Leucocitúria em pacientes submetidas a quimioterapia e coleta de urina
INTRODUÇÃO
Desde o surgimento da humanidade o adoecer e o morrer são, sem dúvida, as
maiores fobias existenciais. A efemeridade da vida gerou e sempre gerará
angustia e medo ao ser humano. Dentre as patologias existentes, o câncer
representa uma daquelas que vêm causando maior preocupação na população mundial
(1).
O termo câncer, com origem no latim (caranguejo) é designado a um conjunto de
mais de 100 doenças, caracterizadas pelo processo desordenado de multiplicação
celular e capacidade de invasão para outras regiões e tecidos. Sua
fisiopatologia é iniciada quando uma determinada população celular sofre
transformações em seu DNA, originando assim descendentes insensíveis aos
mecanismos reguladores do crescimento e divisão celular normal. Devido a isso,
o câncer não se apresenta como uma doença homogênea e sim, com uma enorme
quantidade de variações, capaz de acometer indivíduos de qualquer idade,
expostos a diferentes fatores de risco e com distintas respostas aos inúmeros
tratamentos, sendo, portanto, difícil englobar em um único termo o universo dos
acontecimentos relativos a essa patologia(1-2).
O câncer representa um importante problema de saúde pública tanto em países
desenvolvidos como para os em desenvolvimento. É responsável por mais de 6
milhões de óbitos a cada ano, ou seja, cerca de 12% de todas as causas de morte
no mundo. Estimativas afirmam que para 2008, no Brasil, surgiram um total de
466.730 casos novos da doença, sendo que, aproximadamente 16,92% acometeram a
região Sudeste e 50,33% a população feminina brasileira(3-4).
Existem basicamente quatro abordagens para o tratamento do câncer, sendo elas:
a cirúrgica e a radioterápica, como tratamentos locais; a quimioterápica e a
terapia com agentes biológicos (como hormônios, anticorpos ou fatores de
crescimento) como tratamentos sistêmicos(5). Com os avanços tecnológicos da
ciência médica atual, a incorporação de hardware (ou tecnologia dura, onde são
incluídos os artefatos de uso terapêutico como os equipamentos, produtos
químico-farmacêuticos, procedimentos médicos cirúrgicos e dispositivos de uso
terapêutico) e software (ou tecnologia leve, constituída por instrumentos
sociais, que utilizam tecnologias de relações como produção de vínculo,
acolhimento e cuidado) têm sido demonstrada como um forte incremento na
detecção precoce do câncer, monitorização da evolução dos tumores de forma mais
apurada, permitindo assim, o melhor direcionamento do tratamento da doença(2).
Os primeiros registros do uso de quimioterápicos com atividade antitumoral são
relatados em meados de 1950 e hoje, a quimioterapia constitui a modalidade
primária de tratamento de muitos tumores, mesmo que avançados. A utilização de
agentes químicos, isolados ou em combinação, com o objetivo de tratar tumores
malignos, tem-se tornado uma das mais importantes e promissoras maneiras de se
combater o câncer(6). O mecanismo de ação dessas drogas se constitui
basicamente em interferir no processo de crescimento e divisão celular,
destruindo dessa forma, células tumorais(5).
Os efeitos colaterais ou as toxicidades decorrentes da quimioterapia
relacionam-se à não-especificidade, ou seja, essas drogas não afetam
exclusivamente as células tumorais, mas também, aquelas normais que possuem
características semelhantes. Tais efeitos remetem à toxicidade hematológica,
toxicidade gastrintestinal, cardiotoxicidade, hepatotoxicidade, toxicidade
pulmonar, neurotoxicidade, disfunção reprodutiva, toxicidade vesical e renal,
alterações metabólicas, toxicidade dermatológica, reações alérgicas,
anafilaxias e fadiga(6).
A toxicidade hematológica, mielodepressão ou mielotoxicidade constitui-se não
só no efeito colateral mais comum e importante, mas também no de maior
letalidade. É caracterizada basicamente pela leucopenia (diminuição do número
de linfócitos, granulócitos e neutrófilos), trombocitopenia (diminuição do
número de plaquetas) e anemia (diminuição da concentração de glóbulos vermelhos
ou eritrócitos circulantes). A leucopenia é a mais séria forma de
mielodepressão, acarretando uma supressão da imunidade celular e humoral, com
aumento significativo da suscetibilidade aos quadros infecciosos graves(7).
A infecção do trato urinário (ITU) é uma patologia extremamente freqüente, que
ocorre em todas as idades. Na vida adulta, sua incidência se eleva e o
predomínio no sexo feminino é ainda maior, com picos de acometimento no início
ou relacionados à atividade sexual, durante a gestação ou menopausa. Cerca de
48% das mulheres apresentam pelo menos um episódio de ITU ao longo da vida. O
espectro clínico da ITU é muito amplo, reunindo diferentes condições, dentre
elas, a cistite, onde a aderência de bactéria à bexiga leva ao quadro de
cistite bacteriana, ou infecção do trato urinário baixo. No indivíduo adulto,
os sintomas clínicos característicos de cistite são disúria, polaciúria,
urgência miccional, dor em baixo ventre, arrepios de calafrios, com presença ou
não de dor lombar, como também mal-estar geral e indisposição. De acordo com o
diagnóstico laboratorial do sedimento urinário (exame microscópico feito após a
sedimentação da urina), são considerados apenas ITU, contagens superiores a
10.000 leucócitos/ml ou 10 leucócitos/campo, independentemente da morfologia
desses leucócitos(8).
A presença de leucocitúria é caracterizada pelo número aumentado de leucócitos
na urina, mesmo com grandes variações nos valores de referência. Cinco
leucócitos/campo ou 5.000 leucócitos/ml em amostras de jato médio de urina,
representam o limite superior da normalidade. Na maioria das vezes, esses
valores referem-se ao aumento da quantidade de neutrófilos e indica inflamação
no trato urogenital, porém, a presença de leucocitúria não é diagnóstico de
ITU, devido à inúmeros casos de leucocitúrias estéreis de origem não infecciosa
(nefrite intersticial, litíase, presença de corpo estranho, rejeição de
transplante, terapia com ciclofosfamida, trauma gênito-urinário,
glomerulonefrite aguda e crônica, neoplasias, contaminação vaginal etc)(8-9).
Este aumento do número de leucócitos pode ser observado de forma transitória,
em praticamente todas as doenças renais e do trato urogenital, acompanhada de
reação inflamatória, nos estados febris e após exercício físico extenuante,
porém, sua causa mais frequente se dá durante a infecção aguda do trato
urinário, associado a diferentes agentes biológicos, entre eles fungos e, mais
comu-mente, bactérias. Outro aspecto a ser considerado na interpretação da
leucocitúria é a possibilidade de contaminação da urina durante sua coleta para
o exame laboratorial. A urina pode ser contaminada por secreções do trato
genital masculino e feminino devido às infecções genitais. O exame de urina de
rotina, entretanto não é utilizado para diagnóstico de uretrites e vaginites
(9).
A coleta da amostra é de importância fundamental, pois apenas amostras obtidas
de forma adequada fornecem resultados confiáveis. Na pesquisa de leucocitúria
associada a doença de bexiga, ureteres e rins, a amostra mais freqüentemente
utilizada é o jato médio urinário, obtida da primeira micção da manhã ou após
retenção urinária de duas a quatro horas. A maneira adequada para a obtenção de
amostras confiáveis destinadas ao exame consiste na utilização de frascos de
plástico que contenham boca larga, tampa com rosca, opaco e com capacidade de
35 a 50 ml. Deve-se fazer higiene adequada da genitália externa, com água e
sabão neutro sem corantes, por pelo menos três vezes. Em seguida, deve-se secar
a região com toalha limpa. Em mulheres, a região deve ser enxaguada com grande
quantidade de água e sempre de frente para trás. Mantendo os joelhos afastados
um do outro, começar a urinar no vaso sanitário e, sem interromper a micção,
com os grandes lábios afastados, obter o jato médio. A amostra de urina deve
ser enviada imediatamente para o laboratório, devendo ser processada em até 2
horas após a coleta. Caso isso não seja possível, a urina pode ser mantida a
4ºC por até 8 horas e nunca deverá ser congelada, pois nesse caso ocorre a
destruição dos componentes celulares presentes(9).
Diante desses argumentos, decorre a relevância do presente estudo que busca
identificar a freqüência de leucocitúria em pacientes portadoras de câncer
ginecológico submetidas a tratamento quimioterápico, avaliar se essas pacientes
conhecem a prática adequada da coleta de urina para exame de rotina do
tratamento de quimioterapia e verificar se executam de maneira adequada a
coleta de urina para exame.
OBJETIVO
Verificar a freqüência de leucocitúria entre pacientes portadoras de câncer
ginecológico submetidas a tratamento quimioterápico.
Avaliar junto a essas pacientes as práticas executadas na coleta de urina para
exame.
MÉTODO
O presente estudo descritivo e transversal baseou-se em estatística descritiva
para apresentar o resultado do inquérito realizado.
Foram abordadas todas as pacientes portadoras de câncer ginecológico que
aceitaram participar do estudo, durante as seções de quimioterapia (QT) na
enfermaria da Ginecologia e Obstetrícia no Hospital de Clínicas da Universidade
Federal do Triângulo Mineiro, mediante a leitura do termo de esclarecimento e
assinatura do termo de consentimento, no período de maio a outubro de 2008.
Para desenvolvimento do presente estudo foi solicitado e obtido parecer e
aprovação do Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da Instituição
(protocolo 1120/2008).
Para o alcance dos objetivos foram seguidos os seguintes passos metodológicos:
- identificar as pacientes do grupo descrito, através da utilização da agenda
de atendimento do serviço;
- verificar o resultado do exame de urina, realizado rotineiramente antes da
administração de cada seção de QT;
- no primeiro contato com a paciente, identificar a prática da coleta de urina
através de uma entrevista semi-estruturada;
- verificar sucessivamente os resultados dos exames realizados após as seções
subseqüentes.
O instrumento de coleta de dados constou de questões relativas à identificação
das pacientes, aos resultados do exame de urina 'tipo I' realizados antes de
cada seção de QT e questões fechadas relativas à técnica de coleta de urina
realizada. As variáveis do estudo foram a freqüência de leucocitúria e técnica
de coleta de urina para exame.
Após a coleta, os dados foram tabulados, analisados e interpretados com base na
estatística descritiva e confrontados com a literatura específica da área.
RESULTADOS
Para desenvolvimento do estudo foram realizadas 30 entrevistas; a média de
idade entre as mulheres foi de 49,56 anos com desvio padrão de ±12,45 anos,
onde a idade mínima apresentada foi de 20 anos e a idade máxima de 65 anos.
Quanto à procedência, verificou-se que 16 pacientes (53,33%) advinham do
município de Uberaba e as demais 14 pacientes (46,67%), originárias de outros
municípios, caracterizando o serviço prestado como referência em câncer
ginecológico em Uberaba e região.
Em relação aos diagnósticos identificados durante a entrevista foi observado
que 14 pacientes (46,66%) apresentaram câncer de mama, oito pacientes (26,66%)
câncer de colo uterino, sete (23,33%) câncer de ovário e uma paciente (3,33%)
neoplasia de colo tratada previamente e com recidiva na vagina.
No grupo estudado, cada paciente recebeu o tratamento mais adequado à sua
patologia. Entre as 14 mulheres que apresentaram diagnóstico de câncer de mama,
seis (42,85%) seguiram com quimioterapia neoadjuvante (prévia a outras
modalidades de tratamento), quatro (28,57%) com a adjuvante (posterior a outras
modalidades de tratamento), duas (14,28%) com as duas modalidades de
quimioterapia e também duas (14,28%) apenas com a quimioterapia compondo o
tratamento (casos de recidiva). A cirurgia mais indicada foi a
quandrantectomia, compondo o tratamento de dez (71,42%) pacientes e a
mastectomia, realizada em duas (14,28%) mulheres. Em 10 (71,42%) casos, a
radioterapia compunha uma das fases do tratamento oncológico proposto.
Entre as oito mulheres em que foi diagnosticado câncer de colo, seis (75%)
apresentaram a terapêutica composta de quimioterapia seguida por radioterapia,
em dois casos (25%) foi necessário tratamento cirúrgico. Das sete pacientes que
possuíam diagnóstico de câncer de ovário, cinco (71,42%) foram submetidas a
alguma cirurgia na dependência do estágio da doença. Quando não foi possível
realizar cirurgia completa satisfatória, foi realizada apenas a citorredução. A
quimioterapia foi realizada em todos os casos, sendo que em duas pacientes
(28,57%) foi paliativa.
Os antineoplásicos e protocolos utilizados pelas mulheres do grupo estudado e
suas frequências foram EC (epirrubicina e ciclofosfamida) em 10 pacientes
(33,33%) portadoras de câncer de mama, PEB (cisplatina, etoposide e bleomicina)
em 10 pacientes (33,33%) com câncer de colo de útero, PC (cisplatina e
ciclofosfamida) utilizado por três pacientes (10%) no tratamento do câncer de
ovário, paclitaxel sendo utilizado por duas pacientes (6,66%) na terapêutica do
câncer de mama, FEC (5-fluoracil, epirribicina e ciclofosfamida) utilizado na
terapêutica do câncer de mama por duas pacientes (6,66%) que participaram da
pesquisa, paclitaxel e carboplatina utilizado por uma paciente (3,33%) no
tratamento de câncer de ovário, CMF (ciclofosfamida, methotrexato e 5-
fluoracil) utilizado no tratamento de câncer de mama por uma paciente (3,33%)
do grupo estudado e PEC (cisplatina, epirrubucina e ciclofosfamida) indicado em
casos de neoplasia de ovário e utilizado por uma paciente (3,33%) durante o
período estudado.
De acordo com o protocolo utilizado pelas pacientes inseridas na pesquisa, foi
identificado o ciclo do tratamento quimioterápico em que se encontravam.
Observou-se que, durante o primeiro contato destinado à obtenção dos dados, 14
pacientes (46,66%) se encontravam no 1º ciclo de quimioterapia; nove pacientes
(30%) estavam no 2º ciclo; duas pacientes (6,66%) no 3º ciclo; seguindo assim a
mesma incidência para aquelas que se encontravam no 5º e 6º ciclos e uma
paciente (3,33%) que se encontrava no 9º ciclo do tratamento quimioterápico
durante essa fase do estudo.
Na resposta ao questionário aplicado às 30 pacientes participantes do estudo a
respeito da técnica de coleta de urina para exame, 24 mulheres (80%) afirmaram
saber a maneira correta de coletar o material e seis (20%) responderam não
conhecer. Dentre as pacientes que conheciam a técnica, 15 (62,5%) afirmaram que
essa informação foi dada por algum profissional da área da saúde e nove
(37,50%) responderam que a informação foi obtida por outras pessoas, sendo
essas não profissionais.
A respeito do recipiente utilizado para coletar a urina, 29 (96,66%) mulheres
responderam usar frasco plástico com boca larga, tampa com rosca, opaco e
capacidade de 35 a 50 ml, comprado na farmácia, que é o preconizado pela
literatura e uma paciente respondeu fazer uso de outro recipiente que foi
adquirido em laboratório.
Quanto à higiene da genitália, 15 (50%) pacientes do grupo afirmaram realizar
higiene apenas da genitália externa antes da coleta, oito (26,66%) não realizam
higiene antes da coleta de urina e sete (23,33%) informaram fazer higiene de
toda a genitália externa e interna antes de coleta. Considerando as 22 mulheres
que responderam higienizar a genitália antes da coleta da amostra de urina, 14
(63,63%) utilizaram água e outro tipo de sabão durante a higiene, quatro
(18,18%) fizeram uso de água e sabão neutro sem corante e quatro (18,18%)
utilizaram somente água. A respeito da freqüência em que a higiene foi
realizada antes da coleta, 19 (86,36%) pacientes responderam repetir o processo
menos que três vezes, duas (9,09%) responderam repetir três vezes e uma (4,54%)
paciente afirmou realizar a higiene da genitália mais que três vezes antes da
coleta de urina para exame.
Em relação à secagem da genitália primeiramente e após a direção em que se
processa a secagem da região, seis (27,27%) pacientes do grupo afirmaram
utilizar qualquer toalha, seis (27,27%) responderam utilizar papel higiênico,
cinco (22,27%) mulheres não secam a região após realizar a higiene e cinco
(22,72%) secam a região com toalha limpa. Dentre as 17 pacientes inseridas no
grupo que secam a região genital após a higiene da mesma, oito (47,05%)
afirmaram secar a região de frente para trás, cinco (29,41%) de trás para
frente e quatro (23,52%) referiram não lembrar.
O jato médio de urina foi obtido por 19 (63,33%) das 30 mulheres entrevistadas,
já o jato inicial foi coletado por 11 (36,66%) pacientes do grupo pesquisado.
Após a coleta, 22 (73,33%) pacientes afirmaram enviar a amostra rapidamente ao
laboratório e oito (26,66%) esperaram no máximo duas horas para levarem até o
local específico.
De acordo com os exames de urina tipo I realizados anteriormente as seções de
quimioterapia verificou-se no grupo das 30 pacientes 30 episódios de
leucocitúria, distribuídos entre 14 pacientes, no decorrer do tratamento.
Destas, sete (50%) apresentaram um episódio, três (21,42%) apresentaram dois
episódios, duas (14,28%) três episódios, uma (7,14%) cinco e uma (7,14%) seis.
Caracterizando esse grupo de acordo com o ciclo quimioterápico em que o número
de leucócitos apresentava-se aumentado no exame, o diagnóstico oncológico e o
protocolo utilizado no tratamento, pode-se afirmar que dentre as sete pacientes
que tiveram um episódio de leucocitúria, duas (28,57%) se encontravam no
segundo ciclo quimioterápico, ambas com o diagnóstico de câncer de colo de
útero e utilizando o protocolo PEB. Uma (14,28%) apresentou no terceiro ciclo
de quimioterapia, para tratamento de neoplasia ovariana com protocolo PC. A
leucócitúria apareceu no quarto ciclo de quimioterapia em uma (14,28%) mulher
com diagnóstico de câncer de colo de útero utilizando PEB. Durante o quinto
ciclo, uma (14,28%) paciente apresentou leucocitúria no tratamento de câncer de
mama e fazendo uso de EC. Duas (28,57%) mulheres do grupo que se encontravam no
sexto ciclo do tratamento apresentaram leucócitos aumentados, sendo que,
destas, uma se encontrava no tratamento de câncer de colo de útero e utilizando
PEB e outra, com neoplasia mamária fazendo uso de EC e paclitaxel.
Considerando as três pacientes do grupo que apresentaram dois episódios de
leucocitúria durante o tratamento, uma (33,33%) apresentou a alteração no
segundo e no quarto ciclo de quimioterapia do tratamento de câncer de colo
uterino em utilização de PEB e duas (66,66%) no terceiro e quarto ciclo, uma
com diagnóstico de câncer de mama e utilizando CMF e outra com câncer de colo
de útero em utilização de PEB. Entre as duas pacientes que apresentaram três
episódios de leucocitúria, uma (50%) apresentou as alterações no segundo,
terceiro e quarto ciclo de quimioterapia no tratamento de neoplasia de colo
uterino com a utilização de PEB e uma (50%), durante o primeiro, segundo e
quarto ciclo de quimioterapia para câncer de mama em uso de EC.
Dois ou mais episódios de leucocitúria foram observados no grupo estudado. Uma
paciente a apresentou no segundo, terceiro, quarto, quinto e sexto ciclo de
quimioterapia destinada ao tratamento de neoplasia de ovário em uso de
paclitaxel, outra paciente possuiu semelhante recorrência no quinto, sexto,
sétimo, oitavo, nono e décimo ciclo na terapêutica do câncer de mama e
utilização de EC e paclitaxel.
No grupo das 30 pacientes estudadas, 14 (46,66%) apresen-taram leucocitúria de
acordo com os exames de urina verificados. Destas 14, sete (50%) pacientes
possuíam diagnóstico de câncer de colo de útero, sendo que seis (85,71%)
apresentaram tais episódios entre o segundo e o quarto ciclo do tratamento.
Cinco (35,71%) mulheres apresentaram neoplasia mamária e destas, três (60%)
encontravam-se a partir do quinto ciclo de quimioterapia quando foi verificado
o aumento de leucócitos urinários. Duas (14,28%) mulheres do grupo faziam
tratamento para câncer de ovário e a leucocitúria se apresentou no segundo e
terceiro ciclo.
Ao relacionar-se as respostas das 14 pacientes que apresentaram leucocitúria ao
questionário utilizado para desenvolvimento do estudo com a técnica correta da
coleta de urina para exame, foi possível observar que todas (100%) apresentaram
erros pelo menos em uma etapa do processo de coleta do material, sendo que 10
(71,42%) dessas pacientes referiram saber coletar a amostra e oito (57,14%)
afirmaram não terem recebido tais orientações de profissionais da área da
saúde. Ao serem verificadas as demais respostas obtidas nas entrevistas, os
principais erros foram observados quanto ao processo de higiene da genitália
antes da coleta, onde, quatro (28,57%) pacientes relataram fazer higiene da
genitália externa e interna e cinco (35,71%) não realizam higiene. Das nove
mulheres que relataram realizar higiene da genitália no início do processo,
cinco (55,55%) referiam utilizar água e qualquer tipo de sabão e duas (22,22%)
pacientes utilizavam somente água, sendo que, oito (88,88%) mulheres realizam a
higiene com frequência menor que três vezes.
No que diz respeito a secagem da genitália, três (33,33%) pacientes relataram
utilizar qualquer toalha, duas (22,22%) utilizam papel higiênico e uma (11,11%)
não seca a região genital após a lavagem. Considerando as oito pacientes que
realizam a higiene da genitália e posteriormente a seca, duas (25%) informaram
secar a genitália de trás para frente e o mesmo número se deu para aquelas que
não lembram a direção em que realiza o procedimento. Entre todas as pacientes
que apresentaram episódios de leucócitos aumentados no exame, cinco (35,71%)
afirmaram coletar o primeiro jato de urina e para o encaminhamento dessa
amostra, três (21,42%) mulheres responderam enviar ao laboratório no máximo até
duas horas e uma (7,14%) entrevistada afirmou encaminhar o material duas horas
após a coleta.
DISCUSSÃO
De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a neoplasia mamária é o
segundo tipo de câncer mais frequente no mundo e o mais comum entre as
mulheres. A cada ano, cerca de 22% dos casos novos de câncer na população
feminina são de mama. No Brasil, em 2008, o número de casos novos dessa
neoplasia foi de 49.400, com um risco estimado de 51 casos a cada 100 mil
mulheres. Na região Sudeste, o câncer de mama é o mais incidente entre as
mulheres com um risco estimado de 68 casos novos por 100 mil. Sem considerar os
tumores de pele não melanoma, este tipo de câncer também é o mais freqüente nas
mulheres das regiões Sul (67/100.000), Centro-Oeste (38/100.000) e Nordeste
(28/100.000), sendo que na região Norte é o segundo tumor mais incidente (16/
100.000)(4).
O colo do útero é, depois do câncer de mama, a segunda localização anatômica
mais freqüente do câncer na população feminina brasileira e é responsável por
15% das ocorrências de tumores malignos em mulheres(10). É o mais incidente na
região Norte, ficando com a segunda posição na região Nordeste e ocupando o
terceiro lugar nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. É bem conhecido que o
câncer do colo uterino representa uma das causas de óbito mais freqüente na
população feminina da América Latina, onde as taxas de incidência encontram-se
entre as mais altas do mundo(11).
O Ministério da Saúde preconiza, como principais recursos para o tratamento de
câncer, a cirurgia, quimioterapia, radioterapia e transplante de medula óssea,
com todos os profissionais envolvidos tendo recebido treinamento em suas
respectivas áreas de atuação(12). Em ginecologia, as modalidades utilizadas
são: o tratamento cirúrgico que tem como objetivo o tratamento local dos
tumores sólidos, através de sua extração, assim como das regiões adjacentes a
este, no sentido de impedir sua propagação regional, podendo também ser usada
com o objetivo paliativo(1).
A quimioterapia, que consiste no tratamento clínico/sistêmico do câncer e
representa o emprego de drogas capazes de exterminar ou impedir o crescimento
tumoral, assim como a hormonioterapia e o uso de modificadores da resposta
tumoral (imunoterapia) e o tratamento radioterápico, ou seja, o uso de feixes
dirigidos de radiação ionizante em doses letais à célula neoplásica, pode ser
usado como método complementar a uma cirurgia oncológica curativa, ou mesmo,
como método único, em tumores irressecáveis, em pacientes inoperáveis ou no
tratamento da dor oncológica(1).
Nenhum câncer poderá ser corretamente tratado se não tiver um prévio
diagnóstico firmado de forma adequada. Alguns serviços de onco-ginecologia e
mastologia consideram uma neoplasia corretamente estudada, quando exibe um
tríplice diagnóstico: o topográfico (ou diagnóstico do órgão de origem),
extensão do tumor (estadiamento ou estádio clínico) e histopatológico (ou
morfológico). Este tríplice diagnóstico, essencial para a planificação
terapêutica, sofre uma codificação que é fornecida através de normas
internacionais que necessitam ser seguidas, a fim de que as instituições que se
organizam para o tratamento oncológico possam se comunicar e usar meios
terapêuticos mais adequados contra a doença(13).
Deve-se ressaltar que o tratamento do paciente com câncer, frequentemente, é
uma associação de duas ou mais modalidades de tratamento; para tanto, é de
extrema importância que o mesmo seja orientado a procurar, precocemente,
instituições com uma equipe experiente e multidisciplinar, capaz de abordar
todas as situações oriundas desta difícil fase na vida do ser humano(1).
Sabe-se que existem mais de 100 antineoplásicos em uso clínico na área da
Oncologia, sendo eles aplicáveis através das mais diversas vias e são inúmeras
as possíveis combinações entre as diversas drogas quimioterápicas(14,15). No
presente estudo, os quimio-terápicos e protocolos utilizados foram aqueles
destinados ao tratamento de neoplasias mamárias e ginecológicas.
Saber a forma adequada de realizar a coleta de urina é extremamente necessário,
pois somente as amostras obtidas de maneira correta demonstram resultados
confiáveis. Entre pacientes oncológicos, que se encontram em tratamento
quimioterápico, esse conhecimento se faz ainda mais necessário, devido a sua
maior suscetibilidade a patógenos e a infecções. Considerando a literatura
específica da área e ressaltando a importância da obtenção adequada de amostras
destinadas ao exame, importa relembrar a técnica correta, conforme descrito
anteriormente(9).
A leucopenia é a mais séria forma de mielossupressão. A diminuição do número de
linfócitos (linfopenia) e de granulócitos (granulocitopenia), especialmente os
neutrófilos (neutropenia), leva a uma supressão da imunidade celular e humoral,
com o aumento significativo da suscetibilidade a quadros infecciosos graves. A
neutropenia é o principal fator de risco isolado para quadros infecciosos em
indivíduos com câncer. Em pacientes neutropênicos (neutrófilos < 1500mm3), as
infecções são mais freqüentes e severas, especialmente quando o nadir persiste
por mais de sete a dez dias. Quando a contagem de neutrófilos cai para valores
abaixo de 500, aproximadamente 20% ou mais dos episódios febris têm sido
associados a quadros de bacteremias por bacilos Gram-negativos aeróbios e cocos
Grampositivos, bem como por micobactérias, vírus, protozoários e parasitas(7).
A enfermagem deve estar atenta aos sinais e sintomas das infecções mais comuns,
lembrando que o conhecimento das mesmas em indivíduos neutropênicos pode ser
difícil ou retardado devido à ausência dos sinais clássicos de resposta
inflamatória. Sendo assim, é essencial saber prevenir e detectar precocemente e
atuar no seu controle o mais rápido possível(7).
Abordando o sistema geniturinário, importa ressaltar que a observação quanto a
presença de disúria, urgência e aumento da freqüência urinária, alteração na
coloração e odor da urina, dor nas costas e no baixo ventre(7) devem ser
rigorosamente observados pelo profissional, bem como os resultados dos exames
solicitados previamente as seções de quimioterapia (hemograma e urina tipo I) e
a correta técnica de coleta de amostra de urina que podem influenciar na
leitura de tais resultados.
Como foi discutido anteriormente, a maioria dos fármacos quimioterápicos
provocam supressão da medula óssea e redução das linhagens celulares que
constituem o sangue(16), sendo a neutropenia uma das principais preocupações
durante a quimioterapia, necessitando assim de atenção dos profissionais
envolvidos. Ao término de cada ciclo quimioterápico, a mielodepressão torna-se
um evento cada vez mais freqüente, o que aumenta a suscetibilidade dessas
pacientes frente a agentes infecciosos.
CONCLUSÕES
Ao término do desenvolvimento do estudo e frente aos resultados obtidos, pode-
se concluir que:
- no grupo de 30 pacientes estudadas, a frequência de leucocitúria foi de 30
episódios, sendo que dessas, 14 (46,66%) apresentaram pelo menos um episódio de
leucocitúria;
- entre as 30 pacientes entrevistadas, 24 (80%) relataram saber a maneira
correta de coletar urina para exame, sendo que as 30 apresentaram pelo menos um
erro durante o processo;
- 55% dos erros apresentaram-se no processo de higienização e coleta da urina.
Diante dos resultados apresentados, pode-se inferir que as características da
patologia, o estágio do tratamento quimioterápico e a forma da coleta de urina
favorecem o aparecimento de leucocitúria.
CONSIDERAÇÕES
De acordo com o diagnóstico mais frequentemente verificado entre as pacientes
com leucocitúria, o câncer de colo uterino, por suas características próprias
como localização das lesões, presença de leucorréia e necessidade de
manipulação cirúrgica em todo o sistema reprodutor feminino como etapa do
tratamento oncológico (ocorrendo também nas pacientes em tratamento de
neoplasia ovariana), é capaz de favorecer a proliferação de bactérias no
sistema urinário, ocasionando assim episódios infecciosos logo no início do
tratamento de quimioterapia, fato que tem sido observado em nossa prática
cotidiana.
As pacientes com diagnóstico de câncer de mama que apresentaram episódios de
leucocitúria evidenciam o potencial tóxico dos antineoplásicos e as
consequências da mielodepressão. A maior freqüência de leucócitos aumentados na
urina se apresentou nos estágios mais avançados da utilização dos
quimioterápicos, momento em que o sistema imunológico se encontra mais
debilitado e susceptível a infecções, embora essa observação seja empírica no
presente estudo.
Concomitantemente a todos os fatores discutidos, deve-se ressaltar que,
independente do diagnóstico oncológico, a forma errônea de coleta de urina para
exame pode sugerir um número aumentado de leucócitos devido a uma possível
contaminação da amostra.
Nesse contexto, uma assistência de enfermagem eficaz bem como a implementação
de intervenções efetivas contribuem para a diminuição de tais efeitos que podem
levar ao comprometimento do tratamento. O estímulo quanto a importância do
auto-cuidado e a contínua orientação, acompanhamento e propostas de condutas
alternativas frente aos efeitos causados pela quimioterapia compõem o papel
fundamental do profissional enfermeiro frente ao paciente oncológico no
desenvolvimento eficaz da terapêutica proposta.
Nesse sentido, a vivência e os laços formados no decorrer do estudo, que
abrangeu esse grupo tão especial de seres humanos, foram capazes de ultrapassar
a relação profissional, chegando a desenvolver relações de amizade, carinho e
troca de saberes. Momento oportuno para o desenvolvimento de ações educativas,
esclarecimentos de dúvidas e ajuda mútua, que foi utilizado com muito respeito
por parte dos profissionais e pesquisadores e de grande aproveitamento das
pacientes que ali se encontravam.