Gênero e planejamento familiar: uma abordagem ética sobre o compromisso
profissional para a integração do homem
INTRODUÇÃO
O Planejamento Familiar, implementado oficialmente em 1984, é um Programa que
leva em consideração a liberdade do casal em decidir o número de filhos que
podem ou querem ter. Deve ser realizado com a consciência de gênero, incluindo
o homem em suas atividades e compreendendo a posição da mulher na sociedade;
identificando a ideologia que permeia o programa, contribuindo na educação
sexual e saúde reprodutiva, com ênfase na prevenção de Doenças Sexualmente
Transmissíveis(1).
Atentarmos para os discursos e ideologias que os profissionais enfermeiros e
equipe multidisciplinar realizam na educação em saúde, como os discursos
controlistas, que se diferenciam do discurso proposto pelo Programa de
Planejamento Familiar, que se faz necessário, se buscamos uma conduta ética em
saúde.
O Planejamento Familiar constitui uma das ações de saúde preconizadas pelo
Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM). No Manual do
Coordenador de Grupos de Planejamento Familiar, do Ministério da Saúde(2),
encontra-se que o componente de anticoncepção deverá ser executado dentro de
princípios éticos e de saúde, garantindo a livre opção das pessoas na escolha
do método anticonceptivo mais adequado.
A prática anticoncepcional foi se caracterizando como uma responsabilidade
feminina, já que os papéis sexuais dos homens e das mulheres são diferentes na
nossa sociedade. E, mesmo as mulheres trabalhando fora, estando mais
informadas, modificando seus valores, ainda enfrentam o conflito entre a
vivência atual e a educação que receberam. Desta forma, a prática da
contracepção permanece, na maioria das vezes, ambígua, culposa e angustiada(2).
O planejamento familiar, como política social e demográfica, incide sobre as
esferas da saúde, educação e promoção social e tem sido hoje, no Brasil, uma
formulação estatal(3). Há controvérsias e ambigüidades que acompanham este
programa.
De 1974 a 1983, surge o Planejamento Familiar no Brasil, que faz parte do
PAISM, implantado sob cuidadosa estratégia política, contando com dois grupos
aliados, a Igreja Católica e o Movimento de Mulheres e grupos a imobilizar "os
inimigos": os controlistas e neomalthusianos. Constituiu-se no primeiro
programa nacional e oficial que contemplou o Planejamento Familiar no Brasil, e
está, na prática, nestas últimas décadas, funcionando precariamente, reflexo
dos serviços públicos de assistência à saúde, de uma maneira geral, cuja
deficiência crônica se faz cada vez mais evidente e grave(4).
A Sociedade Civil de Bem-Estar Familiar no Brasil (BEMFAM), numa linha
neomalthusiana, define Planejamento Familiar como
o exercício da Paternidade Responsável, a utilização, voluntária e
consciente, por parte do casal, do instrumento necessário à
planificação do número de filhos e espaçamento entre uma gestação e
outra, pressupõe o uso dos métodos anticoncepcionais produzidos pela
moderna ciência médica. A Paternidade Responsável não pode ser
alcançada sem a efetivação do Planejamento Familiar. Não basta apenas
educar e conscientizar os casais: é preciso, também, dar acesso aos
meios indispensáveis à prática da Paternidade Responsável,
principalmente quando se tratarem de populações carentes de recursos
(5).
No PAISM, Planejamento Familiar é definido como
direito de todos os seguimentos da sociedade à livre escolha dos
padrões de reprodução que lhes convenham como indivíduos ou como
casais. Para que esse direito possa ser efetivamente exercido, é
necessário que os indivíduos tenham conhecimento das possibilidades
de influir no ritmo da procriação e tenham acesso às informações e
aos meios para que possa intervir se assim o desejarem, para separar
o exercício da sexualidade da função reprodutiva e, em conseqüência,
exercer na plenitude o planejamento da sua prole, objetivo complexo,
porém, de alcance possível com a implantação e firme execução da
proposta de assistência integral à saúde da mulher e o apoio desejado
de todos os segmentos da sociedade(5).
A conceituação de Planejamento Familiar, desde o seu início, passando pelos
controlistas e antinatalistas, da BEMFAM ao Centro de Pesquisa e Assistência
Integrada à Mulher e à Criança (CPAIMC), "Prevenção da Gravidez de Alto Risco",
"Paternidade Responsável", até o PAISM, foi distinta, pois houve evolução
temporal, histórica, política, bem como, se estruturaram as ações da política
de saúde de formas diferentes, em épocas diferentes, com questões éticas e
legais em questionamento e com a mudança de pensamento e adesão do Estado, da
Igreja Católica, bem como dos grupos feministas(4).
Uma definição, para a década atual, de Planejamento Familiar não pode deixar de
ser democrática, que leve em consideração a liberdade do casal em decidir o
número de filhos que podem ou querem ter. Mais ainda, que seja realizada com a
consciência de gênero, no sentido de se incluir o homem nas atividades e no
Programa de Planejamento Familiar e compreender a posição da mulher na
sociedade, bem como procurar identificar a ideologia que permeia o Planejamento
Familiar, contribuindo com a explanação dos direitos de cidadãos que devem
exercer tanto o homem quanto a mulher.
Nessa reflexão, construímos a seguinte questão norteadora deste estudo: Qual a
conduta dos profissionais de saúde para a integração do homem nas atividades de
planejamento familiar? O objeto constituiu-se nocompromisso dos profissionais
de saúde, especialmente dos (as) enfermeiros (as), com a integração do homem
nas atividades do programa de planejamento familiar, tendo a ética como um de
seus fundamentos. Osobjetivos foram: caracterizar as atividades desenvolvidas
pelos profissionais de saúde, especialmente os (as) enfermeiros (as), na
execução do programa de planejamento familiar; analisar a conduta dos
profissionais de saúde quanto à integração do homem nessas atividades e
discutir a dimensão ética da conduta dos profissionais de saúde para a
integração do homem no programa, percebendo essa atitude integradora como um
passo para um mundo sustentável, em que pessoas conscientes possam planejar a
prole.
METODOLOGIA
A pesquisa é descritiva, do tipo qualitativo, pois se preocupa "com um nível de
realidade que não pode ser quantificado, ou seja, trabalha com um universo de
significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, permeando os
fatos, as relações e as estruturas sociais"(6). Estas últimas são tomadas,
tanto no seu advento quanto na sua transformação, como construções humanas
significativas, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à
operacionalização de variáveis e que auxiliam na descrição e explicação das
relações sociais.
No que se refere à pesquisa qualitativa, nenhuma abordagem é suficiente para a
compreensão completa da realidade observada. Entretanto, afirma-se que a
abordagem qualitativa vê o social como um mundo de significados passível de
investigação e a linguagem como matéria prima dessa abordagem, entretanto,
algumas vezes, pode contrastar com a prática dos atores sociais(7).
Por outro lado, o estudo é descritivo, pois se busca conhecer melhor, nos
profissionais de saúde que atuam em atividades de Planejamento Familiar, os
discursos, compromissos, condutas, seu preparo para a integração dos homens no
grupo misto, independente da orientação sexual, percebendo-se que a
interferência somente será possível se houver uma descrição, "com exatidão" dos
fenômenos e fatos da realidade dessas atividades(8).
Utilizou-se a lógica dialética nesta pesquisa, por ser a que melhor responde às
necessidades da pesquisa na área da saúde, pois a mesma jamais está
desvinculada da pesquisa social que vincula a teoria à prática. A visão
dialética privilegia a contradição e o conflito; o fenômeno da transição, da
mudança, do vir-a-ser sobre a estabilidade; o movimento histórico; a totalidade
e a unidade dos contrários; dialético "é o método do desenvolvimento e da
explicação dos fenômenos culturais, partindo da atividade prática e objetiva do
homem histórico"(9). O homem histórico constrói sua própria história enquanto
cidadão. Esta abordagem é a mais apropriada para este estudo, considerando que
a pessoa participa de processos sociais que são dinâmicos, nada é eterno fixo
ou absoluto. Não encontramos idéias, instituições e categorias que sejam
imutáveis. A vida humana e social está sujeita a mudanças, transformações, por
isso, toda a construção social é histórica(9).
Na construção do objeto de pesquisa, despertamos para a forma como são
percebidas as relações sociais. A sociedade é percebida como construída a
partir do processo interativo de indivíduos e grupos que agem em função dos
sentidos que o seu mundo circundante representa para eles(10).
Precisamos vislumbrar o homem-sujeito, pautados na autorreflexão, em que se
lute pela libertação e humanização do homem e da sociedade, através da
conscientização para daí se atingir a transformação social (11). A
conscientização não pode existir fora da praxis, sem o ato ação-reflexão, diz
também que esta unidade dialética constitui o modo de ser e de transformar o
mundo(12).
Desta forma, o método dialético, utilizado nesta pesquisa, é o reflexo da
postura que se preconiza para a transformação, a partir da análise crítica dos
discursos dos profissionais que atuam no planejamento familiar.
No que se refere ao cenário do estudo, atualmente, as atividades de
planejamento familiar são comuns em maternidades públicas e particulares, onde
há o programa de pré-natal, em Postos de Saúde e em Centros Municipais de
Saúde. Convém destacar que nem todos os Centros Municipais de Saúde desenvolvem
efetivamente atividades no planejamento familiar. As unidades de saúde
selecionadas foram: Centros Municipais de Saúde (CMS) Marcolino Candau (Cidade
Nova) e Ernesto Zeferino Timbau (São Cristóvão) e no Hospital Universitário
Gaffrée e Guinle (Tijuca), onde há essa prática, constante no Programa de
Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM). A escolha destas Unidades de
Saúde (cenários deste estudo) justifica-se pela facilidade da coleta de dados,
uma vez que, em uma das unidades, uma das autoras deste estudo realizou a
coleta de dados de sua dissertação de mestrado; e as duas outras unidades são
campos de estágio, onde atuava.
Os atores sociais, totalizando nove depoentes, foram profissionais da área da
saúde que atuam na ação educativa em atividades de planejamento familiar, e sua
seleção obedeceu aos seguintes critérios. Critérios de inclusão: ser
profissional da área de saúde ou afim; trabalhar com a população na ação
educativa do planejamento familiar (efetivamente), pois, apenas quem atua com
os grupos pode incluir, integrar e educar homens e mulheres nos grupos de PPF.
Critério de exclusão: Profissionais que apenas assinam como responsáveis pelo
programa, atuando apenas na colocação do DIU, ou em qualquer outra atividade,
como distribuir os meios contraceptivos, sem atuar nas palestras de
planejamento familiar na ação educativa, pois não estará atuando com o grupo,
impedido, assim, de promover a integração do homem nas palestras de PPF.
As entrevistadas foram quatro enfermeiras (sendo duas docentes que atuavam com
os alunos nas instituições), um residente de enfermagem, um estagiário de
enfermagem, uma técnica de enfermagem e dois assistentes sociais, que atuavam
há mais de um ano no PPF. Utilizamos um código para identificação dos
depoentes: D e número arábico (para os depoentes); Letras A, B ou C (para as
instituições) e E (para enfermeira); AS (para assistente social); TE (para
técnica de enfermagem); RE (para residente de enfermagem) e EE (para estagiário
de enfermagem).
Os dados foram coletados por entrevistas gravadas e transcritas, utilizando-se
um roteiro semiestruturado, aplicado a partir de perguntas abertas, servindo de
eixo para a condução das mesmas. Posteriormente, os dados foram codificados,
classificados e indexados no computador. Para a indexação, criamos arquivos
conceituais, que foram separados por temáticas e unidades de análise. As
relações no âmbito dos dados foram identificadas pela ocorrência, coocorrência
e estabelecimento de relação entre as classes.
A análise preliminar e a classificação dos dados foram realizadas de forma
concomitante à coleta. A fase mais formal foi efetuada quando encerramos a
coleta de dados. Nessa fase, com a idéia mais clara das possíveis direções
teóricas do estudo, o material foi trabalhado. Para cada tema emergente,
utilizamos o referencial pertinente, com ênfase nos conceitos teóricos de Paulo
Freire, considerando a dimensão ética, social, política e econômica que
permeiam o fato estudado.
A análise do discurso, que se buscou aqui, teve a pretensão de captar um
sentido oculto no discurso, o qual, sem técnica apropriada, permanece
inatingível(14).
Desta forma, essa análise pressupõe o discurso: no quadro de instituições que
restringem fortemente a enunciação; onde se cristalizam conflitos históricos,
sociais, que determinam o espaço próprio no exterior de um interdiscurso
limitado. Como exemplo, o discurso limitado pela construção social de gênero,
dado o patriarcalismo que incutiu conceitos e preconceitos entre os gêneros; ou
pelo discurso controlista de uma política de saúde anterior aos nossos tempos;
ou ainda, por interferência de fenômenos como a globalização, trazendo
ideologias, das quais nem sempre se tem consciência.
A validação dos dados deu-se a partir da leitura da análise por três depoentes
e duas pessoas familiarizadas com o ato de pesquisa.
Os aspectos éticos da pesquisa obedeceram a Resolução 196/96 do Conselho
Nacional de Saúde (CNS). O projeto foi submetido ao Comitê de Ética do
Município do Rio de Janeiro, que aprovou, sem restrições, a realização da
pesquisa, conforme Memorando nº 25, de 15 de novembro de 2003. Todas as
depoentes forneceram a autorização escrita para utilização dos depoimentos no
estudo, mediante o termo de consentimento livre e esclarecido. Além da ciência
sobre o objeto, os objetivos, a justificativa do estudo e da tese a ser
defendida, cada depoente recebeu a garantia sobre seu anonimato.
Os resultados apontaram para duas grandes categorias e quatro subcategorias.
RESULTADOS ANALISADOS
Categoria 1 - O Programa de Planejamento Familiar (PPF)
Subcategoria 1a - Composição das equipes que atuam no PPF e formação
profissional ou capacitação
Buscamos caracterizar, no campo da prática, o Programa de Planejamento Familiar
(PPF) operacionalizado nos Centros Municipais de Saúde (CMS) e no Hospital
Universitário (HU), estudados.
O Programa de Planejamento Familiar é dever do Estado que, pelo Sistema Único
de Saúde, promoverá o treinamento de recursos humanos visando a saúde
reprodutiva(1). Qualquer profissional da área da saúde ou afim pode atuar na
atividade educativa do PPF: enfermeiro(a); médico(a); assistente social;
sociólogo(a); auxiliar de enfermagem, entre outros(2). Basta que o profissional
esteja motivado e sensibilizado com as questões que envolvem a saúde integral
da clientela.
Os dados nos mostram que a equipe multidisciplinar está capacitada pela
Secretaria Municipal de Saúde (SMS) para atuar nas atividades de Planejamento
Familiar, mas, efetivamente atuando com os grupos, encontramos basicamente
técnicas de enfermagem; enfermeiras; assistentes sociais e estagiários e
residentes de enfermagem.
Os médicos, psicólogos e nutricionistas recebem os clientes encaminhados para
atendimento individualizado, quando apresentam algum problema, ou como rotina,
como exemplo, a gestante para a nutricionista. Portanto, há uma
compartimentação na estrutura das equipes, nas instituições estudadas. Pois
eles não atuam em conjunto na ação educativa do PPF. Uma depoente defende o
conjunto de profissionais habilitados para a ação educativa referida.
Equivocadamente, como você fazer grupo para educação em saúde não
prescindisse de conhecimento de anatomia, fisiologia, de algumas
ciências sociais, porque você não trabalha com a sociedade com uma
formação de nível médio. Isso é um equívoco. Só se trabalha
razoavelmente tendo uma assistente social no grupo, que faz um
trabalho diferente do meu, mas que se complementa e teria uma
psicóloga no grupo. Quer dizer, é o conjunto desses profissionais que
faz com que o trabalho tenha qualidade. (D7 - B - E)
Se a depoente percebe que o conjunto dos profissionais dá qualidade ao serviço,
é importante ser destacada a assertiva de Freire (17), segundo a qual não
devemos nos julgar como habitantes de um mundo estranho, de técnicos e
especialistas salvadores dos demais, donos da verdade e do saber que devem ser
doados aos "ignorantes" e incapazes". Por outro lado, seguindo na medida em que
o compromisso não pode ser um ato passivo, implica em um conhecimento da
realidade. Se o compromisso só é válido se carregado de humanismo, este só é
conseqüente se fundado cientificamente. Daí a exigência de um constante
aperfeiçoamento, substituindo a visão ingênua por uma visão crítica da
realidade.
Categoria 2 - O compromisso dos profissionais com a integração do homem no
planejamento familiar
Subcategoria 2a - Fatores sociais, políticos, econômicos e ideológicos que
interferem no PPF
O estudo nos mostra que o PPF é uma realidade enquanto proposta, entretanto, na
visão dos profissionais de saúde, o poder público não oferece condições para
sua implementação.
Porque um programa não nasce assim, não é como uma criança que você
resolve adotar [...] Eles criam o programa, fazem nascer o bebê e
depois te entregam e dizem te vira, o bebê agora é seu [...] Não tem
planejamento [...] Não tem pessoal para avaliar que unidade pode, que
unidade não pode, por quê? [...] Esse posto de saúde tem oito
enfermeiras.... (D7 - B - E)
Esse discurso nos informa a visão da depoente com relação à necessidade de
avaliar a disponibilidade de pessoal para implantação do programa, uma vez que
uma das diretrizes do Ministério da Saúde (20)é garantir recursos humanos para
a efetividade do PPF.
O projeto de lei que regulamenta o planejamento familiar, aprovado pelo
Congresso Nacional e sancionado pelo Presidente da República, em 1996, obriga
"as instâncias gestoras do SUS, em todos os seus níveis, garantir à mulher, ao
homem ou ao casal, em toda a sua rede de serviços, a assistência à concepção e
contracepção como parte das demais ações que compõem a assistência integral à
saúde"(20).
O SUS é a política de uma gestão descentralizada, redefinindo papéis federais,
estaduais e municipais(21). São objetivos do SUS a identificação e divulgação
dos fatores condicionantes e determinantes da saúde; a formulação de política
de saúde destinada a promover, nos campos econômico e social, a observância do
dever do Estado em garantir a saúde da população; a assistência às pessoas por
intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, com a
realização integrada de ações assistenciais e atividades preventivas.
Assim, cabe às instâncias gestoras redistribuir ou contratar pessoal para
implementar os programas que são decretados por lei. Dentre eles, o PPF, que
encontra entraves para sua realização. A falta de contratação de pessoal é um
paradoxo com a demanda, bem como, com as ações e programas de saúde
implementados.
A gente parou de fazer planejamento, discussão de meta, a saúde
pública elaborada com avaliação ela foi morta nos últimos 10 anos.
[...] Fazemos pronto atendimento para registrar números, atender
pessoas, independente de resolver ou não os problemas dessas pessoas.
E você não trabalha o problema de saúde pública dessas pessoas, você
não tem previsão, planejamento, estratégia pactuada na instituição e
as coisas vão acontecendo desordenadamente, certo? (D7 - B - E)
A consciência de falta de compromisso dos governantes com a Política de Saúde
que garanta os direitos constitucionais dos cidadãos, trazendo a contradição
entre o que preconiza o PPF e o seu funcionamento nas unidades de saúde é
explicitada na fala. Quanto à organização dos serviços, uma das condições para
sua efetividade é garantir a avaliação das ações da assistência ao PF(20). E
tem como objetivos: avaliar a qualidade da assistência; identificar os
problemas de saúde da população-alvo e do desempenho do serviço; permitir a
mudança de estratégias com a finalidade de melhorar a assistência ao PF.
Nesse sentido, o próprio programa entra em contradição ao utilizar a
estatística da percentagem de mulheres atendidas e que retornaram ao local de
referência, não criando avaliação qualitativa. Além disso, não inclui, na
avaliação, o atendimento aos homens. Essa contradição contribui para a
dificuldade de inclusão e integração do homem no PPF, bem como para que se faça
uma avaliação da assistência prestada, pois, quanto à política de inclusão do
homem nas atividades do Programa de Planejamento Familiar, encontramos:
Mais das mulheres, os homens são muito raros [...] (D6 - B - AS)
[...] tem que ter uma política implementada nesse sentido, que
atualmente está muito tímida, e foi implementada em 91, quando a
gente começou o desenvolvimento com os profissionais da rede, mas que
começou muito tímida... (D9 - C - AS)
Nesses discursos, observamos que a política de trazer o homem para o centro das
discussões nos grupos de planejamento familiar, existe na proposta do P.P.F.,
mas, na efetividade, é falho. Constatamos a necessidade de uma ação coletiva
para a decisão, para a responsabilidade social e política de integração do
homem no P.P.F. por meio da deliberação coletiva onde se revejam valores, à luz
do consentimento e compreensão intelectual. Isso só será possível através de um
método ativo, dialogal, participativo e, conseqüentemente, ético.
Conforme a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento,
realizada em 1994, no seu parágrafo 4.27, a questão ética da responsabilidade
do homem na promoção e efetivo envolvimento com relação à paternidade
responsável, comportamento sexual e reprodutivo, principalmente nos casos de
gravidez não planejada e a de risco, são propostas para os governos mundiais,
especialmente para os países em que essas ocorrências são maiores, como no caso
do Brasil.
O Manual do Coordenador dos Grupos de Planejamento Familiar (1987, p. 5) traz
opções didáticas para trabalhar os grupos e refere que cada comunidade tem suas
especificidades, cabendo a adaptação das atividades educativas serem realizadas
pelos profissionais. E ainda, expõe que o material fornecido pelo M.S. visa
"motivar os profissionais a usarem a metodologia sugerida, adaptando,
modificando e criando novas técnicas que auxiliem na perseguição dos objetivos
do Planejamento Familiar" (2). Mas a realidade é que:
[...] há falta de material educativo, o material educativo nosso é
velho, da gente ficar lá com uma boneca de papelão [...] que a gente
fica recolando a boneca, remontando. Já tem sete anos que a gente tem
aquela boneca de papelão. Uma fita de vídeo doada por um laboratório,
o que não é o ideal. [...] no início do programa em que a gente
recebeu algum material, depois não teve renovação de mais nada. (D7 -
B - E)
Vale destacar que o conhecimento dos métodos e livre escolha é uma das ações da
política do PAISM, preconizada pelo MS, desde 1984: "conforme os princípios que
regem esta política, os serviços devem garantir o acesso aos meios para evitar
ou propiciar a gravidez, o acompanhamento clínico-ginecológico e ações
educativas para que as escolhas sejam conscientes"(20).
Trabalhar sem recursos, sem renovação de material audiovisual e ampliação de
recursos humanos é um altruísmo, mas também é uma atitude que contribui para a
falta de responsabilização política e acomodação dos dirigentes. O assumir
desse trabalho, sem contestação frente à falta de recursos, faz com que mais
programas sejam assumidos pelos "heróis da rede pública" sem recursos materiais
e humanos.
Eu não sou enfermeira só do planejamento familiar, eu tenho mil e
tantas mulheres no programa, mais não sei lá quantas gestantes, mais
a equipe que eu tenho que supervisionar, as escalas que eu tenho que
fazer, o material que eu tenho que prover e mais tudo que qualquer
outra enfermeira faz, entendeu? [...] Porque as coisas vão se
acumulando [...] a Secretaria mandou um programa de acolhimento [...]
maravilhoso, a mãe vem da maternidade com um encaminhamento, ela vai
ter BCG, teste do pezinho, aproveitando vai ter a primeira consulta
de Puericultura, retiradas de pontos, vai ter tudo [...] E aí, eu
pergunto: quem vai fazer? Qualquer coisa depende de gente. Eu acho
que a gente é malabarista, porque não sei como é que está sendo [...]
(D7 - B - E)
Quanto aos fatores ideológicos, em toda sociedade existem as ideias dominantes;
dessa forma, as relações, a produção e a organização social não esgotam os
fatores que influem na realização da moral. A tradição e os costumes impõem uma
regra moral, sem que as pessoas examinem a sua natureza e conseqüências. As
pessoas não estão privadas por completo de decidir sobre si mesmas, mas sofrem
a influência da família, de organizações sociais, da escola e da igreja.
As diferenças ideológicas entre o feminismo, a igreja conservadora e o Estado
estão expressas no alerta que as feministas fazem de que o governo federal deve
tomar cuidado para não transformar a conscientização sobre PF em algo
impositivo e compulsório.
Os representantes mais ortodoxos das igrejas, por sua vez, são contra a
liberdade reprodutiva, continuam ideologicamente natalistas. Assim, são contra
todos os métodos contraceptivos não naturais. Consideramos que a igreja não tem
o direito de impor uma regra natalista a todas as mulheres e homens do mundo, o
que é reforçado por integrantes da Igreja Católica, mais coerentes com a
realidade socioeconômica na qual vivemos(21). Dizem eles que "os métodos
radicais são 'um mal menor' ou quem sabe 'um bem maior'".
A opção pela reprodução deve ser uma atitude responsável e consciente e, ainda,
partilhada pelo casal. A realidade socioeconômica sugere famílias de pequeno
porte, mais adequadas ao orçamento familiar e as atividades da mulher e do
homem no mercado de trabalho.
Para nós, a prática do PF é benéfica para a família e para a sociedade. Cabe ao
Estado oferecer os meios e as informações para ambos, homens e mulheres,
assumi-lo de forma responsável na construção de uma família.
Subcategoria 2b - A construção de gênero e a integração do homem no PPF
O aprofundamento sobre as questões de gênero, as quais serviram como pano de
fundo para esse estudo, merecem maior reflexão, uma vez que interferem na
conduta do profissional na integração do homem nas atividades do planejamento
familiar.
Demonstramos, até aqui, que compreendemos gênero como papéis, atributos e
atitudes que definem o feminino e o masculino em nossa sociedade. Embora não
esteja em lei escrita, essas regras são apreendidas e, por serem construídas
pelos homens, podem ser remodeladas com a evolução social. O fato é que essas
relações de gênero são desiguais e refletem-se nas leis, condutas profissionais
e nas relações entre os seres humanos.
São vários os fatores contribuintes para que o homem não se integre, ou deixe
de ser integrado, nos grupos de Planejamento Familiar, mas todos esses fatores
passam pelo viés da construção social de gênero.
No que se refere a gênero, o termo é definido em duas partes e diversas
subpartes, ligadas entre si, mas que deveriam ser distinguidas na análise(22).
O núcleo essencial da definição repousa sobre a relação fundamental entre duas
proposições: "o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas
sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro modo de
dar significado às relações de poder"(22).
A organização dos grupos, para atividades educativas, encontra dificuldade
quanto à construção social de gênero que está cristalizada na memória dos
profissionais e população, algumas vezes se opondo à participação do homem nos
grupos, ou colocando a mulher em lugar de submissão.
A gente fala assim para elas: 'vocês vão ler para eles a cartilha
para decidir pelo melhor método. Mas o corpo é de vocês, então a
decisão que tem que pegar mais é a de vocês'. Tem até muitos homens
que não querem que a mulher use o DIU porque acham que vai arranhar.
Mas a gente diz: 'afinal a decisão final tem que ser sua' [...] (D6,
AS, B)
Embora o conceito de gênero seja conhecido pelos profissionais, sua
assimilação, neste discurso apresentado, é falha. O discurso veicula, nem
sempre de forma consciente, as marcas da nossa cultura, nossos pensamentos e
ideologia. Quanto às questões que envolvem gênero: ao afirmar que, para o homem
interessa assuntos específicos do PPF, como o uso do método de barreira, o
profissional o "exclui" da integração com o grupo, já que, para ele, não é
importante outros assuntos ali abordados. Separar assuntos de homem de assuntos
de mulher, no PPF, é uma atitude que cristaliza preconceitos.
Neste depoimento, ao tentar informar que a mulher "evoluiu" na sociedade,
reafirma o discurso da dominação masculina:
A mulher evoluiu na sociedade. A gente mostra pra elas que têm
mulheres motoristas de ônibus ... (D6, B, AS)
Quando, para expressar essa "evolução", exemplifica o assumir de uma função
antes considerada apenas masculina, ou seja, a valorização das funções
masculinas, representada no termo "evoluiu", embora queira valorizar uma
conquista da mulher na sociedade, desvaloriza as atividades ditas femininas.
A igualdade de gênero não está em se assumir funções masculinas,
"ideologicamente tidas por superiores", ou ainda, no plano físico, melhor
remuneradas; a igualdade está na valorização do que é feminino tanto do que é
masculino(23). Assim é que os discursos terminam por reforçar as diferenças
entre os gêneros, no lugar de transformar conceitos e ideologias cristalizam
tais conceitos.
Os profissionais, ao terem ciência de que a responsabilidade na esfera da saúde
reprodutiva é tanto das mulheres quanto dos homens, estarão promovendo a
equidade de gênero e estimulando uma nova forma de participação dessa população
na transformação social, pois tanto mulheres quanto homens são seres
inacabados. O inacabamento de que nos tornamos conscientes nos fez seres éticos
(13). O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é imperativo ético e não
um favor que podemos ou não conceder uns aos outros. Assim, consideramos ética
a conduta de integração do homem nas palestras do PPF, bem como o discurso que
favoreça a igualdade de oportunidades entre os gêneros.
Subcategoria 2c - O compromisso ético dos profissionais com o Planejamento
Familiar
O Programa de Planejamento Familiar requer profissionais comprometidos com sua
filosofia, como a de incluir e integrar os homens nos grupos de PF e de atuar
com o conhecimento e vivência dos clientes, deixando de agir como detentores de
todo o saber(2).
Paulo Freire afirma que "a primeira condição para que um ser possa assumir um
ato comprometido está em ser capaz de agir e refletir". Refere também que,
somente um ser que é capaz de sair de seu contexto, de percebê-lo de fora, ou
seja, "diferenciar-se dele para ficar com ele; capaz de admirá-lo para,
objetivando-o, transformá-lo e, transformando-o, saber-se transformado pela
própria criação; um ser que é e está sendo no tempo que é o seu, um ser
histórico, é capaz, por tudo isso, de comprometer-se"(19).
Os dados nos mostram que os profissionais envolvidos com o PF afirmam que há
falta desse espaço de reflexão para a transformação nas palestras de
planejamento familiar, ou mesmo para avaliação de sua concretude.
Nós não somos chamados nunca para fazer uma discussão sobre esse
programa. Não tem nenhum encontro, não tem nada. É aquela coisa
assim, vai tocando aí do jeito que vocês quiserem. Parece aquela
expressão que eu uso muito assim, "pra quem é bacalhau basta" [...] é
para o povo, então pode ser qualquer coisa. (D7 - B - E)
Numa primeira leitura deste depoimento podemos inferir que a profissional
encontra-se, "impedida de comprometer-se" (19), no sentido de que, o espaço
para rediscutir a implementação, ou seja, o espaço para "ação-reflexão"(19),
que faz do profissional um ser comprometido, não existe e, em não existindo,
frustra esse profissional.
Entretanto, aprofundando esta análise, percebemos no discurso da entrevistada
uma reflexão sobre a realidade do Programa, as limitações impostas pelo poder
público. Ocorre um obstáculo à criação do "espaço oficial". Entretanto, os
profissionais criam espaço para avaliação, inclusive com a comunidade, o que
nos leva a crer que os profissionais estão comprometidos com a mudança, com a
conduta humanizante.
No tocante à disponibilidade para atender os clientes, evidenciamos o dilema
das depoentes que, com seriedade ética, com senso de justiça e de
solidariedade, vivenciam plenamente seus limites e suas possibilidades ao
assumir o compromisso com o cliente. Para alguns depoentes, a disponibilidade
do profissional é que caracteriza o seu compromisso com os clientes.
Isso é compromisso para mim, a pessoa chegar aqui e poder contar com
o profissional. (D7 - B - E)
Por outro lado, alguns profissionais encontram-se movidos pelo individualismo,
nem sempre se colocando disponível. Esta conduta os torna "falsamente
comprometidos" (19).
[...] Até porque as pessoas não se permitem flexibilizar seus
horários. E, geralmente, o horário que eu escolhi não foi o horário
que a instituição me pediu. Mas eu não abro mão desse horário, é
complicado, não é? [...] (D7 - B - E)
O uso da liberdade, a disciplina da vontade, a recusa, a tentação de aceitar
passivamente o que é imposto nos forjam como sujeitos éticos, não autoritários,
submissos ou permissivos. Assim, estaremos mais preparados para o enfrentamento
das situações complexas e difíceis que a vida pessoal e profissional nos impõe.
O compromisso com a prontidão para o atendimento da clientela é um dever
profissional. Outro dever é o de trazer à consciência da população o direito
aos serviços públicos, como os oferecidos pelas instituições estudadas.
Compromisso é, também, buscar o cliente naquela comunidade, seja ela qual for.
E quando eu estou lá com essas mulheres, eu as estimulo a
participarem do planejamento familiar. Que no Centro de Saúde tem
[...]que elas pertencem àquela unidade de saúde, que elas devem e têm
direito de ir até lá, eu estimulo tudo isso. Então eu estou sendo uma
célula que está angariando cliente para o planejamento. (D8 - B - E)
Outra depoente informa o seguinte:
E o próprio planejamento familiar é muito restrito, porque ele
acontece dentro de uma unidade de saúde e nem sempre é acessível às
pessoas[...] (D9 - C - AS)
O compromisso com a ação libertadora é demonstrado na prática da depoente. A
depoente defende uma prática que vislumbre a possibilidade de mudar, atuando
mais com a família, envolvendo a todos, mulheres, parceiros, adolescentes e até
idosos, que necessitam de informações sobre DST, bem como de preservativos para
evitá-las. E, ainda, que a atividade educativa do planejamento familiar não é
acessível, pois acontece dentro do CMS, não se expandindo para as escolas,
trabalho e espaços de lazer.
A pedagogia como prática de liberdade não pode fazer concessão às armadilhas do
pragmatismo neoliberal que reduz a prática educativa ao treinamento técnico-
científico dos educandos(11).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Promovendo a consciência dos cidadãos sobre sua condição humana, social,
política e econômica é que atingiremos a mudança da desvalorização para a
valorização da ação educativa e da própria educação.
O poder da economia globalizada, que fragiliza a sociedade, é reconhecido. E só
em nome da ética é possível explicar a luta política da ética universal do ser
humano, em nome da necessária transformação da sociedade na busca da superação
das injustiças desumanizantes.
Creditamos às lutas sociais, que convulsionaram a sociedade, a possibilidade
que hoje temos de ação-reflexão, de contestação da opressão e da esperança de
produzir uma nova visão de mundo. Procuramos a herança histórica e os fatos que
deram origem à exclusão do homem do PPF e a responsabilização da mulher.
Discutimos o compromisso dos profissionais envolvidos com o Programa, na
inclusão do homem, a opressão, as contradições e as lutas diárias para a sua
implementação.
Esses poucos "heróis" do serviço público dão testemunho de sua indignação com
as condições de trabalho, dando, em resposta, a tenacidade no fazer. Por vezes,
melhor seria a contestação, como um dado de libertação e como forma de
transformação social, dando uma nova dimensão ética ao compromisso dos
profissionais de saúde com a integração do homem no Planejamento Familiar.
A política de trazer o homem para o centro das discussões nos grupos de PPF
existe na proposta do programa, mas, na prática, é falha. Atualmente, o
programa do planejamento familiar encontra-se implementado como ação educativa
e clínica nas instituições estudadas, sendo a ação educativa realizada por
enfermeiras e assistentes sociais. O compromisso com uma ação libertadora é
demonstrado por aqueles que vislumbram a possibilidade de mudar, atuando mais
com a família, envolvendo parceiros, mulheres, adolescentes e até idosos, que
atuam como multiplicadores das informações. Alguns profissionais de saúde,
envolvidos com a ação educativa, não reconhecem a diferença entre inclusão e
integração, na medida em que trabalham para o grupo, mais do que com o grupo.
As enfermeiras e assistentes sociais atuam na ação educativa, convivem com
limites e possibilidades e, quanto mais vivenciam essa tensão dialética, mais
estarão preparadas para superar essas situações de difícil solução, em favor da
justiça e da ética. A integração desse homem é uma questão que exige o
compromisso de todos: Estado, família, escola, grupos e sociedade para um mundo
melhor e sustentável.