ***
Bem-estar financeiro < — Dívida no cartão de crédito -0,255 -7,167 ***
Bem-estar financeiro < — Emoções -0,069 -2,084 **
Notas:
**significativo a 5%;
***significativo a 1%.
Pela avaliação da Tabela_1, percebe-se que todos os índices de ajuste ficaram
dentro do limite considerado ideal e a estatística qui-quadrado, apesar de ter
se mantido significativa (p=0,000), apresentou razão χ2/graus de liberdade
inferior a 3 (1.043,04/350 = 2,98), valor considerado aceitável (Hair_et_al.,
2009), confirmando o ajuste do modelo.
Das 19 hipóteses inicialmente estabelecidas, seis foram rejeitadas (atitude
financeira – conhecimento financeiro; dívida no cartão de crédito –
conhecimento financeiro; comportamento de uso do cartão de crédito –
materialismo; dívida no cartão de crédito – materialismo; compras compulsivas –
valor do dinheiro; materialismo – valor do dinheiro) por não apresentarem
coeficientes estatisticamente significativos a um nível de 5%.
A aceitação das hipóteses H1 e H2 confirma a influência positiva exercida pelo
conhecimento financeiro e pela atitude financeira sobre o comportamento
financeiro. Em outras palavras, o conhecimento e as atitudes financeiras,
positivas ou negativas, desenvolvidos em relação a determinadas práticas
financeiras influem no comportamento que o sujeito terá quando exposto a
situações similares (Robb_& Sharpe,_2009). Segundo Xiao_et_al._(2011), o
conhecimento financeiro influencia positivamente o comportamento de crédito,
principalmente quando esse conhecimento é internalizado e incorporado por meio
de atitudes financeiras positivas e desenvolvimento de um maior senso de
controle. Analisando a relação dos construtos comportamento de uso do cartão de
crédito – conhecimento financeiro, comportamento de uso do cartão de crédito –
atitude financeira, e comportamento de uso do cartão de crédito – comportamento
financeiro, constatou-se que todas se mostraram significativas e positivas,
validando as hipóteses H4, H6 e H8 e confirmando a importância da alfabetização
financeira para a gestão adequada do crédito. Para Xiao_et_al._(2011), quanto
maior for o conhecimento e melhor a atitude e o comportamento ante o uso do
cartão de crédito, melhores serão as escolhas e as ações de utilização do
cartão.
A significância e os sinais negativos dos coeficientes das hipóteses H7 e H9
confirmaram que a presença de atitudes e comportamentos financeiros saudáveis
diminui a propensão de o indivíduo incorrer em dívidas no cartão de crédito.
Esses resultados estão em linha com a ideia de que a manutenção de boas
atitudes e bons comportamentos proveem as ferramentas básicas para a gestão
eficaz e responsável do crédito (Mendes-da-Silva_et_al.,_2012). Apesar de a
relação entre os construtos dívida no cartão de crédito e conhecimento
financeiro não ter se perpetuado, levando à rejeição da hipótese H5, constatou-
se uma relação indireta entre os construtos, uma vez que o conhecimento impacta
o comportamento de uso do cartão de crédito e este, por sua vez, impacta o
construto dívida. Nessa perspectiva, Joo,_Grable_e_Bagwell_(2003) ratificam a
necessidade de os indivíduos serem educados formalmente acerca dos riscos e
consequências da má gestão do cartão de crédito de modo que consigam melhorar
sua habilidade na tomada de decisões financeiras conscientes.
A aceitação da hipótese H12 confirma a existência de uma relação positiva entre
os construtos compras compulsivas e materialismo, o último explicando 51% da
variância do primeiro. É por meio dessa influência sobre o construto compras
compulsivas que o materialismo exerce um efeito indireto sobre os construtos
comportamento de uso do cartão de crédito e dívida. Para Garðarsdóttir_e
Dittmar_(2012), há um consenso quanto às implicações do materialismo sobre a
força e o crescimento da economia em um contexto macroeconômico e sobre o
comportamento financeiro dos indivíduos em um contexto microeconômico. Para
satisfazer o forte desejo de aquisição de bens, os indivíduos materialistas
assumem comportamentos de consumo compulsivos, o que os leva a comportamentos
financeiros mais favoráveis ao gasto e à dívida (Xiao_et_al.,_2011).
As próximas hipóteses, H13 e H14, que avaliaram a relação entre comportamento
de uso do cartão de crédito – compras compulsivas, e dívida no cartão de
crédito – compras compulsivas, foram confirmadas a um nível de significância de
5% e 1%, nessa ordem. O sinal negativo vigente na primeira relação revela que
indivíduos com comportamento de consumo compulsivo tendem a ser menos
responsáveis na hora de utilizar o cartão de crédito. Por outro lado, o sinal
positivo da segunda relação mostra que a presença de comportamentos de compra
compulsiva leva o indivíduo a incorrer mais fortemente na dívida. Segundo
Roberts_(1998), não é de estranhar que os compradores compulsivos sejam mais
propensos a gastar mais e a apresentar algum tipo de dívida, uma vez que buscam
lidar com a baixa autoestima e o humor negativo por meio da realização de
compras. A associação significativa e negativa encontrada entre os construtos
comportamento de uso do cartão de crédito e dívida no cartão de crédito (β= -
0,179 p=0,000) valida a hipótese H17 e confirma a tese defendida pela
literatura especializada de que bons comportamentos de gestão do crédito
diminuem a probabilidade de o indivíduo tornar-se endividado. Para Robb_e_Pinto
(2010), indivíduos detentores de bons comportamentos de crédito são mais
propensos a gerenciar adequadamente o uso do cartão, não utilizando, por
exemplo, o crédito rotativo. Por fim, a confirmação das hipóteses H18 e H19
revela a presença de relações negativas entre os construtos bem-estar
financeiro – dívida no cartão de crédito, e emoções – dívida no cartão de
crédito. Circunstâncias financeiras, como a má gestão do cartão de crédito e/ou
a acumulação de dívidas no cartão, conforme Norvilitis_et_al._(2006), têm um
efeito negativo sobre o bem-estar e a satisfação dos indivíduos.
Estendendo a análise para as relações inseridas no modelo, verificou-se a
existência de relações positivas entre os construtos emoções – compras
compulsivas, e bem-estar financeiro – comportamento financeiro. Quanto à
primeira, Roberts_(1998) acredita que a realização de compras em caráter
compulsivo conduza o indivíduo a graves problemas financeiros, os quais
contribuem para o estresse e a presença de emoções negativas. Em relação à
segunda, Norvilitis_e_MacLean_(2010) afirmam que indivíduos com fortes
intenções para realizar comportamentos financeiros positivos tendem a
apresentar maiores níveis de satisfação financeira e menor probabilidade de
incorrer em dívidas. Também foram incluídas e validadas as relações negativas
entre os construtos compras compulsivas – comportamento financeiro,
materialismo – comportamento financeiro, e compras compulsivas – atitude
financeira, confirmando a tese de que a presença de atitudes e comportamentos
financeiros saudáveis diminui a probabilidade de o indivíduo adotar
comportamentos materialistas. A adoção de práticas de gerenciamento financeiro
é recomendada por especialistas como um caminho para evitar os gastos
excessivos (Roberts,_1998). A última associação confirmada foi a relação
negativa entre os construtos bem-estar financeiro – emoções. Como no estudo
avaliou-se a presença de emoções negativas, justifica-se a existência de
ligação negativa entre os construtos, uma vez que, quanto mais emoções
negativas o indivíduo vivenciar em virtude de dificuldades financeiras, menor
será seu nível de bem-estar financeiro.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No trabalho, o propósito central foi desenvolver e validar um modelo para
mensuração da dívida pessoal no cartão de crédito. Com base na literatura
consultada e na técnica de modelagem de equações estruturais, mensurou-se a
relação da dívida no cartão de crédito com os fatores comportamentais
investigados sendo levantadas 19 hipóteses, das quais oito envolveram
diretamente o construto dívida. Em termos de resultados, confirmou-se a
robustez do modelo integral, na medida em que todos os índices de ajuste
atingiram os níveis recomendados pela literatura e os coeficientes padronizados
mostraram-se significativos, validando as relações estabelecidas. Tendo em
mente as relações causais, verificou-se a validação de 13 das 19 hipóteses
inicialmente propostas. Do total de hipóteses confirmadas, seis relacionam
diretamente o construto dívida aos fatores comportamentais.
Nessa perspectiva, notou-se que a dívida no cartão de crédito pode ser
influenciada por fatores comportamentais como o comportamento financeiro, a
atitude financeira, o comportamento de uso do cartão de crédito, as compras
compulsivas, o materialismo e o conhecimento financeiro, estes dois últimos de
forma indireta. As pessoas detentoras de atitudes e comportamentos de gestão
orçamentária, creditícia e de gestão do investimento satisfatórios, ou seja,
pessoas financeiramente alfabetizadas tendem a melhor controlar e gerenciar
suas finanças, evitando incorrer em dívidas. Tal conclusão traz sérias
implicações, pois ratifica a necessidade de desenvolvimento de programas de
educação financeira que consigam, por meio de um esforço sistemático, melhorar
o conhecimento financeiro dos indivíduos e, principalmente, suas habilidades
financeiras de modo que possam tomar decisões informadas e usar os serviços
financeiros de forma responsável.
Num cenário de níveis exorbitantes de consumo e de estímulo ao uso do crédito,
destacam-se o comportamento mantido na hora de utilizar o cartão de crédito e o
comportamento de consumo compulsivo. Aqueles indivíduos que sabem aproveitar os
benefícios do cartão de crédito e sabem, igualmente, utilizá-lo de forma
responsável e equilibrada, não extrapolando os limites do orçamento, são menos
predispostos a se endividarem. De forma similar, aqueles com bons
comportamentos de compra, isto é, aqueles que não consideram central para sua
vida a aquisição e a posse de bens materiais, tendem a apresentar menores
níveis de dívida no cartão de crédito. Considerando-se as consequências da
dívida, no estudo comprovou-se sua influência sobre o bem-estar financeiro e
sobre as emoções. Dessa forma, pessoas endividadas sentem-se menos satisfeitas
com sua situação financeira presente e menos confiantes em uma situação
financeira futura confortável. Além disso, a presença de dívidas acarreta
sensações de tristeza, ansiedade, nervosismo, podendo, inclusive, afetar as
relações sociais, profissionais e familiares dos endividados.
Antes de discutir as contribuições e implicações do estudo, algumas limitações
devem ser mencionadas. Em termos metodológicos, alerta-se sobre a não
generalização da amostra, a qual, apesar de heterogênea e representativa de
diferentes culturas, precisa ser ampliada, a fim de fornecer resultados mais
completos e densos. Quanto à técnica de coleta de dados, a pesquisa survey
baseada em um questionário estruturado, apesar das vantagens, como possibilitar
a investigação de grande número de pessoas, abre brecha para a omissão de dados
e o preenchimento de informações inverídicas, que ocasionam desvios no
resultado e diminuem a credibilidade da pesquisa.
Apesar dos problemas ressaltados, os resultados obtidos confirmam as
conjecturas defendidas pela teoria das finanças comportamentais. Um dos
trabalhos seminais nesse campo de estudo foi desenvolvido por Kahneman_e
Tversky_(1979), que identificaram diversas situações nas quais os agentes são
afetados por vícios emocionais e fatores cognitivos e tendem a utilizar atalhos
mentais para simplificar o processo decisório. Tais situações acabam por
colocar em xeque alguns dos principais axiomas que sustentam a teoria da
racionalidade plena do decisor. Assim, no presente trabalho, também se
demonstrou que o processo de tomada de decisões financeiras não é plenamente
racional, sendo influenciado por questões comportamentais.
Como uma das principais contribuições, destaca-se o desenvolvimento de um
modelo de mensuração das causas e consequências da dívida no cartão de crédito.
O reconhecimento das variáveis associadas à dívida pode ajudar na construção de
modelos de concessão de crédito mais robustos e, por consequência, contribuir
para a prevenção e redução dos níveis de endividamento.
Para trabalhos futuros, sugere-se que o assunto seja explorado em pesquisas de
caráter longitudinal, necessárias para acompanhar mais de perto o nível de
utilização e endividamento no cartão de crédito. Temáticas que liguem o estudo
a partir de um corte longitudinal e incorporem novas perspectivas devem ser
objeto de estudos acadêmicos em face de suas implicações gerenciais. Novos
estudos com vistas a compreender a(s) melhor(es) maneira(s) de evitar a
sobrecarga de dívidas no cartão de crédito e examinar o efeito de grandes
saldos devedores no cartão sobre o consumo e o bem-estar das famílias com dados
longitudinais são possibilidades interessantes de pesquisa.