Enfermagem e a relação com as mães de neonatos em Unidade de Terapia Intensiva
Neonatal
INTRODUÇÃO
A internação de um filho em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) é
uma experiência delicada e desafiadora para as mães e suas famílias. As
relações estabelecidas com a equipe de saúde, especificamente a enfermagem que
permanece todo o tempo junto do neonato, influencia na vivência da mulher junto
ao seu bebê fato que destaca a importância de se refletir sobre as relações
interpessoais em uma UTIN.
A internação é um evento para o qual a mãe não estava preparada e que envolve
desde o momento do encontro com o bebê em um ambiente desconhecido, bem como o
presenciar condutas terapêuticas e procedimentos dolorosos até poderem
participar dos cuidados e sentirem-se essencialmente mães(1).
A experiência da prematuridade para as famílias coloca seus integrantes diante
de limitações, impedimentos e situações que muitas vezes fragilizam a rotina da
família, que modifica valores diante da vida. Aquilo que estava organizado é
modificado abruptamente com o nascimento prematuro do filho e sua
hospitalização em uma UTIN(2-3).
Frente a essa fase delicada enfrentada pelas mães e sua família, a equipe de
enfermagem se torna imprescindível no momento de facilitar a aproximação da mãe
com seu filho(1). O foco dos cuidados de enfermagem neonatal é o bebê prematuro
e sua evolução, porém a partir do momento que se introduzem ações que envolvem
e "dependem da mãe para promover o bem estar e a saúde do bebê, tais como a
amamentação, as visitas, o contato pele a pele" se torna imprescindível
conhecer os sentimentos, necessidades e crenças da mãe para que a enfermagem
possa planejar orientações e intervenções adequadas para cada mulher que está
envolvida nos cuidados com seu filho(4).
Percebendo a importância da interação entre a Enfermagem e a mulher puérpera
durante a internação de seu filho em unidade de terapia intensiva, delineou-se
o objetivo deste manuscrito: Delinear a relação entre a equipe de enfermagem e
as mães com bebês internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal
apresentada em artigos publicados entre 2005 e 2010.
MÉTODO
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, para a identificação de artigos
sobre o tema: relação estabelecida entre a equipe de enfermagem e as mães com
bebês internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, entre 2005 e 2010.
Adotou-se a revisão integrativa da literatura(5), que propõe o estabelecimento
de critérios bem definidos sobre a coleta de dados, análise e apresentação dos
resultados, desde o início do estudo, a partir de um protocolo de pesquisa
previamente elaborado e validado. Para tanto, foram adotadas as seis etapas
indicadas para constituição da revisão integrativa da literatura: 1) seleção da
pergunta de pesquisa; 2) definição dos critérios de inclusão de estudos e
seleção da amostra; 3) representação dos estudos selecionados em formato de
tabelas, considerando todas as características em comum; 4) análise crítica dos
achados, identificando diferenças e conflitos; 5) interpretação dos resultados;
e 6) reportar de forma clara a evidência encontrada(5).
Para guiar a revisão utilizou-se a questão de pesquisa: Qual a relação
estabelecida entre a equipe de enfermagem e as mães com bebês internados na
Unidade de Terapia Intensiva Neonatal?
Para a seleção dos artigos foram utilizadas as bases de dados Cumulative Index
to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Medical Literature and
Retrivial System on Line (MEDLINE) e Literatura Latino-Americana em Ciências de
Saúde (LILACS), com a identificação e seleção dos estudos no mês de setembro de
2010, sendo acessada através do link disponibilizado pela Biblioteca
Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina (BU/UFSC)(6). Os
Descritores cadastrados no Medical Subject Headings (MESH) utilizados foram:
Neonatal Nursing, Premature, Mothers and Nursing Care.
Foram critérios de exclusão: editoriais; cartas; artigos de opinião;
comentários; resumos de anais; ensaios; publicações duplicadas; teses;
dissertações; TCC; boletins epidemiológicos; relatórios de gestão; documentos
oficiais de programas nacionais e internacionais; livros; materiais publicados
em outros idiomas que não seja inglês, espanhol, português; e, estudos que não
contemplem os critérios de inclusão mencionados.
A busca resultou em um total de 412 referências potenciais. Procedeu-se então à
leitura dos títulos e resumos a fim de conferir com os critérios de inclusão e
exclusão. Após esta primeira seleção, restaram 37 artigos, os quais foram lidos
na integra destacando aqueles que responderam ao objetivo proposto por este
estudo, totalizando 21 artigos selecionados para a análise.
A organização dos dados foi realizada a partir da identificação da localização
do artigo, ano e periódico de publicação, autoria, objetivo, resultados
principais, utilizando um instrumento elaborado especificamente para este
estudo com base nas questões da pesquisa. Após esta etapa ocorreu a análise dos
artigos, cujos resultados foram sintetizados por similaridade de conteúdo,
emergindo as categorias: Fases Enfrentadas pelos Pais durante a Estadia do Bebê
na UTIN; Relação entre Enfermeira e Mãe; Suporte da Enfermagem; Descuidado na
Relação entre Enfermeira e Mãe e Ações de Educação em Saúde.
RESULTADOS
Constatou-se que 76% (16) eram provenientes de publicações estrangeiras e 24%
(5) nacionais. Em relação aos anos de publicação dos artigos, compreendidos
entre 2005 e 2010 observou-se dois artigos em 2005, quatro em 2006, dois em
2007, cinco em 2008, cinco em 2009 e três em 2010.
Fases enfrentadas pelos pais durante a estadia do bebê na UTIN
Alguns artigos pesquisados apresentavam fases enfrentadas pelos pais durante a
estadia do bebê na UTIN que são descritas a seguir:
Fase Aguda: A fase aguda ou crítica inicia no momento da admissão e persiste ao
longo dos dias que a procedem, com duração indeterminada. Durante a gravidez, a
relação entre a mulher e seu filho se desenvolve. Ela se prepara para a
maternidade e imagina como o primeiro encontro com seu filho deve ser. Quando
seu filho necessita de cuidados extras em uma UTIN, a nova mãe se encontra em
uma situação para a qual está despreparada. Nesta fase os pais se veem como
expectadores dos cuidados ao seu filho e muitos sentimentos os permeiam:
angústia, ansiedade, depressão, choque, medo preocupação, infelicidade,
sofrimento e sentimentos de impotência, desesperança, instabilidade emocional,
culpa e insegurança. Neste momento a mãe quer saber cada detalhe sobre seu
filho, porém por estar tão sobrecarregada com a situação pode não saber como
pedir informações à equipe de saúde. Desta forma, a interação e comunicação
entre o cuidador e a família são importantes para compreender o que está
acontecendo com seu filho. Apesar de tantos sentimentos confusos e negativos,
os pais não se sentem excluídos quando são informados e incentivados a ter
contato físico com o seu bebê e saber que ele está sendo cuidado por
profissionais é uma questão importante para eles. A fase aguda exige muito da
equipe e da mãe e é nesse momento que ocorre o início da construção de uma
relação de confiança(7-10).
Fase de estabilização: Durante a fase de estabilização, a adaptação dos pais à
vida de seu filho na UTIN e ao seu novo papel parental é essencial. Os pais
deixam de ser observadores passivos para serem ativos participantes. Eles
precisavam de diferentes tipos de informação em diferentes fases de sua
hospitalização infantil. Quando os pais são informados de forma contínua e
consistente sobre condição de seus filhos, tornam-se mais propensos a serem
parceiros ativos no cuidado de seu bebê. Para capacitar os pais, enfermeiros
atuam como modelo e gradualmente confiam a eles maior responsabilidade na sua
interação com a criança. Enfermeiros precisam se sentir confiantes ao colocar o
bebê nas mãos dos pais, enquanto os pais sentem necessidade da confirmação dos
enfermeiros sobre sua capacidade de cuidar do bebê. Seu foco de preocupação
modifica ao longo do tempo a partir da sobrevivência infantil desde o
tratamento, cuidados na UTIN e à informação relativa ao cuidado com o bebê em
casa(7,10).
Fase da Alta: Apesar do desejo dos pais de voltar para casa, a fase de
preparação para a alta é caracterizada pela alegria misturada com o medo. Sair
de perto dos profissionais e do ambiente seguro da UTIN pode ser um desafio. Os
enfermeiros apoiam estreitamente os pais preparando-os para a alta e apesar de
muita emoção e insegurança, os pais experimentam esta fase como uma experiência
positiva(7).
Relação entre a enfermeira e a mãe
Durante este período estressante quando os pais investem muito tempo na
unidade, uma relação próxima das enfermeiras significa muito. Da mesma forma,
enfermeiras experienciam esta intimidade como crucial para criar uma relação de
confiança(7). Pontos importantes na relação interpessoal entre enfermeira-mãe-
RN são a presença autêntica, a escuta atentiva, o estar com a mãe, o diálogo e
a educação em saúde. A enfermeira pode buscar por opções no seu cotidiano e
utilizar a educação para oferecer suporte e favorecer a relação acreditando que
"o conhecimento de ambos é valorizado, propiciando uma oportunidade para
trocas, os dois nutridos e fortalecidos"(11).
Quando existe a informação contínua, desenvolve-se a confiança nos cuidadores.
Seus conhecimentos e tratamento, bem como a afirmação do papel de mãe são de
grande importância. Uma das falas na pesquisa apresentada neste artigo indicou
alívio da mulher ao ser liberada da responsabilidade de cuidar de seu filho ao
se sentir sem energias e com dor, ao perceber isso os cuidadores encaminharam a
mãe até o quarto para descansar. A relação de confiança incluiu um sentimento
de ser compreendida e tratada como uma pessoa única, com necessidades
específicas(9). A partir da confiança com os profissionais é que as mulheres
superam os medos em relação a unidade de terapia intensiva e ao bebê, pois ao
adquirirem confiança na enfermagem sentem-se mais tranquilas e a ajuda que
esperam da equipe é o saber ouvir, falar e cuidar, o que supera as habilidades
já adquiridas dos profissionais em relação aos avanços tecnológicos(12).
Contudo, a equipe de enfermagem percebe os aspectos desafiadores e a demanda em
estar tão próxima. Assim que o estado do bebê estabiliza e o envolvimento dos
pais aumenta, as enfermeiras adotam uma posição mais distante, gradualmente
confiando aos pais maior liberdade nos cuidados. A consequência do seu
distanciamento é que outras enfermeiras passam a cuidar do bebê e se relacionar
com a família. Enfermeiras desconhecidas e instruções divergentes confundem os
pais e os tornam menos confiantes, enquanto uma relação continuada com sua
enfermeira parece fortalecer a confiança dos pais em assumir a responsabilidade
por seus bebês. Apesar da relação pais e enfermeira na UTIN ter um tempo
limitado, é raro encontrar escritos que descrevam como encerrar esta relação.
Enfermeiras necessitam conhecer as emoções envolvidas no processo de alta e o
que fazer durante a hospitalização para facilitar o término da relação pais/
enfermeira(7).
Suporte da Enfermagem
A enfermagem em unidade de terapia intensiva neonatal possui além das
responsabilidades com o neonato, compromisso junto aos pais, em especial as
mães, e muitas atividades são elencadas nos estudos como fundamentais para
serem desenvolvidas junto à família durante a internação do bebê dentre elas:
acompanhá-los nas primeiras visitas a UTIN, informar sobre as condições do
bebê, responder as questões e dar suporte emocional na forma de empatia e
compreensão, encorajar a visita e o toque, envolver nos cuidados, informar
acerca dos procedimentos e tratamentos realizados(8-9,13-14).
As mães, ao verem seu filho em uma unidade de terapia intensiva neonatal,
experimentam sentimentos de culpa, desapontamento e ansiedade, e necessitam de
apoio emocional durante esse momento delicado. Compreender a experiência
vivenciada pela mãe, conversando de forma empática e amorosa procurando
orientar sobre os cuidados do neonato são simples ações que humanizam o
relacionamento enfermeira-família. É importante considerar que muitas mães se
encontram distantes de suas casas, famílias e demais filhos e necessitam de uma
rede de apoio durante o momento da internação. A partir do estabelecimento de
uma relação interpessoal pautada na comunicação efetiva, na conversa,
acolhimento e carinho as mães sentem-se mais confiantes e tranquilas(10,15).
O encontro entre a mãe e seu bebê é emocionante e significativo, o papel da
enfermeira neste momento é de consolar, fornecer informações continuamente e
repetidamente se necessário para instruir a mãe sobre o quadro de saúde e o que
ela pode fazer para ajudar. Logo, deve compreender seu papel de mãe e que ela é
a pessoa mais importante na vida do bebê e, para ajudar no processo de apego
entre mãe e filho é importante que os enfermeiros encorajem esta interação.
Para tanto, pode lançar mão de algumas estratégias, dentre elas o método mãe
canguru, aleitamento materno e a participação nos cuidados de rotina com seu
bebê através de uma interação mãe-enfermeira que priorize o apoio psicossocial
e comunicação eficaz(16-18).
Para que a mãe e a família auxiliem de forma efetiva nos cuidados um dos
artigos traz o termo de participação orientada em que a enfermeira explica e
supervisiona a fim de que com o tempo, a mãe possa assumir as funções
gradualmente assim como o desenvolvimento do bebê prematuro. Percebe-se que
"participação orientada é mais do que dizer, ensinar e responder as perguntas,
é trazer a mãe para a práxis necessária para alcançar as metas socialmente
significativas como uma mãe"(16).
É imprenscindível que a equipe da UTIN acolha e realize uma comunicação
efetiva, terapêutica com os pais, evitando o uso de termos técnicos que se
distanciam da realidade materna e faz com que os profissionais sejam vistos
como detentores do saber. Neste ponto a enfermagem tem papel importante ao
verificar se as informações repassadas pelos médicos foram compreendidas pelos
pais, já que muitas vezes estão em estado de choque e não conseguem processar
grande quantidade de dados acerca da condição de saúde de seu bebê. A
enfermeira pode complementar e solucionar as dúvidas utilizando linguagem
próxima da realidade da família. Os pais valorizam quando as informações são
repassadas de forma simples e transparente a fim de que compreendam o está
sendo planejado e realizado para seu filho. Enfatiza-se que é necessário uma
nova abordagem no atendimento neonatal, em que sejam contemplados além dos
aspectos fisiológicos do prematuro, fatores emocionais que envolvem os pais
ajudando-os nos momentos das dificuldades frente a situação de internação do
recém-nascido, pois quanto maior o suporte oferecido aos pais, mais satisfeitos
eles estarão com o cuidado de enfermagem(10,14,17,19).
Um estudo revelou que os pais de bebês internados em UTIN percebiam baixo nível
de estresse por parte dos enfermeiros, enquanto avaliaram como alto o nível de
apoio dos mesmos junto da família. Esses dados destacam o papel crucial da
enfermagem ao apoiar os pais e a importância do relacionamento estabelecido a
fim de aliviar seu estresse(20). É importante que a equipe perceba os pais como
parceiros durante a internação do bebê na UTIN para que trabalhem juntos em
prol da recuperação, ajudando-os a estabelecer uma relação amorosa com seu
filho. Desta forma, é importante que os enfermeiros compreendam a importância
do seu papel junto à família, buscando sempre desenvolver relações terapêuticas
através da conversa, de informações claras e prover intérpretes quando os pais
não compreendem a língua utilizada para que possam obter as informações de que
necessitam. O apoio emocional é valorizado pelos pais a partir da comunicação
efetiva ao compreender seus sentimentos e saber que estão conseguindo cuidar de
seu filho. Estas ações possibilitarão a diminuição do estresse, ansiedade,
tensão e tristeza da mesma forma que conversar com a mãe acerca dos seus
sentimentos e facilitar sua aproximação junto ao seu filho trará benefícios
neste momento(8,16,20).
É fundamental o apoio da Enfermagem ao envolver os pais nos cuidados e no
processo de tomada de decisões a respeito do seu bebê mesmo quando se refere a
momentos delicados como a decisão pelo fim da vida, a manutenção dos cuidados
paliativos e no processo do luto. Prover informações precisas sobre os cuidados
e tratamento faz com que se estabeleça uma relação de confiança, que é baseada
na boa comunicação e na certeza de que o prestador de cuidados de saúde
realmente se preocupa com seu filho(21).
Na Enfermagem a comunicação é indispensável, pois a compreensão de mensagens
emitidas pode fazer grande diferença quando se procura estabelecer relação
terapêutica. Identificar as necessidades dos pais na UTIN permite incorporá-las
no plano de cuidados e melhorar a comunicação com a enfermagem. Por exemplo, a
Enfermagem pode dar mais apoio durante as primeiras semanas de internação ao
compreender que é um momento mais delicado. Assim, o cuidado centrado na
família permite que se estabeleça um cuidado individualizado, fazendo com que
mãe e pai se sintam mais seguros, diminuindo a ansiedade ao estabelecer uma
relação terapêutica com a equipe de enfermagem(15,22).
Descuidado na relação entre enfermeira e mãe
Nos artigos pesquisados percebeu-se que a palavra UTI causa um impacto, que
pelo desconhecimento da função da mesma, as pessoas entendem como sendo esta um
lugar em que se vai para morrer. Assim, a internação do neonato provoca
"situações de angústias na família, principalmente na mãe, com sentimentos de
desapontamento, incapacidade, culpa e medo da perda, da situação vivenciada,
que prejudicam a relação interpessoal"(15). Espera-se da enfermeira neonatal
competência e disponibilidade para envolver mães e pais o mais cedo possível no
cuidado de seu bebê e estar aberta para o desenvolvimento de um relacionamento
baseado em confiança. Uma pesquisa demonstrou pelas falas das mães que
consideravam as enfermeiras inteligentes, agradáveis e gentis, úteis e de
apoio, mas também como ignorantes, mandonas e ocupadas, com pouca atenção para
as necessidades das novas mães. Assim, pode-se afirmar que existe uma falha de
comunicação entre as mães e equipe de saúde, de certa forma devido ao cotidiano
intenso e estressante da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, porém esta não
deve ser uma desculpa para que não se melhore a relação e interação neste
momento(16,19).
Em uma UTIN a carga de trabalho é estressante e de alta complexidade, exigindo
muito dos profissionais, o que pode contribuir para a falta de tempo disponível
para o suporte às mães e sua família(20). Os enfermeiros podem esquecer que os
pais necessitam de apoio emocional e orientação, comprometendo as relações
interpessoais o que se configura como um desafio no movimento de humanização do
atendimento e do envolvimento dos pais nos cuidados, pois "a tecnologia avança
cada vez mais (...) levando os profissionais a aprimorarem suas habilidades
técnicas, fazendo-os esquecer de que cuidam de pessoas"(15).
É natural que o cuidado na UTIN focalize as necessidades da criança, mas quando
a mãe não é inserida nos cuidados, quando ela sente não pertencer nem à unidade
intensiva nem aos cuidados da maternidade, o sentimento de exclusão por parte
da mãe é reforçado(9). Não reconhecer a importância da mãe e não incluir suas
necessidades nos cuidados, é entendido como indiferença, levando a um
sofrimento em que a dignidade é insultada. Um estudo indicou que
inconsistências nas informações recebidas relativas ao bebê geraram confusão
entre as mães(10), quando havia conflito de orientações entre os profissionais,
esse tipo de comportamento contribuiu para a tensão dos pais, pois sentiam que
não recebiam dados suficientes(20).
A oscilação entre a exclusão e participação se mostra presente nos relatos dos
estudos, há muitos exemplos de como a mãe lutou para ser reconhecida, para
obter informações detalhadas sobre a saúde de seu filho e para participar dos
cuidados a ele. Informação verbal é importante na interação entre mãe e
cuidador, e para que esta entenda a situação de seu filho precisa de orientação
contínua. Porém, por vezes, há falhas na comunicação, o que origina sentimentos
de desencanto, conformismo e incompreensão do quadro clínico do bebê, leva à
especulação sobre o que os cuidadores estavam fazendo com a criança na ausência
da mãe, levando-a a sofrer ao se sentir excluída(9,19-20).
Manter as mães com bebês na UTI internadas próximo das que estão junto de seus
bebês é emocionalmente difícil, pois sentem que não tem nada em comum entre
elas. Em um estudo as mães relataram um desejo intenso de permanecer no
hospital para estar próxima, amamentar e cuidar de seu filho, porém sentiam que
tomavam o lugar de outra mãe que precisava mais dos cuidados na já superlotada
maternidade. Neste caso, não havia cama nem lugar para elas na UTIN e havia um
sentimento de não serem bem-vindas. Quando a criança estava dormindo se
julgaram desnecessárias, já que tinham pouco a fazer. Os quartos e arredores
não eram acolhedores e muitas vezes era impossível encontrar um lugar para
ficar sozinha com seu filho(9).
Em um dos artigos que abordava o tratamento de fototerapia, as mães apontaram
os problemas mais significativos: "o desconhecimento da terapêutica; a
preocupação com a evolução clínica do estado do bebê; o ambiente desconhecido e
por vezes assustador; o isolamento do seio familiar; o temor da alta hospitalar
deixando o bebê na maternidade e a falha na comunicação com a equipe de saúde"
(19). Desta forma, é importante a conscientização e sensibilização dos
profissionais frente às necessidades destas mulheres a fim de que se sintam
acolhidas neste momento difícil.
Conforme um dos estudos, a participação das mães na UTIN ainda é incipiente,
porém há interesse da equipe em incluí-las nos cuidados. Mesmo assim os
profissionais percebem uma modificação no ambiente com a presença dos pais, o
que interfere na dinâmica de trabalho gerando insegurança na equipe que se
sente fiscalizada e ainda preocupa-se com as infecções hospitalares. Outro
estudo complementa esta situação em que mães não estavam se sentindo
valorizadas, pois foram excluídas dos cuidados e se percebiam como alguém que
está ali para atrapalhar, reclamar e até mesmo fiscalizar. Sendo que elas
percebem que nem todas as enfermeiras estão dispostas a aceitá-las como
parceiras no cuidado ao seu filho, ocorrendo uma falta de continuidade nos
cuidados o que impede a formação de laços com a equipe(15, 23-24).
Ações de educação em saúde
Em alguns estudos na área de cuidados aos pais com bebês em Unidade de Terapia
Intensiva Neonatal (UTIN), enfermeiros enfatizam a importância do uso de
manuais, recursos visuais sobre os cuidados, realização de grupo de orientação,
enfim modos de educação que englobem a família e a equipe de enfermagem,
envolvidas no cuidado ao bebê. O uso de documentos em forma de manuais em
linguagem acessível que forneçam informação a respeito do funcionamento da
UTIN, das dúvidas mais frequentes, dos procedimentos realizados rotineiramente
e como as necessidades de seus filhos serão satisfeitas é necessário, já que as
mães podem ficar ansiosas durante a hospitalização e podem não conseguir
absorver todas as informações fornecidas pela equipe inicialmente. Ao fornecer
os manuais os pais poderão ler com mais tranquilidade e recorrer a ele sempre
que houver necessidade(13-14,20,25).
Estudo que tinha como proposta cuidar da mãe do neonato em fototerapia
envolvia, além da comunicação efetiva entre a enfermeira e mãe-filho, o uso de
recursos visuais de baixo custo, como um painel ilustrado sobre fototerapia e
outros materiais que também podem ser utilizados, conforme a criatividade. A
realização de grupos de encontro é valorizada por possibilitar que as mães
expressem suas dúvidas, sentimentos, anseios, preocupações e sua forma de
pensar, além de serem momentos valiosos para a detecção de problemas. A equipe
também auxilia nos momentos de crise, enfatiza os recursos pessoais que as mães
possuem para lidar com a internação, ajuda no desenvolvimento de habilidades
para o cuidado ao bebê em UTIN, cria vínculos com as mães e família, busca
enfim tranquilizar os pais neste momento delicado. A partir das discussões
geradas nos encontros, a Enfermagem pode planejar e implementar intervenções de
suporte junto à mãe e sua família(19,25).
Frente a um cenário estressante e delicado da UTIN, a equipe também necessita
de educação permanente que vai além de técnicas ou o uso de aparelhos de última
geração, é importante incluir "conteúdos sobre o cuidado centrado no
desenvolvimento, apego e vínculo afetivo mãe-filho e família, relacionamento
interpessoal, acolhimento da clientela entre outros, o uso de técnicas
educativas para otimizar o treinamento da mãe e família com vistas ao cuidado
domiciliar"(23). Um programa de educação continuada junto aos enfermeiros
auxilia a desenvolver e melhorar a sua habilidade para uma comunicação eficaz e
parceria com as famílias(20-21). É importante a abordagem de temas como o apoio
à família, cuidados paliativos e processo de luto, pois somente a partir das
reflexões dos profissionais acerca dos temas que envolvem a família em UTIN
será possível planejar mudanças que favoreçam tanto a equipe de saúde como a
unidade familiar(23,26).
DISCUSSÃO
Destaca-se nos estudos a evidência da necessidade de suporte por parte das mães
e sua família, o que inclui a conscientização da equipe multiprofissional da
UTIN sobre os aspectos emocionais que envolvem a mãe durante a internação de
seu filho prematuro. Assim, poderão ser valorizados "os aspectos psicológicos,
reconhecendo situações de vulnerabilidade, bem como se devem resgatar os
valores humanísticos no atendimento ao recém-nato prematuro, a interação com a
família, em um mesmo ambiente comum, lhes proporcionado segurança, afetividade
e atendimento qualificado"(1).
Na rotina intensiva de cuidado da UTIN, por vezes ainda se privilegia a
tecnologia em detrimento do cuidado, em que os procedimentos são realizados de
forma técnica e mecânica desrespeitando as necessidades de conforto, sono e
repouso do bebê, o que configura em um descuidado que se estende à mãe que é
privada de participar da vida do seu filho nesta fase(27).
O que se vê é a falta de preparo da equipe para lidar com um ambiente
estressante, situações limítrofes de vida e morte, alta tecnologia e, ainda,
para compreender a labilidade emocional das mães, o que impede que possam
prestar um cuidado individualizado a estas mulheres e suas famílias. Esta
situação acarreta angústias aos profissionais que percebem as necessidades, mas
não dispõem de tempo, um local adequado e preparação para enfrentar situações
delicadas, desta forma é importante a criação de um ambiente para encontro,
discussão e troca de vivências além de um programa dentro da UTIN de educação
permanente voltado para as relações interpessoais(28).
A comunicação é um ponto chave no estabelecimento da relação enfermeira-mãe e
por meio dela pode-se procurar diminuir as tensões e ansiedade ao prover
informações quanto ao diagnóstico, tratamento, determinadas condutas e rotinas
hospitalares, abrindo o espaço para a interação e solucionando as dúvidas
(1,29).
A educação em saúde durante a internação neonatal é importante para a melhor
compreensão deste universo estranho para a mãe e como ela pode se aproximar e
ajudar na recuperação do bebê, compreendendo que o uso de cartilhas, manuais,
recursos áudio-visual isoladamente não demonstram a eficiência necessária(30),
exigindo a vinculação da educação em saúde com a abertura dos profissionais à
relação de parceria e suporte às mães.
Para que se tenha um cuidado de enfermagem de qualidade, a mãe e a família
devem ser vistas como aliadas no contexto do cuidado ao recém-nascido para que
se desenvolva a ligação afetiva e que a mãe possa aceitar e reconhecer seu bebê
que no momento se encontra tão pequeno e frágil, mas que com a parceria
enfermagem e mãe só irá se beneficiar(31).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir dos estudos que abordam a relação estabelecida entre a equipe de
enfermagem e as mães com bebês internados na Unidade de Terapia Intensiva
Neonatal, foi possível compreender que há muito que melhorar apesar de esforços
serem reconhecidos. Os estudos apontam a necessidade das mães por suporte, o
que inclui informações detalhadas e em linguagem acessível acerca do estado
clínico e procedimentos realizados com seu filho, apoio emocional, envolvimento
nos cuidados ao bebê, disponibilidade para estar e conversar com as mães.
Apesar da busca ter sido realizada com o descritor Mothers foram encontrados
nos artigos a preocupação com o pai, percebendo que não somente a mãe é
importante na recuperação do neonato, como o apoio de ambos os pais.
Por outro lado, esta revisão apontou como lacuna no conhecimento as questões
referentes à capacitação dos profissionais que lidam com esta realidade de
cuidado ao bebê em UTIN, assim como à mãe e família que vivenciam este período
delicado. Demonstra ainda a necessidade de estudos a respeito do cuidado à
puérpera durante a hospitalização de seu bebê.
O cuidado individualizado é imprescindível para o estabelecimento de uma
relação interpessoal de qualidade entre os pais e a enfermeira, pois ao
compreender suas necessidades, esta pode planejar estratégias efetivas. Para
que a prática das enfermeiras neonatais sejam implementadas por cuidados que
abranjam tanto o bebê como a mãe e família se torna indispensável a capacitação
para o aprimoramento dos profissionais a fim de suprir as expectativas das
mulheres.