Investigando a produção do conhecimento sobre a pessoa idosa longeva
INTRODUÇÃO
A produção do conhecimento é fruto da dinâmica social, que considera, pois, a
ordem do tempo e as mudanças ocorridas na sociedade. Deste modo, o conhecimento
produzido deve demonstrar no decorrer dos anos um ritmo ajustado às exigências
sociais e as necessidades de enfrentamento da população(1).
A nossa sociedade vem dando valor sobremaneira à investigação científica, como
base para adoção ou não de determinadas ações, comportamentos e valores.
Seguindo este caminho, a produção de conhecimento sobre o envelhecer tem
ganhado uma atenção cada vez maior, fazendo circular o discurso dos experts e,
por meio do vínculo da qualidade de vida na velhice, a certo tipo de práticas
de sentir, pensar, falar e agir, definindo o campo como o da terceira idade(2).
No Brasil, a pesquisa sobre envelhecimento é uma prática impulsionada a partir
da década de 1980. Existe um pequeno quantitativo de grupos de pesquisa
especificamente destinados à investigação deste tema, cujos pesquisadores não
apresentam titulação acadêmica elevada, fator que está estreitamente
relacionado com a reduzida participação de discentes, mestres e doutores,
nesses espaços. Além disso, existem poucos programas de pós-graduação stricto
sensu relacionados especificamente para o estudo do envelhecimento ' foram
identificados três programas em Gerontologia, dos quais apenas um com
doutorado; e três que contam com áreas afins a esta temática(3).
O envelhecimento humano é um processo influenciado por múltiplos fatores
determinantes: moleculares, celulares, sistêmicos, comportamentais, cognitivos
e sociais. Estes interagem e regulam, desde o funcionamento típico, quanto o
atípico da pessoa que envelhece(4). Ademais, esses fatores também podem ser
capazes de intervir na adaptação do indivíduo ao meio social em que vive,
comprometendo a sua qualidade de vida(5).
De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde, o envelhecer é um processo
sequencial, individual, cumulativo, irreversível, universal, não patológico, de
deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os membros de uma espécie,
de maneira que o tempo o torne menos capaz de fazer frente ao estresse do meio
ambiente e, portanto, aumente sua possibilidade de morte(6).
Sendo assim, o envelhecimento pode ser compreendido como senescência, ou seja,
fase natural de alterações orgânicas, morfológicas e funcionais, próprias do
avançar da idade, relacionadas ao envelhecer saudável, ao passo que, as
alterações produzidas por condições de sobrecarga, afecções, estresse
emocional, caracteriza a velhice marcada por condição patológica, denominado de
senilidade(6).
No Brasil, o envelhecimento demográfico tem como marco as mudanças nas taxas de
fecundidade e mortalidade, com consequente aumento da expectativa de vida
populacional, de forma rápida e desordenada. Esse processo teve início a partir
de 1940, com o significativo declínio da taxa de mortalidade, o qual é
prolongado até 1970. No entanto, somente a partir da década de 60, com a rápida
e sustentada redução das taxas de fecundidade, dá-se início às modificações na
estrutura etária no país, com procedente transição demográfica da população(7).
Em conjunto com o aumento da expectativa de vida dos brasileiros ocorrem também
alterações nos padrões de mortalidade e morbidade da população e, deste modo,
remete a transição epidemiológica. Ao período caracterizado pelas doenças
transmissíveis, atreladas às más condições de vida, pobreza, má nutrição, falta
de higiene e saneamento básico, acrescentam-se as afecções crônico-
degenerativas e as socioambientais, decorrente da degradação do ambiente, das
condições de trabalho e das relações sociais através das drogas, violência e
acidentes. Assim, convive-se em uma complexa realidade, na qual a violência
coexiste com o recrudescimento de patologias transmissíveis, com ainda altos
índices de mortalidade infantil e considerável aumento da expectativa de vida
(8).
O fenômeno do envelhecimento, hoje, é uma realidade mundial. Em todo o mundo, a
proporção de pessoas com 60 anos ou mais está crescendo mais rapidamente que a
de qualquer outra faixa etária. Entre 1970 e 2025, espera-se um crescimento de
223%, ou, em torno de 694 milhões no número de pessoas mais velhas. Em 2025,
haverá um total de aproximadamente 1,2 bilhões de pessoas com mais de 60 anos;
até 2050, dois bilhões, sendo 80% nos países em desenvolvimento(9).
É nesse contexto que os idosos em velhice avançada, idade igual ou maior que 80
anos, também vêm aumentando de forma proporcional e acelerada, tornando-se o
segmento populacional com maior crescimento nos últimos anos, correspondendo a
12,8% da população idosa e 1,1% da população total(6).
No que se refere à população brasileira, esta alcançará em 2050 o patamar de
81,29 anos de vida, aproximando-se assim, do mesmo nível atual de países como a
Islândia (81,80), Hong Kong, China (82,20) e Japão (82,60). Deste modo,
observa-se "uma população que vem galgando degraus em sua longevidade"(10), já
que a estimativa para 2050 é de 13,8 milhões de brasileiros com 80 anos ou mais
de idade(10).
Assim, face ao envelhecimento populacional e ao impacto social viabilizado por
este, tornam-se imprescindíveis novas concepções de atenção à população idosa
e, sobretudo, aos longevos. Para tanto, é essencial fomentar as discussões e
reflexões sobre o aumento da expectativa de vida por parte da sociedade em
geral, e, mais especificamente, no meio acadêmico, do qual se espera maior
produção de conhecimento sobre essa temática, especialmente, quanto à forma de
proporcionar qualidade de vida às pessoas idosas(11).
Diante do exposto, observa-se que o mundo caminha na perspectiva de uma
população cada vez mais longeva, uma vez que os idosos com idade igual ou
superior a 80 anos é a fração populacional que vêm crescendo significativamente
a passos largos. Assim, no sentido de avaliar as implicações e relevâncias das
investigações científicas relativas aos idosos longevos, e de contribuir para a
ampliação de conhecimentos nesta área, elegeu-se como objetivo para este estudo
o de investigar a produção do conhecimento sobre a pessoa idosa longeva na
América Latina e Caribe.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, com abordagem quantitativa, descritiva
e exploratória realizada no período de agosto de 2008 a julho de 2009.
O estudo bibliográfico é desenvolvido com base em trabalhos já elaborados,
incluindo principalmente livros e artigos científicos, e permite ao
investigador uma cobertura mais ampla do número de fenômenos existentes
relacionados ao objeto em questão (12).
Nesta pesquisa, optou-se pela investigação de estudos científicos sobre idosos
com idade igual ou superior a 80 anos, idoso longevo, ao considerar o atual
crescimento de pessoas nessa faixa etária na população idosa, mundial e
brasileira, e as peculiaridades sociais que estas demandam.
No primeiro momento do desenvolvimento dessa pesquisa foi realizado o
levantamento bibliográfico, no período de agosto a dezembro de 2008, nas bases
de dados em ciências da saúde em geral:Scientific Electronic Library Online
(SCIELO)e na Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde
(LILACS), por meio do acesso à Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). O estudo foi
subsidiado pelo seguinte critério de inclusão: produções científicas completas,
referentes à temática da pessoa idosa longeva (idoso com idade igual ou
superior a 80 anos). Foram definidos no projeto de Iniciação Científica como
bancos de dados o SCIELO e o LILACS, dos países da América Latina e Caribe, por
estas bases possibilitarem o livre acesso a um grande número de publicação
eletrônica de periódicos científicos de diversas nacionalidades. Para esta
finalidade utilizaram-se como descritores: longevos, octogenários, oitenta anos
ou mais, 80 anos ou mais, idosos de oitenta anos ou mais e muito idosos. Após
utilizar estes descritores, foram disponibilizados artigos provenientes dos
seguintes países: Argentina, Estados Unidos, Peru, Chile, Cuba, México, Espanha
e Austrália.
A utilização dessas palavras-chave conduziu a alguns "falso-positivos", ou
seja, pesquisas que não eram condizentes com o objeto de estudo. Foram
estabelecidos como critérios de exclusão: 1) Artigos que incluíam idosos cuja
idade era inferior a 80 anos; 2) Trabalhos não relativos a seres humanos; 3)
Trabalhos que não foram conseguidos na íntegra. Assim, foram selecionados
apenas os estudos que, com convicção, fazem parte do universo temático
investigado.
Esse procedimento possibilitou a identificação de 88 artigos científicos
referentes à pessoa idosa longeva, sendo estes publicados nos idiomas
português, espanhol e inglês. Para a coleta dos dados foi feito o preenchimento
concomitante do instrumento de coleta, através do qual foram observadas as
seguintes variáveis independentes: título da obra, autor, objeto de estudo,
objetivo, abordagem metodológica, tipo de artigo, área de produção,
características geográficas (país onde foi realizado, se Brasil, estado e
região), lócus do estudo (instituição pública ou privada), ano de realização,
ano e revista de publicação, descritor utilizado e base de dados.
No segundo momento, procedeu-se à análise quantitativa dos dados. Os resultados
das variáveis identificadas (base de dados, ano de publicação, tipo de artigo,
características geográficas, abordagem metodológica, área de produção e objeto
de estudo) foram expressos através de representações numéricas por meio de
valores e porcentagens, com gráficos e quadro, seguindo a distribuição
sistemática por frequência simples. Este método constitui a estatística
descritiva, utilizada para descrever, organizar e sintetizar dados de expressão
numérica(13). Posteriormente, os resultados foram discutidos e analisados à luz
da produção literária sobre o envelhecimento, produção do conhecimento e
longevidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O levantamento bibliográfico utilizando as palavras-chave descritas totalizou
4.381 publicações científicas, das quais 88 (2%) do total eram investigações
referentes à pessoa idosa longeva. Dessas, constatou-se que 87,5% foram
identificadas na base de dados LILACS.
O singelo percentual de publicações sobre os idosos longevos corrobora os
achados de outra pesquisa produzida no ano de 2008, na qual foi feita uma busca
na base de dados SCIELO, utilizando as palavras-chave "octogenários" ou "idoso
de oitenta anos ou mais", encontrando-se cinco (5) artigos referentes a essa
temática(14).
Seguindo a perspectiva do aumento exponencial de octogenários, fenômeno
considerado global e evidenciado na realidade brasileira, observa-se a
necessidade de investigações científicas nesse universo temático por parte da
comunidade acadêmica, já que o resultado encontrado (2% de estudos) comprova a
escassez de publicações que abordam os idosos longevos como tema central de
pesquisa.
A produção do conhecimento é um processo rápido, dinâmico, que reflete o nível
intelectual e profissional de determinada região e momento histórico. Após o
desenvolvimento das pesquisas científicas, estas devem ser transmitidas e
socializadas (15).
O despertar pela investigação sobre a terceira idade no Brasil vem crescendo a
partir da segunda metade do século XX, com aumento considerável na década de
90. É nesse contexto que a produção de dissertações e teses sobre o processo de
envelhecimento humano apresentou um crescimento de forma exponencial a partir
da década de 1970, sendo 7% dos trabalhos concluídos entre os anos de 1975 e
1979; uma terça parte situada nos anos 1980; e mais de 60% restantes
finalizados entre 1990 e 1998(16).
Esse interesse se traduziu na constituição de centros de estudo e de formação
de profissionais voltados para trabalhar com idosos, na abertura de espaços
para reuniões e discussões sobre essa temática, e na criação de áreas
especificamente voltadas para o estudo do envelhecimento, no interior de
disciplinas acadêmicas plenamente constituídas(17).
De modo geral, o empenho crescente pelo estudo do envelhecimento humano no
Brasil coincidiu com o processo de formação dos grupos de pesquisa. O primeiro
grupo voltado especificamente para a pesquisa para essa temática foi criado na
década de 70, o qual recebeu denominação de NESPI ' Núcleo de Estudos e
Pesquisas do Idoso. Este se constituiu na área de Enfermagem, pautado no estudo
da saúde do idoso nos aspectos biopsicossociais e instalado na Escola de
Enfermagem da Universidade Federal da Bahia. Em 1980, um pequeno número de
grupos foi formado, com um aumento considerável destes a partir da década de
1990, período no qual o envelhecimento passa a ser visto também como questão
social(16).
No que se refere ao desenvolvimento de pesquisas sobre a população de idosos
longevos, este ainda não alcançou números expressivos. Assim, observa-se que,
mesmo diante do aumento considerável da expectativa de vida brasileira e
mundial, os pesquisadores até o momento não tem dado passos largos na
investigação sobre a longevidade.
As publicações sobre a pessoa idosa longeva, de acordo com os resultados desta
pesquisa, ocorreram ao longo dos anos de 1994 a 2008 sendo que, nos últimos
anos, o despertar por este tema acentuou-se significativamente, constatando-se
o maior número de pesquisas (20 artigos), no ano de 2005. Essa distribuição
pode ser associada com os períodos de maior discussão sobre o envelhecimento no
Brasil, ou seja, quando as leis e políticas públicas foram efetivadas na
sociedade brasileira.
Em janeiro de 1994, foi sancionada a LEI Nº 8.842, que dispõe sobre a Política
Nacional do Idoso (PNI), cria o Conselho Nacional do Idoso e propõe, entre seus
princípios e diretrizes, que o envelhecer diz respeito à sociedade em geral,
devendo, assim, ser objeto de conhecimento e informação para todos, além de
assegurar o apoio a estudos e pesquisas sobre as questões relativas ao
envelhecimento(18). Posteriormente, outras medidas foram acrescentadas à
criação da PNI, quais sejam:Política Nacional de Saúde do Idoso ' Portaria MS
1.395/99, a qual foi atualizada através da Portaria Nº 2.528 em 19 de outubro
de 2006 e passou a ser definida como Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa
(PNSPI), e a Lei Nº 10.741 de 1/10/2003, que promulgou o Estatuto do Idoso.
No tocante à distribuição das publicações sobre a pessoa idosa longeva segundo
o tipo de artigo, observou-se a predominância de pesquisas classificadas como
relato de caso clínico e/ou experiências assistenciais 54(61,4%), seguido de
pesquisa ou original, 22(25%) do total.
Nesse sentido, fica evidente que a produção do conhecimento relativa a esse
tema tem se pautado nos relatos de múltiplas patologias apresentadas pelos
idosos longevos, que por sua vez envolvem as doenças crônicas e degenerativas e
as síndromes geriátricas, além da descrição de processos terapêuticos e de
técnicas cirúrgicas, realizadas nessas pessoas.
Em relação à procedência dos estudos científicos selecionados, podemos analisar
que os pesquisadores brasileiros realizaram 69,3% dos trabalhos sobre a pessoa
idosa longeva, seguido do Chile, com a produção de 10,2% das pesquisas.
Nos anos de 2005-2010, a perspectiva de vida para a população do Brasil
correspondia a 72 e 74 anos. Esta se encontrava aquém das apresentadas pela
Austrália (81,20 anos), Espanha (80,90 anos), Chile (78,6 anos), Cuba (78,30),
EUA (78,20 anos), Argentina (75,30 anos), sendo superior apenas o do Peru
(71,40 anos)(10).
Deste modo, ao avaliar os dados, de acordo com as taxas das expectativas de
vida dos países onde os estudos foram desenvolvidos, observou-se que o Brasil
se apresenta como predominante nas pesquisas de idosos longevos e, no entanto,
não se destaca com o maior índice de esperança de vida, ou seja, com a
população mais idosa, quando comparado aos demais países.
O padrão de organização da produção científica no Brasil pôde ser acompanhado
nos artigos referentes à pessoa idosa longeva de acordo com as regiões e os
estados brasileiros onde foram produzidos, respectivamente.
Pôde-se perceber uma concentração das publicações nas regiões Sudeste (67,2%) e
Sul (24,6%) do país, respectivamente. A região Nordeste apresentou um
percentual de 8,2% das pesquisas, sendo observada ausência destas nas regiões
Norte e Centro-Oeste.
Acompanhando o perfil de centralização da investigação científica brasileira,
os resultados demonstraram um número elevado de pesquisas sobre idosos longevos
no estado de São Paulo, 52,5%, seguido do Rio Grande do Sul, 23%.
Simultaneamente a estes achados, observou-se que, mesmo sendo com percentuais
menores dos encontrados nestes estados, várias unidades da federação brasileira
desenvolveram investigações nessa temática.
Nesse campo de investigação, a cidade gaúcha de Veranópolis se destaca com a
concentração do desenvolvimento de pesquisas sobre pessoas longevas. Este fato
pode ser justificado por esta cidade apresentar uma elevada expectativa de vida
ao nascer, 77,7 anos, (na década de 90), enquanto que no Rio Grande do Sul e no
Brasil, os índices correspondiam a 72 e 67 anos, respectivamente, na mesma
época(19).
A distribuição das produções científicas realizadas no Brasil pode ser
compreendida ao considerar a localização não uniforme dos grupos e linhas de
pesquisa sobre o envelhecimento humano de acordo com as regiões do país: 59,7%
no Sudeste; 21,5% no Sul; 13,9% no Nordeste; 4,9% no Centro-Oeste, não havendo
registro destes na região Norte(16).
Os grupos de pesquisas funcionais pautados no estudo da terceira idade se
concentram nas regiões Sudeste e Sul, com maior representatividade nos estados
de São Paulo e no Rio Grande do Sul. Esta característica, em algum grau, está
relacionada aos programas de pós-graduação em geriatria e gerontologia
instalados nestes dois Estados, mais especificamente na Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP), na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
e na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS)(16).
Nessa perspectiva, os programas de pós-graduação, hoje estabilizados, lato
sensu e stricto sensu, em associação com os grupos de pesquisas específicos da
investigação do envelhecimento humano, se caracterizam como espaços oportunos
para o desenvolvimento e capacitação de pesquisadores e profissionais
especializados na área do idoso, além de possibilitar a produção ativa de
conhecimentos nesta temática.
Ao se analisar a abordagem metodológica utilizada nos artigos referentes à
pessoa idosa longeva, os resultados apontaram que 77,3% dos estudos foram
realizados com abordagem qualitativa, 12,5% com abordagem quantitativa, e 10,2%
combinaram os dois métodos. Esse era um achado esperado, pois o maior
percentual de publicações sobre idosos longevos foi classificado como relato de
caso/ experiência (61,4%), as quais possuem grande tendência de escolha da
análise qualitativa para o desenvolvimento de tais pesquisas.
Esses achados confirmam os resultados apresentados em uma investigação sobre a
produção do conhecimento em enfermagem na atenção ao idoso, na qual houve uma
concentração de estudos de abordagem qualitativa (50%), seguidos de 22% de
estudos quantitativos e 6% de quanti-qualitativos(20).
A adoção do método qualitativo reflete a adaptação deste em aprofundar a
compreensão de ações, fenômenos e elementos específicos e delimitáveis, mais
pelo grau de complexidade interna do que pela expressão quantitativa desses
processos. Esta abordagem adequa-se à execução de estudos de um grupo de
indivíduos afetados por determinada doença, não sendo conveniente para a
análise de grandes perfis populacionais ou indicadores macroeconômicos e
sociais(21).
Quanto ao estudo quantitativo, a sua aplicação, objetiva mostrar grandes
números de indicadores, tendências e conjuntos demográficos, através da
classificação e transformação destes dados em variáveis compreensíveis. Deste
modo, do ponto de vista epistemológico, nenhum dos dois tipos de abordagem
metodológica pode ser caracterizado como o mais científico, ao ser comparado
com o outro. Assim, a relação entre esses métodos não deve ser refletida como
oposição contraditória, uma vez que o estudo quantitativo pode suscitar
questões para serem aprofundadas qualitativamente, e vice-versa(21).
As áreas do conhecimento que produziram investigações na temática em estudo
foram levantadas e apresentaram a prevalência de artigos realizados por
pesquisadores do campo da Medicina (80,7%). Além disso, nota-se que as demais
áreas pelas quais esses artigos foram desenvolvidos fazem parte da grande área
Ciências da Saúde. Este pode ser um viés desse estudo, decorrente da escolha
das bases de dados LILACS e SCIELO, as quais são caracterizadas como Ciências
da Saúde em geral, e ambas foram acessadas por meio da BVS.
Essas constatações apontam a necessidade de aprofundar os estudos sobre a
longevidade nas diversas áreas do conhecimento, adentrando nas ciências humanas
e sociais, visto que o envelhecimento populacional interfere diretamente na
organização social como um todo.
Foi constatada, também, a mínima proporção de pesquisas que apresentaram pelo
menos um pesquisador da Enfermagem, correspondendo a 4,5% dos estudos. Este é
um achado importante, pois evidencia a necessidade dos enfermeiros
desenvolverem e divulgarem estudos nesta temática.
A pesquisa em enfermagem ocupa uma posição de destaque, pois autentica o fazer,
procura novas formas de cuidar, aproxima as fundamentações teóricas e práticas
do exercício da enfermagem, coopera para a manutenção da qualidade de vida da
população, produz conhecimento e legitima a prática desses profissionais(15).
O conhecimento produzido pela Enfermagem deve demonstrar, no decorrer do tempo,
um compasso ajustado às demandas sociais e às necessidades de enfrentamento da
população, especialmente na construção de sua cientificidade, uma vez que esta
representa o sustentáculo do cuidar daqueles a quem o enfermeiro dedica o seu
mister(1:60).
A pesquisa em Enfermagem, com foco no processo de envelhecimento humano e nas
diferentes repercussões deste fenômeno contemporâneo ainda se encontra em uma
fase inicial, quando consideramos outros fenômenos identificados nas práticas
de Enfermagem, tais como assistência à mulher e à criança, cuidados clínicos e
cirúrgicos, dentre outros, que possuem maior enfoque científico pelos
pesquisadores enfermeiros(22).
Para tanto, torna-se essencial a introdução de conteúdos gerontogeriátricos nos
currículos de graduação, pós-graduação, especialização e, também, nos programas
de educação permanente nos serviços de enfermagem já existentes. Assim, nota-se
que a longevidade é acompanhada por demandas peculiares, as quais precisam ser
reconhecidas, analisadas e assistidas por profissionais devidamente habilitados
(23).
O desenvolvimento de pesquisas sobre o envelhecimento contribui
significativamente para a compreensão de diferentes aspectos relacionados às
pessoas idosas (determinantes sociais, culturais, biológico), além da sua
potencialidade para direcionar o envelhecer com qualidade de vida. Nessa
perspectiva, os estudos sobre a pessoa idosa longeva foram analisados na
tentativa de identificar e descrever a tendência temática e objetos que vem
sendo pesquisados e documentados sobre esse segmento da população. Os objetos
mais estudados nas pesquisas estão apresentados na Tabela a seguir.

Os resultados evidenciados na Tabela_1 demonstram que 70,5% das pesquisas
relatam situações clínicas que algum idoso longevo apresentou. Ressalta-se que
estes trabalhos atingem um número pouco expressivo da população, já que
retratam a situação de apenas um indivíduo. Além disso, a maior parte dos
relatos de casos clínicos não considerou as peculiaridades da faixa etária
desses idosos, tendo um foco singular na doença.
A este percentual somam-se 14,8% de investigações sobre exames diagnósticos,
tratamento e procedimentos cirúrgicos de determinadas patologias, a saber:
realização e complicações de cirurgias; procedimentos cardíacos; tratamento da
hipertensão; transtornos oculares; prevalência de episódios depressivos e
transtorno de ansiedade generalizada nos idosos longevos. Ainda nesta
perspectiva encontram-se 4,5% de trabalhos referentes a fatores de risco
cardiovascular em octogenários.
Deste modo, nota-se o predomínio de pesquisas envolvendo o idoso longevo no
sentido de avaliar algum aspecto relevante a patologias, ou, ainda, a períodos
de hospitalização que estes vivenciaram. Poucos pesquisadores investigaram a
pessoa idosa longeva a partir de uma abordagem diferenciada da clínico-
curativa, fato notado em 5,7% dos estudos sobre o perfil dos longevos e/ou
cuidadores, e 4,5% de pesquisas referentes ao fenômeno da longevidade. Assim,
os resultados desse trabalho confirmam que a população idosa com estado de
saúde comprometido, ou com sequelas de enfermidades, permanece sendo o objeto
de investigação importante para a realização de pesquisas científicas.
Por meio da análise dos dados observou-se também que, dos 71 trabalhos
produzidos na área médica, 69 possuem como foco essencial processos
patológicos, enquanto que os quatro artigos publicados pela Enfermagem trazem
como enfoque o perfil dos longevos e o processo da longevidade, abordando as
dimensões da qualidade de vida e correlações das condições socioeconômicas
desses idosos com as práticas de saúde.
A avaliação dos objetos investigados sobre a população de idosos longevos e as
lacunas identificadas nas pesquisas referentes a essa temática suscitam a
necessidade da produção de conhecimentos sobre a pessoa idosa longeva e as suas
peculiaridades.
É preciso considerar que o processo do envelhecimento hoje não é apenas um
fenômeno; este se tornou parte da realidade mundial. Assim, diante da real
longevidade populacional tem-se como maior desafio colaborar para que os idosos
possam redescobrir estratégias de superar os limites que podem advir com o
aumento da idade, e viver sua vida com a máxima qualidade possível(6).
O crescimento da população idosa, também caracterizado pelo aumento da
longevidade, tende a acarretar maiores índices de doenças crônico-
degenerativas, com suas demandas emergentes ou comorbidades comuns a velhice.
Somam-se a esses fatores as condições de vida desfavoráveis dos idosos
brasileiros, já que estes permanecem sendo vítimas das "enfermidades" sociais,
resultante da má distribuição de renda e do retrocesso da economia brasileira
(24).
Assim, torna-se visível que o impacto do envelhecimento populacional repercute
em toda a sociedade, sobretudo no sistema de saúde, no qual é possível ser
observado os déficits relacionados à infraestrutura para atender as demandas da
população idosa, referentes à falta de conformação do espaço físico, das
políticas, de ações e intervenções específicas e, mesmo, de recursos humanos
habilitados para subsidiar as especificidades desse estrato populacional(25).
Os efeitos sociais da transição demográfica e epidemiológica da população
lançam como desafio a formulação de uma nova concepção de política pública no
Brasil, visto que a longevidade vem associada com a pobreza social. Deste modo,
percebe-se que a possibilidade de promover o envelhecer saudável, com
independência e autonomia, é o grande objetivo da equipe de saúde. Nesse
processo, é imprescindível ter como base os princípios essenciais da
universalidade, equidade e integralidade promovidos pelo Sistema Único de Saúde
(SUS)(24).
É nessa expectativa que a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa apresenta,
dentre outros desafios, enfrentar a escassez de estruturas de cuidado ao idoso
no SUS e de equipes multiprofissionais e interdisciplinares, com conhecimento
em envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Para tanto tem como uma de suas
diretrizes o estímulo e apoio ao desenvolvimento de linhas de pesquisas sobre
esse assunto, por meio do estabelecimento de redes de apoio com instituições de
ensino e órgãos públicos nas três esferas de governo(26).
Nesse cenário, acredita-se que o alcance do envelhecimento saudável, com
autonomia e qualidade, pode ser garantindo através da implantação de políticas
e programas, os quais considerem a realidade social, o novo perfil demográfico
da população idosa e garanta o incentivo à produção de pesquisas científicas
nessa temática. Ademais, vale ressaltar a importância de incluir estratégias
capazes de fomentar a ampliação quantitativa e, essencialmente, qualitativa de
profissionais capacitados para atuar na área do envelhecimento (27).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A investigação da produção do conhecimento sobre a pessoa idosa longeva em duas
bases de dados das ciências da saúde em geral (SCIELO e LILACS) permitiu-nos
vislumbrar o escasso percentual de pesquisas neste universo temático. Este
achado suscita a necessidade de estimular os profissionais e pesquisadores a
correlacionar os objetos de seus estudos com a nova realidade social: o
envelhecimento populacional, seguido do notável aumento global e exponencial do
número de idosos longevos na população.
Os resultados dessa pesquisa demonstraram que o Brasil, mesmo não se destacando
com o maior índice de expectativa de vida com relação aos demais países aqui
englobados, apresenta-se como o país de maior predomínio de estudos sobre a
população longeva, com concentração das suas publicações nas regiões Sudeste e
Sul, mais especificamente no estado de São Paulo e do Rio Grande do Sul.
Observou-se, ainda, a concentração de trabalhos com enfoque basilar na
abordagem clínico-curativa. Houve um número pouco expressivo de estudos
referentes ao fenômeno da longevidade e às especificidades dos idosos longevos,
com foco na prevenção de doenças e na promoção do envelhecer com bem estar.
Além disso, notou-se que os artigos selecionados de acordo com o objeto deste
estudo foram produzidos essencialmente por investigadores da grande área
Ciências da Saúde, sem ser identificada a participação de pesquisadores das
demais áreas do conhecimento. Quanto à produção de pesquisas pela Enfermagem,
notou-se um tímido percentual de investigações referente a essa temática.
Diante dos resultados alcançados, observa-se a necessidade de promover maior
visibilidade à pessoa idosa longeva e ao fenômeno da longevidade, considerando
as especificidades que emergem nesta etapa da vida. Nesse processo, se torna
essencial a formulação e execução de políticas públicas sociais e de saúde
direcionadas a essa população, bem como o estímulo à produção de conhecimento
sobre essa clientela.
Para tanto, são necessários a consolidação e o reconhecimento das
particularidades dos idosos longevos por parte das instituições formadoras,
universidades e órgãos públicos, de forma que fomentem o avanço científico do
tema e a formação de profissionais capacitados e com interesse de fornecer
atenção de qualidade a estes cidadãos.
Para o alcance desse objetivo, conclui-se ser fundamental a revisão de
currículos de cursos de nível superior e de pós-graduação (LatoeStricto sensu),
das mais diversas áreas do conhecimento, como as Ciências da Saúde, Humanas e
Sociais, a fim de que sejam incorporadas a esses espaços reais noções sobre o
processo do envelhecimento, aumento da expectativa de vida e as repercussões
dessas mudanças no meio social.
Acredita-se que promover transformações nos campos de formação de futuros
profissionais, despertando neles o desejo de atenção à população envelhecida,
seja a base para o reconhecimento do valor do ser idoso e do envelhecer com
qualidade.