Nossa vida após o câncer de mama: percepções e repercussões sob o olhar do
casal
INTRODUÇÃO
O câncer é a segunda causa de morte por doença no Brasil. As estimativas atuais
apontam que ocorrerão 466.730 casos novos da doença, sendo que a incidência
prevista entre as mulheres é de 235 mil, sendo o câncer de mama a patologia de
maior destaque(1-2).
Dentre as modalidades terapêuticas para o câncer de mama, a cirurgia é ainda o
principal recurso utilizado para desempenhar a função de controle e erradicação
da doença. Porém, a mastectomia tem em si um caráter agressivo e traumatizante
para a vida e saúde da mulher, pois interfere não só na imagem corporal, mas na
vida sexual, com perda funcional que implica em limitações laborais, alterações
psíquicas, emocionais e sociais, associadas à depressão e ansiedade(1,3).
Além disso, a paciente vivencia, ao longo do tratamento, perdas e sintomas
adversos, acarretando incertezas quanto ao futuro, podendo incorrer em efeitos
traumáticos que vão além da própria enfermidade, pois a mulher se depara com a
iminência da perda de um órgão cheio de representações, assim como o temor de
ter uma doença sem cura e suas repercussões(4).
O impacto da doença também acomete o companheiro dessas mulheres que, em geral,
se surpreende com tal diagnóstico, visto que tem a visão de que as mulheres
possuem um melhor autocuidado, principalmente no que concerne à realização de
exames preventivos, o que deveria automaticamente refutar qualquer hipótese de
doença. Os companheiros manifestam desesperança, impotência, intranqüilidade e
medo do óbito das esposas, porém possuem a tendência de manter o pensamento
positivo em relação às perspectivas prognósticas(5).
Há escassez de estudos que abordem a vivência do casal frente ao câncer de mama
feminino, havendo a necessidade de outras pesquisas que facilitem a compreensão
de tal situação(5).
Como referencial teórico, partiu-se do determinante de que qualquer doença
enseja o afloramento de um conjunto de sentimentos que implicarão diretamente
em seu prognóstico e na forma como o indivíduo vai reestruturar aspectos
importantes de sua vida. O câncer de mama faz com que a mulher vivencie três
etapas importantes, as quais se sobrepõem, a saber: o recebimento do
diagnóstico, que é geralmente sentido como algo de natureza negativa; a
realização de um tratamento longo e agressivo; e a aceitação de um corpo
marcado por uma nova imagem, cuja alteração poderá ter uma necessidade de
aceitação e de convivência com a mesma(6-7).
Assim, a partir de vivências em campo de estágio durante a graduação e da
revisão de literatura sobre o tema proposto, surgiu o desejo de conhecer quais
são as repercussões do câncer de mama em casais, mulheres mastectomizadas e
seus companheiros em relação ao impacto de várias alterações no âmbito físico,
emocional e social que surgem após o diagnóstico, o que culminou no objetivo
principal deste estudo.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo qualitativo, que se baseia no pressuposto de que o
conhecimento sobre os indivíduos só é possível com a descrição da experiência
humana, tal como ela é vivida e definida pelas próprias pessoas(1).
A coleta de dados foi realizada no Ambulatório de Mastologia de um hospital
público de Brasília-DF, no mês de setembro de 2009, por meio de entrevistas
baseadas em um roteiro semiestruturado, que foram gravadas e posteriormente
analisadas. Cada participante foi convidado por meio de abordagem verbal,
preservando-se sua privacidade e fazendo as entrevistas em um local reservado
do hospital em questão.
Para a seleção das mulheres participantes da pesquisa, incluiu-se mulheres com
idade superior a 18 anos e portadoras de câncer de mama, as quais foram
submetidas à mastectomia; e excluiu-se aquelas que foram submetidas a
reconstrução mamária imediatamente mastectomia.
A amostra foi composta por três casais, cinco mulheres mastectomizadas e três
homens que eram companheiros de mulheres portadoras do câncer de mama e que
realizaram a mastectomia. O número de sujeitos foi condicionado ao critério de
redundância ou saturação dos dados, que ocorre quando as informações forem
repetidas ou o acréscimo de novos dados for mínimo para submeterem-se aos
procedimentos de análise(8).
Para análise das informações emergidas das entrevistas utilizamos a Análise de
Conteúdo, na modalidade temática, definida como uma técnica que consiste em
apurar descrições de conteúdo aproximativas, subjetivas, para pôr em evidência
a objetividade, a natureza e as forças relativas aos estímulos a que o sujeito
é submetido(9).
Para que esta análise ocorra de modo sistemático, são propostas três fases
distintas. A primeira, chamada de Pré-Análise, tem por objetivo a organização
das idéias iniciais, levando à "elaboração de indicadores que fundamentem a
interpretação final"; na segunda fase, de Exploração do Material, é realizada a
decomposição do material coletado e agrupamento em unidades de significado,
utilizando uma codificação específica; na terceira fase, chamada de tratamento
dos resultados, deve haver a descrição e posterior interpretação das categorias
evidenciadas(9).
Assim, na primeira fase, após a transcrição das entrevistas, realizou-se a
leitura flutuante com a finalidade de permitir que se estabelecesse contato com
as respostas dos sujeitos e conhecesse o texto, para que então pudesse
verificar as primeiras impressões, as quais se consolidariam somente na última
etapa.
Na fase de organização e exploração do material fez-se a codificação das
entrevistas, identificando os sujeitos pelas denominações de casal, homem e
mulher. Nesse momento, após várias leituras, retiraram-se do texto palavras,
frases ou parágrafos que apresentassem coerência com os objetivos do estudo e
possibilitassem delinear as primeiras idéias agrupadas.
Na última fase, o reagrupamento das unidades de significado, após várias
leituras e releituras, permitiu evidenciar as categorias finais: Percepções
acerca do câncer de mama e Repercussões na vida cotidiana.
Este estudo foi realizado perante aquiescência do paciente, mediante assinatura
espontânea do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, respeitando os
princípios da Resolução nº 196/96, no que se refere a pesquisas com seres
humanos(10), após ser aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Distrito
Federal, Protocolo nº 208/2009.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Caracterização da amostra
Os participantes deste estudo possuíam idade entre 36 a 64 anos de idade, tanto
para os homens como para as mulheres. Já o tempo de união estava em torno de 24
anos. Conforme já elucidado, coletaram-se dados de casais, companheiros ou
maridos de mulheres mastectomizadas e de mulheres submetidas à mastectomia. A
identificação dos sujeitos, idade e tempo de união se encontram no Quadro_1.
As falas dos participantes, que serão aqui demonstradas, estão relacionadas às
repercussões do diagnóstico do câncer de mama na vida desses sujeitos, em que
os mesmos citaram a perda do cabelo e a retirada da mama como as principais
alterações relacionadas ao físico; já no âmbito emocional esses sujeitos
manifestaram fragilidade frente a sentimentos que vão desde o medo da morte até
o de se tornarem dependentes. Foram enfatizadas também as dificuldades
financeiras associadas ao custo do tratamento e ao fato de sofrer preconceito
como uma alteração do aspecto social. Na tentativa de amenizar tais questões, o
apoio mútuo entre o casal, apoio familiar e amparo divino foram tidos como
pontos essenciais.
A seguir são apresentadas as duas principais categorias que emergiram das
unidades de significado contempladas durante a análise de dados, a saber,
Percepções acerca do câncer de mama e Repercussões na vida cotidiana.
PERCEPÇÕES ACERCA DO CÂNCER DE MAMA
Impacto do diagnóstico
Com relação a essa sub-categoria, observou-se que o impacto do diagnóstico de
câncer de mama nas mulheres estava relacionado ao temor da morte e de se tornar
um ser dependente do outro.
Meu maior medo era de morrer, né (...). (Mulher 2)
Morrer. Deixar os meninos... (Mulher 5)
De morrer. Porque você não ta preparada pra receber uma notícia
dessas, né. Porque geralmente você que ta fora ouve falar câncer,
morreu de câncer, morreu de câncer... só vê isso. E quando você se
depara com uma doença dessa, você pensa que vai morrer. Mas ai a
gente aumenta mais a fé em Deus, crê muito em Deus, até que não é
assim, as coisas não são assim que nem a gente pensa. (Mulher do
Casal 3)
Eu nunca tive medo de morrer, então não posso nem falar que foi a
sensação de que ia morrer. O medo era de ficar dependente, entendeu?
Depender de alguma coisa, ficar dependendo dos outros. Então acho que
o medo maior era esse, não de morrer. (Mulher 1)
O impacto do diagnóstico do câncer de mama geralmente implica em angústia,
insegurança e preocupação com o prognóstico da doença e suas repercussões
físicas, sociais e psicológicas, que abarcam a possibilidade ou não de
sobrevida(1,11-14).
Apesar da boa perspectiva prognóstica, ainda é forte a crença de que o câncer
resulta em morte(15). Este caráter estigmatizante da doença decorre das poucas
chances de cura que um paciente portador de câncer de mama dispunha em tempos
remotos, com a utilização de técnicas cirúrgicas mutiladoras e ausência de
tratamentos adjuvantes eficazes(13). Verificou-se, ainda, que o impacto
negativo do diagnóstico pode ser exacerbado pela forma como o mesmo é
comunicado pelo profissional, conforme se observa na fala a seguir:
O que me abalou mais quando eu fiz o exame e vim aqui no Hospital
[...] e a doutora...que tá cuidando do meu caso. Ai quando eu cheguei
aqui, ela falou assim de cara, que eu tava era com câncer maligno.
Nem falou assim... sem ter piedade da gente. Ai eu fiquei muito
abalada! (Mulher do Casal 1)
Caetano et al(13)reiteram tal afirmação quando referem que algumas pacientes
revelaram não terem tido consciência do que realmente estava acontecendo quando
receberam o diagnóstico, pois as informações fornecidas pelos profissionais de
saúde foram insuficientes e relacionadas apenas à possibilidade cirúrgica de
tratamento.
Já para os homens, a maior preocupação advinda do diagnóstico estava
relacionada às dificuldades financeiras devido ao alto custo associado à doença
e ao medo de ver a companheira com dor.
O mais difícil né, foi a gente né, descobrir esse câncer aí, comprar
medicamento caro, entendeu? Sem trabalhar, que eu não tava podendo na
hora sabe. Mas, graças a Deus, a gente deu um jeito e resolvemos o
problema dela. (Homem do Casal 2)
Difícil demais, foi uma tristeza grande. (Homem do Casal 1)
Abalado. Ah...uma triste. Nóis chorava muito. (Homem do Casal 3)
O momento mais difícil foi agora... Porque passou para os ossos. Eu
acho que isso foi mais difícil do que quando descobriu. Quando
descobriu foi ruim, mas é que ela ta sentindo muita dor... (CHORO)...
ela grita de dor né! (Homem do Casal 3)
Sentimentos de impotência, desesperança, intranquilidade e medo de perderem as
esposas são comuns aos companheiros das mulheres ao receberem o diagnóstico do
câncer de mama(5). Há, também, a preocupação com o tratamento e condições
econômicas para realizá-lo(12).
Impacto da retirada do órgão (mama)
Diante de tal situação, houve um consenso entre os homens, os quais
verbalizaram que não houve alterações com a retirada da mama, visto que o
importante era a manutenção da vida da companheira, tal como se observa nas
falas de João, Pedro e Vinícius. Importante destacar que não foi encontrado na
literatura abordagem sobre a percepção do companheiro frente à retirada da
mama.
Não... é esposa do mesmo jeito, é a mesma coisa... pra mim não vai
ter diferença, né! Eu sei que falta, mas pra mim não vai ter
diferença, é esposa do mesmo jeito. (Homem do Casal 1)
Não, normal! Normal, porque que o seio eu acho não é tudo, o que
importante mais da gente é a vida, né. Porque se eu gosto dela, eu
não gosto dela só um pedaço, não é o seio que vai fazer eu desgostar
dela, eu gosto dela por inteiro, né. Então em caso dela tirar um
seio, se fosse os dois, o importante é a vida, é a saúde dela em
primeiro lugar. (Homem do Casal 2)
Encarei com muita naturalidade, porque se tinha que tirar, tinha que
tirar né! Eu quero ver o bem estar dela, a saúde, ficar boa. (Homem
do Casal 3)
Já para as mulheres, os sentimentos mais freqüentes inerentes a esse momento
foram de mutilação, constrangimento e preconceito:
Mudou foi muita coisa. Não tenho ânimo de sair... Ah não, parece que
todo mundo ta me olhando, me encarando... eu não gosto.A minha
vizinha. Ela conversava muito comigo, depois que aconteceu tudo isso
comigo, ela não fala mais comigo. Ah todo mundo dali da rua. Ficou
todo mundo estranho. Não to saindo assim pra divertir mais não, fico
mais em casa. (Mulher do Casal 2)
Retirar minha mama foi mais difícil do que receber a notícia que eu
tava com câncer. Porque sim... (MUITO CHORO), sinto que tirou uma
coisa muito importante. (Mulher do Casal 2)
... Até então você tava perfeitinha e de repente você ta com a
metade, então é muito difícil, foi muito ruim, muito difícil! (Mulher
1)
A retirada da mama freqüentemente gera uma repercussão negativa para a mulher,
principalmente no que se refere à sua autoimagem corporal, implicando também em
comportamentos de isolamento devido à tristeza pela mutilação, vergonha e
receio do preconceito das outras pessoas, quanto à retirada do órgão(7,11). A
mama simboliza a feminilidade da mulher e é cheio de representações para a
mulher, pois além de ser objeto de desejo e satisfação sexual, também é
caracterizado como um dos primeiros laços de estreitamento mãe e filho, e
independente da faixa etária na qual a mulher se encontra, quando desenvolve o
câncer, ocorre o conflito emocional entre o real e o simbólico(6,12).
É muito comum serem despertados sentimentos de medo de rejeição social e por
parte do companheiro(7). Na amostra de mulheres entrevistadas, não foi possível
identificar o temor perante possível rejeição do marido, mas observou-se
nitidamente o constrangimento relacionado à retirada do órgão e o preconceito
referido pelas mulheres mastectomizadas. O comportamento social das mulheres
com câncer de mama é afetado após a mastectomia, provocando restrições na vida
social, pois tendem a deixar seus empregos, restringir suas atividades
domésticas e sociais, fatos que contribuem para acelerar o comportamento
depressivo e o isolamento social, uma vez que passam a se sentir inúteis(15).
Entretanto, com o passar do tempo, as mulheres passam a assimilar as
consequências da cirurgia e aprendem a conviver com a falta da mama, bem como
lutam para aceitar o corpo mutilado e para se readaptar à nova condição(13).
Impacto de outras perdas relacionadas ao câncer
Além da perda da mama, ou de parte dela, os tratamentos complementares podem
determinar outras perdas de cunho físico, tais como a perda dos cabelos, a
parada ou irregularidade da menstruação e a infertilidade, o que pode tornar o
sentimento de identidade da mulher ainda mais vulnerável(12). A mastectomia
costuma causar impacto à mulher, pois abala a sua autoestima, uma vez que
infringe diretamente sua imagem corporal. Porém, quando associada à
quimioterapia, esse impacto pode ainda aumentar em função dos efeitos
colaterais associado aos antineoplásicos, como a alopécia(17). Percebeu-se na
amostra em estudo que, quando os homens foram questionados a respeito das
demais perdas associadas ao câncer de mama, de modo geral todos relataram que a
maior delas estava relacionada ao cabelo e que tal aspecto envolvia a perda da
beleza feminina. As mulheres por sua vez deram também ênfase à queda do cabelo
como o momento mais significativo de perda, mas também ressaltaram a
impossibilidade de continuar trabalhando e a perda da vaidade, conforme se
observa nas falas a seguir.
... A perda do cabelo, mas é normal também. Isso pra ela é um
pouquinho chato porque a mulher sempre tem a beleza dela, né, nunca
quer que aconteça o pior com ela. (Homem do Casal 2)
... Eu não posso mais fazer o que eu fazia: trabalhar, ajudar meu
marido em casa, eu não posso mais, ajudar até mesmo meus próprios
filhos em casa eu não posso. Eu não uso batom mais, você ta vendo
aqui... nem batom, nem lápis, eu gostava muito dessas coisas...
maquiagem. (Mulher do Casal 3)
Quando começou a cair meu cabelo, eu fiquei desesperada, danei a
chorar. Eu chorava constantemente, mas quando caía... meu cabelo era
bem cumpridão. (Mulher 3)
Não é pra trabalhar mais, pelo menos por enquanto né, num guento,
sinto muita dor, não sou mais a mesma, até um namorado que eu tinha,
mandei ele embora, sinto vergonha, tenho vergonha. (Mulher 4)
Tudo, perdeu o cabelo e em geral, porque se fosse só da cabeça seria
jóia né. (Mulher 5)
A perda do cabelo traz um forte impacto reacional na mulher porque também afeta
a sexualidade(11). A alopécia pode trazer maior sofrimento do que a própria
mastectomia já que, no contexto social, a perda do cabelo mostra o diferente, o
não belo, a pessoa inquestionavelmente adoecida(7).
A interrupção das atividades também pode gerar sentimentos negativos, uma vez
que a mulher se sentirá dependente de outra pessoa, tanto financeiramente como
na realização de atividades rotineiras(17). Diante das limitações físicas a
mulher também passa a enfrentar as limitações sociais, tais como
impossibilidade de desempenhar o trabalho tal como antes, além de delegar o
cuidado com os filhos e a casa(15). Ressaltam ainda que as relações pessoais e
de amizade também são comprometidas, e em algumas situações instala-se um
isolamento social.
Apoio conjugal: visão feminina x visão masculina
Um dos fatores de grande relevância para o enfrentamento do câncer de mama
feminino é o apoio conjugal, uma vez que o apoio fornecido pelo marido para a
sua companheira é algo que faz com que a vivência com o câncer seja menos
traumática para a mulher que passa por tal situação. Diante disto, ela encontra
no marido um aliado e um ponto de equilíbrio e quando esse apoio não ocorre, a
mulher se sente mais fragilizada e sem a base sólida que espera do
relacionamento conjugal.
A doença traz uma rica oportunidade de se reavaliar sentimentos e posturas
dentro da relação conjugal, e a recuperação da mulher fica condicionada a forma
como o companheiro aceita a situação(1). Torna-se evidente a importância do
apoio do parceiro de forma integral para a recuperação da mulher neste momento
de enfrentamento da doença.
Os homens que participaram deste estudo referem ter oferecido um apoio
incondicional para as companheiras, independente da etapa da patologia,
referindo ainda a tentativa de elevar a auto-estima da parceira.
Os momentos que ela tava mais triste assim, eu tentei reanimar e
alegrar ela, né, fazer por onde ela não perceber que isso... na
verdade eu faço de tudo pra ela sentir que não ta doente na verdade.
Faz de conta que essa doença é uma... uma coisa que acontece na vida
da gente. Mas... normal! (Homem do Casal 2)
Na realidade na época eu tava até separado dela, quando eu fiquei
sabendo que ela tava com esse problema, eu resolvi... fui atrás dela,
tentei até conseguir trazer ela pra casa de volta. Eu não ia deixar
ela sozinha, sem ajuda de ninguém. Ai tamo ai até hoje... ela vai
fazer radioterapia agora, já terminou a quimio, vai fazer a
radioterapia. Eu to do lado dela até o fim. (Homem do Casal 3)
Vou continuar sempre do lado dela. Até o dia da minha morte. (Homem
2)
O cônjuge tem um papel fundamental durante todas as fases do tratamento, existe
a necessidade da mulher em contar com o apoio do companheiro durante a fase de
reabilitação que ocorre após o diagnóstico e a mastectomia(1). É comum que
alguns companheiros de mastectomizadas lhes dêem apoio, não manifestando
desconforto com a falta da mama ou mesmo em manter as relações sexuais(7).
Entretanto, alguns se afastam das mulheres a partir do diagnóstico do câncer de
mama.
Neste estudo, a maioria (n=6) das mulheres confirmou ter recebido amparo do
esposo, porém uma delas refutou tal apoio abandonando o companheiro e outra foi
abandonada pelo mesmo após o diagnóstico da doença.
... até pra vim fazer quimioterapia e radioterapia, meu marido me
acompanhou. (Mulher 2)
Não sou mais a mesma, até um companheiro que eu tinha, mandei ele
embora, sinto vergonha, tenho vergonha. (Mulher 4)
Quando ele descobriu, ele pediu logo pra separar, que eu acho que
seria o querer maior dele né, porque é quando a gente precisa.. E
você vê eu fui tão forte, mas tão forte que veio a doença, cirurgia,
perda de emprego, de tudo né, da saúde e aí veio pra me separar dele
e eu dei assim de mão, graças a Deus. Eu sou muito forte, eu sou
guerreira, minha fia, eu tenho orgulho de mim. (Mulher 5)
Talvez seja difícil manter um relacionamento em uma situação de temor e
sofrimento que muitas vezes é imposta pela mastectomia, que requer
reestruturação relacional, familiar, paciência e dedicação frente a uma
sociedade que valoriza a estética(1). A reação do parceiro está diretamente
associada ao restabelecimento, à recuperação da identidade corporal e sexual.
A importância do apoio à mulher com câncer de mama pode ser observada em estudo
em que se verificou que mulheres com companheiro apresentaram melhora nas suas
emoções e no relacionamento interpessoal, em relação a mulheres que não tinham
um relacionamento estável e que, com a mastectomia, sentiam-se inferiorizadas,
se comparadas àquelas que possuem mamas e que não realizaram procedimento
cirúrgico, e também acreditam ser menos capazes de estabelecer novos vínculos
afetivos(14). Além disso, observou-se que mulheres que não possuem companheiros
parecem ser mais frágeis face às mudanças que ocorrem em sua vida cotidiana ,
principalmente no que diz respeito aos relacionamentos afetuosos(14).
REPERCUSSÕES NA VIDA COTIDIANA
Apoio familiar
Considerando que diante de uma doença como o câncer de mama a mulher fica
extremamente fragilizada, é neste instante que a família assume seu papel de
proteção e amparo, ajudando-a a superar os momentos em que ela se sente
impotente e incapaz. Constatando tal afirmação, todas as mulheres que fizeram
parte da amostra referiram ter recebido apoio familiar constante por parte de
diferentes membros da família e alegaram ainda que se sentiram mais cuidadas,
recebendo excesso de carinho e atenção em comparação ao período pré câncer.
... Minha sorte foi meus filhos que me dá muita força, minha nora.
Meu filho faz 4 anos que ta com uma moça, uma menina, lá, ai eu gosto
muito dela, mesmo que uma filha pra mim, ai a gente se dá muito bem.
Na noite que eu me operei, ela foi quem passou as duas noites comigo,
a minha nora. Minha filha não deixa eu fazer nada. (Mulher do Casal
1)
Eu tenho duas filhas, uma é bióloga e outra é historiadora e todas
duas também me apoiaram muito também. A minha mãe que já faleceu,
também. Então quer dizer, eu tive apoio total da família, foi muito
bom, realmente essa parte eu acho até assim, dobraram em excesso os
cuidados, os carinhos, entendeu? (Mulher 1)
Encontrei força numa criança de 10 anos e outro de 8 anos... São meus
filhos. Foram meus dois companheiros de quimioterapia. Eles vinham
junto comigo, um pegava na minha mão, o outro pegava na outra e
falava: 'Vamos mãe, coragem mãe, que a senhora vai conseguir.'
(CHORO) E olha que é porque eu tenho uma moça de 19 anos e um rapaz.
E aonde eu encontrei mais apoio foi nessas duas crianças. (Mulher 2)
Geralmente, a confirmação do diagnóstico causa impacto psicossocial, tanto na
paciente quanto em seus familiares, por isso, requer uma rede social de apoio
que viabilize o reconhecimento e a aceitação da doença, para que a mulher possa
encontrar a melhor forma de adaptação(13,15). Normalmente, a família ocupa esse
lugar(6).
Apesar de tais afirmações, existe a possibilidade da dinâmica familiar ser
alterada, pois muitas vezes a mulher tem dificuldade de retomar à sua vida
pessoal e também social(6). Além disso, a experiência de conviver com uma
mulher com câncer de mama pode ser considerada como fator de sobrecarga física
e emocional para a família, uma vez que os cuidados prestados podem levar a
mudanças na dinâmica e estruturas familiares, sendo potencial fonte de estresse
(18).
A busca da espiritualidade como uma estratégia de enfrentamento
As pessoas, de um modo geral, possuem a tendência de buscar respostas para os
acontecimentos da vida em algo divino, num ser maior e mais poderoso que é
Deus. Dessa forma elas se sentem mais amparadas e confortadas. Percebe-se nas
falas dos participantes do estudo que para os homens, a fé em Deus funciona
como um forte suporte emocional para vivenciar essa situação. Já para as
mulheres, além de ser um suporte em diferentes momentos, o poder divino é
também responsável pela única possibilidade de cura.
Se Deus não tiver no controle, nada vai acontecer. Se Deus não tiver
no controle, não adianta a gente falar: Ah, eu vou ficar curada, não
adianta. Eles fazem a parte dele, só, mas quem manda é o Senhor!
(Mulher 1)
A busca religiosa em pacientes com câncer não deve ser entendida como uma forma
de fuga da realidade, mas como uma possibilidade de vislumbrar um futuro apesar
do sofrimento causado pela doença, ou ainda uma ajuda no processo de cura e de
aceitação da doença, uma vez que há a disponibilidade de outras formas de
construção de sentidos para a doença o que possibilita ao doente e aos seus
familiares, um maior empoderamento para vivenciarem essa experiência(5).
Auto-percepção após a mastectomia
A doença provoca uma série de mudanças na vida das mulheres, interferindo no
sentimento em relação a si mesmo e na percepção da vida, geralmente
relacionadas com insatisfação e não aceitação da perda da mama(1). Emergem
sentimentos contraditórios de esperança na cura e medo de recidiva, de
enfrentar a mutilação imposta pela mastectomia, associadas a preocupações com a
feminilidade e com as reações do companheiro frente à mastectomia, o que pode
acarretar em uma baixa auto-estima(11).
Frente a essa questão, as mulheres citadas no estudo referem que após
vivenciarem etapas dolorosas e modificadoras da doença, tanto no aspecto físico
como no psicológico, as mesmas desenvolveram falta de ânimo para desempenhar
atividades que antes eram tidas como normais, devido às limitações e alterações
em sua auto-imagem proveniente da mastectomia.
Ai ai eu sou diferente agora. Sei lá, nem sei explicar! Não, assim
tratar as pessoas eu trato bem. Agora assim pra sair é que eu não
animo mais de sair. (Mulher do Casal 2)
Porém, há também a evidencia de que a doença tenha refletido em mudanças
saudáveis no hábito de vida dessas mulheres, conforme visualizado na fala de
Julia. Dessa forma, a mulher se depara com a necessidade de encarar a vida de
uma nova maneira, visto que a doença traz alterações para toda a vida, fazendo
com que a mesma aprenda a lidar com novas situações, restrições e possíveis
barreiras.
Eu vou falar... eu gostava de beber uma cervejinha, eu gostava de
dançar forró, eu fazia muito essas coisas e agora não. Mas eu acho
que mudou pra melhor, porque isso só me atrapalhava. Eu fumava, então
quer dizer só mudou pra melhor né. Sobre isso ai eu não me queixo
muito não. (Mulher do Casal 3)
Tais achados corroboram com alguns autores(15,13) quando referem que o processo
de adoecer leva a mulher a uma valorização da vida e do auto-cuidado,
permanecendo conscientes da realidade de recorrência.
Sexualidade do casal
Atualmente, a sociedade considera a sexualidade como a única forma de manter
uma relação estável e sólida. Quando algo, como uma doença como o câncer de
mama juntamente com a realização da mastectomia, impõe a possibilidade desse
ato ser interrompido, a relação conjugal é abalada e muitas vezes se configura
em motivo de separação. Tal fato ocorre porque muitas mulheres sentem vergonha
do próprio corpo ou temem que o marido perca a atração por sua companheira.
Porém, nem sempre a perda da sexualidade implica necessariamente na perda do
amor e companheirismo por parte do casal.
Confirmando tais inferências, observou-se que para a maioria dos homens (n=5)
não houve alteração da sexualidade, tendo ainda relatos de ter intensificado a
relação. No entanto, um deles afirmou que a intimidade do casal foi prejudicada
em decorrência da doença.
... Pra mim ela continuou linda do mesmo jeito. Com certeza, pra mim
ta melhor. Sempre, sempre... sem nenhum preconceito. (Homem do Casal
3)
Não... mudou assim algumas partes. Ah coisas íntimas mudou né. Quando
ela começou a tomar a quimio, você sabe que a pessoa fica fraca
né...de qualquer jeito pode mudar alguma coisa. (Homem 3)
Exercer a sexualidade de forma plena e sentir-se atraente é fundamental para a
mulher e interfere, inclusive, em sua qualidade de vida(14). Para tanto, exige
intimidade, respeito e comunicação. Neste estudo, as mulheres reiteram a fala
dos homens no que concerne à ausência de alterações, porém Alice e Júlia
relataram que embora não tenham ocorrido mudanças na sexualidade por parte do
marido, elas perceberam que houve mudanças em sua sexualidade.
Eu não sei se é devido o nervoso ou outra coisa... é até vergonha de
eu falar isso, ele vem me procurar, né, e eu não tenho mais sensação
pra nada... (Mulher do Casal 1)
Não, por ele não, mas por mim sim por causa do tratamento né, por
que... Não por ele não, só por mim mesmo! Por mim assim, eu acho que
eu fiquei mais... fria, no caso né, mais... sem amor. (Mulher do
Casal 3)
Ainda que existisse uma vida sexual ativa antes do diagnóstico do câncer de
mama, a doença traz consigo implicações que vão desorganizar o funcionamento
sexual do casal, tais como comprometimento da autoimagem corporal, dor, fadiga,
não só pelo impacto do diagnóstico, mas, também, pelos efeitos adversos
relacionados ao tratamento(1). Especificamente, em relação ao tratamento,
ocorre menopausa precoce, diminuição da libido e alteração na produção de
hormônios sexuais, o que torna o ato sexual doloroso, além de diminuir a
excitação e inibir o orgasmo(12).
CONCLUSÃO
Partindo do pressuposto de que o câncer de mama é uma enfermidade que tem
caráter de risco para a vida da mulher, seja de forma psíquica ou física, vale
salientar que a família também é diretamente afetada por essa enfermidade, pois
é ela que está em constante contato com a paciente. Dessa forma, visando obter
uma análise mais abrangente sobre o assunto, objetivou-se identificar como
casais enfrentam essa doença; quais foram as barreiras que os mesmos
encontraram e de que forma essa doença repercutiu em suas vidas.
Observa-se que, na literatura, há um déficit de estudos que abordam o impacto
do câncer de mama na vida dos casais, visto que, na maioria dos estudos, a
única preocupação é conhecer as repercussões existentes na vida da mulher,
deixando de lado a opinião e reação do companheiro que se depara e vivencia com
todos os estágios da doença.
Neste estudo, foi possível notar que a maneira como o homem vê o câncer é muito
similar à forma com que a mulher o vivencia, passando por estágios que vão
desde a aceitação, o pavor do recebimento da notícia e o medo das possíveis
conseqüências advindas desse diagnóstico. Portanto, torna-se necessário a
elaboração de novos estudos sobre o impacto do diagnóstico do câncer de mama na
vida dos casais, para possibilitar a realização de uma assistência mais
humanizada e centrada nas dificuldades especificas dos casais.
É perceptível que as repercussões advindas do diagnóstico da doença para as
mulheres são, em sua maioria, vivenciadas de forma negativa, pois é um momento
de intenso sofrimento para elas, que se deparam com a eminência de morte,
seguida pelo pavor de ser tornarem dependentes. Além disso, a realização da
mastectomia, que surge em seguida, fragiliza ainda mais essa mulher que vê sua
feminilidade sendo afetada e em muitas vezes de uma forma irreversível. E para
contemplar esses momentos de perda e fragilidade, a queda do cabelo surge para
interromper por completo com a identidade feminina da mulher e conseqüentemente
com sua vaidade, pois ela se sente inferior e feia em relação às outras
pessoas.
Os homens, por sua vez, ao se depararem com a enfermidade de suas companheiras,
sentem pavor em perdê-las e medo de presenciar o sofrimento delas, por meio da
dor. Portanto, nota-se que as preocupações dos homens se voltam para todas as
necessidades das mulheres, pois os mesmos sentem a necessidade de demonstrar um
apoio constante a elas e acabam exercendo um papel de cuidador, parceiro e
confidente. Contudo, o apoio conjugal é extremante importante para o
enfrentamento da doença, pois dessa forma tanto a mulher quanto o homem, podem
se ajudar nos momentos de fraqueza, fazendo com que a vivencia da enfermidade
seja amenizada.
Além de todos os aspectos já mencionados, outro ponto que nos leva a reflexão é
a maneira como devem ser fornecidas as informações a respeito da saúde/doença
de um paciente, pois é um momento em que o indivíduo encontra-se debilitado e
impotente. Portanto, a forma como o profissional de saúde vai passar
determinadas notícias ao paciente, pode implicar em como a pessoa vai se portar
durante o tratamento. Deve haver um maior preparo por parte dos profissionais
no sentido de analisar o caso e identificar a melhor maneira de transmitir
essas informações, cabendo a eles buscarem estratégias de amenizar a situação e
fornecer ainda apoio e companheirismo ao paciente.
O surgimento do câncer de mama na vida do casal é algo que modifica a vida
dessas pessoas para sempre. A gama de dificuldades que os mesmos enfrentam é
extensa e traumática, porém se os dois se mantiverem unidos, o enfrentamento
dessa doença é facilitado, uma vez que o suporte emocional dado de um para o
outro auxilia em todos os períodos da doença. É necessário saber respeitar o
limite de cada um, sem colocar imposições, apenas deixando claro que
independente da situação esse apoio será fornecido e fortalecido.
Para que o impacto de ter câncer de mama seja vivenciado de uma forma mais
amena é necessário que a sociedade seja informada quanto aos cuidados prévios
para a prevenção e formas de enfrentamento caso alguém se depare com tal
situação com um familiar ou consigo mesma, fazendo com esta doença na vida de
determinada pessoa não tenha um efeito extremamente traumático, conforme
visualizado neste estudo.