Um mapeamento descritivo dos modelos de gestão de redes de correspondentes
bancários no Brasil
1. CONTEXTO E JUSTIFICATIVA DA PESQUISA
Na década de 2000, o sistema bancário brasileiro experimentou uma expansão sem
precedentes na extensão e na capilaridade de suas redes físicas de atendimento,
com o surgimento de um novo canal de distribuição intensamente apoiado em
Tecnologia de Informação (TI). Trata-se da inovação conhecida como
Correspondentes Bancários (CBs), nome dado a uma grande variedade de comércios
e outros estabelecimentos não bancários tais como supermercados, mercearias,
farmácias, casas lotéricas, agências postais etc., que passaram a ser
contratados e habilitados como pontos de acesso a serviços dos bancos.
Quanto à sua infraestrutura tecnológica, o canal costuma apoiar-se em
equipamentos POS (point of sale), semelhantes aos utilizados para pagamentos
com cartão de crédito ou débito, ou então microcomputadores, que operam como
terminais nos pontos de serviço conveniados e interligados aos sistemas
transacionais de um banco contratante. É interessante notar, contudo, que o
caráter inovador do canal não está propriamente nos atributos técnicos ou de
funcionalidade dessas tecnologias - de uso já há algum tempo difundido no
ambiente bancário - , mas sim no desenvolvimento de novos arranjos negociais em
torno de seu uso. Por meio desses novos arranjos, constituiu-se ao longo dos
dez últimos anos um canal intermediado de distribuição de serviços bancários, o
qual envolve bancos e uma variedade de agentes parceiros externos ao sistema
bancário.
Irrelevantes em número até o início da década, os CBs experimentaram uma
vigorosa expansão e tornaram-se, no intervalo de poucos anos, o maior e mais
capilarizado canal físico de distribuição de serviços dos bancos. Ao final de
2009, de acordo com dados não publicados
(1)
da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), seu número alcançava 71 mil
pontos de atendimento, superando em muito o número de agências bancárias em
operação no País, que era de, naquela altura, 19 mil agências.
Diante da dimensão do fenômeno, diversos estudos têm sido produzidos nos anos
recentes, investigando a importância por ele adquirida no mercado bancário
brasileiro atual (entre outros, BITTENCOURT, MAGALHÃES e ABRAMOVAY, 2005;
IVATURY, 2006a, 2006b; KUMAR et al., 2006; LYMAN, IVATURY e STASCHEN, 2006;
OLIVEIRA e CAMPELLO, 2006; DINIZ, 2007; DINIZ, POZZEBON e JAYO, 2007, 2009a,
2009b; MOHAN, 2007; IVATURY e MAS, 2008; MAS e SIEDEK, 2008; SOARES e MELO
SOBRINHO, 2008; MAS, 2009).
Embora se trate de um debate recente e ainda em curso, pelo menos dois
importantes focos de consenso podem ser identificados nessa literatura.
O primeiro deles é o diagnóstico de que os CBs, principalmente pelos baixos
custos operacionais envolvidos em comparação aos canais físicos tradicionais,
se oferecem como meio eficiente para levar a oferta de serviços financeiros aos
segmentos da população com menor renda, anteriormente pouco atendidos pelo
sistema bancário. Se até o início da década de 2000 cerca de um terço dos 5.561
municípios brasileiros não contava com atendimento dos bancos por não oferecer
os retornos necessários ao investimento em agências e demais pontos de
atendimento tradicionais, o desenvolvimento do canal de CBs fez decair essa
proporção rapidamente a zero, permitindo levar cobertura bancária até mesmo às
localidades mais pobres e distantes no interior do País (SOARES e MELO
SOBRINHO, 2008), o mesmo ocorrendo nas áreas periféricas, bairros pobres ou
mesmo favelas dos centros urbanos, que com a instalação de CBs ganharam acesso
local a serviços bancários (IVATURY, 2006a; DINIZ, 2007). Em função disso, o
canal de CBs vem sendo considerado "um fator indiscutível para a democratização
do acesso a serviços financeiros" (DINIZ, 2007, p.7), ou como "a mais
promissora forma de se ampliar a oferta de serviços financeiros às populações
com baixo IDH
(2)
" (SOARES e MELO SOBRINHO, 2008, p.149).
O segundo foco de consenso é a avaliação de que o uso efetivo de CBs na
distribuição de serviços financeiros adequados às necessidades do público de
baixa renda ainda está longe de atingir toda sua potencialidade. As avaliações
são de que o canal vem sendo usado para um leque restrito de serviços,
concentrado em serviços de arrecadação (recebimento de contas) e no pagamento
de benefícios previdenciários e de programas sociais. Outros serviços
financeiros, tais como crédito, seguros e poupança, quando distribuídos, ainda
o são de forma incipiente (ABRAMOVAY, 2004; KUMAR et al., 2006; DINIZ, 2007;
SOARES e MELO SOBRINHO, 2008; DINIZ, POZZEBON e JAYO, 2009a, 2009b). Diniz
(2007) ressalta que os serviços até o momento acoplados ao canal são aqueles de
natureza transacional, isto é, baseados em operações suficientemente
estruturadas, facilmente automatizáveis e que não envolvem trocas complexas de
informação, ao passo que serviços mais complexos, que envolvem algum grau de
relacionamento entre banco e cliente, estão ainda pendentes de implementação.
No mesmo sentido, Abramovay (2004, p.29) observa que CBs "são úteis no
pagamento de contas e no recebimento de alguns serviços (aposentadorias, por
exemplo), mas não são capazes, por exemplo, de abrir acesso a crédito".
A ampliação do leque ainda restrito de serviços é vista como uma clara
oportunidade a ser explorada, com benefícios potenciais tanto para os bancos
como para o público de baixa renda usuário do canal. Do ponto de vista dos
bancos, acoplar novos serviços ao canal de CBs significa a possibilidade de
expandir a base de clientes sem incorrer nos custos associados à instalação de
agências e demais dependências tradicionais de atendimento. Do ponto de vista
social, permitiria incorporar ao consumo de serviços bancários um contingente
populacional com acesso historicamente restrito ao sistema financeiro (IVATURY,
2006a, 2006b; KUMAR et al., 2006; LYMAN, IVATURY e STASCHEN, 2006; DINIZ,
2007). Os diferentes autores reconhecem a importância do acesso dos mais pobres
a serviços financeiros como forma de impulsionar oportunidades de ocupação e
renda, bem como o papel não desprezível que pode ser desempenhado pelo canal de
CBs em função de sua grande capilaridade e baixos custos de operação. Diante
disso, segundo Diniz (2007, p.36),
"torna-se clara a oportunidade de os bancos desenvolverem novos
modelos de negócios para a exploração de novos produtos em suas redes
de correspondentes. Isso envolve, necessariamente, reformular os
atuais arranjos relativos à operação dos correspondentes [...]
transcendendo o atual uso, fundamentado basicamente em produtos
transacionais".
Os estudos disponíveis sobre o novo canal, no entanto, pouco avançam além da
mera identificação dessa oportunidade. Se de um lado reconhecem que novos
produtos, arranjos e modelos de negócios devem ser desenvolvidos, de outro não
se lançam à discussão de como tais produtos, arranjos e modelos poderão ser -
uma questão ainda em aberto, que implicará complexa articulação de interesses,
estratégias e competências entre os bancos e a variedade de demais agentes
envolvidos na operação e no uso do canal.
Diniz (2007) e Diniz, Pozzebon e Jayo (2007, 2009a, 2009b) fazem uma
contribuição inicial para a discussão dos novos modelos de negócios a serem
criados para a ampliação do leque de serviços, ao enquadrá-la sob uma
perspectiva conceitual que permite fazer uma leitura do uso de CBs como sendo o
resultado de um processo de negociação, compreendendo diferentes grupos sociais
relevantes com interesses diversos, envolvidos na implantação e utilização do
canal. Nessa perspectiva, entender os modelos de negócio praticáveis em torno
da tecnologia dos CBs, atualmente vigentes ou passíveis de serem desenvolvidos,
exige que se compreenda, em primeiro lugar, quais são os grupos sociais
envolvidos, e qual seu papel no processo de negociação que ajudou a consolidar
o canal de correspondentes no Brasil.
Por outro lado, entre os diversos grupos sociais envolvidos na utilização do
canal de CBs, não é difícil identificar um grupo em particular, de existência
recente, sobre o qual muito pouco conhecimento existe documentado na
literatura. Trata-se dos chamados gestores de rede, pessoas jurídicas
fornecedoras de serviços aos bancos que costumam atuar como elo intermediador,
ou agregador, das relações de negócios entre um banco contratante e os
estabelecimentos não bancários contratados como seus correspondentes. Ao
contrário de outros grupos sociais envolvidos na utilização do canal - bancos,
governo e agentes reguladores, estabelecimentos comerciais, público usuário
etc. - , trata-se de um grupo que se constituiu com o próprio processo de
implantação e expansão do canal, não tendo existência significativa anterior a
ele.
Na literatura disponível sobre o canal de CBs, é possível encontrar referências
esparsas à figura do gestor de rede e a essas diferentes configurações. De
forma geral, os diferentes estudos registram o aparecimento do grupo de
gestores durante o processo de implantação e expansão do canal e constatam que
eles exercem um papel relevante na montagem e administração das redes de
correspondentes de determinados bancos, embora estejam ausentes nas de outros.
Kumar et al. (2006, p.23), por exemplo, ao examinarem as redes de CBs de quatro
instituições, citam em dois dos casos (Banco do Brasil e Banco Lemon) a
existência de "empresas de gerenciamento" contratadas pelos bancos para
fornecer apoio na seleção e contratação de estabelecimentos correspondentes. Da
mesma forma, em um estudo de caso focado no uso de CBs por uma instituição
específica (Banco Lemon), Yokomizo (2009, p.63) observa a existência do "gestor
de rede, que é um intermediário que cuida do aspecto comercial entre o banco e
o varejo".
Diniz (2007, p.57) faz constatação semelhante, ao observar que certos bancos
têm adotado um "modelo baseado na utilização de intermediários, os gestores de
rede, que são responsáveis pela contratação de correspondentes". Diniz,
Pozzebon e Jayo (2009a) ampliam essa constatação, ao verificar a coexistência
de diversos modelos praticados na gestão operacional de redes de
correspondentes. Os autores não se aprofundam, entretanto, no detalhamento ou
comparação desses diversos modelos:
"Quando observamos como os bancos estruturam as suas redes de
correspondentes, emerge que os arranjos operacionais variam
consideravelmente [...]. Em um extremo do espectro, alguns bancos
adotam o que pode ser chamado de modelo de gestão direta de
correspondentes [...]. No outro extremo, algumas instituições [...]
contratam empresas chamadas 'integradores de rede', especializadas em
implantar redes de correspondentes" (DINIZ, POZZEBON e JAYO, 2009a,
p.93-94).
Mohan (2007, p.107), por sua vez, afirma que
"na medida em que administrá-las [as redes de correspondentes] é
incômodo para os bancos, o modelo brasileiro de correspondentes
inovou ao criar um arranjo institucional denominado integradores de
rede".
No mesmo sentido, para Mas e Siedek (2008), por tratar-se de uma atividade não
vinculada ao core business de uma instituição financeira,
"a maioria dos bancos opta por terceirizar a administração de
correspondentes para fornecedores de redes, empresas de serviços que
podem prover desde apenas a plataforma tecnológica até um pacote
completo do tipo plug and play, incluindo a seleção e contratação dos
correspondentes, instalação, treinamento e suporte aos pontos, e
administração de disputas judiciais caso alguma coisa não saia bem"
(MAS e SIEDEK, 2008, p.12).
A literatura disponível não provê, no entanto, um entendimento aprofundado
sobre os diferentes modelos de gestão de redes de CBs existentes no Brasil,
tampouco sobre o papel dos gestores de rede em cada um deles. Quais são os
diferentes modelos praticados na gestão operacional do canal, de que forma o
segmento de gestores de rede se encontra constituí-do e como se caracteriza
a participação desses agentes nos diversos modelos são exemplos de questões
ainda pendentes de investigação. Se por um lado essa lacuna é compreensível
dada a existência recente do próprio canal, por outro entender essas questões
constitui peça-chave para compreender o processo de expansão recente do canal
de CBs, e as perspectivas de sua evolução futura. A discussão ou a investigação
futura de novos modelos de negócios capazes de expandir o leque de serviços
distribuído por meio de CBs não pode ser feita sem um conhecimento, mais
apurado do que o atual, acerca das formas como o canal se estrutura e é gerido.
2. OBJETIVO
Nesse contexto, a principal contribuição que no presente trabalho se pretende
dar ao debate é uma expansão do conhecimento disponível sobre os modelos de
gestão de redes de CBs, bem como sobre o papel desempenhado pelo segmento de
gestores de rede. Para tanto, o objetivo neste trabalho é construir um
mapeamento dos diferentes modelos de gestão de redes hoje praticados na
operação do canal, descrevendo os diferentes modelos e detalhando como se dá a
participação de gestores de rede em cada um deles.
3. ASPECTOS CONCEITUAIS E METODOLÓGICOS
A exploração desse objetivo exigiu buscar pressupostos conceituais e
procedimentos metodológicos que permitissem mapear, isto é, classificar os
diversos modelos existentes de gestão de redes e caracterizar a forma de
participação de gestores em cada um deles.
No que se refere à base conceitual da pesquisa, autores como Fawcet e Downs
(1986) e Gregor (2006) chamam de teoria descritiva o estabelecimento ou
especificação de novos construtos sobre fenômenos novos ou previamente pouco
estudados, a partir da observação empírica. Para Gregor (2006), teoria
descritiva é toda elaboração conceitual que procura dizer o que ocorre, em
contraposição, por exemplo, a teorias explicativas e preditivas (preocupadas em
dizer por que ou como um fenômeno ocorre, ou como ele evoluirá). Teorias
descritivas são
"o tipo mais básico de teoria, e descrevem ou classificam dimensões e
características específicas de indivíduos, grupos, situações ou
eventos, a partir da síntese dos elementos comuns encontrados em
observações discretas" (FAWCET e DOWNS, 1986, p.4).
Para a elaboração de uma teoria descritiva, ferramentas de classificação dos
fenômenos de interesse costumam ser de grande valia (CUSHING, 1990).
É nesse sentido que na pesquisa deste trabalho procura-se contribuir com uma
teoria descritiva, sobre um objeto anteriormente inexplorado pela literatura: a
gestão do canal de correspondentes bancários. Na pesquisa, não se apoia em um
modelo ou elaboração teórica previamente estabelecida, mas, em vez disso,
procura-se gerar conhecimento descritivo a partir da observação metódica de
evidências empíricas.
No âmbito metodológico, a classificação de fenômenos é considerada por Carper e
Snizek (1980, p.65) "um dos passos mais e importantes e básicos na condução de
uma investigação científica". Para Fawcet e Downs (1986) e Gregor (2006), o
desenvolvimento de taxonomias, tipologias ou outras formas de classificação é
particularmente útil na construção de teorias descritivas.
Entre as diferentes ferramentas de classificação de fenômenos, potencialmente
aplicáveis à elaboração de uma teoria descritiva, autores como Sanchez (1993),
Bailey (1994) e Doty e Glick (1994) fazem uma distinção entre os métodos
taxonômicos e os tipológicos. Ambos têm por objetivo agrupar fenômenos em
classes exaustivas (isto é, que compreendam todos os fenômenos observados), e
mutuamente exclusivas (cada um dos fenômenos deve caber em uma única classe). A
taxonomia, porém, envolve agrupar fenômenos em classes empiricamente
construídas, isto é, que emergem do próprio processo de análise dos dados.
Assim, na aplicação de um método taxonômico, não é só o agrupamento dos
fenômenos examinados em classes, mas também as próprias classes, que são
resultado do procedimento de investigação. Essa lógica difere daquela envolvida
na tipologia, em que se levam em conta classes de fenômenos definidas a priori,
derivadas de elaborações conceituais ou distinções teóricas. O método que se
adota no presente artigo para a classificação dos modelos de gestão de redes de
CBs enquadra-se na lógica dos métodos taxonômicos.
Fenômenos sociais e organizacionais são multifacetados, isto é, podem ser
descritos a partir de múltiplas dimensões (SANCHEZ, 1993). Nesse sentido, o
núcleo de um procedimento taxonômico está na capacidade do pesquisador de
selecionar, dentre os muitos atributos por meio dos quais os fenômenos podem
ser descritos, um grupo de atributos críticos que serão usados como critério de
comparação e agrupamento (GREGOR, 2006, p.623).
A decisão de quais atributos selecionar como críticos, e quais descartar para
fins de classificação, reflete os objetivos da pesquisa e os interesses do
pesquisador. Diferentes atributos críticos geram diferentes classes e,
portanto, diferentes taxonomias, para um mesmo grupo de fenômenos. Cabe ao
pesquisador a capacidade de selecionar aqueles atributos críticos que melhor
respondam à natureza do problema ou à questão de pesquisa que a análise
pretende responder. Além de ajudar o pesquisador a responder sua questão de
pesquisa, a taxonomia resultante deve ser facilmente compreensível pelos atores
sociais envolvidos, aos quais se queira eventualmente comunicar os resultados
(WHITTAKER, CAULKINS e KAMP, 1998). Dado que o objetivo da taxonomia é auxiliar
o entendimento humano dos fenômenos estudados, espera-se que as classes "sejam
facilmente compreensíveis e pareçam naturais" (GREGOR, 2006. p.619).
Assim definido o método, o passo seguinte consistiu em definir um conjunto de
bancos com operações relevantes de CBs que pudessem ser examinadas na pesquisa.
Para a escolha desses bancos, levaram-se em conta três critérios. Em primeiro
lugar, considerou-se o tamanho (número de pontos) das operações de
correspondentes, procurando-se selecionar bancos com redes de correspondentes
de diferentes tamanhos. Em segundo, procurou-se incluir na seleção bancos com
diferentes origens de capital (públicos e privados). Por fim, também pesou a
receptividade encontrada nas instituições para fornecer informações e a
disponibilidade de seus executivos para conceder entrevistas. Esse fator
significou a exclusão do Banco Santander, única instituição contactada que
preferiu não participar da pesquisa.
A escolha final recaiu sobre as sete instituições relacionadas na Tabela_1,
cujas redes de correspondentes, somadas, totalizavam 65,5 mil pontos em outubro
de 2009, ou 92% do total nacional de correspondentes estimado pela Federação
Brasileira dos Bancos (Febraban), conforme mencionado anteriormente, em 71 mil
pontos.

A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas semiestruturadas com
executivos e dirigentes envolvidos nas operações dos sete bancos. Dado que a
finalidade do estudo não era captar apenas a visão dos bancos, mas entender os
diferentes arranjos de negócios praticados na gestão do canal, as entrevistas
incluíram não só executivos dos bancos, mas também representantes de outros
grupos, como gestores de rede e fornecedores de tecnologia.
Para selecionar os entrevistados, utilizou-se a estratégia de bola de neve
recomendada por Atkinson e Flint (2001), que consiste em partir de um grupo
inicial de respondentes (nesse caso formado pelos executivos responsáveis pelas
operações de correspondentes dos sete bancos) que, por sua vez, indicaram
outros entrevistados potenciais (representantes de outros grupos). Isso foi
necessário visto que, no início do processo de coleta, embora fossem conhecidos
os bancos a serem incluídos, não se dispunha de informação sobre quais deveriam
ser as empresas ou agentes relevantes a serem entrevistados em outros
segmentos.
As entrevistas seguiram um formato semiestruturado a fim de dar abertura aos
entrevistados para expressar livremente suas visões sobre o tema, mas ao mesmo
tempo capturar um núcleo de informações que possibilitasse uma análise
comparativa entre os diferentes arranjos praticados na gestão das redes de
correspondentes. Ainda assim, o roteiro utilizado foi mínimo: solicitou-se aos
entrevistados que enumerassem e descrevessem, o mais detalhadamente possível,
os processos e as atividades da gestão das redes de correspondentes nas quais
eles estavam envolvidos. As entrevistas, com duração média aproximada de 90
minutos, foram gravadas com o consentimento dos entrevistados, e em seguida
transcritas para análise. Foi realizado um total de 20 entrevistas, sete das
quais com executivos responsáveis pelas operações de CBs nos sete bancos
listados na Tabela_1, e as demais com representantes de empresas gestoras de
rede. As entrevistas foram feitas pessoalmente, mediante visitas agendadas dos
pesquisadores ao local de trabalho de cada executivo entrevistado.
A realização das entrevistas estendeu-se por um período bastante longo,
iniciando-se no primeiro semestre de 2007 e encerrando-se em janeiro de 2010. O
contato com os entrevistados, no entanto, não se restringiu ao momento de
realização da entrevista pessoal. Os autores mantiveram contatos periódicos com
eles ao longo de todo o período, por meio de conversas telefônicas e
intercâmbio de e-mails, processo que serviu para esclarecer dúvidas, preencher
lacunas de informação e atualizar dados, à medida que o processo de coleta e
análise avançava. Coleta e análise de dados foram concluídas em fevereiro de
2010, de forma que a taxonomia de modelos de gestão de redes apresentada neste
trabalho se refere à situação vigente no canal no início de 2010. A técnica de
análise de dados utilizada envolveu codificação do material coletado, isto é,
das transcrições das entrevistas e das notas do pesquisador. Codificação é a
técnica pela qual o pesquisador, a partir do exame minucioso de material
textual, cria rótulos associados a blocos (trechos de texto) desse material.
Tal procedimento permite reduzir o material textual bruto a partes menores, com
formato mais simples, compondo unidades de significado que podem ser mais
facilmente analisadas ou comparadas (MILES e HUBERMAN, 1994).
A codificação frequentemente envolve uma progressão, partindo de uma primeira
fase denominada "aberta" para outras mais sintéticas (MILES e HUBERMAN, 1994).
Na codificação aberta, o pesquisador examina o material coletado atribuindo
rótulos de forma livre a trechos (frases, parágrafos, palavras-chave etc.)
presentes no material bruto. A partir daí, procuram-se estabelecer conexões ou
hierarquias entre os rótulos surgidos. Os rótulos criados na primeira fase
podem ser associados, reagrupados ou hierarquizados nas seguintes, em um
processo pelo qual a análise avança de um nível mais descritivo para outros
mais conceituais ou abstratos. Se os primeiros rótulos, emergentes da fase
inicial, costumam ter um caráter descritivo e próximo à linguagem utilizada
pelos entrevistados, à medida que a análise progride são geradas categorias
menos descritivas, que incorporam um componente maior de interpretação por
parte do pesquisador.
Neste caso, esse processo consistiu de duas fases. Na primeira, submeteu-se o
material coletado a uma codificação aberta, atribuindo-se códigos (rótulos) a
trechos de texto em que os entrevistados faziam referências às diferentes
atividades envolvidas na gestão operacional de redes de CBs. Essa primeira fase
foi feita paralelamente à coleta, isto é, foi iniciada logo após a realização
das primeiras entrevistas. Segundo Miles e Huberman (1994, p.65), esse
procedimento permite refinar o processo de coleta de dados nas entrevistas
subsequentes, contribuindo para enriquecer a análise.
Desse processo emergiram oito rótulos iniciais, isto é, códigos aplicados a
blocos de texto, que identificam os diferentes tipos de atividades ou serviços
mencionados pelos entrevistados como fazendo parte da gestão operacional das
redes de CBs. Tais rótulos, denominados prospecção, contratação, instalação,
treinamento, suporte técnico, assistência técnica, suprimento e risco de
numerário, são explicados em maior detalhe na próxima seção.
A segunda fase da codificação consistiu em estabelecer conexões axiais entre os
oito rótulos, a fim de agrupá-los em rótulos de maior hierarquia. Com isso,
reduziu-se para dois o número de unidades de significado, ao reagrupar-se os
oito rótulos iniciais em duas categorias gerais, representando dois grandes
grupos de atividades ou serviços envolvidas na gestão de redes de CBs. Essas
duas categorias, por sua vez, permitiram derivar dois atributos críticos que
foram adotados para fins de elaboração da taxonomia, conforme detalhado na
seção 4.
4. RESULTADOS
Os oito rótulos que emergiram da primeira fase de codi-ficação são
apresentados no Quadro_1. Eles identificam os di-ferentes tipos de
atividades (ou serviços) mencionados pelos entrevistados como fazendo parte
relevante da gestão operacional das redes de CBs, independentemente de serem
desempenhadas pelos bancos ou delegadas a terceiros (gestores).
A segunda fase de análise consistiu em estabelecer conexões axiais entre os
oito rótulos, a fim de agrupá-los em rótulos de maior hierarquia. Isso permitiu
reduzir de oito para dois o número de unidades de significado, ao agrupar os
oito rótulos iniciais em duas categorias gerais, de maior hierarquia,
representando dois grandes grupos de atividades ou serviços envolvidos na
gestão de redes de CBs. Optou-se por denominar essas categorias como serviços
de intermediação negocial e serviços de intermediação técnico-logística (Figura
1).
Como mostra a Figura_1, a primeira categoria agrupa o conjunto das atividades
inicialmente associadas aos rótulos 1, 2 e 8. Essas atividades dizem respeito à
administração das relações comerciais e contratuais entre um banco contratante
e os estabelecimentos e demais agentes que atuarão como seus correspondentes.
Incluem, dessa forma, a prospecção de estabelecimento, e sua contratação em
nome de um banco. O conjunto dessas atividades costuma ser desempenhado
diretamente pelo banco, ou então delegado a gestores de rede. Nos casos de
delegação, uma característica importante dessa categoria de serviços é que o
gestor terceirizado assume também, perante o banco, a responsabilidade pelos
valores em poder da rede de estabelecimentos por ele montada. Cada ponto de
serviços de CB deve transferir ao banco contratante os saldos líquidos
arrecadados com recebimentos de contas e demais transações efetuadas. No caso
de não repasse desses recursos por algum estabelecimento, é o gestor quem
responde ao banco pelos recursos extraviados. Situações dessa natureza costumam
ocorrer por erro, fraude ou má-fé do correspondente, ou, com maior frequência,
em decorrência de assaltos sofridos no ponto de serviço.
A segunda categoria, resultante do agrupamento dos rótulos 3, 4, 5, 6 e 7,
engloba atividades de natureza tecnológica e logística voltadas a garantir o
funcionamento de uma rede de estabelecimentos uma vez prospectada e contratada,
seja diretamente por um banco, seja por um gestor. Inclui a instalação de
equipamentos, a instalação e a atualização dos software utilizados nos
terminais de serviço, prestação de suporte e assistência técnica, visitas
técnicas aos pontos, e logística de abastecimento de materiais de consumo aos
pontos, tais como bobinas de papel e fitas de impressão.
Essas duas categorias gerais de serviços são exaustivas, isto é, compreendem
todo o portfolio de serviços ou atividades relevantes que, segundo apurado nas
entrevistas, compõem a gestão de redes de correspondentes. Constatou-se também
que delegação a gestores, quando praticada, envolve uma e/ou a outra categoria
de serviços em bloco, isto é, delega-se o conjunto de serviços de integração
negocial e/ou o conjunto de serviços de integração técnico-logística.
Essa última constatação, em particular, permitiu derivar dois atributos
críticos para a elaboração de uma taxonomia dos modelos praticados de gestão de
redes, apresentados no Quadro_2. Com base nisso, diferentes modelos típicos de
gestão de redes foram identificados na análise e classificados a partir de dois
critérios: a delegação ou não, pelo banco a um terceiro (gestor), dos serviços
de integração negocial; e a delegação ou não, pelo banco a um gestor, dos
serviços de integração logística.
[/img/revistas/rausp/v48n3/17q02.jpg]
A taxonomia resultante é sintetizada no Quadro_3 e detalhada logo em seguida. A
análise permitiu distinguir a existência de seis modelos distintos de gestão de
redes de CBs, reunidos em três classes, a saber: modelos sem a participação de
gestores; modelos com delegação parcial da gestão a gestores; modelos com
delegação total da gestão a gestores.
4.1. Classe 1 - modelos sem a participação de gestores
Uma primeira classe de modelos de gestão de redes de CBs inclui configurações
que não envolvem a participação de gestores de rede, seja para as atividades de
integração negocial, seja para as de integração técnico-logística. São dois os
modelos que fazem parte dessa classe.
4.1.1. Modelo 1.1. - uso de redes proprietárias
Um primeiro modelo inserido nessa classe dispensa a participação de gestores de
rede na medida em que utiliza pontos de serviço em estabelecimentos já
interligados por redes eletrônicas. O modelo consiste em aproveitar uma rede de
estabelecimentos já interligada por rede de pagamentos - por exemplo, os
terminais de caixa (check outs) de uma cadeia varejista - acoplando-se aos
pontos dessa rede os serviços de correspondente.
Entre os casos de aplicação desse modelo, destaca-se o acordo institucional
firmado entre o Bradesco e a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT)
para utilização de agências postais como correspondentes, bem como a estratégia
da Caixa Econômica Federal de utilização da rede de casas lotéricas. A esses
casos somam-se diversas outras parcerias entre bancos e redes de varejo. O
modelo é praticado em cinco dos sete bancos examinados na pesquisa (Bradesco,
Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco Lemon e Unibanco), sendo
responsável, ao todo, por aproximadamente 24,5 mil pontos de CBs dos 65,6 mil
que compõem as sete redes examinadas (Tabela_2).
4.1.2. Modelo 1.2. - gestão direta pelo banco
Este segundo modelo envolve a contratação de pequenos comércios de loja única,
e tanto as atividades de integração comercial como as de integração técnico-
logística encontram-se sob a responsabilidade do banco.
O modelo é praticado apenas pela Caixa Econômica Federal (CEF), que gerencia
por meio dele cerca de 5,6 mil pontos. Do ponto de vista tecnológico, a solução
passa pelo uso de um microcomputador (PC) que opera como terminal dedicado em
cada estabelecimento, e conectado aos sistemas do banco via redes públicas de
telecomunicações. Toda a gestão desses estabelecimentos, em seus aspectos
negociais e técnicos, é confiada a um departamento interno do banco, a Gerência
Nacional de Canais Físicos Parceiros.
4.2. Classe 2 - modelos com delegação parcial da gestão a gestores
Uma segunda classe de modelos caracteriza-se pela execução por um banco dos
serviços de integração negocial e pela delegação dos serviços de integração
técnico-logística a uma empresa terceira. Essa classe de modelos é praticada
por cinco dos sete bancos examinados pela pesquisa (Bradesco, Banco do Brasil,
HSBC, Banco Real e Unibanco), e está presente num total de 26 mil pontos de
serviço, dos 65,6 mil que compõem as sete redes examinadas (Tabela_2).
4.2.1. Modelo 2.1. - VAN gestora, modelo tradicional
Nesta configuração, as atividades de prospecção e contratação dos
estabelecimentos (integração negocial) são assumidas pelo próprio banco, que
normalmente utiliza para tanto suas redes de agências. Normalmente, as agências
prospectam correspondentes entre seus clientes pessoa jurídica. Por essa
característica, o modelo tende a ser praticado em praças ou regiões já cobertas
pelo sistema bancário, tendo baixa incidência em regiões em que os bancos não
contam com estrutura e relacionamento com estabelecimentos locais.
Uma vez selecionados e contratados os pontos, as atividades de integração
técnico-logística são terceirizadas a empresas de captura e transmissão de
transações eletrônicas (conhecidas no mercado como VANs - value added
networks). Tais empresas desempenham o papel de gestor tecnológico da rede. A
tecnologia utilizada costuma envolver terminais POS fornecidos pelo gestor, que
também fornece solução de software para captura e transmissão de informações,
bem como assistência e suporte técnicos, treinamento e demais atividades que
compõem os serviços de integração técnico-logística.
À época da pesquisa, o modelo era praticado em 22,9 mil pontos, ou cerca de 35%
dos pontos de CBs dos sete bancos examinados (Tabela_2).
4.2.2. Modelo 2.2. - VAN gestora, modelo emergente
Trata-se de uma variação recente do modelo anterior, que começou a ser
praticada no início de 2009 e que até a época da pesquisa era praticada por
apenas um banco (Banco do Brasil) em parceria com a Cielo, empresa
especializada em montagem de redes para meios eletrônicos de pagamentos
(cartões de crédito e débito).
A prospecção de CBs é feita pelo banco, porém a partir de uma relação de
estabelecimentos já integrantes da rede de pagamentos da Cielo, e que portanto
já dispõem de terminais POS instalados, para transações de pagamento com
cartões de crédito e débito da rede Visa. A partir da sua contratação como
correspondentes, esses estabelecimentos passam a utilizar essa mesma
infraestrutura para operar também serviços de CB.
À época da pesquisa, esse modelo representava 3,1 mil pontos, todos eles do
Banco do Brasil (Tabela_2).
4.3. Classe 3 - modelos com delegação total a gestores
Esta terceira classe inclui dois modelos em que tanto as atividades de
integração negocial como as de integração técnico-logística são delegadas pelo
banco a uma empresa gestora de redes. Note-se na Tabela_2, ao final desta
seção, que essa classe de modelos é praticada por apenas dois entre os sete
bancos pesquisados (Banco do Brasil e Banco Lemon) e responde por pouco menos
de 15% dos pontos de CBs existentes nas sete redes examinadas.
4.3.1. Modelo 3.1. - gestor substabelecente
Este modelo consiste na terceirização total, pelo banco a uma empresa gestora,
das atividades relacionadas à gestão da rede de correspondentes, tanto no que
se refere à integração negocial como à integração técnico-logística. Dessa
forma, é o gestor quem seleciona, contrata e informa ao banco quem serão seus
estabelecimentos correspondentes, além de responsabilizar-se por garantir o
funcionamento da rede em todos os seus aspectos técnicos.
O modelo costuma ser praticado com pequenos comércios de loja única e tende a
ser mais frequente em regiões de baixa cobertura bancária, em que o banco
contratante não conta com estrutura própria para administrar a contratação e o
relacionamento de redes de estabelecimentos locais. Contratualmente, é
viabilizado pelo mecanismo legal do substabelecimento de um contrato-mãe de
correspondente bancário firmado entre banco e gestor.
Do ponto de vista tecnológico, o modelo baseia-se na utilização de terminais
POS ou microcomputadores (PCs) dedicados, instalados pelo gestor nos
estabelecimentos conveniados, que serão operados por recurso humano do
estabelecimento conveniado (isto é, pelo dono do comércio ou seu funcionário).
O modelo de remuneração envolve pagamento do banco ao gestor de uma tarifa fixa
por transação efetuada e um repasse de parte dessa tarifa pelo gestor ao
estabelecimento.
À época da pesquisa, o modelo era praticado pelo Banco do Brasil, em
aproximadamente 3,1 mil pontos de sua rede total de 8,6 mil pontos, e pelo
Banco Lemon, em aproximadamente 5 mil pontos (Tabela_2).
4.3.2. Modelo 3.2. - gestor de pontos próprios
Trata-se de uma evolução do modelo 3.1. Assim como no modelo anterior, ambas as
categorias de serviços são delegadas por um banco a uma empresa gestora de
redes, que prospectará estabelecimentos comerciais para a instalação de pontos
de serviço. A diferença reside em que, ao invés de ser operado por recurso
humano do estabelecimento conveniado, o terminal de serviços é operado por
funcionário da própria empresa gestora. Em outras palavras, o estabelecimento
conveniado apenas cede espaço físico para a instalação dos serviços. Um
quiosque de atendimento para transações de CB será instalado no interior do
estabelecimento e operado por funcionário do gestor de rede. Do ponto de vista
contratual, quem exerce as funções de correspondente é o próprio gestor, não
havendo substabelecimento.
Segundo entrevistados, um dos motivos, senão o principal, para a prática desse
modelo está relacionado aos riscos corridos pelo gestor em caso de extravio do
numerário arrecadado: o modelo costuma ser praticado em pontos de serviço com
altos volumes de arrecadação de contas, e que, portanto, manipulam quantidades
elevadas de numerário. Muitos dos gestores que atuam nesse modelo são os mesmos
que atuam no modelo anterior, privilegiando esta segunda configuração naqueles
pontos que envolvem maior número de transações e maiores valores
transacionados.
O modelo de remuneração envolve um pagamento, do banco ao gestor, de uma tarifa
fixa por transação efetuada. Normalmente, não há repasse desta tarifa ou outra
forma de remuneração ao estabelecimento cedente do espaço, que se beneficia
apenas do aumento de tráfego de clientes, atraídos pelo serviço de CB. O gestor
tem, contudo, autonomia para negociar com os estabelecimentos, sem
interferência do banco. Do ponto de vista tecnológico, a solução é semelhante à
adotada no modelo anterior: terminais POS ou PCs que operam como pontos de
serviço dedicados, com instalação e manutenção integralmente a cargo do gestor.
À época da pesquisa, esse modelo era praticado pelos mesmos bancos que adotavam
o modelo anterior (Banco do Brasil e Banco Lemon), porém em número mais
reduzido de pontos (Tabela_2).
Assim apresentada a taxonomia dos modelos de gestão de redes, também é possível
aproximar uma distribuição do número de pontos de serviço de CBs operados de
acordo com cada um dos modelos. Uma estimativa a esse respeito é apresentada na
Tabela_2, a partir de informações coletadas nas entrevistas.
A se descontarem prováveis imprecisões nos dados da tabela, por tratar-se de
números aproximados citados por entrevistados e atribuídos aos diferentes
modelos com base em interpretação do pesquisador, é possível notar que as
classes de modelos que não envolvem gestores (classe 1) e que envolvem
delegação parcial a gestores (classe 2) são amplamente dominantes na gestão do
canal, respondendo por 46% e 40%, respectivamente, dos pontos de CBs dos sete
bancos examinados. Em contrapartida, aqueles modelos que envolvem a delegação
total a gestores (classe 3) revelaram-se minoritários, respondendo por
aproximadamente 14% do número total de pontos. Considerando que os sete bancos
examinados operam estimados 92% do parque de 71 mil correspondentes em operação
no País estimado pela Febraban, é possível supor que esses dados aproximem com
razoável fidelidade as práticas de gestão de redes no canal brasileiro de CBs.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No presente trabalho procurou-se expandir o conhecimento sobre o uso do canal
de CBs no Brasil. Por meio da aplicação de um método de pesquisa taxonômico,
produziu-se um mapeamento das diferentes configurações de negócios - ou modelos
de gestão de redes de CBs - praticadas na operação do canal.
Em particular, identificaram-se seis modelos de gestão de redes distintos, os
quais foram agrupados em três classes de acordo com o grau de delegação, pelo
banco a empresas gestoras, das atividades de gestão das redes de
correspondentes. Um grupo de modelos (classe 3) caracteriza-se pelo fato de
gestores intermediarem todas as relações negociais e de integração técnico-
logística entre bancos contratantes de CBs e os estabelecimentos contratados.
Em outro grupo (classe 2), gestores exercem um papel mais limitado, restrito à
integração técnico-logística, porém ainda central na estruturação do canal. Há
ainda um terceiro grupo de modelos (classe 1) em que o papel dos gestores é
dispensado. Com isso, o trabalho produziu um primeiro mapeamento, inédito, das
configurações de negócios praticadas na gestão do canal.
Do ponto de vista acadêmico, a contribuição do trabalho deriva da escassez de
referências ao tema em estudos anteriores. Como visto na seção 1, embora os CBs
tenham se tornado em anos recentes o maior e mais capilarizado canal físico de
distribuição de serviços do setor bancário no Brasil, as formas pelas quais
redes de CBs costumam ser geridas constituíam uma discussão ainda em estágio
muito preliminar. Nos estudos disponíveis, embora se reconhecesse a existência
de uma diversidade - ou de um "espectro", na expressão utilizada por Diniz,
Pozzebon e Jayo (2009a, p.93) - de modelos de gestão de redes de CBs, essa
diversidade ainda estava por ser descrita e entendida. Nesse sentido, o
trabalho preenche uma lacuna importante na literatura sobre o uso de CBs no
Brasil.
Teoria descritiva, nos termos em que a definem Fawcet e Downs (1986) e Gregor
(2006), diz respeito à construção de conhecimento sobre fenômenos novos ou
previamente pouco estudados, a partir da observação empírica. Teoria descritiva
é toda elaboração conceitual que procura dizer o que ocorre, sem pretensões
explicativas ou preditivas. Nesse sentido, a taxonomia apresentada neste
trabalho contribui com conhecimento sobre um objeto anteriormente inexplorado
pela literatura: a gestão do canal de correspondentes bancários.
Além de suas contribuições acadêmicas, o trabalho também abre caminho para
instrumentalizar políticas públicas e estratégias privadas voltadas à
utilização de CBs. Isso se torna particularmente relevante dado o consenso,
identificado na literatura, de que o aproveitamento do canal na distribuição de
serviços financeiros inclusivos ainda se encontra aquém de suas
potencialidades, sugerindo a conveniência, ou a necessidade, de se fomentarem
novos modelos de negócios que permitam ampliar a exploração desse potencial. A
proposição ou discussão futura desses modelos, seja no âmbito regulatório, seja
no da prática gerencial, não poderia basear-se numa concepção do canal de
correspondentes bancários como um coletivo homogêneo. Ao contrário, ela exige
abrir a caixa preta da gestão de correspondentes, a fim de se proporem novas
práticas ajustadas à diversidade do canal.
A principal limitação da pesquisa decorre do fato de a coleta de dados ter se
concentrado em bancos e empresas gestoras, e ter excluído outros potenciais
grupos de entrevistados, como representantes de comércios e demais
estabelecimentos não bancários contratados como correspondentes. Se por um lado
a inclusão desses respondentes esteve fora do escopo do trabalho em função do
grande número e variedade dos agentes envolvidos, por outro entrevistas com
esses agentes poderiam ter enriquecido o material empírico que resultou na
identificação das atividades componentes da gestão de redes de CBs. O mesmo
vale para representantes do governo e agentes reguladores, que também não foram
cobertos pela coleta de dados. Decerto, o primeiro mapeamento de modelos que
aqui se apresenta poderá ser corroborado ou aperfeiçoado com a ampliação das
fontes de dados em direção a esses outros grupos de agentes.
Por fim, o presente trabalho abre caminho para que futuras pesquisas se voltem
à discussão de novos tópicos relacionados à gestão de redes de CBs. Um primeiro
tópico sugerido para a continuidade da pesquisa seria comparar os diferentes
modelos da taxonomia quanto às plataformas tecnológicas (terminais, tecnologias
de conexão, centrais de subprocessamento etc.) utilizadas por eles,
investigando as oportunidades ou limitações trazidas pelas respectivas
tecnologias aos serviços passíveis de serem oferecidos em cada modelo.
Um segundo tópico consistiria em comparar os diferentes modelos da taxonomia
quanto ao seu alcance geográfico (distribuição espacial dos pontos de serviço,
presença em regiões desbancarizadas etc.) e, mais importante, quando a seu
alcance social dentro das localidades ou regiões atendidas. Isso contribuiria
para um entendimento de quão pobres são os públicos de consumidores de serviços
financeiros atingidos pelos diferentes modelos, o que acrescentaria à discussão
o papel inclusivo do canal. Ambos os tópicos sugeridos são exemplos de pesquisa
só tornadas possíveis uma vez que se abriu a caixa preta da gestão dos
correspondentes, com a identificação de diferentes modelos de gestão de rede
cujos limites e potencialidades merecem agora passar a ser estudados.
Uma terceira possibilidade de estudo futuro envolveria a análise dos modelos de
gestão de rede de correspondentes, aqui observados para o Brasil, em comparação
com o que acontece em outros países. Se diversos outros países na África, Ásia
e América Latina têm adotado correspondentes bancários de modo relativamente
semelhante ao que acontece no Brasil (MAS, 2009), o entendimento mais
aprofundado das prováveis diferenças de modelos de gestão em diferentes países
contribuiria para a avaliação mais completa do fenômeno dos correspondentes
bancários.
NOTAS
(1) Dados disponíveis em <http://www.ictformicrofinance.org/sites/default/
files/tecnologia_e__financas_exclusivas.ppt> (acessado em 12 de dezembro de
2010). O Banco Central do Brasil apresenta em seu website (http://bcb.gov.br)
estimativas ainda maiores para o número de CBs, chegando a 150 mil pontos de
atendimento em 2010; porém, o da-do costuma ser questionado, sendo
considerado su-peres-timado (DINIZ, 2007; JAYO, 2010).
(2) IDH = Índice de Desenvolvimento Humano.