Competência interpessoal no cuidado de pessoas com diabetes: percepção de
enfermeiros
INTRODUÇÃO
A discussão e a busca pelo desenvolvimento de competências profissionais para
atuação no âmbito da saúde encontra ressonância nas modificações funcionais e
estruturais sofridas por este setor, refletindo uma dinamicidade e complexidade
dos processos, bem como a necessidade dos profissionais de saúde de
desenvolverem uma práxis comprometida com esta realidade.
No tocante à profissão de enfermagem, o cuidado direto prestado aos indivíduos
no ciclo saúde versus doença, o engajamento sanitário, político e social desta
profissão, seja nos contextos local, estadual ou federal para a construção e
efetivação do Sistema Único de Saúde (SUS), tem direcionado à realização de
estudos implicados com o referencial das competências em distintos contextos(1-
5).
Pensar em competências gerenciais(6), competências essenciais para atuação na
saúde pública(5), competências para o cuidar(7), competências sociais e
políticas(8), ou competências para o relacionar(2,9), implica em reconhecer as
competências como uma forma de tecnologia para o trabalho em saúde, uma
ferramenta que subsidia ações em saúde mais participativas e democráticas, além
de instrumentalizar os enfermeiros a transitarem da alienação, do imobilismo e
do tecnicismo, para o exercício criativo, reflexivo, crítico e competente da
sua profissão no contexto da assistência à saúde.
Entre os tipos de competências que vêm sendo delineadas e desenvolvidas pelos
enfermeiros, destaca-se a competência interpessoal. Este destaque não objetiva
considerá-la como a única competência capaz de dar conta de todas as ordens de
problemas evidenciados pelo setor saúde, muito menos pelos que são enfrentados
por enfermeiros durante o seu exercício profissional, mas, sim, porque a mesma
pode concorrer para a humanização das relações de trabalho e do próprio
cuidado, além de viabilizar o desenvolvimento de novas competências e o
enfrentamento de desafios.
Tomando como base o entendimento da competência interpessoal como a "habilidade
de lidar eficazmente com as relações interpessoais"(10), espera-se que a mesma
viabilize a implementação de práticas de cuidado que relativizem o poder, as
estratégias de dominação, abrindo espaço para a emergência de princípios como o
diálogo, a co-responsabilidade, o pluralismo, a alteridade, o questionamento
das práticas, a saída da retórica e a implicação das práticas de cuidado
compatíveis como o contexto em que estas se desenrolam(11).
Isto posto para o cuidado de pessoas que vivenciam situações de enfermidades
orgânicas tal como o Diabetes, doença que exige do enfermo mudanças abrangentes
em sua maneira de viver a vida, a competência interpessoal poderá contribuir de
maneira decisiva, incrementando as práticas de cuidado, no sentido de evitar
que o paciente tenha complicações a curto e longo prazo e, em grau extremo, o
comprometimento da vida.
Diante do exposto, questiona-se: qual a percepção de enfermeiros que cuidam de
pessoas com Diabetes sobre competência interpessoal? Na tentativa de buscar
respostas para este questionamento, o presente trabalho tem como objetivo
apreender a percepção de enfermeiros que cuidam de pessoas portadoras de
Diabetes sobre a Competência Interpessoal.
A COMPETÊNCIA INTERPESSOAL E O CUIDADO DE PESSOAS COM DIABETES
"A ação de cuidar exige um olhar atento e está inserido numa dinâmica dialética
entre o cuidador e aquele que é cuidado"(12). Esta dinâmica imprime às relações
interpessoais um sentido ontológico e epistemológico e as apontam como
inerentes à existência humana, portanto ao cuidado em saúde, tornando-as
capazes de interferirem nos estados de saúde e doença.
Neste sentido, vislumbra-se a habilidade para as relações interpessoais como
uma ferramenta estratégica capaz de viabilizar não somente a aplicação das
tecnologias disponíveis para alcançar a saúde, mas o exame da relação entre
finalidades e meios e seu sentido prático, conforme um diálogo o mais simétrico
possível entre profissionais e usuários dos serviços(13).
Pensar nas relações interpessoais como ferramenta capaz de auxiliar na
superação das tradicionais formas de cuidar pautadas no êxito técnico, no
conhecimento aprisionado no método(14), no distanciamento entre profissionais
de saúde e usuários dos serviços, neste caso, entre enfermeiros e pessoas com
Diabetes, remonta a necessidade de compreensão das características das relações
interpessoais, suas implicações no cuidado de pessoas acometidas pelo Diabetes
e sua relação com a competência interpessoal.
Sob este prisma destaca-se que as relações interpessoais são imateriais, pois,
são produzidas e concomitantemente consumidas pelos envolvidos(15). Elas são
designadas na enfermagem(16) de relação pessoa-a-pessoa, representando a
relação entre a enfermeira e o ser cuidado, evidenciando um processo em que
ambos podem compartilhar seus sentimentos, valores e significados e perceberem
a singularidade um do outro, transcendendo os papéis desempenhados. Também é
denominada de relação de ajuda ou terapêutica(17), acrescentando que por meio
dela pode-se concorrer para que a pessoa atendida aceite a si mesmo e a própria
doença, viabilizando a mudança de comportamento e o estabelecimento de uma
comunicação efetiva.
Salienta-se que a relação pessoa-a-pessoa / terapêutica é inerente ao cuidado
em saúde, bem como que o cuidar é parte integrante da vida, pois, ninguém vive
sem cuidado(18). Portanto, as pessoas com Diabetes quando em interação com o
profissional enfermeiro, necessariamente, requerem que o relacionamento
estabelecido com as mesmas seja terapêutico, expressando uma forma de cuidar
subjacente que o atenda em suas necessidades de saúde, pois, muitas vezes,
apresentam atitudes de negação, recusa, revolta, raiva, barganha, tristeza,
depressão ou aceitação diante da doença(19).
Desta forma, quando se fala da necessidade da competência interpessoal
perpassar pelo cuidado de pessoas com Diabetes, refere-se não apenas a tratar
essas pessoas no sentido de estarem com uma doença crônica e de melhorar a
sintomatologia proveniente da mesma, mas sim, a lançar um novo olhar sobre
estas, buscando compreender o significado da doença, os itinerários
terapêuticos percorridos frente à manutenção da saúde ou em situação de doença,
considerando o contexto em que estas pessoas estão inseridas, suas crenças,
aspirações, cultura, estimulando a sua participação ativa neste processo, por
meio de uma relação intersubjetiva de saberes e fazeres.
Por isso, o desenvolvimento de competência interpessoal com vistas à manutenção
de um relacionamento interpessoal harmonioso, viabilizará maior sinergismo
entre as relações de trabalho e, sobretudo com as pessoas portadoras de
Diabetes, na tentativa de equilibrar a mobilização de competência técnica e de
competência interpessoal.
Além disso, a utilização da competência interpessoal nestas circunstâncias pode
subsidiar a identificação de intervenções mais efetivas capazes de melhorar a
adesão do paciente às orientações e ao tratamento e, por conseguinte, melhorar
o controle glicêmico e prevenir complicações agudas e crônicas.
Contudo, para que se possa desenvolver a competência interpessoal e utilizá-la
como uma tecnologia no cuidado à saúde, faz-se mister compreender os sentidos
teóricos que lhe são atribuídos com vista ao apontamento de indícios que
reflitam a práxis cuidativa / relacional bem como os resultados oriundos da
mesma.
Em consonância com o exposto, entende-se que o termo competência constitui-se
em uma noção polissêmica que envolve várias acepções e abordagens(20). Começou
a ser utilizado na Europa, na década de 1980, constituindo a base das políticas
para formação e capacitação de trabalhadores.
As definições de competências enfocam, em essência, a condição de aplicação
adequada de conhecimentos, habilidades e destrezas, juntamente com atitudes e
compromissos, bem como a capacidade integral de exercer uma atividade,
possibilitando aos indivíduos uma participação consciente e crítica no âmbito
do trabalho, bem como sua autorrealização(5,20).
Da concepção ampliada de competência para a delimitação do conceito de
competência interpessoal, encontra-se esta como o resultado de "habilidades
específicas comportamentais que conduzem a conseqüências significativas no
relacionamento duradouro e autêntico, satisfatório para as pessoas envolvidas"
(10).
Tanto na macro definição sobre competência, quanto na definição de um tipo
específico de competência como a interpessoal, percebe-se a necessidade de
reconhecer as diferentes visões que os profissionais enfermeiros têm sobre
competência interpessoal, pois, neste trajeto, coloca-se em pauta a redefinição
do papel do profissional (não somente como aplicador de técnicas), a
revalorização da posição da pessoa diabética no contexto do cuidado (não apenas
passiva a prática assistencial) e a inclusão da competência interpessoal ( não
só para relativizar o poder do saber e do fazer, mas também para diminuir a
apartação dos usuários em relação aos serviços de saúde bem como da sua própria
saúde).
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de caráter descritivo e exploratório com abordagem
qualitativa. O locus do estudo foi constituído por onze Unidades de Saúde da
Família (USF) situadas em um município do sudoeste baiano, o qual é considerado
o principal pólo regional de prestação de serviços nas áreas de educação e
saúde da região. As unidades foram escolhidas aleatoriamente, porém
priorizaram-se as da zona urbana, devido à facilidade de acesso e ao maior
número de profissionais nas mesmas.
A amostra foi constituída de onze enfermeiros que preencheram os seguintes
critérios de inclusão: trabalhavam nas unidades de saúde família da zona urbana
do município, desenvolviam o atendimento às pessoas com Diabetes, preencheram o
termo de consentimento livre e esclarecido.
Considerando a natureza deste estudo, o conteúdo das falas e a participação dos
sujeitos foi encerrada a partir do momento em que se percebeu que as respostas
emitidas apresentaram uma saturação teórica dando clareza para a compreensão do
objeto da pesquisa, assim como refletindo a totalidade nas suas múltiplas
dimensões(21).
Foram seguidos todos os procedimentos éticos exarados pela Resolução 196/96 do
Conselho Nacional de Saúde / Ministério da Saúde, sendo o projeto do estudo
aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia, pelo Processo n.º 38/2006.
Para a obtenção dos dados foi utilizada a entrevista semiestruturada, com uma
questão norteadora que versava sobre a percepção de enfermeiros que cuidam de
pessoas com Diabetes sobre competência interpessoal.
O período de coleta dos dados compreendeu os meses de março a junho de 2006.
Salienta-se que as entrevistas foram realizadas nas Unidades de Saúde da
Família, na sala de atendimento do próprio profissional, e geralmente ocorriam
no final do expediente de trabalho.
O conteúdo das entrevistas foi categorizado seguindo a técnica de análise de
conteúdo, modalidade temática(22) a qual compreende três etapas, a saber: pré-
análise, exploração do material e tratamento dos dados obtidos e interpretação.
Na pré-análise foi realizada a leitura flutuante do material pesquisado, no
sentido de constituir um corpus, o qual representou a organização do material
coletado. Na fase de exploração do material buscou-se codificar o núcleo de
compreensão do mesmo, agregando dados e informações, bem como selecionando as
categorias teóricas ou empíricas que nortearam a especificação do tema. Essa
categorização foi realizada por meio do desmembramento do texto em unidades
temáticas, seguida de reagrupamentos analógicos. Por fim, na última fase,
propôs-se inferências e realizou-se interpretações fundamentadas no quadro
teórico delineado neste trabalho, as quais estão descritivamente tratadas na
etapa que se segue.
APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
As falas dos enfermeiros deste estudo acerca da percepção da competência
interpessoal no cuidado de pessoas com Diabetes fizeram emergir duas
categorias, descritas a seguir.
Categoria1- Habilidades/capacidade de interação com o paciente
Os enfermeiros apontaram que a percepção que têm sobre competência interpessoal
significa possuir habilidade/capacidade para interagir com o paciente. Tal fato
pode ser ratificado nas falas seguintes:
Habilidade de estabelecer interação apesar das diferenças existentes
quanto a ideias, valores e crenças. (ENF 5)
Saber ou ter habilidade... de entender os outros respeitando as
particularidades de cada um e buscar harmonia entre os atores sociais
envolvidos no meio que se apresenta.( ENF 1)
... Habilidade de interagir com o outro, neste caso o portador de
Diabetes, ajudando-o a melhorar sua qualidade de vida através da
prestação de uma assistência voltada para a promoção da saúde e
prevenção de complicações. ( ENF 11)
A habilidade e conhecimentos específicos para podermos relacionar com
o outro, de modo que a gente possa cuidar dos nossos pacientes. (ENF
6)
É possível perceber uma correlação entre os conteúdos das falas e o que é
abordado em alguns estudos na área(2,8,10,20,23-26). Todos fazem apologia à
competência interpessoal como sinônimo de detenção de habilidades, dentre elas
as relacionais e como capacidade para realização de uma determinada atividade,
assim como para se relacionar com o outro.
Os conceitos genéricos sobre competência ainda se apóiam no tripé "saber,
saber-fazer e saber-ser, ou a conhecimento, habilidade e atitude"(27), os quais
devem estar associados à capacidade de solução de problemas.
Esta compreensão sobre competência interpessoal foi recorrente em grande parte
das falas dos enfermeiros, evidenciando que a competência interpessoal jamais
deve permitir a negação do outro, dos seus problemas, crenças, desejos ou
aspirações em detrimento da imposição de conhecimentos e desejos do cuidador.
Ao contrário, a busca deve ser pela harmonização dos interesses e expectativas
de ambos os envolvidos no processo cuidativo/relacional.
A competência interpessoal visa à valorização da subjetividade do enfermeiro e
da pessoa portadora de Diabetes, "portanto, não considera apenas a utilização
racional de conhecimentos, mas a sua mobilização de acordo com a situação e a
subjetividade de cada um"(2).
Pode-se depreender que não é suficiente manejar uma morbidade mediante o
seguimento de normas e rotinas protocolares, é necessário saber interagir para
cuidar do indivíduo consoante as suas demandas, é preciso ainda encarar o
portador do Diabetes como um sujeito social, "como um ser que produz sua
própria história, o responsável pelo seu devir,... sujeito de sua própria
saúde"(13).
Não obstante, reconhece-se que habilidades e atitudes específicas implícitas às
relações interpessoais, refletem também a capacidade para cuidar do outro,
sendo este cuidado de enfermagem configurado como um processo interativo que
conecta o ser que cuida ao ser cuidado.
Assim, o cuidado é percebido como uma atividade dinâmica, reflexiva, pautada na
interação humana(28). Acrescenta-se, ainda, que o mesmo se constitui em uma
relação representada por sentimentos e por um interesse genuíno para promover o
bem-estar do outro.
Desta forma, é interessante perceber que a competência interpessoal foi
apontada, por alguns informantes, como forma de subsidiar o cuidado de
enfermagem. Eles mencionaram que a habilidade de se relacionar bem possibilita
cuidar melhor das pessoas com Diabetes.
Há que se considerar a competência interpessoal como um elemento propulsor e
redirecionador das práticas de saúde e do cuidado de enfermagem, como um "pano
de fundo, onde se desdobram as demais competências"(2), como a mobilização de
habilidades, hábitos e atitudes para soluções de situações concretas e/ou
imprevisíveis de trabalho, como a possibilidade de interpretação de signos e
significados das enfermidades no sentido de contribuir para um cuidado mais
humano, ético, efetivo e emancipador(8).
A competência interpessoal, portanto, denota habilidades de interação com o
outro, mas não se limita a isto. Seu conceito mais amplo implica a consideração
de comportamentos, de atitudes, de percepção, de conhecimento científico, de
inteligência, de valores, de emoções e sentimentos postos em prática, nas
situações concretas de trabalho e cuidado.
Categoria 2- Relacionamento interpessoal terapêutico
Além de perceberem a competência interpessoal como sinônimo de habilidades de
interação com o paciente, os enfermeiros deste estudo ainda apontaram o
relacionamento interpessoal terapêutico como a expressão desta competência.
O relacionamento interpessoal terapêutico é caracterizado como um fluxo
experiencial no qual o terapeuta e o cliente participam por meio de uma relação
intersubjetiva, com vistas ao benefício do cliente(15). As falas abaixo
refletem o exposto:
Capacidade que a pessoa tem de conseguir uma relação interpessoal
efetiva. (ENF 4)
Desenvolvimento de relações efetivas entre as pessoas de forma
cordial, espontânea, atenciosa, sensata e sobretudo transmitindo-lhe
amor e segurança, a fim de que se estabeleça uma relação de confiança
entre ambas as partes. (ENF 2)
É a interação efetiva entre dois sujeitos, ou seja, é a troca de
informações entre duas pessoas de modo que haja o entendimento entre
ambas. (ENF 10)
É quando nós conseguimos nos relacionar bem com os pacientes
superando as nossas expectativas e as do próprio paciente. (ENF 9)
As relações interpessoais, de fato, compõem a competência interpessoal, e são
de certo modo reflexos da mesma. Contudo, reconhecer que uma pessoa é
competente porque desenvolveu um relacionamento interpessoal eficaz, vai além
de dizer que ela estudou e pode dar conta, teoricamente, do que aprendeu. Isto
porque "a qualificação real do trabalhador, compreendida como um conjunto de
competências..., vão além da dimensão cognitiva"(29)refletindo também a
dimensão da inteligência prática e a compreensiva.
Nesta ótica, se relacionar de forma efetiva com o outro reflete muito mais o
saber-ser e saber-agir do que o saber-fazer. Representa que a subjetividade, os
saberes tácitos, os comportamentos, as atitudes frente a situações concretas de
relacionamento interpessoal, tem forte peso e influência.
Entretanto, uma preocupação deve ser expressa, no sentido de não se recair na
falácia de demonizar as técnicas, centradas no saber-fazer, e nem de enfatizar
o empirismo, ressaltando o saber-ser e o agir, mas sim de destacar que não
existem fórmulas prontas para se alcançar um relacionamento interpessoal
efetivo, visto que o próprio conceito de competência vincula-se à mobilização
de habilidades e conhecimento para lidar com o imprevisível, reduzindo a
excessiva instrumentalidade e o caráter prescritivo, característicos de outros
modelos tradicionais de cuidar e relacionar.
Ainda no que diz respeito aos relacionamentos interpessoais, foi mencionado em
uma das falas, que este ocorre quando as expectativas do enfermeiro e da pessoa
enferma são superadas. De fato, quando ocorre a superação de expectativas de
ambos, a sensação de gratificação para o ego é maior. Embora seja gratificante,
nem sempre o enfermeiro superará suas expectativas, especialmente em um
primeiro momento de contato com o paciente. Isto porque o profissional, como
ser humano, pode ter enfrentado problemas em sua trajetória de vida, resultando
em obstáculos ao estabelecer uma relação com os pacientes(16).
Assim, conhecer-se para conhecer o outro e poder ajudá-lo, implica em um
movimento de fortalecimento do EU do profissional de enfermagem e da pessoa
enferma. Sob este prisma é que "identificamos as variáveis individuais e
organizacionais na construção da competência interpessoal, como instrumento do
trabalho em saúde"(2). Em outros termos, as variáveis individuais,
representativas da subjetividade do enfermeiro e do paciente, não podem ser
deixadas à margem quando se fala de competência interpessoal, pois, fazem parte
do trabalho em saúde e do cuidado de enfermagem.
Categoria 3- Formas de relacionamento interpessoal
As falas agrupadas nesta categoria revelam que existem formas distintas de
relacionamento interpessoal, e que tais formas, quando utilizadas pelo
enfermeiro, denotam a competência interpessoal.
Estas formas de relacionamento interpessoal, apontadas pelos enfermeiros como
uma espécie de certificação da competência interpessoal, diferentemente da
certificação ocupacional, promovida ou requerida por empresas, não possuem,
necessariamente, uma equivalência com títulos educacionais que respondem
exclusivamente às leis do mercado(30).
Isto porque aspectos como confiança, respeito, interesse, compreensão,
conforto, apesar de serem implícitos às questões éticas que permeiam o cuidado
em saúde, são vistos, geralmente, como secundários, quando não acessórios deste
cuidado, tanto no âmbito da formação quanto da assistência à saúde, refletindo
uma marca indelével centrada na técnica e na produtividade.
No entanto, a menção destes aspectos por parte dos enfermeiros participantes
deste estudo, já demonstra certa ruptura quanto a estes paradigmas biotécnicos,
bem como acerca do conceito de competência interpessoal e da sua
operacionalização, tal como se segue abaixo.
Me relaciono de forma prestativa, dispensando-lhe atenção e
transmitindo confiança. (ENF 2)
Ter competência interpessoal é procurar me relacionar por meio do
desenvolvimento da confiança, respeito e conhecimento técnico e
científico. (ENF 4)
Buscando oferecer conforto, confiança e resolver, na medida do
possível, seus problemas de saúde. (ENF 9)
Além do aspecto profissional de cuidado técnico, procuro estabelecer
um vínculo de confiança em que o cliente possa expor seus medos, tire
suas dúvidas. (ENF 3)
A competência interpessoal representa o relacionamento cordial
baseado no respeito quanto às crenças, valores adquiridos, mas sem
perder de vista as questões científicas referentes ao problema
citado. ( ENF 5).
Considerando que o conceito de competência engloba a capacidade de mobilização
do saber-fazer, saber-ser e saber-agir, tais falas comportam também, uma visão
ainda fragmentada da competência interpessoal, colocando na arena do debate a
indissociabilidade entre os modos de fazer/ relacionar/intervir no contexto do
trabalho em saúde onde as ações de cuidar são desenvolvidas.
Nesta direção, observa-se nas falas certa cisão entre a técnica ' representando
o pólo objetivo, supostamente ancorada exclusivamente em conhecimentos
científicos ', e a ética ' refletindo o pólo subjetivo, compreendida como da
ordem relacional, dos vínculos entre profissionais e usuários(31) ', implicado
em uma necessidade de união entre estes pólos, tendo na competência
interpessoal este elemento integrativo, para que o cuidado não se torne apenas
um instrumental de caráter repetitivo e dominador.
Sob este ponto de vista, o enfermeiro 3 afirmou que, além do aspecto
profissional do cuidado técnico, procura estabelecer confiança, abertura do
paciente para exposição dos medos e de dúvidas. Tal conteúdo também ficou
expresso nas falas dos enfermeiros 4 e 5.
Nesta direção, estes enfermeiros enfatizaram o conhecimento científico sem, no
entanto, perderem de vista que as distintas formas de se relacionarem com
pessoas com Diabetes são também integrantes dos eixos que norteiam o cuidado em
saúde a estas pessoas.
Em consonância com o exposto, destaca-se que "o cuidar apresenta uma conotação
diferente ao não se limitar apenas ao aspecto técnico e a realização de uma
tarefa ou procedimento"(32). Além disso, o cuidar possui um componente moral e
emocional, o aspecto cognitivo, a percepção, o conhecimento e a intuição.
Os aspectos técnicos devem ser valorizados, mas eles por si só não garantem a
adesão dos pacientes ao regime terapêutico, não garantem que as informações
fornecidas pelo enfermeiro nas consultas, visitas domiciliares ou grupos de
educação em saúde sejam incorporados pelo paciente gerando hábitos de vida
saudáveis. Isto porque, a valorização da sensibilidade e da interação afetiva
"propicia a compreensão e modificação das pessoas mais do que um raciocínio
brilhante repassado mecanicamente"(34).
Complementarmente, também foi apontado pela maioria dos entrevistados a
confiança e o respeito como elementos imprescindíveis para o desenvolvimento do
relacionamento. A confiança pode ser definida como a "qualidade que se
desenvolve através de relações de respeito, segurança e honestidade"(32).
Chama-se atenção para que esta qualidade não culmine em relações paternalistas,
que provoquem dependência.
No entanto, a capacitação do indivíduo, com vistas à construção de atitudes
positivas e a transformação do comportamento, faz cair por terra o paternalismo
imobilizador em relação ao indivíduo com Diabetes, pois, ao contrário, a
relação interpessoal busca a responsabilização e autonomização do mesmo pela
sua saúde, pela superação do estado de doença e pelas suas situações de vida.
Faz-se necessário esclarecer ainda que existem formas de relacionamento
interpessoal, e não fórmulas prontas, capazes de conduzir as pessoas a
situações desejadas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As percepções de enfermeiros acerca da competência interpessoal fundamentaram-
se em habilidades de interação com o paciente, no estabelecimento de
relacionamento interpessoal efetivo e em formas de relacionamento interpessoal.
Tais percepções se coadunaram grandemente com as proposições teóricas acerca da
competência interpessoal, entremeadas com a ênfase do conhecimento técnico-
científico como fator preponderante para a execução, de maneira facilitada, dos
relacionamentos interpessoais.
Ressalta-se que este conhecimento é importante e deve ser considerado, mas, em
suas devidas proporções para que não descambe em mero tecnicismo e reificação
dos sujeitos com Diabetes.
Destaca-se ainda que, a contribuição do estudo por meio destas reflexões sobre
competência interpessoal, reside no fato de preencher algumas lacunas a
respeito de um conceito relativamente novo e complexo e que necessita de maior
discussão e debate no âmbito da saúde.
Para que ocorra o trânsito das percepções de enfermeiros sobre competência
interpessoal para a prática, faz-se mister mudanças nos paradigmas em que estão
ancorados o cuidar e o relacionar, o que a princípio pode gerar certa
insegurança e resistência por parte destes profissionais, já que o caminho
indicativo para o exercício desta competência, não está predito em protocolos
de abordagem às doenças, comumente encontrados nas Unidades, o que enfatiza a
singularidade dos processos de interação e do cuidado à saúde. No entanto,
destaca-se que a mesma pode ser aprendida e desenvolvida pelos enfermeiros.
O referencial das competências pode potencializar as ações de enfermagem frente
às pessoas com Diabetes e a todas as ações desenvolvidas pelo enfermeiro,
contribuindo, desta forma, para o congraçamento de propostas que visem o
crescimento desta profissão e a melhoria da qualidade de vida dos sujeitos foco
desses cuidados.