Cuidado em saúde mental: a escuta de pacientes egressos de um Hospital Dia
INTRODUÇÃO
Considerando o evoluir histórico da atenção em Saúde Mental, vê-se que a lógica
a orientar a atenção nessa área tem como eixo central a inclusão social, a
partir da compreensão do transtorno mental enquanto fenômeno complexo e
histórico, permeado por dimensões psicossociais, determinantes do processo
saúde-doença. A Saúde Mental tem se transformado e se apresenta como campo de
conhecimento complexo, solicitando práticas plurais que contemplem a
diversidade da demanda.
É neste sentido que Saraceno(1) propõe que as práticas de intervenções em Saúde
Mental tenham como foco a articulação entre pacientes, serviço e contexto.
Sendo assim, a Reabilitação Psicossocial é vista não como técnica de
tratamento, mas como estratégia que possibilite a recuperação da capacidade do
indivíduo em gerar sentido e, consequentemente, valor social, restabelecendo
sua contratualidade enquanto cidadão. Portanto, a Reabilitação Psicossocial é
definida como um processo que implica à possibilidade de espaços de negociação
para o paciente, a família, a comunidade circundante e para os serviços que se
ocupam da assistência, com o objetivo de aumentar a capacidade contratual das
pessoas atendidas.
As ações governamentais se estruturam no sentido de redução progressiva dos
leitos psiquiátricos, qualificação, expansão e fortalecimento da rede extra-
hospitalar. É proposta a articulação de uma rede de atenção à Saúde Mental de
base comunitária, com potencial de construção coletiva de soluções, como forma
de garantia de resolubilidade e de promoção da autonomia e da cidadania às
pessoas com transtornos mentais. Dados do Ministério da Saúde(2) apontam para
uma redução gradual do número de leitos psiquiátricos no período entre 2002 a
junho de 2009, passando de 51.393 para 35.426 leitos. O número de beneficiários
do Programa de Volta para Casa tem aumentado, consideravelmente, passando de
879, em 2004, para um total de 3346 beneficiários até junho de 2009. Isso
representa que um grande número de pacientes, com histórias de internações
anteriores, passa a receber assistência neste novo sistema, emergindo a
necessidade dos serviços e dos profissionais buscarem o cuidado que dê conta
das exigências desta demanda que traz a "doença humanizada". Neste sentido,
desinstitucionalizar é "ultrapassar fronteiras sanitárias, enfrentar o desafio
da intersetorialidade e do trabalho em rede, o que implica na adoção de modelos
de atenção integral de base territorial"(0).
Apesar destes avanços, a assistência em serviços substitutivos apresenta
problemas a serem enfrentados. A baixa integralidade entre os serviços é
frequentemente citada(3,4). Juntamente com a dificuldade de comunicação e de
informação acerca das pessoas assistidas, dificulta o acompanhamento dos
subjetivos percursos marcados pela experiência do transtorno. Como
consequência, ocorre um entrave no envolvimento dos serviços que oferecem
assistência, havendo assim apenas o encaminhamento entre equipamentos. Desse
modo, cada serviço, em meio à competência e ao nível de assistência que
oferece, dá sua parcela no processo de cuidado, concede alta e o encaminhamento
para continuação do tratamento, e daí para frente desconhece o itinerário de
cada pessoa anteriormente assistida. Tal fato pode contribuir para o processo
de objetivação do paciente, pois esse é conduzido a uma dinâmica de
encaminhamentos ao longo do percurso do tratamento, sendo que nesse processo,
os serviços isolados, fechados em suas rotinas, carentes de comunicação entre
si, não realizam a integralidade necessária.
O processo de transformação da assistência em Saúde Mental, e a prática de
trabalho neste contexto, que busca cuidar da pessoa em sofrimento psíquico, nos
conduz a questionamentos: como a pessoa que vive a experiência da doença mental
vivencia as mudanças decorrentes da transformação da assistência em saúde
mental, e como está inserida neste novo contexto de transformação assistencial?
E após o término do tratamento em um serviço substitutivo ao modelo manicomial,
como vivenciam a inserção na sociedade? O serviço trouxe alguma melhoria para a
vida dessas pessoas? Quais cuidados estão recebendo e em quais serviços de
saúde estão? Neste trabalho procuramos investigar estas questões, que são de
grande interesse para a Psiquiatria no contexto atual.
Acreditamos que a aproximação da perspectiva do sujeito que passou pelo
tratamento e alta num serviço especializado possibilita a ampliação da
compreensão do possível processo subjetivo de inserção social. Consideramos que
nessa dinâmica, trajetórias são protagonizadas e estratégias se organizam,
produzindo um saber que dificilmente pode ser captado na rotina dos serviços de
saúde. Além disso, possibilita a reflexão sobre a própria prática assistencial,
propiciando futuras intervenções. Desse modo, procuramos, na pesquisa aqui
relatada: compreender como os pacientes egressos de um Hospital Dia de Saúde
Mental veem o serviço; conhecer se o tratamento neste serviço contribuiu para
mudanças na vida dos pacientes egressos; e apreender se as pessoas egressas têm
continuidade ao tratamento.
MÉTODO
Utilizamos a abordagem qualitativa de pesquisa na tentativa de compreensão do
significado dos fenômenos(5). Fazem parte deste estudo nove pacientes,
residentes no município de Botucatu, interior do Estado de São Paulo, que
concluíram o tratamento proposto no Hospital Dia de Saúde Mental da
Universidade Estadual Paulista (UNESP), no ano de 2008. Com o propósito ético
de manter o anonimato, escolhemos nomes de pássaros para identificá-los.
A coleta de dados se deu no período de junho a início de agosto de 2009, após
aprovação pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu,
em ofício 524/08-CEP. Os dados foram coletados por meio de entrevistas
semiestruturadas, norteadas por um roteiro de perguntas e busca documental, no
prontuário dos sujeitos. As entrevistas foram realizadas pela pesquisadora
durante as visitas domiciliares, mediante assinatura do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido, considerando os procedimentos éticos exigidos, foram
registradas em fita K7, garantindo a fidedignidade dos depoimentos durante a
sua transcrição.
Adotamos a Análise Temática para a ordenação e análise dos dados obtidos,
considerando as etapas: a) transcrição na íntegra das entrevistas; b) leitura
flutuante do material transcrito; c) elaboração dos eixos temáticos e seus
respectivos núcleos de sentido(6). Procedemos a análise com base no referencial
da Reabilitação Psicossocial(1).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Caracterização dos sujeitos
Fazem parte do estudo cinco homens e quatro mulheres, com idades entre 24 a 56
anos. Apesar de jovens, apresentam, em geral, histórias longas de adoecimento
psíquico. A maioria foi encaminhada ao tratamento no Hospital Dia de Saúde
Mental por serviços ambulatoriais. O tempo de permanência no serviço variou de
30 a 193 dias. Considerando que o tempo médio de tratamento no serviço é de 60
dias, temos neste estudo sujeitos, que devido às demandas excepcionais,
permaneceram no serviço, por um tempo superior a esta média. Após a alta do
Hospital Dia, todos foram encaminhados para seguimento em outros serviços do
município.
1º Eixo Temático: Possibilidades No Hospital Dia
Neste, apontamos para os sentidos da assistência vivenciada por nossos sujeitos
no Hospital Dia. As categorias constituintes deste eixo temático são
apresentadas a seguir:
Resgate da vida anterior
Os sujeitos falaram sobre o impacto do adoecimento em suas vidas e as
consequentes repercussões nas relações familiares, sociais, e de trabalho. Nos
discursos, destacam o sofrimento causado pela cisão nas trajetórias de vida,
nos projetos, nos desejos, como se a vida deixasse de ter sentido, devido às
causas e consequências impostas pelo próprio adoecimento psíquico.
É, trabalhava muito, eu trabalhava quase que dia e noite, e tudo que
eu ia fazer, que eu faço, eu quero fazer direitinho... Então, a
situação chegou num ponto que...que eu fui...que eu percebi que
eu...já estava, não estava dando conta mais do recado, entendeu?.
Então, quando o chefe falava para mim, ah...passava dois, três
serviços, eu, eu, eu corria lá no quartinho meu e já estava marcando
num papelzinho, que eu não conseguia mais guardar na cabeça, não
conseguia guardar... (João de Barro)
Observamos em todos os depoimentos uma relação complementar entre o "não estar
bem" e o rompimento com as rotinas da vida anterior ao adoecimento, onde a
perda da capacidade de gerar sentido emerge como um dos motivos pelo qual estes
sujeitos solicitam a ajuda do serviço e apresentam desejos de poderem resgatar
a própria vida.
As formas através das quais o paciente pode perder sua capacidade de produzir
sentido são variáveis, como: não poder mais gerar trabalho, não poder mais
gerar relações afetivas com o cônjuge, não poder mais gerar relações com seus
filhos, não poder mais gerar relações e trocas sociais. Neste momento, o
paciente necessita de ajuda e os serviços devem estar sensibilizados para
entenderem suas necessidades, suas demandas e possibilidades, a partir de
exercício contínuo onde se deve pensar mais sobre as vidas reais dos pacientes
e as vidas reais dos serviços(1). Isto nos remete à reflexão de que as
variáveis que determinam a evolução de uma doença mental estão parcialmente no
tratamento que o sujeito recebe, mas também no tipo e na organização do próprio
serviço que o atende.
Os sujeitos relatam suas percepções sobre a importância da variável serviço
enquanto determinante da evolução das consequências que o adoecimento psíquico
trouxe para suas vidas. Nas narrativas, o Hospital Dia é visto como um serviço
que possibilitou o resgate da vida anterior ao adoecimento, um lugar onde
encontraram acolhimento necessário para iniciar o processo de se refazerem
novamente, sentiram-se ajudados nas demandas e, portanto, fortalecidos para a
efetivação de mudanças em suas vidas.
...se eu não tivesse passado pelo Hospital Dia eu acho que eu estava
numa situação bem mais difícil, né. Eu acho que eu não teria
conseguido... me refazer de novo. (Beija-flor)
Para estas pessoas, o serviço contribuiu para que mudanças fossem efetivadas em
suas vidas. As narrativas apontam a existência do processo de resgate da vida
anterior, o restabelecer trocas afetivas e sociais, de retomarem as atividades
e a autonomia, enfim, de organizarem suas próprias vidas e sentirem-se
inseridos na sociedade.
Neste sentido, um elemento que apareceu com frequência nas narrativas é a
restituição da condição de realizar tarefas, vistas como importantes, exercendo
a autonomia e percebendo as próprias condições. Nossos sujeitos relatam a
importância das tarefas de organização da casa, de atividades de lazer, de
retornar aos estudos.
Agora eu consigo, pelo menos em casa, fazer alguma tarefa em casa...
É, eu ajudo minha mãe limpar a casa, assim, lavar a louça (Andorinha)
Eu retomei a faculdade que eu faço, eu retomei alguns estágios fora
da faculdade, eu retomei alguns estágios na faculdade, eu retomei
aula de guitarra que eu faço, eu retomei aula de inglês... (Sabiá)
Percebe-se que cuidar do espaço em que se vive é condição primordial como
garantia de responsabilidade e independência. A divisão das tarefas de casa
solicita trocas e podem promover a inserção das pessoas em seu núcleo familiar
enquanto participantes ativas das rotinas que compõem a vida doméstica.
Dentre as diversas atividades da vida social, estão incluídas as atividades de
lazer, que se opõem à apatia e possibilitam aos indivíduos a apropriação de
assuntos que podem ser compartilhados(7). Os sujeitos ouvidos valorizam as
atividades de lazer no resgate de uma vida com sentido, sugerindo que estão
retomando capacidades de desejar, de terem iniciativa, de poderem escolher o
que lhes faz bem na vida.
O que eu gosto de fazer, diariamente, de manhã, de manhã cedo, hora
do almoço, de tarde, fazer exercício, ficar andando assim lá em volta
do campus, lá em volta da quadra, em volta do salão, só que eu não
corro, só ando normal. (Curió)
A desabilitação é também empobrecimento da rede social, ou seja, dos lugares
nos quais as trocas são possíveis, por meio de perdas qualitativas e
quantitativas, inclusive no núcleo familiar. O fortalecimento das habilidades
em melhorar as trocas sociais é percebido nas falas dos sujeitos, também
enquanto fator positivo de mudanças em suas vidas.
"Eu nem cumprimentava as vizinhas... Agora, qualquer coisa a gente
está conversando, sai, vai andar com as vizinhas, vai fazer alguma
coisa..." (Cacatua)
Considerando que a doença mental traz como consequências o estigma e o
isolamento social, transitar nos espaços urbanos é a possibilidade de
construção de uma rede de sustentação de trocas afetivas, quando as pessoas têm
a oportunidade de mostrar suas capacidades e utilidades(8).
No entanto, as dificuldades e os desafios estão presentes nos discursos de
nossos sujeitos, onde cada um relata de maneira diferenciada, encontrando
recursos para lidar com as situações difíceis. Rouxinol demonstra consciência
de seus sentimentos e de sua realidade, mostrando-se protagonista do processo
vivido.
Eu não sei por quê... porque que eu não consigo reagir, ou porque ajo
de outra forma, eu não sou uma pessoa de palavras, para agredir
palavras, então me calo e aquilo ali me faz mal. Você entendeu? Fora
o dia que... estou tendo ainda que fazer bastante esforço para lidar
com a minha realidade, porque ... estou sozinha... (Rouxinol)
As desavenças e desarmonias familiares também são trazidas. Entendemos que
estas desarmonias produzem sobrecarga emocional e, podem ser fatores
determinantes na piora de sintomas ou consequentes do próprio transtorno
mental. Curió tenta se afastar quando os desentendimentos estão presentes, com
medo de perder o controle, elabora sua estratégia de proteção.
...por causa do meu cunhado que estava bêbado ontem, chegou bêbado,
ele queria provocar, não provocou eu, provocou ela, (aponta para sua
irmã) eu saí vazado, antes de provocar eu saí, ó, se não eu bato,
brigo com ele, aí ele xingou eu, começou a xingar... (Curió)
As narrativas de Rouxinol e Curió nos remetem à importância de espaços de
acolhimento, tolerância e convivência com aquilo que na vida subjetiva
encontra-se na ordem do intratável, do sofrimento inevitável, do que não tem
remédio nem nunca terá, além dos recursos terapêuticos para diminuir o
sofrimento psíquico(9), solicitando uma abordagem atenta às várias dimensões da
vida humana(10). Enfim, parece que a vida mudou, porém nem tudo ainda foi
alcançado. No entanto, os desejos de mudanças e projetos futuros são
identificados no discurso de Calopsita, que apresenta como principal
perspectiva o retorno ao trabalho.
Então, eu não estou muito segura para trabalhar. (Silêncio) Eu penso
em trabalhar, mas eu tenho medo ainda...Ah, de não conseguir
trabalhar, de dar errado... (Calopsita)
O Ministério da Saúde(11) aponta que as associações de usuários que se
constituíram ao longo do processo da Reforma Psiquiátrica, têm manifestado a
necessidade de projetos de trabalhos articulados com a rede de serviços. Assim,
inclusão social pelo trabalho no campo da Saúde Mental, tem encontrado na
economia solidária a possibilidade de propostas concretas.
Percebe-se que as vidas das pessoas se desestruturam com o adoecimento
psíquico, mas, também se vê que ações transformadoras podem possibilitar o
resgate da vida anterior. Além disso, apesar da dificuldade existente na tarefa
de mudar, as pessoas deste estudo não desistiram.
Local de acolhimento
As narrativas demonstram que os sujeitos veem o Hospital Dia como local
continente ao sofrer psíquico, onde recebem acolhimento. A etimologia da
palavra aponta que acolhimento é o ato ou efeito de acolher, recepção, atenção,
consideração, refúgio, abrigo, agasalho(12). No entanto, o acolhimento na
saúde, como produto da relação trabalhadores da saúde e usuários, vai além
deste conceito, passando pela consideração da subjetividade, escuta das
necessidades do sujeito, processo de reconhecimento e responsabilização entre
serviços e usuários, além de possibilitar a construção do vínculo(13).
Os sujeitos referem que o serviço possibilitou o entendimento de suas próprias
condições. O aceso às informações aumenta a participação das pessoas no
processo de tratamento, promove autonomia e cidadania.
E através desse Hospital Dia, do tratamento que eu recebi lá, eu
pude... eu pude ter ideia do que estava acontecendo comigo. Eu
comecei a entender que eu precisava mesmo do tratamento... (João de
Barro)
O sucesso do tratamento encontra-se diretamente relacionado ao modo de como o
paciente compreende sua doença e o que faz a partir disto(14). Para os
sujeitos, o serviço ofereceu um "bom tratamento", pois percebem que suas
necessidades foram acolhidas, a consideração da subjetividade esteve presente
na dinâmica do cuidado. Neste sentido, Beija-flor refere:
...eu fui tratado muito bem. Todos os exames de que foi necessário
fazer na minha pessoa foi feito.. Todas as coisas que foi necessário,
fizeram por mim, eu tive uma recuperação porque, teve um tratamento
bom, tive um tratamento bom... (Beija-flor)
Considerando o cuidado ampliado no atendimento na área da Saúde Mental, o
acolhimento do paciente, encontra-se além de estar do outro lado de uma mesa,
observando seu comportamento, mas estar disposto a recebê-lo e estar com ele na
situação, participando, tentando apreender um código desconhecido(05). No
entanto, nas falas de Sabiá percebe-se a vivência com práticas de cuidado
pautadas no modelo manicomial das instituições psiquiátricas tradicionais, onde
o cuidado é fragmentado, as relações de poder disciplinar estão estabelecidas e
se traduzem por meio de condutas invasivas e violentas.
Ah, eu acho muito bom, porque... eu saí de uma atmosfera ruim, que
era a primeira internação no Cantídio e fui para um lugar melhor, que
você não fica tão tenso,... Se existisse Hospital Dia que pudesse
dormir lá mesmo eu acharia que seria uma boa ideia... do que passar
por internação, a gente tem que ficar amarrado, as pessoas são
agressivas, você toma remédio, muita injeção, sem motivo, aparente...
(Sabiá)
Observamos que Sabiá requisita para seu tratamento, um "lugar melhor", outro
tipo de cuidado, onde possa encontrar espaço de escuta e acolhimento para o
sofrer. Por outro lado, Andorinha que nunca esteve internada em um Hospital
Psiquiátrico e tem como referência de tratamentos anteriores os serviços
ambulatoriais, sugere certa "dependência" do serviço.
...eu chego a sentir falta de lá, assim, na época eu senti medo de
sair de lá, eu me senti muito segura lá dentro, assim, sabe...
(Andorinha)
Assim como Rouxinol que tem a experiência de tratamento em instituição
psiquiátrica.
Bom... Foi de grande ajuda, porque do tempo que eu cheguei lá, pelo
que eu me recordo, eu não estava bem mesmo. Aliás, eu estava bem ruim
...E, tanto que no tempo que eu saí, eu saí bem de lá, mas... aqui
fora é muito diferente de estar lá. (Rouxinol)
Assim, a vida que é produzida dentro dos serviços parece não se estender à vida
externa(06). Diante disso, parece necessário que o serviço esteja atento a esta
forma de dependência, que sutilmente pode se instalar no processo de cuidado.
Trata-se, portanto, de investir em cuidados que possibilitem ao indivíduo
atuação e exercício de autonomia nos vários cenários da vida. Estar atento e
cuidar desta situação é importante para o processo de enfrentamento das
múltiplas demandas sociais.
O sentimento de ter sido acolhido também aparece, tendo como pano de fundo o
tratamento medicamentoso, porém, destaca-se a necessidade da consideração da
subjetividade, no sentido de que a medicação é considerada um instrumento
facilitador de inserção social. A terapia medicamentosa realizada com critérios
e cuidados é valorizada pelos sujeitos.
... é bom porque ele ajuda na diminuição dos remédios, porque você
está, com uma alta...um alto...tomando bastante remédio e meio que te
facilita para viver em sociedade, assim. (Sabiá)
Compreende-se que as atividades realizadas no serviço pesquisado são
componentes necessários do tratamento. Os discursos mencionaram as atividades
que possibilitam o exercício de rotinas da vida diária, como tempo para dormir,
para se alimentar, se relacionar, ter lazer. Isso nos aponta para a reflexão da
importância dos espaços informais serem significativos e utilizados pelos
pacientes e, portando, de que um serviço não se constitui apenas de espaços
formais, como grupos, oficinas terapêuticas, atendimentos individuais, pois o
contato com o mundo é permanente e direto, no qual o paciente participa da vida
e está entrelaçado por eventos cotidianos.
2º Eixo Temático: assistência à Saúde Mental após alta do Hospital Dia
Neste eixo, contemplamos as vivências de tratamento de nossos sujeitos após a
alta do Hospital Dia, os equipamentos de saúde e os recursos terapêuticos
utilizados na continuidade ao processo de tratamento. Neste sentido, uma única
categoria, a busca de cuidado, emerge nos discursos, sendo apresentada a
seguir:
Busca de cuidado
Todos os sujeitos frequentam os serviços ambulatoriais para os quais foram
encaminhados após a alta do Hospital Dia. Nas narrativas, todos trazem a ideia
de pertença ao serviço para o qual foram encaminhados após saída do Hospital
Dia. A maioria refere que o tratamento não está centrado apenas na medicação.
Assim, vemos que uma diversidade de procedimentos terapêuticos tem sido
ofertada a esses pacientes, indicando a necessidade da presença de outros
profissionais, além do médico, no decurso do tratamento.
...o ambulatorial da Drª Tereza., no Bloco 1. Acho que eu já tinha
uma vaga lá e conforme eu saí, eu retomei, quando eu voltei, né? Aí
eu tenho atividades lá e estou fazendo psicologia, também. (Sabiá)
Sim, foi o, a terapia ocupacional lá do ambulatório, no bloco 1, que
eu lembre... Eu continuo tendo consultas, né. Antes de eu ir para o
Hospital Dia eu já tinha consultas lá no ambulatório e continuo indo.
(Calopsita)
Percebe-se a valorização da pluralidade terapêutica. Nesse sentido, emerge a
abordagem terapêutica psicossocial como importante para ajudar os pacientes a
trabalhar as repercussões da doença em suas vidas, na compreensão do
significado de estar doente, além da conscientização sobre a necessidade de
manter o tratamento farmacológico*(17). Essa questão, também, é trazida nas
narrativas de João de Barro:
Só o Ambulatório com o Dr. Francisco, é terapia que eu faço, ele
está, com o Dr. Francisco ele está, ele está escutando eu, orientando
eu nas coisas, a lidar com a situação, né. A lidar com a situação,
porque eu não achava que o meu corpo tinha limite, sabe ? (João de
Barro)
A consideração das dimensões biológicas, psicológicas e sociais envolvidas no
adoecimento, possibilita um olhar menos fragmentado e reducionista ao paciente
e seu sofrimento, apontando para a importância de ações coerentes com as
necessidades dos pacientes e inclusão destes como participantes ativos no
processo de tratamento(18).
No entanto, observamos a centralização dos encaminhamentos para o ambulatório
de Saúde Mental. Constatamos que os equipamentos das redes básicas de saúde,
como as Unidades Básicas, o Centro de Saúde Escola e as Unidades que contemplam
a Estratégia de Saúde da Família não são utilizados por nossos sujeitos na
continuidade ao tratamento em Saúde Mental. A atenção à Saúde Mental parece
estar em um isolamento especializado de competência exclusiva da psiquiatria.
Esse descompasso compromete o entrelaçamento de ações, e, consequentemente, a
efetividade dos serviços, já que os equipamentos funcionando isoladamente,
apresentam dificuldades na otimização de ações. Nessa perspectiva, a qualidade
da assistência e o olhar voltado para o cuidado ampliado podem estar
prejudicados.
A integralidade e a intersetorialidade aparecem nas falas de Cacatua, como
componentes importantes de ajuda para a continuidade do tratamento.
Daí é todo mês a médica pede para ir, para não faltar. Tra tar lá,
eles tratam super bem a gente. A Drª Catarina é um amor de pessoa.
Então, todo mês tem aquele, aquele, aquele..., todo mês tem que estar
ali, certinho, então é um cuidado especial com gente de verdade, não
é uma coisa do médico, sabe, já tá bom, pode sair, pode ir embora,
não é. E uma coisa, que continuou, vai andando e enquanto não ficar
bom ela diz que não para. (Cacatua)
Considerando o contexto dos novos paradigmas da atenção em Saúde Mental, onde o
enfoque do cuidado se desloca do diagnóstico para o indivíduo e seus problemas,
a questão da integralidade necessita ser abordada, determinando um olhar
integral da situação(3). Para tanto, a intersetoriaridade e a diversificação
devem ser consideradas componentes indissociáveis da integralidade(3). Vê-se
que no caso de Cacatua, um olhar integral à sua situação foi de fundamental
importância para a adesão ao tratamento. Os registros demonstram que Cacatua,
sem crítica sobre seu estado, queixava-se apenas de cefaleia nas consultas
médicas realizadas na unidade básica de saúde e era medicada para tal. Enquanto
isso mergulhava em sintomas psicóticos que lhe impediam de viver, permanecendo
nessa situação, sem tratamento adequado, por cinco anos.
A questão do trabalho é trazida por Curió, que tentou participar de uma oficina
terapêutica, antes mesmo de ser encaminhado ao Hospital Dia, mas encontrou
dificuldades e não aderiu ao seguimento:
Porque eu fui, já fui na Oficina Girassol, lá, fiquei uns tempos lá,
ganhava dinheirinho, um pouquinho. Mas, é que eu enjoei, comecei a
enjoar, enjoei. Porque lá é longe de casa... (Curió)
Para Curió, conforme relatado no prontuário, o adoecimento, os vários abandonos
ao tratamento e as muitas internações em Hospitais Psiquiátricos limitaram suas
habilidades laborais, desde muito cedo. Observamos que esta questão, por muitos
anos, não foi cuidada nos tratamentos a que ele foi submetido. Isso nos sugere
que a relação de Curió com a questão do trabalho ficou adormecida por muito
tempo.
Mais uma vez, destaca-se a importância da ampliação da Economia Solidária e da
Empresa Social, enquanto promotoras de condições reais de ingresso ou retorno
das pessoas que se encontram em condições de desvantagem social no mundo do
trabalho(19).
Vê-se, também, que, no relato de Curió, está presente a importância dada ao
território. Para ele, estar inserido em um serviço pertencente ao seu
território facilita seu tratamento. Isso nos aponta para a importância da
inclusão da concepção de território nas estratégias de Saúde Mental, visando à
expansão e consolidação de uma rede de atenção extra-hospitalar como garantia
de atendimento das demandas territoriais específicas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A busca pelo cumprimento dos objetivos propostos no presente estudo
possibilitou uma aproximação da perspectiva do sujeito que recebeu cuidados no
Hospital Dia, de vivências subjetivas, do sofrimento causado pelo adoecimento
psíquico, enquanto fator marcante e desagregador da vida dessas pessoas,
solicitando uma assistência que considere as necessidades complexas dos
indivíduos e o acolhimento do sofrimento.
A investigação aponta para a importância dos serviços de Saúde Mental irem além
do instituído, se apropriarem da responsabilidade do cuidado ampliado, aliada
ao comprometimento dos profissionais. Esses fatores emergem como determinantes
da evolução das consequências do adoecimento psíquico e ocupam papel relevante
no processo de mudança de vida.
Para os sujeitos, o serviço ofereceu o acolhimento, mostrando-se continente ao
sofrer psíquico, contribuiu para o processo de retomada da autonomia e inserção
social, possibilitando a efetivação de mudanças na vida.
Os resultados, também, apontam que os sujeitos dão continuidade ao tratamento
em Saúde Mental após a alta do Hospital Dia e valorizam a pluralidade
terapêutica oferecida. Por outro lado, evidencia-se a necessidade de ações que
considerem a integralidade e a intersetorialidade, uma vez que foi observada
restrita comunicação entre serviços que assistem nessa área e a centralização
dos atendimentos em um serviço especializado em Saúde Mental, sugerindo a
fragilidade de uma rede de atenção em Saúde Mental no município.
Considerando que a doença mental ainda é um fenômeno psicossocial que requer
melhor compreensão, é certo que a pessoa que vivencia o sofrimento psíquico
necessita ser cuidada, valorizada e estimulada a reencontrar uma vida com
sentido. Desse modo, função importante dos serviços é contribuir para que haja
transformações significativas nas vidas das pessoas, apesar do sofrimento
inerente ao transtorno mental.