O impacto das novas mídias para os anunciantes brasileiros
1. INTRODUÇÃO
O século XX é considerado por estudiosos do tema como o século da mídia de
massa (BRIGGS e BURKE, 2006). De fato, formas de comunicação na qual um emissor
distribuía o mesmo conteúdo para uma grande audiência imperaram absolutas,
utilizando o subsídio cruzado como modelo de negócios, já que grande parte das
receitas provinha de anunciantes interessados em divulgar mensagens
publicitárias a essa audiência.
Contudo, uma rápida consulta aos congressos e revistas especializadas em mídia
permite perceber que há uma mudança de paradigma em andamento. O século XXI
trouxe a consolidação de novas mídias e, junto com elas, a emergência de uma
nova forma de consumir mídias, na qual o controle, historicamente pertencente
aos veículos, passa gradativamente para os consumidores.
Essa nova realidade fragiliza o modelo de negócios tradicional, na medida em
que, cada vez mais, o consumidor escolhe se quer ou não ser impactado por
mensagens publicitárias. A estratégia histórica de interromper o consumidor com
a propaganda começa a perder eficiência (GODIN, 2000). Além disso, a audiência,
antes a métrica definitiva para avaliar o alcance de um veículo, perde
credibilidade perante os anunciantes (COURT, GORDON e PERREY, 2005). Assim, o
valor agregado de uma agência de publicidade passa pela composição de
estratégias inovadoras que substituem métodos invasivos de comunicação por
modelos mais interativos, que conquistam e estimulam os espectadores a convidar
anunciantes para dentro de suas vidas (LOMBARD e SNYDER-DUCH, 2001; SHAPIRO e
VARIAN, 2003; DONATON, 2004).
No Brasil, a realidade é outra. Chimenti e Nogueira (2007) identificaram numa
pesquisa que o modelo de negócios baseado em audiência se mantém forte no país,
sustentado em grande parte por agências de publicidade alheias às novas mídias
e tecnologias que consideram essas mudanças incrementais e não disruptivas. O
estudo sugere ainda que as agências percebem as novas mídias como fontes de
riscos e não de oportunidades (CHIMENTI e NOGUEIRA, 2007). De fato, enquanto a
audiência das mídias de massa cai (AdNEWS, 2009), observa-se a manutenção ou
mesmo o crescimento das receitas publicitárias de muitos veículos tradicionais,
como as redes de TV aberta (PROJETO INTER-MEIOS, 2011).
Essa incongruência sugere que, assim como as agências de publicidade, outros
participantes desse ecossistema podem contribuir para a manutenção do status
quo da realidade brasileira. Cabe, portanto, investigar a percepção de outros
stakeholders, como as empresas anunciantes. Surge, então, a pergunta deste
estudo: o que influencia a compra de mídia dos anunciantes brasileiros numa
realidade marcada pela fragmentação e pela queda da audiência das mídias
tradicionais? Além disso, como os anunciantes comparam o desempenho entre
mídias tradicionais (como TV aberta e rádio) e mídias emergentes (como a
Internet e seus formatos)?
2. REVISÃO DE LITERATURA
Os desafios decorrentes das inovações em mídia foram estudados por diversos
autores. Dimmick (2000) e Coulter e Sarkis (2005) recomendam a segmentação das
mídias em dois grupos: mídias tradicionais (TV aberta e paga, jornais,
revistas, rádio e outdoor) e mídias emergentes ou novas mídias (blogs, redes
sociais, games, dentre outros). Court, Gordon e Perrey (2005) argumentam que as
inovações em mídia explicam em grande parte a fragmentação da audiência, a
proliferação de canais de comunicação, o surgimento de consumidores multitarefa
e a queda da confiança na publicidade.
Levantamento no mercado norte-americano realizado por Steinberg (2009) indica
que o ambiente de negócios das mídias vem atravessando grandes mudanças.
Segundo o autor, a forma tradicional de assistir à TV está perdendo
popularidade: em 1980, os principais programas da TV americana marcavam uma
média de 22 pontos de audiência, contra cerca de 13 pontos registrados em 2009.
Enquanto isso, outras formas de consumo de vídeo ganharam espaço. Em 2009, o
video on demand alcançou 42% das famílias norte-americanas. No mesmo ano, mais
de um quarto dos lares norte-americanos já contava com gravadores digitais de
vídeo, e o consumo de vídeos nas redes sociais registrou aumento anual de 98%.
Para o autor, há uma mudança não só na forma de distribuição de conteúdo, mas
também na forma de rentabilizar esse conteúdo, com mais players disputando a
verba publicitária que antes ia somente para as redes de TV (STEINBERG, 2009).
No Brasil, a TV aberta continua sendo, de longe, a mídia de massa mais
utilizada pelos anunciantes. Segundo o relatório do Projeto Inter-Meios (2011),
ela é responsável por 61% do total das verbas investidas em mídia e cresceu
mais de 250% nos últimos 12 anos, chegando a mais de R$ 16 bilhões de
faturamento em 2010. Apesar dos crescentes investimentos publicitários, a TV
aberta também enfrenta desafios: em novembro de 2009, foram computados os
piores índices de audiência do horário nobre, com apenas 55% dos aparelhos
ligados (AdNEWS, 2009).
Há, portanto, um ambiente de negócios em rápida mudança, em que as técnicas
tradicionais de marketing são cada vez menos eficientes (COURT, GORDON e
PERREY, 2005). Num ambiente orientado à produção em massa, a comunicação em
massa era eficiente e os veículos não estavam no negócio de vender conteúdo,
mas sim de vender audiência. Contudo, novas tecnologias, como DVRs e browsers
de Internet, transformaram consumidores passivos em programadores de TV e DJs
(ANDERSON, 2008).
Veículos, agências de publicidade e anunciantes testemunharam impotentes a
transferência do poder daqueles que produzem e distribuem conteúdo para aqueles
que o consomem. Aquilo a que se assiste e quando se assiste deixou de ser
prerrogativa do veículo, enfraquecendo a relevância da audiência como métrica
de desempenho e comprometendo o valor da oferta direcionada aos anunciantes
(DONATON, 2004). Consequentemente, muitas organizações investem numa quantidade
crescente de mídias, procurando garantir o contato entre sua mensagem e seus
consumidores, o que eleva os custos de uma campanha. Assim, a integração
competente das mídias selecionadas pelos anunciantes torna-se fator crítico de
sucesso para uma campanha (BRIGGS, KRISHNAN e BORIN, 2005).
Nesse cenário, a audiência pode ser substituída pela atenção, cuja importância
cresce conforme o controle da distribuição de conteúdo sai de veículos e
anunciantes. Anderson (2008) descreve como as mídias emergentes têm o potencial
de rastrear todo o processo de consumo de informações do usuário, convertendo
reputação (links) em atenção (cliques), e esta em receita (vendas). Assim,
enquanto meios tradicionais oferecem audiência, ou a possibilidade de uma
mensagem impactar o consumidor, os meios digitais poderiam oferecer atenção,
entregando não apenas uma possibilidade, mas o número exato de impactos ou
mesmo de vendas.
A despeito da capacidade das novas mídias de monitorarem a atenção do
consumidor, a indústria da publicidade ainda não foi capaz de estabelecer
padrões de avaliação de atenção e comparação de desempenho entre veículos
tradicionais e emergentes. Uma pesquisa realizada com agências norte-americanas
mostra que grande parte dessas empresas ainda avalia o desempenho de suas
iniciativas on-line utilizando o CPM (custo por mil pessoas impactadas)(1),
ignorando métricas dedicadas à conversão da atenção em resultados comerciais,
como o Click Through Rate (CTR)(2) ou o Cost per Action (CPA)(3) (SHEN, 2002).
A ausência de métricas uniformes para a variedade de formatos presente na web
dificulta comparações entre veículos e compromete o processo de tomada de
decisões em campanhas (PIROUZ, BENDLE e TANEEM, 2011). De fato, em 2011 foi
criado um consórcio entre grandes anunciantes e grupos de mídia norte-
americanos com a finalidade de tornar as métricas das novas mídias mais simples
e comparáveis, uma iniciativa chamada Make Measurement Make Sense (AD AGE,
2011). Para alcançar a atenção dos consumidores e superar os desafios impostos
pela proliferação de mídias e fragmentação da audiência, surgem novas
tendências em publicidade. Lombard e Snyder-Duch (2001) argumentam que os
anunciantes devem oferecer mais interatividade em anúncios, disponibilizando
maior customização. Como resposta ao surgimento de consumidores multitarefa
resistentes à publicidade, Donaton (2004) descreve como alguns anunciantes vêm
investindo na produção de conteúdo próprio. Essas empresas tomam parte no
desenvolvimento do conteúdo desde seu início e participam ativamente da criação
de um enredo propício à exibição de suas marcas. Podem também utilizar seus
recursos financeiros e de marketing para estimular o público a consumir sua
oferta de entretenimento, numa integração total entre publicidade e conteúdo
(DONATON, 2004; SHEEHAN e GUO, 2005).
Na visão de Godin (2000), Dye (2001) e Haque (2009), cabe às organizações criar
as condições necessárias para que os próprios clientes divulguem sua
satisfação, posto que, para um consumidor, a opinião de seu par tem mais
credibilidade do que qualquer argumento de um anunciante. Surge, então, o
conceito de marketing viral, com a utilização de redes sociais para
distribuição espontânea de mensagens por parte dos consumidores, num processo
que tem o potencial de superar a resistência dos consumidores em relação à
propaganda.
Entretanto, para agregar valor para o consumidor, é necessário que um anúncio
seja relevante e, para tanto, informações sobre perfil de consumo tornam-se
mais importantes a cada dia. A capacidade das redes sociais e das demais novas
mídias de registrar os hábitos de seus usuários para criação de ofertas
customizadas de alto valor agregado estimula questionamentos sobre o controle
da privacidade (SHEN, 2002; ANDERSON, 2008). Surge uma contradição, pois a
comunicação entre organizações e clientes tende a ser mais eficiente conforme o
conhecimento sobre estes aumenta, embora o cliente deseje serviços cada vez
melhores, cedendo o mínimo possível de informações pessoais (BRUNER II e KUMAR,
2007; McCREARY, 2008).
Analisando a percepção das agências brasileiras sobre inovações na publicidade,
Chimenti e Nogueira (2007) descrevem como essas empresas enxergam nas novas
mídias apenas inovações incrementais. Os profissionais das agências de
publicidade mostram desinteresse em aumentar o uso de novas mídias; o que
poderia ser consequência do sistema de remuneração baseado num comissionamento
de 20% sobre o investido pelo anunciante em mídia. Considerando os altos custos
de inserção das mídias tradicionais, há um estímulo para a recomendação desses
canais em detrimento das novas mídias. Essa resistência teria reflexo nas
métricas das mídias baseadas em Internet: a despeito do potencial de mensuração
desses veículos, a maioria das agências ainda utiliza medidas semelhantes às de
audiência das redes de TV (SHEN, 2002). Assim, parte da oferta de valor
entregue pelas novas mídias tende a ser ignorada pelas agências de publicidade
(CHIMENTI e NOGUEIRA, 2007).
Após a análise do referencial teórico relativo às mídias, cumpre analisar a
resposta das organizações às mudanças e inovações em seu ambiente. Christensen
(1997) descreveu como empresas incumbentes têm dificuldades de adaptar-se
rapidamente ao ambiente, pois usualmente enxergam inovações como fonte de risco
para seus negócios. Day, Schoemaker e Gunther (2000) comparam o comportamento
de empresas estabelecidas e entrantes ante as inovações, destacando como
empresas mais jovens têm maior flexibilidade. Day e Schoemaker (2006) apontam
como a capacidade de reação de uma organização às inovações é influenciada pelo
alcance de sua visão periférica.
Nesse sentido, uma empresa não deve restringir sua visão apenas a seu setor,
mas monitorar diversas indústrias fora de suas adjacências para detecção de
ameaças e oportunidades (DOZ e HAMEL, 1998). A composição de estratégias deve,
portanto, rastrear a troca de informações e de recursos entre indústrias,
identificando focos de criação e de destruição de valor com antecedência (IYER,
LEE e VENKATRAMAN, 2006). A estratégia corporativa deve ser criada considerando
o ecossistema em que se opera e seu objetivo nele, para que a empresa defina
seu posicionamento e suas perspectivas de inovações (IANSITI e LEVIEN, 2004;
ADNER, 2006).
Wirtz (2001) estudou a indústria de mídia e mostrou que se trata de uma
indústria convergente, isto é, uma indústria cujas fronteiras estão se
expandindo, com ofertas inseridas num ambiente de entretenimento digital, cujo
território contempla vários setores diferentes e alcança milhões de clientes.
De acordo com Jenkins (2009), a convergência na indústria de mídia modifica a
lógica por meio da qual a indústria da comunicação opera e pela qual pessoas
consomem notícias e entretenimento.
Eisenmann (2006) descreve como os avanços tecnológicos levam as indústrias
tradicionais a se reconfigurarem como plataformas, operando em mercados de dois
lados. Na cadeia de valor tradicional, o valor move-se da esquerda para a
direita: à esquerda da empresa está o custo; à direita está a receita. Nos
mercados de dois lados, custos e receitas estão em ambos os lados, porque a
plataforma tem um grupo distinto de usuários de cada lado. A plataforma incorre
em custos para servir ambos os lados e pode coletar receita de ambos. Nesses
mercados, algumas regras tradicionais, como a precificação com base no valor,
tendem a cair. Preços cobrados podem estar abaixo do custo ou subsídios
permanentes podem ser oferecidos. Barreiras de entrada tradicionais podem não
mais existir. E os intermediários das plataformas podem usufruir de retornos de
escala sempre crescentes. Em muitos casos, os efeitos de rede são tão fortes
que uma única plataforma servirá a todo o mercado. Quando os vencedores levam
tudo, resta pouco aos perdedores.
Numa realidade de competição intensa, instabilidade e rápidas mudanças, como a
vivenciada atualmente pelos anunciantes brasileiros, a estratégia das
organizações precisa ser revista a fim de garantir sua competitividade frente a
tantos desafios. Para tanto, alguns autores propõem um novo ferramental. O
modelo delta (HAX e WILDE II, 1999) oferece uma abordagem segundo a qual uma
empresa pode atuar além da estratégia de best product, focada estritamente no
produto superior (PORTER, 1980). Assim, as formas de competição de uma empresa
poderiam ser descritas como um triângulo, no qual cada vértice representa uma
alternativa estratégica: best product, total customer solutions e system lock-
in. O posicionamento de total customer solution prevê a entrega de uma ampla
oferta com a finalidade de satisfazer totalmente as necessidades dos
consumidores, deslocando o foco da economia do produto para a economia do
cliente. Já o posicionamento de system lock-in compreende a criação e gestão de
uma rede entre clientes e complementares com o objetivo de elevar a criação de
valor e os custos de mudança para o consumidor final. Hagel III e Singer (1999)
sugerem que, para responder a um ambiente em constante mudança, a empresa deve
possuir a flexibilidade necessária para desarticular seus negócios em três
unidades básicas: infraestrutura (foco no aprimoramento de equipamentos e na
operação), Customer Relationship Man- agement(CRM) ' relacionamento com
clientes) e inovação (criação de produtos e serviços de alto valor). Ao
decompor sua estrutura nesses pilares, a empresa pode priorizá-los e combiná-
los de acordo com os desafios que enfrenta, obtendo sempre o tamanho ideal para
responder ao ambiente.
Por tudo que foi visto, ficam evidentes as dificuldades que os anunciantes
brasileiros enfrentam atualmente para comunicar-se com seus clientes. A
definição do mix de comunicação de uma campanha publicitária, antes um processo
seguro, torna-se algo arriscado, envolvendo um grande número de variáveis. Os
anunciantes devem repensar suas estratégias para integrar da melhor forma
possível mídias tradicionais e emergentes, buscando aumentar a rentabilidade e
eficiência de suas campanhas (BRIGGS, KRISHNAN e BORIN, 2005). Por um lado,
mídias tradicionais representam algo familiar para os profissionais de
publicidade, com ampla cobertura e mecanismos de aferição bem conhecidos.
Contudo, a audiência destes veículos cai, enquanto os custos de inserção não
param de subir, comprometendo seu valor (COURT, GORDON e PERREY, 2005). Por
outro lado, há as novas mídias, caracterizadas por custos de inserção mais
atraentes e pela mensuração da atenção do consumidor. Entretanto, não há
consenso entre profissionais sobre sua eficiência e a variedade de formatos
dificulta comparações coerentes de desempenho (SHEN, 2002; PIROUZ, BENDLE e
TANEEM, 2011).
A partir da revisão de literatura, é possível perceber que os anunciantes
brasileiros enfrentam uma nova realidade, repleta de incertezas quanto ao
futuro. Além disso, percebe-se a escassez de estudos sobre o tema no Brasil,
sendo possível identificar um gap em relação à compreensão de dois elementos
críticos, que são objeto deste estudo: os fatores que influenciam a escolha de
mídias pelos anunciantes brasileiros e as novas possibilidades de mensuração e
comparação de mídias.
3. MÉTODO
Os propósitos mais conhecidos das pesquisas sociais são exploratório,
descritivo e causal (BABBIE, 2001). Costa Filho (2002) destaca que as pesquisas
exploratórias são recomendadas quando o pesquisador quer se familiarizar com um
tema ou quando se trata de um campo de estudo relativamente novo, por
permitirem insights, ou pensamentos inovadores, sobre determinado assunto.
Bento e Ferreira (1982) enxergam a pesquisa exploratória como o primeiro degrau
numa escada de informações, constituindo o passo inicial de um projeto de
pesquisa. Ela busca, a partir de suposições, as informações sugestivas que
permitirão a definição mais precisa do problema, a formulação das questões da
pesquisa e o levantamento de hipóteses. Apenas com o apoio oferecido por esse
primeiro degrau, é possível proceder a pesquisas descritivas ou causais. A
pesquisa explora um tema pouco conhecido, constituindo um estudo exploratório,
no qual há necessidade de familiarização com um fenômeno sobre o qual
conhecimentos adicionais são desejados (YIN, 1989).
Historicamente, o campo de difusão de inovações utiliza abordagens de pesquisas
quantitativas em sua maioria. De acordo com Rogers (2003), apenas 4% das
pesquisas no campo utilizam uma abordagem qualitativa. O próprio autor aponta
limitações nos surveys que impedem maior aproximação do contexto. Dejeux (2008)
adota uma investigação contextual da inovação, defendendo o uso de métodos
qualitativos. Neste estudo, optou-se por uma abordagem qualitativa, adequada
para compreender profundamente poucos objetos sociais, de forma a obter-se um
amplo conhecimento deles (GIL, 2002). O método qualitativo dá ênfase aos
processos e significados que não são examinados ou medidos em termos de
quantidade, intensidade ou frequência (GARCIA e QUEK, 1997), sendo, portanto,
coerente com o objetivo proposto para a pesquisa (MALHOTRA, 1999). Dentre os
métodos qualitativos existentes, nesta pesquisa adota-se o estudo de casos. Tal
abordagem aplica-se bem ao objetivo proposto, já que, de acordo com Yin (1989),
o estudo de casos investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto na
vida real, especialmente quando os limites entre fenômeno e contexto não são
evidentemente claros. É indicado para pesquisas nas quais as perguntas são como
ou por quê, e quando a pesquisa trata de eventos contemporâneos nos quais os
comportamentos não podem ser controlados.
Entre junho e julho de 2009, 15 profissionais de 15 companhias participaram de
entrevistas em profundidade com duração média de uma hora, que utilizam um
roteiro semiestruturado (McCRACKEN, 1988). O formato semiestruturado permite
que novos assuntos pertinentes ao estudo apareçam naturalmente ao longo da
entrevista, enriquecendo a pesquisa. Sendo assim, a entrevista em profundidade
é construída sobre questões básicas que refletem a pergunta e a revisão de
literatura da pesquisa, prosseguindo de acordo com os desdobramentos da própria
entrevista. O entrevistado deve ter a liberdade para discorrer sobre suas
ideias espontaneamente, cabendo ao pesquisador apenas escutar e conduzir a
entrevista em direção ao tema proposto (MANN, 1975). Para preservar a
flexibilidade imanente a uma entrevista semiestruturada sem comprometer a
consistência dos dados coletados, utilizou-se um roteiro cujos tópicos
relevantes foram selecionados previamente, conforme orientação de Patton
(2002). O roteiro, dessa forma, atuou como um guia para garantir a abordagem
dos assuntos relevantes apontados pela revisão de literatura.
Todos os entrevistados ocupam cargo com responsabilidade direta na elaboração e
aprovação de campanhas publicitárias, incluindo a definição da combinação de
mídias e do investimento utilizado. Além disso, as empresas participantes do
estudo são todas de grande porte, atuantes em setores variados e apresentando
tradição de investimentos no mercado brasileiro de publicidade (ver quadro a
seguir). Sete empresas estudadas estão entre os 30 maiores anunciantes
brasileiros de 2009 (MEIO & MENSAGEM, 2010). Quanto à quantidade, para
Eisenhardt (1989) um número entre quatro e dez entrevistas é indicado para esse
tipo de pesquisa e deve-se parar de adicionar casos quando há saturação teórica
ou quando a melhoria incremental é mínima. Ao fim das últimas entrevistas, o
discurso dos anunciantes mostrou-se bastante similar, o que sugeriu saturação
teórica e tornou desnecessária a busca por novos entrevistados (YIN, 1989).
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Para a análise dos dados, as gravações das 15 entrevistas foram transcritas e
as 190 páginas de transcrições foram inseridas num software em que foram
catalogadas em microcategorias, as quais foram posteriormente agrupadas em
macrocategorias de análise, utilizando a técnica de análise de conteúdo. A
análise dos dados em uma pesquisa qualitativa deve ser entendida como um
processo dedicado à verificação e à interpretação das informações coletadas,
bem como à redução e à preparação para sua exibição. Dessa forma, a análise de
dados qualitativa utilizada nesta pesquisa pode ser resumida em quatro passos
sequenciais: realização e transcrição das entrevistas, organização e
consequente redução dos dados coletados, construção das formas de apresentação
dos dados coletados (textos e tabelas etc.) e, finalmente, verificação dos
dados coletados e respectivas conclusões (MILES e HUBERMANN, 1984).
A redução dos dados realiza-se ao longo da pesquisa, sendo um procedimento
contínuo de sumarização e refinamento dos dados coletados e produzindo dados
estruturados propícios para a análise. A seguir vem a exibição dos dados,
quando ocorre a organização e a simplificação das informações coletadas com o
objetivo de facilitar o entendimento sobre o que foi coletado no campo de
pesquisa. Finalmente, há a etapa de conclusão e verificação, dedicada à busca
por regularidades, padrões, explicações e relações de causa e efeito (MILES e
HUBERMANN, 1984).
4. ANÁLISE DE RESULTADOS
A análise dos dados é realizada segmentando as informações obtidas em campo em
categorias de acordo com os aspectos teóricos consolidados na Revisão de
Literatura (MILES e HUBERMANN, 1984). Desse modo, optou-se por organizar esta
seção em três macrocategorias de análise: características das empresas
anunciantes, características das mídias e características do macroambiente.
4.1. Características das empresas anunciantes
De forma geral, os entrevistados descrevem um cotidiano marcado por forte
pressão por resultados e grande aversão a riscos, fatores que aparentemente os
levam a buscar alternativas de mídia com as quais se sintam mais
familiarizados.
"A gente tem que fazer resultado muito rápido [...]. Lançou um
filme e a curva de vendas não subiu em três dias, a gente já é
cobrado daquilo. [...] Ser ousado e pegar 50% do budget e investir só
em on-line, você hoje não consegue. Você é exigido de números,
resultados... Então é muito bacana você pensar nisso, só que tem lá
um inferninho também, que é vender, trazer clientes, manter clientes"
(Entrevistado 7).
Os discursos indicam que grande parte dos entrevistados não tem grande
flexibilidade na execução de suas estratégias, denotando a existência de
conflitos internos nas organizações entre seus níveis administrativos que
dificultam a adaptação dessas empresas às mudanças do ambiente.
"Se chegar hoje pra um diretor e disser: '80% da verba de campanha
vou colocar na Internet', o cara vai responder: 'Como assim você vai
colocar na Internet? Baseado em quê?'. Aí você mostra números e não
sei o quê, mas não adianta. A resposta vai ser: 'Mas não vai ter o
filme? Mas eu queria ver o filme no Fantástico'. É difícil chegar
para um cara que tem duas gerações à frente e dizer que a Internet é
o meio mais eficaz. Ele não vai entender, ele não quer, é impossível"
(Entrevistado 8).
Admite-se que a combinação desses fatores (aversão a risco, pressão por
resultados e ausência de flexibilidade) possa influenciar o uso de mídias dos
anunciantes, incentivando o investimento em meios tradicionais, percebidos
pelos entrevistados como previsíveis. A análise desta macrocategoria também
sinaliza uma competência de inovação pouco desenvolvida na maior parte das
empresas pesquisadas. De fato, não raro as reflexões dos entrevistados acerca
de suas inovações descreviam investimentos em infraestrutura baseados em
tecnologias de terceiros, com poucas empresas apresentando comportamento
distinto.
"A nossa empresa foi a primeira a lançar o Blackberry no Brasil...
também fomos os primeiros a lançar a rede EDGE..." (Entrevistado 9).
Em paralelo, as competências de CRM das empresas abordadas não aparentam grande
elaboração. Muitos entrevistados citam dificuldades em obter, manter e
gerenciar informações de seus consumidores, inclusive por vezes dados simples,
como endereços eletrônicos. Destaca-se também o distanciamento entre os
departamentos de mídia e publicidade e a área de CRM, pois os entrevistados
demonstram dificuldades em ilustrar seus processos de coleta de dados. De fato,
a competência de orientação ao cliente mostra-se desenvolvida em poucos
entrevistados.
"Isso é uma confusão danada. O programa de relacionamento começou
com uma verba enorme. Aí reduziram muito a verba e depois extinguiram
o programa. A gente não tem um sistema unificado de informação de
cliente, os sistemas são separados" (Entrevistado 12).
O relacionamento entre os anunciantes, suas respectivas agências e veículos
mostra-se conturbado. Agências de publicidade são criticadas pelo baixo
comprometimento com resultados, pela resistência em recomendar novas mídias e
por terem nas comissões e na BV (bonificação por volume) pagas por veículos
parte substancial de suas receitas. A BV é um bônus pago pela maioria dos
veículos de massa para aquelas agências de publicidade com maior concentração
de investimentos nessas mídias. Admite-se que a BV tenha influência direta na
composição do mix de mídias dos anunciantes, posto que esse mix é recomendado
ou mesmo definido por suas agências de publicidade. De fato, a BV desperta
entre os entrevistados um sentimento de desconfiança.
"A BV é fruto do modelo brasileiro onde a agência é parte
remunerada pelo seu cliente e é parte remunerada pelo veículo. É
certamente um modelo conflitante. Sabemos que a remuneração que vem
do veículo é maior do que a remuneração que vem do cliente. Existe
uma desconfiança sobre para quem a agência trabalha" (Entrevistado
3).
Entretanto, essa relação de desconfiança é ignorada pelos mesmos entrevistados,
habituados a delegarem às agências tanto a recomendação de veículos como a
aferição de seu desempenho.
"Tem muito trabalho estatístico que as agências não fazem e não têm
interesse em buscar. Também a maioria dos anunciantes não cobra. É
aquilo: ninguém cobra, vou fazer para quê? Ninguém vai olhar mesmo"
(Entrevistado 1).
Movendo o foco da análise das agências de publicidade para os veículos, os
entrevistados têm a impressão de que os preços de inserção aumentam sem agregar
benefícios na mesma proporção.
"A televisão tem o break, que tem um limite. Se a emissora tem um
compromisso de apresentar crescimento, como ela vai crescer com
espaço limitado? Se não pode colocar mais anunciante ali... O que ela
faz? Ela aumenta o preço. Aí ninguém questiona e paga. Se existe essa
limitação, vamos oferecer outros formatos! Mas dá trabalho pensar
nisso, e ninguém está a fim, ninguém questiona" (Entrevistado 10).
Negociações diretas entre veículos e anunciantes também não são consideradas
comuns. Segundo um anunciante, alguns veículos exigem a participação de
agências de publicidade como corretoras de seus serviços.
"Dependendo da mídia, eu não consigo comprar sem ser via agência.
As novas mídias nem tanto, mas as tradicionais eu não consigo
comprar, não consigo ir na TV comprar mídia sem ser via agência"
(Entrevistado 7).
Ante as dificuldades inerentes a seu relacionamento com agências de publicidade
e veículos de comunicação, alguns anunciantes citam formatos alternativos de
gestão de mídia e publicidade. Depoimentos mostram a contratação de
especialistas em mídia ou a internalização de departamentos completos dedicados
a criação e planejamento publicitários.
"É uma tendência crescente os grandes anunciantes terem
profissionais dentro deles que vão questionar o tempo todo o trabalho
da agência e dos veículos. Eu diria que não tem volta, porque quem
paga a conta é o anunciante e ele quer fiscalizar" (Entrevistado 15).
Como benefícios dessa internalização, são citados o monitoramento imparcial do
próprio anunciante sobre o desempenho dos meios de comunicação sugeridos por
sua agência, maior proatividade na definição do mix de mídias e maior
transparência entre responsáveis pelos departamentos de marketing, comunicação
e vendas, culminando em campanhas mais coerentes com os objetivos estratégicos
da empresa.
"Nós elevamos os custos da empresa. Precisamos justificar para os
acionistas o fato de existir uma agência aqui dentro ao invés disso
ser terceirizado. Então mostramos o quanto a gente economiza, não só
em comissionamento, mas em tudo. Como existe confiança, a gente tem
acesso a dados de venda, a tudo. O que nem sempre as agências têm.
Isso faz diferença" (Entrevistado 5).
4.2. Características das mídias
De forma geral, a percepção dos anunciantes acerca das novas mídias é positiva.
Contudo, a realidade descrita pela maioria dos entrevistados sugere uma
dissonância entre os discursos apresentados e suas práticas cotidianas. A
personalização, por exemplo, foi reconhecida como uma oferta valiosa das mídias
emergentes, sem ser utilizada de forma concreta pelos entrevistados. Muitos
descreveram dificuldades para obtenção de dados confiáveis sobre a própria base
de clientes.
"Eu tenho o endereço dele, mas não tenho o e-mail dele... A gente
faz um esforço para atualizar os dados do cliente, mas não é
confiável" (Entrevistado 9).
Por outro lado, depoimentos apontaram o estímulo à participação dos usuários na
criação e disseminação das campanhas como uma estratégia eficiente para
amenizar a resistência à publicidade. A coprodução da mensagem publicitária é
um fator que estimula sua aceitação.
"O consumidor tem que nos ajudar a construir relevância no que a
gente está fazendo. Portanto, participar da mensagem e da difusão da
mensagem" (Entrevistado 3).
O uso de redes sociais para cocriação de campanhas vem sendo testado entre os
entrevistados, atraídos pela oportunidade de gerar pertinência para seus
anúncios e viralizar suas campanhas a baixo custo. Contudo, se os efeitos de
externalidade das novas mídias são desejados, seu uso ainda é percebido como
experimental, visto que não há consenso sobre o que torna uma campanha viral.
Além disso, a perda de controle integral sobre os comentários ostentados junto
à mensagem publicitária desencoraja seu uso pelos entrevistados.
"Rede social ninguém sabe como funciona... E todo mundo quer
fazer... Esse meio é muito sensível ao que é postado, é muito fácil o
tiro sair pela culatra" (Entrevistado 11).
A popularização de redes sociais reflete a necessidade de autoexpressão dos
consumidores, ávidos por partilhar experiências. Assim, as novas mídias podem
favorecer a coleta de dados de consumo individuais para elaboração de anúncios
relevantes. Questionados acerca de políticas de proteção da privacidade ligadas
ao uso de mídias emergentes, os entrevistados demonstraram um alinhamento em
defesa do privado. O cotidiano ilustrado, contudo, sugere o oposto. Alguns
questionam a separação entre público e privado, distinção que se torna sutil
com o advento de redes sociais e o perfil por vezes despudorado de seus
usuários.
"O brasileiro não é preocupado com privacidade como o americano. Há
um limite do que é considerado público, mas não sei qual é. Não acho
que o brasileiro veja informações postas no orkut como privadas"
(Entrevistado 12).
Outros reconhecem que, apesar de incômodo para os consumidores e eticamente
questionável, o retorno de certos abusos sobre a privacidade justifica os meios
utilizados.
"A gente deveria regular o telemarketing. Mas isso implicaria nas
vendas. Esse canal que irrita tanto é muito útil. Ele funciona, dá
bastante retorno" (Entrevistado 7).
O envolvimento emocional é outro atributo procurado nas mídias a fim de reduzir
a resistência dos consumidores à publicidade. A disseminação de mídias digitais
facilita esse processo, tendo em vista a possibilidade de oferecer
personalização. As entrevistas, contudo, sugerem que os anunciantes brasileiros
buscam criar um envolvimento entre consumidor e marcas por outros meios,
principalmente a TV aberta.
"Em TV a mensagem é mais completa, a atenção do consumidor é mais
constante. Podemos ser mais complexos, usando imagens, movimento,
música. A atenção está ali. Acho a mensagem ali mais completa"
(Entrevistado 2).
A grande quantidade de estímulos visuais e sonoros presente num website é
apontada como prejudicial para obtenção de envolvimento por dividir a atenção
em demasia.
"Na TV ele vê um filme de cada vez. A atenção é mais flutuante na
Internet do que na TV. Estou lavando louça e a TV está ligada, mas na
Internet quantos banners não abrem numa mesma página?" (Entrevistado
10).
A fragmentação da audiência estimula outro questionamento para os anunciantes:
como atingir um cliente disputado por um número crescente de mídias? Muitos
entrevistados respondem a esse desafio ocupando o maior número possível de
mídias a fim de aumentar a probabilidade de impacto sobre o consumidor.
"Uma propaganda não pode estar só na TV, ou só no jornal. Ela tem
que estar em todas as mídias possíveis [...], tudo. Para conseguir
atingir esses clientes" (Entrevistado 9).
O objetivo dessa estratégia também é elevar o share-of-voice(4) para reduzir a
presença dos seus concorrentes na mídia. No entanto, articular uma campanha
integrando meios diversificados como TV e redes sociais é um desafio.
"Campanhas juntam o Twitter com TV e celular formando uma coisa só.
Umas dão certo e outras dão errado. As mídias evoluem mais rápido do
que a gente consegue aprender, do que a gente consegue criar regras"
(Entrevistado 12).
Muitos entrevistados destacam dificuldades para compreender e equalizar
métricas de desempenho em suas campanhas, tendo em vista a natureza distinta
das medições de mídias emergentes e tradicionais. Enquanto mídias emergentes
oferecem medidas de atenção ainda pouco conhecidas, as mídias tradicionais
trabalham com métricas de audiência familiares aos profissionais. Para
viabilizar comparações entre esses meios, muitos anunciantes abdicam das
medidas de atenção das novas mídias, utilizando o page-view, métrica de
audiência que registra quantos usuários assistiram a uma página de Internet. Em
outras palavras, utilizam métricas de audiência para avaliar mídias emergentes.
"Quando comparamos Internet com outro tipo de meio não falamos de
clique, falamos de page-view. Porque page-view é o mesmo conceito dos
outros meios. Você está lá, mas não sabe se o consumidor foi
impactado" (Entrevistado 1).
Ao abandonar medidas de atenção por métricas de audiência como o page-view,
deficiências típicas de meios tradicionais são transferidas para os meios
digitais. Assim, a oferta de monitoramento das mídias emergentes perde parte de
seu valor.
"Você não tem como garantir que o consumidor está olhando. Você até
faz medições, mas pega uma página de um grande site. Ninguém garante
que o cara vai ler um banner ali, é tanta informação que ele nem
olha" (Entrevistado 6).
Mesmo os próprios websites institucionais de muitos entrevistados não usufruem
de métricas de atenção mais sofisticadas, como o custo por ação (CPA)(5).
Portanto, campanhas que se iniciam em meios tradicionais para direcionar o
consumidor para o site institucional da empresa têm parte de seu monitoramento
comprometido. De acordo com os depoimentos, muitos websites institucionais
foram projetados sem mecanismos de aferição de resultados. Assim, os custos
relativos à adaptação desses meios para oferecer medidas como o CPA surgem como
um inibidor.
A Internet é vendida por dar monitoramento, mas nem sempre você
pode monitorar, pois é caro construir infraestrutura para isso. Num
hot site(6) monitoramos se o público-alvo está visitando e quanto
tempo passam lá. Por que esse canal foi criado pensando em como
monitorá-lo. É diferente de pegar um site gigante como o nosso e
torná-lo monitorável. Isso é um gasto grande, porque teria que mexer
na base dele" (Entrevistado 12).
O discurso dos entrevistados aponta inconsistências sobre a percepção de
eficiência de suas ações de comunicação. Embo- ra a eficiência das mídias
tradicionais seja questionada, sua utilização parece mandatória. A predileção
por métricas de audiência como a cobertura(7) para avaliação de desempenho de
campanhas estimula tal comportamento. Ainda que os en- trevistados afirmem que
a publicidade é hoje mais eficiente do que há cinco anos, a necessidade de
investir mais para sus- tentar o nível de desempenho obtido anteriormente foi
constantemente citada.
"A audiência dos programas de fato está caindo. Então você está
tendo que investir mais para garantir aquela audiência que antes você
tinha com um programa só" (Entrevistado 7).
4.3. Características do ambiente
Finalizando a análise de resultados, é pertinente sintetizar as percepções dos
entrevistados sobre o aspecto teórico características do ambiente,
identificando como fatores exógenos interferem na escolha de mídias. Embora a
ascensão do poder aquisitivo da classe C seja celebrada por muitos, não há
consenso sobre a adesão desse público às novas mídias, o que sugere que a
necessidade de alcançar essa faixa social estimula a manutenção em meios
tradicionais.
"O Brasil ainda é da TV. A melhor forma de contato com a população
de baixa renda é a TV" (Entrevistado 15).
Diferenças que envolvem a infraestrutura de telecomunicações entre centros
urbanos e áreas do interior também são citadas como empecilhos para maiores
investimentos em mídias emergentes.
"Não dá para prescindir da TV. Não consigo ser eficiente no
Amazonas da mesma maneira que sou eficiente em São Paulo. E preciso
vender no Amazonas" (Entrevistado 3).
A maior participação da mulher no mercado de trabalho também surge como
catalisador de mudanças no mix de mídias.
"O retorno não está tão grande assim inclusive pela queda da
audiência das emissoras de TV. Antes as mulheres ficavam mais em casa
assistindo novelas. Hoje elas estão no mercado de trabalho, assistem
menos TV" (Entrevistado 5).
Discutindo o comportamento do consumidor, muitos entrevistados apontam o
multitasking como um desafio a ser sobrepujado. A capacidade do consumidor de
usufruir de diversas fontes de informação ou entretenimento ao mesmo tempo,
selecionando o que quer assistir, onde e quando, estimula os anunciantes a
buscarem novas formas de interagir com seu público.
"Quando ele nasce, já consegue jogar no computador, ver TV ao lado
e ouvir música no iPod ao mesmo tempo. Ele é impactado de várias
formas" (Entrevistado 15).
Como resposta à maior dificuldade para obter a atenção dos consumidores, os
entrevistados apontam a busca por mais verbas para diversificar ao máximo o mix
de mídias a fim de aumentar a probabilidade de recepção de seu anúncio, o que
prejudicaria a eficiência de suas campanhas.
"Eu pediria mais verba para anunciar mais. Com mais verba, você
consegue estar mais presente em mais meios e, quanto mais presente,
mais o consumidor está me vendo, mais ele vai estar me ouvindo"
(Entrevistado 7).
Na visão dos entrevistados, há uma intolerância crescente dos consumidores à
publicidade. Segundo um anunciante, tal comportamento teria como uma de suas
origens a necessidade da sociedade de buscar bodes expiatórios para questões
contemporâneas.
"O mundo moderno precisa 'demonizar' a propaganda para justificar o
pouco tempo com os filhos, a violência urbana, etc. Porque a culpa
tem que ser de alguém. E, atualmente, o grande vilão é a propaganda"
(Entrevistado 13).
Para o entrevistado 8, a intolerância à publicidade pode ser maior nas novas
mídias, posto que os consumidores já estão habituados com as interrupções
características das mídias tradicionais, admitindo anúncios nesses veículos.
"Eles são mais tolerantes ao comercial nos meios em que já estão
acostumados. Quer dizer, na TV ele é tolerante. Na Internet ele não é
nada tolerante e se ele quiser ele não vai focar no seu anúncio"
(Entrevistado 8).
Os entrevistados ilustram ainda como os grandes grupos de comunicação
brasileiros e suas redes de TV aberta exercem influência considerável na
indústria de mídia do País. Alguns anunciantes apontam como o Brasil apresenta
um uso desproporcional de mídias tradicionais.
"O que eu vejo acontecer no Brasil é uma aberração. Comparados com
índices dos Estados Unidos, França e Japão, os índices das redes de
TV brasileiras eram uma aberração! Não existe isso em outro lugar do
mundo" (Entrevistado 15).
As redes de TV aberta são descritas como poderosos hubs no ecossistema,
influenciando a partilha de investimentos entre mídias emergentes e
tradicionais. A influência desses agentes é tamanha sobre os anunciantes
abordados que sugere um system lock-in (HAX e WILDE II, 1999), o qual se
caracteriza pela existência de uma plataforma que se torna o padrão em uma
indústria, com uma rede de empresas complementares. A sustentação do lock-in
depende da gestão de complementares exclusivos para a plataforma, excluindo
potenciais competidores dessa rede de negócios. Assim, os entrevistados
descrevem como as redes de TV brasileiras atraem complementares estratégicos,
como agências de publicidade e institutos de pesquisa, com o objetivo de
desenvolver e proteger sua posição de liderança. Segundo os entrevistados, a BV
é um dos alicerces do relacionamento entre agências e redes de TV aberta,
estimulando a priorização destas nos planos de mídia recomendados.
"Há um modelo de remuneração que limita o uso das novas mídias nas
campanhas. Por que eu coloco a maior parte da verba na TV? Porque o
processo de remuneração entre veículo e agências é uma barreira
difícil de romper. A agência teria que perder receita. Esse modelo é
interessante para várias partes" (Entrevistado 8).
Alguns sugerem que mesmo os institutos de pesquisa sofrem alguma carga de
influência sobre seus processos, o que teria reflexos nos relatórios entregues
ao mercado.
"A TV é monstra, não tem como não fazer. Mas hoje a TV é duvidosa
porque a audiência deveria ser medida nos intervalos. Só que é medida
no próprio programa. Não sabemos se alguém assistiu o comercial"
(Entrevistado 14).
Cientes da pressão que exercem sobre os anunciantes e sobre as mudanças
correntes no comportamento de consumo de mídia, especula-se que as próprias
redes de TV aberta venham gradativamente estendendo seu portfolio de ofertas
para mídias digitais, entregando alternativas aos seus canais tradicionais.
"Hoje pede-se um plano de mídia para uma rede de TV e ela mesma
oferece espaço no site dela" (Entrevistado 13).
Alguns entrevistados apontam como os grandes grupos de comunicação brasileiros
vêm investindo para deslocar parte das verbas originalmente destinadas à TV
aberta para seu portal de Internet. Assim, mesmo que a adoção crescente de
mídias emergentes seja inevitável, os investimentos de anunciantes manteriam-se
concentrados nas mesmas organizações.
"O veículo fala: 'Cobrei ano passado um milhão. Agora vou cobrar um
milhão e meio, mas vou te dar 'X' milhões de impressões no meu
portal'. Ele realmente está aumentando o preço, mas está dando alguma
coisa pra reduzir essa diferença, provavelmente compensando aí o
investimento destinado pra propaganda de massa" (Entrevistado 12).
Como resultado, admite-se que esses conglomerados es- tejam guiando os
anunciantes na migração gradativa de investimentos em direção às mídias
emergentes.
5. CONCLUSÕES
A análise dos dados obtidos na pesquisa aponta três grandes fatores que
influenciam a compra de mídia dos anunciantes brasileiros: o uso inadequado de
métricas e ofertas das mídias, a dependência de agências de publicidade e
veículos de massa e os próprios processos estratégicos dessas empresas. Esses
três fatores, descritos a seguir, afetam a percepção dos entrevistados sobre as
mídias e seus desempenhos, enviezando seu julgamento a favor das mídias
tradicionais.
O uso inadequado de métricas e ofertas das mídias é con- cretizado numa
subutilização dos meios digitais pelos anunciantes, o que compromete a
percepção sobre a oferta de valor desses veículos. Há, entre os participantes
da pesquisa, uma percepção de que as mídias emergentes entregam poucos
benefícios, o que se mostra alinhado com Heeter (2000, apud LOMBARD e SNYDER-
DUCH, 2001) e Pirouz, Bendle e Taneem (2011), que descrevem como conceitos como
interatividade são entendidos meramente como sinônimos de presença em ambiente
on-line. Ofertas usualmente consideradas exclusivas e características das
mídias digitais são negligenciadas por muitos anunciantes. Pode-se exemplificar
essa questão com os players do mercado de telefonia celular brasileiro
abordados na pesquisa. Admite-se que a capacidade de manter um contato próximo,
constante, direto e personalizado esteja no core-business dessas empresas, que
são naturalmente dotadas de familiaridade com meios digitais e operam em redes.
No entanto, mesmo essas organizações ainda não conseguiram ajustar suas
iniciativas em mídias emergentes e alavancar sua capacidade de personalização
de comunicação, o que pode ser reflexo de deficiências em competências de CRM.
Da mesma forma, a interatividade das novas mídias é comemorada, sem, no
entanto, ser utilizada de forma efetiva. Considerando veículos capazes de
conjugar áudio, vídeo e cocriação de informações, além de formatos variados de
inputs, os exemplos de interatividade limitam-se à navegação não linear e
comunicação de mão dupla. Exemplos de integração entre mídias emergentes e
tradicionais limitam-se ao aprofundamento de conteúdo previamente
disponibilizado em veículos de massa. Conforme proposto por um entrevistado,
anunciantes e agências de publicidade ainda devem percorrer uma curva de
aprendizado para extrair todo o potencial que eles mesmos reconhecem nas mídias
emergentes, visão partilhada por Bradley e Bartlett (2006).
O resultado prático dessa utilização estreita é a captura de apenas uma parte
do potencial das mídias emergentes, o que as deixa fragilizadas numa comparação
direta com mídias tradicionais. As empresas caem, assim, numa das armadilhas
descritas por Day, Schoemaker e Gunther (2000) no tocante à adoção de inovações
pelas organizações: a competição tardia decorrente de subestimar-se o potencial
de uma tecnologia emergente.
O uso inadequado das métricas das mídias emergentes também estimula os
anunciantes a concentrarem investimentos nas mídias tradicionais. Conforme
exposto por diversos entrevistados, as metas finais de suas campanhas
publicitárias são traçadas de acordo com índices de cobertura, métrica
associada à audiência de um veículo. Considerando que essas campanhas são
compostas por mídias cujas métricas têm natureza distinta (atenção e
audiência), muitos anunciantes procuram um denominador comum para comparar o
desempenho dessas mídias e confrontá-las com suas metas. Nesse processo, as
mídias emergentes têm suas métricas de atenção desconsideradas em detrimento de
medidas de audiência mais simples, como o page-view, conforme observado nos
mercados norte-americano e britânico por Shen (2002) e Pirouz (2011).
Embora seja um indicador típico de ambientes on-line, o page-view consiste na
mera contagem de visitantes de determinado site, sendo, portanto, mais próximo
de medidas de audiência como Gross Rating Point (GRP)(8) do que de atenção como
o CPA. Ao comparar mídias emergentes e tradicionais segundo medidas de
audiência, as primeiras tendem a ser desfavorecidas pela penetração maciça de
aparelhos de TV e rádio no mercado brasileiro. Não obstante, deve-se ressaltar
que, ao utilizar o page-view como métrica de desempenho de mídias emergentes
para viabilizar comparações diretas com mídias tradicionais, os anunciantes
ignoram imediatamente grande parte do valor que essas novas mídias oferecem,
como a evolução do custo real por pessoa impactada e, consequentemente, a
eficiência da própria mídia. De fato, a dificuldade dos anunciantes em capturar
todo o valor das métricas de atenção é um problema que se estende até os dias
de hoje, como ilustrado por Pirouz, Bendle e Taneem (2011). Esse comportamento
pode direcionar fortemente a distribuição dos investimentos de anunciantes a
favor de mídias tradicionais.
A utilização equivocada das métricas oferecidas pelas mídias emergentes pode
também alimentar a percepção de risco associada ao uso desses novos canais de
comunicação. O cotidiano dos anunciantes participantes desta pesquisa foi
ilustrado como extremamente competitivo, marcado por uma grande pressão por
resultados. Nesse panorama de cobrança por resultados rápidos de audiência e
cobertura, a chamada curva de cobertura dos anunciantes deve ser atingida
velozmente, e fazê-lo por meio de mídias cujos formatos, linguagens e padrões
ainda não são familiares é encarado como uma aposta arriscada, num
comportamento marcado pela ausência de flexibilidade conforme descrito por
Christensen (1997) e por Day e Schoemaker (2006). A incerteza quanto ao retorno
e o consequente risco percebido são potencializados pela procura de benefícios
característicos de veículos tradicionais em mídias emergentes. A busca por
altos índices de cobertura por meio de veículos cuja oferta principal não se
baseia em audiência, mas em atenção, distorce os resultados obtidos pelos
anunciantes e interfere direta e negativamente na compreensão correta das
dinâmicas que definem seu uso adequado. Consequentemente, os anunciantes têm
seu aprendizado referente ao uso das novas mídias comprometido, limitando seu
entendimento, e percebendo-as como investimento de alto risco. Esse
comportamento traz grandes semelhanças com outra armadilha descrita por Day,
Schoemaker e Gunther (2000), comum às empresas que lidam com inovações: a
concentração excessiva, uma miopia a novas oportunidades derivada de alta
aversão a risco.
Outro grande fator capaz de influenciar a compra de mídia dos anunciantes
brasileiros é sua dependência de agências de publicidade e veículos de massa. O
relacionamento dos anunciantes com as agências de publicidade mostrou-se
altamente conflituoso, ilustrando um cenário de desconfiança mútua e
dependência. Embora responsáveis em grande parte pela recomendação e escolha
das mídias dos entrevistados, as agências de publicidade têm na BV paga por
grandes veículos uma de suas maiores fontes de receita, como verificado por
Chimenti e Nogueira (2007). Consequentemente, essas agências supostamente
estariam sujeitas a um conflito de interesses, levantando dúvidas a respeito
sobre quem é seu real cliente ' o anunciante ou o veículo.
Além disso, ao delegar para as agências as tarefas de definição, aferição e
monitoramento de mídias, os anunciantes perdem informações valiosas que os
tornariam capazes de avaliar suas campanhas de forma independente, auxiliando a
dirimir potenciais conflitos. A inexistência de tal estrutura de aferição na
maior parte das empresas pesquisadas dificulta a implantação de outros modelos
de remuneração de agências desejados pelos próprios anunciantes, como o baseado
em resultados. Dessa forma, a BV oferecida às agências de publicidade, a grande
influência dessas agências na recomendação e na avaliação das mídias em
campanhas publicitárias e a ausência de estruturas próprias dos anunciantes
dedicadas à aferição de veículos parecem ser fatores capazes de estimular a
concentração de investimentos nas mídias tradicionais em detrimento das
emergentes.
A relação entre anunciantes e veículos, em especial as redes de TV, também se
mostrou conflituosa. Embora os entrevistados questionem severamente o constante
aumento dos custos de inserção em mídias tradicionais, argumentando que eles
não entregam a audiência de outrora, a hipótese de reduzir os investimentos
nesses meios não é posta em prática. Os próprios anunciantes alimentam essa
relação de dependência ao traduzir muitas de suas metas de campanhas em números
de audiência, oferta típica de mídias tradicionais, em especial de redes de TV.
A inaptidão dos anunciantes em trabalhar com métricas diferentes da audiência
limita sua capacidade de enxergar oportunidades em sua periferia. Na visão de
Day e Schoemaker (2006), organizações com limitações em sua visão periférica
teriam menor flexibilidade e agilidade para reagir às mudanças do ambiente.
Além disso, os grandes grupos de comunicação brasileiros, cientes das mudanças
em seu ambiente, vêm gradativamente modificando sua oferta para os anunciantes,
investindo cada vez mais na distribuição de seus conteúdos nos novos canais
digitais, entregando pacotes em que a maioria das inserções de anúncios é
dirigida para seus veículos de massa e o restante é direcionado para as novas
mídias. Admite-se que esses grupos estejam gerindo seus parceiros estratégicos,
como agências e institutos de pesquisa, para guiar, à sua conveniência, a
gradativa migração de investimentos das mídias tradicionais para as emergentes.
Isso reduziria o risco de perda de clientes para canais digitais concorrentes e
manteria a força e a relevância desses grupos no ecossistema de acordo com a
estratégia de system lock-in descrita por Hax e Wilde II (1999).
Finalmente, a forma com que os anunciantes desenvolvem seus processos
estratégicos também influencia a distribuição de investimentos entre mídias
tradicionais e emergentes. Embora neste estudo não se tenha a pretensão de
categorizar as empresas abordadas como inovadoras ou orientadas ao cliente ou
ainda detentoras de visão periférica, é possível perceber nas entrevistas
indícios do desenvolvimento dos anunciantes pesquisados em relação a essas
competências.
Ainda que a maioria dos entrevistados tenha demonstrado limitações relativas a
sua gestão de relacionamento com clientes e a investimentos em inovação, houve
exceções. Uma montadora de automóveis destacou-se pelas iniciativas descritas
de CRM, cuja gestão implica o levantamento das ligações de seu consumidor não
apenas com sua marca, mas também com marcas de outras indústrias em situações
variadas. Essa mesma empresa trouxe exemplos cujos benefícios são claramente
focados nas necessidades do consumidor final, como o patrocínio de mapas e
sistemas de navegação desenvolvidos por um site de buscas on-line, bem como uma
iniciativa inédita de projeto de automóvel, que utiliza princípios de
crowdsourcing(9). Ao longo da entrevista, o profissional dessa empresa
demonstrou grande familiaridade com o uso de mídias emergentes, utilizando
métricas específicas de atenção em suas ações baseadas na Internet, como o CPA.
Dentre os entrevistados que declararam como distribuem sua verba entre meios
tradicionais e emergentes, esse anunciante destacou-se destinando 15% de seus
investimentos às novas mídias, enquanto os demais usualmente declararam
direcionar até 5% dos recursos disponíveis.
Outra empresa participante, uma das maiores editoras do Brasil, destacou-se por
sua orientação ao cliente ao tornar-se uma das primeiras no mercado nacional a
oferecer impressão de livros sob demanda e ser a pioneira no sistema de self-
publisher, que tem como propósito transformar indivíduos comuns em escritores
capazes de distribuir seus livros em grandes redes de varejo. Esse entrevistado
foi um dos anunciantes que descreveram um uso assíduo de mídias emergentes tais
como blogs, relegando mídias tradicionais a um uso esporádico.
Em ambos os casos, as organizações demonstraram maior uso de novas mídias e uma
aproximação do posicionamento de total customer solution (HAX e WILDE II,
1999). Assim, os exemplos citados sugerem que competências como orientação ao
cliente, visão periférica e inovação estejam possivelmente relacionadas à maior
utilização de mídias emergentes. Ainda que não seja pretensão neste estudo
estabelecer relações causais entre processo estratégico e composição do mix de
mídias, tais suposições poderão ser testadas em estudos futuros.
A pesquisa também sugere uma relação entre a internalização dos procedimentos
de monitoramento de veículos com maior familiaridade com novas mídias. De fato,
quando comparados com os depoimentos de outros entrevistados, os anunciantes
que possuem uma estrutura completa de agência de publicidade (a chamada house)
ou profissionais de mídia dedicados ao monitoramento de veículos apresentam
maior utilização das métricas e benefícios característicos das mídias
emergentes.
Ao confrontar a literatura sobre o tema estudado com o discurso dos
entrevistados, o presente estudo oferece insights sobre os desafios vivenciados
pelos anunciantes brasileiros num ambiente marcado pela instabilidade. Esse
cruzamento de informações contribui com o meio profissional por apresentar uma
descrição da percepção de profissionais-chave de alguns dos principais
anunciantes brasileiros sobre práticas do mercado acerca de investimentos em
mídia. Além disso, a pesquisa oferece ao meio profissional a detecção de
possíveis focos de aperfeiçoamento verificados à luz da revisão de literatura
consolidada para a pesquisa.
Do ponto de vista acadêmico, nesta pesquisa teve-se como objetivo contribuir
para a identificação de fatores relevantes para os anunciantes brasileiros na
distribuição de investimentos entre mídias emergentes e tradicionais. Admite-se
que, a despeito das limitações do método, que impede generalizações para toda a
população de anunciantes brasileiros, o presente estudo estimule o
aprofundamento dessa questão, servindo de alicerce para análises acadêmicas
futuras.
A opção por métodos qualitativos para a execução desta pesquisa traz consigo a
possibilidade de presença de viés do próprio pesquisador, bem como dos
entrevistados. Algumas perguntas presentes no roteiro de entrevista incitavam
os anunciantes a discorrer sobre pontos sensíveis de suas estratégias de
comunicação, o que, num mercado ávido por share-of-voicee com grande aversão a
risco, representa uma informação valiosíssima para a concorrência. Assim, deve-
se ter em mente a possibilidade de um entrevistado omitir ou distorcer dados
reais a fim de preservar informações sigilosas que, potencialmente, poderiam
ser utilizadas por seus competidores. Deve-se também considerar que as
entrevistas foram realizadas num ambiente ainda marcado pela grave crise
financeira que tomou proporções globais em 2008 e 2009 e potencialmente tenha
influenciado o discurso dos participantes da pesquisa. Igualmente, faz-se
necessário salientar que a pesquisa optou por selecionar seus anunciantes
entrevistados por acessibilidade, porte e volume de investimentos em
publicidade, angariando participantes de indústrias distintas. Isso posto,
neste estudo não se tem a pretensão de avaliar a percepção de uma indústria
específica sobre o uso de novas mídias, mas compreender o processo de escolha
de mídias de alguns dos representantes do grupo dos maiores anunciantes
brasileiros, independentemente de sua área de atuação.
NOTAS
(1) Custo por Mil (CPM) refere-se à taxa cobrada para exibir um anúncio mil
vezes.
(2) Click Through Rate (CTR) é a razão entre o número de exibições e o número
de clicks que um anúncio gerou.
(3) Cost per Action (CPA) é uma métrica em que o anunciante paga apenas quando
o anúncio veiculado promove uma ação específica, como preencher um formulário
ou fechar uma venda.
(4) Entende-se por share-of-voice a razão entre o total investido por uma
empresa em publicidade e o total investido pelo conjunto de empresas que
atendem ao mesmo mercado.
(5) Cost per Action (CPA) é uma métrica que monitora a realização de evento
específico, tal como uma venda.
(6) Hot-site é um website dedicado a uma promoção temporária, usualmente
mantido por tempo limitado.
(7) Cobertura é uma métrica que indica quantas pessoas foram impactadas por um
anúncio ao menos uma vez.
(8) Gross Rating Point (GRP) é o número absoluto de pontos de audiência
alcançado por um anúncio em uma campanha.
(9) Crowdsourcing refere-se à utilização de conhecimentos coletivos e
voluntários espalhados pela Internet para resolver problemas, criar conteúdo e
soluções ou desenvolver novas tecnologias.