Saberes e práticas de mulheres idosas na prevenção do câncer cérvico-uterino
INTRODUÇÃO
O crescente aumento da longevidade feminina faz com que grande número de idosas
vivencie progressiva fragilidade biológica do organismo, situações de agravos à
saúde e ocorrência de doenças crônico-degenerativas, tais como o câncer
cérvico-uterino.
O câncer cérvico-uterino é considerado um agravo de saúde pública, mediante sua
elevada prevalência e morbimortalidade, embora existam recursos disponíveis
para a sua prevenção e controle. Portanto, torna-se necessário o conhecimento,
não apenas de sua magnitude, expressa nas estatísticas, mas também da
singularidade da clientela, que constitui seu alvo, para que se possa ter
embasamento frente a seu melhor controle, seja por meio de programas de
prevenção precoce ou pela organização da rede de tratamento e reabilitação.
Estimou-se para o ano de 2008 a ocorrência de 466.730 novos casos de câncer,
sendo 234.870 para o sexo feminino e ,dentre este,s 19.000 casos de câncer do
colo do útero. No Nordeste, este tipo de câncer ocupa a segunda posição mais
frequente, tendo o Piauí uma taxa estimada em 20,99 casos para cada 100.000
mulheres(1).
As taxas de morte crescentes por câncer em idosas mostram que as mulheres são
mais susceptíveis a certos tipos de neoplasias, ressaltando o câncer do colo de
útero, associado às doenças sexualmente transmissíveis, tabagismo, uso de
contraceptivos orais por períodos muito longos e grande número de gestações.
Ainda é muito elevado no Brasil o número de casos diagnosticados em estágio
avançado do câncer cérvico-uterino, corroborando os dados dos demais países em
desenvolvimento, os quais revelam que as campanhas de detecção precoce não são
bem sucedidas(2).
A tendência atual é um número crescente de idosas que, apesar de viverem mais,
podem encontrar-se funcionalmente incapacitadas, ou com uma saúde precária, e
quase sempre isso é resultado de doenças preveníveis, como o câncer cérvico-
uterino. O desafio é conseguir anos a mais, vividos com um perfil de elevada
qualidade de vida, pois a transição demográfica levou claramente a uma
modificação do perfil de morbimortalidade.
Reduzir a mortalidade de idosas por câncer do colo de útero é uma meta de saúde
a ser conquistada, sobretudo na maioria dos países em desenvolvimento.
Atualmente, o quadro epidemiológico dessas neoplasias continua mantendo posição
significativa quando o assunto é morbimortalidade feminina(3). O objetivo não é
somente evitar a mortalidade, mas, também, combater a morbidade e garantir uma
vida saudável.
Embora os principais determinantes para o envelhecimento saudável - contexto
social e características genéticas e biológicas - fujam do controle pessoal,
existem outros fatores que dependem das providências adotadas pelo próprio
indivíduo para uma melhor da qualidade de vida(4).
O câncer cérvico-uterino se mostra peculiar porque há formas de detecção
precoce e tratamento de lesões precursoras, podendo haver inibição de sua
ocorrência. Torna-se fundamental que as idosas tenham oportunidade de obter
conhecimentos sobre o assunto e a maneira eficaz de prevenção, identificando
suas práticas de autocuidado e analisando se estão desenvolvendo a forma
correta de prevenção.
Logo, saber escutar as idosas, é uma oportunidade em que elas podem expor suas
dúvidas, experiências próprias e conhecimentos, faz-se mister, para se
estabelecer um parâmetro de como essas idosas lidam com o assunto. Os
comportamentos e estilos de vida saudáveis remetem à cultura daquele grupo(5).
Acredita-se que a forma como as idosas interpretam e dão sentido ao seu modo de
viver, conforme seus conhecimentos e práticas preventivas, representam muito na
caminhada de controle e prevenção precoce do câncer do colo de útero.
A partir dessas considerações houve um comprometimento das pesquisadoras em
investigar como as mulheres idosas mostram-se diante do assunto câncer cérvico-
uterino, quais informações possuem e quais precauções utilizam, possibilitando
conhecer os saberes e práticas dessas mulheres na prevenção dessa neoplasia, de
modo a ampliar e aprofundar os conhecimentos que possam contribuir para
identificar lacunas e orientar condutas para melhor qualidade dos serviços de
atenção à saúde da mulher.
Nesse contexto, definiram-se como objeto deste estudo os saberes e as práticas
de mulheres idosas na prevenção do câncer de colo de útero, e, como objetivos,
descrever os saberes de mulheres idosas sobre o câncer do colo de útero;
identificar as práticas de autocuidado desenvolvidas pelas idosas para a
prevenção do câncer cérvico-uterino e analisar a regularidade das práticas
preventivas do câncer do colo uterino pelas idosas.
Espera-se que o presente trabalho possa impulsionar reflexões sobre a
necessidade de maior embasamento técnico-científico e humanístico em relação
aos saberes e práticas das mulheres idosas quanto aos cuidados com a saúde na
prevenção do câncer do colo de útero.
O envelhecimento progressivo das mulheres idosas deixa não só os profissionais
da saúde como toda a sociedade em estado de alerta, pois, todos os esforços têm
como finalidade aumentar a probabilidade de uma vida mais autônoma, tornando-
a diretamente mais segura e saudável, livre de doenças como o câncer de colo de
útero.
Nos serviços de saúde observa-se o aumento da demanda do atendimento da
população idosa, com destaque para o grupo feminino na busca de cuidados para
si própria e para família, entretanto a assistência ainda se encontra centrada
no tratamento medicamentoso para controle de doenças crônicas, tais como
hipertensão arterial e diabetes mellitus, sendo negligenciada a assistência
integral e holística(6).
As mulheres idosas são o segmento mais representativo e com expansão crescente
e acelerada em relação aos homens, que apresentam uma expectativa de vida de
76,8 anos e 69,3 anos, respectivamente; portanto vivendo, em média, mais de
sete anos que os homens(7).
No Brasil a estimativa do número de casos de câncer do colo do útero para 2010
foi de 18.430 casos, com risco estimado de 18 casos para cada 100 mil mulheres.
No estado do Piauí, para o mesmo período, foi estimado em 350 casos com risco
de 21,99%. É o segundo tipo mais freqüente de câncer entre as mulheres, porém
,com exceção do câncer de pele, apresenta o maior potencial de cura, quando
diagnóstico precocemente(8).
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa, pois se preocupa em
analisar e interpretar aspectos subjetivos mais profundos, descrevendo a
complexidade do comportamento humano. Fornece oportunidade de análise mais
detalhada sobre as investigações de hábitos, atitudes e tendências de
comportamento(9).
Os sujeitos do estudo foram cinqüenta mulheres idosas, que procuraram
espontaneamente atendimento na Estratégia Saúde da Família (ESF), em Parnaíba-
PI, durante o período de maio a junho de 2008. Os critérios para inclusão dos
sujeitos foram: ter sessenta anos ou mais de idade, ser cadastrada na ESF São
Vicente de Paula e concordar em participar do estudo.
Foram seguidas as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo
seres humanos emanados da Resolução nº 196, de 1996, do Conselho Nacional de
Saúde. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da
Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual do Piauí, conforme
parecer 012/2008. Todas as participantes assinaram o Termo de Consentimento
Livre Esclarecido. Para assegurar o anonimato, ao se transcrever os dados,
foram utilizados nomes de flores para a identificação das idosas.
Foi realizada entrevista semiestruturada, individual, orientada por um roteiro,
que possibilitou uma investigação ampla, interação e maior espontaneidade com
os sujeitos. Partindo dessas informações, buscou-se compreender os saberes e
práticas das idosas sobre a prevenção de câncer cérvico-uterino.
Ao mesmo tempo em que as crenças culturais e interiorizadas são reveladas numa
entrevista, existem aspectos específicos relacionados com a história de vida de
cada entrevistado. O comportamento individual é coerente com os modelos
culturais interiorizados e nas consciências individuais onde se expressa a
consciência coletiva(10).
O número de entrevistas foi delimitado pelo critério de saturação de dados, no
qual as convergências e divergências das informações colhidas levam à repetição
do conteúdo das falas e satisfação do pesquisador, que determina o encerramento
da coleta de dados. Para análise e discussão dos resultados foi utilizada a
técnica de análise de conteúdo, que visa não somente à descrição de resultados,
mas à compreensão dos significados envoltos na realidade que se está buscando
estudar(11).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Participaram do estudo cinquenta idosas, na faixa etária de 60 a 84 anos, que
procuraram espontaneamente as equipes da ESF de uma Unidade Básica de Saúde de
Parnaíba-PI, para a realização da colpocitologia oncótica. Quanto à
escolaridade, trinta e duas das entrevistadas eram analfabetas, dez
alfabetizadas e oito possuíam o ensino médio. Quanto ao estado civil, trinta
das entrevistadas eram casadas e vinte solteiras.
Percebeu-se, durante a coleta de dados, que houve predomínio de baixo nível
sócio-econômico e escolaridade; entretanto, as idosas eram ativas, demonstravam
preocupação com a saúde e interesse ao serem oferecidas informações sobre a
prevenção do câncer de colo de útero.
Dos relatos das mulheres idosas emergiram três categorias: os saberes de idosas
sobre o câncer cérvico-uterino, os fatores de risco para o câncer cérvico-
uterino e práticas de autocuidado na prevenção do câncer cérvico-uterino.
Os Saberes de Idosas sobre o Câncer Cérvico-uterino
Essa categoria busca compreender os saberes que as idosas possuem em relação ao
câncer de colo do útero, como também avalia o nível de informação e instrução
que essas idosas têm a respeito dessa patologia.
Mediante as respostas apresentadas, pôde-se observar que as entrevistadas
conhecem a doença, e quase sempre esse saber está relacionado ao acometimento
da patologia por alguém próximo, ou mesmo por terem tido oportunidade de ler ou
ouvir falar sobre o assunto. Notou-se que vinte e uma das idosas mostravam-se
capazes de conceituar o câncer cérvico-uterino.
Já ouvi falar, mas não tenho muita noção. (Hortênsia)
Sei, minha mãe teve câncer de colo de útero e convivi durante o tempo
com a doença. Li um pouco sobre o assunto. (Angélica).
Minha mãe e minha avó morreram dessa doença e sei o quanto é
prejudicial. (Cerejeira)
Essas afirmações demonstram que as idosas absorveram alguma informação sobre o
câncer cérvico-uterino durante suas vidas, tanto por situações vivenciadas na
família, como na divulgação informal, mas, também, pelo trabalho de educação em
saúde realizado pela ESF. Para que haja prevenção é necessário haver
inicialmente conhecimento das idosas, obtendo segurança e, portanto o cuidado
com sua saúde.
Esse saber empírico caracterizou-se por apresentar um conteúdo rico de
informações importantes, capaz de contribuir para efetivas atitudes e cuidados
em relação a essa patologia que acomete grande número de mulheres anualmente em
todo o mundo(12).
A capacitação de recursos humanos da saúde, a implementação de protocolos, a
qualidade do serviço e a motivação da mulher para cuidar da sua saúde
fortalecerão e aumentarão a eficiência da rede formada para o controle do
câncer(13).
Algumas das barreiras identificadas dizem respeito às mulheres e, dentre elas,
o desconhecimento destas sobre o câncer de colo do útero, ausência de
encaminhamento adequado das mulheres e insuficiência de recursos para absorção
da população-alvo(14). Baseando-se nas respostas colhidas, percebeu-se, também,
que existe uma falta de informação sobre o conceito de câncer do colo uterino e
essa realidade expõe a carência de instruções corretas e claras sobre a
patologia. Isso é percebido nas falas abaixo:
Só sei que dá em toda parte do corpo, que é uma doença muito séria
que se alastra pelo corpo todo. (Camomila)
Nunca ouvi falar nesse câncer não. (Rosa)
É doença séria que dá nas partes da gente. (Bromélia)
O desconhecimento demonstrado nos depoimentos dos sujeitos desta pesquisa
mostra uma lacuna entre a educação em saúde e os saberes da comunidade -
idosas, havendo necessidade fortalecimento das ações educativas.
O envelhecimento acarreta riscos crescentes à mulher em termos de
funcionalidade, proteção, integração social e principalmente de saúde. Os
riscos são em parte devido aos fatores biológicos, assim como, ao estilo de
vida, pobreza, baixa escolaridade, isolamento social, e, principalmente,
histórico de saúde e doenças incapacitantes, como o câncer de colo de útero
(15).
Quando questionadas sobre como aprenderam o conceito de câncer do colo uterino,
as idosas citaram a televisão e a conversa informal como forma de adquirir
informações sobre saúde. Ressalta-se a importância de palestras educativas,
realizadas por profissionais, aliando conhecimento científico ao empírico.
Quando a mãe da gente tem, a gente pode ter. (Girassol)
Eu não entendo, mas vejo o povo falar na televisão, também as
mulheres passam aqui na rua falando. (Orquídea)
Às vezes tem propaganda na TV, né? (Anis)
Esses achados revelam a necessidade de ampliar a informação, gerando
conhecimento sobre o exame, sobretudo pelos serviços de saúde e profissionais
que neles atuam. Outra pesquisa demonstrou que, embora quase a totalidade das
entrevistadas tivesse ouvido falar do exame de prevenção do câncer de colo de
útero, menos da metade delas foi classificada com um conhecimento adequado; a
metade delas realizou o exame pelo menos uma vez na vida e uma parcela menor o
realizou nos últimos três anos(16).
É fundamental o desenvolvimento de uma relação entre conhecimentos das Ciências
da Saúde e as Educativas, respeitando as pessoas com sua visão de mundo,
crenças e valores de uma cultura(17).
Os meios de comunicação são importantes ao alertarem para questões de promoção
da saúde, porém o papel do Enfermeiro é salutar frente aos programas de
prevenção do câncer de colo uterino.
Fatores de Risco para o Câncer Cérvico-uterino
Prevenir o aparecimento do câncer de colo uterino significa minimizar as
chances de uma pessoa desenvolver a doença, através de ações que afastem os
fatores de riscos e aumente a qualidade da assistência à saúde. E importante
destacar que o referido câncer possui características que permitem sua detecção
em estágio pré-maligno ou inicial.
Pode-se perceber, ainda, em seus discursos, que os sujeitos do estudo
demonstram ter conhecimentos limitados sobre fatores de risco para o
desenvolvimento do câncer cérvico-uterino, conforme mostram as falas seguintes.
Causa na pessoa que não tem higiene, que fuma e anda com tudo que é
homem. (Jasmim)
Já ouvi falar que é devido massa, as coisas que a gente come e não
faz muito bem pra saúde. (Violeta)
Dá quando anda descalço no chão quente. (Dália)
A prevenção é não andando descalço, fazendo tratamento, sendo
limpinha, trocando sempre a calcinha. (Heliconia)
Notou-se a presença de mitos associados ao câncer cérvico-uterino, consequentes
da incorporação do saber popular, marcado pelos conceitos e historicidade na
prevenção da doença, como: má higiene, ingestão de determinados tipos de comida
e/ou andando descalço no chão. Os fatores de risco citados pelas entrevistadas
evidenciam um déficit no conhecimento sobre o tema, mostrando a necessidade de
ações que sensibilizem essas mulheres quanto a essa neoplasia.
Faz-se importante comentar que, as idosas expressaram relação entre o câncer e
o tabagismo, etilismo e infecções/inflamações no útero por origens diversas,
associando-os ao risco do câncer cérvico-uterino.
Causa na pessoa que não se cuida, tem raladura ou ferimento no útero.
(Camomila)
Eu sei que o problema vem do útero da mulher, pode ser por ferimento
ou mesmo tumor. (Yasmin).
Causa na pessoa que fuma, bebe e come o que não deve, quando está no
dia da regra. (Flor)
Observa-se uma aproximação entre o conhecimento informal dessas idosas e a
ciência, por exemplo, o fumo, citado como fator de risco, conforme o depoimento
acima. Destaca-se que o aparecimento do câncer de colo de útero significa uma
redução na qualidade de vida, isto pode ser minimizado através de ações que
diminuam certos fatores riscos e aumente a qualidade da assistência de saúde.
Ressalta-se que esse novo saber, oriundo da junção do conhecimento científico
com o saber popular, é gerado da reflexão do cotidiano e da práxis individual
ou coletiva, como possibilidade para revertê-la e /ou transformá-la, enquanto
elemento de reflexão sobre sua própria realidade existencial(18).
Os fatores de risco para o desenvolvimento do câncer do colo de útero são a
infecção por papilomavírus humano (HPV); a multiplicidade de parceiros sexuais;
a história de infecções sexualmente transmitidas (da mulher e de seu parceiro);
a idade precoce na primeira relação sexual e a multiparidade(1).
As depoentes manifestaram também um desconhecimento ou a falta de informação
sobre os fatores de risco para o câncer do colo do útero, como pode ser
evidenciado em algumas falas a seguir.
Não sei o que pode causar. (Cidreira)
Eu não imagino o que possa causar não. (Lirium)
O que pode causar? Deve ser quando tem que acontecer mesmo. (Íris)
Não sei, é doença que dá mesmo! (Beladona)
Tenho nem ideia... (Camélia)
A falta de informação deixa muitas idosas vulneráveis à possível ocorrência da
doença e, ainda, não estimula um comportamento preventivo para a ocorrência do
câncer. Um grande desafio que a longevidade aumentada nos coloca é o de
conseguir uma sobrevida alta, com uma qualidade de vida cada vez melhor.
Portanto, um importante objetivo é proporcionar uma melhor qualidade de vida às
idosas, por minimização da ocorrência de câncer de colo uterino.
Prática do Autocuidado das Idosas na Prevenção do Câncer Cérvico-uterino
As ações de cuidado que as mulheres idosas adotam em relação à prevenção do
câncer de colo do útero somente têm efeito se realizados de forma periódica e
com acompanhamento profissional adequado. Aqui se buscou compreender como as
idosas realizavam o autocuidado em relação à prevenção e se buscou analisar a
regularidade das medidas preventivas do câncer de colo uterino.
É imprescindível ressaltar a importância de que essas mulheres conheçam as
formas de prevenção para essa doença, pois, na proporção que entendem sobre as
medidas preventivas, de manutenção ou melhora da saúde e reabilitação, se
tornam aptas a enfrentar melhor a doença e suas repercussões, permitindo
gerenciamento mais efetivo de suas vidas. Alguns depoimentos confirmam o
exposto.
Sei que deve fazer a prevenção, mas eu não faço não... Tenho vergonha
e medo.(Gérbera)
Sei como me prevenir... Minha mãe teve câncer de colo de útero e por
isso faço, todos os anos, a prevenção. (Bromélia)
Sei... Tem o exame Papanicolau que se deve fazer todos os anos. Eu
fiz semana passada. (Gardênia)
Fica evidenciado que, quando as idosas são informadas sobre o câncer do colo do
útero, elas entendem, aceitam e realizam as medidas de prevenção, e conseguem
evitar complicações, assumindo papel significativo no autocuidado. Por isso, o
autocuidado deve ser referenciado, uma vez que viver por mais tempo nem sempre
significa viver melhor. Quase sempre existe uma convivência com uma doença como
a neoplasia e a forma como essas idosas estão informadas e lidando com seu
cuidar vai influenciar diretamente na prevenção de tais problemas de saúde.
Importante salientar que o sentimento de medo vinculado à realização do exame
preventivo é expresso de forma negativa mostrando expectativas de sofrimento
para a pessoa que o vivencia, bem como a possibilidade de confirmação da
doença. Além disso, há a questão relacionada ao pudor e ao sentimento de
invasão de privacidade que muitas idosas carregam, até mesmo por enraizamento
cultural.
Os programas atuais de controle do câncer de colo uterino têm se baseado,
principalmente, na repetição de exames preventivos e na sensibilização de que
essa fase é fundamental, se tornando a única possibilidade real de evitar ou
diminuir a incidência da neoplasia(13).
A partir das falas analisadas pôde-se notar que das cinquenta idosas, apenas
quatorze fizeram a prevenção baseado no exame de Papanicolaou. Dentre essas
quatorze entrevistadas, sete realizaram a prevenção há menos dois anos e não
tem periodicidade para repetir o exame; as outras sete idosas realizam o exame
preventivo de forma periódica.
Fiz prevenção há muito tempo, acho que tem uns 30 anos, mas eu lembro
como é feito. (Girassol)
Eu me previno fazendo todos os anos a prevenção, na clínica ou no
posto, gosto de me cuidar. (Bromélia)
Eu fiz a prevenção tem dois anos, foi aqui no posto, mas nunca mais
fui. (Papoula)
Sei sim, tem até aquela escovinha para fazer o exame, dá vergonha,
mas tem que fazer pra saber da saúde da gente! (Rosa)
Quando essas mulheres são informadas sobre sua capacidade de autocuidado
tornam-se mais aptas a desenvolver conscientemente um papel de autoproteção,
tomando as medidas preventivas, tendo oportunidade de enxergar e transformar a
realidade em que estão inseridas, mesmo diante de sentimentos como a vergonha.
Somente uma idosa afirmou não fumar e adotar comportamento não promíscuo, uma
vez que tem parceiro fixo, como prevenção.
A minha prevenção é não fumar... Também, eu sou casada, não conheci
outros homens. (Heliconia)
A adoção de condutas preventivas leva a considerar essas idosas como sujeitos
de sua própria história, com capacidades e potencialidades para atuarem
efetivamente sobre as elevadas taxas de incidência do câncer cérvico-uterino.
Nesse processo de transformação da realidade em que as idosas se encontram
inseridas, é essencial a perspectiva de novas descobertas sobre os fatores de
risco, bem como o conhecimento daqueles já existentes, o que poderá
possibilitar intervenções mais específicas, junto à população-alvo(12).
Contudo, deve-se enfatizar que, uma parcela significativa das idosas não sabe
como agir para se prevenir do câncer de colo uterino, apesar de terem ouvido
falar em prevenção.
Eu não sei a forma de prevenir. Eu fiz prevenção há dois anos, mas
não sei se esse exame tem a ver. (Acácia)
Prevenção? Já ouvi falar, mas não sei o que significa. (Gloriosa)
Pode-se constatar que as idosas não possuem conhecimento sobre a prevenção do
câncer do colo uterino e não realizam práticas de autocuidado. Apesar da
utilização do Papanicolaou ter sido iniciada em 1950, a realização ocorreu
durante muitos anos fora do contexto de um programa organizado que estimulasse
a procura regular e garantisse o acesso ao exame preventivo das mulheres mais
vulneráveis à doença. Estima-se que 40% das mulheres brasileiras nunca tenham
realizado o exame de Papanicolaou (19).
Um número expressivo de idosas afirmou não aderência a exame preventivo, mesmo
tendo algum conhecimento sobre o assunto, sabendo-se, entretanto, que é
essencial para essas mulheres conhecerem e adotarem as alternativas de
prevenção do câncer cérvico-uterino para poderem melhor administrar o cuidado
pessoal.
Nunca fiz exame de prevenção. Não sei o que é. (Acácia)
Eu não sei o que fazer para me prevenir. (Girassol)
Já ouvi falar em prevenção, mas nunca fiz... Eu tenho é medo de fazer
e dá alguma coisa. (Margarida)
Faço não... Minha amiga me falou na prevenção, mas eu tenho vergonha
demais. (Gloriosa)
Em uma publicação intitulada "sentimentos e expectativas das mulheres acerca da
citologia oncótica", constatou-se que a maioria das mulheres não realiza o
exame, embora todas afirmem sua importância. Dentre os sentimentos mais
recorrentes referidos entre as mulheres estão: timidez, medo e vergonha(20).
Sugere-se que as ações educativas em saúde abordem, além da importância e
finalidade do exame, os cuidados necessários para a realização do mesmo e a
humanização na interação profissional-cliente durante a consulta ginecológica
(21).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Promover a prevenção e a detecção precoce do câncer de colo de útero deve ser
objetivo de países em desenvolvimento, como o Brasil, que ainda não conseguem
uma ampla cobertura, não sendo capazes de garantir uma segurança quanto à
redução de sua incidência. A concepção dos saberes e práticas das idosas sobre
a prevenção do câncer do colo do útero permitiu uma visão ampliada de como as
idosas pensam, agem, quais as formas de prevenção adotadas e a regularidade
dessas ações.
Foi possível compreender a partir dos discursos e respostas das entrevistadas,
um pouco mais sobre como essas mulheres dão sentido às ações cotidianas, que
modelos de atenção à saúde são adotados quanto ao câncer do colo do útero e até
que ponto as idosas são agentes de seu próprio cuidado.
Na categoria "os saberes de idosas sobre o câncer do colo uterino" evidenciou-
se que os sujeitos possuem um saber empírico, contribuindo para mudanças
efetivas e cuidados em relação ao câncer. Os principais meios de informação
citados para aquisição de conhecimentos sobre a prevenção da doença foram a
televisão e as conversas informais. Esse fato releva a idéia que o saber
relatado por essas mulheres é fruto de sua inserção social e cultural e este
influencia suas práticas.
O desconhecimento da neoplasia citado por algumas idosas aponta para uma
fragilidade nas ações da atenção básica, especialmente nas ações educativas
dirigidas às idosas. A autoconscientização das idosas atua como fator
indispensável para a adesão das medidas de prevenção.
Em relação aos fatores de risco para o câncer cérvico-uterino, observou-se que
as idosas conseguem identificá-los. Des-taca-se, porém, a presença de mitos
como a andar descalço em chão quente, ingerir determinados alimentos no período
da menstruação, relacionados aos fatores desencadeantes.
Com referência às práticas de autocuidado das idosas na prevenção do câncer
cérvico-uterino, verificou-se que, quando essas idosas são sensibilizadas há
uma condução à hábitos vinculados a prevenção e uma melhor qualidade de vida.
O exame de Papanicolaou constitui uma prática importante para detecção precoce
do câncer de colo de útero. Quase metade das idosas reconhece o exame de
Papanicolaou, descreve e fala corretamente sobre seu conceito, a necessidade de
realização e repetição periódica do exame. Metade das idosas não adere ao exame
supracitado, comportamento este relacionado a desinformação, medo e vergonha.
Uma não adesão ao tabagismo foi citado como forma de autocuidado.
Com o estudo conclui-se que ainda há muito a se fazer para que os saberes e
práticas das idosas fluam para uma prevenção concreta e segura do câncer, pois
as idosas revelaram que necessitam de mais informações para poderem lidar de
forma mais efetiva com o câncer cérvico-uterino.
Sugere-se que seja realizado um planejamento de ações que estimule as idosas a
obterem mais informações sobre o assunto e que procure incentivar com
regularidade a realização de exame de prevenção do câncer do colo do útero,
haja vista a condição de risco dessa faixa etária. Uma medida prática poderia
ser a mobilização e sensibilização do grupo de mulheres idosas para dialogar
sobre o tema, divulgando resultados de estudos e destacando a importância de
ampliar a cobertura de prevenção entre as idosas.