Fatores influenciadores do sucesso da adoção da produção enxuta: uma análise da
indústria de três países de economia emergente
1. INTRODUÇÃO
O atual nível competitivo mundial tem feito empresas dos mais variados
segmentos buscarem aumentar sua competitividade utilizando estratégias que
valorizem atributos como custos e qualidade (SHIMIZU, BASSO e NAKAMURA, 2006).
Isso faz com que as empresas industriais que utilizam a abordagem de produção
enxuta gozem, em geral, de uma vantagem competitiva sobre as que utilizam
abordagens tradicionais, conforme tem sido percebido pela indústria e também
pela academia, não só nos países desenvolvidos, como também nos emergentes
(STEVENSON, 2001).
De acordo com Womack, Jones e Roos(2004), hoje, no mundo da produção
automotiva, empresas e países buscam adotar o Sistema de Produção Enxuta (SPE)
como forma de sobreviver à competição global. Ferro (2004) já argumentava que a
indústria no Brasil poderia ter um dos maiores crescimentos do mundo no início
deste novo século, caso conseguisse adotar esse padrão. Kosacoff e López (2000)
entendem que as indústrias argentinas enfrentam um cenário global de desafios e
oportunidades no qual o resultado individual será definido em função da adoção
plena dos novos padrões mundiais de produção. Ebert, Tanner e Tuturea (1998)
demonstram, por meio de uma extensa pesquisa realizada em indústrias romenas, a
necessidade da atualização dos currículos universitários sobre gerenciamento e
organização de processos de produção, visto que as indústrias daquele país
estão adotando o SPE em uma tentativa de melhorar sua competitividade no
mercado global e precisam de mão de obra qualificada, conhecedora dos conceitos
de produção enxuta.
É importante ressaltar que outras nomenclaturas, além de SPE, aparecem com
frequência na literatura, dentre as quais se destacam ainda os termos World
Class Manufacturing (WCM) e Supply Chain Management (SCM), atribuindo grande
importância ao conjunto de procedimentos das operações de produção enxuta
praticados por organizações de classe mundial (FLYNN et al., 1997; FLYNN,
SCHROEDER e FLYNN, 1999; GLASER-SEGURA, ANGHEL e TUCCI, 2006). O termo SPE,
conforme utilizado neste artigo, deve ser entendido com um escopo abrangente,
equivalente ao das demais terminologias mencionadas acima.
Muito se tem falado sobre a importância e os benefícios da implantação do SPE
como forma de melhorar o desempenho das organizações industriais em um cenário
de intensa competição em escala global. No Brasil, Shimizu, Basso e Nakamura
(2006) comprovaram a ocorrência de melhor desempenho em empresas que fizeram
investimentos contínuos na implantação dos princípios do SPE, em pesquisa com
indústrias de máquinas e implementos agrícolas que optaram estrategicamente por
sua implementação. Elias e Magalhães (2003) também identificaram evidências do
relacionamento entre o SPE e a possibilidade de realização de uma produção mais
limpa, um claro benefício acessório, mas muito bem-vindo em tempos de maior
preocupação com a preservação do meio ambiente. Na Romênia, um artigo de Vaisa
et al. (2006) discute essa característica, adotando a expressão "lean and
Green" para explicá-la.
Contudo, os benefícios do SPE são admitidos também em inúmeros outros
segmentos, além do industrial. Pasqualini e Zawislak (2004) propõem sua
utilização na construção civil, aproveitando a filosofia de produção enxuta
para reduzir índices de desperdício, custos de produção, problemas de qualidade
e atrasos na entrega dos produtos nessa área. Esses autores concluem que a
produção enxuta é capaz de reduzir as ineficiências da construção civil. Uma
pesquisa de Oliveira e Gomes (2008) nas escolas de samba do grupo especial da
cidade do Rio de Janeiro, ainda no Brasil, revelou que até mesmo nesse tipo de
organização pouco convencional utiliza-se a filosofia just-in-time como forma
de combater o desperdício. Na Romênia, discutindo o caso da Seven-Eleven, Naruo
e Toma (2007) demonstram que os princípios do SPE podem ser aplicados a
empresas do comércio varejista. Muhcina e Popovici (2008) descrevem o sucesso
da aplicação dos conceitos do supply chain management em agências de turismo
romenas. Segundo essas autoras, a montagem e o controle dos diversos pacotes de
turismo dependem dos esforços de várias outras empresas como hotéis, agências
de viagem e transportes, além dos próprios turistas. Assim, de maneira similar
ao que ocorre na fabricação e montagem de produtos manufaturados, os diversos
fornecedores de serviço compõem uma cadeia de suprimentos, que precisa ter suas
atividades bem articuladas e coordenadas.
Essa corrida pela busca e pela implantação de processos produtivos mais
flexíveis, ágeis e enxutos, em anos recentes, tem estimulado a adoção de novas
práticas de gestão corporativa (FERRO, 2004). Tais práticas demandam profundas
mudanças culturais em praticamente todas as empresas, tanto nas que decidiram
pela implantação deliberada como naquelas que ainda não optaram, pelo menos de
forma explícita, pelo SPE. Ferro (2004) considera que começa a tornar-se
necessária a criação de métricas compartilhadas de avaliação da real
efetividade das ações realizadas pelas empresas rumo à filosofia lean para
quantificar os benefícios gerados pela implantação do SPE.
A pesquisa de cunho internacional aqui relatada tem como objetivo avaliar o
nível de aderência das práticas e cultura empresarial de empresas industriais
dos países pesquisados, conforme percebidas por gerentes de produção das
empresas participantes, às exigências do SPE. Para isso, foram estudadas 15
práticas relativas a: utilização do kanban, apoio da alta direção, redução do
tamanho dos lotes de produção, prática dos 5S, redução do tempo de setup,
desenvolvimento de fornecedores, comunicação ou contato com a equipe,
informações de processo, controle estatístico de processo (CEP), formas de
incentivos aos funcionários, custeio baseado em atividades (Activity Based
Costing – ABC), relacionamentos de longo prazo com fornecedores, comunicação ou
contato com os clientes, utilização do Enterprise Resource Planning (ERP) e
desenvolvimento simplificado de novos produtos. Essas práticas já apareciam em
estudos anteriores, realizados por Flynn, Schroeder e Flynn (1999) e por
Glazer-Segura e Anghel (2003).
Os respondentes da pesquisa foram profissionais em cargos no nível de gerência
ou diretoria, nas áreas de compras, manufatura ou logística. As indústrias
objetos da pesquisa localizam-se em três países reconhecidos pela Organisation
for Economic Co-operation and Development (OECD) como países de economia "em
desenvolvimento" ou "em transição" (DE BACKER, LOPEZ-BASSOLS e MARTINEZ, 2008):
Brasil, Argentina e Romênia. Tal amostra justifica-se, principalmente, pela
viabilidade da coleta de dados considerando a facilidade de realização do
survey conduzido pelos próprios autores com empresas dos três países.
O desenvolvimento da pesquisa justificava-sea priori, e a partir de um ponto de
vista prático, pela possibilidade de divulgação dos resultados obtidos e de sua
análise, tanto para as organizações participantes como para outras que possam
beneficiar-se das recomendações oferecidas na conclusão do trabalho. O valor
prático da pesquisa independia dos eventuais resultados obtidos. Se a pesquisa
apontasse para o elevado grau de aderência das empresas pesquisadas às
características da nova cultura demandada pelo SPE, isso indicaria que elas
estão no caminho certo, a partir de uma perspectiva lean. No caso de ocorrer o
oposto, ficando evidenciado baixo grau de aderência das empresas às práticas e
cultura enxutas, o estudo poderia servir de alerta para o fato de que ainda se
precisa avançar nessa área para obter os benefícios prometidos pelo SPE.
A partir de uma perspectiva teórica, a realização da pesquisa também se
justificava facilmente, diante da constatação de que, embora o SPE esteja em
evidência tanto em trabalhos acadêmicos como na prática empresarial, como já
mencionado, poucos são os estudos práticos sobre seu nível de adoção pela
indústria em países de economia emergente (GLASER-SEGURA e ANGHEL, 2003). Os
trabalhos sobre o tema restringem-se às grandes indústrias automotivas, que
apresentam um cenário particular em que o desenvolvimento dos atuais processos
industriais foi elaborado e trazido já pronto dos países de origem dessas
corporações (SCAVARDA et al., 2001; LUCHI et al., 2003).
Vale ressaltar que não foi pretensão deste estudo avaliar a qualidade da gestão
empresarial, ou mesmo a qualidade da implantação de sistemas enxutos utilizados
pelas organizações participantes. Pretendeu-se avaliar apenas a percepção dos
respondentes sobre o nível de aderência da cultura e práticas empresariais à
filosofia do SPE.
Nas seções seguintes, após esta introdução, é apresentada a evolução do
conceito do SPE, depois se discute a metodologia utilizada na coleta e na
análise dos dados, o que é seguido de sua apresentação e discussão. Encerra-se
o artigo com as conclusões, algumas recomendações e considerações finais, que
incluem possíveis encaminhamentos para futuros estudos e limitações da pesquisa
ora empreendida.
2. SISTEMA DE PRODUÇÃO EM MASSA
A concepção do modelo da produção em massa é, geralmente, atribuída a Henry
Ford. A criação da linha de montagem móvel, em 1913, em sua nova fábrica de
Highland Park, em Detroit, é tida como um marco significativo desse sistema de
produção. Womack, Jones e Roos (2004) contam que Henry Ford descobriu uma
maneira de superar os problemas inerentes à produção artesanal: as novas
técnicas, na visão desses autores, reduziram drasticamente os custos,
aumentando ao mesmo tempo a qualidade do produto.
O apogeu da produção em massa aconteceu em 1955, quando os três maiores
fabricantes de automóveis norte-americanos (Ford, GM e Chrysler) eram
responsáveis por 95% de todas as vendas de automóveis no planeta. A partir
daquele ano, iniciou-se um contínuo crescimento das importações de automóveis
japoneses pelos Estados Unidos, quando "a antiga perfeição da produção em massa
já não podia manter tais companhias norte-americanas em suas posições de
liderança" (WOMACK, Jones e Roos, 2004, p.31).
2.1. Sistema Toyota de produção – JIT
O just-in-time (JIT) é baseado na lógica de que nada deve ser produzido até que
seja necessário (OHNO, 1997). A abordagem JIT foi inicialmente desenvolvida na
Toyota Motor Company of Japan pelos engenheiros Eiigi Toyoda e Taiichi Ohno. O
sistema desenvolvido tinha o objetivo de produzir vários modelos de automóvel,
em pequenas quantidades, porém de maneira eficiente e lucrativa. O JIT
envolveria, então, o fluxo contínuo e em lotes pequenos de peças para atender o
cliente na hora exata, na quantidade e local corretos, exigindo perfeita
conexão e sincronia entre todos os processos, fornecedores e distribuidores.
Para estabelecer a comunicação eficiente entre os processos, indicando
claramente a necessidade de produtos, foi desenvolvido um sistema denominado
kanban (SHINGO, 1996; OHNO, 1997). Esse sistema caracteriza-se por, no curto
prazo, "puxar" os lotes de peças dentro do processo produtivo, enquanto os
métodos tradicionais de programação da produção "empurram" um conjunto de
ordens de fabricação ou de compras (TUBINO, 1999). Para Shingo (1996), o kanban
também acaba promovendo o envolvimento de todos os funcionários, pois
necessitam estar atentos às sinalizações de produção o tempo todo. O próprio
Ohno (1997, p.53) desabafa:
● "Para fazer o kanban funcionar, tive de envolver todos. Se o
gerente de produção entendesse o sistema e os operários não, o
sistema não teria funcionado".
Segundo Stevenson (2001), o JIT pode ser analisado sob dois aspectos: de forma
mais geral e abrangente, consiste em uma filosofia de manufatura que pode ser
utilizada para guiar as ações dos gerentes; mas também consiste, de maneira
mais pragmática, em uma coleção de ferramentas e técnicas desenvolvidas para
suportar essa filosofia. Para Morgan e Liker (2008), é difícil entender o
segredo do sucesso da Toyota porque, na verdade, tal segredo não existe, o
sucesso decorre de muito trabalho árduo, cultura de trabalho em equipe,
processos otimizados e ferramentas simples, mas que funcionam e são poderosas.
Diversos são os casos de insucesso relatados na literatura, quando a
implantação se restringe às técnicas, deixando de lado a filosofia que as
norteia. Santos Neto e Silva (2007), por exemplo, apresentam um caso de
implantação de um projeto de melhoria em uma linha de montagem final que
resultou apenas em melhorias aparentes. Os problemas não foram solucionados,
apenas transferidos. Conforme observaram, o entorno da linha de montagem foi
despoluído, mas, como os verdadeiros problemas não foram eliminados, obteve-se
o clean, porém não o lean.
2.2. Produção enxuta
De acordo com Womack, Jones e Roos (2004), o termo lean production foi
utilizado pela primeira vez por Krafcik, referindo-se aos processos JIT. O
termo world class manufacturing, também muito utilizado para referir-se a
sistemas abrangentes de produção enxuta, foi utilizado pela primeira vez por
Hayes e Wheelwright em 1984 (FLYNN, SCHROEDER e FLYNN, 1999; GLASER-SEGURA,
ANGHEL e TUCCI, 2006). Depois disso, os dois conceitos vêm sendo adotados e
expandidos por vários autores.
Em 1990, foi lançada a primeira edição de A máquina que mudou o mundo, de
Womack, Jones e Roos (2004), proporcionando extensa explicação sobre itens
como: desenvolvimento do produto, gestão de fornecedores, suporte ao cliente,
sistema de gerenciamento global, entre outros, criados pelas melhores empresas
japonesas. O livro também trazia exaustivas evidências da superioridade
competitiva dessa filosofia (LEI(1), [s.d.]). Mais recentemente, Morgan e Liker
(2008) afirmam que a obra de Womack, Jones e Roos (2004) demonstrou, com provas
irrefutáveis, que os fabricantes japoneses eram de duas a dez vezes melhores do
que seus concorrentes europeus ou norte-americanos.
2.3. A logística e a cadeia de suprimentos
Uma parte do esforço de aumento de eficiência das organizações envolve a
coordenação de atividades com fornecedores e clientes (HARRINGTON, 2005), o que
faz com que empresas dos mais diversos setores industriais procurem, agora,
gerenciar melhor essas relações interempresariais. Abrahamsson, Aldin e Stahre
(2003) perceberam essa característica diferenciadora da logística no cenário
atual, tendo conseguido identificar que as empresas mais bem-sucedidas em
termos de crescimento e lucratividade possuem grande integração da cadeia de
suprimentos. Constatado isso, salientam a necessidade de uma gestão logística
altamente flexível, como forma de aumentar a lucratividade e o crescimento de
qualquer organização.
Segundo Bowersox, Closs e Cooper (2006), a gestão da cadeia de suprimentos
compreende a organização do trabalho conjunto de empresas que colaboram entre
si para alavancar seu posicionamento estratégico e para melhorar a eficiência
das operações conjuntas ou interdependentes. Trata-se, na visão de Pires
(2003), de uma rede de organizações autônomas ou semiautônomas efetivamente
responsáveis pela obtenção, produção e liberação de determinado produto e/ou
serviço para o cliente final.
2.4. A produção enxuta no Brasil, na Argentina e na Romênia
2.4.1. SPE no Brasil
O Brasil acabou conhecendo o pleno potencial da produção em massa no fim da
década de 1950, quando a Volkswagen, depois de realizar um grande investimento
no País (o maior fora da Alemanha), passou a produzir automóveis na região do
ABC Paulista. O investimento tornou-se um sucesso e foi logo seguido pela Ford
e pela GM. A década de 1970 marcou a consolidação dessas três empresas e da
produção em massa no País (LUCA, 2001; FERRO, 2004). Segundo Ferro (2004), as
relações de trabalho necessárias para a produção em massa no Brasil foram
gradualmente constituídas naquele período. No início, os trabalhadores da
indústria automobilística pareciam estar satisfeitos com a transição do campo
para a cidade. Contudo, a partir das gerações seguintes, passaram a opor-se aos
métodos de gerenciamento adotados pela indústria. O ritmo intenso, a monotonia
e principalmente a pressão e o pouco respeito por parte da chefia geraram
crises nas relações de trabalho, que alcançaram seu ápice no final da década de
1970, com o estouro de greves maciças (SALERNO, 2004). O processo do movimento
sindical continuou por mais uma década. A partir de 1978, movimentos grevistas
tomaram conta da região do ABC paulista com a rearticulação dos operários, que
haviam sido silenciados pelo golpe militar de abril de 1964. O novo
sindicalismo, de cunho menos ideológico e mais pragmático, propunha-se a lutar
por melhores salários e condições de trabalho (LUCA, 2001).
O crescente desgaste político do regime militar acelerou o processo de abertura
política. Somente em 1985, com a eleição indireta do Presidente Tancredo Neves
(2)
, o Brasil foi reconduzido ao regime democrático. De acordo com Antunes (2003),
foi nessa década que ocorreram os primeiros impulsos de reestruturação
produtiva das indústrias no Brasil, levando as empresas a adotar,
paulatinamente, novos padrões organizacionais e tecnológicos de trabalho.
Para Salerno (2004), o início dos anos 1980 foi marcado por uma série de
aperfeiçoamentos no processo produtivo da indústria brasileira, apesar de o
País encontrar-se em crise econômica, política e diante do fortalecimento do
movimento sindical. No entanto, com a abertura dos mercados brasileiros ao
comércio internacional, em 1990, a indústria brasileira precisou intensificar
as ações de modernização, após um período de "imobilismo contemplativo", entre
1990 e 1994. Nessa época, a dinâmica do funcionamento da indústria local pouco
se alterou, a não ser em setores muito específicos, como o automotivo e o de
eletrodomésticos, que passaram a sofrer, imediatamente, a forte concorrência
das importações (FLEURY, 1997).
A necessidade de fazer frente à concorrência estrangeira forçou a introdução de
novos conceitos que começaram a disseminar-se na década de 1990, como
automação, círculos de controle de qualidade (CCQ), kanban, just-in-time e
maior participação dos trabalhadores (ANTUNES, 2003; SALERNO, 2004). De acordo
com Silva (2008), o interesse pelo sistema de produção enxuta tem crescido
consideravelmente no Brasil, fato que tem ampliado o número de pesquisas sobre
sua introdução nas empresas e sobre a percepção dos trabalhadores acerca das
mudanças. Antunes (2003, p.16) ressalta:
● "Deu-se o início dos métodos denominados 'participativos',
mecanismos que procuram o envolvimento (em verdade adesão e sujeição)
dos trabalhadores e das trabalhadoras aos planos das empresas".
2.4.2. SPEna Argentina
O regime democrático na República Argentina foi reinstaurado em 1983, quando o
fim da perseguição ideológico-política implantada pelo antigo regime da
ditadura militar permitiu a supressão dos controles autoritários, a volta da
liberdade política, da autonomia universitária e de todos os requisitos
necessários para a pesquisa científico-tecnológica desenvolver-se normalmente
(CORNEJO, 2005-2006). Foi apenas em 1990, contudo, no governo de Carlos Menen,
que se deu início ao período de abertura da economia argentina, adotando-se uma
abordagem neoliberal muito parecida com a que avançava no Brasil. As empresas
argentinas tiveram, então, seus produtos colocados em concorrência direta com
produtos importados, não mais sendo possível o simples repasse, pela indústria
do país, dos custos de produção para o preço final do produto (MIOZZO, 2000;
ANSALDI, 2002). Em resposta a essa nova configuração, imposta pela abertura
econômica, as empresas argentinas começaram a adotar as práticas do SPE, pois,
do contrário, estariam condenadas à estagnação e ao desaparecimento (KOSACOFF e
LÓPEZ, 2000). Burkún e Vitelli (2007) alertam que, nos anos 1990, a Argentina
se inseriu de forma mais incisiva no movimento de liquidez internacional.
Contudo, preceitos e orientações importantes da nova política econômica foram
deixados de lado por parte do Estado. Segundo esses autores, a falta de
planejamento acabou debilitando as bases de criação tecnológica, ocasionando o
desaparecimento de articulações entre o sistema produtivo e os centros de
desenvolvimento científico e tecnológico. Sobre o impacto do processo de
abertura econômica na República Argentina, Minsburg (1999, p.2) advertia:
● "Vivemos em um mundo que está sendo forjado por um importante e
difícil processo de transnacionalização, submetido à voracidade do
capital financeiro. Na maioria dos países implantou-se o capitalismo
selvagem".
Por outro lado, o argumento central de defesa do pensamento neoliberal apontava
para o alto grau de ineficiência da atividade manufatureira da Argentina, fruto
de várias décadas de protecionismo e concessão de elevados subsídios por parte
do Estado (SCHORR, 2002).
Os índices de produtividade da indústria argentina, de acordo com Schorr
(2002), elevaram-se em torno de 30% ao longo da década de 1990,
concomitantemente à diminuição do índice de utilização de mão de obra direta
nas fábricas e com o prevalecimento dos mesmos patamares de média salarial
praticados desde o início daquela década.
Os movimentos sindicais demonstraram-se impotentes na articulação de
estratégias que se opusessem à nova forma de trabalho demandada por esse novo
contexto. Tomadoni e Koessl (2005) discutem o comportamento dos sindicatos na
Argentina em face da adequação industrial ao SPE, a partir do início dos anos
1990. Segundo esses autores, os sindicatos deixaram de atuar como agentes de
proteção do empregado individual ante o poder da empresa em negociações
salariais, para adotar uma forma de sindicalismo que procura ajudar o
trabalhador a acomodar-se às circunstâncias do atual modelo de produção
industrial. Ainda segundo Tomadoni e Koessl (2005), a inexistência de renovação
sindical e a falta de novas lideranças representam alguns motivos que
desestimulam, naquele país, a elaboração de uma estratégia sindical de real
interesse do trabalhador, que leve em consideração o novo formato de produção.
Em um trabalho envolvendo pequenas e médias empresas (PME) argentinas, Kosacoff
e López (2000) afirmam ser consenso que elas têm tido grandes dificuldades para
responder satisfatoriamente às novas exigências da globalização, embora sejam
extremamente importantes para suportar e complementar as empresas grandes,
tanto de capital nacional como de estrangeiro, no país.
2.4.3. SPE na Romênia
A política, a economia e as estruturas legais da Romênia foram dramaticamente
transformadas depois da revolução de dezembro de 1989. De acordo com Ebert,
Tanner e Tuturea (1998), o controle centralizado da economia foi então
substi-tuído por uma visão também neoliberal, que levou à abertura de
mercado, seguida de uma onda de privatizações. As empresas romenas tiveram seus
produtos colocados em concorrência direta com produtos importados provindos de
experientes competidores, como ocorreu no Brasil e na Argentina.
De acordo com Glaser-Segura e Anghel (2003), os fabricantes romenos ainda lutam
para incorporar os atuais requisitos de qualidade definidos pelo próprio
consumidor. Isso decorre ainda da influência de valores anteriores à revolução,
quando o regime comunista frequentemente ditava os níveis de qualidade, preços,
volumes de produção, programação logística e outras decisões relacionadas às
estratégias de produção. Um estudo de caso realizado por Marinescu e Toma
(2008) demonstrou que o SPE pode ser aplicado com sucesso em países do leste
europeu como a Romênia. Eles relatam mudanças na economia e no ambiente de
negócios que ocorreram devido à implantação do SPE: o índice de desperdício na
produção decresceu e o índice de produtividade, em consequência, aumentou
significativamente. Segundo esses autores, treinamento e trabalho em equipe
foram fatores-chave para o sucesso da implantação da lógica do SPE e do supply
chain management nas empresas industriais romenas. A respeito do trabalho em
equipe, ao contrário do histórico altamente autoritário nas relações entre a
chefia direta e a classe operária verificado no Brasil e na Argentina, Glaser-
Segura e Anghel (2003) afirmam que a propensão de trabalhar em equipe é um
legado da época do período pré-revolucionário na Romênia que pode ser
considerado favorável, pois, sob o sistema socialista, operários e gerentes
eram considerados iguais. Os gerentes de todos os níveis de produção eram
eleitos pelos próprios colegas operários. Glaser-Segura e Anghel (2003)
observam, ainda, que o tratamento entre os operários romenos é muito
igualitário e os gerentes gozam de seu respeito e lealdade.
Uma pesquisa de Băleanu (2002) demonstra que as empresas romenas passaram a,
depois da adoção de uma economia mais aberta, escolher seus fornecedores por
meio de novos critérios, dentre os quais se destacam a importância da nova
filosofia e a prática da entrega no sistema just-in-time. Isac e Isac (2002)
descrevem a importância da ferramenta poka-yoke como uma maneira para garantir
os padrões de qualidade necessários ao atual ambiente competitivo em que a
Romênia está inserida. Dima e Ivănuş (2002) alertam que o ambiente just-in-time
exigiu a reorganização da forma de controle dos orçamentos, de modo que os
centros de custos das empresas passaram a ser responsáveis por suas próprias
contas, orientados por metas cada vez mais ousadas.
A transição da manufatura dos países do leste europeu para o mercado aberto
exigiu uma nova forma de ensino universitário, voltada ao gerenciamento de
operações de produção, de acordo com as novas práticas competitivas. Nesse
campo, a pesquisa de Ebert, Tanner e Tuturea (1998) em 83 empresas romenas
levantou que os currículos universitários relativos ao gerenciamento de
operações de produção (production operations management – POM) necessitavam ser
adequados à nova realidade, mais especificamente incluindo temas relacionados
ao gerenciamento da qualidade e da produção just-in-time. Cinco anos mais
tarde, Glaser-Segura e Anghel (2003) constatavam que o just-in-time na Romênia
ainda era um conjunto incipiente de práticas, conhecidas principalmente por
acadêmicos e consultores, mas desconhecidas, em larga escala, dos gerentes e
operários nas plantas industriais.
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Como mencionado anteriormente, o objetivo neste estudo foi avaliar o nível de
aderência das práticas e da cultura empresarial de empresas industriais dos
países pesquisados às exigências do SPE, conforme percebidas por gerentes de
produção das empresas participantes.
Um questionário estruturado com 116 afirmações foi utilizado como instrumento
de coleta de dados. As afirmações deveriam ser respondidas por meio de uma
escala Likert de sete pontos, variando entre "discordo totalmente" e "concordo
totalmente". O número ímpar de alternativas foi adotado para permitir que
aqueles que não tivessem opinião formada pudessem explicitar essa situação.
Os itens do questionário foram elaborados de forma a permitir que se
identificasse a adesão das práticas e da cultura empresariais aos requisitos
para o funcionamento do SPE. Para isso, as questões foram divididas em seis
grandes grupos de assuntos, levantando a percepção dos respondentes sobre 15
práticas re-lativas à utilização do kanban, ao suporte da alta gerência às
ações de melhoria propostas pelos funcionários, à redução do tamanho dos lotes
de produção, à prática dos 5S, à redução do tempo de setup, ao desenvolvimento
de fornecedores, à comunicação ou contato com a equipe, às informações de
processo, ao controle estatístico de processo, às formas de incentivos aos
funcionários, à adoção de custo ABC, aos relacionamentos de longo prazo com
fornecedores, à comunicação com os clientes, à utilização do ERP e ao
desenvolvimento simplificado de novos produtos. O questionário replicou o
adotado por Glazer-Segura e Anghel (2003) que, por sua vez, se basearam nos
construtos identificados por Flynn, Schroeder e Flynn (1999).
É importante ressaltar que o questionário foi construído de modo a capturar a
percepção dos respondentes sobre se as empresas em que trabalham realmente
aderiram às práticas preconizadas pelo SPE e as utilizam rotineiramente. As
afirmações constantes no questionário foram elaboradas de maneira a evitar
respostas positivas caso o respondente apenas concordasse com a utilidade das
práticas lá mencionadas, sem que houvesse sua efetiva adoção por parte da
empresa.
Quando se utiliza um questionário desenvolvido em um idioma e uma cultura para
aplicação em outros idioma e cultura e se pretende realizar comparações, é
necessário tomar alguns cuidados para assegurar a equivalência e a validade de
escalas. Com essa preocupação em mente, foi utilizada, a priori, a técnica back
translation, ou tradução para trás, que implica traduzir para o novo idioma e
depois traduzir novamente para o idioma original para verificar se as questões
resultantes continuam apresentando o sentido original, conforme preconizado por
Riordan e Vandenberg (1994).
Para garantir a qualidade das respostas obtidas, foram escolhidos respondentes
que tivessem bom conhecimento dos assuntos abordados no questionário, ligados a
práticas do chão de fábrica, relacionamento com fornecedores e clientes,
políticas de incentivos aos trabalhadores, entre outros. Assim, priorizou-se a
participação de gerentes ou diretores industriais, de logística ou de compras.
As indústrias objeto desta pesquisa envolveram produtoras de bens duráveis, de
médio ou grande porte e com planta localizada no Brasil, na Argentina ou na
Romênia, conforme já mencionado. Esses países foram escolhidos por serem todos
emergentes, terem aberto suas economias para o mundo mais ou menos na mesma
época e seguirem um receituário neoliberal também semelhante, além da
conveniência dos autores, que tinham facilidade de aí realizar a coleta de
dados.
Para determinar o tamanho da amostra, foram analisados estudos anteriores que
utilizaram conceitos, metodologias e base teórica similares (FLYNN, SAKAKIBARA
e SCHROEDER, 1995; WAGNER, 1995; GLASER-SEGURA e ANGHEL, 2003). Com base nesses
estudos, calculou-se o tamanho mínimo necessário da amostra em aproximadamente
60 organizações para cada país. Ao final, puderam ser usados os dados de 72
empresas brasileiras, 68 argentinas e 87 romenas.
3.1. Procedimentos de coleta de dados
No Brasil, o questionário foi enviado no início de dezembro de 2008, via e-
mail, com um link do sítio SurveyMonkey para cerca de 700 profissionais
qualificados que trabalham na área de produção ou logística. Os profissionais
faziam parte de um cadastro que vem sendo formado por dois dos pesquisadores
nos últimos quatro anos. A aplicação do survey resultou na obtenção de 79
questionários totalmente preenchidos, representantes de 72 empresas distintas.
A existência de certo vínculo entre os participantes e os pesquisadores, uma
vez que muitos deles são conhecidos dos autores e foram previamente contatados
por telefone, pode ter colaborado para a taxa de retorno de aproximadamente
25%, mais elevada do que o usual para surveys eletrônicos. Vieira, Viana e
Echeveste (1998), Scornavacca Jr., Becker e Andraschko (2001), Cohen (2003) e
Graeml e Csillag (2006), apenas para citar alguns pesquisadores que relataram o
uso de surveys eletrônicos para coletar dados em suas pesquisas, trabalharam
com taxas de retorno bem inferiores.
Na Romênia, as empresas foram randomicamente selecionadas de uma listagem das
maiores companhias industriais em 2000, todas com planta em Bucareste. Os
questionários foram impressos em papel e aplicados pessoalmente por um dos
pesquisadores a 102 profissionais qualificados, que atuavam na área de produção
ou logística, o que representou 87 empresas distintas. A aplicação dos
questionários aconteceu entre outubro de 2006 e junho de 2007.
Na Argentina, os questionários foram impressos em papel e aplicados
pessoalmente por um assistente de pesquisa ou enviados por e-mail para os
gerentes de produção, compras ou logística de 68 empresas industriais, que têm
contato próximo com uma universidade local, na cidade de Córdoba. Depois de
preenchidos, os questionários foram coletados pessoalmente ou devolvidos também
por e-mail. O processo de coleta de dados ocorreu entre junho e outubro de
2007.
3.2. Procedimentos de tratamento e análise dos dados
Os dados obtidos foram organizados e analisados da seguinte forma: em primeiro
lugar realizou-se um tratamento preliminar e arranjo dos dados, revertendo as
questões negativas para questões positivas, de forma que todas permanecessem
alinhadas em uma única direção da escala Likert. Por exemplo, uma das questões
"nossa planta é desorganizada e suja" foi invertida para que pudesse ser
alinhada com outra questão similar como "nossa planta enfatiza colocar cada
ferramenta ou dispositivo em seu devido lugar".
No próximo passo foi utilizado um procedimento de análise fatorial para
verificar se perguntas similares receberam respostas correlacionadas. Por
exemplo, no questionário utilizado existiam quatro perguntas referentes às
práticas do kanban. Por uma questão de consistência esperada do respondente, as
respostas para essas quatro perguntas deveriam estar correlacionadas. Nos casos
em que isso não aconteceu, as perguntas que não tiveram respostas
correlacionadas com o construto que pretendiam medir foram eliminadas. Em
alguns casos dois construtos considerados teoricamente distintos foram
combinados em um único, também em função dos resultados da análise fatorial.
A seguir, foi realizada uma análise de confiabilidade interna, utilizando-se o
alfa de Cronbach, que é uma medida da intercorrelação de uma pergunta com as
demais questões que compõem o mesmo construto. O valor obtido para as perguntas
sobre utilização de kanban, por exemplo,foi 0,897, o que indica que as quatro
perguntas sobre o assunto apresentaram, como desejado, elevada correlação a
partir da perspectiva dos respondentes. O valor mínimo de confiabilidade
aceitável neste tipo de análise é α = 0,5, em função de tratar-se de uma
pesquisa exploratória (NUNNALLY, 1967; GLASER-SEGURA e ANGHEL, 2003), embora
diversos autores prefiram trabalhar com α > 0,7. A maioria das escalas no
estudo obteve α > 0,7, mas houve algumas que ficaram ligeiramente acima de 0,5.
O passo seguinte consistiu em obter as médias das notas das perguntas
relacionadas a cada construto identificado pela análise fatorial. Por exemplo,
os valores numéricos médios da escala Likert obtidos como resposta para cada
uma das quatro perguntas que abordam o tema kanban foram somados e divididos
por quatro para obter-se a média aritmética. Dessa forma, as 116 perguntas do
questionário foram reduzidas aos 15 construtos mencionados no início desta
seção.
Uma vez estabelecidos esses 15 construtos, estatisticamente validados, foram
analisadas as médias aritméticas para cada um deles. A amplitude da escala ia
de "discordo totalmente", a que se atribuiu valor "1", até "concordo
totalmente", que recebeu valor "7". Optou-se por tratar a escala obtida como
uma escala intervalar, embora, de fato, ela seja apenas ordinal, para realizar
algumas estatísticas que se baseiam em cálculo de distâncias. Esse
procedimento, apesar da flexibilização que impõe ao rigor do método, tem sido
utilizado em muitos estudos que se baseiam em questionários com escala Likert
por facilitar significativamente a análise.
4. RESULTADOS OBTIDOS
Primeiramente, será apresentado e discutido o conjunto dos valores dos
coeficientes alfa de Cronbach obtidos para as 15 escalas, para depois
apresentar e discutir o resultado da média geral das respostas obtidas para
cada construto, de forma comparativa entre as empresas dos diversos países.
Como foi explicado na seção sobre os procedimentos metodológicos adotados,
optou-se por considerar a escala ordinal de respostas (de "discordo totalmente"
até "concordo totalmente") como se fosse uma escala intervalar, para permitir o
cálculo de médias. Espera-se, dessa forma, fornecer informações organizadas ao
leitor, de maneira a permitir o melhor entendimento da percepção dos
participantes com respeito às práticas e aspectos da cultura organizacional
ajustados à adoção de um sistema de produção enxuta no setor industrial, em
países de economia emergente.
4.1. Análise dos valores alfa de Cronbach
Foi calculado o valor do fator alfa de Cronbach para cada uma das 15 escalas
obtidas dos dados arranjados e remanescentes da aplicação da análise fatorial
descrita na seção anterior. A figura_1 mostra, de forma gráfica, as informações
sobre o coeficiente alfa de Cronbach para cada um dos 15 construtos.
Como é possível observar, a figura_1 mostra valores de α > 0,70 para 11 das
escalas pesquisadas: kanban, apoio da alta direção, redução do lote de
produção, 5S, redução do tempo de setup, desenvolvimento de fornecedores,
comunicação com a equipe, informações de processo, CEP, incentivos aos
funcionários e custeio ABC. Já as quatro escalas restantes – relacionamento de
longo prazo, comunicação com o cliente, ERP e simplificação do design –
apresentaram valores de α inferiores a 0,70, mas superiores a 0,5,
considerando-se a totalidade dos países pesquisados. Algumas variáveis
obtiveram α < 0,5 para algum dos países, individualmente. Os valores de α
encontrados garantem a confiabilidade estatística (consistência interna) dos 15
construtos decorrentes da análise fatorial a que foram submetidas as 116
perguntas existentes no questionário.
Os valores relativamente elevados dos α obtidos também são uma indicação de que
as práticas avaliadas são compreendidas holisticamente pelos respondentes. Em
outras palavras, mesmo que as quatro questões sobre CEP (controle estatístico
de processo), por exemplo, tratassem do assunto a partir de perspectivas
distintas, um respondente de uma empresa que conhece a técnica deveria ser
capaz de responder às várias perguntas relacionadas de modo que suas respostas
ficassem alinhadas. Por outro lado, se um respondente não conhecesse bem o CEP,
não seria capaz de manter a consistência das respostas.
Outra constatação foi a de que o valor do fator de confia-bilidade de cada
escala determinada permaneceu próximo independentemente do país, conforme é
possível observar pela proximidade das curvas relacionadas a cada um dos três
países estudados, o que é um indicador de que o questionário manteve suas
características apesar das traduções para aplicação nos diferentes contextos, o
que parece comprovar a efetividade da técnica back translation adotada.
4.2. Análise da média das alternativas de resposta
Conforme mencionado, atribuiu-se o valor "1" para a alternativa "discordo
totalmente", "2" para "discordo", "3" para "discordo ligeiramente", "4" para
"não tenho opinião formada", "5" para "concordo ligeiramente", "6" para
"concordo" e "7" para "concordo totalmente". Na tabela a seguir, apresentam-se
os resultados encontrados para os construtos do estudo.
A figura_2 mostra, de forma gráfica, as informações sobre o nível de
concordância com as 15 questões de escala Likert apresentadas na tabela e
discutidas na presente seção do trabalho.
A primeira constatação é que o padrão de sequência das notas atribuídas para
cada um dos 15 construtos manteve-se aproximadamente constante,
independentemente do país. Essa constatação aponta para uma configuração
relativamente homogênea dos processos industriais das empresas dos três países,
uma vez que, seguramente, todas buscam atingir padrões de competitividade de
classe mundial, ou world class manufacturing, conforme termo adotado por Flynn,
Schroeder e Flynn (1999) e Glaser-Segura, Anghel e Tucci (2006).
Nesta pesquisa, a escala denominada 5S representa um ambiente de trabalho limpo
e fisicamente organizado, reconhecido pelos respondentes como correspondendo à
realidade de suas empresas (média: 6,06). Entretanto, como lembram Santos Neto
e Silva (2007), a simples adoção do 5S pode resultar apenas em melhorias
aparentes, obtendo-se o clean, sem necessariamente se obter o lean.
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A "redução do tamanho dos lotes de produção" mostrou-se positivamente percebida
pelos respondentes. Contudo, para que ela ocorra, é importante que se destinem
esforços para a "redução dos tempos de setup" (OHNO, 1997), o que não parece
estar sendo valorizado pelas empresas na mesma intensidade, como se percebe
pela média 4,76 para a questão sobre melhoria nesse quesito (entre "não tenho
opinião formada" e "concordo ligeiramente").
A prática do "apoio da alta direção para ações de melhoria propostas pelos
empregados", também percebida positivamente, aponta para a conscientização da
alta direção sobre a importância de levar em consideração a opinião dos
empregados. Isso é corroborado pela pontuação positiva das escalas
"processamento das informações e comunicação com a equipe"(média: 5,36),
indicando que os problemas da empresa são processados e informados aos
empregados. Por outro lado, a baixa pontuação da escala dos "incentivos aos
funcionários" (média: 3,89) indica que as recompensas pelas contribuições dos
funcionários, coletivamente, à melhoria dos processos não são praticadas na
extensão que os respondentes consideram razoável.
Os resultados apontam que a mais importante lacuna para a prática do SPE nos
países pesquisados consiste na comunicação e nas práticas de abastecimento,
tanto internamente como com fornecedores externos. Elas dependem de sistemas
integrados de gestão automatizados (ERPs) (média: 3,67) e/ou sistemas de
comunicação, informatizados ou não, de quando e o que produzir em função da
demanda (kanbans) (média: 2,96). Os resultados apontam falhas nessa
comunicação, que seria primordial para o sucesso da implantação do SPE.
Analisando-se os países de forma isolada, percebe-se que nenhum deles apresenta
ambiente completamente favorável à adoção do SPE. Os resultados apontam que a
Romênia está mais bem preparada para o uso de SPE em diversos aspectos, como a
maior propensão ao trabalho em equipe e a existência de características
culturais mais alinhadas à filosofia lean. Isso fica evidente a partir das
médias mais elevadas obtidas para construtos ligados ao apoio dado pela alta
administração às ideias e iniciativas dos trabalhadores, ao estabelecimento de
relacionamentos de longo prazo, à comunicação interna e com os clientes e aos
incentivos ao desempenho do trabalho em equipe.
Os respondentes de empresas brasileiras demonstram maior conhecimento e
utilização de técnicas e práticas úteis para a implantação do SPE, com ênfase
para o kanban e os sistemas integrados de gestão (ERPs),embora as médias
obtidas para os construtos mais alinhados à filosofia do SPE tenham ficado
consistentemente abaixo das obtidas na Romênia. Tal constatação reforça a
relevância da preocupação de muitos autores, dentre os quais Stevenson (2001) e
Morgan e Liker (2008), com relação à dificuldade enfrentada por empresas
ocidentais para compreender que não basta adotar ferramentas e práticas para
obter-se sucesso com um sistema de produção enxuta. É preciso que a filosofia
leanseja assimilada por todos na organização e que se acredite nela. Embora as
empresas brasileiras pareçam adotar práticas que colaborariam para o sucesso do
SPE mais consistentemente do que as romenas, o segredo da Toyota, que envolve o
desenvolvimento de uma cultura lean muito mais do que práticas lean, parece
mesmo difícil de ser completamente compreendido pelas empresas ocidentais.
Já as empresas da Argentina apresentam resultados menos favoráveis à
implantação bem-sucedida do SPE para quase todos os aspectos analisados. Isso
pode ser resultado da fase complicada que atravessa a economia daquele país,
que vem perdendo competitividade no cenário internacional e há anos não
apresenta os mesmos atrativos dos demais ao investimento industrial.
5. CONCLUSÕES
Neste artigo, procurou-se mostrar que, embora o SPE tenha crescido de
importância, nas mais diferentes áreas e empresas, e ao redor do globo, a
adoção dos padrões que contribuem para o sucesso de sistemas de produção enxuta
no setor industrial dos países de economia emergente estudados (Brasil,
Argentina e Romênia) ainda ocorre de forma tímida.
Concluiu-se que as condições oferecidas pelas empresas industriais dos países
pesquisados não são completamente favoráveis à implantação do SPE. Ficou
evidente que as empresas de Brasil, Argentina e Romênia apresentam, em geral,
avanços e atrasos nos mesmos construtos estudados, considerados pela literatura
como importantes para o sucesso de iniciativas de SPE. A principal lacuna
consiste na comunicação e nas formas de abastecimento, tanto internamente como
com fornecedores externos, representados pelos programas ERP em conjunto com
kanbans.
Notou-se alguma distinção entre os resultados obtidos para cada país,
possivelmente explicáveis a partir de uma análise dos contextos histórico e
cultural, embora essa não tenha sido a intenção no presente estudo. Na Romênia,
o trabalho em equipe parece ser mais valorizado, assim como as ideias
provenientes dos funcionários de chão de fábrica. Especula-se que isso decorra,
ao menos em parte, do fato de que gerentes e operários eram considerados (e
consideravam-se) iguais dentro das organizações, no tempo do regime comunista e
da economia planejada centralmente, inclusive com os gerentes sendo escolhidos
pelos colegas de trabalho, conforme salientado por alguns autores consultados.
Já o Brasil destacou-se por uma preocupação maior com a adoção de práticas
produtivas modernas, que podem ser úteis à adoção do SPE, embora alguns dos
princípios basilares da filosofia leanpareçam negligenciados. Isso corrobora a
percepção de muitos autores que discutem a adoção da produção enxuta por
empresas ocidentais, mas reclamam do mecânico das técnicas, sem a necessária
compreensão dos reais motivos para a sua adoção.
Apesar dos resultados interessantes obtidos, no que tange às condições
observadas nas empresas industriais pesquisadas, que propiciam ou facilitam a
adoção do SPE nos contextos organizacionais dos países analisados, este estudo
apresenta algumas limitações que reduzem o alcance de suas conclusões. Dentre
elas, destaca-se a proximidade dos respondentes aos pesquisadores, conforme
descrito na seção que tratou dos procedimentos metodológicos adotados. Talvez
alguns participantes tenham se sentido inclinados a responder não com base em
sua real percepção, mas naquilo que imaginavam que os pesquisadores gostariam
de ver nas respostas. Embora o cargo e a posição hierárquica dos respondentes
lhes garantissem alguma visão sistêmica sobre o processo produtivo, houve
diferenças na função por eles exercida dentro das empresas, o que pode ter
influenciado sua percepção sobre os aspectos analisados. Por fim, não se fez
distinção entre empresas em função do porte, o que também pode ter acarretado
distorções, uma vez que estudos anteriores demonstram que empresas maiores são,
em geral, mais suscetíveis à adoção de técnicas mais modernas e sofisticadas.
Tais fatores podem restringir a capacidade de realização de inferências.
No estágio seguinte deste trabalho, os autores pretendem estender a pesquisa
para profissionais que atuem na área de produção ou logística de empresas de
outros países de economias emergentes, em particular membros ou candidatos a
membros da OECD, como México, Índia, África do Sul e China, para verificar como
eles percebem o nível de adoção de práticas que podem suportar o uso de SPE.
Nesse sentido, considera-se que a discussão realizada neste trabalho sobre a
adoção de práticas alinhadas ao SPE em países emergentes tenha sido importante
não só pelos resultados que proporcionou, mas também por estimular o debate
sobre até que ponto o SPE é realmente compreendido fora do ambiente em que foi
originalmente desenvolvido. O estudo ora realizado sugere que, embora as
empresas dos países emergentes pesquisadas apresentem um nível relativamente
elevado de adoção de práticas que podem ser úteis à introdução do SPE, ainda há
muito que se fazer no sentido de tornar os motivos de sua adoção mais bem
compreendidos, o que é absolutamente necessário para que as práticas façam
sentido para aqueles que as adotam, garantindo a consistência dos esforços para
a obtenção da produção enxuta e, por consequência, o sucesso das organizações
que procuram fazer dela um fator de diferencial competitivo.