Representações de profissionais de saúde sobre a morte e o processo de morrer
INTRODUÇÃO
As representações sociais sobre a morte e processo de morrer não resultam
apenas da finitude biológica da vida, mas constituem um processo de
interpretação socialmente construída e partilhada em diferentes contextos
históricos, sociais e culturais(1). Nesse sentido, assim como outros fenômenos
da vida social, as distintas leituras sobre o processo da morte e do morrer têm
determinado ao longo dos tempos diferentes interpretações e influenciado o modo
de seu enfrentamento, bem como as formas de assistência ao moribundo.
Na idade média em geral o fim da vida acontecia de forma natural, com o
moribundo cercado pelos entes queridos em seu leito. A morte domada(2) era
ritualizada, sagrada, comunitária e enfrentada com resignação. Existia espaço-
tempo para a construção de "sistemas de defesa contra a angústia da separação,
embasados em rituais de preparação para uma aceitação menos dolorosa, através
de todo o processo de respostas humanas ao pesar até, por fim, ao luto"(3).
Fluindo na lógica da aceitação da ordem da natureza, na qual o ser humano se
inseria na sociedade tradicional, a morte ocorria, sobretudo, devido às doenças
infecciosas, marcadas por adoecimento e morte rápida. Os escassos meios de
tratamento dessas doenças forçavam um convívio assíduo com a perda de um
familiar ou membro próximo da comunidade(4). Nesse contexto, "a morte era
vivenciada de modo mais familiar e onipresente, menos oculta, o que não
significava que se tratasse de uma experiência tranquila, uma vez que os
sentimentos religiosos de culpa e medo eram frequentes"(2).
Entretanto, o século XX testemunhou uma completa alteração na representação da
morte. Nessa mudança será terminante o progresso técnico da medicina que
possibilitou a diminuição das taxas de mortalidade. Uma medida efetiva será a
"criação de uma política de saúde, preocupada com a proliferação das mortes e
dos nascimentos, o nível de saúde e a duração da vida, fatores, que integram a
longevidade humana aos interesses da economia e das racionalidades
capitalistas"(5).
Assim sendo, as medidas de prevenção e controle social da saúde e da doença
desempenharão um importante fator de afastamento da figura da morte na vida
cotidiana e, consequentemente, na consciência individual. "A estrutura de
personalidade dos indivíduos é alterada para o esvaziamento dos rituais
seculares e um controle individual maior sobre a expressão dos sentimentos face
ao sofrimento e a morte"(4).
Nessa perspectiva, a morte moderna(2) será escondida, vergonhosa e negada;
deslocada da ordem da natureza e, agora, administrada pelo saber e pela
instituição médica. Nessa nova ordem social, o hospital passará a ser o lugar
de eleição para articular intimamente os interesses do Estado com o contexto
socioeconómico das políticas de saúde(5).
Dessa forma, os argumentos médicos e de saúde pública deslocarão o moribundo de
seu leito domiciliar para um leito no hospital. A inscrição da morte no espaço
hospitalar a retirará da categoria do sagrado(4). A ideia da finitude buscará
"fechar a angústia da morte dentro de um discurso e localizar o pensamento
sobre ela em um lugar seguro dentro da sociedade (e fora de nós)"(6).
A transferência massiva dos moribundos para o hospital transformou-o no espaço
social onde a morte se fará bastante presente e ele será "o terreno
privilegiado para desenhar os modelos de socialização dos profissionais de
saúde"(5). Entretanto, ao contrário do que se possa pensar, será no hospital
que os profissionais serão preparados para o NÃO enfrentamento da morte.
Lá serão forjadas as estratégias para controlar as manifestações emocionais dos
profissionais, pacientes e familiares, a fim de proteger a rotina institucional
que precisará ser resguardada(4). A normatização estrita e hierarquização
presentes na instituição hospitalar desenharão a pouca possibilidade de diálogo
entre os diferentes atores sociais envolvidos no processo da morte e do morrer.
Nessa lógica, nos currículos da área de formação dos profissionais de saúde, a
morte tem sido, no máximo, abordada pragmaticamente sob o ponto de vista
científico, com enfoque nos sinais abióticos. A respeito do campo das emoções,
das perturbações e mudanças que a possibilidade da morte acarreta pouco se fala
(7).
Essa lacuna na formação teórica e prática, o investimento na preservação da
vida a todo custo, a ideia de luta contra a morte e o enfoque na gratificação
da cura(8) favorecerá que "na mente do profissional, a morte signifique
colapso, falência, declínio e fracasso"(8). Esse sentimento de fracasso se
transformará em fonte constante de angústia e constituirá um objeto fóbico, a
morte será um tema tabu que deverá ser evitado(9).
Assim, estudos pioneiros sobre as práticas cotidianas da morte moderna(2) em
hospitais revelaram uma atitude defensiva da equipe institucional frente à
morte(10). De fato, ao aliar os interesses institucionais ao modelo de formação
profissional, cria-se um modelo de negação da realidade que impede o sujeito/
profissional de se defrontar com a inexorabilidade da finitude do paciente.
Nesse modelo "a assistência em saúde é impessoal, mecânica e asséptica"(4).
Por volta dos anos 70 do século XX, a crítica aos excessos de poder da
instituição médica, que desenvolveu uma assistência eminentemente
racionalizada, super medicalizada que impede a autonomia do moribundo em
consequência da submissão ao poder médico, começa a ser questionada(4).
Indivíduos pertencentes a camadas sociais de visibilidade, com engajamento
político, ideológico e social e atingido por AIDS serão, em parte, responsáveis
pela criação de um movimento de reivindicação do direito de morrer com
dignidade. Esse processo resultará na proposta de uma nova gestão do morrer,
"na qual a relação de poder entre o enfermo, sua família e a equipe
profissional seria transformada"(4).
Dessa forma, os cuidados paliativos, modelo da morte contemporânea, são
herdeiros dos movimentos em prol da causa dos direitos civis; e do movimento
New Age. O primeiro inseriu a reivindicação pelos direitos dos doentes, sua
autonomia e mudança na relação de poder médico-paciente, enquanto o segundo
incorporou na organização familiar e comportamento dos indivíduos novos
hábitos, formas de consumo e comunicação. Os valores sociais passam a fazer
parte de uma visão de mundo e práticas sociais(4).
Entretanto, transcorridas quase quatro décadas das proposições de mudanças do
modelo contemporâneo do morrer, observa-se que, durante seu processo formativo,
o profissional de saúde, via de regra, não recebe informação e treinamento
suficiente para acompanhar a morte e o processo de morrer. Assim, quando se
verifica a falência dos meios habituais de tratamento e o doente se aproxima
inexoravelmente da morte, raramente, os profissionais estão preparados para
cuidar do seu sofrimento, bem como de sua família. Esse aspecto se reflete
diretamente na qualidade da atenção prestada ao doente e sua família, sobretudo
os que estão sem possibilidades de cura, ou seja, aqueles para quem a ciência
não possui mais meios de deter a doença e o objetivo principal da assistência
deixa de ser a cura e passa a ser o cuidado da pessoa.
Dessa forma, faz-se necessário conhecer como se forjaram as representações
sociais dos profissionais de saúde acerca da morte, pois são elas que
influenciam o modo de agir e reagir do profissional frente ao fenômeno e estão
associadas a crenças e valores sociais do grupo profissional.
Diante do exposto, essa pesquisa teve como objetivo apreender as representações
sociais sobre o processo da morte e do morrer para os profissionais de saúde
que lidam com pacientes fora de possibilidades de cura.
MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa de natureza exploratório-
descritiva, baseado na fundamentação teórico-metodológica da abordagem do
conteúdo das representações sociais. O campo de estudo foi um hospital-escola
em Brasília e os sujeitos da pesquisa foram: uma nutricionista, duas
enfermeiras e dois médicos, totalizando cinco profissionais de saúde. Para
coleta de dados utilizaram-se dois instrumentos: 1) questionário de perguntas
fechadas que objetivou identificar o perfil dos participantes; e 2) a técnica
de entrevista guiada, com roteiro semiestruturado, com objetivo de apreender o
conteúdo de suas representações sociais.
As entrevistas foram realizadas entre abril e maio de 2008. O critério de
inclusão foi exercer atividades profissionais com pacientes fora de
possibilidades de cura. Após a transcrição das entrevistas, os sujeitos tiveram
acesso à leitura do manuscrito e puderam ratificar ou retificar as informações
ali contidas e todos concordaram integralmente com o conteúdo transcrito. Para
auxílio na análise do material verbal, utilizou-se o software Alceste (Análise
lexical por contexto de um conjunto de segmentos do texto)(11).
Esse software, ao analisar o corpus das entrevistas, permite, por meio de
análises estatísticas, a identificação de categorias. Os resultados
quantitativos possibilitam a interpretação qualitativa, a partir de traços
típicos das categorias entre si, na sua relação com o objeto de estudo. Assim,
buscou-se a identificação, no conteúdo das entrevistas, das classes/categorias
que possibilitassem a apreensão do conjunto das representações sociais sobre a
morte e do processo de morrer para os profissionais de saúde.
Obedecendo a legislação que regula à ética em pesquisa o protocolo foi
submetido à apreciação do Comitê de Ética da Faculdade de Medicina da
Universidade de Brasília, tendo sido aprovado sob o Parecer nº. 006/2008. Os
participantes do estudo, após concordarem em participar da pesquisa, assinaram
o Termo de Consentimento Informado.
RESULTADOS
Os cinco profissionais entrevistados tinham idade entre 26 e 32 anos. Dois
professavam a religião católica, um era espírita, um protestante e um luterano.
Após análise das entrevistas, foi possível apreender o conteúdo das
representações sociais dos entrevistados. Emergiram dois eixos, compostos de
cinco classes/categorias, apresentadas graficamente na forma de um dendograma
(Figura_1).
Na Figura_1 observa-se que as representações dos entrevistados organizam-se em
dois eixos. O primeiro eixo, composto pelas classes: 1 paliar?; 2 [sentimento
de fracasso] e 4 [assistência tecnicista], remete à dimensão do profissional
diante da morte e espelha um saber/fazer que traduz a filosofia do modelo
biomédico, base da formação dos profissionais de saúde. O segundo eixo,
composto pelas classes 3 [mecanismos de defesa] e crenças sobre a morte e o
morrer, dá destaque à dimensão subjetiva diante da morte.
Para melhor compreensão da figura, esclarece-se que o dendograma representa as
relações estatísticas, onde a força da relação entre as classes é expressa pela
proximidade dos conteúdos das falas dos participantes. Assim, os valores acima
de 0,5 dizem respeito às relações mais significativas e denominadas fortes,
enquanto que as relações abaixo desse percentual são consideradas menos
significativas e fracas. Desta forma, quanto mais próxima de 1, mais forte é a
relação.
DISCUSSÃO
Eixo 1: dimensão Profissional Frente à Morte
Nesse eixo, emergem os motivos que explicam a adoção da atitude defensiva
perante a morte na prática profissional e confirma-se o tabu social da morte.
Ganham destaque as consequências do enfoque fragmentado e tecnicista do modelo
biomédico, que privilegia a atenção à doença e à cura em detrimento do cuidado
ao enfermo.
Pode-se se deduzir, pela forte relação existente entre as classes 1 [paliar?] e
a classe 2 [sentimento de fracasso], que o modelo curativo forja um tipo de
saber/poder manifestado por uma assistência burocrática e uma linha de
autoridade que desenha o mito do poder de salvar vidas. Não obstante, diante da
morte, o profissional experimenta o sentimento de fracasso.
Observa-se ainda, que a relação (0,5) existente entre a classe quatro (fig.1) e
o conjunto composto pelas classes um e dois (fig.1), confirma que, para se
proteger da angústia frente à morte, a prática cotidiana do profissional se
ancora nas normas da instituição hospitalar e na assistência baseada na
técnica.
Dessa forma, evidencia-se um processo de alimentação e retroalimentação de
negação da morte. Nesse ciclo, as fases do poder/saber biomédico, muito embora
não funcionem separadamente, não sejam redutíveis um ao outro, nem se definam
por referência recíproca, fecundam-se mutuamente(5).
A seguir, passaremos à discussão das classes que emergiram no eixo 1.
Cuidados Paliativos?
Quando questionados sobre o conhecimento do Programa Nacional de Assistência à
Dor e Cuidados Paliativos(12), os entrevistados demonstraram possuir limitado
conhecimento sobre o tema.
Não saberia te dizer certinho do que trata, mas sei que ele fala de
como a equipe deve agir com os pacientes nestas condições, fala do
cuidado de forma humanizada, visando atender as necessidades do
paciente. (P-5)
De maneiras de agir com pacientes com dor e câncer? Não sei. (P-4)
Já. Só não sei direito do que trata, nunca li. (P-6)
Na contramão da abordagem biologicista, a filosofia paliativista parte do
princípio de que, se não for possível curar, sempre é possível cuidar. Assim,
do silenciamento e da exclusão dos moribundos, o ideal paliativista confere voz
e valoriza o desejo dos enfermos. Assim, no modelo de morte contemporânea o
lema de ordem passa a ser a comunicação "se você pode, nem que seja por alguns
minutos, sentar-se ao lado de seus pacientes e permitir-lhes falar sobre o que
sentem, terá feito o bastante"(13).
Nessa linha argumentativa, o principal objetivo da abordagem paliativa é
propiciar uma melhor "qualidade de vida" para o doente e seus familiares. Os
Cuidados Paliativos constituem uma modalidade terapêutica integrada e
multidisciplinar e configura-se como uma tecnologia leve de alto impacto
interpessoal que busca resgatar a humanização perdida nas modernas ações de
saúde. Estudos sinalizam que o que mais importa aos pacientes são os elementos
vivos da base do núcleo cuidativo, ou seja, ser acolhido com responsabilidade e
verdadeiro vínculo de afeto(14).
A partir do extrato da fala dos entrevistados, foi possível aprender que eles
demandam por uma educação continuada que lhes permita prestar uma assistência
mais humanizada.
Acredito que se ela fosse mais difundida a qualidade dos serviços
prestados a esse tipo de paciente seria melhor. (P-3)
Sim, acho que deve mais difundida. Não digo nem pela mídia, mas
dentro do próprio hospital. (P-6)
Está posto que o avanço da tecnologia médica de diagnósticos e tratamento cada
dia mais sofisticados, não detém o adoecer, o envelhecer e o morrer. O
prolongamento da vida em tempo não é garantia de qualidade. Assim, não se pode
justificar a ausência da discussão da morte e do paradigma do cuidar na
formação dos profissionais da saúde.
Nesse contexto, a filosofia paliativista favorece a oportunidade de
amadurecimento profissional, dada pela consciência de sua limitação diante de
uma enfermidade, estimula a adoção de atitudes compassivas de zelo e atenção
que resultam em gratificação no cuidado ao moribundo e seus familiares,
minimizando o sofrimento do profissional perante a morte(15).
O sentimento de fracasso
Nessa classe, o discurso dos entrevistados ratifica que, no modelo de formação
vigente, uma situação de morte em geral é interpretada como um teste à
competência do profissional, fato gerador de sofrimento. A questão central é
que o modelo biomédico ensina a tratar da doença e não a cuidar das pessoas,
sendo assim, não abre espaço para que o aluno compreenda que o ser humano está
geneticamente programado para morrer. É preciso fazer compreender que "fatores
como a doença, acidentes, catástrofes, guerras etc., apenas aceleram a morte.
Quando a atribuímos apenas a esses fatores negamos que a morte vem, em última
instância, de dentro do ser humano"(16).
Além disso, a tradição da ética médica brasileira é focada em valores
humanitários de tradição secular do respeito absoluto à vida. Entretanto, nesse
universo secular, a própria morte e a dor muitas vezes são percebidas como sem
sentido e, à medida que a vida escapa do controle médico, é interpretada como
fracasso(17). Essa concepção é estendida aos outros membros da equipe de saúde,
uma vez que o modelo biomédico serve de base para a formação da área.
A equipe ficou muito chateada e o cirurgião inconformado. Ele dizia:
'como isso aconteceu comigo?' Pela primeira vez na vida me senti uma
impotente. Não sabia o que fazer o que dizer como ajudar. Fiquei em
estado de choque e sem reação. Depois que levaram o corpo, tive de
dar a notícia para a família, porque a equipe decidiu que eu era a
mais capaz naquele momento. Foi péssimo!. (P-3)
Lembro que fiquei extremamente triste e com uma sensação de fracasso.
Não havia nada que pudesse fazer. Putz, como foi ruim! Mesmo com todo
conhecimento espírita, estava me sentindo um fracassado. Encarei da
pior maneira possível e foi ruim para superar. (P-2)
Como fator agravante, observa-se que o mito do médico "sabe tudo" "salvador de
vidas", não encontra ressonância na realidade da prática cotidiana. A
diversidade das doenças e organismos humanos instaura um natural sentimento de
insegurança sobre condutas e procedimentos a serem tomados. Por outro lado, o
mito do salvador é reafirmado pela expectativa social, pois muitos pacientes
têm medo de morrer, caso não obedeçam às ordens médicas(08).
Outra questão importante, a ser levada em conta, quanto ao sentimento de
fracasso na atual prática profissional diz respeito à alteração entre as
fronteiras entre a morte e o morrer, propiciadas pelas técnicas de manutenção
da vida. A partir delas, "a definição da morte revela-se circular, ligada à
ação do médico, que tanto pode decidir interromper os cuidados como pode
empreender esforços de reanimação. É, portanto, no mesmo momento em que se
afirma um amplo poder médico, que surge a sua fragilidade(4)".
Dessa forma, a discussão sobre a finitude da vida humana é imprescindível para
compreender os sentimentos, os anseios, os medos e inquietações dos aprendizes
e profissionais. O estresse negativo crônico favorece o adoecimento e pode
levar à Síndrome de Burnout. Essa síndrome, definida como a síndrome do
esgotamento profissional, manifesta-se por três componentes: a exaustão
emocional, a despersonalização e a falta de comprometimento com o trabalho(09).
A exaustão emocional caracteriza-se pela redução dos níveis de energia para a
realização de determinadas tarefas, ocorrendo um desgaste físico e ou psíquico.
A despersonalização acarreta a perda de sensibilidade no trato consigo mesmo,
colegas e pacientes. A falta de compromisso com o trabalho revela-se por um
sentimento de inadequação pessoal e laboral, levando à perda da identidade
profissional(09).
Diante desses aspectos, deduz-se que, na formação profissional, importam meios
de ensinamentos que favoreçam a incorporação do desenvolvimento de habilidades
cognitivas, afetivas e emocionais. O sofrimento da equipe não pode ser
mascarado por uma atitude defensiva que se justifica pelo cumprimento de
normas, técnicas e rotinas, que findam por resultar numa abordagem tecnicista
da assistência e cuidado em saúde.
A prática tecnicista
Nessa classe o discurso dos entrevistados naturaliza o discurso racional da
ciência, pautado no construto teórico-prático dos conhecimentos da
anatomoclínica, da fisiopatologia e da genética médica, que compõem o universo
do paradigma cientifico-tecnológico em saúde. Os profissionais validam esse
tipo de saber/fazer/saúde como o melhor modo de produzir o cuidado em saúde a
ser oferecido.
A lógica do modelo biomédico aplicado à formação propicia a criação de fatores
que impedem a prática do cuidado, a saber: distanciamento dos interesses dos
profissionais e dos pacientes; desconhecimento da importância das práticas de
saúde de outros profissionais, o que dificulta o trabalho em equipe; e
predomínio das modalidades de intervenção centradas nas tecnologias duras, a
partir de um saber estruturado e reduzido à produção de procedimentos técnicos
(06).
Nesse enfoque, pode-se afirmar que a representação tecnicista do cuidado "não
produz o Cuidado, ou seja, é necessário trazer para o momento do encontro entre
profissional e usuários, o sentido existencial da experiência do adoecer e das
práticas de saúde"(19). A linha de autoridade imposta na relação corrobora que
o ato de cuidar é sempre considerado secundário, quando comparado à técnica e
ao procedimento.
O médico é um técnico, que deve ter sua postura ética e equilibrada,
para passar a notícia de forma mais rápida e direta possível.
Portanto, eu seria o mais franco e sincero possível, independente da
reação deles. (P-5)
Como se sabe, o processo de formação tem dois momentos de aprendizagem: a
teoria e a prática; "do ponto de vista técnico, o assunto morte, em geral, não
é discutido na graduação e, no trabalho prático, ele é, quase sempre,
desqualificado".(19).
O discurso dos entrevistados não deixa dúvidas quanto à necessidade de uma
preparação dos alunos para lidar com a morte
Na faculdade, nem gente morrer eu vi nos estágios. Não. As matérias
não falavam de morte e os professores não conversavam com a gente
sobre isso. (P-4)
Que eu me lembre, apenas nesses momentos. De jeito nenhum, até
porque, como te falei, a gente nem fala nisso direito. (P-6)
Os entrevistados referiram que é no exercício da prática que eles se depararam
com a morte, fato que interfere no diagnóstico, tratamento e gestão humanizada
dos cuidados, criando um entrave no estabelecimento de uma relação efetiva
entre profissionais, pacientes e familiares.
O que a gente aprende é na prática, encarando a perda de frente. E eu
ainda tenho dificuldades com isso. (P-6)
Vale ressaltar que a associação do modelo centrado na clínica curativa
associado ao tabu social da morte, favorece a adoção da obstinação terapêutica
ou abandono do paciente. Em ambos os casos, a morte social antecede a morte
biológica, agravando o sofrimento de pacientes, familiares e profissionais.
Eixo 2: A dimensão Subjetiva Frente à Morte
Nesse eixo a força da relação existentes entre as classe 3 [mecanismos de
defesa] e a classe 5 [crenças religiosas] corrobora que "comumente, o modo de
enfrentamento da morte dependerá da interação entre as crenças religiosas
introjetadas durante a vida do individuo e a intensidade e qualidade dos
mecanismos projetivos utilizados"(16).
Aqui emergem as crenças, valores e significados dos entrevistados acerca do
processo da morte e do morrer e as formas individuais de proteção frente à
finitude.
As crenças sobre a morte e o morrer
Nessa classe comprova-se que as crenças acerca da morte e do processo de morrer
guardam estreita relação com os dogmas religiosos dos entrevistados. Todas as
religiões registram a crença da existência de vida após a morte. Duas fantasias
coexistem nessa crença: a primeira diz respeito à existência de um mundo
paradisíaco, regado pelo princípio do prazer e onde não existe sofrimento; a
segunda faz referência a um mundo de sofrimento e lamentações traduzidas pela
imagem do inferno.
Assim, "o axioma fundamental é que a morte não aniquila o ser humano; ela abre
as portas para um além, para outra vida: inferno ou céu"(6). Pesquisa realizada
sobre as vivências da enfermagem com a morte ratifica a "existência de vários
elementos e concepções espirituais; alguns creem que o espírito fica vagando;
outros, que a alma vai para um descanso, eterno, onde permanecerá para sempre"
(20).
Sendo assim, as diferentes crenças parecem conduzir à mesma finalidade: "morte-
passagem; morte-libertação; convívio-eterno-com-o-criador; ressurreição;
reencarnação; morte fecunda...", ou seja, a crenças unificam-se na ideia de
passagem de um mundo a outro(6).
Na linha do imaginário social, para os sujeitos desse estudo, a morte foi
representada como uma passagem para um lugar melhor.
Em minha concepção, morte não existe. Apenas perdemos o corpo físico,
sendo que nosso espírito continua vivo, apenas em outro plano.
Acredito que esta perda faz parte de nossas vidas. (P-2)
Penso que a morte é apenas o fim da vida. É o momento em que chegamos
ao fim da linha, terminamos nossa missão na terra. É uma passagem
para outro universo habitado por Deus. O processo começa no dia em
que nascemos e termina no dia em que morremos. (P-3)
O extrato das falas corrobora ainda que, apesar da separação da filosofia
religiosa do discurso laico da ciência, o elemento transcendente permanece vivo
e permeia a existência do humano, como fundamento da vida, independente da
escolaridade da pessoa.
Vejo o lado biológico que é a parada dos sistemas e a perda do que
conhecemos como vida e o lado religioso que acredito ser quando vamos
para um lugar melhor que a terra, ficando aqui apenas o corpo que não
precisamos mais. (P-4)
Deduz-se que, do ponto de vista individual, a crença na transcendência humana
parece construir um sentido para a morte, amenizando a dor e sofrimento da
prática profissional a partir da própria consciência da morte.
Mecanismos de defesa
Teoricamente a morte pertence às chamadas categorias irrealizáveis, ou seja,
categorias que incluem as experiências que não podemos antecipar e nem imaginar
em nós mesmos(3).
Então, a morte representa o nada e, para o ser humano pensante, a morte coloca
a questão de que ele - o sujeito pensante - morre e se transforma em nada(6).
"Ora, se o nada é insuportável, a mente precisa usar estratégias para que esse
sentimento insuportável deixe de o ser(18) ". Para esse fim são acionados
diversos mecanismos de defesa, ou seja, artifícios mentais inconscientes
utilizados para evitar que fatos, ideias, fantasias ou sentimentos penosos
sejam vivenciados(18).
Numa sociedade marcada pela busca do prazer imediato, a rapidez e o consumo, é
previsível que a negação da dor, do sofrimento e da morte se integre. Essa
ideia é asseverada na proposta de assepsia ambiental dos hospitais e se estende
aos aspectos emocionais, propiciando a interdição da expressão dos sentimentos,
para que não haja contágio emocional(4).
Sendo assim, entre os entrevistados, verificou-se certa predominância do
mecanismo de negação, embora a racionalização também se faça presente.
Foi possível inferir que os profissionais se protegem de uma maior vinculação
com o moribundo. Mesmo frente à eminência de sua morte, articulam um discurso
racional de que dispensam uma assistência desprovida de preconceitos.
Tenho que tratar como se fosse um paciente que tivesse em condições
de recuperação, mas tenho de ter certeza que ele não ficará comigo
muito tempo. Só assim para aceitar e entender. Trato ele como se
fosse um paciente em condições de recuperação, não tem porque o
atendimento ser diferente. (P-1)
A única coisa que faz diferença para mim é o fato de não ter muito
que se fazer. Mas ali ainda existe um espírito, que merece ser
cuidado e um corpo que também não pode ser menosprezado. (P-2)
Vale ainda, ressaltar, que a exclusão das emoções no processo formativo, por
vezes, é transformada pela racionalização, numa técnica necessária para o
efetivo desempenho profissional. Essa pretensa, neutralidade busca justificar o
distanciamento interpessoal dos moribundos e seus familiares(18).
Não trato mal, mas também não trato como os outros. Morro de medo de
estar com ele e ele vir a óbito. Tento, então, ser rápida em meus
procedimentos e evito conversar muito. (P-3)
Encaro como uma coisa normal; vou cuidar dele como qualquer outro já
esperando que a qualquer hora ele possa morrer. (P-4)
É possível afirmar que o tabu social da morte, coligado ao modelo formativo,
constitui uma barreira à prática de um cuidado humanizado. As representações
acerca da transcendência da alma e a utilização dos mecanismos de defesa não
constituem fator suficiente e eficaz para uma prática satisfatória.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados explicitam que as representações sociais sobre a morte e o
processo de morrer são forjadas a partir do modelo de formação profissional e
das referências individuais sobre o fenômeno da morte. O eixo da dimensão
profissional evidenciou que, durante a graduação, os alunos são treinados para
prevenir, curar e salvar vidas, naturalizando a assistência tecnicista como a
única forma de "cuidado".
Ratificou-se que raramente, ao longo do curso, é criada a oportunidade de
refletir sobre a perda dos pacientes e o impacto desse fato no processo de
formação e na vida pessoal dos alunos. Como consequências, eles não são
estimulados a identificar seus sentimentos e reações emocionais, bem como, os
dos pacientes e familiares diante do processo de adoecimento e morte.
Dessa forma, a morte não assume sentido no fazer profissional, resultando numa
prática eminentemente tecnicista que favorece o sentimento de fracasso e
condições para a instalação de doenças ocupacionais. Ficou comprovado, ainda,
que os esforços empreendidos na difusão de um novo modelo de gestão do morrer
não alcançaram as condições necessárias para sua efetiva implementação como
prática de cuidado.
Conclui-se pela necessidade de as instituições formadoras investirem na
capacitação dos alunos visando à formação não apenas no desenvolvimento de
habilidades técnicas assistências. É necessário aprender também a desenvolver
as habilidades interpessoais de empatia, congruência, acolhimento e diálogo,
elementos fundamentais para o cuidado humano, sobretudo diante a morte.
Para finalizar, fica o alerta de que é possível que a associação entre a lógica
biomédica e os interesses institucionais, na sociedade capitalista, não
favoreça apenas a perda do núcleo cuidativo do aprender/ fazer/saúde, mas da
própria humanidade dos que a praticam.