Estudos brasileiros sobre nefrologia nas teses e dissertações de enfermagem
INTRODUÇÃO
A insuficiência renal crônica (IRC) é uma doença de alta morbimortalidade, sua
incidência e prevalência continuam aumentando progressivamente no Brasil e em
todo o mundo. Aproximadamente 20 a 30 pacientes apresentam algum grau de
disfunção renal para cada paciente que necessita de tratamento dialítico(1).
No Brasil, no ano de 2000, havia 42.695 pacientes que realizavam tratamento
dialítico, cujo número, em 2009, quase duplicou para 77.589 pacientes. Contudo,
há aproximadamente um milhão de pessoas com doença renal, mas 70% destes são
sub-diagnosticados. Estima-se que para cada paciente em diálise existem de 15 a
30 pacientes que possuem alguma doença renal crônica(2).
A enfermagem tem estruturado princípios, normas, significados e formulado um
corpo de conhecimentos próprio, que proporcione base sólida ao desenvolvimento
da prática(3). Para tanto, os profissionais enfermeiros vem realizando
pesquisas que buscam proporcionar uma melhoria do cuidado, resultando em uma
melhor qualidade de vida para o paciente.
O contexto descrito levou-nos ao objetivo geral: avaliar a produção científica
na enfermagem brasileira sobre a temática nefrologia nas teses e dissertações
publicadas no período de 2001 a 2007. E como específicos: averiguar os aspectos
teórico-metodológicos utilizados no desenvolvimento das dissertações e teses da
enfermagem brasileira; e identificar quais as temáticas da nefrologia que o
enfermeiro pesquisou nas dissertações e teses publicadas no período de 2001 a
2007.
MÉTODO
Tratou-se de um estudo bibliométrico que visou conhecer a produção científica
contida nas teses e dissertações de enfermagem produzidas no Brasil, em
programas de pós-graduação strictu sensu sobre a temática nefrologia no período
de 2001 a 2007, traçando assim um perfil destas publicações no período
considerado.
Os materiais utilizados para o desenvolvimento da pesquisa estavam disponíveis
no site da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), (http://
www.abennacional.org.br), na área do Centro de Estudos e Pesquisas em
Enfermagem (CEPEn), no catálogo de teses e dissertações de enfermagem,
desenvolvidas em todos os programas de pós-graduação em enfermagem do Brasil,
reconhecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES), no período de 2001 a 2007. Esse período foi selecionado tendo em vista
que o site disponibilizava os documentos referentes a esses anos no período da
coleta de dados.
A coleta de dados ocorreu entre os meses de setembro a dezembro de 2008. Para a
seleção das teses e dissertações acerca da nefrologia, buscou-se pelos
Descritores em Ciências da Saúde (DECS), cadastrados na Biblioteca Virtual em
Saúde, os quais foram: insuficiência renal aguda, insuficiência renal crônica,
diálise renal, diálise peritoneal, transplante de rim e nefropatias. E para
complementar a busca utilizou-se a palavra-chave: hemodiálise.
Para avaliar os aspectos metodológicos utilizados nos estudos desenvolvidos
sobre nefrologia, utilizou-se a classificação das pesquisas com base nos
objetivos, nos delineamentos e na natureza do estudo(4-6).
RESULTADOS
Na busca pelos estudos desenvolvidos nos mestrados e doutorados brasileiros na
pós-graduação em enfermagem, detectou-se 50 trabalhos acerca da nefrologia, no
período de 2001 a 2007. Dentre os quais, 45 (90%) são dissertações
desenvolvidas no mestrado e apenas 5 (10%) são teses referentes à conclusão do
doutorado.
Os catálogos do CEPEn pesquisados são referentes ao período de 2001 a 2007,
entretanto há trabalhos concluídos em 2000 que só foram publicados no ano
seguinte. Portanto, considerou-se neste estudo o ano de conclusão do mestrado
ou doutorado (Figura_1).

Contatou-se que o ano de 2001 houve um predomínio de produção científica acerca
da nefrologia, totalizando 10 (20%) trabalhos. Seguido de 2005 e 2007 que
igualmente produziram sete (14%) trabalhos; e em 2000, 2003 e 2004, houve a
produção de seis (12%) trabalhos por ano. Por último encontra-se 2002 e 2006
com apenas quatro (8%) produções.
Ao analisarmos a origem da produção avaliada, percebe-se nitidamente a
predominância de estudos desenvolvidos na Região Sudeste. Dentre os estudos
realizados, 41 (82%) foram desenvol-vidos nesta região, contrastando com apenas
quatro (8%) desenvolvidos na Região Nordeste.
Entre os estudos desenvolvidos na Região Sudeste, 14 foram na Universidade de
São Paulo (USP), nove na USP de Ribeirão Preto, cinco na Universidade Federal
de São Paulo (UNIFESP), quatro na Universidade do Rio de Janeiro (URJ), dois na
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quatro na Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG) e dois na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Na Região Nordeste, apenas a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a
Universidade Federal da Bahia (UFBA) publicaram os estudos desenvolvidos no
período considerado, sendo três na UFC e um na UFBA.
Dentre as outras instituições de ensino superior citadas estão: Fundação
Oswaldo Cruz (1), Universidade Federal do Paraná (1), Universidade de Brasília
(2), Universidade Federal de Santa Catarina (2). A região sul destaca-se pelo
reduzido número de publicações, apenas 3 no período considerado.
Entre os trabalhos publicados no período considerado 11 autores não
especificaram no resumo o local em que foi realizada a coleta de dados. Entre
os que citaram, a maioria das coletas ocorreu em unidades de saúde, sendo 37 no
total, predominando as clínicas de diálise (18), seguida pelos hospitais (14) e
ambulatórios (2), estudos experimentais em laboratórios (3). Apenas duas
pesquisas foram desenvolvidas em domicílios de pacientes.
Em relação aos sujeitos envolvidos na pesquisa, 39 abordaram os pacientes,
representando o maior percentual (78%), os profissionais foram investigados em
apenas quatro trabalhos, igualmente aos familiares e três experimentais com
animais cobaias de laboratório.
Entre os 39 pacientes estudados, 15 eram adultos, oito idosos, dois
adolescentes, uma criança e 13 foram desenvolvidos com o paciente, mas não foi
especificada a faixa etária. Dos quatro estudos desenvolvidos com
profissionais, três trabalharam somente com o enfermeiro e um estudo com
enfermeiros e médicos. Os estudos experimentais realizaram as seguintes
investigações: a ação da isoflavona e o sistema heme-oxigenase na insuficiência
renal aguda isquêmica em ratos, o papel da heme-oxigenase na proteção pelas
estatinas na insuficiência renal aguda isquêmica em ratos e Lesão renal aguda
por glicerol: efeito antioxidante da Vitis vinifera L.
Quanto aos tipos de estudos, 26 (52%) foram exploratórios, 22 (44%) descritivos
e dois (4%) explicativos. Quanto ao delineamento houve: 28 (56%) estudos de
levantamento, nove (18%) experimentais, cinco (10%) documentais, cinco (10%)
pesquisa-ação e três (6%) estudos de caso. E em relação à natureza do estudo,
27 (54%) foram quantitativos e 23 (46%) qualitativos.
Com relação ao referencial teórico, 42 (84%) estudos apresentavam claramente
seu referencial teórico, dentre eles destacam-se: 22 (44%) trabalhos
positivistas; 12 (24%) foram classificados como outros e divididos da seguinte
forma: Meihy (2), Sócio humanística (1), História oral de vida proposta por
Bury (1), Jean Watson(1), Mayeroff (1), Minayo (1), Imogene King (1),
Materialismo histórico e dialético (1), Enfermagem familiar na promoção da
saúde (1), Modelo teórico, Trajetória da Doença Crônica, que se fundamenta em
três processos: ruptura biográfica, impacto do tratamento, adaptação e manejo
da doença (1), Roy (1). Os demais estudos foram: cinco fenomenológicos e três
etnográficos. Após a análise de todos os resumos percebemos que oito trabalhos
não basearam suas pesquisas em nenhum referencial teórico.
Após analisar os resumos publicados percebe-se que o tema mais abordado foi a
hemodiálise, aparecendo em 21 (42%) entre teses ou dissertações estudadas,
seguido pela insuficiência renal crônica que foi discutida em 13 (26%) dos
trabalhos publicados; e o cuidado ao paciente renal apareceu em 11 (22%)
publicações do período considerado.
De acordo com o Quadro_1 observa-se que 6 (12%) trabalhos foram classificados
como outros, os temas abordados foram os seguintes: fatores de risco para IRA
após revascularização do miocárdio, sobrevida do paciente renal em diálise e
gastos, diagnósticos de enfermagem, nefropatia diabética, humanização e
tratamento conservador. Cada tema foi abordado em apenas um (2%) estudo
publicado.
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DISCUSSÃO
A enfermagem, ao longo das últimas décadas, tem se empenhado na construção de
um corpo de conhecimento marcado por conceitos amplos, focalizando a
sistematização da assistência(7-8). Isso tem sido intensificado nos programas
de pós-graduação em enfermagem, nível mestrado e doutorado.
Em relação à construção do conhecimento sobre nefrologia, foram detectados 50
trabalhos desenvolvidos na pós-graduação brasileira de enfermagem, com
predomínio de 45 dissertações, podendo ser decorrente do maior quantitativo de
mestrados no Brasil. Conforme exposto CAPES há 35 Programas de pós-graduação no
Brasil, com 49 cursos distribuídos da seguinte forma: 32 mestrados acadêmicos,
dois mestrados profissionalizantes e 15 doutorados(9).
Diante da análise do período de publicação, observa-se que os trabalhos
produzidos nos anos de 2000 e 2001 somam 16 (32%), enquanto nos anos 2006 e
2007 juntos realizaram apenas 11 (22%) trabalhos. Preocupa-se com essa redução,
pois, sabe-se que há uma necessidade cada vez maior de se pesquisar sobre a
temática, devido as suas peculiaridades, pois essa clientela requer uma
assistência cada vez mais sistematizada, individualizada e humanizada. Além
disso, vem ocorrendo um aumento substancial de pessoas em tratamento dialítico,
passando de 42.695 pacientes em 2000 para 77.589 em 2009(2).
O predomínio da Região Sudeste pode ser decorrente da maioria dos cursos de
pós-graduação estar localizada nessa região do país, podendo influenciar
diretamente nesses resultados. Nos últimos anos, uma política de incentivo à
pesquisa tem se estabelecido nas outras regiões do Brasil, na tentativa de
disseminar a pós-graduação em enfermagem nas cinco regiões brasileiras.
O processo da construção do conhecimento reflete as transfor-mações do
movimento histórico por que passa a enfermagem. Estas transformações parecem
evidenciar o movimento dinâmico entre ressonâncias e dissonâncias, na
construção do conhecimento, com vistas a um avanço criador nas práticas sócio/
política (ensino, pesquisa e assistência) de enfermagem(10).
Nesse processo de construção do conhecimento os enfermeiros vem buscando
utilizar diferentes tidos de estudo. Contudo, predominaram os estudos
exploratórios e descritivos, enquanto os estudos explicativos foram pouco
desenvolvidos. O delineamento predominante foi o levantamento (56%), o qual se
caracteriza pela interrogação direta das pessoas cujo comportamento se deseja
conhecer, além de ter como vantagens: conhecimento direto da realidade;
economia e rapidez; e quantificação(11). Contudo, apenas 18% foram
experimentais, sendo considerado um número reduzido, talvez pela dificuldade de
acesso dos pesquisadores enfermeiros aos laboratórios de ciências básicas e ao
baixo investimento nessas pesquisas pelos programas de Pós-Graduação em
Enfermagem.
Quanto à natureza dos estudos, percebe-se que na enfermagem há um predomínio de
estudos quantitativos (54%), os quais derivam de amostras relativamente grandes
ou representativas que trazem muitos elementos positivos, pois devem ter poder
de generalização, precisão, controle de variáveis estranhas, fidedignidade e
mensuração(11). Contudo, também há uma quantidade significativa de estudos
qualitativos (46%), as quais são essências para melhoria da prática
assistencial da enfermagem, visto que direcionam a uma experiência social,
valem-se da fonte oral e se encaminham na busca dos significados de vivências
para os sujeitos(12).
Constata-se que essa aproximação da enfermagem com as ciências humanas é
justificada pelo seu direcionamento ao cuidar de seres humanos, dos quais
necessita conhecer as nuanças e subjetividades a fim de traçar linhas de ação
para o cuidar.
Em relação ao tema relacionado à área de nefrologia, destaca-se a hemodiálise,
tendo em vista que é a terapia mais conhecida e aplicada a clientela com
insuficiência renal. Já a diálise peritoneal, tratamento domiciliar realizado
pelo próprio paciente ou cuidador devidamente treinados, foi abordada em poucos
trabalhos. Esses achados devem ser decorrentes do elevado número de enfermeiros
que trabalha em hemodiálise em relação ao quantitativo de enfermeiros que atuam
em diálise peritoneal, bem como a clientela submetida a tais tratamentos.
CONCLUSÃO
Após avaliar os 50 estudos desenvolvidos acerca da nefrologia na pós-graduação
strictu sensu brasileira no período de 2001 a 2007, constatou-se que os
aspectos teórico-metodológicos predominantes nos foram: dissertações (90%),
realizados no estado de São Paulo (60%); em clínicas de diálise (36%); cujos
sujeitos do estudo foram os pacientes (78%). Quanto aos tipos de estudos
predominaram: exploratório (52%), levantamento (56%) e quantitativo (54%).
E as temáticas foram bastante diversificadas, contemplando a insuficiência
renal aguda e crônica, as formas de tratamento substitutivo, assistência de
enfermagem, qualidade de vida, promoção da saúde, dentre outros.
Isso remete as peculiaridades do paciente com insuficiência renal, cabendo aos
profissionais da saúde aprofundar e construir os conhecimentos acerca dessa
clientela, mediante novas pesquisas científicas acerca dos temas já abordados,
bem como de temas que merecem maior fundamentação científica para transformação
e melhoria da prática assistencial.
Então, percebe-se a importância de pesquisas científicas voltadas para essa
temática, possibilitando uma assistência multi e interdisciplinar, de forma
holística, individualizada, sistematizada e humanizada a essa clientela,
enfatizando a cientificidade e segurança do cuidado prestado.