A realidade do viver com esquizofrenia
INTRODUÇÃO
A esquizofrenia é conhecida como uma das doenças psiquiátricas mais graves e
desafiadoras. É definida como uma síndrome clínica complexa que compreende
manifestações psicopatológicas variadas de - pensamento, percepção, emoção,
movimento e comportamento(1-3).
Trata-se de uma doença bastante prevalente dentre as condições psiquiátricas.
Atualmente, os pacientes com esquizofrenia são maioria nos leitos de hospitais
psiquiátricos. No Brasil aparecem cerca de 75.000 novos casos desse transtorno
por ano, o que representa 50 casos para cada 100.000 habitantes(3-4).
É comum, porém pode ser considerada pejorativa, a denominação "esquizofrênico"
para o indivíduo portador de esquizofrenia, uma vez que é rotulado perante toda
a sociedade. Ao serem rotulados, esquece-se que, em cada pessoa, a doença
repercute de uma forma diferente. A mudança na maneira de se referir aos
portadores de esquizofrenia tem sido uma tentativa de fazê-los ser considerados
pessoas com um problema ao invés de pessoas-problemas(5).
Essa preocupação acerca da denominação do portador de esquizofrenia faz parte
das mudanças que vêm ocorrendo nos conceitos de doença mental e assistência na
área, pois o foco principal não reside mais apenas no aspecto biológico, mas
também nos aspectos psicossociais. Por essa nova concepção, trabalha-se com a
ideia de descoberta de sentido mesmo na condição de adoecimento, visto que as
potencialidades do portador de esquizofrenia não podem mais se resumir à doença
(6-7).
Esse processo de descoberta de sentido na esquizofrenia torna-se um processo
extremamente difícil e doloroso, pois a convivência com o transtorno é
acompanhada de intenso sofrimento e limitações. As limitações, de modo geral,
decorrem da deterioração de vários processos mentais, fazendo com que o
indivíduo apresente alguns sintomas característicos da esquizofrenia,
conhecidos como sintomas positivos e sintomas negativos(3,8-9).
Os sintomas positivos são aqueles em que ocorrem comportamentos adicionais nos
momentos de crise psiquiátrica como delírios, alucinações, alterações na fala e
no comportamento (catatonia, transtornos dos movimentos, entre outros).
Acredita-se que a apresentação dos sintomas positivos, especialmente os
delírios e as alucinações, tem relação íntima com as particularidades de cada
indivíduo, com suas experiências de vida e com as relações estabelecidas com os
fatos ao seu redor, podendo ser considerada uma forma de o indivíduo comunicar
seus medos e impulsos(3,5,10).
Os sintomas negativos, por sua vez, são aqueles em que ocorre perda da função,
caracterizando-se por diminuição da atividade motora e psíquica, bem como das
manifestações emocionais, exemplificados como afeto plano e anedonia. Esses
sintomas podem ocorrer também devido a causas secundárias da doença como
privação ambiental, quadros depressivos, ansiedade, além dos efeitos colaterais
das drogas antipsicóticas(3,10).
Uma das maiores dificuldades da esquizofrenia reside em sua cronicidade
(sintomas negativos) e na recorrência dos sintomas agudos (sintomas positivos).
A apresentação desses dois tipos de sintomas é responsável pelas consequências
pessoais do convívio com a esquizofrenia que são refletidas na vida afetiva,
social, familiar e financeira, com destruição de sonhos, desconsideração do
portador como ser humano, sentimentos de menos valia e sentimento de não ser
compreendido pelos familiares e amigos(8-9).
Considerando a complexidade, a severidade, o intenso sofrimento e os inúmeros
prejuízos que a esquizofrenia pode causar-nos diversos aspectos da vida de seus
portadores e seguindo as ideias de transformação dos conceitos de doença mental
e assistência psiquiátrica, é importante um novo olhar para os portadores deste
transtorno, dando-lhes voz, acolhendo e valorizando seus sofrimentos neste
processo de descoberta de novo sentido para a convivência com a esquizofrenia.
Neste estudo, objetivou-se entender a realidade do viver com esquizofrenia, bem
como suas implicações para o acometido por ela, a partir do relato de quem a
vivencia.
PERCURSO METODOLÓGICO
Este estudo foi submetido à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa da Famema,
tendo obtido sua aprovação sob Protocolo de estudo nº 227/08, de acordo com a
resolução 196/96.
Para alcançar seus objetivos foi utilizada a pesquisa de campo de natureza
exploratória, segundo a abordagem qualitativa. Por meio da metodologia
qualitativa exploratória, o pesquisador consegue compreender a realidade vivida
pelos sujeitos envolvidos, a partir do contato direto com quem a vivencia. Por
trabalhar com o universo dos significados, este tipo de metodologia permite ao
pesquisador não somente descrever aquilo que observa, mas também interpretar,
buscar explicações, reflexões e percepções das diferentes facetas do problema
estudado(11-12).
Como estratégia para descrever a experiência de ser portador de esquizofrenia
foram realizadas entrevistas com dez sujeitos diagnosticados com o transtorno e
internados na enfermaria de psiquiatria do Hospital das Clínicas de Marília. A
amostra foi obtida de modo intencional não probabilístico, seguindo o critério
de saturação empírica, definido por Glaser e Strauss(13). As entrevistas,
realizadas no período de junho a dezembro de 2008, foram baseadas na seguinte
questão norteadora: Qual o significado de ser um portador de esquizofrenia?
As entrevistas somente foram realizadas após esclarecimento e assinatura do
Termo de Consentimento Livre Esclarecido pelo participante do estudo e pelo
familiar responsável. Como critério de inclusão, foi considerado o diagnóstico
de esquizofrenia realizado há, no mínimo, cinco anos e a ausência de delírios e
alucinações proeminentes no momento da entrevista, o que ocorreu perto do
momento da alta hospitalar. As falas foram gravadas, transcritas e submetidas à
análise temática.
Para analisar o conteúdo das entrevistas, foi utilizada a análise temática que
consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação, cuja
presença ou frequência signifiquem alguma coisa para o objetivo analítico
visado(11). Para a realização deste tipo de análise são sugeridas três etapas:
pré-analise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos. Na
análise dos dados, os sujeitos do estudo são apresentados seguindo a
codificação por nome de flores, de forma a garantir o anonimato.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Participaram deste estudo dez portadores de esquizofrenia, seis do sexo
feminino e quatro do sexo masculino. A faixa etária foi bastante variada, de 21
a 50 anos. Quanto ao estado civil, quatro eram divorciados, quatro casados e
dois solteiros. No que diz respeito à escolaridade, apenas um era analfabeto,
três tinham o ensino fundamental incompleto, um tinha o ensino fundamental
completo, três tinham o segundo grau incompleto, um tinha o segundo grau
completo e um tinha o ensino superior incompleto.
Cinco dos entrevistados eram católicos, quatro evangélicos e um espírita.
Quanto às atividades desenvolvidas antes de se tornarem portadores de
esquizofrenia, dois eram estudantes, um não realizava nenhuma atividade e os
demais trabalhavam em diferentes serviços. Após o início da manifestação da
doença, sete dos entrevistados passaram a não exercer qualquer atividade, dois
tornam-se usuários do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e apenas um
continuou trabalhando.
A partir do processo de análise dos dados foi identificada a categoria
Convivendo com a esquizofrenia e seis temas: 1) a dificuldade de se conviver
com a esquizofrenia e os prejuízos na qualidade de vida, 2) o conhecimento
sobre a doença, 3) a estigmatização do doente mental e o autoestigma, 4) a
convivência com os sintomas da esquizofrenia, 5) a difícil convivência da
família com a esquizofrenia e 6) as influências da religião na convivência com
a doença.
A trajetória do portador de esquizofrenia é repleta de muito sofrimento, pois o
convívio com a doença ocasiona mudanças significativas na vida do indivíduo.
Deste modo, o início da manifestação da doença pode ser visto como um marco
entre o que era considerado normal e o que passa a ser considerado doentio.
A dificuldade de se conviver com a esquizofrenia e os prejuízos na qualidade de
vida
A dificuldade de se conviver com a esquizofrenia ficou muito evidente nas falas
dos entrevistados. Isto se deve ao prejuízo que ocorre na qualidade de vida,
termo este de grande importância ao se falar em doença crônica. Qualidade de
vida é entendida como tudo aquilo que é significante para o indivíduo, sendo um
conceito amplo que agrega todos os aspectos da existência do ser humano e sua
impressão a respeito de cada uma delas, considerando também os diferentes
contextos culturais(1,14). Orquídea relatou de forma abrangente a dificuldade
de se conviver com a doença:
[...] Mudou minha vida totalmente pra pior. (Orquídea)
A OMS (Organização Mundial da Saúde) compreende qualidade de vida como a saúde
física, a saúde mental, o grau de independência que o indivíduo consegue ter em
relação aos demais, as relações sociais e os mais diversos tipos de crenças,
podendo-se considerar ainda o trabalho e as relações familiares. Os
entrevistados relataram o comprometimento da qualidade de vida em alguns desses
aspectos definidos pela OMS.
Meu pai achou melhor eu dar ele [filho] pra essa senhora. [...] Eu
não ia conseguir cuidar dele porque eu só tava ruim. E verdade, eu
tava ruim. (Margarida)
Eu estudava nutrição [...] peguei muita DP, minhas notas foram ruins.
Numa prova de fisiologia eu acabei escrevendo várias palavras sem
nexo. Ao invés de responder às perguntas, eu respondi outros tipos de
assuntos. (Rosa)
Não tem disposição [para trabalhar]. Sempre gostei de trabalhar, de
estudar, de sair à noite e eu não posso mais. Não tem como trabalhar,
não tem disposição, não consegue se concentrar, tudo cansa rápido!
Você pega uma coisa pra fazer e às vezes não conclui por inteiro,
desanima [...] Eu tinha o meu dinheiro, hoje eu já não tenho, eu
tinha responsabilidade, hoje eu já não tenho. (Orquídea)
Orquídea relatou a importância que a atividade de trabalhar tinha em sua vida e
a dificuldade de mantê-la a partir da convivência com a esquizofrenia. No caso
da doença mental, trabalhar torna-se mais complicado, uma vez que são vários os
fatores que prejudicam a sua concretização como baixa autoestima, dificuldade
de lidar com situações frustrantes, medo de errar, dificuldade de viver de
maneira independente e a ansiedade(15).
Em uma revisão da literatura científica, os autores apresentam dois estudos
realizados sobre qualidade de vida e trabalho na esquizofrenia. Um dos estudos
mostra que os portadores de esquizofrenia que possuíam algum tipo de trabalho e
consequentemente uma fonte de renda, mostraram-se com melhor qualidade de vida,
comparados com aqueles que não trabalhavam. Já o segundo estudo mostra uma
relação inversa ao considerar que o trabalho para estes indivíduos pode ser
prejudicial, uma vez que pode ser exigente e estressante, fazendo com que os
indivíduos tenham uma piora na qualidade de vida pelas restrições dos recursos
pessoais de enfrentamen(1), como observado abaixo:
[...] onde eu trabalhava não era bom pra mim por causa da patroa, né!
Ela era muito exigente. (Violeta)
Trabalhar no meu caso não dá por causa do estresse. Se eu ficar em
situação de estresse, de nervosismo ou de desentendimento, dá
alucinação e ambiente de trabalho não é calmo. Eu já trabalhei e sei
como é. (Orquídea)
A percepção dos prejuízos pelos indivíduos portadores de esquizofrenia varia de
acordo com o tempo de diagnóstico da doença. Aqueles indivíduos com menor tempo
de diagnóstico os vê de forma mais intensa, pois estão mais próximos do que era
considerado padrão de normalidade por eles próprios, enquanto que aqueles que
possuem maior tempo de diagnóstico já estão adaptados à nova condição, tendo
criado, a partir da doença, um novo padrão de normalidade. Outra explicação
dada pelo autor seria que a melhor adaptação pode ser decorrente do maior tempo
de tratamento, fazendo com que o indivíduo apresente um quadro estável(16).
Frente às inúmeras dificuldades ocorridas na esquizofrenia, é fundamental
valorizar as atividades que o indivíduo ainda consegue realizar, sendo uma
delas o autocuidado. O autocuidado pode ser entendido como o estímulo à
preservação da capacidade de fazer parte do gerenciamento do seu tratamento,
das relações sociais e familiares estabelecidas, bem como ter algum grau de
controle e autonomia no ambiente em que vive; enfim, ser capaz de cuidar de si
mesmo nos diferentes aspectos de sua vida. O importante é fazê-los se sentir
ativos na construção de suas próprias histórias(15).
Conhecimento sobre a doença
O significado que os portadores de esquizofrenia atribuem à doença é fortemente
influenciado por fatores culturais, relacionamento familiar e tipo de
tratamento recebido. Uma concepção cultural bastante frequente sobre a
esquizofrenia é sua explicação como um "problema na cabeça", o que pode ser
entendido como uma forma de conviver melhor com a dura realidade, uma vez que
resistem em utilizar a palavra esquizofrenia, adotando termos mais abrangentes
ao se referirem à doença(17).
Deve ser alguma coisa da cabeça, né, mas certeza, certeza, eu não
sei. (Girassol)
[... ] Indaguei que poderia ser um desequilíbrio químico do cérebro.
(Rosa)
Este modo de se referir à doença e à sua realidade não se explica somente pelo
desconhecimento ou incerteza sobre ela. Na verdade, esses pacientes mostram uma
apropriação do conhecimento biológico, ao atribuir a uma determinada parte do
corpo a responsabilização da esquizofrenia(17). Essa priorização do
conhecimento biológico é decorrente do fato de que a assistência à saúde mental
é ainda muito voltada para as causas orgânicas, sendo menos abordados os
aspectos psicológicos e sociais(18).
Considerando que, apesar da convivência diária com a esquizofrenia, o indivíduo
muitas vezes não tem compreensão do seu real significado, deve-se considerar a
importância de se conhecer a doença.
É importante que a equipe de saúde não esteja presente somente nos cuidados
durante a fase aguda, mas que também atente à necessidade de ajudar o paciente
e sua família a conhecer melhor a doença, já que, apenas a partir de sua
compreensão, é que pode haver uma melhoria na qualidade de vida, tanto do
portador de esquizofrenia como na de seus familiares(19).
Quando o paciente e a família passam a conhecer a doença, conseguem identificar
antes da equipe as situações de risco para recaídas e os sintomas precedentes,
bem como os efeitos colaterais das medicações. Nesse caso, é possível que a
equipe de saúde intervenha de forma precoce no processo de recaída, numa
tentativa de estabilizar o quadro do paciente(20). Isto pode ser evidenciado na
fala a seguir:
Eu tenho sensibilidade, hoje eu sei, se eu tiver aqui conversando com
vocês eu posso sentir. Se eu for ter alucinação eu sei, eu já busco
ajuda antes. (Orquídea)
Uma maneira de melhorar o entendimento do paciente e da família sobre a doença
é por meio da psicoeducação, que pode ser entendida como o fornecimento de
informações sobre os sintomas, a etiologia, o tratamento e o modo de viver
melhor sendo um portador de doença mental(21).
A estigmatização do doente mental e o autoestigma
O estigma é algo que se faz presente no cotidiano do portador de esquizofrenia.
Quando ocorre a estigmatização, o indivíduo passa a ser visto apenas com o
enfoque na doença e nas suas consequências, tendo suas particularidades
pessoais desconsideradas(22). Desse modo, aquilo que ainda é preservado no
indivíduo torna-se insignificante e os defeitos se sobressaem ao que ainda
poderia ser considerado normal.
As consequências da estigmatização para o doente são a perda da autoestima, a
perda da dignidade, os sentimentos de desesperança, o afastamento das relações
sociais, a perda da cidadania e de seus direitos, diminuindo as possibilidades
de ressocialização, uma vez que, na visão da sociedade, estes indivíduos fogem
das normas sociais(19,23).
Como fator causal da estigmatização, pode-se considerar a falta de conhecimento
acerca da doença, o que é responsável pelas idéias preconceituosas, assim como
o temor daquilo que não se conhece e de suas consequências(23).
É reconhecido que o louco, ao mostrar a face sadia, é insuportável, pois se
aproxima do normal. Parece existir a necessidade de se criar uma barreira entre
o "ser louco" e o "ser normal", uma vez que, quando o lado ainda preservado do
"louco" é reconhecido, a proximidade com a loucura fica mais evidente, fazendo
com que se estigmatize o doente(23,24).
A necessidade de se criar esta barreira pode ser explicada ao pensar que,
apesar de ser difícil compreender o conteúdo das falas dos portadores de
esquizofrenia, é muito raro alguém ouvir e não se abalar ou dar significado ao
que é dito. O que os portadores de esquizofrenia dizem provavelmente é o que a
nossa sociedade considerada "normal" não tem coragem de dizer, do mesmo modo
como suas atitudes e comportamentos concretizam aquilo que muitos pensam, mas
temem realizar(25). Ao perceber esta semelhança e a fragilidade do simples fato
de ser humano, o estigma passa a ser visto como poderoso meio de defesa. Os
entrevistados relataram suas percepções sobre a aceitação/preconceitos por
parte das pessoas que os cercam:
Eu não gosto quando os vizinhos de casa me chamam de louca. Todos os
meninos da rua me chamam de louca: lá vem a louca! Falei: louca é
quem come merda e rasga dinheiro. Dá um dinheiro aí pra ver se eu
rasgo. Eu fico nervosa! [...] Não posso falar disso que eu fico com
vontade de chorar. (Margarida)
Acho que mudam [as pessoas]. Mudam porque só o nome já diz:
esquizofrenia! Só o nome já assusta! [... ] Eu acredito que é assim.
(Girassol)
O diferente assusta, afastou todo mundo depois que eu fiquei doente
[...] permaneço com o mesmo círculo de amizades que eu já tinha. Fora
os que já se afastaram porque eu sou assim. (Orquídea)
Ao conviver constantemente com essas situações de estigmatização, tanto pela
sociedade em geral, como muitas vezes pela própria equipe de saúde, os
indivíduos acabam internalizando essas situações, de forma a se
autoestigmatizarem, o que é mais difícil de ser superado(15).
Me sinto diferente, tudo em mim é diferente [... ] Só me sinto igual
a quem tem o que eu tenho [... ] (Orquídea)
As consequências do autoestigma envolvem sentimentos de incapacidade, menos
valia, incompreensão, culpa e falta de esperança, o que influencia o
planejamento de um futuro melhor para o indivíduo, uma vez que o sujeito se
sente desqualificado e com baixa autoestima(22).
A fala de Orquídea, no exemplo acima, exemplifica bem a situação do
autoestigma, pois a convivência constante dos portadores de esquizofrenia com o
estigma provindo da sociedade como um todo faz com que eles internalizem as
concepções pejorativas, o que os leva a se verem de forma diferente, não se
permitindo conviver bem em sociedade.
A convivência com os sintomas da esquizofrenia
Os sintomas provocados pela esquizofrenia são os mais severos e temidos dentre
as enfermidades psiquiátricas, pois significam a perda do controle da vida e
das emoções e as pessoas se veem frente a uma inundação de pensamentos
desconexos e de percepções até então desconhecidas(26).
O indivíduo perde a noção do que é ou não é real, passando a viver num "mundo
substituto" repleto de percepções visuais, auditivas e sensitivas que somente
ele vê, somente ele ouve e somente ele sente, ou seja, os sentimentos
ocasionados pela nova realidade são vividos de forma solitária(25).
No decorrer das entrevistas, foi possível perceber como o tratamento
medicamentoso e as orientações dadas pelos profissionais foram importantes para
alguns pacientes se convencerem de que os sintomas não são reais. Orquídea e
Girassol, em suas falas, demonstram que, apesar de reconhecerem o quão difícil
é ter alucinações, em um segundo momento explicam como foi o processo de
aceitação no decorrer dos anos:
[...] vozes de comando: se mata! Ou pra matar alguém da família [...]
Pede pra cortar o pescoço, pede pra pegar álcool, pede pra por o
cachorro na casa, pra cortar a mangueira do botijão, tudo o que é de
ruim eu escuto [... ] se não tiver ninguém por perto na hora pode
cometer [suicídio], mesmo sabendo que é só pra mim, que ninguém tá
vendo. (Orquídea)
Eu tentava convencer todo mundo de que era real e pra mim é. Eu tô
vendo, pra mim é! Depois que os anos foram passando, os remédios
foram mudando, eu passei a entender. Agora até no surto eu consigo
entender que não é real. (Orquídea)
Parecia que uma pessoa ficava falando no meu ouvido [... ] que nem
quando uma pessoa tá conversando [... ] Quando eu tava no hospital eu
expliquei das vozes pro médico, aí os outros pacientes que escutaram
começaram a dar risada, acharam que eu tava falando besteira.
(Girassol)
Não acredito mais, não, isso aí veio da própria cabeça, né! [... ]
Quando eu comecei o tratamento e parou [as alucinações] eu pensei: o
tratamento resolveu, o remédio resolveu o problema. Aí eu entendi que
não era verdade. (Girassol)
Já Rosa, em sua primeira fala, descreve as alucinações auditivas demonstrando
ter certeza de sua real existência, porém, no segundo momento da entrevista,
mostra-se indecisa quanto à questão. Isso equivale a uma das etapas do processo
de aceitação, sendo fundamental que os profissionais a reconheçam, uma vez que
cabe a eles instigar a dúvida nos seus pacientes:
Pelo menos umas 50 vozes [...] cada uma tem um nome. Um se chama
Alvin, ele é homossexual [... ] fica contando histórias. O outro é
Daiá-Conxú, tradição chinesa, ele gosta de conversar. [... ] Respondo
mentalmente, às vezes é preciso da boca mesmo. O duro é que minha mãe
acha que eu tô falando sozinha, é estranho! [...]. (Rosa)
[...] Às vezes eu acho que são reais, às vezes eu acho que eu tô
ficando louca de novo, então é uma indecisão. (Rosa)
Nas falas de Violeta, fica evidente que, em nenhum momento, ela aceitou os
sintomas da doença como não sendo reais, o que tornou sua realidade mais
sofrida, levando-a a atos de desespero como a retirada de todos os fios de
cabelo da cabeça.
Eu ouço, tá tudo em volta. [...] É voz de gente viva mesmo com quem
eu converso [...] São vozes inimigas [...] É a Geraldina e o velho,
conversam à noite [... ] Elas falam alto, né! [...] falam coisa ruim,
coisas mandadas, né. (Violeta)
O que a gente vê é a realidade, é verdade, né! [...] eu chamo ela
[irmã] pra ir na delegacia pra confirmar que a gente tem ladrões
perto de casa, mas ela não acredita e eu acabo arrancando [o cabelo].
(Violeta)
Pelas falas apresentadas, são percebidas diferentes atitudes dos portadores de
esquizofrenia frente à experiência dos sintomas psicóticos. Alguns
entrevistados aceitam os sintomas como não sendo reais, alguns já se permitem a
dúvida, enquanto outros os percebem como reais. A partir disso, vale ressaltar
a importância dos profissionais estarem atentos para essas questões,
respeitando o momento de aceitação de cada um, mas sempre os estimulando a
distinguir o que é ou não real.
A difícil convivência da família com a esquizofrenia
Durante a convivência com a esquizofrenia, a família também participa do
sofrimento. Orquídea ressaltou o apoio recebido de seus familiares e também
fala da incompreensão de sua doença por pessoas fora de seu convívio familiar.
A família deve ser vista por seus membros como um porto seguro, em que se
encontra apoio e compreensão(27).
[...] sempre tive apoio e eles compreendem o que eu tenho, todo mundo
da minha casa. Amigos, parentes e pessoas que não moram comigo não
entendem [...]. (Orquídea)
A família é importante por ser considerada uma continuidade do paciente. O modo
de pensar e agir dos familiares afeta diretamente o ente adoecido(28,29). No
entanto, não é sempre que os familiares estão dispostos a se envolver com os
problemas do ente adoecido e com seu tratamento. A não aceitação por parte da
família é prejudicial para o portador de doença mental, visto que ele pode se
sentir desamparado. A dificuldade de aceitação do doente no convívio familiar
ficou bastante evidente nos discursos.
[...] até hoje não me aceitam [irmãos] na casa deles [...] não deixam
eu ficar na casa deles, mandam eu ir embora pra minha casa. (Dama da
Noite)
Eles [familiares] não ligam muito pra mim, não. [...] Cada um vive a
vida deles, de vez em quando perguntam como que tá. (Copo de Leite)
O convívio com o portador de esquizofrenia é um processo complicado,
principalmente para os familiares que convivem diariamente com ele. Com o
início da doença e as alterações comportamentais do indivíduo com
esquizofrenia, a família passa por diversas mudanças em seu dia a dia, uma vez
que ele requer muita atenção e a família acaba cedendo por ter receio de que
este, ao ser contrariado, mostre-se agressivo. Além disso, a prolixidade,
muitas vezes sem sentido para quem escuta, torna-se exaustiva à medida que
ocorre(29).
Com o início da doença e os episódios de crise, as famílias sofrem um impacto
muito grande, sendo que as estruturas antes existentes podem não ser capazes de
ajudá-las a suportar o momento(29). Então, a convivência constante com a doença
mental gera uma sobrecarga emocional bastante intensa para a família(7,29). No
decorrer das entrevistas, houve a contribuição de um familiar que acompanhava
um dos entrevistados:
Mudou horrivelmente, terrivelmente, que palavra mais eu posso dizer?!
Pra mim não foi legal [...] Carga pesada! Eu, na minha vida, isso aí
não é um probleminha, isso aí virou uma jamanta! Enorme! Matou eu,
moça! (mãe da Rosa)
Devido à complexidade da doença e do sofrimento durante sua descoberta, alguns
familiares podem ter atitudes de não aceitação e negação frente aos primeiros
sinais da doença(30) como uma forma de se proteger, como visto no relato
abaixo:
[...] Gritei: mãe, vem cá, um vulto! Minha mãe não me deu muita
atenção, fez uma cara como se eu estivesse mentindo: não foi nada,
você não viu nada... (Cravo)
Essa atitude por parte da família é prejudicial para o doente mental, uma vez
que o fato de negar a doença não faz com que ela deixe de existir e afasta,
ainda mais, o doente do convívio familiar, fazendo com que passe a se sentir
sozinho frente a uma situação desconhecida e aterrorizante.
As influências da religião na convivência com a doença
A religiosidade é um aspecto bastante importante na vida das pessoas,
interferindo na saúde e nos transtornos men(31). Ela pode ser entendida como
recurso de ajuda para a difícil convivência com a doença mental, auxiliando em
sua compreensão, uma vez que atribuem a Deus a sua responsabilidade. Este
comportamento permite suportar melhor o convívio com a esquizofrenia e suas
consequências(17).
Por ser uma doença crônica sem possibilidade de cura, seus portadores encontram
na religião uma fonte de conforto e esperança, um "pronto-socorro espiritual"
(31), onde se acredita na possibilidade de haver cura divina. No caso dos
evangélicos, a religião é também vista como fonte de ajuda para o portador de
doença mental devido às relações sociais estabelecidas com a comunidade
religiosa, o que pode ser comprovado com o menor tempo de internação que seus
fiéis costumam apresentar(31).
A proximidade, de forma intensa, do portador de doença mental com as questões
religiosas pode representar, porém, uma possibilidade de recaída(17). Um
aspecto negativo das igrejas mais conservadoras é a não aceitação do tratamento
medicamentoso como recurso para controle da sintomatologia, julgando-se aptas a
apoiar os indivíduos portadores de doença mental com base apenas no diálogo e
na oração(31).
No começo, acho que em quase todos os casos, as pessoas pensam que é
espiritual. E o que eu pensava também, pensava que era coisa de outro
mundo, que era espiritual, igreja assim ia resolver o meu caso e não
remédio e médico [... ] E muita gente falando: joga os remédios fora,
você não precisa disso, vai numa igreja... (Orquídea)
[... ] falam que é pra eu ir na igreja que tudo vai acabar e que é
coisa da minha mente. Eles curam, né! [... ] Agora eu sou espírita
[... ] a gente tem o dom, né, fia [... ] eu sou médium, né [...].
(Violeta)
Com as falas dos entrevistados, reconhece-se que a religiosidade realmente é
bastante importante na vida dos indivíduos portadores de doença mental, mas que
muitas vezes eles são influenciados de maneira negativa por ela, agravando o
curso da doença. Cabe aos profissionais da saúde mental identificar que tipo de
contribuição a religião tem na vida desses indivíduos e, dependendo das
influências exercidas, alertá-los para o fato.
CONCLUSÕES
A partir do resultado apresentado neste estudo, é possível compreender como é
importante escutar as pessoas que vivenciam a esquizofrenia diariamente em
todos os seus aspectos. As falas dos entrevistados foram surpreendentes, pois
deixaram implícito o significado de ser um portador de doença mental. O momento
da entrevista foi também de grande importância para a valorização destes
indivíduos, uma vez que tiveram oportunidade de ter seus sofrimentos acolhidos,
escutados e valorizados, exercitando, mesmo que singela e temporariamente, seu
direito de cidadania.
Os entrevistados puderam expressar, nos relatos, o sofrimento vivenciado a
partir do convívio com a esquizofrenia e os prejuízos na qualidade de vida, de
forma especial nos relacionamentos, nas atividades diárias, no trabalho e no
estudo. Os próprios entrevistados mostraram ter consciência da influência
direta da esquizofrenia nesses aspectos da vida.
Os pacientes entrevistados ainda mostraram conhecimento sobre a doença, sendo
que muitos atribuíram sua ocorrência a fatores orgânicos, chegando a e evitar o
uso da palavra "esquizofrenia" para se referir à doença, preferindo a
utilização de termos mais abrangentes e menos impactantes. No entanto, apesar
de evitarem o uso do nome da doença, mostraram como a convivência com ela os
ajudou a conhecê-la em seus diferentes aspectos, inclusive ajudando-os na
prevenção de crises.
Uma questão muito delicada abordada nos relatos diz respeito ao estigma que os
portadores de esquizofrenia percebem das pessoas que vivem ao redor e ao
autoestigma, mais limitante e causador de maior sofrimento do que aquele
advindo da sociedade.
Ao falarem da difícil convivência com a doença, ficou muito evidente a
importância da família nesse processo. Não houve, no entanto, homogeneidade nos
relatos, pois algumas pessoas verbalizaram sentir-se apoiadas, enquanto outras
não. Isso permite afirmar que cada família reage de um modo diferente frente à
convivência com a doença mental.
A religião também foi lembrada como auxílio na convivência com a esquizofrenia,
tendo como aspecto negativo a influência de algumas pessoas que incentivam o
doente a abandonar os remédios e procurar apenas a cura divina.
Espera-se que este estudo ajude os estudantes e os profissionais da saúde a
conhecerem, a partir do relato dos portadores de esquizofrenia, o real
sofrimento ocasionado por esta difícil convivência e que, a partir deste
conhecimento, reflitam sobre sua prática cotidiana, uma vez que, independente
da área em que o profissional da saúde escolha atuar, sempre haverá
oportunidade de acolher um portador de doença mental com dignidade e respeito à
sua cidadania. Espera-se também que este estudo seja motivador para a
realização de muitos outros, pois a pesquisa sempre prossegue, nunca estará
concluída, havendo sempre novas verdades a serem desocultadas(32).