A influência do estilo de liderança consultivo nas relações de confiança e
comprometimento no Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro
1. INTRODUÇÃO
Neste trabalho, busca-se melhor compreensão da influência do estilo de
liderança na relação entre confiança no líder e comprometimento do liderado,
como fator de coordenação informal, no modus operandi de equipes de alto
desempenho que atuam em cenários complexos e imprevisíveis. Nesse sentido,
buscou-se investigar uma instituição reconhecida, cuja efetividade depende do
desempenho e dos resultados de equipes operacionais nesses cenários.
Investigou-se o funcionamento do Batalhão de Operações Policiais Especiais
(BOPE), uma unidade de operações especiais (UOE) da Polícia Militar do Estado
do Rio de Janeiro, reconhecida internacionalmente por sua excelência
operacional (Zanini,_Migueles,_Colmerauer_& Mansur,_2013) e que tem
desenvolvido técnicas próprias de progressão e combate, em favelas do Rio de
Janeiro, no enfrentamento de quadrilhas armadas, com características de
conflitos armados de baixa intensidade.
Segundo Decéné_(2009), as UOE surgiram, como são conhecidas hoje, durante a
Segunda Grande Guerra Mundial, com a finalidade de empregar recursos de maneira
pontual para alcançar resultados mais expressivos do que aqueles possíveis de
serem alcançados pelas forças convencionais. A lógica operacional consiste no
emprego de equipes mais autônomas, com menor número de pessoas, que utilizam
recursos especiais como informação, tecnologia e treinamentos específicos para
alcançar resultados superiores. No caso que se escolheu, esse aspecto é
fundamental para o aumento da efetividade em ações com características de
guerrilha urbana. Essas equipes podem ser entendidas como alternativas eficazes
ante o aumento da complexidade e da incerteza dos combates e do risco para
civis, em que o controle centralizado tende a ser ineficaz (Spulak,_2007;
Zanini_et_al.,_2013). Dentre os fatores mais relevantes que distinguem as
equipes de operações especiais das equipes convencionais destacam-se sua
formação e sua coordenação. Estudos anteriores e mais recentes (Kellet,_1987;
Oetting,_1988; Storani,_2006; Rodrigues-Goulart,_2007; Spulak,_2007; Decéné,
2009; Zanini_et_al.,_2013) mostram que, dentre os principais elementos que
caracterizam essas equipes, destacam-se forte coesão interna, organização em
pequenos grupos, devoção a uma causa comum e relevância do fator liderança.
Referindo-se a essas equipes, Borman,_Motowidlo,_Rose_e_Hansen_(1985)
argumentam que a liderança possui um papel relevante para sua coordenação. Além
disso, sua eficácia depende, em grande parte, do respeito constante e da
predisposição a seguir as ordens dos líderes, bem como do comprometimento dos
subordinados com a missão e os objetivos de sua unidade.
Para compreender a influência do estilo de liderança, como elemento de
coordenação informal, o trabalho foi dividido em duas etapas. Na primeira,
buscou-se analisar o contexto específico dessa unidade. Essa etapa foi
realizada por meio de entrevistas em profundidade, para compreender melhor a
influência do estilo de liderança na relação entre confiança no líder e
comprometimento do liderado na instituição. Na etapa seguinte, utilizando
método quantitativo, buscou-se entender o quanto a relação desses elementos
identificados contribui para a qualidade da coordenação nessas equipes. Buscou-
se confirmar os achados na primeira fase e validar as relações entre esses
elementos identificados. Para tanto, foi proposto um modelo teórico que
considera a liderança como variável central de pesquisa (Figura_1, na seção 5)
e postula que o estilo de liderança influencia a relação entre a confiança no
líder e o comprometimento do liderado.
Figura 1 Modelo Teórico de Pesquisa
2. POLÍCIAS ESPECIAIS: O ESTUDO DO CASO BOPE
O BOPE é uma unidade de operações especiais da Polícia Militar do Rio de
Janeiro, criada em 1978, que conta com cerca de 400 policiais especializados em
ações de combate ao crime em áreas de conflito urbano de baixa intensidade e
resgate de reféns. O trabalho de pesquisa na unidade foi realizado entre agosto
e outubro de 2012. Foram realizadas 12 entrevistas individuais em profundidade.
No mesmo período, foi realizada a distribuição e a coleta de questionários. A
amostra foi composta de 128 respondentes. Com a pesquisa, buscou-se compreender
inicialmente a especificidade dos vínculos existentes entre esses policiais que
possuem uma atividade de grande risco, com traços marcantes de guerrilha
urbana, no combate a facções criminosas que operam o tráfico de drogas no
estado do Rio de Janeiro. Para tanto, foram desenvolvidas competências
específicas ao longo de décadas de experiência operacional e treinamento dentro
de um mesmo teatro de operações.
Sobre a natureza da instituição policial, Bittner_(2003,_p._138) define a
atividade policial como um "mecanismo para a distribuição da força coercitiva
não negociável empregada de acordo com os preceitos de uma compreensão
intuitiva das exigências da situação". Essa definição traz a ideia de que o fim
a que se destina a aplicação da força policial pode alterar-se de acordo com as
demandas situacionais, o que coloca a autonomia na execução como fator de
sucesso. O mesmo autor observa o caráter quase militar da organização policial,
evidenciado por um espírito de solidariedade fraternal estimulado pela natureza
de risco da atividade. Assim, o autor reconhece que a coordenação de equipes
policiais, em geral, está baseada em um forte significado de pertencimento ao
grupo, pactuado por laços de lealdade pessoal. Nesse sentido, Reiner_(2000)
observa que a característica central da cultura policial é o sentido de missão.
Ele afirma que a atividade policial não é percebida pelos policiais
simplesmente como um trabalho, mas como um meio de vida com propósito útil e
nobre.
Em relação às exigências da situação, no estudo conduzido por Zanini_et_al._
(2013) identificaram-se competências específicas no Batalhão de Operações
Policiais Especiais do Rio de Janeiro, são elas: velocidade de ação; capacidade
de coordenação ad hoc; alta resolutividade; forte competência para proteção
mútua dos membros, com taxas reduzidas de acidentes e de baixa em combate;
capacidade de atuar em cenários complexos e imprevisíveis. O trabalho no BOPE
diferencia-se daquele das demais unidades convencionais na Polícia Militar pela
frequência e pela intensidade dos combates com alto risco envolvido, pela
necessidade de conjugação de técnica e disciplina operacional, pelo treinamento
intensivo e permanente. Chamam a atenção, na especificidade do trabalho do
BOPE, os riscos frequentes à vida de seus membros, a pressão psicológica
constante, o estresse físico e mental nas operações e a necessidade de unir
velocidade de ação em cenários imprevisíveis com coordenação para a ação em
equipe em que se exige a capacidade de ouvir, interpretar e obedecer aos
comandos em curtíssimo espaço de tempo.
3. A RELAÇÃO ENTRE CONFIANÇA E LIDERANÇA
A importância da confiança na liderança é reconhecida por pesquisadores como
relevante para o desempenho, e essa sua relação tem sido considerada muito
relevante para a compreensão do funcionamento de grupos em várias disciplinas
(Ferrin_& Dirks,_2002). De acordo com Mayer,_Davis_e_Schoorman_(1995), a
importância da confiança é citada em muitas áreas de estudo organizacionais que
envolvem a liderança, tais como a comunicação, a administração por objetivos e
as relações de trabalho. Tzafrir_e_Dolan_(2004) ressaltam que existem
componentes comuns às diferentes definições de confiança, tais como as questões
associadas a vulnerabilidade/risco, o problema da reciprocidade e a dinâmica
das expectativas. Em relação às questões associadas a vulnerabilidade/risco, a
definição de confiança está vinculada à predisposição de um indivíduo colocar-
se vulnerável na relação com o outro, assumindo que esse outro é competente,
franco e responsável (Ferrin_& Dirks,_2002). Assim, a confiança confere
segurança para pessoas assumirem risco, sendo esse o ponto central em
conceptualizações sobre confiança com base psicológica e sociológica, como a
que é apresentada por Rousseau,_Sitkin,_Burt_e_Camerer_(1998). Esses autores
afirmam que a confiança é um estado psicológico que compreende a predisposição
em colocar-se vulnerável numa relação com outra pessoa, com base em
expectativas positivas. Na análise das relações de confiança entre líderes e
liderados utiliza-se, neste trabalho, esse conceito.
Autores como McAllister_(1995) sugerem que as relações de confiança são
manifestadas a partir de duas formas distintas, porém indissociáveis: a
cognitiva e a afetiva. Alguns estudos empíricos revelam que, tanto a confiança
baseada na cognição quanto à confiança baseada no afeto, estão relacionadas
positivamente ao desempenho de equipes (Webber_2008; Zur,_Terawatanavong_&
Webster,_2009). No entanto, sejam cognitivas, sejam afetivas, Zanini_(2011)
sustenta que relações de confiança ocorrem inseridas em determinado contexto
social, indo além das características individuais envolvidas numa relação
específica de confiança entre dois agentes. Elas estão associadas ao nível de
institucionalização dessas relações. Gillespie (2003) afirma que a confiança
nas relações de trabalho é predominantemente manifesta por meio de dois
comportamentos distintos, sendo o primeiro relacionado com poder contar com os
outros e, o segundo, a possibilidade de divulgação de informações pessoais ou
confidenciais para outras pessoas. Tal modelo é consistente com a visão de que
as pessoas podem confiar em alguém por alguns aspectos, mas não por outros
(Lewis_& Weigert,_1985). A confiança profissional contrasta com a natureza
mais pessoal orientada para confidências, cabendo, portanto, a distinção entre
as formas pessoal e profissional de confiança. Confidenciar ou divulgar algo a
um líder tem claramente uma forte base emocional e relacional de confiança,
revelando uma vulnerabilidade frequentemente acompanhada de formação de apego
interpessoal e expressões de cuidado e preocupação. Dessa forma, a dimensão
pessoal é semelhante à noção de confiança afetiva, e também consistente com a
opinião de que há́ componentes de confiança que diferem na medida em que
apresentam base emocional (Clark_& Payne,_1997).
Em contraste com a confiança pessoal, a confiança profissional pode estar
ancorada em habilidades profissionais e competências que levam à
confiabilidade. Isto é, contar com o líder para resolver uma questão importante
para o indivíduo, depender de seu apoio em situações difíceis, ou confiar no
julgamento que o líder tem do seu trabalho. Relações caracterizadas por uma
disposição em confiar em ambos os domínios representam a confiança relacional,
na qual existe uma ampla base de troca de apoio e recursos, interdependência,
cuidado interpessoal e preocupação (Rousseau_et_al.,_1998).
4. A INFLUÊNCIA DO ESTILO DE LIDERANÇA NA CONFIANÇA DO LIDERADO
Independentemente da natureza pessoal ou profissional, poucos são os estudos
que apresentam evidências sobre antecedentes potenciais de confiança, seja em
relação às ações e às práticas do líder, seja em relação aos atributos do
liderado ou aos atributos da relação líder-liderado. Cada uma das categorias
reflete diferentes efeitos na confiança (Ferrin_& Dirks,_2002). No presente
trabalho, o enfoque é dado à natureza da relação entre o líder e o liderado, e
principalmente à dimensão profissional da confiança.
Entre as teorias de liderança, a confiança talvez tenha sido mais
frequentemente citada na literatura sobre liderança transformacional. Segundo
Podsakoff,_MacKenzie,_Moorman_e_Fetter_(1990), líderes engajam-se em ações que
geram a confiança de seus liderados, estabelecendo uma relação de troca social
com eles. Assim, os líderes constroem confiança, demonstrando preocupação
individualizada e respeito para com os liderados, que envolve desde a consulta
ao liderado antes de tomar uma decisão até sua implementação, com base na
lealdade entre ambos (Bartram_& Casimir,_2007). Em contraste, os líderes
transacionais concentram mais esforços na garantia de os recompensar de forma
justa e no cumprimento do contrato de trabalho, formal ou informal. Em suma, os
comportamentos de liderança transformacional operam parcialmente devido ao
cuidado e à preocupação percebida no relacionamento, enquanto os líderes
transacionais enfatizam menos a relação e mais a garantia - baseada no caráter
- de que serão vistos como justos, confiáveis e íntegros.
Os estudos sobre liderança transformacional sugerem que a tomada de decisão
participativa denota que o líder confia no subordinado, preocupa-se com ele e o
respeita. Esse estilo de tomada de decisão afeta a percepção dos liderados
sobre o caráter do líder e aumenta a percepção de imparcialidade. Robinson_
(1996) sugere que as expectativas não atendidas, ou a violação de um contrato
psicológico, na forma de expectativas não atendidas, irá diminuir a confiança
nos líderes. Expectativas não atendidas podem afetar a confiança dos liderados,
afetando a medida com que o líder é percebido como confiável, honesto ou
íntegro (Clark_& Payne,_2006). Em suma, um líder mais consultivo, que toma
suas decisões baseando-se nas informações de seus liderados na equipe, pode
facilitar, para o liderado, o estabelecimento de maior confiança no próprio
líder. Isso tanto na esfera profissional, ou seja, no quanto confia no líder
para o apoiar em desafios profissionais, quanto na esfera pessoal, na
capacidade do líder de compreender seus desafios de vida pessoal, o que é
especialmente importante em tarefas que demandam equilíbrio emocional. Sendo
assim, propõe-se a seguinte hipótese de pesquisa:
* H1 — O estilo de liderança consultivo está positivamente relacionado com
a confiança pessoal (a) e profissional (b) do liderado em seu líder.
Especialmente em uma organização em que a coordenação e a eficiência das
equipes estão baseadas no forte significado da tarefa e demandam investimentos
de confiança em situações de risco extremo de vida, faz-se necessário que os
indivíduos no comando das equipes estejam comprometidos com a prática e o
fortalecimento das normas e regras que promovam uma atmosfera de confiança por
meio da aplicação de mecanismos de punição e reconhecimento (Zanini,_2011).
Parra,_Nalda_e_Perles_(2011) observam, por exemplo, que a virtude moral e a
sabedoria prática percebidas no líder são essenciais para estabelecer relações
de confiança. Nesse sentido, normas, valores e crenças organizacionais
asseguram que os comportamentos sejam coerentes com a confiança investida.
Considera-se ainda que, nesse contexto, a qualidade e a confiabilidade das
informações transmitidas pelos líderes aos liderados são fator crítico, uma vez
que podem ser de importância vital para o controle dos riscos das operações.
5. A INFLUÊNCIA DO ESTILO DE LIDERANÇA NA RELAÇÃO ENTRE CONFIANÇA E
COMPROMETIMENTO
Uma das razões pelas quais pesquisadores e gestores se interessam pela
confiança é a crença de que ela exerça impacto significativo sobre uma
variedade de resultados relevantes para as organizações. Atualmente, no
entanto, os achados são diversos, havendo uma variação na opinião dos
pesquisadores (Ferrin_& Dirks,_2002). Em relação ao desempenho, a percepção
do caráter do líder pode influenciar a vulnerabilidade de um liderado em uma
relação hierárquica. Em outras palavras, porque os líderes têm autoridade para
tomar decisões com impacto significativo sobre os liderados (remuneração,
promoções, demissões etc.), as percepções sobre a confiabilidade do líder
tornam-se importantes. Com base nessa ideia, Mayer_et_al._(1995) propuseram um
modelo sugerindo que, quando os liderados acreditam que seus líderes têm
integridade, ou benevolência, eles se tornam mais confortáveis para engajar-se
em comportamentos de risco, como trocar informações confidenciais. Além disso,
numa relação fundamentada em princípios de intercâmbio social, há a vontade dos
liderados em retribuir o afeto e a consideração que um líder pode expressar
nesse relacionamento. Em outras palavras, indivíduos que sentem que seu líder
demonstra cuidado e consideração, retribuem esse sentimento sob a forma de
comportamentos desejados. Em ambos os casos, a confiança pode resultar em maior
desempenho de equipes.
Considerando que confiança, lealdade e respeito são centrais à relação entre
líder e liderado, espera-se que a confiança esteja positivamente relacionada
com a satisfação e o comprometimento organizacional (Emery_& Barker,_2007).
Estudos recentes têm mostrado consistentemente que a teoria da troca líder-
liderado tem efeito direto sobre o comprometimento organizacional (Eisenberger,
Karangolar,_Stinglhamber,_Neves,_Becker,_et_al.,_2010), estando positivamente
relacionada com o comprometimento afetivo e normativo, mas negativamente
relacionada com o comprometimento instrumental. Além disso, a relação entre
confiança interpessoal e comprometimento já foi observada em estudos anteriores
(Pillai,_Schriesheim_& Williams,_1991 ; Brockner,_Siegel,_Tyler_&
Martin,_1997 ; Farrell,_2003; Ugboro,_2003; Crossman_& Lee-Kelley,_2004;
Lazzarini,_Miller_& Zenger,_2004 ; When_& Kwon,_2004 ; Zanini,_2007;
Zanini_et_al.,_2013). Muitos desses estudos identificaram uma relação positiva
direta entre confiança no superior imediato e o comprometimento do subordinado
(Pillai_et_al.,_1991; Ugboro,_2003; Zanini,_2007). A partir do exposto, as
seguintes hipóteses são propostas:
* H2 — Um estilo consultivo de liderança vai influenciar positivamente a
relação entre a confiança no líder (pessoal e profissional) e o
comprometimento afetivo.
* H3 — Um estilo consultivo de liderança vai influenciar positivamente a
relação entre a confiança no líder (pessoal e profissional) e o
comprometimento normativo.
* H4 — Um estilo consultivo de liderança vai influenciar negativamente a
relação entre a confiança no líder (pessoal e profissional) e o
comprometimento instrumental.
Assim, propõe-se o seguinte modelo teórico, que considera a liderança como
variável central de pesquisa (Figura_1), postulando que o estilo de liderança
influencia a relação entre confiança no líder e o comprometimento do liderado.
Verificaram-se tanto a relação entre o estilo de liderança e a confiança nesse
líder como sua influência na relação entre a confiança no líder e o
comprometimento do liderado.
6. METODOLOGIA
Utilizaram-se métodos qualitativos e quantitativos para os objetivos de
pesquisa. O trabalho foi dividido em duas etapas. Na primeira, procurou-se
analisar o contexto específico dessa unidade, por meio de entrevistas em
profundidade, tentando compreender a influência do estilo de liderança na
relação entre confiança no líder e comprometimento do liderado na instituição.
Na etapa seguinte, utilizando método quantitativo, buscou-se entender o quanto
a relação desses elementos identificados contribui para a qualidade da
coordenação nessas equipes, verificando tanto a relação entre o estilo de
liderança e a confiança nesse líder como a influência do estilo de liderança na
relação entre a confiança no líder e o comprometimento do liderado.
Inicialmente, realizou-se uma pesquisa por meio de entrevistas para compreender
melhor o contexto em que ocorrem as relações entre as variáveis do estudo
dentro da unidade. As entrevistas individuais tiveram como objetivo compreender
a influência do estilo de liderança na relação entre confiança no líder e
comprometimento do liderado. Nesse trabalho, surgiu a percepção do peso e o
papel da liderança na construção da força do vínculo baseado no estilo de
liderança e nas relações de confiança entre os membros da equipe. Isso gera
interesse maior em aprofundar a análise desse fator como constitutivo da força
do vínculo dos membros entre si, entre eles e seus superiores e em suas equipes
de trabalho, tornando-se fator de efetividade operacional.
6.1. Pesquisa qualitativa - resultados
Nos resultados da pesquisa qualitativa, apontaram-se três elementos de análise:
o contexto, a liderança e a estrutura organizacional. Quando se analisa o
contexto institucional, observa-se que os membros da unidade percebem-se como
indivíduos que agem em meio à desordem institucional. Essa percepção é
caracterizada pela desorganização do aparato do Estado e pela vulnerabilidade
do pobre. O indivíduo luta contra uma grande massa de injustiça social,
corrupção e sofrimento. O policial das equipes convencionais é, em geral, visto
pela sociedade como um indivíduo menos capaz e mais complacente com a desordem
do sistema. O Estado é percebido frequentemente como cúmplice dessa desordem.
Nesse sentido, na percepção dos policiais combatentes, a unidade representa um
espaço físico e simbólico em que a desordem é reduzida. A medida de percepção
de suporte organizacional mostrou-se negativa. Outros elementos - basicamente
os sentimentos de lealdade pessoal nutridos pela orientação e uma causa comum -
desempenham um papel essencial para a coordenação das tarefas e reforçam o
vínculo percebido entre os indivíduos.
A liderança do Batalhão desempenhou historicamente o papel de elemento
estruturante. Sua principal linha de ação no tempo foi encontrar espaços de
atuação em meio ao caos institucional, trabalhando com foco em fatores humanos
dentro da máquina estatal. Observa-se que a legitimidade da ação dos líderes
está baseada em seu histórico no grupo. Espera-se que os líderes já tenham sido
provados em situações de risco extremo no passado e que defendam seus
subordinados em um pacto de lealdade. Por outro lado, os líderes são os
principais responsáveis por estabelecer uma cultura baseada em confiança,
porque carregam o dever de aplicar as punições que renovam o compromisso da
equipe com valores e ideias que não devem ser facilmente negociados.
A estrutura organizacional dessa unidade está baseada em regras rígidas de
conduta, que criam um contexto capacitante para a ação. Esse contexto pode ser
mais bem compreendido destacando-se quatro elementos: cultura organizacional,
seleção, treinamento e sucessão.
Quanto à cultura organizacional importa observar a construção do vínculo de
confiança que está baseado em um forte sentimento de orgulho e pertencimento,
que faz com que os membros da unidade se sintam distanciados daquilo que
enxergam como negativo na própria polícia e da desordem institucional do Estado
como um todo. A identidade dos membros da unidade está baseada no combate lado
a lado com pessoas que muitas vezes arriscam as próprias vidas para salvar um
colega de armas. Para seus membros, o senso de missão está relacionado ao
combate ao crime organizado e à escalada de violência nas favelas, utilizando-
se dos recursos heroicos como barreira contra a escalada do mal. A unidade
apresenta uma cultura fortemente paroquial (Hofstede,_2001), baseada na
solidariedade fraternal, com extrema valorização da lealdade pessoal. Na
realidade, essa lealdade é, em casos extremos, o único fator que garante que o
policial ferido não será abandonado no campo de batalha pelos colegas. Ela é a
característica central do espírito de corpo que dá forma à crença de que a
equipe é formada por indivíduos, mas que a conquista da missão só é possível
por meio do trabalho em equipe. Essa premissa torna-se evidente na prática,
quando, em situação de conflito e risco de vida, esses indivíduos percebem a
importância de contar uns com os outros e comprometer-se a agir como equipe.
Outro ponto importante no contexto da cultura organizacional é a presença de
mecanismos de punição. Esses mecanismos são verticais, quando da aferição
permanente quanto ao desempenho de cada combatente em missão, sendo sempre
apurado qualquer desvio que possa vir a comprometer as equipes em ação; e
horizontais, aqueles exercidos pelos próprios pares, que inibem um indivíduo de
agir de forma considerada inadequada.
Em relação à seleção, o BOPE possui rígido mecanismo para ingresso na unidade
(Storani,_2006). Confirmou-se que pertencer ao grupo significa necessariamente
ter sido aprovado num dos cursos ministrados pelo Batalhão, que representa um
duro rito de passagem. Segundo os instrutores, não basta o indivíduo ter bom
preparo físico, boa técnica e revelar bom caráter. Para a manutenção do que
eles denominam de padrão de excelência operacional, é necessário que os
indivíduos selecionados apresentem as precondições necessárias de um
combatente: coragem, equilíbrio emocional, constância e força de vontade. O
BOPE é, provavelmente, a única unidade de operações especiais no mundo em que
os alunos são submetidos a operações reais ainda em fase do curso de formação.
O treinamento é outro ponto fundamental, existindo uma diferença marcante entre
o ritmo das operações no BOPE, se comparado com outras unidades de operações
especiais no mundo. Diferentemente da maioria, na unidade investigada as
operações são muito frequentes e intensas, gerando grande experiência
operacional em curto espaço de tempo. O treinamento é sempre priorizado em
relação à operação.
Na unidade, o processo de sucessão obedece, em regra, a uma relação
hierárquica. Contudo, na escolha do comando, quesitos como disciplina pessoal,
liderança em momentos de crise e vínculo com o Batalhão durante a carreira são
levados em conta para a escolha. Não se pode deixar de mencionar o aspecto
político-institucional. Sendo o principal braço operacional da corporação, a
decisão final quanto ao nome do Comandante da unidade, por tratar-se de posição
estratégica, é tomada pelo Comandante-Geral da Corporação, após submissão do
nome ao Secretário de Estado de Segurança. A história demonstra que, em regra,
os escolhidos para a função detêm forte vínculo histórico profissional com a
unidade.
6.2. Pesquisa quantitativa - questionários
A aplicação de questionários foi feita de forma direta e manual. O instrumento
de coleta foi dividido em quatro partes, sendo utilizado um questionário
estruturado.
A primeira parte contém questões que investigam as motivações do policial para
participar de operações de risco, os fatores mais importantes para enfrentar o
desafio de uma missão de alto risco, e aqueles motivadores e desmotivadores
para fazer parte da unidade, as características inerentes a um policial membro
da UOE, o estilo do líder que gostaria de ter e o que possui, e a percepção
sobre os policiais da UOE. Há questões abertas sobre a principal razão que o
motiva a trabalhar todos os dias na organização, sobre a missão e o que
significa ser um membro da UOE, e sobre a opinião de como e se o trabalho
realizado pela unidade melhora a sociedade.
A segunda parte aglutinou as questões relativas à confiança no superior, no
colega e na equipe. O questionário utilizado foi o Behavioral Trust Inventory
(BTI) de Gillespie_(2003), validado para a realidade brasileira por Zanini_
(2007). Esse questionário é composto por dez itens, avaliados em escala Likert
de sete pontos, variando de 1 a 7 (1 = nem um pouco disposto; 7 = extremamente
disposto). No referido questionário, cada grupo de cinco perguntas tem por
objetivo medir aspectos diferentes da confiança: os itens de número 1 a 5 medem
a confiança profissional, enquanto os itens de 6 a 10 medem a confiança
pessoal.
A terceira parte englobou as questões relativas às dimensões de
comprometimento. Para mensurar o comprometimento dos policiais, foi utilizado o
questionário tridimensional de comprometimento de Meyer e Allen (1991). Esse
questionário é composto por 18 itens que focam as dimensões afetiva, normativa
e instrumental, medidos em escala Likert de cinco pontos, variando de 1 a 5 (1
= discordo completamente; 5 = concordo completamente). O comprometimento
afetivo refere-se a sentimentos de pertencer à organização e à existência de
laços emocionais. O comprometimento normativo refere-se a sentimentos de dever
e obrigação para com a organização como fruto da socialização na cultura
organizacional. O comprometimento instrumental refere-se a percepções de poucas
oportunidades fora da organização, a investimentos pessoais já realizados e a
dificuldades ocasionais que possam impedir o indivíduo de deixar sua
organização.
A quarta parte questiona variáveis demográficas pessoais, como educação, faixa
etária, quantidade de subordinados e tempo em que trabalha na UOE. A parte
final do instrumento foi disponibilizada para opinião e quaisquer comentários
adicionais.
6.3. Instrumento de coleta de dados
A amostra é composta de 128 respondentes, todos do sexo masculino,
representando 32% de um total de 400 policiais combatentes. A participação dos
policiais foi definida a partir do critério de acessibilidade e, mais ainda,
disponibilidade durante o dia de trabalho. Os dados foram analisados utilizando
o software WarpPLS 3.0. Primeiramente, foi realizada a análise descritiva da
base de dados, de modo a explorar estatisticamente as respostas obtidas. Não
foram identificados valores inesperados, erros de digitação ou outliers. Foram
avaliadas as medidas de Studentized Deleted Residuals, Leverage Distance e
DFBetas, que não apontaram para a existência de respondentes extremos. Em
relação ao modelo de pesquisa, todas as premissas para a análise multivariada
foram atendidas. Com as premissas verificadas, foram realizadas análises
descritivas com os dados, de modo a obter as frequências de respostas para as
questões iniciais sobre motivação, estilo do líder, e as demais questões da
primeira parte do questionário. Em seguida, o modelo de pesquisa foi analisado
a partir de modelagem de equações estruturais, de modo a testar as hipóteses de
pesquisa.
6.4. Teste de hipóteses
O modelo estatístico utilizado para testar as hipóteses elencadas neste artigo
é o de equações estruturais (SEM) estimado por meio do algoritmo Partial Least
Squares (PLS-SEM). O software utilizado no presente trabalho foi o WarpPLS 3.0.
O PLS-SEM possui dois componentes, a saber: o modelo de mensuração e o modelo
estrutural.
O modelo de mensuração permitiu mensurar as variáveis latentes(1) a partir dos
indicadores observáveis que compõem as escalas apresentadas no item anterior
deste artigo. Nesta etapa, as escalas para mensurar as variáveis dependentes e
independentes passaram por um tratamento estatístico que teve como objetivo
analisar se a estrutura de correlações dos indicadores era adequada para a
extração das variáveis latentes, necessárias à estimação do modelo estrutural
(Hair,_Ringle_& Sarstedt,_2011). Em termos práticos, a extração de tais
variáveis deu-se por meio da análise de componentes principais com a rotação
oblíqua Promax. A partir dos resultados da extração dos fatores, foram
avaliadas as validades convergente e discriminante do instrumento de
mensuração, assim como sua confiabilidade.
Na etapa seguinte, estimou-se o modelo estrutural, que permitiu relacionar as
variáveis latentes extraídas do modelo de mensuração. Nesta etapa, as hipóteses
foram testadas. Com o uso do método de reamostragem bootstrapping(2), o
algoritmo PLS Regression estimou os betas que correspondem ao efeito das
variáveis independentes na variável dependente. A significância estatística e o
sinal desses betas estimados foram utilizados para tirar conclusões sobre as
hipóteses.
7. RESULTADOS
7.1. Estatística descritiva da amostra
O tempo médio de pertencimento à instituição é de 7,6 anos com desvio padrão de
4,8 anos. Por volta de 69% dos entrevistados têm idade entre 30 e 39 anos;
13,6%, entre 40 e 44 anos; e 6,3%, acima de 45 anos. Quanto ao nível de
escolaridade, a maioria dos entrevistados declarou possuir ensino médio
completo (68,6%). Somente 16,9% dos entrevistados têm ensino superior, e 0,8%
possuem algum curso de pós-graduação. No que diz respeito ao estado civil dos
respondentes, 58,62% são casados; 16,38% estão casados pela segunda vez, ou
mais; 19,83% são solteiros; e 5,17%, divorciados ou separados. Em termos de
número de profissionais subordinados aos respondentes da pesquisa, verifica-se
que não há concentração de respondentes em nenhuma das opções de resposta. Dos
respondentes, 20,37% da amostra não têm subordinado; 20,37% têm de um a cinco
subordinados; 27,78%, de seis a 20; e 31,48%, mais de 20.
As variáveis analisadas nesta seção foram utilizadas como variáveis de controle
na estimação do modelo estrutural. Por serem variáveis qualitativas ou
quantitativas mensuradas por faixas, variáveis dummy foram criadas e incluídas
no modelo estrutural.
7.2. Resultados do modelo de mensuração dos construtos
Nesta seção, o objetivo é avaliar a qualidade da mensuração das variáveis
latentes que serão utilizadas para o teste das hipóteses, ou seja, serão
avaliadas a validade convergente, a discriminante e a confiabilidade do
instrumento de mensuração (Hair,_Sarstedt,_Ringle_& Mena,_2011).
Especificamente, foram mensuradas as variáveis confiança pessoal no líder su-
perior (CLSPESS), confiança profissional no líder superior (CLSPROF),
comprometimento afetivo (CA), comprometimento instrumental (CI) e
comprometimento normativo (CN).
A Tabela_1 é utilizada para avaliar a validade convergente do instrumento de
mensuração. Nela são apresentadas as cargas fatoriais (em destaque), que
correspondem à correlação entre o indicador e o fator ao qual tal indicador foi
alocado em termos teóricos. Espera-se uma alta correlação entre o indicador e o
respectivo fator ao qual foi alocado. Hair,_Anderson,_Tatham_e_Black_(2005)
apontam que um instrumento de mensuração deve apresentar cargas fatoriais
significantes (valores-p associados com as cargas devem ser menores que o nível
de significância de 5%) e as cargas devem ser maiores ou iguais a 0,5 para ter
validade convergente. Adicionalmente, a carga de um fator (em negrito) deve ser
maior do que todas as cargas fatoriais cruzadas (cross loadings). Diante desses
critérios, foi necessário excluir um indicador do fator comprometimento
normativo (CN 4), uma vez que esse indicador apresentou carga cruzada de 0,7
com o fator comprometimento, maior que a carga apresentada no fator CN, que foi
de 0,51. Após a exclusão desse indicador, todos os critérios para atestar a
validade convergente dos instrumentos de mensuração foram satisfeitos. Com esse
resultado, confirma-se que os indicadores que, teoricamente, fazem parte de uma
mesma variável latente comportam-se da mesma maneira empiricamente.
Tabela 1 Combined Loadings and Cross Loadings
Indicadores CA CI CN CLSPESS CLSPROF Valor-p
CA_1 0,75 -0,09 0,26 -0,18 0,19 <0,001
CA_2 0,73 -0,09 0,22 0,11 0,04 <0,001
CA_3 0,89 0,04 -0,05 -0,01 0,01 <0,001
CA_4 0,89 0,00 -0,11 0,06 -0,04 <0,001
CA_5 0,86 0,05 -0,09 -0,04 0,02 <0,001
CA_6 0,83 0,06 -0,16 0,05 -0,18 <0,001
CI_1 0,06 0,70 -0,01 0,09 -0,11 <0,001
CI_2 0,33 0,60 -0,15 0,12 -0,16 <0,001
CI_3 0,03 0,65 0,16 -0,14 0,03 <0,001
CI_4 -0,23 0,64 0,07 -0,08 0,20 <0,001
CI_5 -0,07 0,57 0,03 0,05 0,04 <0,001
CI_6 -0,13 0,56 -0,13 -0,04 0,02 <0,001
CN_1 -0,28 0,19 0,63 -0,13 0,22 <0,001
CN_2 0,08 -0,03 0,71 -0,04 0,13 <0,001
CN_3 -0,14 -0,04 0,75 0,02 -0,08 <0,001
CN_4 0,70 -0,10 0,51 0,02 -0,20 <0,001
CN_5 -0,24 -0,07 0,77 0,15 0,03 <0,001
CN_6 0,08 0,06 0,63 -0,05 -0,14 <0,001
CLSPESS_1 -0,09 0,03 0,00 0,87 0,08 <0,001
CLSPESS_2 0,00 -0,17 0,12 0,75 0,01 <0,001
CLSPESS_3 -0,01 0,01 0,05 0,84 -0,15 <0,001
CLSPESS_4 0,16 0,05 -0,12 0,77 0,17 <0,001
CLSPESS_5 -0,05 0,06 -0,06 0,82 -0,09 <0,001
CLSPROF_1 0,23 -0,02 -0,06 -0,04 0,82 <0,001
CLSPROF_2 -0,17 0,10 -0,08 -0,07 0,83 <0,001
CLSPROF_3 -0,07 -0,13 0,09 -0,02 0,86 <0,001
CLSPROF_4 -0,03 0,02 -0,01 0,03 0,87 <0,001
CLSPROF_5 0,05 0,02 0,06 0,09 0,83 <0,001
Na Tabela_2, apresenta-se a matriz de correlação entre as variáveis latentes
mensuradas, assim como a raiz quadrada da fração da variância extraída - AVE
(Average Variances Extracted) - (apresentada na diagonal principal em
destaque). Essa matriz é utilizada para avaliar a validade discriminante dos
instrumentos de medida. Segundo Hair,_Sarstedt_et_al._(2011), a raiz quadrada
da fração da variância extraída (AVE) de determinado construto deve ser maior
que a maior correlação com qualquer outro construto mensurado. Diante desse
critério, conhecido como critério Fornell-Larcker, os resultados indicam que o
instrumento de mensuração apresentou validade discriminante. No construto
comprometimento afetivo (CA), apresentou-se uma raiz da fração da variância
extraída (0,827) muito superior à maior correlação desse construto com os
outros mensurados, que, nesse caso, foi o comprometimento normativo (0,362).
Com esse fato, comprova-se a validade discriminante do construto
comprometimento afetivo (CA). Ao replicar esta análise, pode-se chegar à mesma
conclusão para os outros construtos (Tabela_2).
Tabela 2 Matriz de Correlação das Variaveis Latentes, Alfa de Cronbach e
Confiabilidade Composta
Variaveis Latentes CA CI CN CLSPESS CLSPROF
CA 0,827
CI 0,143 0,620
CN 0,362 0,412 0,711
CLSPESS 0,131 0,031 -0,073 0,810
CLSPROF 0,360 0,064 0,169 0,445 0,840
Alfa de Cronbach 0,906 0,678 0,751 0,868 0,896
Confiabilidade Composta 0,928 0,789 0,835 0,905 0,923
Nota: A raiz quadrada da variancia media extraida e apresentada na diagonal
principal da matriz.
Por fim, a consistência interna do construto foi avaliada por meio do indicador
de confiabilidade composta (composite reliability). Hair,_Sarstedt_et_al._
(2011)afirmam que o construto apresenta aceitável consistência interna se a
confiabilidade composta for superior a 0,7. De acordo com os resultados
apresentados na Tabela_2, em todos os construtos mensurados apresentou-se
aceitável consistência interna.
Diante desses resultados, conclui-se que os construtos foram adequadamente
mensurados, uma vez que apresentaram validade convergente, discriminante e
confiabilidade (consistência interna). Nesse sentido, os resultados
apresentados fornecem subsídios para que as relações que serão testadas no
modelo estrutural sejam válidas.
7.3. Resultados do modelo estrutural e análise dos dados
Os modelos que serão apresentados nesta seção permitiram o teste das hipóteses
apresentadas. Na Hipótese 1a, previu-se que o estilo de liderança consultivo é
positivamente relacionado com a confiança pessoal do líder no liderado. Já na
Hipótese 1b, previu-se que o estilo de liderança afeta positivamente a
confiança profissional do líder no liderado.
A variável estilo de liderança consultivo (ESTLID) foi mensurada por meio da
seguinte questão:
* As descrições abaixo aplicam-se a três diferentes tipos de líderes.
Primeiramente, leia estas descrições, por favor:
o - Líder 1: Geralmente toma suas decisões prontamente e comunica-as
a seus subordinados de forma clara e firme. Ele espera que a equipe
execute as decisões com lealdade, sem questionar ou criar
dificuldades.
o - Líder 2: Geralmente toma suas decisões prontamente, mas, antes de
seguir em frente, tenta explicá-las completamente a sua equipe. Ele
dá as razões das decisões que tomou e responde a qualquer questão
que os membros da equipe possam ter.
o - Líder 3: Geralmente consulta seus subordinados antes de tomar uma
decisão. Ele ouve seus conselhos, pondera-os e anuncia sua decisão.
Ele, então, espera que todos trabalhem com lealdade no sentido de
implementar a decisão, esteja ela ou não de acordo com as sugestões
que deram.
* (Assinale apenas uma opção) A qual dos três tipos de líder
anteriormente descritos você diria que seu superior mais se assemelha?
o ( ) Líder 1
o ( ) Líder 2
o ( ) Líder 3
Essa variável foi codificada da seguinte maneira: Líder 1=1, Líder 2=2 e Líder
3=3. Com o objetivo de testar a H1a e a H1b, essa variável foi incluída nos
dois modelos estimados na Tabela_3. Além disso, as variáveis demográficas que
constam na Figura_2 foram incluídas nos modelos, com a finalidade de captar
possíveis fontes de variação nas variáveis dependentes que não se devem às
variáveis que serão testadas nas hipóteses.
Tabela 3 Efeitos do Estilo de Liderança na Confiança do Liderado no Seu Lider
Variaveis Variável Dependente: Confiança Pessoal do Variável Dependente: Confiança Profissional do
de Liderado no Líder Liderado no Líder
Controle
b Effect VIF b Effect VIF
Size Size
Idade 30 -0,113 0,012 3,145 -0,056 0,001 3,145
a 39 anos
Idade 40 -0,244* 0,033 4,065 -0,145 0,005 4,065
a 54 anos
Sub1a5 0,169* 0,013 1,816 -0,132* 0,025 1,816
Sub6a20 0,175 0,006 2,068 0,019 0,002 2,068
Sub+20 0,223* 0,009 2,140 0,207* 0,048 2,140
EM -0,208* 0,007 2,529 - 0,009 2,529
0,186**
Grad - 0,013 2,452 -0,22** 0,012 2,452
0,244**
Anos BOPE -0,075 0,006 1,650 -0,031 0,000 1,650
Casado 0,171** 0,018 1,183 0,095 0,000 1,183
Efeito
Direto
ESTLID 0,156** 0,022 1,060 0,208** 0,046 1,06
R- 0,102 0,143
quadrado
Nota: *** p<0,01,
**p<0,05,
*p<0,10.
Figura 2 Código das Variáveis Dummy Utilizadas nos Modelos
Variavel Nome da Codificação
Variavel
Menos de Assume valor 1 se o respondente tem menos de 30 de idade e 0 caso contrario.
Idade 30 anos Dummy de referencia.
30 a 39 Assume valor 1 se o respondente tem entre 30 e 39 anos de idade e 0 caso
anos contrario.
40 a 54 Assume valor 1 se o respondente tem entre 40 e 54 anos de idade e 0 caso
anos contrario.
Nenhum Assume valor 1 se o respondente Não tem nenhum subordinado e 0 caso contrario.
Numero de Dummy de referencia.
Subordinados Sub1a5 Assume valor 1 se o respondente tem entre um e cinco subordinados e 0 caso
contrario.
Sub6a20 Assume valor 1 se o respondente tem entre seis e 20 subordinados e 0 caso
contrario.
Sub+20 Assume valor 1 se o respondente tem mais de 20 subordinados e 0 caso contrario.
Tecnico/ Assume valor 1 se o respondente tem diploma tecnico ou outro tipo de formação e
Outro 0 caso contrario.
Escolaridade EM Assume valor 1 se o respondente tem ensino medio ou outro tipo de formação e 0
caso contrario.
Grad Assume valor 1 se o respondente tem graduação ou outro tipo de formação e 0
caso contrario.
Anos no BOPE Anos BOPE Numero de anos que o respondente trabalha no BOPE.
Solteiro/ Assume valor 1 se o respondente for solteiro ou divorciado e 0 caso contrario.
Estado Civil Divorciado
Casado Assume valor 1 se o respondente for casado (1,2 ou mais vezes) e 0 caso
contrario.
Ambas as hipóteses foram confirmadas, uma vez que os coeficientes encontrados
para a variável (ESTLID), nos dois modelos, foram positivos e significantes
estatisticamente (p<0,05).
Para testar as hipóteses H2, H3 e H4, modelos hierárquicos foram estimados para
cada uma das variáveis dependentes envolvidas nas hipóteses, ou seja,
comprometimento afetivo, comprometimento instrumental e comprometimento
normativo. O primeiro modelo permite captar a fração da variância (R2) da
variável dependente, explicada pelas variáveis de controle (Modelo 1). O
segundo inclui, além das variáveis de controle, as variáveis confiança pessoal
(CLSPESS), confiança profissional (CLSPROF) e estilo de liderança (ESTLID), que
permitiram captar os efeitos diretos dessas variáveis na respectiva variável
dependente (Modelo 2). Já o terceiro modelo foi utilizado para testar as
hipóteses H2, H3 e H4. Nesse modelo, variáveis que correspondem à multiplicação
da variável ESTLID com as variáveis de confianças pessoal e profissional foram
incluídas no modelo. Tais variáveis permitem captar se o estilo de liderança
afeta a relação entre a confiança e o comprometimento dos entrevistados, ou
seja, os efeitos moderadores da variável ESTLID (Modelo 3).
Na Tabela_4, apresenta-se o resultado dos três modelos estimados considerando a
variável dependente comprometimento afetivo. Vale destacar o significativo
incremento do R2, de 13,6% para 24,2%, do Modelo 1 para o Modelo 2, obtido com
a inclusão das variáveis CLSPESS, CLSPROF e ESTLID. No entanto, a maior parcela
desse incremento deve-se à variável confiança profissional do liderado no líder
(CLSPROF), pois foi a única que apresentou significância estatística (Tabela
4).
Tabela 4 Modelo Estrutural Estimado para Explicar a Variancia do
Comprometimento Afetivo
Variaveis de Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3
Controle b Effect VIF b Effect VIF b Effect VIF
Size Size Size
Idade 30 a 39 -0,068 0,012 3,14 -0,052 0,010 3,16 -0,061 0,011 3,163
anos
Idade 40 a 54 0,232* 0,035 4,05 0,272* 0,042 4,13 0,237* 0,036 4,229
anos
Sub1a5 0,079 0,002 1,82 0,133* 0,003 1,91 0,113 0,003 1,963
Sub6a20 -0,104 0,019 2,02 -0,097 0,017 2,11 -0,072 0,013 2,131
Sub+20 0,219** 0,045 2,14 0,150* 0,031 2,21 0,135 0,028 2,223
EM -0,184** 0,002 2,53 -0,123 0,001 2,59 -0,100 0,001 2,608
Grad -0,148 0,005 2,45 -0,076 0,003 2,54 -0,066 0,002 2,594
Anos BOPE - 0,020 1,64 - 0,019 1,66 -0,191** 0,015 1,759
0,257*** 0,244***
Casado 0,013 0,000 1,18 -0,013 0,000 1,22 -0,029 0,000 1,226
Efeitos
Diretos
CLSPESS -0,031 0,004 1,37 -0,011 0,001 1,384
CLSPROF 0,362*** 0,131 1,43 0,289*** 0,104 1,638
ESTLID -0,033 0,003 1,12 -0,032 0,003 1,178
Efeitos
Moderadores
ESTLID*CLSPESS 0,083 0,007 1,361
ESTLID*CLSPROF -0,211** 0,075 1,509
R-quadrado 0,136 0,242 0,272
Nota:
***p<0,01,
**p<0,05,
*p<0,10.
Na hipótese H2a, previu-se que o estilo de liderança consultivo influenciaria
positivamente a relação entre a confiança pessoal no líder (CLSPESS) e
comprometimento afetivo (CA). Os resultados não permitem comprovar essa
hipótese, uma vez que o coeficiente estimado do efeito moderador não foi
significante estatisticamente (Modelo 3; b=0,083; p= n.s.). Além disso, pode-se
concluir (Tabela_4) que a CLSPESS não afeta o CA (Modelo 3; b=-0,011; p= n.s.).
Já na H2b, sugeriu-se que o estilo de liderança consultivo influenciaria
positivamente a relação entre a confiança profissional no líder (CLSPROF) e o
comprometimento afetivo (CA). Essa hipótese não foi confirmada, uma vez que
existe um efeito negativo e significante do estilo de liderança na relação
apresentada na hipótese (Modelo 3; b= -0,211; p<0,05). É importante notar que,
quanto maior é a confiança profissional no líder, maior é o comprometimento
afetivo (Modelo 3; b=0,289; p<0,01). Entretanto, ao contrário do que se previa
na hipótese, esse efeito positivo reduz-se (Tabela_4), quando o líder é mais
consultivo (Modelo 3; b= -0,211; p<0,05).
Na Tabela_5, apresenta-se o resultado dos três modelos estimados considerando-
se a variável dependente comprometimento instrumental (CI). Os resultados dos
modelos indicam que apenas duas variáveis de controle (Sub6a20 e Grad)
apresentaram significância estatística para explicar o CI dos entrevistados. O
R2 em torno de 11% deve-se em grande parte a tais variáveis. Nesse sentido, as
hipóteses H3a e H3b foram rejeitadas, uma vez que os efeitos moderadores não
foram significantes. Os efeitos diretos também não apresentaram significância
estatística, ou seja, confiança profissional no líder, confiança pessoal no
líder e estilo de liderança não têm efeito no comprometimento instrumental do
entrevistado (Tabela_5).
Tabela 5 Modelo Estrutural Estimado para Explicar a Variância do
Comprometimento Instrumental
Variaveis de Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3
Controle b Effect VIF b Effect VIF b Effect VIF
Size Size Size
Idade 30 a 39 -0,187 0,003 3,144 -0,182 0,003 3,16 -0,177 0,003 3,163
anos
Idade 40 a 54 -0,233 0,014 4,045 -0,216 0,013 4,134 -0,189 0,011 4,229
anos
Sub1a5 -0,038 0,003 1,815 -0,031 0,002 1,906 -0,010 0,001 1,963
Sub6a20 - 0,061 2,022 - 0,064 2,107 - 0,065 2,131
0,257** 0,273** 0,275**
Sub+20 -0,074 0,004 2,139 -0,083 0,004 2,214 -0,076 0,004 2,223
EM -0,084 0,009 2,529 -0,076 0,008 2,591 -0,081 0,008 2,608
Grad -0,236* 0,040 2,452 -0,225* 0,038 2,539 -0,245* 0,041 2,594
Anos BOPE 0,117 0,002 1,638 0,111 0,002 1,657 0,091 0,002 1,759
Casado 0,084 0,004 1,175 0,073 0,003 1,217 0,074 0,003 1,226
Efeitos
Diretos
CLSPESS -0,008 0,000 1,365 -0,018 0,001 1,384
CLSPROF 0,057 0,004 1,427 0,088 0,006 1,638
ESTLID -0,086 0,003 1,116 -0,067 0,003 1,178
Efeitos
Moderadores
ESTLID*CLSPESS 0,062 0,003 1,361
ESTLID*CLSPROF 0,058 0,001 1,509
R-quadrado 0,108 0,116 0,123
Nota: *** p<0,01,
**p<0,05,
*p<0,10.
Finalmente, na Tabela_6, apresenta-se o resultado dos três modelos estimados
considerando-se a variável dependente comprometimento normativo (CN). Após a
inclusão das variáveis utilizadas para testar as hipóteses do presente trabalho
(Modelo 3), o R2 passou de 10,9% para 17,9%, um ganho de aproximadamente 8% na
explicação da variância do CN, resultado considerado satisfatório dada a
existência de múltiplos fatores que podem explicar tal variância.
Tabela 6 Modelo Estrutural Estimado para Explicar a Variância do
Comprometimento Normativo
Variaveis de Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3
Controle b Effect VIF b Effect VIF b Effect VIF
Size Size Size
Idade 30 a 39 - 0,079 3,144 - 0,079 3,160 - 0,080 3,163
anos 0,368*** 0,367*** 0,373***
Idade 40 a 54 -0,274* 0,022 4,045 -0,262* 0,021 4,134 -0,284* 0,022 4,229
anos
Sub1a5 -0,027 0,003 1,815 0,03 0,003 1,906 0,018 0,002 1,963
Sub6a20 0,002 0,000 2,022 0,005 0,000 2,107 0,024 0,001 2,131
Sub+20 0,082 0,008 2,139 0,064 0,007 2,214 0,054 0,006 2,223
EM 0,069 0,010 2,529 0,084 0,012 2,591 0,101 0,015 2,608
Grad -0,108 0,016 2,452 -0,088 0,013 2,539 -0,084 0,013 2,594
Anos BOPE 0,095 0,003 1,638 0,082 0,002 1,657 0,119 0,003 1,759
Casado -0,080 0,012 1,175 -0,086 0,013 1,217 -0,098 0,014 1,226
Efeitos
Diretos
CLSPESS -0,151* 0,010 1,365 -0,138* 0,009 1,384
CLSPROF 0,255*** 0,045 1,427 0,205* 0,036 1,638
ESTLID -0,119 0,007 1,116 -0,116 0,007 1,178
Efeitos
Moderadores
ESTLID*CLSPESS 0,070 0,002 1,361
ESTLID*CLSPROF -0,15* 0,024 1,509
R-quadrado 0,109 0,164 0,179
Nota:
***p<0,01,
** p<0,05,
*p<0,10.
A H4a sugeriu que o estilo de liderança consultivo influencia positivamente a
relação entre confiança pessoal no líder (CLSPESS) e comprometimento normativo
(CN). Os resultados indicam que a CLSPESS afeta negativamente o CN (Modelo 3;
b= - 0,138; p<0,1), mas essa relação não é afetada pelo estilo de liderança
(Modelo 3; b=0,07; p= n.s.) (Tabela_6). Esse resultado refuta a H4a.
Finalmente, a H4a previu que o estilo de liderança consultivo influencia
positivamente a relação entre confiança profissional no líder (CLSPROF) e
comprometimento normativo (CN). Embora o estilo de liderança não tenha efeito
direto sobre o CN (Modelo 3; b=- 0,116; p= n.s.), essa variável tem um efeito
moderador negativo na relação entre CLSPROF e CN. Em outras palavras, existe um
efeito direto positivo entre CLSPROF e CN (Modelo 3; b=0,205; p>0,1), que se
reduz se o líder for mais consultivo (Modelo 3; b= -0,15, p<0,1). Esse
resultado refuta a H4b, uma vez que enfraquece o efeito da CLSPROF no CN em vez
de fortalecer tal relação como se previu na hipótese (Tabela_6).
Assim, o resultado consolidado do teste das hipóteses pode ser visto de forma
sintetizada na Figura_3.
Figura 3 Resumo dos Resultados dos Testes das Hipoteses
Hipoteses Ha suporte para as hipoteses?
A influencia do estilo de liderança na confiança
H1a: O estilo de liderança consultivo esta positivamente relacionado com a Sim
confiança pessoal do liderado no seu lider.
H1b: O estilo de liderança consultivo esta positivamente relacionado com a Sim
confiança profissional do liderado no seu lider.
A influencia do estilo de liderança na relação entre confiança e comprometimento
H2a: Um estilo de liderança consultivo vai influenciar positivamente a relaçãoNão
entre a confiança pessoal no lider e o comprometimento afetivo.
H2b: Um estilo de liderança consultivo vai influenciar positivamente a relaçãoNão. O efeito encontrado foi o oposto ao estabelecido na
entre a confiança profissional no lider e o comprometimento afetivo. hipotese
H3a: Um estilo de liderança consultivo vai influenciar negativamente a relaçãoNão
entre a confiança pessoal no lider e o comprometimento instrumental.
H3b: Um estilo de liderança consultivo vai influenciar negativamente a relaçãoNão
entre a confiança profissional no lider e o comprometimento instrumental.
H4a: Um estilo de liderança consultivo vai influenciar positivamente a relaçãoNão
entre a confiança pessoal no lider e o comprometimento normativo.
H4b: Um estilo de liderança consultivo vai influenciar positivamente a relaçãoNão. O efeito encontrado foi o oposto ao estabelecido na
entre a confiança profissional no lider e o comprometimento normativo. hipotese
Como se previa na Hipótese 1 (H1), o estilo de liderança mais consultivo
influencia positivamente tanto a confiança profissional quanto a confiança
pessoal do liderado no líder. Em outras palavras, considerando-se as
especificidades nas operações que envolvem alto risco de vida e trabalho em
equipe para seu desempenho, espera-se que líderes mais consultivos, que buscam
as opiniões de seus liderados para empreender as operações, gerem maior
confiança em seus subordinados.
Contrariando as expectativas desta pesquisa com base nas teorias analisadas,
que sugerem uma influência positiva da liderança consultiva na relação entre a
confiança do liderado no líder e o comprometimento do liderado, nesta
investigação apontou-se para a ausência de qualquer influência na relação entre
confiança (pessoal e profissional) e comprometimento instrumental (H3a e H3b),
na relação entre a confiança pessoal no líder e comprometimento afetivo, e na
relação entre a confiança pessoal no líder e o comprometimento normativo. Isso
leva a crer que outros fatores críticos podem afetar com mais intensidade a
relação entre confiança no líder e o comprometimento dos liderados.
Por outro lado, encontrou-se uma relação negativa da liderança consultiva na
relação entre a confiança profissional no líder e o comprometimento afetivo, e
na relação entre a confiança profissional no líder e o comprometimento
normativo. Esses achados de pesquisa sugerem que pode haver um equilíbrio entre
as demandas dos subordinados por um estilo de liderança mais consultivo, por um
lado; porém, por outro lado, o contexto organizacional militar e a natureza da
tarefa de alto risco podem gerar certa rejeição por um estilo de liderança que
seja excessivamente consultivo, na medida em que esse estilo de liderança passe
a ser percebido como uma fraqueza que denota incapacidade ou falta de
competência para a posição de liderança. Em outras palavras, em certo grau, um
estilo de liderança consultivo pode ser desejado pelos liderados, porém, quando
percebido como demasiadamente consultivo, esse estilo pode passar a ser
percebido como uma fraqueza da liderança, que a princípio, pela tradição do
contexto organizacional militar, deve saber como conduzir uma operação sem ter
de necessariamente contar com a opinião dos subordinados.
Esses achados de pesquisa abrem a possibilidade para futuros estudos sobre o
tema, para buscar confirmar as relações causais que levam a esses resultados.
8. CONCLUSÃO
Neste estudo, buscou-se uma melhor compreensão da influência do estilo de
liderança, como fator de coordenação informal, no modus operandi de equipes de
alto desempenho que atuam em cenários complexos e imprevisíveis. Nesse sentido
procurou-se investigar uma instituição reconhecida cuja efetividade depende do
desempenho e dos resultados de equipes operacionais nesses cenários.
Investigou-se o funcionamento do Batalhão de Operações Policiais Especiais
(BOPE), uma unidade de operações especiais (UOE) da Polícia Militar do Estado
do Rio de Janeiro.
Conduziu-se o estudo utilizando-se, numa primeira etapa, métodos qualitativos
para melhor compreender a relação desses elementos da coordenação informal da
unidade e, posteriormente, métodos quantitativos para melhor compreender - por
meio da análise da influência do estilo de liderança na relação entre a
confiança no líder e o comprometimento do liderado - o quanto esses elementos
contribuem para a qualidade da coordenação das equipes operacionais.
Propôs-se um modelo teórico que considera a liderança como variável central de
pesquisa e que postula que o estilo de liderança tem relação direta e positiva
com a confiança do liderado no líder. Verificaram-se tanto a relação entre o
estilo de liderança e a confiança no líder como a influência do estilo de
liderança na relação entre a confiança no líder e o comprometimento do
liderado. Nesse sentido, confirmou-se a afirmação comum nas entrevistas de que
a predisposição a cooperar está relacionada à confiança no líder, que reduz a
sensação de risco e motiva para a ação. Por outro lado, esta investigação
aponta para a inexistência de influência do estilo de liderança na relação
entre a confiança no líder e o comprometimento do liderado.
Concluiu-se que a qualidade da liderança tem uma relação direta com a qualidade
dos vínculos entre os membros da organização, com base em categorias de
confianças pessoal e profissional. São esses fatores, liderança e confiança,
que explicam parcialmente a qualidade da coordenação informal nas equipes dessa
UOE investigada. Esses mesmos fatores explicam a propensão ao risco extremo
para as operações e o foco em resultados. Corroborando estudos anteriores sobre
as unidades de operações especiais, confirmou-se que a forte coesão em pequenos
grupos e o exercício da liderança são elementos importantes na formação das
UOE. Na unidade investigada neste estudo, porém, observou-se que, apesar de a
liderança ter um papel estruturante para estabelecer a confiança entre os
membros das equipes, se encontrou uma relação negativa quando investigada a
influência da liderança consultiva na relação entre a confiança profissional no
líder e o comprometimento afetivo, e na relação entre a confiança profissional
no líder e o comprometimento normativo.
Nesse sentido, esta pesquisa traz contribuição para a melhor compreensão da
coordenação informal em equipes operacionais que atuam sob alto risco, em
cenários complexos e imprevisíveis.
Neste estudo, apresentam-se possibilidades para o desenvolvimento de futuros
estudos sobre o tema. Principalmente, não se analisou a efetividade da inter-
relação dos elementos informais com os elementos formais de coordenação, não se
fez uma análise completa da cultura da organização (mística, ritos, rituais e
símbolos), o que poderia ajudar a compreender melhor outras perspectivas na
análise dos elementos de coordenação informal, e, finalmente, também não se
compararam outras UOE de mesma natureza institucional (policial). Dessa forma,
os resultados abrem espaço para novas pesquisas sobre o tema. ♦
NOTAS
(1)Os termos variáveis latentes, fatores e construtos são usados, neste texto,
de forma intercambiável.
(2)Foram utilizadas cem replicações no procedimento de bootstrap.