Meu corpo dependente: representações sociais de pacientes diabéticos
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Esta pesquisa tem como objeto de estudo as representações sociais de clientes
diabéticos sobre o seu corpo após cirurgias de amputação e suas implicações
para o cuidado de si. O interesse pelo tema emergiu durante aulas práticas
realizadas no Hospital Universitário da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Neste momento tivemos a oportunidade de ter contato com os mais variados tipos
de patologias, dentre estas o Diabetes Mellitus. A referida doença é
responsável por várias complicações orgânicas aos seus portadores, a que nos
chamou a atenção foi o pé diabético, fator responsável pelas amputações nos
pacientes. Ao serem realizados os cuidados de enfermagem a pacientes em pós-
operatório tardio de cirurgia de amputação, percebeu-se que os mesmos se
mostravam emocionalmente abalados, visivelmente tristes e com grandes dúvidas a
respeito de como seria a sua vida a partir do momento em que seu corpo estava
alterado, gerando um sentimento de tristeza e desesperança.
A amputação é uma cirurgia ortopédica de caráter reconstrutor, pois tem a
finalidade de melhorar a qualidade de vida do paciente, sendo indicada para
eliminar sintomas e facilitar o aprimoramento da função(1). Ressalte-se que
este procedimento cirúrgico é adequado para atender pacientes vítimas de
traumatismo, doença vascular, complicações da diabetes, infecções e neoplasias,
e este é o objetivo médico, reduzir a morbidade e trazer de volta o bom
funcionamento do organismo antes afetado em decorrência de tais complicações
(2).
Evidencia-se que as amputações são cirurgias que tem como prioridade tratar a
causa que compromete a vida do paciente. Porém, empiricamente, para os mesmos,
estas são percebidas como mutiladoras e modificadoras do seu cotidiano.
Destaca-se que a parte extirpada do corpo de uma pessoa altera sua percepção de
si, ou seja, sua auto-imagem e por seguinte sua auto-estima. Pois este passa a
se representar como portador de um corpo modificado, alterado mutilado(3).
O termo amputação possui vários significados dentre os quais: "mutilação,
cortar parte do corpo; destruir parcialmente; desfigurar-se; deformar-se;
decepar algum membro ou parte do próprio corpo"(4). A partir do exposto
ressalta-se a necessidade do emprego da referida terminologia no objeto deste
estudo, pois para as pesquisas que empregam a Teoria das Representações
Sociais, torna-se necessário o uso do termo adequado para captação dos seus
significados pelo pesquisador durante o estudo.
O tratamento radical para as complicações do pé diabético, é a amputação, cujas
seqüelas incluiriam alterações dos hábitos de vida, e principalmente da imagem
corporal, o que implica, entre outras coisas, em estigmas sociais. A sociedade
capitalista em que vivemos compreende o corpo perfeito como uma máquina
fundamental para geração do lucro, esta concepção preconizada pelo modelo
cartesiano, contribuindo para que o indivíduo detentor de um corpo amputado
perceba-se como um ser inútil, pois não possui mais o corpo idealizado pelo
mundo globalizado(3).
Considerando esse contexto percebeu-se a necessidade de um estudo que evidencie
o conhecimento consensual de portadores de amputação sobre o seu corpo
alterado. Pensamos que desvelar essas representações sociais irá possibilitar
aos enfermeiros, e demais profissionais da saúde, um conhecimento sobre o
universo psicossocial que envolve o ser humano que é submetido a amputação. E a
partir desse estudo prestar um cuidado de enfermagem mais humanizado, pois
estes irão considerar o individuo como um todo, e não apenas um corpo mutilado.
Desta forma, favorecendo tanto a aceitação como potencializando a recuperação
em seu tratamento hospitalar.
OBJETIVOS
Caracterizar as representações sociais de clientes diabéticos sobre o seu corpo
após a amputação; e Analisar a relação dessas representações sociais para o
cuidado de si.
METODOLOGIA
Tratou-se de pesquisa de abordagem qualitativa com o emprego do método de
estudo de caso. O suporte teórico foi o da Teoria das Representações Sociais,
que é definida como o conhecimento que os indivíduos possuem sobre determinado
assunto e partindo deste constroem suas práticas cotidianas, dividindo-as com o
grupo a que eles pertencem(5).
As representações sociais procuram entender a relação indivíduo-sociedade, como
esses sujeitos sociais constroem seu conhecimento a partir de sua
"inscrição" sócio-cultural e como a sociedade se dá a conhecer e
construir esse conhecimento com os indivíduos, ou seja, como interagem sujeitos
e sociedade para construir a realidade(6).
As representações sociais são percebidas como entidades quase tangíveis. Elas
circulam, cruzam-se e se cristalizam incessantemente através da fala, um gesto,
um encontro em nosso universo cotidiano. Os comportamento sociais,
conhecimentos e também a comunicação sofrem intervenções destas representações
(7). Portanto, as representações sociais são constituídas de idéias, imagens,
concepções e visões de mundo que os grupos sociais possuem sobre a realidade,
podendo se manifestar em condutas chegando a ser inclusive institucionalizada
(5).
O estudo foi desenvolvido em um hospital Universitário no município de Belém do
Pará, onde é realizada um grande número de cirurgias de amputação, este
hospital predomina na quantidade de cirurgias desta natureza sobre os demais
hospitais da cidade de Belém, e mostra um elevado índice de amputações em
decorrência de complicações do diabetes.
O estudo constou de uma população de 20 indivíduos. Os critérios de inclusão
foram: ser diabético, ter sido submetido à amputação de parte do corpo; ter
pelo menos três meses de pós-operatório, pois dessa forma integraram o estudo
pacientes que se encontram relativamente ou totalmente familiarizados com esta
nova realidade. Como critério de exclusão ficou estabelecido à recusa verbal do
sujeito em fazer parte da pesquisa.
Quanto ao aspecto ético, o projeto da pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética
e Pesquisa do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB), sob o
protocolo nº 2120/08 tendo sido aprovado na reunião do referido Comitê de 11/
09/2008, por estar de acordo com a Resolução 196/96 e suas complementadores do
Conselho Nacional de Saúde / Ministério da Saúde do Brasil. Para preservar o
anonimato das depoentes, empregamos o sistema alfanumérico para identificação
dos seus relatos.
A coleta de dados foi composta por três técnicas, sendo a primeira a livre
associação de palavras, seguida pela elaboração dos mapas cognitivos e a
observação livre, que ocorre durante as duas fases anteriores. Esta seqüência
será empregada para evitar que as demais fases influenciem a espontaneidade das
informações captadas.
A livre associação de palavras consiste em fornecer estímulos, que podem ser de
origem verbal (quando usa palavras, expressões, idéias, frases ou provérbios)
ou não-verbal (emprega figuras ou fotografias). Este, ainda inclui como sendo
estímulo, material de vídeo e material sonoro(8). Após o estímulo deixa-se o
sujeito falar livremente sobre tais estímulos de forma espontânea e menos
controlada, associando suas idéias às palavras que lhe foram dadas. Esta
técnica permite captar as representações sociais de formas espontânea, livres
de contaminação por parte do pesquisador, ou seja, a emergência de
representações sociais(8).
Optou-se pela aplicação da técnica de análise de conteúdo temático, pois
favorece desvendar os núcleos de significados que articulam um diálogo cuja
apresentação seja ressaltante ao objetivo analítico apontado. Ou seja, a
técnica conta a freqüência com que os relatos de uma entrevista se repetem de
acordo com o que se queira explorar no estudo(9). Esta modalidade favorece a
captação dos núcleos de significados que compõem uma comunicação, tornando-se
evidentes por sua freqüência aumentada, que favorece a emergência de sentidos
relevantes para contextualização da realidade estudada(10).
No primeiro momento realizou-se a pré-analise que consiste na organização do
material coletado, para posterior aplicação da leitura flutuante. Nesta etapa
retomam-se os objetivos iniciais reformulando-os ou operacionalizando-os diante
do material coletado(10). Após esta etapa, ocorreu a exploração do material e o
tratamento dos resultados, onde os dados brutos foram transformados. Assim os
dados são codificados com o objetivo de alcançar núcleos para compreensão do
texto(10). A partir destas etapas foram estabelecidas as seguintes unidades
temáticas: O corpo saudável saúde expressão do viver bem, O corpo trabalho a
perfeição e a beleza no cotidiano, O corpo amputado a limitação ocasionada pela
amputação e O corpo amputado e sua relação para o cuidado de si.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O corpo saudável saúde expressão de viver bem
Nesta categoria observou-se que os depoentes, vincularam suas cognições sociais
sobre o corpo à saúde, relacionando diretamente o corpo completo, integro com o
ato de estar saudável para se viver bem, como se pode verificar na
caracterização impressa e em alguns relatos transcritos abaixo:
[...] se você tem um corpo saudável, prática exercícios e vive
melhor.(D10)
[...] Todo mundo gosta de viver bem e pra viver bem precisa ter um
corpo saudável.(D7)
A associação do corpo saudável com o viver bem abrange das mais simples às mais
complexas ações. Os sujeitos atrelam a saúde a práticas cotidianas e as suas
vivências evidenciando o seu conhecimento empírico acerca do corpo. Este
conhecimento é dividido com o grupo aos quais estes indivíduos pertencem. Cada
sociedade ou grupo social detém formas específicas de construir e lidar com o
conhecimento sobre o corpo, não deixando o saber biomédico de contribuir ao
longo do tempo na difusão deste(5).
A teoria das Representações Sociais revela dois tipos de pensamentos: o
reificado e o consensual. O primeiro pertence ao saber científico, enquanto que
o segundo é encontrado no saber do senso comum, esses saberes não tem
superioridade entre si, visto que se completam e se valorizam dependendo da
situação com a qual servem(11).
No universo social dos depoentes a saúde é concebida como ter liberdade,
independência, capacidade de desenvolver atividades cotidianas bem como estar
disposto a realizá-las. O individuo capaz de realizar suas atividades diárias,
torna-se independente contribuindo desse modo para sua auto-realização(12).
[...] O corpo com saúde, estando bem, deixa independente para fazer o
que quiser [...](D11)
As crenças sobre a saúde representam idéias e convicções de um grupo social que
podem estar baseadas em informações factuais, bem como no senso comum ou mitos
e ainda relacionados a expectativa de vida, podendo influenciar no
comportamento de saúde de maneira positiva ou negativa(13). Os sujeitos ao se
reportarem aos seus corpos no sentido da saúde como liberdade e independência
evidenciaram a importância de um corpo saudável para sua autonomia, poder
escolher aonde se deseja ir, fazendo-se presente no meio social.
Percebeu-se que a saúde é responsável pelo bem-estar e felicidade, segundo os
depoentes, proporcionando aos seus corpos certo conforto e alegria em viver
bem. Estes atribuem à saúde toda a sua qualidade de vida.
[...] Saúde está acima de tudo, ninguém faz nada se não tiver saúde.
Saúde traz felicidade pro corpo da gente [...](D1)
O bem-estar é muito mais que ausência de sensação dolorosa, é composto de
completa harmonia entre o corpo e a mente, o bem viver visto plenamente, pois
este ultrapassa os aspectos físicos relacionando-se intimamente com o emocional
do ser(14). Cabe ressaltar-se que a felicidade, como aspecto afetivo de uma
representação social, busca o coletivo compreendendo uma busca incessante pela
plenitude. A qualidade de vida torna-se essencial para o ser em sua existência
humana(15).
Depreendeu-se que a saúde tem significativa importância na vida e nos hábitos
dos sujeitos estudados, suas representações acerca do corpo partem da premisse
de saúde, bem-estar, viver bem para se ter um corpo saudável. Todas essas
atribuições são vivenciadas e compartilhadas diariamente entre os indivíduos,
onde há uma inter-relação sujeito-sociedade, gerando conhecimentos e valores
arraigados na formação de cada pessoa(7).
O corpo trabalho a perfeição e a beleza no cotidiano
O homem não está imerso num vazio, mas antes, inserido no contexto determinado
não apenas no caráter biológico. Este entende seu corpo como um signo relevante
configurando-se no contexto sócio-cultural, logo participa intimamente na
formação de seus conceitos, ou seja, suas representações(12).
A estrutura biológica promove ao corpo a capacidade dos sentidos e do
pensamento, a cultura organiza, norteia, sobressai, oculta e modifica
características que detêm fundamentação biológica, concebendo identidade a tais
sentidos e pensamentos, "gerando" um novo corpo. A construção sócio-
cultural do corpo é que proporciona a sua adaptação ao meio no qual vive(12). O
corpo é uma categoria passível de análise cultural pelos diversificados usos
que as sociedades fazem dos corpos dos indivíduos(16).
O conceito de homem útil passou a ser consolidado a partir dos novos valores de
trabalho, do rendimento e do progresso, que na sociedade recém-construída
resulta em produção capitalista. O homem é tão mais útil quanto melhor for sua
força de trabalho e consequentemente maior for a sua produção. Neste sentido a
educação do corpo reflete hábitos e condutas que se aproximam do ideal
capitalista(17). Durante o processo de coleta dos dados pode-se observar a
ancoragem das representações sociais dos clientes acerca do corpo,
relacionando-os ao trabalho:
[...] Eu uso o corpo pra trabalhar, sou vendedor, sempre trabalhei
desde cedo, por que eu era forte e tinha muita saúde [...](D2)
A concepção das representações sociais como forma de conhecimento, nos leva a
esfera cognitiva, e os fenômenos sociais remete entende-las partindo do
contexto de produção, ou seja, este conhecimento está "mergulhado" em
um contexto social que circula e se transforma(17). Os processos constitutivos
das representações sociais procuram explicitar as determinações sociais das
representações decorrentes da posição ocupada pelos diferentes atores sociais,
para que o indivíduo possa dar sentido a sua experiência social(18).
Na estrutura social imposta pelo capital, o processo de dominação exploratória
da força de trabalho está fortemente consolidado. Ao longo desse processo o
homem visado como força de trabalho cede ao capitalismo o uso de seu corpo(17).
Essa representação social do corpo como fonte de trabalho indica o processo de
expropriação da força de trabalho humana como um forte aliado na política de
dominação.
Quanto maior a intensidade de utilização do corpo, mais a representação
mecanicista deste se exprime na idéia de força. O corpo forte aproxima-se da
idéia de um "corpo-máquina", mesmo não aplicando de forma direta o
intelecto na atividade laborativa, a força muscular é investida no rendimento
do trabalho. Um corpo forte, jovem e sadio é apto para produção capitalista,
pois é o ideário dessa representação. O corpo economicamente rentável e sendo
útil é o que reflete tal modelo, logo a saúde é um bem imprescindível ao
trabalho(17).
Observou-se na pesquisa que a maioria das pessoas são trabalhadores autônomos.
O conceito de trabalhador autônomo é a pessoa física que presta serviços
habitualmente por conta própria a uma ou a mais pessoas, assumindo os riscos da
sua atividade; não é subordinado, não tem patrão, não tem horário de trabalho
fixo, portanto, não tem direito a verbas trabalhistas (décimo terceiro, férias,
uma folga paga), apenas a direitos previdenciários(4). Portanto, a amputação do
membro afetará o trabalho desenvolvido por essas pessoas, logo acarretará danos
na fonte de renda própria e ou familiar, modificando conceitos socio-culturais
desse grupo a partir de seus corpos alterados.
Dentre as veiculações dos indivíduos deste estudo, emergiu também a perfeição
cognitada ao corpo, visto que um corpo perfeito é bem visto pela sociedade. A
perfeição é tida pelos participantes da pesquisa como ser completo, com todos
os membros e as partes que os compõem, assim como belo e forte.
[...] Perfeito porque ele é inteiro, não tem nenhum pedaço faltando.
Ele tem tudo pra funcionra bem. Um corpo perfeito faz tudo, é forte e
bonito [...](D8)
Perfeição derivada do latim perfectione, caracteriza um ser ou objeto que reúne
todas as qualidades e não tem nenhum defeito. Designa uma circunstância que não
possa ser melhorada ainda mais, ou seja, perfeito é algo completo, um manancial
de ações potenciais. Por outro lado, a perfeição é uma condição que não é
alcançada, mas deve ser necessariamente almejada(20).
Imagens do corpo circulam nos meios de comunicação em massa, ditam como ser,
como representar sobre nós mesmos. Tais aspectos culturais acerca do corpo
perfeito tiveram sua origem na Grécia Antiga, sendo tradição de longa data
tomar as esculturas gregas como ideal de corpo, principalmente masculino(21).
A beleza também foi ressaltada nas representações do corpo dentre os depoentes,
evidenciando um corpo normal e sadio. A imagem corporal sofre influencia do
aspecto sócio-cultural. Portanto o sentido de beleza corporal está vinculada a
padrões elevados e aqueles que possuem algum tipo de "deficiência"
são considerados fora desse padrão e por isso muitas vezes inúteis. Um corpo
belo é admirado, almejado, enquanto que um corpo que possui limitações e
desprezado pela sociedade e até mesmo para quem o possui(22).
[...] O corpo normal tem beleza natural, porque é um corpo sadio, dá
gosto de se ver, é bonito né [...](D9)
A beleza pode ser compreendida como estruturas constituidas de perfeições
harmônicas, que ocasionam admiração(4). A beleza é um conceito social, e
frequentemente é resultado da intersecção de diversos fatores bilógicos,
sociais, climáticos, ambientais e histórico(22). Assim os sujeitos relacionaram
seus corpos, antes da cirurgia de amputação ao trabalho, perfeição e beleza,
evidenciando o enquadramento desses conceitos nos padrões da sociedade na qual
esses sujeitos pertencem, pois um corpo capaz de produzir renda por meio da
força laboral é útil para o consumismo desse meio social, o corpo perfeito e
belo (inteiro/completo e com formas bem definidas) produz uma imagem agradável
e bem aceita.
O corpo amputado a limitação ocasionada pela amputação
Marcado pela falta de um membro ou parte dele, as pessoas submetidas à
amputação trazem consigo sinais que as identificam como sendo diferentes,
freqüentemente sendo vistas como imperfeitos e incapazes. A amputação causa uma
mudança permanente na aparência e auto-imagem do indivíduo. Quando a
"deficiência" do corpo é decorrente de alguma patologia o impacto
causado pela intervenção cirúrgica (amputação) no paciente é significativo,
pois este enfrenta dificuldades em virtude de alterações da imagem corporal as
quais provocam mudanças psicológicas, sociais, afetivas e econômicas.
Para os sujeitos pesquisados a amputação é percebida como mutilação, o corpo
passa a ser denominado mutilado, aos pedaços. Essa representação foi mencionada
por cinco (25%) depoentes
[...] Meu corpo está mutilado, eu me sinto triste, é muito ruim ver
meu corpo assim [...](D19)
A mutilação é o ato de extirpar algum membro ou parte(s) do corpo de forma
abrupta(4). Enquanto que amputação é a perda de um membro, ou parte dele,
caracterizado pela perda ou comprometimento do osso, do feixe neurovascular, do
tecido muscular, das funções do membro e das sensações distais, refletindo
sobre a imagem corporal e o desempenho funcional(22). Logo a amputação reflete
de maneira negativa na auto-imagem desse grupo social, levando a um processo
"doloroso" de readaptação na sociedade.
O processo de construção do conhecimento do sujeito, essencialmente passa pelo
corpo, uma vez que nossa existência é corporal. A subjetividade é construída no
corpo pelos seus prazeres e sofrimentos, suas qualidades e eficiências, seus
defeitos, do que ele foi, está deixando de ser e de como se gostaria que fosse
(13). A amputação gera sentimentos de tristeza, vergonha de si mesmo, culpa por
estar com o corpo alterado, o desejar algo perdido, faz com que este grupo
social se sintam segregados do meio em que vivem, por já não serem detentores
de um corpo perfeito, iguais aos outros membros dessa sociedade.
Outro aspecto que os sujeitos vincularam aos seus corpos após terem passado por
cirurgias de amputação foi à limitação pela qual sofrem por já não serem
detentores de um corpo "completo", por isso muitos são dependentes de
outras pessoas e até mesmo de artefatos para sua locomoção.
[...] Hoje sou dependente de amigos e familiares para andar, sair,
fazer minhas coisas e ainda tenho outras complicações [...](D11)
A imagem que o indivíduo amputado passa a ter de si é de uma pessoa
"deficiente", incapaz, muitas vezes se tornando um incômodo para a
família e as pessoas próximas a ele. Depender de alguém até para a mais simples
das atividades gera um sentimento de inutilidade, tristeza e até mesmo rejeição
do próprio corpo.
A doença foi outro ponto ressaltado dentre os depoentes, pois estes ao verem
seus corpos hoje mencionaram esta como causa da amputação sofrida. Para muitos
a doença é vista como a ausência da saúde, agora perdida. O corpo doente foi
mencionado por sete (35%) depoentes:
[...] De um tempo pra cá não tive mais saúde, é só no hospital e em
casa, quase não consigo sair pra outro lugar, às vezes sinto muita
dor [...](D20)
As representações sociais dos depoentes em relação ao corpo amputado vinculando
este à doença demonstram certa angústia e isolamento social, pois estes
indivíduos perderam sua qualidade de vida juntamente com a saúde. As
representações de saúde e doença sempre estiveram vinculadas pela inter-relação
entre os corpos humanos e as coisas que os cercam. Sentimentos de culpa, medos
e superstições estão indissoluvelmente ligados às expressões de doenças, às
epidemias, à dor, ao sofrimento, ao desgaste físico e mental e a visão de
deteriorização dos corpos(23).
A doença pertence não só a história superficial dos progressos científicos e
tecnologias como também a história profunda dos saberes e das práticas ligadas
às estruturas sociais, às instituições, às representações, e às mentalidades
(23).
A condição do ser humano é corporal, pois é seu corpo que o individualiza
estabelecendo a fronteira da sua identidade pessoal. O ser humano não existe
senão por meio de suas formas corporais que o inserem no mundo, toda
modificação de sua forma faz com que outra definição de sua humanidade seja
construída. Subtrair uma parte desse homem, como no caso de uma amputação,
afeta simbolicamente o vínculo social desse indivíduo(13).
O corpo amputado e sua relação para o cuidado de si
O cuidar é a essência da humanidade, pois se faz presente desde seus
primórdios, inicialmente identificados na atitude da mãe em cuidar de seus
filhos e de outras pessoas dependentes (idosos, feridos, doentes). A proteção
materna foi a primeira manifestação do ser humano no cuidado ao seu semelhante,
fato retratado na época do nomadismo (período em os homens realizavam mudança
territorial, como medida de sobrevivência) onde as crianças eram sacrificadas
por dificultar a migração das tribos, porém muitas dessas crianças eram
protegidas por suas mães(24).
Observa-se que a amputação ocasionou mudanças na imagem corporal. O cuidar de
si negligenciado antes da cirurgia, tornou-se mais presente e primordial na
vida desses indivíduos:
[...] Eu mesmo acabei com o meu corpo, não ligava pro que eu tenho,
comia tudo o que me dava vontade, andava descalço. Hoje você vê no
que deu. Agora, depois de tudo que aconteceu comigo, estou mais
cuidadoso.(D8)
A limitação funcional e a restrição de práticas diárias por uma deficiência ou
por doenças crônicos degenerativas não devem ser obstáculos para a realização
do cuidado de si em sua totalidade. No entanto, bem mais do que antes os
indivíduos necessitam cuidar de si, valorizar o seu corpo, pois a falta desse
cuidado certamente levará há mais amputações e drásticas conseqüências para o
mesmo. Logo o cuidar de si passa a ser visto como fundamental para os
indivíduos quando estes estão doentes, limitados e por isso tornam-se
dependentes. Pois quando estão saudáveis ou relativamente bem não se importam
com seus corpos, deixando de lado o constante ato do cuidar de si. Este ato se
dá por meio de simples ações que promovam a saúde e o bem-estar.
O ato de planejar o cuidado de si não deve ser entendido somente levando-se em
conta as prescrições médicas, pois o saber científico não é o único responsável
pela transmissão de como as pessoas devem se cuidar. A própria subjetividade do
indivíduo se imprime no cuidado de si, logo o sujeito decide a respeito desse
cuidado precisando conhecer e saber o que se passa com ele(25).
Neste contexto ficou claro que as representações sociais que fazem de seu corpo
levou os sujeitos a perceberem a necessidade de conservarem a saúde de seus
corpos, passando o cuidado de si a fazer parte da vida desses indivíduos, pois
estes perceberam a importância de suas ações frente a medidas preventivas e
mantenedoras de um corpo saudável tão almejado no meio social.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa tratou por conhecer as representações sociais de clientes diabéticos
sobre o seu corpo após cirurgias de amputação e suas implicações para o cuidado
de si. Percebeu-se a necessidade de entender como essas representações são
formuladas pelos sujeitos, buscando caracterizá-las. Os conceitos da Teoria das
Representações Sociais foram empregados neste estudo para que atuassem na
facilitação da construção da realidade social e no contexto psicossocial que o
objeto de estudo está inserido por meio do sujeito.
A representação que os sujeitos possuem de seus corpos agora é de incapazes,
inúteis, pois já não são produtivos como antes, não podendo ser encaixados no
universo social imaginado por eles. Estes indivíduos se tornaram dependentes de
familiares, amigos e pessoas próximas a eles, assim como também de objetos
(muletas, cadeira de rodas) para sua locomoção. Esta dependência gerou nos
depoentes: tristeza, angústia e sofrimento, por já não poderem desenvolver suas
atividades diárias, por não terem lazer do modo como desejam. O corpo amputado
produz uma auto-imagem negativa, uma rejeição do corpo que já não pode
trabalhar para ter o seu próprio sustento e também de suas famílias, pois
muitos dos sujeitos entrevistados dependem somente de renda própria.
No cuidado de si percebeu-se que os indivíduos ao estarem saudáveis não se
importam com seu corpo, pois tudo funciona perfeitamente. Porém depois de
passarem pela doença e as complicações dessa começaram a valorizar o ato de
cuidar de si. Torna-se evidente nos depoimentos a preocupação, com a saúde, em
recuperar parte do bem-estar perdido ou pelo menos manter o corpo como está
para não sofrerem com mais amputações e declínio da auto-imagem.