A música como recurso no cuidado à criança hospitalizada: uma intervenção
possível?
REVISÃO
A música como recurso no cuidado à criança hospitalizada: uma intervenção
possível?
Musica as a resource in care for hospitalized children: a possible
intervention?
La musica como recurso en el cuidado al niño hospitalizado: una intervención
possible?
Caroline Cristina Moreira FerreiraI;Patrícia Pereira RemediII; Regina Aparecida
Garcia de LimaIII
IGraduanda da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP, Ribeirão Preto, SP.
Bolsistas de Iniciação Científica, PIBIC/CNPq
IIGraduanda da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP, Ribeirão Preto,
SP. Bolsistas de Iniciação Científica, PIBIC/CNPq
IIIEnfermeira. Professora Associada do Departamento de Enfermagem Materno-
Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP,
Ribeirão Preto, SP. Orientadora do trabalho. limare@eerp.usp.br
1. INTRODUÇÃO
A realidade histórica da medicina mostra que o hospital, apesar do nome, ainda
é um espaço pouco hospitaleiro(1). Nesse contexto, a assistência à criança em
unidades pediátricas ainda segue os padrões da medicina flexneriana, que
considera científico o que pode ser mensurável, objetivo e controlado por meio
de experimentos e relega, por que não dizer refuta, as emoções e a
subjetividade(2).
Autores(1-3) de diversas áreas de conhecimento têm discutido os efeitos dos
processos de hospitalização sobre o desenvolvimento infantil, destacando que
além das mudanças na rotina e nos hábitos de sono, higiene e alimentação, a
criança é submetida a situações sobre as quais não tem muita escolha. Os
autores mencionam, também, a ausência de espaço lúdico no hospital, que seria
bastante terapêutico neste caso. Nesse sentido, argumentam que a arquitetura
hospitalar, com enfermarias coletivas pouco iluminadas; predomínio da cor
branca nas paredes e nas roupas dos profissionais; presença de equipamentos,
como bombas de infusão e monitores barulhentos; procedimentos agressivos e
dolorosos e ainda a utilização de uma linguagem técnica, causam profundo
estranhamento nas crianças, nos adolescentes e seus acompanhantes, normalmente
as mães, que relatam, também, a falta de privacidade.
Durante a hospitalização, a criança se vê afastada de seus objetos de
estimação, do seu ritmo de vida, das pessoas que lhe são importantes e, muitas
vezes, é privada de brincar. Crianças que vivenciam tais experiências podem
apresentar alteração da conduta (agressividade, desejo de fugir e dependência),
alterações psicopatológicas graves (quadro clínico de isolamento afetivo, falta
de receptividade orgânica ao tratamento) e ainda alteração do estado
nutricional(4).
Em crianças pequenas, o sofrimento maior é o causado pela separação da mãe,
fator que também pode acarretar em distúrbios da afetividade, pensamento
abstrato limitado e dificuldades cognitivas. Já as crianças maiores podem
entender que a doença e a hospitalização são um castigo ou uma forma de punição
por algo que tenham feito de errado(5).
Nesta perspectiva, a hospitalização para a criança, já física e emocionalmente
agredida pela enfermidade, representa o afastamento de seu ambiente doméstico,
do seu cotidiano, local em que vinha ocorrendo o desenvolvimento de seu
repertório motor, social, emocional e intelectual(4).
Diante do exposto, percebe-se a necessidade da humanização do atendimento em
pediatria, bem como a implementação de projetos que valorizem o brincar como
recurso de desenvolvimento. Esta atividade pode ser benéfica à vida da criança,
e fundamental para seu crescimento e desenvolvimento harmônico. Quando
transferida para o contexto do hospital, onde a rotina de vida é modificada e
alterada pela doença, o brincar surge como uma possibilidade de organização
dessas atividades, constituindo-se numa via fundamental para a criança
compreender o momento pelo qual está passando(1).
Na atualidade, a temática da humanização dos serviços de saúde vem sendo levada
em conta pelas políticas governamentais, serviços de saúde e academia. Nesse
sentido, o Ministério da Saúde criou o Programa Nacional de Humanização
(PNHAH), sendo a humanização definida como valor na medida que busca resgatar o
respeito à vida humana. O PNHAH prevê a organização dos serviços de saúde
considerando dois ângulos interdependentes: a humanização do atendimento ao
público (cuidar do usuário) e a humanização das condições de trabalho do
profissional de saúde (cuidar do cuidador)(6).
No entanto, observa-se que, na maioria das instituições de saúde, tanto os
profissionais quanto o aparato médico-hospitalar encontram-se preparados e
tecnologicamente atualizados para o tratamento da doença. Existe, enfim, um
alto grau de especialização voltado para o diagnóstico e condutas médicas, e
este modelo permite ao paciente aplicar, aceitar e concordar com o seu
tratamento. Autores(2-5) cujos conceitos são corroborados pelos pesquisadores
deste trabalho advogam a necessidade de se mudar o enfoque do tratamento, ou
seja, centrar o olhar na criança e no adolescente doente e não apenas na
doença. Nessa perspectiva, o brincar, as atividades recreacionais, as
atividades artísticas e o lazer ganham importância.
Instituições de saúde de todo o mundo já reconhecem o valor social e
terapêutico da arte aplicada à medicina, e a tendência de incluí-la entre as
atividades hospitalares é crescente. Muitas formas de expressão artísticas têm
sido desenvolvidas no hospital, desde as mais clássicas, como pintura, teatro,
literatura, música, ao teatro clown, uma das mais atuais.
Neste sentido, inúmeros projetos que incorporam outros referenciais, que não
somente o biomédico, têm sido divulgados nos meios de comunicação, com destaque
para "Doutores da Alegria"; "Biblioteca Viva"; "Uma canção no cuidar"; "Brincar
é coisa séria"; "Companhia do Riso". O objetivo destes projetos é incorporar ao
processo de hospitalização outras intervenções que valorizem o processo de
desenvolvimento infanto-juvenil, dentre as quais as manifestações artísticas
(música, teatro, literatura, teatro clown) são eleitas como recurso de
comunicação.
Em investigação anterior(7), que tinha como objetivo descrever a interação do
clown com crianças e adolescentes hospitalizados, identificou-se a música como
forma peculiar de comunicação, utilizada para dar início à interação.
Como já mencionado, a criança ao ser hospitalizada pode protestar manifestando
medo, apatia ou ainda sentimentos de fuga, culpa e tristeza(1,4). Trabalhos
recentes(8-9) apontam que a música pode reduzir a tensão e a ansiedade
ocasionadas por situações estressantes, como a hospitalização, além de
contribuir para a diminuição da dor e melhorar a qualidade do sono, é,
portanto, um valioso método de distração.
Buscando contribuir com esta discussão, elegeu-se como objetivo do presente
estudo analisar a produção bibliográfica da enfermagem pediátrica quanto à
utilização da música como recurso terapêutico no espaço hospitalar, a fim de
identificar o estado atual do conhecimento desta área nesse campo. Justificamos
a realização da pesquisa pela escassez de trabalhos sobre o tema, na literatura
nacional.
2. METODOLOGIA
Esta investigação caracteriza-se como pesquisa bibliográfica, pois utilizou
como fonte de coleta de dados a bibliografia(10), entendida como o conjunto de
publicações encontrado em periódicos, livros-textos e documentos elaborados por
instituições governamentais e sociedades/associações científicas.
Realizou-se a coleta de dados empíricos nas bases de dados MEDLINE e LILACS e
vias não-sistemáticas, no período de 1994 a 2004. Como critério de inclusão,
elegeram-se publicações na forma de artigos (ensaio, revisão, pesquisa, relatos
de experiências e estudo de caso) independentemente da formação profissional do
autor, desde que apresentassem as palavras-chave: music, pediatric nursing,
nursing, children, adolescent, child e infant. Os artigos selecionados deveriam
estar publicados na íntegra, nas línguas inglesa, portuguesa ou espanhola. Vale
mencionar que alguns desses artigos continham outras palavras-chave,
justificando a presença de outras clientelas.
Realizou-se o processo inicial de avaliação do material bibliográfico mediante
a leitura dos resumos, com a finalidade de selecionar somente os que atendessem
aos objetivos do estudo. Identificaram-se 109 publicações e dentre elas 42
continham os critérios de inclusão. Destas últimas, 9 não estavam disponíveis
no Brasil e outras 3 não foram localizadas em tempo hábil. Portanto, a amostra
foi composta de 30 artigos escolhidos de maneira sistemática, que se somaram a
outros 4 selecionados de maneira não-sistematizada. Deste total (34), 3 estavam
publicados em português e os demais, em inglês.
De posse dos artigos, a etapa seguinte se constituiu de leitura minuciosa de
cada texto, visando ordenar e sumarizar as informações necessárias para o
preenchimento do instrumento de coleta de dados, elaborado para esta
finalidade, do qual constavam: identificação; perfil dos autores;
caracterização do artigo (abordagem metodológica, sujeitos/participantes e
instrumento de coleta de dados); temática central; proposta de intervenção e
implicações para a prática de enfermagem.
Da análise do material empírico, emergiram 3 unidades de significados: o
cenário(local e clientela); as intervenções (tipo e quem as realiza) e as
repercussões (resultados obtidos).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos 34 artigos analisados, 30 foram localizados na base MEDLINE e 4 em lista de
referências bibliográficas de artigos seminais. Quinze artigos faziam parte do
acervo da Biblioteca Central do Campus de Ribeirão Preto da Universidade de São
Paulo; 06 do Serviço de Comutação Bibliográfica da Biblioteca do Campus de
Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo; 11 foram localizados no site da
CAPES e 02 artigos eram de uma biblioteca particular.
Observou-se variação quanto ao ano de publicação, destacando-se com maior
número de publicações 1995, 2002 e 2003, com 5 ao ano. Os países de origem dos
artigos mostraram-se nesta ordem: Estados Unidos da América (25); Reino Unido
(5); China (1) e Brasil (3). Vale ressaltar que grande parte dos artigos foi
escrita por enfermeiras pesquisadoras ou docentes de enfermagem.
Dentre os artigos analisados, encontraram-se 8 ensaios; 6 estudos qualitativos;
10 estudos quantitativos descritivos; 5 revisões bibliográficas e outros 5 se
encaixaram em categorias diversas, dentre elas: relato de experiência,
comentário e carta ao editor. As abordagens metodológicas foram indicadas pelos
próprios autores.
3.1 Os cenários
Com relação ao cenário, observou-se que os artigos analisados foram
desenvolvidos em diferentes locais e com clientela diversa. Como exemplos:
crianças e adolescentes internados em hospitais pediátricos com ferimentos na
medula espinhal(11); crianças submetidas a procedimentos dolorosos(12); com
traumas acidentais (em unidades de urgência-emergência)(13) e traumas músculo-
esqueléticos(14); com câncer, submetidas à punção lombar e em tratamento
quimioterápico(15-17); com problemas de incapacidade severa(18); as que
experienciaram abuso, negligência e privação(19); crianças hospitalizadas sem
distinção de patologia(20) e aquelas com asma em acampamento/camping(21).
Identificaram-se, também, estudos desenvolvidos com recém-nascidos a termo e
pré-termo, internados em unidade de cuidado intensivo neonatal(22, 23).
Os artigos relacionados aos idosos indicaram que estes se encontravam em
asilos, sanatórios ou clínicas de repouso, sofrendo de dor crônica ou demência,
geralmente causada por doença de Parkinson ou Alzheimer(24-29). Encontraram-se,
também, estudos realizados com doentes mentais internados em hospitais
psiquiátricos, os quais apresentavam desordens pós-traumáticas, transtorno
bipolar ou esquizofrenia(30-31).
Os dados mostram que alguns estudos utilizaram a música no cuidado a pacientes
adultos internados em unidade de cuidados intensivos(32), em enfermarias pós-
cirúrgicas ortopédicas(33) e em unidade de cuidado cardiovascular intensivo e
progressivo(34). Um outro artigo(35) relatou a intervenção musical com mulheres
gestantes, parturientes e puérperas. Por fim, encontramos artigos cujos
participantes eram estudantes de graduação, pós-graduação e docentes de
enfermagem, cujos autores(36-37) buscavam avaliar a inclusão da música no
processo de ensino-aprendizado, bem como a acupuntura, fitoterapia e massagem,
como terapias complementares.
3.2 As intervenções
Consideramos intervenção musical aquela em que os enfermeiros utilizam a música
com a finalidade de promover saúde e bem-estar do paciente(38). Identificaram-
se, nos artigos analisados(9,12,13,19,20,22,25,30-32,35,39,41) , que o tipo de
intervenção musical utilizada com mais freqüência por esta categoria
profissional foi a audição musical, ou seja, oferecimento de músicas de acordo
com a preferência do paciente (identidade sonora).
Vale mencionar que musicoterapeutas são profissionais que buscam, através da
terapia com a música, atender às necessidades físicas, sociais e psicológicas
de uma pessoa(15), e o fazem mediante a elaboração de um plano terapêutico do
qual deve constar a avaliação, o desenvolvimento da intervenção, o
monitoramento do progresso e a reformulação da mesma, quando necessário(28).
Portanto, para se estabelecer um plano de cuidados que utilize a música como
forma de terapia, visando atender às necessidades individuais dos pacientes,
deve primeiramente consultar um musicoterapeuta.
A seleção dos instrumentos e meios a serem utilizados nas intervenções musicais
dependerá da habilidade e aptidão do profissional que irá administrá-las, dos
recursos financeiros disponíveis e do local onde será realizada(19). Sendo
assim, os instrumentos musicais podem ser variados como violão, teclado e de
percussão, ou ainda aparelhos musicais, por exemplo, rádio, cd-player ou
diskman.
Para se obter uma intervenção musical eficiente, devem-se considerar alguns
aspectos como: preferência musical, tempo de intervenção, atributos e natureza
da música, desejo do paciente em participar de atividades envolvendo música,
idade, estágio do desenvolvimento cognitivo, efeitos fisiológicos desencadeados
pela música, idioma em que ela se apresenta, bem como acuidade auditiva(32).
Diversos autores referem que considerar a preferência musical do paciente é um
fator importante para a eficácia da terapia(12,19,20,31-33,38), porque é
desagradável e difícil escutar por um determinado período músicas das quais não
se goste ou que tragam tristes recordações.
Deve ser considerado também o tempo da intervenção. Autores recomendam durações
diferentes: 10 min(26); 20 min(9,25); 30 min(27,32,39); 45 min(15) e 1 hora
(31), mas há um estudo(22) que propõe intervenção com tempo variável, de 15 a
60 min, de acordo com o desejo de cada paciente.
Estas variações de tempo devem ocorrer de acordo com o tipo de intervenção
realizada, pois pode-se ouvir simplesmente música ambiente(19,20,22,35) ou até
reunir um grupo de pacientes para discutir os sentimentos evocados ao ouvirem
determinada música(30-31). No entanto, não se deve perder de foco a
individualidade de cada um, pois o tempo ideal para se chegar ao ápice da
intervenção (momento de bem-estar proporcionado pela música) mostra-se
diferente de pessoa para pessoa. Ao se chegar a esse ápice, que pode ser
observado pelos comportamentos do paciente, a intervenção deve se encerrar para
que aquela sensação agradável perdure por mais tempo e para que o paciente
sinta o desejo de repeti-la em outras oportunidades.
Com relação aos atributos e à natureza da música, como ritmo, melodia,
harmonia, tom e volume, estes devem ser considerados tendo-se em conta os
efeitos que se deseja obter com a intervenção musical(9,13,19,20,32,33).
Músicas com ritmo, melodia e harmonia mais lentas, calmas e com tons mais
graves são as mais indicadas quando se deseja proporcionar sensações de
tranqüilidade e diminuição do estado de alerta, pois estes atributos podem
reduzir a freqüência cardíaca e respiratória, a ansiedade e a agitação do
paciente e, ainda, promover relaxamento(9,13,19,20,33,34). Deve-se estar atento
para o volume do aparelho de som, pois altura superior a 130 decibéis pode
provocar dores reais(19,20). Logo, se o que se deseja é promover tranqüilidade,
a música deve ser lenta, com tons graves; já para ampliar o estado de alerta,
ao contrário, as músicas devem ser mais agitadas e rápidas, com tons mais
agudos(20).
Um outro fator determinante a ser considerado é o desejo de o paciente
participar de atividades que envolvam a música(20), pois eficácia da
intervenção também dependerá desta variável.
A idade e o estágio de desenvolvimento cognitivo também são aspectos
relevantes, citados por alguns autores(12,13,20,22), para a adequação musical,
pois é com base nestes fatores que o profissional elaborará intervenção,
adotando um estilo musical mais apropriado ao gosto de cada um.
Os efeitos fisiológicos desencadeados pela música, conforme citam os autores
(13,20), devem ser considerados já que cada indivíduo responde à intervenção de
maneira peculiar.
Um último aspecto a ser analisado, diz respeito ao conteúdo e idioma da letra
da música. No caso das crianças, especificamente, o idioma nativo para que
possam assimilar a mensagem transmitida(13). A satisfação é maior quando ouvem
uma música na linguagem de seu país. Os benefícios obtidos ao apresentar à
criança uma música que ela já conheça e goste também foram evidenciados na
literatura analisada(12).
Com relação aos pacientes com audição prejudicada, estes devem, inicialmente,
ser identificados(32), para se elaborar uma intervenção específica em
laboratórios de áudio adequados para tal finalidade.
Os profissionais de saúde, entre eles enfermeiros e assistentes sociais, para
realização da intervenção musical utilizam-se de instrumentos musicais, do
canto e de brinquedos e móbiles musicais(14,16,19,25,26,29-35). Quanto às
composições musicais, estas requerem o trabalho de um profissional
especializado(19). A audição musical pode ser realizada em grupo de pacientes
ou individualmente; quando feita em grupo, podem-se promover discussões sobre o
que os participantes sentiram ao ouvir determinada música e o que aquela
intervenção representou para eles(30,31).
O uso da música associada à dança, trabalhos corporais e teatro é mais restrito
aos terapeutas ocupacionais, que a utilizam com a finalidade de proporcionar
autoconhecimento, reflexão e reabilitação para o convívio social(40).
3.3 As Repercussões
Alguns autores(15,20,24,31,41) relatam que a intervenção musical traz diversos
benefícios ao ser humano, tanto fisiológicos quanto psicológicos. Assim desde a
Antiguidade, personagens históricos como Pitágoras já observavam os benefícios
da música na saúde. Quanto a Alexandre, o Grande, este utilizava a música para
convocar e incentivar seus soldados à guerra e promover relaxamento após o
combate. Também os egípcios e outras civilizações antigas usavam a música em
seus rituais por acreditarem, por exemplo, que ela poderia interferir na
fertilidade das mulheres(20).
Na atualidade, alguns estudos vêm sendo desenvolvidos(9,20,32,41) com a
finalidade de compreender como a música interfere nos mecanismos fisiológicos,
enquanto outros buscam aplica-la na atividade de vida diária dos pacientes e no
ambiente hospitalar, visando beneficia-los. Nesse contexto, são visíveis os
benefícios terapêuticos da música tanto para a criança quanto para o adulto.
Através dela pode-se alcançar diferentes finalidades, como a de "aguçadora" de
funções (função motora, principalmente)(24). Para alguns autores(20,30), a
intervenção musical proporciona um cuidado mais humanizado ao paciente, além de
ser um recurso facilitador da comunicação(19,24,30).
As artes em geral, incluindo a música, facilitam o contato com a realidade
principalmente após acontecimentos traumáticos, fazendo emergir atos criativos,
expressivos, enfim, possibilitam outras subjetividades(40).
Dentre os resultados positivos obtidos com a intervenção musical, os autores
apontam os seguintes: redução e controle da dor e de comportamentos causados
por ela(12,14,15,25,35,38,41,42); diminuição da agitação e de comportamentos
agressivos(26,31); desenvolvimento de novas estratégias de enfrentamento(20-
21); redução da ansiedade(9,12,20,31,32,42); relaxamento(20,24,31,42); redução
de náuseas e vômitos(9,15,17); melhora nos parâmetros vitais (PA, FC, FR e
saturação)(9,15,34,35); diminuição do medo e sofrimento(13); melhora nas
habilidades cognitivas, sociais e físicas(28,29); indução do sono(9,20,24);
modulação do humor(24,31,35);expressão de sentimentos(20,30); distração/
divertimento(16,20,33) ; socialização(24,30-31,42); reabilitação(40) e
satisfação do cliente e familiares com o cuidado prestado(14).
Estudo quantitativo descritivo realizado por um professor de musicoterapia(22),
com grupo controle e grupo experimental, contendo em cada um dos grupos 20
bebês (10 meninos e 10 meninas) internados em unidade de terapia intensiva
neonatal, mostrou que os bebês submetidos à intervenção musical, obtiveram alta
precoce quando comparados aos do grupo controle, ou seja, a alta ocorreu em
média 11 dias antes do seu par equivalente no grupo controle.
A redução de quadros álgicos com o uso da música foi relatada por diversos
estudos(12,14-15,25,35,38,41-42), que enfatizaram que tal fato ocorreu devido
ao desencadeamento de respostas hormonais, como o aumento de endorfina(9), por
exemplo, que é um dos hormônios responsáveis pelo controle e redução da dor. Os
autores observaram esta mudança nos níveis hormonais após realizarem sessões
diárias com música.
A esse respeito, existe o relato de uma experiência(12) com a utilização da
terapia musical com crianças, durante procedimentos invasivos, numa unidade de
emergência pediátrica. O autor observou diferentes comportamentos frente à dor,
durante os procedimentos, nas crianças que optaram por ouvir música, e que
estas mostraram-se muito mais relaxadas e menos ansiosas quando comparadas às
que não ouviram música.
Num outro estudo prospectivo randomizado e quase-experimental, realizado em
unidade cardiológica intensiva (34), discutiu-se a relação entre os níveis de
ansiedade e os parâmetros vitais (PA e pulso). Nos pacientes adultos (n=65)
verificaram-se estes parâmetros imediatamente antes do início da intervenção
musical e em intervalos de 10 min após o início da mesma. O que se pôde
observar foi uma melhora significativa da PA sistólica e diastólica, assim como
da freqüência cardíaca e, segundo os autores, esses resultados indicam uma
resposta fisiológica generalizada de relaxamento.
Também a diminuição dos episódios de náuseas e vômitos em crianças em
tratamento quimioterápico foi um dos temas analisados(15,17), tendo os artigos
indicado a música como uma medida não-farmacológica eficaz para o controle das
náuseas e vômitos.Outras contribuições(15) da música, citadas para a redução do
sofrimento e a reabilitação, foram as seguintes: diminuição da dor durante
aspiração de medula óssea, aumento da resposta imunológica, ajuda em casos de
angústia relacionados ao ambiente e ao tratamento, indução de sono, relaxamento
e diminuição da ansiedade.
No nível pessoal, a música também traz contribuições favoráveis ao indivíduo,
ao ajudá-lo a desenvolver novas estratégias de enfrentamento. Dentre os estudos
(19,21,43) sobre esta temática, dois merecem destaque. No primeiro(19), há
evidências de que a música facilitou a comunicação com crianças que sofreram
abuso, negligência e privação, permitindo que elas se expressassem, quer seja
escolhendo uma música para ouvir e/ou tocar/cantar, quer seja fazendo uma
composição musical. Segundo os autores, essas crianças conseguiram desenvolver
estratégias de enfrentamento para seu problema, utilizando a música para
manifestação dos sentimentos. Já no segundo estudo(21), discutiram-se episódios
de crises asmáticas em crianças que participavam de um acampamento, e que
utilizaram como estratégia de maior eficácia ouvir música, atividade que as
levou ao relaxamento e à redução de ansiedade.
A intervenção musical durante a assistência à criança hospitalizada possibilita
que esta verbalize seus estresses e ansiedades e a partir daí desenvolva
estratégias de enfrentamento para as suas dificuldades. Estudo(20) realizado
por enfermeiras americanas evidenciou que a música auxilia no processo de
enfrentamento da hospitalização, da doença e de eventos traumáticos, servindo
de estímulo para que as crianças componham, contem histórias e expressem seus
sentimentos. Segundo os autores, ao utilizar a música, a enfermeira pediátrica
ajuda o paciente a relaxar, incentiva-o a aderir à terapêutica, além de
estimular a comunicação de seus medos e frustrações. Ao ampliar a assistência
prestada com o emprego da música, a enfermeira pediátrica proporciona bem-estar
e maior satisfação ao cliente e familiares.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados do presente estudo apontam que a intervenção musical traz
benefícios tanto fisiológicos quanto psicológicos para indivíduos em qualquer
faixa etária e pode se constituir em um recurso eficaz para qualificar o
cuidado à criança hospitalizada.
Constatou-se, ainda, que a música, uma intervenção de baixo custo, não-
farmacológica e não-invasiva, pode ser empregada no espaço hospitalar visando
promover os processos de desenvolvimento e a saúde da criança, da família e dos
trabalhadores.
Na literatura analisada observa-se que a enfermeira pode ser uma facilitadora
do processo, cuidando da implantação da intervenção musical nos serviços de
saúde e da defesa de seu uso, participando não só como executora do projeto,
mas também da avaliação de sua eficácia. O profissional que deseja realizar tal
intervenção deve buscar conhecimentos específicos para saber como atuar e o que
desenvolver.
Por outro lado, nota-se que os currículos dos cursos da área de saúde pouco têm
valorizado aspectos que ampliem o processo diagnóstico-terapêutico para além da
área biológica. Daí a necessidade de se elaborar um currículo ampliado no qual
se somem aos atributos técnicos outros que valorizem a subjetividade, a
experiência, a estética, a criatividade e as artes.
Vale ressaltar a necessidade de se desenvolverem pesquisas nacionais, tanto com
abordagens qualitativas quanto quantitativas, que demonstrem, de forma
sistematizada, os benefícios que a intervenção musical proporciona ao paciente/
cliente, família e equipe de saúde.