Irmã Tereza Notarnicola
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Irmã Tereza Notarnicola
Sister Tereza Notarnicola
Sor Tereza Notarnicola
Taka OguissoI; Genival Fernandes de FreitasII
IEnfermeira e Advogada. Professora Titular do Departamento de Orientação
Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, SP
IIEnfermeiro e Advogado. Professor Doutor do Departamento de Orientação
Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, SP
1. INTRODUÇÃO
A motivação para escrever sobre a vida de Irmã Maria Tereza Notarnicola foi o
conhecimento da história dessa religiosa e enfermeira que continua militando na
profissão desde a década de 1940, sempre com grande idealismo e perseverança.
Ela é detentora de uma visão singular e privilegiada do seu tempo, do
significado do que era ser enfermeira antes, nos anos passados e hoje, e
consciência do seu papel no processo de consolidação da Associação Brasileira
de Enfermagem (ABEn), como um espaço de representatividade político-social da
profissão.
É preciso criar uma historiografia da profissão que rompa com a localização da
História da Enfermagem fora da história social e oficial(1). Por isso, este
estudo pretende olhar para uma parte da História da Enfermagem na ótica de um
ator social e personagem atuante dessa História, buscando uma articulação entre
passado e presente, partindo da trajetória de vida desse personagem. Desse
modo, esperamos contribuir para esclarecer o presente com base nos significados
atribuídos às vivências desse personagem, tornando-as significativas aos
enfermeiros.
Faz-se mister conhecer e compreender a história da profissão, a inserção social
e os significados atribuídos socialmente às atividades desenvolvidas em prol da
coletividade. Caso contrário, e sem conhecimento da história da profissão(2)
inviabiliza-se qualquer posicionamento perante as múltiplas e dinâmicas
realidades sociais e as transformações necessárias.
Qual o legado de Irmã Maria Tereza Notarnicola para o desenvolvimento e o
reconhecimento profissional da enfermagem? Como se deu sua contribuição para a
consolidação da ABEn? Que significados atribui à sua prática e à inserção nas
atividades profissionais? Essas interrogações despertaram-nos para a
preocupação na conservação da memória da profissão a respeito de acontecimentos
marcantes e a repercussão destes fatos para o processo histórico-social do
desenvolvimento da enfermagem nos cenários nacional e internacional. Assim, a
memória é algo pessoal e intransferível que é conservada em um processo
contínuo de lembranças, significação e socialização(3). Sendo assim, no
presente trabalho valemo-nos da memória da colaboradora como fonte para a
investigação, pois o interesse nessa memória é a interpretação que o sujeito
participante faz dos fatos por ela vivenciados, ao longo de mais de meio
século, e que tiveram significações para a construção da História da Enfermagem
Brasileira.
A proposta deste trabalho, portanto, se pauta no estudo dos relatos orais dessa
testemunha ocular do seu tempo, ainda viva, lúcida e atuante, acerca da
História da Enfermagem Brasileira, a fim de identificar os fatores que
motivaram essa sua atuação profissional e inserção no processo de construção da
identidade da enfermagem, na busca da valorização da profissão. Partindo de um
olhar e da memória da história de quem a tem vivenciado ao longo desse período
até os dias de hoje, este trabalho pretende contribuir para desvelar aspectos
da História da Enfermagem Brasileira, apontando valores, crenças e motivações
que permearam esse caminhar profissional, considerando-se o fato de que essa
colaboradora é parte integrante dessa história e como ator social detém nuances
da memória histórica da enfermagem.
Em seu discurso em homenagem à Irmã Tereza, como Enfermeira do Ano, em 1971, na
abertura do XXIV Congresso Brasileiro de Enfermagem, Clarice Della Torre
Ferrarini destacava que "... Aqui as suas colegas de todo o Brasil trazem o
calor da amizade e os agradecimentos pelo muito que a senhora fez e continua
fazendo pelo desenvolvimento da Enfermagem. A Associação Brasileira de
Enfermagem, através de sua Diretoria e associadas, de público reconhece o seu
trabalho e dedicação à causa associativa, pois a senhora tem sido
incansável..."(4).
Além do trabalho profissional como enfermeira em diversas instituições
hospitalares, Irmã Tereza destacou-se pela sua atuação na ABEn, pois participou
de quase todos os Congressos de Enfermagem, desde que se diplomou em 1947,
inclusive, representou o país em congressos internacionais do Comitê
Internacional Católico de Enfermeiras e Assistentes Médico-sociais (CICIAMS).
Ocupou mais de 30 cargos de Diretoria nas Seções da ABEn, tendo sido Presidente
da Seccional Minas Gerais, Coordenadora de Comissões Permanentes e Especiais da
ABEn, gerente da Revista Brasileira de Enfermagem e tesoureira da ABEn.
Destacou, ainda, sua capacidade de gerir negócios e a quase multiplicação de
recursos, apontando, também, seu empenho na construção da sede da ABEn, em
Brasília.
Para completar a apresentação da homenageada, Clarice ressaltou algumas
qualidades da mesma, dizendo: "(...) A senhora mostrou ser portadora de
especial bênção de ver adiante e realizar aquilo que visualizou. Em seu
coração, qual solo gentil e fértil de amor, permitiu que germinasse a bênção
recebida e eclodisse na constância da dedicação, oferecendo ânimo aos aflitos e
mais, para suas companheiras, ânimo para o trabalho de cada uma, e pela lição
recebida, de entusiasmo e fé no trabalho realizado (...) sempre servindo o
próximo e, assim, justificando a vida(4).
Em agradecimento à ABEn pela homenagem, Irmã Tereza assim se expressou:
"Integrei-me à ABEn, essa querida Associação a quem muito devo e a cujo serviço
tenho votado o mais carinhoso empenho e todo ardor e esforço, quer na defesa de
suas causas e ideais, quer na valorização de seu patrimônio, contribuindo para
a construção da sede em Brasília, obra em parte realizada, graças à ajuda de
todas as Seções e à confiança que me foi atribuída no desempenho do cargo de
tesoureira"(5).
Os objetivos deste estudo são: identificar os motivos que levaram à atuação
profissional de Irmã Maria Tereza, sua inserção nas atividades da ABEn para a
valorização e reconhecimento da profissão, nos cenários nacional e
internacional, a partir da década de 1940 e contribuir para divulgar sua
história como exemplo de vida profissional e de dedicação à classe.
2. REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
Para atingirmos os objetivos deste trabalho, optamos pelo referencial da
história oral de vida, por acreditarmos que ele nos possibilitaria conhecer o
transcorrer da trajetória de vida pessoal e profissional da colaboradora
escolhida.
A História Oral consiste no relato de um narrador sobre sua existência através
do tempo, tentando reconstruir os acontecimentos que vivenciou e transmitir a
experiência de vida que adquiriu. Também é uma das formas de se captar
informações oralmente, constituindo-se ora em método de pesquisa, ora em
recurso para a coleta de dados(6).
O presente trabalho é de natureza histórico-social e nele foi utilizada a
técnica da história de vida, como instrumento para coleta de dados.
De acordo com Humerez, há necessidade de se diferenciar a história de vida de
outros instrumentos de coleta de dados como o depoimento, a história oral, a
biografia, a autobiografia. Embora em todos esses instrumentos prevaleça a
oralidade, quando usamos a história de vida para coletar dados, apesar da
subjetividade do sujeito, sempre atingiremos a coletividade e, portanto, a
objetividade e captamos o grupo do qual o sujeito é parte. No caso da história
de vida, tem importância fundamental o interesse pela seqüência da vida do
sujeito. Quando a intenção do pesquisador é conhecer um dado específico que o
sujeito poderá ter conhecimento ou experiência, o depoimento sobre o assunto
poderá ser mais adequado(7).
A história de vida se distingue da biografia, por ser esta última a história do
indivíduo redigida por outro, o que a aproxima e, às vezes, confunde-se com a
história de vida, no entanto, esta última permite o recorte dos discursos para
a análise e interpretação e, geralmente, o pesquisador toma-a na encruzilhada
da realidade subjetiva-objetiva, enquanto que na biografia, o mais importante é
a história individual do sujeito em questão.
Alguns autores preferem denominar história oral de vida, enquanto depoimento de
um indivíduo acerca de sua experiência de vida, enfatizando-se a necessidade de
se dar espaço para que o colaborador possa dar seu depoimento com a maior
liberdade possível, podendo, inclusive, conduzir esse depoimento sozinho, com o
mínimo de interferência do entrevistador. O que importa é a vida do narrador, a
história de sua experiência pessoal e a preservação de uma narrativa natural e
ampla. O uso de questionários ou perguntas indutivas é inapropriado, pois as
entrevistas devem ser livres, ou seja, as perguntas devem ser amplas e oferecer
subsídios para que o narrador comece a falar. Estas podem ser divididas em
blocos que orientem a seqüência da narrativa(8).
A história de vida significa apreender a subjetividade do indivíduo,
compreendendo-a numa dimensão processual, considerando que é produzida por
instâncias individuais, coletivas e institucionais, num inter-jogo dialético
entre o eu, o outro e o mundo(7). Desse modo, a partir do estudo da narrativa
do sujeito singular que vivenciou um período histórico específico na ABEn, foi
delineada a trajetória metodológica escolhida que se pautou na história de vida
da Irmã Maria Tereza Notarnicola, por meio da entrevista semi-estruturada.
A História Oral baseia-se nos mesmos pressupostos teóricos de outros
procedimentos utilizados na pesquisa sociológica e, por conseguinte, tais
pressupostos não lhe conferem um caráter de método independente, mas lhe
garante o status de método(9).
Ao obter-se a narrativa da entrevistada que vivenciou a profissão num contexto
determinado, torna-se possível resgatar acontecimentos, valores, ideologias e
desvelar significados atribuídos às suas vivências. Para tanto, valemo-nos do
movimento de círculos de progressão e regressão no qual os fatos, percepções e
interpretações do narrador não descrevem um percurso linear; ao contrário,
obedecem a uma lógica que lhe é própria, de acordo com a importância atribuída
a cada lembrança no contexto que ele deseja desvelar(10). Sendo assim, esse
movimento possibilitou-nos reconstruir a história de vida de uma testemunha
ocular de fatos relevantes da História da Enfermagem Brasileira, as atividades
junto à ABEn, e o quanto essas ações puderam contribuir para o conhecimento e a
valorização da profissão.
Portanto, este estudo tem como base o método da História Oral, que
possibilitou, a partir das narrativas da colaboradora escolhida, aproximarmo-
nos do conhecimento de suas vivências, por meio de procedimentos de coleta,
análise e interpretação dessas narrativas.
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E DE ANÁLISE
3.1 A escolha da colaboradora
Decidimos ouvir a história de vida de Irmã Tereza, como colaboradora, por
entender que sua trajetória profissional de atuação nos últimos 50 anos
mostrou-se de extrema relevância na construção dos parâmetros da profissão, em
especial, na consolidação da ABEn como uma entidade representativa dos
profissionais de enfermagem, e por demonstrar plena lucidez no raciocínio
crítico, para a idade, e uma visão extraordinária sobre a necessidade de
inserção da enfermagem nos diferentes cenários da prática social e política.
3.2. Coleta e análise de dados
A coleta dos dados iniciou-se com agendamento de entrevista com a colaboradora,
na residência da mesma, totalizando dois encontros em dias diferentes, em 2005.
No primeiro, foi-lhe explicado o objeto, os objetivos do trabalho e a forma de
captação dos dados entrevista gravada. Não foi fácil obter sua concordância,
pois em sua modéstia e humildade achava que havia feito tudo por obediência ao
seu voto religioso e obrigação profissional com a enfermagem. Concordou em
colaborar ante a alegação de que a história de sua vida poderia servir de
modelo para as novas gerações de enfermagem. Após seu consentimento, ainda no
primeiro encontro, procedemos à realização da entrevista semi-estruturada,
pautada nas seguintes questões norteadoras, as quais foram elaboradas com base
no objetivo deste estudo:
a) A senhora poderia discorrer sobre sua escolha profissional?
b) Como se deu sua participação nas atividades da Associação Brasileira de
Enfermagem?
c) Qual a importância que essa Associação teve em sua vida?
d) Como se deu seu envolvimento com líderes da enfermagem da década de 50 até
os dias atuais?
Por duas vezes, os relatos transcritos foram submetidos à apreciação da
colaboradora para ajustes necessários e esclarecimento de dúvidas dos próprios
autores. Todas as sugestões dela foram incorporadas. A seqüência da vida e a
atuação profissional dessa personagem tornaram possível a organização dos dados
na medida em que destacamos fatos, que a própria depoente julgou marcantes, ao
longo de sua vida associativa na ABEn e em outras tantas atividades em prol da
profissão e da coletividade a que sempre serviu.
Optamos pela exposição da narrativa a partir da história da sua vida familiar,
indo ao desempenho de papéis ao longo da vida dessa colaboradora, pois
entendemos que a análise ficaria mais centrada na história de sua vida. Assim,
após a transcrição, leitura e releitura do conteúdo, procedemos à transcriação
do texto, com o cuidado de validá-lo com a colaboradora e autora das
narrativas, a fim de extrair as categorias das falas, após classificar e
codificar os discursos de acordo com os temas tratados nas entrevistas. Os
resultados desses procedimentos podem sofrer a influência da subjetividade dos
pesquisadores, o que exige alguns cuidados para não haver prejuízo do sentido
atribuído a fatos, conceitos, valores e circunstâncias(11). Por isso,
ratificamos as informações coletadas com a colaboradora após a transcrição e
transcriação do texto.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Infância e adolescência
Sou descendente de italianos, nascida no bairro do Brás, na capital de São
Paulo, em 8 de maio de 1920, e registrada como Maria Notarnicola. Meus pais
nasceram em Bari, no sul da Itália, imigraram com meus avós para o Brasil e
aqui se casaram. Há pouco tempo reunimos a família toda, éramos quase 150
pessoas entre netos, bisnetos, tetranetos. Somos 5 irmãos, sendo 2 homens e 3
mulheres. Minhas duas irmãs ainda estão vivas. Meus sobrinhos são todos
adultos, cristãos e bem encaminhados na vida.
4.2 Opção pela vida religiosa
Entrei para a Companhia das Filhas de Caridade de São Vicente de Pauloª, em
1937, quando estava com quase 17 anos de idade. Depois de um ano de noviciado
em São Paulo, na Creche Catarina Labourè, fui servir em Porto Alegre, onde
permaneci de 1939 a 1944. Uma enfermeira francesa da minha comunidade achou que
eu tinha jeito para ser enfermeira e influenciou a superiora. Assim, voltei ao
Rio de Janeiro para fazer o curso de enfermagem, na Escola Luisa de Marillac.
Hoje em dia não há mais religiosas nos hospitais, a não ser nos hospitais das
próprias congregações onde elas continuam atuando. Algumas religiosas
terceirizaram a administração das suas instituições, inclusive hospitalares.
Nós também deixamos a Santa Casa do Rio de Janeiro, depois de longos anos de
trabalho.
A partir da chegada das Filhas de Caridade na Santa Casa, do Rio de Janeiro, em
1832, todas as demais casas da Santa Casa de Misericórdia foram assumidas pela
nossa Comunidade: Caju, Santa Maria, Santa Teresa e em outros Estados (13).
Muitas crianças que nasciam de mães abandonadas eram acolhidas pelas Irmãs de
Caridade na Fundação Romão Duarte. Vale lembrar que até o Hospital de Alienados
do Rio de Janeiro, onde foi fundada a Escola de Enfermagem Alfredo Pinto
(atualmente UNIRIO) foram as nossas irmãs que começaram. Algumas irmãs
francesas já vinham com o curso de enfermagem feito na Cruz Vermelha. Naquele
tempo, na França, eram formadas como enfermeiras de guerra. Raquel Haddock Lobo
também foi formada pela Cruz Vermelha Francesa e foi a primeira diretora
brasileira da Escola Anna Nery, da UFRJ. Muitas Irmãs de Caridade se destacaram
em diversos trabalhos da ABEn, mas atuar por tanto tempo, 33 anos, de corpo e
alma na Associação, manhã, tarde e noite, fui eu quem fez isso.
Quanto ao meu trabalho atual, posso dizer que já havia encerrado minha carreira
e era membro remido do COREN-SP, quando fui requisitada pela minha Comunidade
para servir na Casa de Idosos, em Santa Branca (SP), obedeci e estou aqui até
hoje, já há cinco anos. Sou a responsável técnica, uma exigência do COREN, para
que a instituição pudesse continuar a funcionar. Quero ser fiel a Deus e ao meu
voto de obediência. Ao chegar nessa Casa, percebi que ela estava em condições
muito precárias com as instalações todas deterioradas, precisando de uma
urgente reforma e conservação. E como manter uma casa como essa com idosos de
ambos os sexos? A provincial me pediu para dar início à reforma. Tivemos que
demolir quase tudo, só ficaram os alicerces. Com a ajuda de amigos e
familiares, conseguimos grande parte do material necessário. A construção
consumiu R$ 660 mil, sendo R$ 380,00 da Congregação e o restante foi obtido
através de doação. Vivi superando dificuldades, mas sempre com os pés no chão e
confiante na graça de Deus. Enfrentei as mesmas dificuldades no Hospital São
Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, construído na mesma área onde fica a Cúria
Provincial, o Colégio São Vicente e o Santuário da Medalha Milagrosa. A
Congregação teve que hipotecar 8 propriedades situadas entre o Rio de Janeiro e
São Paulo pelo empréstimo feito no Ministério da Saúde, em um valor muito alto
na época, cerca de duzentos e quarenta mil cruzeiros. Tivemos que deixar o
nosso Hospital São Vicente, no Rio de Janeiro, como pagamento da dívida, que se
tornava uma bola de neve, devido à inflação galopante. Para isso tivemos que
hipotecar oito casas, sendo três em São Paulo e as demais em Friburgo e no
Espírito Santo.Com muita luta conseguimos nos livrar da hipoteca. Felizmente,
hoje o Hospital São Vicente é um dos melhores no Rio de Janeiro e recebeu
várias vezes a premiação do ISO 9002.
4.3. Escolha profissional
Na verdade, não houve uma escolha pessoal ou o despertar de uma vocação, mas
uma designação superior para que eu fosse fazer o curso de enfermagem. Obedeci
à ordem e entrei na Escola Luisa de Marillac, no Rio de Janeiro, onde comecei
em 1944 e concluí em 1947, dedicando-me de corpo e alma ao curso. Em 1947,
participei ainda como aluna do 1º Congresso Brasileiro de Enfermagem, em São
Paulo. Gostei do curso e da profissão, pois realizei-me plenamente como Irmã de
Caridade e como enfermeira. Logo ao formar-me, engajei-me na Associação
Brasileira de Enfermagem. Depois de formada fui para Araguari, onde fiquei até
1949, ano em que conheci Marina de Andrade Resende. Ela me convidou e eu
aceitei fazer parte da Comissão de Assistência de Enfermagem: não só dávamos a
assistência, mas cuidávamos da parte de administração. Depois fui para Recife,
onde fui professora na Escola de Enfermagem Nossa Senhora das Graças. Lecionei
na Escola de Enfermagem Carlos Chagas e por 16 anos fui professora na Luisa de
Marillac.
Fiz curso de pós-graduação em Enfermagem Obstétrica na Escola de Enfermeiras do
Hospital São Paulo (atual UNIFESP), em 1958, e fui aluna de Madre Domineuc.
Depois fui para a França, para o curso de Pedagogia e didática aplicada à
enfermagem, em Paris, tendo lá permanecido por um ano. Lembro-me que saí do
Brasil, em 1959, no dia 26 de outubro e cheguei lá dia 07 de novembro, porque a
viagem era de navio. Voltei dia 26 de outubro e cheguei dia 07 de novembro de
1960, com o mesmo navio, no ano seguinte. Naquele ano comemoravam-se os 327
anos de fundação da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo.
Naquela época para fazer enfermagem era necessário um sentimento de humanidade
muito grande, pois a profissão apenas começava a ter evidência. As pioneiras se
dedicavam todas de corpo e alma para a profissão e muitas delas eram de
famílias ilustres e tradicionais do Brasil, como a própria Raquel Haddock Lobo,
a Da. Edith de Magalhães Fraenkel, a Maria Julieta Calmon Vilas-Boas
(posteriormente foi ser religiosa beneditina de clausura), Alayde Duffles
Teixeira Lott, (irmã do General Teixeira Lott que, em 1956, garantiu a posse de
Juscelino Kubitschek como Presidente da República e foi seu Ministro da Guerra)
a Irmã Esther de Almeida Neves, de nossa Comunidade, que era irmã de Tancredo
Neves e muitas outras. Infelizmente parece que nós, as veteranas, não soubemos
preparar as gerações subseqüentes e nem incutimos nelas esse espírito de classe
e dedicação, cidadania, participação e determinação de lutar pelos nossos
ideais. Será que houve falha das escolas de enfermagem ou de cada profissional
que não deu o exemplo?
Antigamente havia uma disciplina chamada Exercício Profissional, no curso de
graduação, que ensinava o que era a profissão, seus valores e símbolos, quem
eram as líderes e os órgãos de classe, como nos representavam e o que cada um
deveria ser e fazer pela sua classe. Parece que agora só ensinam a técnica e as
teorias da enfermagem e não se ensina mais esse amor pela profissão.
4.4 Atividades desenvolvidas na ABEn
O fato de ser religiosa não era empecilho para desenvolver atividades na ABEn.
Minha "congregação" liberou meu tempo, mas não o dinheiro. Meus irmãos sempre
me ajudaram financeiramente. A ABEn não custeava nada, nem passagens, nem
estadias. Pagávamos nossas viagens, alimentação e tudo mais do próprio bolso.
Dávamos suor, sangue e lágrimas para promover a Associação.
Lembro-me de muitas reuniões da ABEn onde havia discussões acaloradas, cada uma
defendendo seu ponto de vista. Assisti fortes discussões entre Madre Domineuc,
Irmã Matilde Nina e D. Rosaly Taborda. Quero destacar que conheci todas as
lideres e pioneiras da enfermagem brasileira, com exceção de Raquel Haddock
Lobo (que morreu em 1933) e trabalhei com todas as presidentes da ABEn
nacional, desde a primeira, Da. Edith Fraenkel, até a Dra Maria Ivete Ribeiro
de Oliveira. Nos Congressos eram muitas discussões, por exemplo, sobre estágios
dos alunos da graduação, critérios para admissão de alunos no curso de
Obstetrícia, questões pertinentes às disciplinas curriculares e muitas outras.
Muitas professoras da Escola Anna Néry queriam continuar a manter a mesma
hegemonia dos tempos de fundação da Escola, o que era relativamente fácil
porque todas as escolas de enfermagem tinham que ser equiparadas à Anna Nery,
pois o reconhecimento somente surgiu com a Lei n. 775/49. Porém, em 1942, com a
nomeação de Da. Edith Fraenkel como diretora da Escola de Enfermagem, da USP,
ela levou para São Paulo a revista da ABEn, que estava interrompida, alterou
seu nome e reativou a sua publicação. Em seguida, organizou o primeiro
congresso de enfermagem e, varias enfermeiras paulistas assumiram
sucessivamente a presidência da ABEn e, assim, a liderança da enfermagem
brasileira acabou ficando por décadas em São Paulo, interrompida pela mineira
Marina de Andrade Resende. A importância da ABEn na minha vida foi fantástica.
Tudo que aprendi, administrativamente, devo à Associação, porque trabalhei com
essas mulheres ilustres.
4.5 Construção da sede em Brasília
Começamos a construção da sede da Associação, em Brasília, porque queriam
retomar o terreno da ABEn, que havia sido doado pela Companhia Urbanizadora da
Nova Capital do Brasil (Novacap) do Governo Federal, a pedido da presidente da
ABEn, Da. Maria Rosa Pinheiro, em 1958. A partir desse pedido oficial e até que
se concretizasse a doação coordenei diversas campanhas e rifas para
levantamento de fundos. Por exemplo, foram rifados em 1965, no Rio de janeiro,
o anel de pérola oferecido pela Circe de Melo Ribeiro, o casaco de pele da
Anayde Correa de Carvalho, uma máquina de costura da Wanda Horta, e uma
enceradeira oferecida por outra colega. Somente em março de 1967 deu-se o ato
de assinatura de posse do terreno com escritura de doação lavrada pelo
presidente da Novacap e pela presidente da ABEn, Circe de Melo Ribeiro, e foi
estabelecido o prazo de dois meses para começar e dois anos para concluir a
construção, contados da data da escritura. Diversas vezes a Novacap tentou
retomar o terreno alegando que a ABEn não estava cumprindo os prazos. A ABEn
teve que pedir prorrogação de prazo por diversas vezes, mas ciente de que o
terreno seria retomado, pois outras associações começaram a se interessar pelo
terreno, não apenas pela extensão como pela boa localização, no setor de
Grandes Áreas Norte (SGAN), destinada a instituições pois, em Brasília, como
cidade planejada havia um setor para cada atividade: bancário, hospitalar,
hoteleiro e assim por diante.
A campanha da pedra fundamental, visando à construção da sede em Brasília foi
desencadeada porque mais uma vez surgiu a ameaça de retomada do terreno, desta
vez pela Associação dos Engenheiros que queria construir sua sede. Em 1967, no
Congresso da ABEn, em Brasília, a presidente Circe de Melo Ribeiro lançou a
pedra fundamental da sede, como parte da estratégia de início de construção. Na
época o local era um descampado enorme com muito vento que levantava poeira
vermelha e sem nenhum sinal de vida. Foi difícil localizar o terreno, mas mesmo
assim, juntamos um exemplar do Correio Brasiliense do dia da inauguração do
Congresso, o Diário Oficial do dia 20 de julho, ata da doação do terreno, cópia
da escritura definitiva do terreno, estatuto da ABEn, foto da inauguração do
Congresso, além da ata do lançamento com a assinatura dos presentes que foram
colocados na urna, e enterrada no terreno. Surgiu um comentário na época da
construção da sede, de que a pedra fundamental teria sido lançada em terreno
errado, devido a um erro do topógrafo que identificou o terreno vizinho como
sendo da ABEn, onde a pedra foi enterrada e esse terreno pertencia a um centro
espírita.
Fizemos uma série de campanhas: a do tijolo, a da placa dos cinco mil, a
campanha das seções. Nos congressos cada seção fazia uma doação. O resultado
financeiro dos congressos era rateada, ficando metade para a ABEn nacional e a
outra metade para a seção que organizava o evento. Mas em vários congressos,
conseguimos que essa verba toda ficasse só para a ABEn nacional. O primeiro a
ceder foi a ABEn-PE, após o congresso de Recife, em 1968.
Na campanha dos cinco mil, Amália e Anayde Corrêa de Carvalho e Clarice
Ferrarini deram 5 mil cada uma. Também participaram dessa campanha D. Mariana
Corrêa de Carvalho, irmã de Amália e Anayde, e Helena Silveira (secretária da
Escola de Enfermagem da USP), que embora não fossem enfermeiras fizeram questão
de contribuir para a construção da sede da ABEn, pela proximidade que tinham
com enfermeiras. As professoras da Escola Anna Nery conseguiram juntar esse
valor para oferecer à ABEn. Instituímos uma placa com os nomes das pessoas que
participaram dessa campanha dos cinco mil, que representava muito dinheiro na
época. Com o valor arrecadado conseguimos erguer a primeira parte da sede. Mas
a sede possui três partes em dois pavimentos (1.000 metros de área construída)
que foram sendo completados até sua inauguração, em 1972. Foi uma grande luta e
podemos orgulhar-nos de termos sido a única associação de classe que conseguiu
construir a sede própria no terreno doado pela Novacap, pois nenhuma outra
organização profissional conseguiu esse feito. A ABEn nacional cedeu
temporariamente algumas salas no andar térreo, para funcionar como sede da
seção da ABEn-Brasília, e depois também para o Conselho Regional de Enfermagem
(COREN) local.
Fui para Brasília na gestão de Ieda Barreira e Castro, em 1976, para substituir
a Clarice Ferrarini, que era secretária executiva da Associação e ocupava o
cargo de Coordenadora da Assistência Hospitalar, do Ministério da Saúde. Nessa
época ela ficou morando, no Rio, na casa de nossa Comunidade, porque esse setor
do Ministério funcionava na Avenida Brasil. Quando o Ministério da Saúde foi
todo para Brasília, a Clarice foi também e eu assumi o lugar dela na ABEn.
Fiquei em Brasília de 1976 a 1982 e saí porque fui nomeada ecônoma da província
de minha Comunidade. Nos seis anos que estive em Brasília, vivi exclusivamente
para a ABEn. Aos domingos, como não tinha para onde ir, visitava a Lídia das
Dores Mata que morava na cidade. O que Lídia Mata fez pela enfermagem foi
incrível e pouca gente sabe ou conhece essa história. Ela era muito simples e
modesta e nunca divulgou nada, mas as pessoas que, como eu, a conheceram sabe
como ela foi importante para toda a classe. Ela foi a Brasília logo no começo
da construção, junto com os candangos, e foi a primeira enfermeira a trabalhar
no Senado Federal. Foi praticamente uma religiosa leiga. Só de filhos dos
outros que ela criou foram nove. Morreu cega e esclerosada. Foi a primeira
Diretora da Escola de Enfermagem Magalhães Barata, do Pará, e foi também
diretora da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. Conhecia todo mundo em
Brasília, ministros ou militares e era respeitada por todos os senadores e
deputados. Ela abriu muitas portas e oportunidades em Brasília para que a ABEn
pudesse discutir com autoridades os projetos de interesse para a classe e para
aprovação das leis de enfermagem.
Em Brasília, eu fazia a administração da sede, era a secretária executiva,
escrevia, presidia, guiava cursos, cuidava das publicações e da correspondência
da ABEn. Nos dias de reunião da ABEn fazia almoço para os membros da Diretoria.
Lígia Paim, quando trabalhava no Ministério da Educação, editou livros, e o
lucro auferido era revertido para a manutenção da Associação e da Revista
Brasileira de Enfermagem. Naquela época a revista era distribuída gratuitamente
aos associados da ABEn, em todo o Brasil. Revisava o Boletim Informativo e todo
mundo recebia em casa. Quanto trabalho! Nesse tempo, eu era gerente da revista,
tesoureira e secretária. Uma vez ocorreu uma grande enchente na sede, de
madrugada, quando o caseiro que morava no fundo me telefonou. Fui imediatamente
e tive que entrar na sede com água pela cintura para tentar salvar o que fosse
possível. Felizmente os papeis importantes e documentos estavam no andar
superior e não foi prejudicado, mas perdemos os carpetes, muitos moveis e
equipamentos que estavam no térreo. Foram vários dias para limpeza geral do que
restou dos moveis e secar tudo. Essa enchente havia sido causada por falta de
uma galeria pluvial que cruzasse o terreno para conduzir a água da rua para a
parte mais baixa do terreno no fundo, que teve de ser construída para evitar
novas enchentes.
Nos fundos da sede estava a Fundação Getúlio Vargas. De um lado, era um centro
espírita e de outro havia uma outra associação, vizinha da ABEn. Desde a
construção, até colocar a casa em pleno funcionamento, participei de tudo.
Imprimíamos o boletim no mimeógrafo da ABEn, depois compramos máquina de xerox,
e máquinas de escrever elétricas. Inicialmente os móveis do salão haviam sido
emprestados pelo Senado Federal até conseguirmos comprar. As empresas que se
comprometiam a ajudar eram pontuais. Por exemplo, a B. Braun mobiliou a
biblioteca, a Johnson ajudou a comprar móveis e contribuía na impressão e papel
do boletim. A Presidente da ABEn da época tinha horror das multinacionais, mas
nada podia fazer pois a ABEn não tinha dinheiro para custear tudo. Inclusive
sem as multinacionais, muitas enfermeiras não podiam participar dos congressos,
pois essas empresas pagavam passagens e hospedagem para elas. Não conseguíamos
fazer quase nada sem os laboratórios multinacionais que ofereciam jantares e
almoços, enfim toda a parte social como shows artísticos. A Revista Brasileira
de Enfermagem foi custeada por muitos anos pela Johnson. Hoje percebemos que a
nossa memória é muito curta, pois esquecemos o quanto a ABEn conseguiu fazer
graças aos auxílios recebidos. É sabido que mesmo em congressos internacionais
ou de outras profissões, essas empresas ajudam na infra-estrutura e na parte
social dos eventos.
4.6. Líderes da Enfermagem Brasileira
Trabalhei um pouco com a D. Waleska Paixão, Presidente de Associação e havia
aquela luta entre enfermeiras e obstetrizes, no Rio de Janeiro. Foi por
intermédio dela que comecei a entrar em contato com a Secretaria de Educação
Sanitária, hoje Vigilância Sanitária. Foi ali que eu comecei a trabalhar para a
criação do Conselho Federal de Enfermagem. A D. Zaíra Cintra Vidal encabeçava a
discussão que começou em 1947 e levou quase 30 anos para ser criado, em 1973.
D. Edith Fraenkel foi a primeira presidente da ABEn nacional, re-eleita
diversas vezes intercalando seu mandato com as das que a sucederam. A segunda
foi Hilda Ana Krisch, sucedida por Zaíra Cintra Vidal, Marina Bandeira, Waleska
Paixão, Glete de Alcântara, Maria Rosa Pinheiro, Marina de Andrade Resende,
Clarice Ferrarini, Circe de Melo Ribeiro, Amália Correa de Carvalho, Glete de
Alcântara de novo, Maria da Graça Corte Imperial, Ieda Barreira e Castro, Circe
de Melo Ribeiro (re-eleição) e Maria Ivete Ribeiro de Oliveira. Inicialmente os
mandatos eram de dois anos, mas as presidentes eram sucessivamente re-eleitas e
por isso o estatuto foi modificado para ser de quatro anos a partir de 1972.
Glete faleceu durante seu segundo mandato e foi sucedida pela 1ª. Vice-
presidente, Maria da Graça Corte Imperial, do Rio de Janeiro. Maria Ivete foi
sucedida por Maria José dos Santos Rossi, representante da ala denominada
Participação, em 1986, e a partir daí, perdi contato com a ABEn pois houve
mudança de diretrizes e minha colaboração não foi mais solicitada. Assim foi a
sucessão de líderes da enfermagem na Associação. No começo todas eram da Escola
Ana Néri. Depois da Glete e Maria Rosa a presidência passou para São Paulo, por
muito tempo, com exceção da Marina Resende, que era de Minas Gerais, mas
trabalhava no Rio de Janeiro, porque havia substituído D. Maria Rosa no cargo
da Fundação SESP.
Dentre as Presidentes da Associação Brasileira de Enfermagem, destacaria a D.
Edith, que apesar de toda a idade que já tinha depois que deixou São Paulo, em
1955, foi chefiar a Casa de Saúde São Sebastião, no Rio. As Irmãs de Caridade
deram muita assistência a ela até seu falecimento. Ela não só fundou a ABEn,
mas fundou a Escola de Enfermagem de São Paulo e foi a primeira enfermeira a
ocupar um cargo no Ministério da Saúde, no antigo Departamento Nacional de
Saúde Pública. Depois foi a D. Izaura Barbosa Lima e a Clarice Ferrarini. Mas
de cada uma delas, podemos destacar uma qualidade. Por exemplo, na construção
da sede, foram três pessoas que a enfrentaram: a Amália, a Clarice e a Circe.
Elas foram as mulheres que conseguiram recursos e mobilizaram a classe para
construir a sede e fazer a sua instalação. Eram pessoas de grande destaque e
liderança na Enfermagem, em nível nacional. Quem pediu o terreno ao governo
federal (no tempo de Juscelino Kubitscheck) foi a D. Maria Rosa. Quem lançou a
pedra fundamental foi a Circe, mas quem assumiu todo o ônus da construção foi a
Amália. Quem mobiliou foi a Clarice. Terminada a construção faltava a parte
paisagística da área externa e a urbanização, seguida da decoração interna para
a transferência da ABEn e sua instalação definitiva, em 1975. Mas, havia um
fato que desconhecíamos quando da construção da sede. O terreno tinha cristais
de rocha que trincaram e movimentou a terra e o prédio da sede começou a
afundar. Nova corrida para arrecadação de dinheiro de enfermeiras e seções da
ABEn para reforçar a estrutura do edifício, em 1982. Cada seção teve que
contribuir de acordo com o número de associados. Nessa escala, coube à Seção
São Paulo a maior contribuição financeira para essa obra.
As enfermeiras que assumiram a presidência da ABEn, naquela época, eram
mulheres idealistas, dedicadas, de grande valor moral e liderança inconteste e
muitas delas provinham mesmo de um nível social privilegiado. D. Edith era neta
de Benjamim Constant, e seu pai havia sido embaixador do Brasil. D. Maria Rosa
era de uma família tradicional de Araraquara; a Amália, de uma importante
família de Ribeirão Preto, assim como a Glete e Marina Resende, ambas de Minas,
mas Glete se radicou em São Paulo e Marina trabalhou na Fundação SESP, no Rio
de Janeiro. A Maria Ivete era de tradicional família baiana, aluna da primeira
turma da Escola de Enfermagem da Bahia e depois diretora dessa Escola, alem de
vice-reitora da Universidade e secretária de Estado da Bahia. A Clarice
Ferrarini foi a primeira Diretora de Enfermagem do Hospital das Clínicas, da
Faculdade de Medicina, da USP, e quem mais tempo permaneceu no cargo. Ieda
Barreira era da Divisão Nacional de Tuberculose. Maria da Graça Corte Imperial
era do Hospital Souza Aguiar e trabalhou na Secretaria da Saúde do Rio de
Janeiro.
Havia muitas religiosas enfermeiras no Brasil, o que levou a ABEn a filiar-se
ao CICIAMS, uma entidade internacional católica. Infelizmente, a ABEn pediu
desligamento dessa entidade cujo principal objetivo era orientar enfermeiros a
prestar assistência espiritual e religiosa aos pacientes. Da. Waleska Paixão,
uma verdadeira religiosa secularizada, influiu na decisão dessa filiação, pois
havia sido Diretora da Escola Anna Nery, depois de Lays Neto dos Reis. A ABEn
não era, declaradamente, uma entidade católica para poder atender ao principio
da não discriminação religiosa exigida pelo ICN (Conselho Internacional de
Enfermeiros)b e assim poder continuar filiada a essa entidade internacional. O
CICIAMS aceitou a filiação da ABEn com certa reserva, pois a considerava como
membro aderente e não efetivo.
Em nossa história consta que Florence trabalhou com as Filhas da Caridade e
viveu como se fosse uma delas, usando os mesmos trajes antes de ir para
Criméia. Quem sabe quantas coisas ela incorporou das regras de São Vicente de
Paulo, aos princípios gerais que adotou para a enfermagem que ela queria
implantar. Pode-se mesmo afirmar que a moderna enfermagem nasceu bem dentro da
Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo.
4.7. Congressos e outros eventos marcantes
Um fato inusitado da minha trajetória na ABEn, poderia destacar o congresso de
Belo Horizonte, em 1984. Havia a chapa denominada "Participação", encabeçada
por Maria José Rossi e ferozmente defendida por um pequeno grupo de
enfermeiros. A outra era denominada "Compromisso", encabeçada pela Maria Ivete
Ribeiro de Oliveira, da Bahia. Sentimos muito temor pela vida da Ivete, em sua
posse, tal a atitude de prepotência e arrogância desse grupo. Lembro-me da
Circe Ribeiro fazendo o discurso com o papel na mão, passou o colar de
presidente para o pescoço da Ivete e declarou-a empossada. Foi um instante
dramático, e eu fiquei em pé, atrás de Ivete, dando-lhe apoio enquanto ela
fazia o seu discurso de posse, reiterando a sua plataforma de trabalho. Do lado
de fora, aquele pequeno grupo de enfermeiros inconformados, cantava o Hino
Nacional, tentando atrapalhar a posse da Presidente da ABEn, legitimamente
eleita, que ocorreu no Clube da Policia Militar. Quantas lutas e quantos
embates! E assim, a vida continua cheia de encantos... Precisamos encarar os
desafios e vivê-los a cada momento.
4.8 Cargos ocupados na ABEn e na vida profissional
Comecei na ABEn com a Marina de Andrade Resende. Meu primeiro trabalho foi na
Comissão de Assistência. Depois foi uma sucessão de atividades na Associação:
fui tesoureira, por 16 anos, depois por 11 anos da Revista Brasileira de
Enfermagem. Desempenhei o papel de secretária executiva e presidi várias
comissões de preparo de chapas de candidatos. Desempenhei a função de
tesoureira de cinco ou seis congressos brasileiros de enfermagem. Trabalhei
como Presidente da ABEn, seção de Minas Gerais, ocasião em que elegemos a Circe
presidente da ABEn nacional. Fiquei em Belo Horizonte de 1960 a 64.
4.9. Como vê o desenvolvimento da profissão
O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) foi criado pela ABEn. As enfermeiras
que lutaram na ABEn pela sua criação foram as mesmas que batalharam depois para
que existisse um conselho de enfermagem. E foram essas colegas, ex-presidentes
da ABEn, como Amália, Maria Rosa, Ivete que também dirigiram o COFEN. Havia uma
ligação muito grande entre os dois órgãos de classe (ABEn e COFEN). A ABEn
lutou quase trinta anos para criar o COFEN, depois subsidiou sua instalação até
que ele pudesse seguir sozinho. Depois as seções da ABEn ajudaram a criar os
CORENs, primeiro no Rio de Janeiro e depois em São Paulo. Havia um grande
entrosamento entre as líderes estaduais da ABEn nos seus Estados com os
respectivos CORENs. Essa ligação era tão forte que para se fazer a chapa do
COREN, as seções da ABEn eram consultadas. Era muito clara a distinção entre o
COFEN, criado para ser uma autarquia federal para fiscalização do exercício
profissional de enfermagem e a ABEn, uma entidade cultural e científica da
classe. Infelizmente, esse elo foi rompido pela ganância de poder e disputa de
espaço de uma entidade por outra, criando uma rivalidade desnecessária, pois os
espaços estavam assegurados para cada uma, dada a especificidade de objetivos e
de atuação de cada entidade. Mas, a ABEn, de filiação voluntária, foi perdendo
força econômica na mesma proporção em que o COFEN foi ganhando, por ser de
filiação compulsória e também por ser braço do governo como autarquia federal.
Um grande golpe foi dado pelo COFEN ao solicitar ingresso no ICN, onde a ABEn
já estava por mais de 60 anos consecutivos. Enfermeiros brasileiros já estavam
representados nessa entidade internacional através da ABEn, pagando-se uma cota
muito menor e usufruindo dos mesmos direitos* que sempre teve. Talvez, em
função desse vínculo internacional que criou novas obrigações, paulatinamente,
o COFEN foi avançando seu âmbito de ação, primeiro sobre as especialidades de
enfermagem e agora até a realização de congressos, reproduzindo muitas das
atividades que a ABEn já fazia e continua fazendo nesse campo.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando os objetivos previamente delineados, este estudo possibilitou-nos
identificar os motivos que levaram Irmã Maria Tereza Notarnicola a realizar o
trabalho a que se propôs e o quanto ela se dedicou à causa da enfermagem
brasileira, não medindo esforços ou sacrifícios para isso. Inseriu-se de corpo,
mente e alma para a efetiva valorização e reconhecimento da enfermagem, tanto
no cenário nacional quanto no internacional, baseada nos seus valores sempre
perseguidos de perseverança em sua vocação religiosa, altruísmo total e
tenacidade na busca dos fins profissionais. Apesar da idade, Irmã Tereza
continua perfeitamente lúcida, lembrando-se de fatos com riqueza de detalhes, e
demonstra grande empolgação e vivacidade ao descrever os momentos que viveu na
enfermagem, principalmente na ABEn, à qual se dedicou integralmente e tanto
contribuiu para que a profissão fosse mais respeitada, valorizada e reconhecida
pela sociedade de nosso país.
Eis um exemplo vivo de profissional autêntico que não conheceu limites para sua
autodeterminação, empenho e capacidade de realizar, organizar e gerenciar
recursos humanos, multiplicar recursos materiais e fazer brotar as conquistas
que a enfermagem e os enfermeiros necessitavam. Se cada um de nós realizar uma
parte do que ela fez, sem dúvida a nossa profissão alçará vôos inimagináveis.
Se em 1971, na homenagem da ABEn como Enfermeira do Ano, Clarice Ferrarini
agradecia à Irmã Tereza, pelo muito que ela havia feito, hoje, depois de outros
trinta anos passados, como agradecer de novo? O melhor a fazer é procurar
seguir esse modelo de vida profissional e exemplo de dedicação à classe que ela
nos deu.
Inegavelmente, o trabalho junto à ABEn, ao lado das pioneiras e lideres da
enfermagem brasileira, rendeu-lhe experiência, mas exigiu seu empenho,
determinação e capacidade de gerenciar esses recursos humanos e materiais. É a
própria Irmã Tereza que diz: "E assim, a vida continua cheia de encantos...
Precisamos encarar os desafios e vivê-los a cada momento".