Barreiras e aspectos facilitadores da adesão à terapia antirretroviral em Belo
Horizonte-MG
INTRODUÇÃO
Com 33 milhões de pessoas vivendo com HIV/AIDS em todo o mundo até o ano de
2008 e 2,7 milhões de novos casos em 2007, a epidemia do HIV continua a ser um
grande desafio para a saúde pública global. Os acordos políticos e financeiros
firmados entre os países em meados de 2003 e 2006 resultaram em aumento do
acesso aos serviços de referência em HIV nos últimos anos, entretanto a
incidência do HIV permanece elevada(1).
O acesso à terapia antirretroviral (TARV) se expandiu rapidamente nos últimos
anos. No final de 2008, mais de quatro milhões de pessoas estavam em uso de
TARV nos países em desenvolvimento, o que significou um aumento de mais de um
milhão de pessoas (36%) se comparado aos dados de 2007 e uma expansão de 10
vezes em cinco anos(1).
O sistema de saúde brasileiro distribui medicamentos para doenças oportunistas
desde 1988 e zidovudina desde 1991(2). Porém, foi em 1996, que de forma
pioneira e inovadora, dentre as estratégias implantadas para o controle da
epidemia, que o Brasil sancionou a Lei nº 9.313, de 13 de novembro de 1996 que
garantia acesso universal e gratuito de medicamentos às pessoas com HIV/AIDS(3-
4). Esse ano representou um marco na epidemia da AIDS, pois foi nesse período
que se deu o advento de novas classes de medicamentos antirretrovirais (ARV),
os inibidores de protease e os inibidores de transcriptase reversa não
nucleosídios e, a partir daí, foi proposto o tratamento com a associação de
drogas ARV(5-7).
Esse desenvolvimento tecnológico mudou o perfil da epidemia no sentido de sua
cronificação, dando oportunidades aos indivíduos com HIV/AIDS de viver com a
doença e não para a doença como no período inicial da epidemia. Isto é, a
terapia antirretroviral (TARV) possibilitou transformar uma síndrome que
anteriormente era percebida culturalmente como resultado de uma morte anunciada
em uma doença com perspectivas de cronicidade(5).
Esta terapêutica têm propiciado benefícios consideráveis ao seu usuário como
aumento da sobrevida, diminuição das internações hospitalares e da ocorrência
de complicações oportunistas e da mortalidade associada ao HIV/AIDS(8). O
Ministério da Saúde aponta que, dez anos após a implementação dessa política no
Brasil, 180 mil pessoas já estavam em tratamento no país e houve redução de 34%
na mortalidade e de 70% na morbidade dos casos de AIDS, considerando-se somente
o período entre 1996 e 2002(9).
Porém, a adesão ao tratamento apresenta-se como um possível obstáculo para a
melhoria desses índices, pois se encontra em um contexto de exigências e de
reconstrução constante no cotidiano da pessoa vivendo com HIV/AIDS, pela
cronicidade da doença. A não adesão ao tratamento pode levar à sua não
efetividade, no plano individual, e à disseminação de vírus-resistência, no
nível coletivo(10).
Os termos adesão e aderência são derivados dos termos em inglês "compliance" e
"adherence". O termo "adherence" vem se disseminando nos estudos por se referir
a "concordância autônoma" dos sujeitos (ou patient empowerment), já o termo
"compliance" se aproxima mais da idéia de cumprimento de regras e prescrições
(ou physician control)(10). No Brasil, a aderência refere-se à conduta do
indivíduo ao seguir as prescrições médicas, enquanto a adesão é entendida como
uma atividade conjunta em que o indivíduo não apenas cumpre as orientações
médicas como também entende e concorda com a prescrição, estabelecendo-se uma
relação na qual são firmadas as responsabilidades de cada um no tratamento
(6,8). Compreende, portanto, um processo colaborativo que facilita a aceitação
e integração de um regime terapêutico no cotidiano da pessoa, pressupondo sua
participação na decisão sobre o mesmo(11).
O critério mais utilizado para a definição da taxa de adesão necessária para a
supressão viral é de 95% das doses prescritas(12-13). Um estudo(12) com
pacientes em uso de esquemas com inibidores de protease apontou que 81% dos
pacientes com 95% ou mais de adesão obtiveram níveis de carga viral abaixo de
400 cópias/ml.
Entre os fatores que dificultam a adesão estão os inerentes aos regimes de
tratamento, à complexidade de vida das pessoas que vivem com HIV, aos contextos
socioeconômicos desfavoráveis e aos referentes ao acesso limitado à terapia
antirretroviral(7).
Este estudo é parte de projeto de pesquisa sobre a situação de adesão em
serviço de saúde especializado para HIV/AIDS em Belo Horizonte, iniciado em
2007. A primeira etapa da pesquisa apontou diferentes aspectos relativos às
dificuldades de adesão, mas o aprofundamento da visão dos próprios usuários não
fez parte do projeto inicial, o que se mostrou necessário para compreender suas
justificativas e implicações no tratamento.
Para se conhecer a adesão dos pacientes ao tratamento em um serviço de atenção
especializado em HIV/AIDS - SAE Sagrada Família - de Belo Horizonte, Minas
Gerais, foram coletados, inicialmente, dados de prontuário do total de pessoas
atendidas.
Para classificação de não adesão, no prontuário, o serviço utiliza o relato dos
pacientes sobre o uso incorreto dos antirretrovirais ou abandono do tratamento,
dados clínicos e laboratoriais como o monitoramento periódico da carga viral,
definidos pela avaliação médica. Para a pesquisa, além destes indicadores,
também foi considerado o registro da dispensação de antirretrovirais (ARV) pela
farmácia do serviço.
Em relação a estes últimos dados, foi possível avaliar 531 fichas de
dispensação de medicamentos dos pacientes. Foram analisadas todas as
dispensações dos ARV registradas mensalmente, ocorridas durante o ano de 2006
(de janeiro a dezembro de 2006). Foram obtidas informações sobre datas da
primeira e das dispensações subsequentes, esquemas de ARV dispensados, número
de comprimidos e dose de cada medicamento e ocorrência de trocas. Foram
considerados como troca de esquema, a inclusão, exclusão ou ajuste de dose de,
pelo menos, um ARV.
As dispensações dos ARV foram avaliadas pela quantidade utilizada para o
consumo, considerando o tempo que o usuário levou para seu retorno previsto
mensalmente à farmácia. O tempo entre as retiradas de ARV foi calculado pela
diferença, em dias, entre as datas das dispensações para os 12 meses avaliados
até o 12º mês após a prescrição. Baseado na distribuição dos intervalos de
tempo entre as retiradas e no tempo mínimo esperado de 35 dias entre estas,
considerou-se como retirada regular o intervalo de tempo de até 35 dias entre
as dispensações de ARV, irregular como intervalo de tempo de 36 a 60 dias, e
abandono como tempo superior a 60 dias. Para definir o ponto de corte de 35
dias, avaliou-se o conjunto dos intervalos de tempos transcorridos entre as
dispensações (5232) realizadas aos 531 pacientes acompanhados no SAE. Foram
considerados aderentes aqueles que não tiveram nenhum episódio de retirada
irregular durante o período; não aderentes aqueles que tiveram pelo menos uma
retirada irregular; e abandono de tratamento os casos em que o intervalo entre
as retiradas foi maior que sessenta dias ou ausência de retorno por três meses
consecutivos.
Entre os 620 pacientes acompanhados pelo serviço, de acordo com dados coletados
em prontuários, 478 (77,1%) foram classificados como aderentes ao tratamento de
acordo com os critérios descritos, 114 (18,4%) foram classificados como não
aderentes e não foram encontrados registros da situação de adesão em 28 (4,5%).
Entretanto, de acordo com os critérios de classificação de adesão utilizados na
análise das 531 fichas de dispensação de ARV da farmácia do serviço, foram
encontrados 60,3% de não adesão, 25,5% de abandono do tratamento e somente
14,2% de adesão aos medicamentos.
A situação encontrada apontou a necessidade de aprofundamento, considerando-se
a experiência social das pessoas vivendo com HIV/AIDS, por meio de seus relatos
de vida e suas próprias avaliações de contexto. O presente estudo se inclui
nessa perspectiva.
Apesar dos fatores de risco encontrados na literatura para não adesão à TARV
serem relevantes e alguns desses fatores serem citados em vários estudos, os
dados não são conclusivos e é de fundamental importância que os profissionais
de saúde os conheçam em relação ao grupo específico de seus pacientes.
Sendo assim, o objetivo desse estudo foi conhecer as dificuldades e os aspectos
que influenciam a adesão à TARV por pessoas com HIV/AIDS atendidas em um
serviço de referência de Belo Horizonte.
METODOLOGIA
Pesquisa de abordagem qualitativa, inscrita na sociologia interpretativa(14),
realizada por meio de entrevistas abertas e em profundidade com sujeitos em uso
de terapia antirretroviral (TARV), acompanhados no Serviço de Atenção
Especializada (SAE) em HIV/AIDS - Sagrada Família, do Município de Belo
Horizonte, Minas Gerais.
O período da coleta compreendeu o intervalo entre Dezembro de 2008 e Abril de
2009. Os critérios de inclusão dos participantes foram: ser maior de 18 anos, e
fazer uso de medicamentos antirretrovirais há pelo menos um ano.
A escolha pelo SAE - Sagrada Família se justificou pela sua infraestrutura e
experiência como referência municipal no atendimento a pessoas com HIV/AIDS e
outras doenças sexualmente transmissíveis, sendo um dos três serviços públicos
especializados de Belo Horizonte, anteriormente avaliado quantitativamente pelo
grupo de pesquisa, no que se refere à situação de adesão à TARV da população
atendida.
Foram realizadas 26 entrevistas no total, sendo que treze entrevistados eram
reconhecidamente não aderentes à TARV e treze eram classificados como
aderentes. A não adesão foi medida pelos registros dos prontuários dos
pacientes e das fichas de dispensação dos ARV pela farmácia do serviço.
Para encontrar estas pessoas, foram utilizadas as informações constantes dos
prontuários e do banco de dados da etapa quantitativa da pesquisa, divididos em
aderentes e não aderentes em listas que incluíam a informação de autorização
para contato em casa, caso necessário. Porém, para o primeiro contato,
considerou-se mais apropriado fazê-lo após consulta de enfermagem ou médica no
SAE porque havia maior possibilidade de se explicitar o objeto, objetivos e
importância do estudo, marcando-se a entrevista para o mesmo dia ou
posteriormente, de acordo com a disponibilidade dos sujeitos. O telefone foi,
assim, utilizado para se confirmar datas e horários previamente agendados.
Para a coleta de dados os pesquisadores permaneceram no serviço em dias
estipulados pelos profissionais e gerência, e contataram os indivíduos que
compareceram às consultas médicas agendadas previamente. Os convites foram
feitos até se atingir o número de entrevistas que conformaram categorias de
interpretação da realidade sobre a experiência social do tratamento.
O número de entrevistados não foi, então, definido a priori. O critério de
exaustividade de dados sobre o objeto pesquisado definiu a suspensão da coleta,
sendo as entrevistas transcritas ao longo da coleta e analisadas por, pelo
menos, dois pesquisadores do grupo, até se ter um acordo sobre a interrupção da
coleta.
Os sujeitos foram informados quanto à natureza e finalidade da pesquisa, além
de ter sido garantida a confidencialidade e anonimato das informações, bem como
seu caráter voluntário. Os sujeitos foram informados que sua participação não
interferiria em nenhum aspecto de seu tratamento. Obteve-se sua assinatura no
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em duas vias, conforme Resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde.
Os dados foram coletados em sala privativa por meio de entrevistas individuais
abertas e em profundidade que foram gravadas, transcritas e, em seguida,
analisadas por meio da Análise Estrutural de Narração descrita por Demazière e
Dubar(15), utilizando-se o software Nvivo® versão 2007 para organização dos
dados qualitativos. Os autores citados defendem que a entrevista é uma
construção do sujeito que fala, na relação com o entrevistador, sendo um
encadeamento de descrições e julgamentos sobre fatos e pessoas, para se
explicar e explicar o mundo. Assim tudo na entrevista tem sentido, mesmo que os
objetos tratados pelo sujeito se apresentem sempre dispersos no decorrer desta.
Por isto, a entrevista deve ser 'reconstruída' pelo pesquisador, encontrando-se
as conjunções e disjunções sobre os objetos. A interpretação é, portanto, a
reconstrução dos julgamentos de valor que o próprio entrevistado faz(15).
O projeto foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade
Federal de Minas Gerais (Portaria nº 322/06) e da Secretaria Municipal de Saúde
de Belo Horizonte (Portaria nº 078/2006).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dentre os vinte e seis entrevistados, treze estavam classificados anteriormente
como aderentes e treze como não aderentes ao tratamento. A maioria (18) era
constituída de homens. A faixa etária predominante era de trinta e cinco a
quarenta e nove anos; doze entrevistados viviam com família constituída após
casamento ou união estável e oito viviam sozinhos; vinte e dois se declararam
como heterossexuais; onze tinham escolaridade de quatro a sete anos de estudo;
dezesseis tinham emprego fixo; quinze afirmaram renda mensal de um a três
salários mínimos, considerando o valor do salário mínimo da época (R$350,00).
Os demais tinham apoio de familiares ou bolsa família, além de fazerem 'bico',
porque não tinham nenhum rendimento mensal fixo. A faixa etária, a situação
conjugal, escolaridade e rendimentos deste grupo são compatíveis com o quadro
da população de pessoas com HIV no país que mostra as tendências da AIDS no
Brasil(16).
A maioria é, portanto, pobre, com baixa escolaridade e afirma ser
heterossexual, mesmo que alguns homens tenham se contradito, porque relataram
também relações homossexuais. Na interpretação dos resultados, não foi possível
relacionar as categorias subjetivas com estas varáveis objetivas, como
encontrado na etapa quantitativa desse estudo. Porém as reflexões sobre as
experiências sociais devido à infecção pelo HIV/AIDS mostraram-se como
categorias fundamentais para se compreender a situação dos entrevistados.
O centro do presente estudo se encontra, então, na interpretação das
dificuldades encontradas pelos entrevistados que interferiam ou os
desestimulavam em aderir corretamente ao tratamento e os aspectos que os
ajudavam ou motivavam a adesão.
Aspectos dificultadores da adesão ao tratamento com ARV
A análise das entrevistas no que se relacionava às dificuldades encontradas
pelos sujeitos na adesão ao tratamento resultou nas seguintes categorias: 1)
relativas ao cotidiano de vida e às rotinas diárias; 2) relativas às crenças
pessoais sobre o HIV; 3) relativas à medicação.
Na primeira categoria "Dificuldades relacionadas ao cotidiano de vida e às
rotinas diárias", os entrevistados falaram sobre a influência do tratamento no
seu estilo de vida, na sua rotina de trabalho e no planejamento das atividades
do dia a dia. O tratamento antirretroviral impõe mudanças na rotina das pessoas
como horários rígidos para medicação, acompanhamento por meio de consultas e
exames no Serviço de Referência e essas mudanças interferem no cotidiano dos
sujeitos.
É difícil, tipo assim, fazer uma viagem, eu tomo remédio controlado
todo dia, de mês em mês eu tô aqui, mês que vem eu tenho consulta de
novo, então não posso viajar, né? (E5,homem, não aderente).
Um estudo com adolescentes e adultos jovens (17) apontou que o esquecimento e
as mudanças impostas na rotina diária são os principais obstáculos para a
adesão. Segundo os autores, quando os horários de medicamentos coincidem com os
compromissos da rotina das pessoas a adesão torna-se difícil. Os sujeitos em
uso constante de antirretrovirais sentem que a medicação é uma espécie de
prisão a qual estão submetidos e que suas vidas estão totalmente relacionadas
às dosagens e horários impostos pelo tratamento. A gestão cotidiana do
tratamento torna-se difícil pelo tempo que deve ser disponibilizado pela
terapêutica (18). O conhecimento do estilo de vida dos pacientes pelos
profissionais de saúde pode aumentar a adesão por possibilitar a orientação e o
desenvolvimento de um regime terapêutico que atenda às necessidades específicas
da rotina do paciente (19).
Na análise dos dados foram encontradas também relatos de dificuldades
econômicas que prejudicaram a adesão à TARV. A interferência das questões
financeiras esteve relacionada ao acesso deficitário ao serviço de saúde devido
à falta de transporte gratuito e ao acesso limitado de alguns usuários a uma
alimentação adequada.
Eu tive muito obstáculo quanto a isso, por causa do transporte para
vir fazer o tratamento. Eu sabia que eu precisava de tratamento, mas
eu não tinha condição de pagar. Nem todo dia eu tenho quinze reais no
bolso. É eu que sustento a família, então, não tinha condição!
(E2,homem, não aderente).
Apesar de eu ter errado, inclusive na base do medicamento... Pra mim
está sendo excelente, apesar de eu ter cometido minhas falhas, né? É,
porque eu pensava assim: 'ah, o medicamento é muito forte, a
alimentação tem que ser adequada' Depois eu conversei com o doutor,
ele falou: 'você toma o seu medicamento, é prioridade!' (E6, homem,
não aderente).
Esses achados também foram encontrados em outros estudos (18,20-24).Mesmo
quando os sujeitos apresentam um elevado nível de compromisso com a medicação,
fatores econômicos, em particular, o elevado custo de transporte para as
visitas mensais ao serviço de saúde pode ser um desafio constante para o
sucesso do tratamento, quando se trata de uma população com baixo poder
aquisitivo (25). Os custos com transporte podem ser substanciais,
principalmente para aqueles pacientes que vivem em áreas rurais e ainda têm que
pagar outras despesas como abrigo e alimentação (25). Dificuldades relacionadas
ao contexto de pobreza dos indivíduos podem restringir a capacidade destes de
sustentarem o tratamento. Porém, dificuldades de transporte e níveis de
nutrição inadequados são obstáculos difíceis de serem resolvidos pelos serviços
de saúde (21).
Dificuldades relacionadas às responsabilidades de trabalhar fora com as
inerentes ao tratamento também foram relatadas pelos entrevistados, sendo que a
escolha de alguns foi deixar de trabalhar por não conseguir associar as duas
atividades.
Então muda o ritmo mesmo. Para trabalhar, até para trabalhar. Eu não
estou trabalhando. Eu até recusei serviço. Eu tinha que ter o tempo
integral. Aí o quê que ia acontecer? Eu ia ter que sair, eu ia ter
consulta aqui, exame pra fazer. Trabalhar de noite, eu não posso
perder sono. Eu não posso ficar sem dormir porque eu tomo remédio à
noite. Aí eu falei: 'quer saber de uma coisa? Eu não vou...' ( E16,
homem, aderente).
Há, também, situações descritas e justificativas que aparecem como negação da
própria situação de não adesão ao tratamento, abrangendo essa relação com o
trabalho.
Quando eu chego no trabalho eu já tomei o medicamento, quando eu
chego em casa eu tomo o outro. Eu tenho que manter o horário, eu não
posso mudar de horário. Eu perguntei (para o médico) se o dia que eu
trocasse de horário, que eu trabalhasse à noite se eu poderia tomar
mais tarde (E2, homem, não aderente).
Dificuldades em operacionalizar o uso regular de medicamentos com as atividades
laborais também foram encontradas por outros autores(18). A responsabilidade
com o trabalho e as dificuldades financeiras podem ser mais importantes, do
ponto de vista da pessoa que vive com HIV, do que a necessidade de cuidar da
saúde. Além disso, um agravo à saúde pode produzir limitações que, com
frequência, repercutem nas atividades profissionais e, consequentemente, na
sobrevivência das pessoas. Assim, a doença pode representar uma incapacidade
para o trabalho e não somente um dano ao corpo(18).
Da mesma forma como encontrado na literatura(26-32), vícios como uso de álcool
ou drogas podem interferir no uso correto da medicação. Falhas devido ao uso de
álcool foram relatadas até mesmo por quem era considerado aderente ao
tratamento:
De vez em quando eu bebo um litro e meio, dois, três, depende. Pode
ser uísque, pode ser vodca, pode ser tudo. Bom, se eu tomo no bar,
chego em casa e falo: 'não vou tomar esse remédio hoje não. Não vai
adiantar nada, vai queimar tudo lá, cheio de álcool no estômago'. Aí
é que eu costumo falhar, mas é muito raro. (E22, homem, aderente).
Pessoas infectadas pelo HIV que fazem uso de álcool têm pior aderência do que
aqueles que não o fazem e o risco de abandono do tratamento aumenta com a
gravidade do alcoolismo(29). O álcool pode diminuir a adesão porque muitas
pessoas podem deixar de tomar sua medicação por se sentirem intoxicadas por
terem bebido, além de deixarem de tomar medicamentos para cumprirem suas
funções sociais como ir a festas e bares, locais onde lhe são oferecidos
bebidas(28). Além disso, no Brasil existe a representação de que não se deve
misturar bebidas e medicamentos, o que contribui para que, mesmo pessoas com
boa adesão deixem de tomar seus medicamentos quando consomem bebidas
alcoólicas, inclusive aquelas que só bebem socialmente(33).
Outra categoria encontrada está relacionada às crenças pessoais dos sujeitos
que dizem respeito à transmissão do vírus, ao diagnóstico de soropositividade e
ao uso da medicação antirretroviral. A interferência dos pontos de vista dos
sujeitos sobre a infecção na adesão aos medicamentos esteve mais presente ainda
no início do tratamento. A fala de E25, mulher, classificada como aderente no
período de realização desse estudo reflete tal situação:
Antes não estava dando certo porque eu não tomava os remédios
direito. Porque eu achava que pra mim era ilusão. Eu pensava: 'com
remédio, sem remédio esse negócio acaba'. Eu tinha esperança que ele
ia acabar. Porque eu pensei assim: 'se eu peguei foi de um namorado,
né? Eu não era garota de programa, foi só com o namorado, então do
jeito que ele entrou ele saía'. Eu, pra mim, era assim. Igual quando
a gente tá gripado toma um remédio, não sara? Eu pensei: 'às vezes
nem tomando remédio a gripe passa'. Eu pensei que era tudo a mesma
coisa. Eu comecei a passar mal, aí depois eu pensei: 'se eu não tomo
esses remédios, o problema é só meu. Não é da médica, nem da minha
família, não é de ninguém. Então não me custa nada pegar os três
comprimidinhos, jogar na boca e tomar, não vai arrancar pedaço, não
vai me fazer mal.' E com isso eu fui fazendo e hoje em dia eu tomo
direitinho.
Esse dado é condizente com o encontrado em outros estudos(20-21). Um estudo
realizado com profissionais de saúde de um serviço de referência apontou que
certas crenças sobre a TARV foram consideradas uma barreira para a adesão(20).
As crenças a respeito das causas do HIV podem reduzir a motivação para o
tratamento biomédico. Da mesma forma, equívocos e boatos relacionados ao
tratamento antirretroviral também geram desconfiança e confusão, podendo
influenciar negativamente a motivação para início ou seguimento da terapia(21).
A maioria dos entrevistados relatou também a complexidade do tratamento como um
aspecto dificultador da adesão à TARV, o que se encontra na terceira categoria
"Dificuldades relacionadas com a medicação".
Dentro dessa categoria os efeitos colaterais foram considerados uma importante
dificuldade inerente ao tratamento a ser superada.
Se eu estiver em jejum eu não consigo, me dá muito enjôo, me dá
tonteira. Eu sinto muita fraqueza, eu estou me sentindo fraca. Só
depois do almoço vai melhor. Depois do almoço, quando é lá pras
quatro horas eu animo, lavo roupa. Agora de manhãzinha, quando eu
levanto, parece que eu tô muito fraca. Eu enjoava demais, fiquei uns
três meses sem o medicamento. (E8, mulher, não aderente).
Só uma vez que o coquetel começou a fazer mal pra mim. Ele me dava
tonteira, parecia que eu tinha bebido. Aí eu chamei a médica: 'olha,
eu não vou ficar com esse remédio, porque, se eu levo meu menino pra
escola e me dá uma tonteira na rua? Todo mundo vai achar que eu estou
bêbada'. Ele está me pondo lerdinha, lerdinha e caindo. Os outros vão
achar que eu estou bêbada! (E1,mulher, não aderente).
A presença de efeitos colaterais também foi associada a não adesão em outros
estudos(14,20,32, 4-36). A presença de efeitos colaterais é a principal
dificuldade que os sujeitos relatam enfrentar no início do tratamento, mas com
a adaptação ao tratamento eles aprendem a identificar e a lidar com essas
reações(34). Quanto maior o número de efeitos colaterais percebidos pelo
usuário, menor será sua adesão aos medicamentos(37). Isto aponta para a
importância de um bom acompanhamento dos profissionais de saúde, principalmente
no início do tratamento.
A quantidade de medicamentos impostos em alguns esquemas de tratamento também
foi encontrada na literatura(20,22,31,38-39)como mais um fator que prejudica a
adesão à TARV.
Um estudo recente(38) apontou que a redução do número diário de pílulas do
regime terapêutico aumentou consideravelmente a adesão. Este dado também se
apresentou no presente estudo como um importante aspecto que pode interferir no
uso correto da medicação e para o qual é necessária atenção individualizada e
pertinente:
Só no princípio que eu comecei a não tomar o remédio direito. Era
muito remédio! Aí depois eu falei assim: 'se eu quiser viver, eu vou
ter que tomar direitinho'. Aí eu comecei a tomar direitinho,
conversava com a médica, com as psicólogas, elas me explicavam
direitinho, aí comecei a tomar direitinho e estou tomando (E18,
homem, aderente).
Os cuidados com alguns medicamentos, principalmente quando estes necessitam de
refrigeração, foi outro aspecto definido na interpretação dos dados, que
influencia a adesão à medicação:
Igual foi há pouco tempo atrás: eu tomo um medicamento que tem que
ficar na geladeira. Aí eu fui lá para o Espírito Santo, depois fui
para a Bahia, depois fui para Brasília, aí depois voltei para o
espírito Santo de novo. Fiz esse círculo aí, fiquei indo e voltando
num bocado de lugar. Então me atrapalhou nessas questões (E9, homem,
não aderente).
Várias dificuldades relatadas, principalmente nas falas dos aderentes, se
referem às dificuldades encontradas no início do tratamento. Sabe-se que nesse
período é primordial que a equipe de saúde envide esforços para acolhimento e
acompanhamento da adaptação do paciente para evitar abandono ao tratamento e
garantir uma boa adesão futura(30).
Aspectos facilitadores da adesão à TARV
No que se refere à compreensão sobre os aspectos que facilitaram a adesão,
foram encontradas as seguintes categorias: 1) Ausência de efeitos colaterais;
2) Lembrança viva dos sintomas da doença; 3) Manutenção da saúde e aumento da
sobrevida; 4) Influência da rede social.
Da mesma forma que a presença de efeitos colaterais se mostrou um aspecto
desmotivador ou um obstáculo para o seguimento correto do tratamento, a sua
ausência, a sensação de se sentir bem fazendo uso de medicação se mostrou um
aspecto que facilita a adesão à TARV.
Não teve efeito colateral nenhum, nunca houve a necessidade de
mudança de medicamento. Inclusive hoje estou 100% (E21, homem,
aderente).
A ausência de efeitos colaterais como um aspecto facilitador da adesão é
condizente com outros estudos(37,40-41). Entretanto, alguns estudos(22,39)
apontam que a ausência de efeitos colaterais pode propiciar a não adesão. Isso
pode acontecer devido a uma falsa crença de que a presença de efeitos
colaterais demonstra a ação dos medicamentos. A representação é de que, para
ser eficaz, o medicamento deveria apresentar tais efeitos. Além disso, para
estes autores, indivíduos que são não aderentes podem não ter apresentado os
efeitos por não ingerirem corretamente os medicamentos e, consequentemente,
abandoná-los por considerá-los ineficazes(39). Porém, estes achados citados não
foram constatados na presente pesquisa, mas pode-se supor que alguns sujeitos
tendem a manter uma 'ilusão positiva', negando 'conscientemente a si mesmos'
qualquer evento que possa atrapalhar seu desejo de se sair bem no tratamento e
ser mais forte do que os percalços que daí advierem(42). Esta autora afirma que
"certas distorções limitadas do real, favoráveis à imagem de si mesmo, garantem
melhor o dinamismo e a saúde mental do que um realismo objetivo, em muitos
casos" (42-43). Assim, alguns, sem mentir 'conscientemente a si mesmos'
escolhem, entre as diversas interpretações plausíveis aquela que lhe arranja
melhor.
Eu tenho certeza que não preciso dele, mas como não me afeta em nada,
eu tomo. Se ele tivesse me proporcionando qualquer coisa estranha eu
parava. É a mesma coisa de tomar água, água pura (E20, homem,
aderente).
Outro aspecto considerado como motivador para o uso correto da medicação é
quando o sujeito já foi acometido pelos sintomas da AIDS no início da infecção
ou em períodos de não adesão. A lembrança dos sintomas da doença faz com que
indivíduos façam uso correto da medicação por medo de conviver novamente com as
doenças oportunistas e hospitalizações.
Quando eu saí do hospital eu falei: ' se eu não fizer o tratamento,
aí vai ser pior porque eu não vou morrer de uma vez, vou morrer aos
poucos e ainda vou dar trabalho. E optei por fazer o tratamento. Ah!
No estado em que eu fiquei e chegar ao ponto que cheguei... Nossa!
Não gosto nem de me lembrar! Eu fiquei pele e osso... Nossa! Quando
eu lembro o que passei, Deus me perdoe! Por isso tomo o remédio
direitinho com medo de voltar. E eu sei que se eu não tratar é
arriscado a voltar, né, ter a mesma recaída! (E26, mulher, aderente).
Esse dado foi encontrado também em outros estudos(19,41). Pessoas infectadas
pelo HIV costumam referir não querer viver novamente a situação de quando
estiveram sintomáticos, e por isso podem tentar seguir corretamente o
tratamento(41).
Muitos entrevistados relataram que, quando tomaram consciência que não estavam
condenados à morte por terem sido infectados pelo HIV e que era possível, com
os uso de medicamentos, aumentar a sobrevida e viver com qualidade, se sentiram
motivados a fazer o tratamento.
Eu queria era a minha saúde, eu queria lutar! E depois eu fui começar
a compreender que a vida não tinha acabado pra mim, que eu tinha uma
vida pela frente" (E22, homem, não aderente, mas querendo conseguir
fazer o tratamento).
Alguns, como E23, conseguiram retomar antigos projetos de vida:
Desde que eu descobri... eu tinha sonhado em ter uma casa, né? Mas
aí, desde que eu vi que tomando o remédio dava pra ficar mais um
tempo, deu pra melhorar bastante a minha vida, aí eu... já que eu
estou tomando remédio e estou me sentindo bem, eu vou construir
alguma coisa para os meus filhos (E23, mulher, aderente).
Vários outros estudos(18,20-21,40,44-45) também relataram os benefícios
percebidos pelo uso da TARV como um aspecto facilitador da adesão. Experimentar
resultados fisiológicos positivos com o uso da TARV pode facilitar a adesão,
pois pessoas motivadas e confiantes na medicação se sentem mais
responsabilizados para seguir o tratamento(21).
Além do sentimento de poder continuar devido aos bons resultados com o
tratamento, um aspecto facilitador fundamental encontrado diz respeito às
relações sociais. Possuir vínculos estreitos com os membros da rede social,
principalmente familiares, facilitou a adesão à TARV.
Olha, o que me faz tomar meus remédios direito... Porque eu fico
pensando assim: 'meus meninos hoje tem... a minha menina tem dez e o
meu menino tem nove e eu quero ver eles crescer, casar. Eu quero
viver, ficar velho. E eu acredito nisso, que eu não vou morrer, que
eu vou ver meus filhos crescer. Todo dia que eu tomo os remédios eu
penso só nisso, só nisso! Porque é muito bom você acordar e meus
meninos... todo dia eu acordo, eles estão no quarto deles, eles
chegam e me abraçam, me beija... pai... E aquilo pra mim é tudo, tudo
mesmo! (E18, homem, aderente).
Nós (ele e parceiro) somos amigos um do outro. Fazemos o tratamento
aqui no mesmo lugar, tomamos o mesmo medicamento. Então, eu não deixo
ele esquecer de tomar o medicamento, estou sempre cobrando. Então, é
um ajudando o outro. Nesse sentido é muito tranquilo um com o outro
(E19, homem, aderente).
Sempre que eu tenho minhas consultas, eu informo pra ela (esposa). Eu
faço os exames aí eu mostro pra ela. Agora ela deve estar me ligando
porque sabe que eu tenho consulta, pra saber como é que tá. Eu tô com
um resfriado essa semana, aí ela deve estar ligando pra saber o quê
que o médico falou. Se ele me passou algum remédio... (E17, homem,
aderente).
Vários estudos(20-21,24,35,46-50) apontam que o apoio ofertado às pessoas que
vivem com HIV/AIDS pela sua rede social pode influenciar a adesão ao tratamento
antirretroviral.
A existência de sistemas de apoio, o tipo de apoio e a sua eficácia percebida
por parte do usuário são aspectos que facilitam a adesão(37). Os membros da
família prestam mais apoio em questões relacionadas à soropositividade do que
amigos, profissionais de saúde e líderes religiosos(51-52). A preparação dos
sujeitos para a adesão à TARV pelos profissionais de saúde deve acontecer
principalmente antes da prescrição da medicação e no início do tratamento e
deve incluir uma discussão sobre as fontes de apoio disponíveis(49).
Outro aspecto importante nessa categoria é o apoio social ofertado pelo Serviço
de Saúde. Todos os entrevistados relataram satisfação com a assistência e apoio
da equipe de saúde no tratamento. Alguns relataram que o cuidado da equipe de
saúde foi importante para ajudá-los no enfrentamento do problema e no
tratamento.
É no começo eu comecei a distrair por causa dos remédios, sabe,
deixava de tomar a dose, uma coisa assim, e sempre quando eu chegava
conversava com a doutora... Ela sempre me ajudava, ajudava não, me
ajuda muito até hoje. Sempre quando eu consultar no consultório com
ela, ela perguntava: 'como é que você está? ' Porque eu sempre trazia
os remédios, né? 'Tá sobrando remédio aqui! ' eu tinha que explicar
tudo pra ela, né? Por que eu vou mentir? Mentir pra mim mesmo?
(E5,homem, não aderente).
Agora, aqui, todo mundo sabe. Aqui todo mundo sabe, já me conhece
mesmo! Também já faz sete anos que eu venho aqui. Eu devo muito a ela
(médica) e as meninas, que elas me ajudou muito. Quando eu cheguei
aqui, na época eu mexia com tóxico, bebia, fumava e eu era toda
'espiradona' mesmo. Aí, eles foi me dando conselho, foi me ajudando,
aí eu consegui parar com a maconha. Primeiro eu parei com a bebida,
depois eu parei com a maconha. E elas foi me ensinando a viver com o
HIV, que eu não era a primeira e nem a única, que tudo podia
acontecer. Se elas não me ajudam, eu ia pra debaixo do poço. Aí elas
me ajudou bastante que a minha cabeça chegou toda no lugar (E25,
mulher, aderente).
Outros estudos (21,24,35) também apontam para a influência do vínculo entre
profissional de saúde e paciente na adesão. As discussões entre médicos e
pacientes e um diálogo aberto com orientações sobre o tratamento, seus efeitos
colaterais e as dificuldades encontradas pelos pacientes em seu seguimento
podem incentivar ou, se ausente ou errada, desencorajar a adesão ao uso de
drogas antirretrovirais ou favorecer seu abandono(19). Quando a relação do
paciente com o profissional de saúde se caracteriza por satisfação da relação,
confiança para expressar dúvidas, percepção positiva sobre a competência do
profissional, amabilidade no trato, empatia e confiança, essa relação favorece
a adesão ao tratamento(37).
Ao comparar aspectos dificultadores com facilitadores, ressalta-se que a
categoria que pode ser denominada 'rede social' aparece fortemente entre os
aderentes, mas não está presente na mesma intensidade nas narrações dos
sujeitos não aderentes, sendo que estes descrevem relações fragmentadas e falta
de apoio na família, amigos, etc. Tal resultado aponta para a importância da
rede social como um aspecto que deve ser melhor enfrentado junto às pessoas
vivendo com HIV/AIDS.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A adesão à TARV é a principal variável sobre a qual os serviços de saúde podem
intervir para aumentar a eficácia do tratamento e diminuir a chance do
surgimento de resistência do HIV aos medicamentos ARV. Este estudo abordou
aspectos importantes para a abordagem de práticas de incremento da adesão ao
tratamento antirretroviral nos serviços de referência para HIV/AIDS.
Os sujeitos envolvidos nesse estudo revelaram suas dificuldades e motivações
para a adesão ao tratamento. Dentre os aspectos dificultadores destacaram-se
aqueles relacionados à conciliação entre exigências impostas pelo tratamento e
atividades cotidianas, às representações sobre HIV e TARV e aqueles inerentes à
complexidade do tratamento.
Pode-se ressaltar que grande parte dessas dificuldades surge no início do
tratamento, momento que requer maior envolvimento entre profissionais de saúde
e pacientes. Dificuldades decorrentes da adaptação da medicação às atividades
diárias e às representações sobre o tratamento podem ser minimizadas com o
fortalecimento do vínculo entre as partes envolvidas e o desenvolvimento de uma
escuta qualificada por parte do profissional de saúde que facilite o diálogo
com busca de soluções conjuntas e ressalte a corresponsabilização no
tratamento. Dificuldades relacionadas à medicação podem ser superadas
adaptando-se horários do tratamento ou com a troca da medicação.
Dentre os aspectos relatados como facilitadores da adesão à TARV destacaram-se
a lembrança de sintomas da AIDS, a percepção do aumento da sobrevida e o
vínculo estabelecido com membros da rede social do infectado.
Esses dados apontam para a importância de uma discussão entre profissionais de
saúde e usuários a respeitos das vantagens obtidas na adesão ao tratamento
visando um maior envolvimento do usuário na manutenção de sua saúde. A
influência da rede social do infectado se destaca como um aspecto motivador da
adesão ao tratamento. A partir daí, os serviços de saúde podem criar
estratégias de identificação e envolvimento da rede social de suporte no
tratamento de pessoas que vivem com HIV.
Os serviços de saúde são locais privilegiados e estratégicos para promover
intervenções como provedores de informações sobre a importância da adesão,
adequação do tratamento na rotina de vida do paciente, além de poder oferecer
suporte clínico para as toxicidades e para as dependências químicas.
Para aumentar a adesão à TARV é necessário que os serviços de saúde conheçam as
especificidades e dificuldades materiais e psicossociais de cada usuário em
terapia antirretroviral, para desvelar aspectos que podem motivá-lo no
seguimento do tratamento.