Assistência à pessoa com hipertensão arterial na ótica do profissional de saúde
INTRODUÇÃO
A principal causa de morbimortalidade na população brasileira são as doenças
cardiovasculares, sendo a hipertensão arterial (HA) um dos principais fatores
de risco para o agravamento desse cenário, por estar relacionada ao surgimento
de outras doenças crônicas não transmissíveis que repercutem negativamente na
qualidade de vida(1). As sequelas atribuídas à falta de controle adequado dos
níveis pressóricos incluem, além dos agravos cardiovasculares e renais, a
ocorrência de morte prematura, em uma fase na qual o indivíduo é economicamente
ativo, representando grande ônus social e econômico(2).
Os dados do Ministério da Saúde(3) descrevem a magnitude deste problema,
demonstrando preocupação com os aspectos humanos e econômicos. As doenças
cardiovasculares (DCV), por exemplo, são responsáveis por 31,88% das causas de
óbito no Brasil.
A HA implica em transformações expressivas na vida dos indivíduos em várias
esferas, como a psicológica, a familiar, a social e a econômica, pela
possibilidade de agravo em longo prazo, o que resulta, geralmente, em mudanças
nos hábitos de vida, exigindo esforços não apenas dos portadores, mas também de
seus familiares, das pessoas próximas e dos profissionais de saúde.
O aumento do número de indivíduos com doenças crônicas reforça a necessidade de
um modelo de atenção à saúde que permita ao profissional conhecer a realidade
onde ele atua e, consequentemente, traçar estratégias de intervenção que tenham
êxito e possam ser aplicadas a um maior número de pessoas.
Em meio às diferentes possibilidades que vêm sendo experimentadas no âmbito da
reorganização dos serviços de atenção à saúde, o Programa Saúde da Família
(PSF), concebido pelo Ministério da Saúde (MS) em 1994, e hoje denominado
Estratégia Saúde da Família (ESF), propõe a promoção da qualidade de vida e
intervenção nos fatores que a colocam em risco, permitindo a identificação mais
acurada e um melhor acompanhamento dos indivíduos. Por esse e outros motivos o
PSF vem se consolidando como eixo reestruturante da Atenção Básica(4-5).
Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi conhecer os aspectos da
assistência prestada às pessoas com HA na Atenção Básica em Saúde sob a ótica
de profissionais que participaram desta assistência.
MÉTODO
Este estudo, de abordagem qualitativa, é parte do projeto de pesquisa
intitulado "Avaliação da atenção à HA na Macrorregião Noroeste do Paraná:
doenças cerebrovasculares como evento sentinela", realizado no âmbito de uma
das cinco macrorregionais de Saúde do Estado do Paraná, a qual engloba 115
municípios, organizados em cinco regionais de saúde. O objeto do estudo foram
os óbitos por doenças cerebrovasculares em indivíduos com idade entre 45 e 64
anos, ou seja, óbitos que não deveriam ter ocorrido nesta faixa etária, que
poderiam ter sido evitados e que, por isto mesmo, são considerados como um
evento sentinela.
Os dados foram coletados com o uso da técnica de grupo focal, nos meses de
janeiro e fevereiro de 2008, em cinco municípios sedes de RS, mais
especificamente nas equipes da ESF em cuja área de abrangência houve óbito por
DCV de pessoas da faixa etária de 45 a 64 anos. O grupo focal é uma forma
metodológica de coletar dados diretamente das falas de um grupo, que relata
suas experiências e percepções em torno de um tema de interesse coletivo6). Tem
como característica promover interações do pesquisador com pequenos grupos,
favorecendo assim a reflexão sobre o tema pesquisado(7). Ele permite aos
participantes revelar suas experiências, sentimentos, necessidades, percepções,
atitudes e preferências, e proporciona ao pesquisador captar em pouco tempo
diferentes versões sobre um tema, assim como entender em profundidade o
pensamento e os comportamentos do grupo pesquisado, permitindo observar os
pontos consensuais e divergentes do grupo sobre o tema(7).
Com o uso desta técnica, os dados são produzidos a partir da discussão focada
em tópicos específicos e diretivos. A sessão não deve durar mais que uma hora e
50 minutos e o número de participantes deve variar de 5 a 15 pessoas, de modo
que todos possam expressar sua opinião. Em sua condução, são necessárias três
pessoas: o coordenador/moderador e dois observadores. O primeiro tem o papel
fundamental de garantir, por meio de uma intervenção ao mesmo tempo discreta e
firme, que o grupo aborde os tópicos de interesse do estudo da maneira menos
diretiva possível. Um dos observadores anota os acontecimentos de maior
interesse para a pesquisa (relator) e o outro auxilia na observação da
comunicação não verbal, como forma de compreender os sentimentos dos
participantes sobre os tópicos discutidos e, eventualmente, intervir na
condução do grupo(6).
Na realização do grupo focal utilizou-se um tópico-guia com a seguinte questão
principal: "Como é o atendimento, nesta unidade, às pessoas com HÁ, que se
encontram na faixa etária de 45 a 65 anos?". As questões secundárias foram:
"Existe protocolo de atendimento à pessoa com hipertensão na unidade? Fale
sobre seu uso". "Como é a rotina de atendimento à pessoa com hipertensão
arterial? Fale sobre as facilidades e dificuldades que o serviço tem na
assistência a estas pessoas". Ao final era lançada a seguinte questão: "Na área
de abrangência desta unidade faleceu, no ano de 2006, uma pessoa com idade
entre 45 a 64 anos tendo como causa básica a HÁ? O sr/sra (...). Vocês se
lembram dela? Como era o seu acompanhamento no serviço?".
Os grupos foram realizados em horário indicado pela coordenação das unidades,
de forma que deles pudesse participar um número de profissionais maior e
constituído de diferentes categorias, a saber, enfermeiro, médico, dentista,
auxiliar de enfermagem, técnico de enfermagem e agente comunitário de saúde e
os três membros da equipe de pesquisa.
No início de cada sessão eram expostos o objetivo do encontro e o tema a ser
debatido a partir do tópico-guia. Um único coordenador/facilitador experiente
conduziu as atividades de todos os grupos, mas os observadores vários. O número
de participantes em cada grupo variou de seis a 16. Nas sessões em que se
contou com número maior de participantes, quando havia dispersão do grupo e
fuga do tema proposto, o coordenador fazia um resumo dos temas discutidos com o
intuito de retomar as discussões sobre o foco de interesse da pesquisa.
As discussões foram gravadas e registradas em diário de campo e posteriormente
os dados foram transcritos e analisados seguindo-se a análise de conteúdo
temática de Bardin(8). Essa técnica de análise de dados constitui-se no
conjunto de instrumentos metodológicos, em constante aperfeiçoamento, que se
aplica às comunicações. É uma forma empírica dependente do tipo de comunicação
e do objetivo que se queira alcançar ao analisá-lo. A análise de conteúdo
trabalha as palavras e suas significações, ou seja, é uma busca de outras
realidades através da mensagem em que se usa um mecanismo de dedução com base
nos indicadores construídos a partir de uma amostra de mensagens particulares.
Depois de analisados, os dados foram agrupados em duas categorias: O
atendimento à pessoa com HA - características e dificuldades; e Estratégias de
intervenção para adesão ao tratamento da hipertensão arterial.
O desenvolvimento do estudo ocorreu em conformidade com os preceitos éticos e
foi respeitada a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério
da Saúde, tendo sido o projeto aprovado pelo Comitê Permanente de Ética em
Pesquisa com Seres Humanos (COPEP) da Universidade Estadual de Maringá (Parecer
nº 085/2006). Todos os participantes foram orientados sobre a pesquisa e
assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em duas vias, e para
manter o sigilo dos municípios, eles foram identificados por M1, M2, M3, M4 e
M5.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Conhecendo os informantes
Ao todo, participaram dos cinco grupos focais 44 profissionais de seis
categorias diferentes, com maior representatividade dos agentes comunitários de
saúde. Em sua maioria, os entrevistados eram do sexo feminino, situavam-se na
faixa etária de 31 a 40 anos e tinham até cinco anos de atuação na ESF, o que é
um período relativamente pequeno de experiência profissional nesta área de
trabalho (tabela_1).

O município que apresentou maior número de profissionais participantes no grupo
focal foi o M2. Isto se deveu ao fato de, estrategicamente, a coordenação da
Unidade Básica de Saúde (UBS) ter agendado o grupo focal para o dia e período
em que é realizada a reunião semanal da equipe, de forma que dele pudessem
participar todos os profissionais atuantes na unidade. Já no M5 não houve a
participação do enfermeiro, que estava presente na UBS, mas não mostrou
interesse na discussão.
O atendimento à pessoa com HA - características e dificuldades
Os profissionais de todos os grupos iniciaram falando do atendimento às pessoas
com hipertensão arterial no serviço, e nessa ocasião relataram algumas
atividades desenvolvidas que são limitadas ao Sistema de Cadastro e
Acompanhamento de Portadores de Hipertensão Arterial e Diabetes Mellitus (SIS-
Hiperdia).
O grupo de hipertenso acontece uma vez por mês, onde verifica a
pressão arterial, orienta e distribui a medicação... (M5).
Percebemos no relato que a organização do serviço desse município se preocupa
com a demanda e a distribuição de receitas e medicações, reproduzindo o modelo
da assistência curativa do atendimento às pessoas com HA e incorporando o SIS-
Hiperdia como programa, esquecendo-se de que o Plano de Reorganização da
Atenção à Hipertensão Arterial e ao Diabetes Mellitus vai muito além do
cadastro de portadores de hipertensão e diabetes realizado por meio do SIS-
Hiperdia, pois o propósito do Plano é a reorganização da Atenção Básica tendo
como estratégias principais a prevenção dessas doenças, suas complicações e a
promoção da saúde, objetivando, assim, uma melhor qualidade de vida. Diante do
exposto, os grupos de hipertensão nas unidades de saúde devem constituir-se em
espaços de orientação, discussão das dificuldades e formulação de estratégias
para atender às necessidades da população(9).
Os profissionais referiram que, independentemente de as pessoas com HA serem
atendidos ou não pela UBS, todos os que residem na área de abrangência da qual
fazem parte estão cadastrados no SIS-Hiperdia, porém aqueles que são
acompanhados pela equipe de ESF são atendidos rotineiramente de acordo com os
protocolos dos serviços de saúde, como pode ser observado nas falas a seguir.
Eles fazem consultas mensais, fazem os exames de rotina. tem também
as visitas domiciliares mensais, onde a gente vê quem está tomando o
remédio direito. Se não estão tomando, os ACSs orientam, e os outros
profissionais (enfermeiro/médico) focam as visitas para os pacientes
mais necessitados e com pressão alta (M4).
A gente faz as visitas e anota nas fichas para fazer o acompanhamento
mensal, nós visitamos todos e registramos a data em uma planilha
(M1).
Apreendemos dos comentários acima que a maioria dos profissionais de saúde
deste estudo com formação superior priorizam os casos considerados mais
"graves" na realização dos cuidados e visitas domiciliares, o que, de certa
forma, está de acordo com o preconizado pelo Ministério de Saúde, que recomenda
que o ACS realize visita domiciliar mensal e desenvolva ações que busquem a
integração entre a equipe de saúde e a população adscrita, enquanto os demais
profissionais da equipe devem realizar o cuidado em saúde da população e
assistência integral aos indivíduos e famílias na USF e, quando indicado ou
necessário, no domicílio e/ou nos demais espaços comunitários(10).
É importante salientar que, para realizar atividades educativas regulares e
desenvolver ações de prevenção e de promoção à saúde dos indivíduos, famílias e
comunidade, a equipe deve estar preparada e conhecer a realidade da população
atendida(5).
A visita domiciliar mensal proporciona maior proximidade com o usuário e sua
família, demonstrando um grau de comprometimento maior(2), como também a
possibilidade de conhecer o indivíduo e a família e prestar assistência mais
individualizada, com vistas a atender às suas reais necessidades; mas é
compreensível que seja realizada com mais frequência pelos ACSs, os quais têm
esta atribuição de visitar mensalmente as famílias e constituem um número de
profissionais maior que o das outras categorias.
Os profissionais reconhecem que seria necessária uma melhoria na atenção, porém
justificam a não realização das atividades preconizadas (por exemplo, mais
visitas domiciliares, atenção e orientações quanto a dietas, exercícios físicos
e outras) especialmente pelo excesso da demanda.
Tem gente que precisa de mais de uma visita no mês, mas se a gente
fizer acaba não dando conta, porque tem outros programas, da criança
e da gestante, por exemplo... (M4).
A gente ainda tem muita dificuldade para atender a todos de uma
maneira correta (M1).
Nos depoimentos acima os entrevistados reconhecem que alguns indivíduos, em
função da gravidade da doença e/ou das condições da família, precisariam de
mais do que uma visita mensal, mas isto é inexequível, devido à demanda
decorrente de outros programas e atividades que eles desenvolvem.
Estudo que avaliou a atenção à pessoa com HA também apontou como inadequada a
área física das unidades de Saúde da Família para a assistência a estas pessoas
de acordo com os princípios e diretrizes da ESF e do Plano de Reorganização da
Atenção à Hipertensão Arterial e ao Diabetes Mellitus(11).
A HA é uma doença que, quando instalada, gera várias necessidades de
atendimento especializado, sobretudo do cardiologista, mas também de outros
especialistas, dependendo das doenças associadas. A despeito do atendimento
especializado oferecido aos pacientes atendidos, os sujeitos da pesquisa
relataram que existe uma rotina.
A gente passa os pacientes por consulta geral, encaminha se
necessário, para especialidade; em uma semana no mês a gente recolhe
os encaminhamentos que fica com as pessoas e manda para a central de
agendamentos da UBS (M3).
Ao comentarem as rotinas do serviço, normalmente iniciava-se a discussão das
dificuldades encontradas pelos profissionais no desempenho das atividades,
entre as quais se destacaram a falta de material de consumo e equipamentos e a
inadequação da estrutura física para o atendimento.
A gente faz a reunião do grupo de hipertenso na varanda do posto, por
falta de espaço. O nosso maior problema aqui é espaço físico (M5).
Faz 20 dias que nós não temos prontuário, por que falta folha de
sulfite. Não temos um monte de coisas, falta até aparelho de pressão
(M2).
Estudo que avaliou a atenção ao hipertenso também apontou como inadequada a
área física das unidades de Saúde da Família para a atenção do hipertenso de
acordo com os princípios e diretrizes da ESF e do Hiperdia (11).
Destaca-se que para a prestação de um cuidado integral é preciso dispor de um
ambiente que permita acolher o paciente e de equipamentos que possibilitem aos
profissionais desenvolver suas tarefas. É necessário também que os serviços
contem com profissionais habilitados para ouvir e compreender o paciente nas
suas reais necessidades, oferecendo-lhes orientações de forma individualizada e
de acordo com as diretrizes preconizadas pelo Humaniza SUS. Não obstante, os
depoentes relataram que as maiores dificuldades estão relacionadas ao
comportamento dos pacientes e/ou familiares, como, por exemplo, a não adesão ao
tratamento.
O paciente não adere mesmo, devido a suas crenças e valores. Como ele
vive o que ele acha importante, aquela coisa de que nunca vai
acontecer com ele... Então a ACS tem que ir até a sua casa, e fazer
uma busca ativa (M2).
Tem alguns pacientes rebeldes, eles não tomam o medicamento na hora
certa, a quantidade certa; tomam no dia que quer e não cuidam da
alimentação (M4).
A adesão ao tratamento é definida como o grau de comprometimento com as medidas
terapêuticas indicadas, sejam elas medicamentosas ou não, com o objetivo de
manter a pressão arterial em níveis normais(12). Os fatores que podem
influenciar a adesão ao tratamento estão relacionados ao sexo, idade, etnia,
condições socioeconômicas, hábitos de vida, aspectos culturais, gestão do
modelo assistencial e habilidades e integração da equipe de saúde(13).
A adesão terapêutica é a extensão em que a pessoa segue as recomendações do
profissional de saúde relacionadas à adoção do uso de medicamentos e mudanças
no estilo de vida(14). Destarte, é relevante entender o comportamento dos
pacientes que não aderem ao tratamento, para que os profissionais de saúde
envolvidos no atendimento, principalmente o enfermeiro, compreendam sua
realidade para poderem agir comunicativamente com eles, dando-lhes orientações
para motivar a adesão ao tratamento e, ao mesmo tempo, perceberem-se como
agentes de mudança, a partir da implementação de programas educativos e
avaliativos voltados à melhoria das ações desenvolvidas, buscando a adaptação
destas atividades à realidade dos indivíduos e assim contribuindo para melhorar
e manter sua saúde(15).
Nos cincos municípios estudados os profissionais fizeram referência à
dificuldade de os pacientes aderirem ao tratamento, seja na ingestão dos
medicamentos, seja na realização de exercícios físicos, seja ainda no
seguimento de um regime alimentar.
O dia em que ele vai beber pinga ele não toma o remédio, e ele não
assume isto, mas ele fala para a mulher que se ele está com a pressão
alta ele vai e toma um gole de pinga e baixa a pressão (M2).
A gente convida para caminhada, mas não se importam muito. Tem umas
três ou quatro pessoas que toda terça e quinta estão aqui, e uns e
outros que aparecem de vez em quando (M3).
O paciente acreditar que o tratamento traz benefício para sua saúde é
importante para sua adesão à terapia(16). Para isso em alguns momentos é
necessário que o profissional se disponha a explicar a importância do
tratamento, mesmo o paciente sendo resistente e descrente. Foi observado também
que, apesar de muitos indivíduos, especialmente os idosos, apresentarem
dificuldades em compreender algumas orientações, estes participam de forma
efetiva das atividades grupais.
Os idosos têm mais dificuldade de entender o que a gente fala... mas
eles vêm mais nas atividades...(M3).
É possível inferir, a partir da mensagem, que a presença dos idosos nos grupos
pode dever-se a duas razões: sua disponibilidade de tempo, por serem
aposentados, e/ou a busca de companhia, já que, como eles geralmente se
encontram solitários em seus domicílios durante o dia, a participação no grupo
é ao mesmo tempo uma ocupação e um encontro de colegas/amigos.
É imprescindível considerar que o tratamento da HA exige muitas mudanças no
estilo de vida do indivíduo, entre elas o controle do peso, a adoção de dieta
hipossódica e balanceada, aumento da ingesta de frutas e verduras, redução no
uso de bebidas alcoólicas, realização de exercícios físicos, suspensão ou
atenuação do tabagismo e substituição da gordura saturada por polinsaturada e
monoinsaturada. O problema é que, muitas vezes, o portador de doença crônica
enfrenta, além de outras, também dificuldades socioeconômicas, o que se torna
um empecilho para uma adequada adesão(17). A não adesão ao tratamento se deve
também a não aceitação da doença.
Os mais jovens não querem tomar medicamento, não querem vir na
reunião, não querem passar por consulta médica, muitas vezes não
aceitam a sua doença... (M3).
Ao fazerem referência aos indivíduos de 45 a 60 anos os profissionais
consideram que os fatos de estar em uma faixa etária jovem e de a doença ser
assintomática levam o indivíduo a demonstrar desinteresse em aderir ao
tratamento, e que isto pode levar a complicações e até mesmo à morte.
Muitos não aceitam a doença, insistem em afirmar que a pressão está
boa... Ele não se acha doente, na verdade ele é jovem, ele acredita
que não precisa vir na unidade, não precisa vir na reunião (M2).
Tem uma paciente que trabalhou no hospital por 20 anos como atendente
de enfermagem e sabe o que é hipertensão arterial. Ela pesa
aproximadamente 250 kg, eu fui verificar a pressão dela, e ela disse:
"Ah,! eu estou contente a minha pressão está 25X15" (M2).
Neste caso verificamos que, quando o paciente está acostumado com a
sintomatologia, passa a não considerá-la um sinal importante de gravidade da
doença. Estes indivíduos precisam de uma abordagem diferenciada, que permita
desvelar todas as complicações possíveis no curso da doença e desencadeie a
sensibilização necessária para estimular a adoção de hábitos mais saudáveis.
No tocante à adesão ao tratamento para a manutenção da pressão arterial em
níveis normais, faz-se necessário considerar que a participação da família é
muito importante, pois o domicílio é visto hoje como um espaço em que as
pessoas com doenças crônicas podem manter a estabilidade de sua condição, o que
faz da vivência de cuidar de um doente em casa uma experiência cada vez mais
crescente. Por isso a família deve estar profundamente envolvida no tratamento
e oferecer cuidados que favoreçam a adesão do indivíduo com HA ao tratamento
(18).
Tem pacientes que moram sozinhos, não têm apoio da família. E tem
aqueles que têm família, mas às vezes não têm a devida atenção (M4).
Sem o apoio da família, a gente não consegue fazer nada por aquele
paciente (M4).
A compreensão do processo de envolvimento da família no cuidado prestado ao
indivíduo com HA contribui de forma significativa para a prática profissional,
favorecendo a reflexão e, consequentemente, possíveis mudanças nas atitudes
profissionais relacionadas à assistência ao indivíduo e sua família. Além
disso, fornece subsídios para planejar novas formas de ver e cuidar, com base
nas concepções, nos meios de assistir e nas necessidades apresentadas por essa
família(19).
Em um estudo realizado com famílias de idosos com HA, foi evidenciada a
necessidade de o profissional de saúde conhecer com propriedade a realidade de
vida da população circunscrita à área de abrangência de sua UBS, pois o
estabelecimento de vínculo entre a equipe e a família oferece perspectivas para
minimizar o desconhecimento da família sobre os problemas que acometem sua
saúde, como também permite ao profissional compreender as particularidades da
complexa rede de cuidado e suporte que envolve cada uma delas(20).
Este é um fato grave quando se pensa nos óbitos por HA de pessoas na faixa
etária de 45 a 65 anos. Acreditando-se que são óbitos evitáveis, durante a
realização do grupo focal perguntou-se aos participantes, se eles tinham
conhecimento de óbitos de usuários com hipertensão em sua área de abrangência.
O que se constatou foi que, apesar de já ter-se passado mais de um ano, de modo
geral, pelo menos um ou dois profissionais de cada município, em especial os
agentes comunitários, conseguiram se lembrar dos casos apresentados, tendo-se
constatado, por exemplo, que dois indivíduos não eram moradores da área de
abrangência e que, quando morreram, estavam na casa de parentes. Nos outros
três casos, os indivíduos eram acompanhados pela equipe de Saúde da Família e
os profissionais se lembraram do indivíduo pelo nome e discutiram com
facilidade características relacionadas com o acompanhamento e a conduta deles
e até de suas famílias. Segundo esses profissionais, apenas uma fazia uso das
medicações, enquanto os outros dois não seguiam as orientações nem faziam uso
das medicações prescritas.
Ao identificarem os indivíduos que foram a óbito e deles se recordarem, os
profissionais, de certa forma, demonstraram conhecimento e comprometimento com
a população de sua área de abrangência.
A paciente veio de Rondônia para morar com a família e fazer
tratamento e acabou morrendo (M1).
A gente ia visitar todo mês e não encontrava, tinha que bater na
mesma tecla...Tinha dificuldade de encontrá-la...mas ela aderiu ao
tratamento medicamentoso, dizia que fazia exercício físico todos os
dias, andava muito para ir ao trabalho e pegava peso, por ser
empregada doméstica (M2).
Ainda em relação às dificuldades apontadas para trabalhar com a pessoa com HA
na faixa etária entre 45 a 65 anos, observamos que elas variaram desde a não
adesão ao tratamento até a falta de infraestrutura física e de recursos humanos
das equipes de saúde; mas em muitas ocasiões as dificuldades e obstáculos para
incorporar os ensinamentos e a falta de tempo para participar das atividades
propostas pelas UBS foram identificadas como os fatores que mais afetavam a
continuidade do trabalho dos profissionais.
O nosso horário de trabalho é comercial, muitas vezes não encontramos
os pacientes em casa, pois os pacientes jovens estão em atividade
profissional (M2).
As pessoas que trabalham jamais vão perder um dia de trabalho para ir
ao médico, ou à reunião se não estão sentindo nada, mesmo sabendo que
têm pressão alta, porque eles deixam de ganhar (M2).
Tanto o indivíduo com HA como o seu familiar, na maioria das vezes, têm vínculo
empregatício e acham que não podem ausentar-se do trabalho para participar das
atividades oferecidas na UBS. Vale ressaltar que a Atenção Básica à Saúde não
privilegia a atenção à saúde do adulto, uma vez suas atividades estão mais
voltadas à saúde da criança, da mulher e do idoso. Não obstante, com base nos
resultados encontrados nos outros subprojetos da pesquisa matricial, os quais
mostraram que indivíduos jovens (na faixa etária de 45 a 64 anos) estão
morrendo em decorrência da HA(21), verifica-se a necessidade de o serviço criar
estratégias para acompanhar e controlar a saúde de indivíduos adultos, no
sentido de prevenir e tratar doenças para melhorar sua qualidade de vida e
evitar complicações que impliquem no afastamento de suas funções produtivas e
resultem em ônus para ele e para a sociedade. Estas estratégias podem envolver
parcerias com empresas, por exemplo, com o intuito de que estas abram suas
portas para o setor saúde ao menos uma vez ao ano. Nestes casos, os
profissionais poderiam se deslocar até a empresa ou esta poderia liberar seus
funcionários ao menos uma vez por ano para a realização de ações preventivas.
Para isto seria necessário que o serviço também se preparasse para uma atuação
de caráter de promoção e prevenção, abrindo agenda específica voltada a esta
questão; porém isto só será possível quando o próprio setor saúde conseguir
reconhecer a importância e o impacto de ações preventivas em adultos, que em
sua maioria se encontram no mercado de trabalho e não têm horário compatível
com o funcionamento das UBS, o que os leva a procurar o serviço de saúde só em
situações de doença.
Ainda nesta linha de pensamento, as UBSs podem tentar sensibilizar as empresas
quanto à importância da ginástica laboral, e em pareceria com a secretaria de
esportes do município ou mesmo com instituições de ensino, promover atividades
físicas e recreativas como, por exemplo, futebol, caminhadas, atletismo, vôlei,
corridas de bicicleta, etc. Estas atividades devem ser oferecidas para todas as
faixas etárias e em dias e horários alternativos, de modo que delas possam
participar todas as pessoas, e não apenas idosos e crianças.
Estratégias de intervenção para adesão ao tratamento da HA
As discussões apontaram algumas estratégias de atuação que poderiam ser
implementadas ou que os profissionais gostariam de implementar diante das
dificuldades encontradas no cotidiano de cuidado à pessoa com HA, algumas delas
inclusive já em uso pela equipe. Dentre elas, a mais citada diz respeito às
tentativas de facilitar o uso correto da medicação:
Eu faço aquelas carteirinhas recortadas com o número certo dos
medicamentos e anoto o dia que vai acabar. Se sobrar ou faltar é
porque o paciente está tomando o medicamento errado, e nós precisamos
identificar o porquê. Quando isso acontece, vamos até a pessoa e
conversamos para saber o que está acontecendo, se está tomando
errado, se está emprestando ou dando para alguém. Se sobra, por que
não está tomando... Fazemos isto principalmente para aquelas pessoas
que nas consultas para pegar medicação ou nas visitas domiciliares
percebíamos que existiam muitos ou poucos remédios. Depois que
começamos a controlar mais, este problema diminuiu (M3).
A estratégia de utilizar carteirinhas controladas demonstra o uso correto ou
incorreto da medicação, porém não permite saber se os medicamentos estão sendo
tomados nos horários corretos nem possibilita o controle de outras formas de
adesão ao tratamento, como o uso de uma alimentação saudável e a prática de
atividade física.
Confeccionamos sacolas de tecido jeans que ganhamos retalho, e
ilustramos com o desenho adequado, sol para tomar o medicamento pela
manhã, prato significando almoço e lua à noite. Quando entregamos, já
orientamos a forma de tomar o medicamento, e entregamos o número de
sacolinha adequada para cada horário. Interessante que para alguns
pacientes quanto mais sacolinhas ele ganhava mais feliz ele ficava.
Parece que não entendia que isto significava a quantidade de
medicamentos que ele tomava, ou seja, que ele podia estar mais grave
que outros pacientes (risos). Esta estratégia ajudou muito na
diminuição de erros de tomada de medicação, principalmente de
esquecimento, até porque, mesmo que ele tome três comprimidos à
noite, nós colocamos todos dentro da mesma sacola a quantidade que
tem a tomar no mês. A sacolinha vai com o nome e o número do
prontuário de cada um, e assim, fica difícil errar, além dela ser bem
bonitinha (M5).
Neste município a dentista mostrou-se muito preocupada com o tratamento
odontológico da pessoa com HA, por esta razão diz ficar atenta em conjunto com
a equipe, buscando a estabilidade do quadro de saúde desta pessoa para evitar
complicações odontológicas. Neste sentido, referiu observar e reforçar as
orientações relativas ao uso da medicação, pois reconhece a importância da
adesão ao tratamento. Em relação ao uso de sacolas de tecido jeans adotadas fez
o seguinte comentário:
Até o momento, em termos de resultados observados, esta foi a melhor
estratégia já adotada para facilitar a adesão aos medicamentos pelos
pacientes (M5).
Os profissionais dos cinco municípios relataram utilizar alguma estratégia com
o intuito de incentivar a adesão ao tratamento prescrito; no entanto, ao
falarem das estratégias, cada equipe relata que até chegar a mais adequada
foram feitas várias tentativas, com acertos e erros.
É importante reforçar que as estratégias devem ser pensadas a partir da
realidade e das dificuldades que se encontram no âmbito de atuação, de forma a
facilitar o serviço e garantir ao usuário uma assistência adequada. Observa-se
na fala abaixo que as estratégias são pensadas também para atender pacientes
com necessidades especiais.
Quando o paciente é cego, a enfermeira coloca uma fita adesiva na
caixa se tem que tomar um comprimido e duas fitas quando precisa
tomar dois comprimidos (M2).
Atuar em promoção à saúde não consiste simplesmente em orientar no sentido de
mudanças de comportamento, mas também em trabalhar com as potencialidades de
cada comunidade e com os valores que possibilitem transformação,
conscientização e, por conseguinte, um novo entendimento de cidadania(22).
Toda informação/orientação deve ser fornecida de forma individualizada,
respeitando-se as necessidades e atendendo-se às expectativas de cada
indivíduo. A orientação constitui hoje uma importante ferramenta para a atuação
do profissional de saúde, pois, quando bem realizada, permite-lhe estabelecer,
juntamente com o usuário, a responsabilidade partilhada na realização dos
cuidados. A importância da orientação adequada é reconhecida pelos
profissionais.
Nós fazemos um trabalho bem legal no sentido de orientar. Falamos
para fazer caminhada, vir nas reuniões, não comer carne gordurosa,
muito sal, entre outras... (M2).
Tem grupo de ginástica que ocorre de segunda e quarta-feira... e
orientamos para que todos venham (M5).
O importante é sempre estar conversando com o paciente e a família
para saber o que eles acham do atendimento... (M1).
O paciente que recebe explicações claras e compreende a razão e a importância
do tratamento também tem mais vontade de cooperar. É mais provável que as
pessoas cooperem se acreditarem que os profissionais da saúde envolvidos se
preocupam realmente com sua saúde.
A interação dos profissionais de saúde com os cuidadores é um aspecto
importante para que os pacientes cooperem com o plano terapêutico. Então, ao
participarem do planejamento de seu tratamento, as pessoas assumem a
responsabilidade por ele, aumentando a probabilidade de mantê-lo(14).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao finalizar este estudo, percebemos que a assistência, em todas as UBSs
pesquisadas, de uma maneira geral, atende às necessidades mais urgentes da
população que busca o serviço de saúde; porém, mesmo adotando estratégias para
a adesão ao tratamento, os profissionais não conseguem atingir toda a
população, por várias causas, entre elas o horário de atendimento, a não
compreensão/aceitação da doença, questões relacionadas à família, entre outras,
o que pode implicar na qualidade da assistência, apesar do esforço e
comprometimento da equipe.
É essencial que o profissional de saúde compreenda a realidade onde atua e
reflita sobre a sua prática, para que possa atender de forma humana e integral
o indivíduo com HA ou com outras necessidades.
Neste contexto, a compreensão referente ao cuidado prestado pela equipe ao
indivíduo com hipertensão contribui de forma significativa para a prática
profissional, favorecendo a reflexão e, consequentemente, possíveis mudanças
nas atitudes profissionais em relação à assistência ao indivíduo e sua família.
Além disso, fornece subsídios para fundamentar novas formas de ver e atender a
família, baseando-se nas concepções, nos meios de cuidar e nas necessidades que
ela apresenta, com vistas a tornar o cuidado individualizado e pautado na
realidade.
Ao se buscar reconstruir o serviço oferecido às pessoas com HA sob a ótica dos
profissionais de saúde, observou-se que, apesar de o estudo ter sido realizado
com equipes de diferentes municípios e, por consequência, com realidades
distintas, os significados e percepções em relação ao atendimento prestado e às
dificuldades experienciadas são semelhantes em muitos aspectos. Por outro lado,
é importante considerar que as formas de trabalhar estas dificuldades são
diferentes e que a proposta metodológica adotada no estudo permitiu aos
profissionais pensar e discutir sobre a atenção oferecida aos indivíduos com
HA, como também compreender melhor suas rotinas e as necessidades do serviço.
Em relação às limitações do estudo, é importante lembrar que estes dados
integram os obtidos em um estudo maior financiado pelo CNPq, e como se trata de
um subprojeto, tivemos algumas limitações para desenvolvê-lo, entre as quais
podemos destacar o fato de o estudo matricial ter envolvido a Macrorregião
Noroeste de Saúde do Estado do Paraná, que engloba cinco regionais de saúde e
um total de 115 municípios, alguns distantes mais de 300km de Maringá. Isto fez
com que as pesquisadoras optassem por realizar a coleta de dados correspondente
a este subprojeto apenas nos municípios sedes de regional de saúde e por
realizar apenas um grupo focal em cada município. Destarte, os resultados
encontrados certamente não representam a realidade dos municípios das
regionais. Outro aspecto a considerar é a dificuldade de reunir os
profissionais da equipe para a realização dos grupos focais, em virtude da
demanda de atividades e até mesmo do desinteresse de alguns em participar do
estudo. Neste sentido nos chamou particularmente a atenção o fato de um dos
enfermeiros, apesar de presente na unidade, não querer participar do estudo. A
causa disto é que este profissional normalmente é o que mais se mostra
sensibilizado e interessado em discutir formas de melhorar a assistência que é
prestada na UBS. Também podemos considerar como limitação do estudo a
inexistência de local apropriado para o desenvolvimento do grupo focal em
algumas UBSs, o que comprometeu a disposição dos participantes em círculo e até
mesmo a gravação das falas.
Consideramos de grande importância estudos que avaliam a assistência a partir
da percepção dos profissionais. Neste estudo foi possível perceber que, quando
se pensa e discute em grupo sobre a prática cotidiana e suas dificuldades,
podem surgir novas ideias e serem propostas novas maneiras de conduzir a
atuação dos profissionais, as quais podem ser compartilhadas para melhorar o
atendimento em saúde da população.