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Representação em texto

BrBRCVHe0034-71672011000300019

variedadeBr
Country of publicationBR
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0034-7167
ano2011
Issue0003
Article number00019

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Prevalência e características do tabagismo na população universitária da região de Lins-SP

INTRODUÇÃO O tabagismo é, hoje, a principal causa de enfermidades evitáveis e incapacidades prematuras, e chegará a ser a primeira causa de morte evitável no século XXI(1). É considerado uma pandemia silenciosa, uma vez que, a cada ano, morrem cerca de 4 milhões de pessoas em todo o mundo de doenças relacionadas ao tabaco. O consumo de 1 a 20 cigarros por dia tem sido associado ao aumento do risco de câncer de estômago(2). O consumo maior que um maço por dia (> 20 cigarros/dia) eleva em 13 vezes o risco de ter câncer de cabeça e pescoço(3).

Diversos estudos realizados em nosso país(4-5) e no mundo(6-7) apontam que o hábito de fumar se instala precocemente, que 80% dos atuais adultos fumantes declararam ter iniciado nesta prática antes dos dezoito anos de idade.

Estas informações confirmam a tendência mundial de aumento da prevalência do uso de cigarros entre a população de adolescentes e adultos jovens, principalmente entre os estudantes universitários, jovens estes considerados público com grande suscetibilidade de envolvimento com o tabaco(8). Diante da gravidade desse quadro, vários estudos sugerem que medidas antitabágicas sejam direcionadas prioritariamente a esta população(9-10).

Acredita-se que, se não forem tomadas medidas adequadas para o controle dessa pandemia, ao redor do ano de 2020, o tabagismo será o responsável por 10 milhões de mortes anuais, com proporções de uma em cada seis pessoas consumidoras de tabaco. Desses óbitos, 7 milhões ocorrerão nos países em desenvolvimento(1).

Tendo em vista estes aspectos, este trabalho teve como objetivos avaliar a prevalência, conhecer as características do tabagismo, e servir como medida auxiliar para o desenvolvimento de estratégias que visem à profilaxia do consumo de cigarros na população universitária da região de Lins-SP.

METODOLOGIA Realizou-se um estudo transversal com alunos de graduação devidamente matriculados durante o primeiro semestre de 2008 nos três Centros Universitários da cidade de Lins-SP. Para calcular o tamanho da amostra, utilizou-se a população total de 4.530 universitários matriculados e um erro amostral tolerável de 5%, para possibilitar intervalo de confiança de 95%.

Dessa maneira, foi obtida, inicialmente, como amostra ideal para o desenvolvimento deste estudo, um grupo de 368 universitários(11).

Para a obtenção da amostra, foi realizado sorteio aleatório simples entre os alunos de todos os 33 cursos oferecidos pelos três Centros Universitários. O número de alunos entrevistados por curso foi determinado através do produto entre o fator de proporcionalidade, que relaciona o tamanho da amostra com o tamanho da população estudada, e o número total de alunos do respectivo curso.

Os cursos que fizeram parte do estudo estão listados no Quadro_1.

Para obtenção das informações necessárias sobre o consumo de tabaco, utilizou- se um questionário pré-codificado, individual e confidencial, com perguntas relacionadas ao hábito tabágico, distribuídas em três domínios, direcionadas aos fumantes regulares e fumantes ocasionais, aos ex-fumantes e aos não fumantes. Este questionário continha variáveis demográficas (idade, sexo e cor), socioeconômica (renda familiar em salários mínimos vigentes na época da pesquisa), variáveis relacionadas ao tabagismo (se é fumante, tipo de fumo, consumo diário, idade de início, tempo de tabagismo e, caso ex-fumante, tempo de tabagismo e de suspensão do fumo), tipo de tabaco (industrializado, confeccionado pelo próprio fumante, charuto e cachimbo), convivência com fumantes (pais, irmãos, amigos) e local de convivência (casa, universidade, trabalho). Também foram investigados o consumo de bebidas alcoólicas, prática de esportes e presença de sintomas como tosse seca, tosse produtiva e sons pulmonares ("chiado no peito").

O ponto de corte para a definição de fumante foi "ter fumado um ou mais cigarros por dia pelo menos um mês", e para ex-fumantes "aqueles que, na ocasião da pesquisa, não eram fumantes, mas que fizeram uso de cigarros em outra época".

O questionário foi aplicado pelos pesquisadores diretamente aos alunos após esclarecimentos e orientações básicas sobre os objetivos da pesquisa em questão, ficando o universitário livre para decidir sobre sua participação; o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi assinado. O estudo, atendendo à Resolução 196/1996, do Conselho Nacional de Saúde, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos e Animais (CEPHA) da Universidade de Marília - UNIMAR.

Foi utilizado o teste do qui-quadrado para avaliar a existência de associações entre as variáveis analisadas, sendo considerado o valor de p < 0,05 para significância estatística.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Vários levantamentos epidemiológicos têm sido realizados no Brasil desde meados dos anos 80, descrevendo a prevalência e os fatores associados ao tabagismo entre os universitários, sendo que a maioria avaliou as características do tabagismo entre a população universitária pertencente à área da saúde.

A maior parte dos universitários (308) se declarou não-fumante, representando 83,7% da amostra. A prevalência de tabagismo foi de 11,7% (43), sendo 6,3% de fumantes regulares (23) e 5,4% de fumantes ocasionais (20). Como ex-fumantes, foram classificados 4,6% dos alunos (17).

Dentre os estudantes classificados como não fumantes, 58,4% conviviam com fumantes, sendo esta convivência estratificada na Tabela_1. Fica demonstrado que mais da metade dos não fumantes são tabagistas passivos. O tabagismo passivo está relacionado com a inalação da fumaça de derivados do tabaco por indivíduos não fumantes, que convivem com fumantes em ambientes fechados. Esta fumaça traz efeitos mais graves ao organismo, traduzidos por uma incidência 30% maior de câncer pulmonar e aumento de 24% de infarto do miocárdio.

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Com relação aos estudantes que se declararam ex-fumantes, os motivos principais citados para a interrupção deste hábito foram: força de vontade (88,2%), conscientização dos malefícios do tabagismo (5,9%) e problemas de saúde (5,9%).

Quanto à prevalência de tabagistas nos três Centros Universitários estudados, os resultados obtidos encontram-se dentro dos parâmetros de outros estudos(4- 11), exceto, isoladamente, o Centro Universitário 1, o qual apresentou uma prevalência 10% maior do que o esperado. Porém, o número total de fumantes (11,7%) encontra-se de acordo com estudos prévios do assunto (Quadro_2).

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Alguns estudos têm demonstrado que as prevalências de tabagismo entre estudantes de cursos da área de saúde são inferiores aos resultados encontrados entre alunos de outros cursos superiores(7-9). Em nosso estudo, entretanto, observou-se inversão neste contexto, uma vez que a área de ciências biológicas e da saúde apresentou a maior prevalência de tabagismo (12,6%), seguida pela área de humanas (10,4%) e de exatas (10,0%).

Em outro estudo, foi relatado que mais de 50% dos estudantes tabagistas regulares tendiam a aumentar o consumo tabágico após a admissão ao ambiente universitário(9). Mesmo frente a esta tendência de crescimento do tabagismo entre universitários em âmbito internacional, no Brasil podemos observar o oposto, mediante estudos que avaliaram a tendência tabágica entre os alunos das principais universidades brasileiras, que apontam para uma tendência de redução do tabagismo entre os universitários nas últimas décadas(12). Resultado semelhante foi observado em nosso estudo, onde a prevalência de tabagismo entre os universitários da região de Lins foi de 11,7%.

Com relação aos cursos, individualmente, observou-se que as maiores prevalências de tabagismo foram encontradas nos cursos de Engenharia Civil, do Centro Universitário 2, e Química e Terapia Ocupacional, ambos do Centro Universitário 3, com 40,0% de fumantes. Outros cursos que apresentaram porcentagens elevadas de estudantes tabagistas foram Direito, do Centro Universitário 1 (33,3%), Tecnologia em Sistemas para Internet e Engenharia Elétrica, do Centro Universitário 2 (25,0% e 22,2%, respectivamente) e História, do Centro Universitário 3 (20%).

No Quadro_3 estão reunidas as porcentagens de tabagistas de cada curso dos três Centros Universitário de Lins-SP. Os cursos que não apresentaram nenhum indivíduo entrevistado como fumante foram: Engenharia da Computação, Licenciatura em Informática, Secretariado Executivo, Serviço Social, Sistemas de Informação, Tecnologia em Análise de Sistemas, Tecnologia em Processos Gerenciais e Tecnologia em Química Industrial do Centro Universitário 2; Administração, Ciências Contábeis, Matemática e Pedagogia do Centro Universitário 3 e Nutrição do Centro Universitário 1.

Um fator que merece atenção em estudos de prevalência de tabagismo é o tipo de tabaco mais utilizado. Em alguns trabalhos, mais da metade dos universitários tabagistas norte-americanos utilizava cigarro industrializado(8). Segundo outros autores, este tipo de tabaco é o mais consumido entre os universitários, seguido por cachimbo e charuto(7). Todos os fumantes deste estudo declararam utilizar cigarros comercializados.

Nos dados referentes à idade dos tabagistas entrevistados, observou-se as seguintes prevalências: de 21 a 23 anos -53,5%, 18 a 20 anos - 30,2%, 24 a 26 anos e > 30 anos com 7,0% cada uma, seguida por de 27 a 29 anos com 2,3%.

Sobre a renda familiar (em salários mínimos) dos tabagistas, mais da metade (53,5%) tem renda entre 4,0 e 7,0 salários, seguido por 1,5 a 3,9 e mais de 7,0 salários ambos com percentual de 23,2% dos entrevistados. Dos tabagistas 58,1% vivem com os pais; 25,6% com amigos e/ou outros universitários; 11,6% sozinhos e 2,3% com cônjuge e a mesma proporção com filhos.

Quanto ao número de cigarros consumidos por dia, em nosso estudo verificamos que a maior parte dos tabagistas entrevistados (51,2%) fuma entre 1 a 5 cigarros por dia (Tabela_2).

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Em relação quanto tempo o indivíduo é fumante, as maiores prevalências foram de 41,9% e 23,2% para o tempo de 1 a 3 anos e de 4 a 6 anos, respectivamente (Tabela_3). Em nosso estudo pode-se observar que quanto maior o tempo de fumo, maior o número de cigarros por dia.

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Com relação à idade de início no tabagismo, observou-se prevalência de 16,3% para o intervalo de 10 a 14 anos, 69,8% para o período de 15 a 19 anos e 13,9% dos fumantes tinham entre 20 a 24 anos quando iniciaram a prática tabágica.

Estes números mostram que, como em vários estudos(1-4), a idade para início do tabagismo é, na maior parte dos casos, antes dos 18 anos.

Cerca de 67,4% dos pesquisados fumam mesmo estando doentes, enquanto 32,6% deixam o cigarro durante este período. 58,1% admitem que o cigarro lhe faça mal, enquanto 41,9% acreditam que não.

Quando questionados sobre o aconselhamento de profissionais de saúde para deixar o hábito tabágico, mais da metade (58,1%) afirmou que recebeu este tipo de orientação; 90,7% afirma ser capazes de deixar de fumar; 83,7% pretendem cessar o hábito tabágico e 46,5% tentaram parar de fumar nos últimos doze meses. Observa-se que a grande maioria dos tabagistas admite ser capaz de cessar o hábito tabágico, subestimando assim, sua dependência do cigarro.

Outro ponto, ainda, que merece destaque é o consumo de bebidas alcoólicas, pois, além de causar inúmeras doenças, quando do seu uso combinado ao tabaco, somam-se os efeitos nocivos deste último, além do alcoolismo ser fator dificultador para a interrupção do tabagismo(9). Acerca desta problemática, uma pesquisa realizada em Porto Alegre constatou que, entre alcoolistas, a prevalência de fumantes (67%) é maior que entre os não alcoolistas (43%). Isto indica que quem bebe fuma mais, o que está de acordo com nossa pesquisa, haja vista que 74,4% associam o uso do tabaco à ingestão de álcool.

Dos motivos que levaram o indivíduo a fumar, a maioria (44,2%) afirmou ter sido a influência dos amigos, 32,6% por vontade própria e 7,0% por modismo. A mesma porcentagem de 4,6% para curiosidade, influência dos pais e por decepções vividas. E, por fim, 2,3% para emagrecer.

Com o objetivo de se evitar o início e auxiliar na cessação do tabagismo, além de possibilitar a interrupção da convivência passiva dos não fumantes com os fumantes, várias organizações internacionais, como a American College of Health Association e a American Cancer Society, têm recomendado que as universidades proíbam a venda, a publicidade e a distribuição de amostras gratuitas de produtos derivados do tabaco nos campi universitários, além de vetar o uso do tabaco em todos os locais da instituição(13). No Brasil, a Política de Controle do Tabagismo inclui vigilância, legislação e incentivos econômicos, além de educação em escolas, locais de trabalho e nas unidades de saúde. Como passos necessários, o programa identifica: evitar a dependência, em especial entre crianças e adolescentes, promover ações para estimular a cessação, proteger os não fumantes dos perigos da fumaça ambiental do tabaco e promover a redução dos danos causados pelo tabaco, através de medidas de regulamentação do produto(14- 15). Tais estratégias têm sido intensificadas, entretanto, é necessário um estudo que avalie a sua eficácia em determinadas faixas de idade, em especial para jovens(16).

CONSIDERAÇÕES FINAIS A prevalência de tabagismo entre os universitários estudados é semelhante à prevalência encontrada em estudos de anos anteriores, o que demonstra que as medidas antitabágicas existentes não estão sendo eficazes ou estão deixando de ser implementadas, visto que as proporções de tabagistas neste meio poderiam regredir.

Mais de 80% dos tabagistas de nosso estudo iniciaram o hábito antes dos 19 anos, ou seja, encontravam-se no início do período universitário ou final do ensino médio. Portanto, é imprescindível a tomada de medidas preventivas mais eficazes, como promover ações educativas e vetar o uso do tabaco em todos os locais da instituição universitária, evitando assim também o tabagismo passivo.

O aconselhamento profissional sobre os malefícios decorrentes do tabaco faz-se importante instrumento na luta contra o tabagismo. De acordo com nosso estudo, quase metade dos fumantes nunca receberam orientações sobre o hábito tabágico, o que demonstra pouco empenho dos profissionais da área, indicando uma subestimação do problema.

É, portanto, importante o período universitário, quanto à aplicação de medidas profiláticas na cessação do fumo e não aderência a este hábito, trazendo, por conseguinte, um índice menor de morbimortalidade relacionado ao tabaco.


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