TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

BrBRCVHe0034-71672014000300354

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0034-7167
ano2014
Issue0003
Article number00354

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Associação entre assistência pré-natal e mortes neonatais, 2000-2009, Londrina- PR INTRODUÇÃO A formulação e a execução de políticas públicas para a saúde materno-infantil no Brasil instituiu-se a partir da década de 1970, com objetivo de reduzir a morbidade e mortalidade. Foram desenvolvidas iniciativas de suplementação alimentar, de cobertura vacinal, de assistência à gestante, parto e planejamento familiar e de atenção à saúde da criança e do adolescente. Vários programas continuaram, foram reformulados e ampliados e alguns vigoram até a atualidade.

Entre os principais programas, o Sistema de Informação do Programa de Humanização no Pré-Natal e no Nascimento (SIS-Pré-Natal), tem como intuito: melhorar o acesso, cobertura e qualidade do acompanhamento pré-natal, da assistência ao parto e puerpério e da assistência neonatal, subsidiando as unidades federativas (União, Estados e Municípios), com informações fundamentais para o planejamento, acompanhamento e avaliação das ações desenvolvidas. Estudos mostram que a partir da década de 1980, a relação entre as políticas e programas materno-infantis instituídas para reduzir os índices de mortalidade, apesar de seus limites, refletiram na melhoria dos indicadores de mortalidade neonatal. Entretanto, pouco se avançou para a efetivação de políticas públicas que favorecessem melhor atenção à saúde materna(1-2).

Muitos dos agravos relacionados à morte neonatal poderiam ser preveníveis, nos países em desenvolvimento, utilizando-se tecnologias simples e de baixo custo, beneficiando tanto a mulher como a criança. Algumas pesquisas mostraram que, entre as mortes neonatais, pouco mais da metade ocorreu no período neonatal precoce, decorrente de infecções urinárias e sexualmente transmissíveis, diabetes e hipertensão arterial materna não diagnosticada e tratada no momento ideal, provocando o nascimento de bebês de muito baixo peso e prematuros(1-4).

Outros estudos evidenciaram também que a mortalidade neonatal está fortemente ligada às disparidades socioeconômicas, condições de vida materna e de acesso aos serviços de saúde além das condições biológicas como: peso ao nascer, Apgar e idade gestacional, no Brasil e respectivas regiões(2,5-9). Ressalta-se que durante o pré-natal os cuidados são mais custo-efetivos, enquanto que, os investimentos na tentativa de sobrevida de crianças nascidas por agravos maternos são onerosos por, muitas vezes, necessitarem de serviços especializados e de alta complexidade(3-4). Para tanto, se torna necessário investimentos na área da saúde com ênfase nos programas antenatais e perinatais reestruturando as políticas de saúde municipais e regionais no intuito de qualificar o atendimento e respectivas intervenções que são potencializadoras para a redução do número elevado do óbito neonatal tais como: planejamento familiar, assistência pré-natal, acompanhamento do trabalho de parto e parto humanizado, assistência ao recém-nascido na sala de parto e na unidade neonatal, acompanhamento puerperal e rede de apoio dos serviços de referência e contrarreferência materno-infantil. Também, sem dúvida, investimentos na educação permanente dos profissionais que atuam nestes serviços(1,3,6,10-11).

Pois, cabe ao sistema de saúde manter uma rede integrada de assistência para assumir o caráter da responsabilização e disponibilizar atendimento em todos os níveis de atenção do primário ao terciário, articulando-se aos demais setores, o socioeconômico e a infraestrutura, os quais têm interface estreita com a saúde da população e refletem diretamente nas condições de vida da mulher e criança(1-3,6-7).

Desta forma, considerando que a condição de vida materna e comorbidades durante o período gestacional afetam diretamente o recém-nascido, a presente pesquisa teve como objetivo analisar a assistência pré-natal de mães de recém-nascidos que evoluíram para óbito no período neonatal.

MÉTODO Foi realizada uma pesquisa quantitativa do tipo coorte retrospectiva, no período de 2000 a 2009, utilizando-se dados da Declaração de Nascido Vivo (DN), da Declaração de Óbito (DO) e das Fichas de Investigação do Óbito Infantil do Comitê Municipal de Prevenção da Mortalidade Materna e Infantil (CMPMMI). O município de Londrina se localiza na região norte do Paraná, possui uma população de aproximadamente 511.000 habitantes e é constituída por um sistema de saúde que oferece atendimento em 54 Unidades Básicas de Saúde na área rural e urbana, serviço móvel de urgência e emergência, laboratórios e pronto atendimento ambulatorial.

Nos 10 anos (2000 a 2009), verificaram-se 793 óbitos de crianças menores de um ano de idade, sendo 783 investigados pelo CMPMMI e, destes, 537 (68,6%) ocorreram no período neonatal (0 a 27 dias), incluídas neste estudo. Excluíram- se os óbitos do componente pós-neonatal (≥28 dias) por não configurarem causas básicas de morte relacionadas a afecções maternas e perinatais.

As variáveis de estudo foram: acompanhamento pré-natal (número de consultas, início, classificação de risco ou não, exames de imagem e laboratorial, vacinação, local em que foi realizado, afecções gestacionais); características sociodemográficas maternas (faixa etária, escolaridade, renda familiar, ocupação e situação conjugal); características do parto e do recém-nascido (tipo de parto, idade gestacional, Apgar no 1º e 5º minuto, peso ao nascer e período do óbito); e causa básica do óbito, conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Entre as causas básicas de óbito, foram investigadas: Algumas afecções originadas no período perinatal (Capítulo XVI, P00-P96): feto e recém-nascidos afetados por outras afecções maternas (P08- P018); feto e recém-nascido afetados por fatores maternos e por complicações da gravidez, do trabalho de parto e do parto (P00-P04); infecções específicas do período perinatal (P35-P39) e transtornos respiratórios e cardiovasculares específicos do período perinatal (P20-P29).

A coleta de dados ocorreu entre os meses de março a julho de 2010. Os dados foram digitalizados em banco de dados no programa computacional Epi Info 2002 (r) e analisados no Statistical Package for the Social Sciences(r), utilizando- se os testes Qui-quadrado e Exato de Fischer, para a análise univariada e bivariada, com o valor descritivo final de p <0,05.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo mediante a autorização da Diretoria de Atenção à Saúde da Autarquia Municipal, processo nº CAAE 0044.0.196.000-09/ 843/2009.

RESULTADOS O acompanhamento no programa pré-natal foi realizado por 91,4% das mulheres.

Quanto ao número de consultas, a variação foi elevada, entre uma e vinte consultas, sendo 296 (55,1%) entre uma e seis vezes e 195 (36,3%) sete ou mais vezes. Em sua maioria (71,7%), as mulheres iniciaram o acompanhamento no primeiro trimestre de gestação. Durante o pré-natal, 33,5% gestações foram diagnosticadas de risco e menos de 20,0% foram encaminhadas para o Ambulatório do Hospital das Clínicas (AHC), serviço especializado e de referência regional.

Quanto aos exames de rotina, 14,3% das mulheres não realizaram o exame de ultrassonografia e 13,8% exames laboratoriais. A informação sobre a cobertura da vacina antitetânica foi registrada no caso de 47,7% mulheres, ressaltando-se que, para mais da metade (52,3%), este dado não foi informado (Tabela_1).

Verifica-se na Tabela_1 que o acompanhamento no programa pré-natal, ocorreu, em maior frequência, no serviço público do município (62,3%), sendo 41,3% exclusivamente na Unidade Básica de Saúde (UBS). Parte das mulheres que recorreram ao serviço privado (4,9%) também buscaram atendimento no serviço público (UBS e Ambulatório).

Tabela 1 Características do acompanhamento no programa de pré-natal, 2000-2009, Londrina-PR  Acompanhamento no Programa de Pré-Natal n % Nº de Consultas pré-natal       1 a 6 296 55,1   ≥ 7 195 36,3   Não fez 45 8,4 Início do Pré-Natal (em trimestre)       Primeiro 385 71,7   Segundo 101 18,8   Terceiro 2 0,4 Diagnóstico no Pré-Natal       Risco 180 33,5   Sem Risco 357 66,5 Exames realizados no Pré-Natal      Ultrassonografia (USG)       Sim 460 85,7   Não 77 14,3  Laboratoriais (sangue e urina)       Sim 463 86,2   Não 74 13,8  Atualização Vacinal Antitetânica       Sim 256 47,7   Não 281 52,3 Local do Pré-Natal*       Unidade Básica de Saúde (UBS) 203 41,3   Consultório convênio/particular 140 28,5   UBS e Ambulatório público de alto risco 84 17,1   UBS e convênio/particular 22 4,5   Ambulatório público de alto risco 19 3,9   Ambulatório público de alto risco e convênio/particul 2 0,4 Nota: Todos os percentuais excluem as informações ignoradas: *Calculado total = 491.

Quanto ao acompanhamento no pré-natal, observa-se que, na quase totalidade dos anos, a maior porcentagem das mulheres realizou menos de sete consultas, exceto em 2008 (Figura_1). Ressalta-se que entre as mulheres que realizaram de uma a seis consultas pré-natal (55,1%), 19,1% fizeram de uma a três e 41,1% entre quatro e seis.

Figura 1 Distribuição das mulheres segundo número de consultas pré-natal, 2000- 2009, Londrina-PR  Na Tabela_2 observa-se que, entre as mulheres que realizaram até seis consultas no pré-natal, 27,0% eram adolescentes (12 a 19 anos), 36,5% tinham menos de sete anos de estudo, 18,6% renda inferior a um salário mínimo, 37,5% tinham ocupação remunerada e 17,2% não tinham companheiro. Ao contrário, verifica-se que, entre as mulheres que realizaram mais de sete consultas pré-natal, 12,3% eram adolescentes, 21,0% tinham escolaridade abaixo de sete anos, 8,2% renda inferior a um salário mínimo, cerca de 57,0% eram remuneradas e 8,7% não tinham companheiro.

Tabela 2 Número de consultas pré-natal segundo características sociodemográficas maternas, 2000-2009, Londrina-PR  Nº de consultas pré-natal* Características sociodemográficas materna≤6 ≥ 7 Valor p = n % n % 296 100,0 195 100,0 Faixa Etária (em anos)            12 a 19 80 27,0 24 12,3    20 a 27 110 37,2 76 39,0 ≤ 0,001  28 a 35 77 26,0 59 30,2  ≥ 36 29 9,8 36 18,5   Escolaridade (em anos)           ≤ 3 32 10,8 8 4,1    4 a 7 76 25,7 33 16,9 ≤ 0,001  8 a 11 154 52,0 92 47,2  ≥ 12 33 11,1 60 30,8   Renda Familiar (em salários mínimos)           ≤1 55 18,6 16 8,2    2 a 4 119 40,2 69 35,4 ≤ 0,001  ≥ 5 30 10,1 55 28,2   Ocupação           Remunerada 111 37,5 111 56,9 ≤ 0,001  Não remunerada 179 60,5 80 41,0 Situação Conjugal           Com companheiro 240 81,1 176 90,3 ≤ 0,004  Sem companheiro 51 17,2 17 8,7 *Total = 491; Nota: Todos os percentuais excluem as informações ignoradas.

Na Tabela_3 verifica-se que entre as mulheres que realizaram menos de seis consultas pré-natal, 79,4% na UBS, enquanto que, entre as que realizaram mais de sete consultas, 54,3% no consultório convênio/particular. Quanto ao diagnóstico de risco gestacional aproximadamente 50,0% foram acompanhadas em sete e/ou mais consultas pré-natais. A quase totalidade das mulheres que realizaram ≤6 consultas apresentaram algum tipo de afecção gestacional e, em contrapartida, 88,2% fizeram ≥ 7 consultas. Quanto ao tipo de afecção gestacional observa-se também que, entre as mulheres que realizaram menos de seis consultas, 15,9% apresentaram hipertensão arterial (HAS), 79,4% evoluíram para o trabalho de parto prematuro (TPP) e 36,1% desenvolveram doenças renais e de vias urinárias (ITU).

Tabela 3 Número de consultas pré-natal segundo características do acompanhamento no programa de pré-natal, 2000-2009, Londrina-PR  Nº de consultas pré- Características do Acompanhamento no Programa de Pré- natal* Valor natal ≤ 6 ≥ 7 p= n % n % 296 100,0 195 100,0 Local do Pré-Natal**            Unidade Básica de Saúde (UBS)             Sim 235 79,4 96 49,2 ≤   Não 61 20,6 99 50,8 0,001

 Ambulatório do Hospital de Clínicas (AHC)             Sim 59 19,9 44 22,6 ≥0,005   Não 237 80,1 151 77,4  Convênio/particular             Sim 57 19,3 106 54,3 ≤   Não 239 80,7 89 45,6 0,001

Diagnóstico no Pré-natal             Risco 83 28,0 97 49,7 ≤   Sem risco 213 72,0 98 50,2 0,001

Afecções Gestacionais             Sim 278 93,9 172 88,2 ≤   Não 18 6,1 23 11,8 0,020

Tipo de Afecções Gestacionais            Hipertensão arterial sistólica (HAS)             Sim 47 15,9 47 24,1 ≤   Não 249 84,1 148 75,9 0,006

 Trabalho de Parto Prematuro (TPP)             Sim 235 79,4 131 67,2 ≤   Não 61 20,6 64 32,8 0,030

 Doenças renais e vias urinárias (ITU)             Sim 107 36,1 68 34,9 ≥0,050   Não 189 63,9 127 65,1   *Total = 491; **Múltipla opção; Nota: Todos os percentuais excluem as informações ignoradas.

Com relação às características do parto, verifica-se na Tabela_4, que as mulheres que realizaram menos de sete consultas no pré-natal evoluíram para o parto vaginal (59,8%), enquanto que, as com mais de sete para o parto cirúrgico (71,3%). Também que 65,9% das mulheres que realizaram até seis consultas evoluíram para o parto prematuro extremo (≤31 semanas de gestação), 51,7% dos bebês nasceram com menos de 1.000 gramas e, aproximadamente 60,0%, em asfixia grave no 1º minuto de vida. Ao contrário, entre as mulheres que realizaram mais de sete consultas foi menos frequente o parto prematuro extremo, o baixo peso e asfixia grave. Mais de 70,0% dos recém-nascidos evoluíram para o óbito antes de completar sete dias de vida, tanto entre as mulheres que realizaram mais e menos de sete consultas.

Tabela 4 Número de consultas pré-natal segundo características do parto, do recém-nascido e do período do óbito, 2000-2009, Londrina-PR  Nº de consultas pré-natal* Características do Parto e do Recém- ≤ 6 ≥ 7 Valor p = Nascido n % n % 296 100,0 195 100,0 Tipo de Parto            Cirúrgico 119 40,2 139 71,3 ≤ 0,001  Vaginal 177 59,8 56 28,7 Idade Gestacional (em semanas)            22 a 31 195 65,9 83 42,6    32 a 36 44 14,9 49 25,1 ≤ 0,001  ≥ 37 50 16,9 59 30,2   Apgar 1º minuto            Asfixia grave (0 a 3) 177 59,8 73 37,4    Asfixia moderada (4 a 6) 59 20,0 49 25,1 ≤ 0,001  Sem asfixia (≥ 7) 54 18,2 73 37,4   Apgar 5º minuto            Asfixia grave (0 a 3) 77 26,0 30 15,4    Asfixia moderada (4 a 6) 68 23,0 39 20,0 ≤ 0,003  Sem asfixia (≥ 7) 145 49,0 126 64,6   Peso ao Nascer (em gramas)            <1.000 153 51,7 63 32,2    1.000 a 2.499 97 32,8 65 33,3 ≤ 0,001  ≥ 2.500 46 15,5 67 34,4   Período do Óbito            Neonatal precoce (0-6 dias) 215 72,6 141 72,3 ≥ 0,508  Neonatal tardio (7-27 dias) 81 27,4 54 27,7   *Total = 491; Nota: Todos os percentuais excluem as informações ignoradas.

Do total dos óbitos neonatal, 77,6% (417) ocorreram por algumas afecções originadas no período perinatal (Cap. XVI, P00-P090), sendo 33,6% por feto e recém-nascidos afetados por outras afecções maternas (P08-P018) e 23,5% por feto e recém-nascido afetados por fatores maternos e por complicações da gravidez, do trabalho de parto e do parto (P00-P04), seguidas por 21,1% infecções específicas no período perinatal (P35-P39) e 17,3% por transtornos respiratórios e cardiovasculares no período perinatal (P20-P29).

DISCUSSÃO Quanto ao acesso à atenção pré-natal, nos serviços de saúde, estudos apontam que a partir da implantação do programa SIS Pré-Natal houve melhora significativa, mas ainda não atende a totalidade das mulheres das áreas de abrangência das unidades de atendimento(12-14). Autores afirmam que lacunas e desigualdades na atenção pré-natal, parto e pós-parto persistem devido à inadequada interlocução entre os serviços de atenção básica, ambulatorial e hospitalar, sendo necessário maior investimento na atenção básica, considerando-se imprescindível interferir, sobretudo, na forma como ocorre o relacionamento e o vínculo entre as UBS com os hospitais e serviços, para a prevenção e promoção da saúde materna e perinatal(7,14).

A baixa efetividade do programa pré-natal foi evidenciada em pesquisa realizada a partir de uma amostra de 2.422 gestantes em atendimento nos serviços de pré- natal de baixo risco da rede do Sistema Único de Saúde do Estado do Rio de Janeiro(14), bem como no registro no SISPRENATAL e cartão da gestante de 1.489 puérperas internadas para parto no Sistema Único de Saúde, no município de São Carlos, São Paulo(13). Outros estudos também verificaram que a cobertura pré- natal foi inferior ao preconizado pelo Ministério da Saúde, até sete consultas (4-5,12). Tais achados indicam a necessária implementação de estratégias para ampliar a captação precoce das gestantes e qualificar os registros dos profissionais de saúde no programa.

Embora quase a totalidade das mulheres tenha frequentado o serviço de saúde, os dados deste estudo mostrou que o número de consultas no pré-natal foi insuficiente, se comparada com a média estipulada pelo Ministério da Saúde. Por outro lado, ao longo dos anos de estudo aumentou gradativamente a porcentagem de mulheres que realizaram de sete e mais consultas. O aumento da cobertura de pré-natal também foi identificado nos indicadores de processo SISPRENATAL (4,12,14). Por outro lado, mesmo que as mulheres realizem número adequado de consultas, também podem apresentar problemas e ter desfecho desfavorável da gestação, visto que ações de rotina no programa apresentam fragilidades na identificação e no tratamento de doenças passíveis de detecção precoce e prevenção(9-11,14-15) No presente estudo, também se observou que as gestantes que buscaram atendimento particular/convênio fizeram de sete e mais consultas pré-natal, ao contrário daquelas que frequentavam a rede básica de saúde, que fizeram até seis consultas. A maioria iniciou o atendimento no primeiro trimestre de gestação. Fato interessante observado nos resultados foi que a menor frequência nas consultas de pré-natal esteve associada com a menor idade materna, escolaridade e renda, bem como, com as variáveis não ter companheiro e ocupação não remunerada. Outros estudos encontraram a relação entre mortalidade neonatal com características maternas, baixo número de consultas no pré-natal, faixa etária entre 12 e 24 anos e piores condições socioeconômicas, como as do presente estudo, também que, a maioria das mortes, ocorreu no período neonatal precoce(5,8,11,16-17). Além destes condicionantes para a mortalidade neonatal, outros países, identificaram o maior índice entre populações com diferenças socioculturais e étnico-raciais(15-16). Ressalta-se que não basta ter acesso aos serviços de saúde e aos exames, é preciso que os profissionais responsáveis pelo atendimento tenham e utilizem o conhecimento clínico, pois é ele que fornece os subsídios necessários para a intervenção nas situações adversas, contribuindo para a redução da mortalidade(9).

Ao contrário deste estudo, os resultados da pesquisa de coorte realizada em Pelotas-RS, de 1982 a 2004, evidenciaram que o número médio de consultas pré- natal aumentou de 6,7 para 8,1 e a proporção de gestantes que iniciaram o pré- natal no terceiro trimestre da gravidez diminuiu de 14,8% para 7,0%. Concluíram que esse aumento de cobertura foi maior entre mães e crianças de baixa renda (18).

A realização dos exames de imagem (ultrassonografia), laboratoriais e vacinação antitetânica, nos registros do presente estudo, não ocorreram na totalidade das fichas das mulheres que fizeram o acompanhamento pré-natal. Tais evidências foram identificadas em outras pesquisas, como também, o melhor acesso ao exame de imagem entre as mulheres com maior renda(12-14,16,18-19). Ressalta-se que a realização deste exame em número e qualidade possibilita melhor datação da gestação, evitando o pós-datismo e as induções desnecessárias, diagnostica gestações múltiplas com estabelecimento da corionicidade e malformações fetais fornecendo subsídios para intervenções precisas diminuindo os índices de mortalidade perinatal(10-11,14-17).

Outro dado relevante, encontrado na presente pesquisa, foi que a totalidade das mulheres que realizaram o pré-natal, desenvolveu algum tipo de afecção durante a gestação, predominantemente o trabalho de parto prematuro, seguido pelas infecções do trato urinário. Tais afecções são consideradas fatores determinantes para a prematuridade, o baixo peso ao nascer, a sepse neonatal e, consequentemente, para o óbito neonatal que pode ser reduzido por meio de um adequado controle durante o pré-natal(5,8-9,15,17). Ressalta-se que a antecedência do parto, pode também, estar relacionado com o baixo número de consultas no pré-natal encontrado nos resultados deste estudo. Vale referir que a qualidade da assistência pré-natal reduz os agravos maternos mediante a detecção precoce e, consequentemente, os índices de nascimentos prematuros por causas maternas evitáveis e mortes desnecessárias(5,8-11,15-17). Portanto, há necessidade da efetivação de programas antenatais para a redução de partos prematuros e risco de morte neonatal(1,3,10-11).

Os nascimentos prematuros, o extremo baixo peso e a asfixia neonatal foram observados nos resultados desta pesquisa e apresentaram relação estatística com o número de consultas no pré-natal. A maioria dos recém-nascidos evoluiu para o óbito no período neonatal precoce. Tais evidências se confirmam em outras pesquisas(8,17). Ao contrário, a tendência da mortalidade perinatal, em Belo Horizonte, reduziu se comparada à neonatal tardia, em especial entre as mulheres com gravidez do tipo única, ao parto vaginal, a idade materna entre 20 e 34 anos, e idade gestacional de 28 semanas e mais(20).

O parto pré-termo é um dos grandes problemas de saúde pública, que pouco evoluiu com o avanço da medicina, contribuindo com elevados números de óbitos neonatais comumente relacionados à baixa efetividade do pré-natal, problemas ginecológicos e sociais que afetam tanto a mulher como o concepto e, na maioria das vezes, dependem de um melhor funcionamento dos recursos disponíveis na rede de assistência à saúde da mulher(1-6,11,15-16).

CONCLUSÃO Pode-se averiguar nos resultados da presente pesquisa que o número de consultas no pré-natal apresentou associação estatística com as condições socioeconômicas maternas, características do parto e de nascimento das crianças que foram a óbito no período neonatal, em sua maioria, com menos de sete dias de vida.

Infere-se que tais resultados mostram a pouca efetividade da assistência pré- natal no município, aumentando o número de mortes neonatais, por causas que poderiam ser evitadas durante a concepção. Ressalta-se que outras pesquisas de cunho avaliativo são necessárias para identificar as possíveis lacunas nos serviços ginecológicos e obstétricos prestados às mulheres residentes no município que dificultam a execução de uma assistência equitativa e integral para que se reduzam as mortes neonatais consideradas evitáveis por medidas de prevenção e promoção à saúde materna. Tais medidas fundamentalmente executadas na rede de atenção primária pela equipe de saúde, em especial, pela equipe de enfermagem, maior contingente de profissionais para realizar o acompanhamento sistemático das gestantes, nas respectivas áreas de abrangência das Unidades Básica de Saúde.


transferir texto